Literatura infantil de autoria indígena

673 visualizações

Publicada em

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
673
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
9
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Literatura infantil de autoria indígena

  1. 1. Currículo sem Fronteiras, v.12, n.1, pp. 36-52, Jan/Abr 2012 LITERATURA INFANTIL DE AUTORIA INDÍGENA: diálogos, mesclas, deslocamentos Iara Tatiana Bonin Universidade Luterana do Brasil – ULBRA Resumo Considerando a emergência da questão das diferenças étnico-raciais no espaço acadêmico e em diversificadas produções culturais na atualidade e a relevância de certas lutas em torno das representações, especialmente daquelas empreendidas por sujeitos posicionados como diferentes, discute-se, no presente artigo, as representações da diferença indígena em obras de literatura infantil contemporânea. Realiza-se uma análise cultural em 15 livros escritos por autores indígenas, buscando mapear as formas como tais produções representam o cotidiano indígena e as estratégias utilizadas para dar a conhecer uma realidade diversa daquela vivida pelos pequenos leitores. Palavras-chave: Literatura infantil, povos indígenas, representações. Abstract Thinking of the emerging question of ethnic and racial differences in the academic space, different contemporary cultural productions and the relevance of particular fights about representations, especially those that subjects who were positioned as different have, we want to discuss here representations of the Indigenous difference in contemporary children’s literature. We conduct a cultural analysis of 15 books Indigenous people wrote, investigating how these productions represent the Indigenous daily life and strategies used to know a reality that is different from young readers’. Keywords: Children’s literature, Indigenous people, representationsISSN 1645-1384 (online) www.curriculosemfronteiras.org 36
  2. 2. Literatura infantil de autoria indígena São cada vez mais expressivas, nos dias atuais, as discussões sobre a diversidade, comperspectivas que vão desde a celebração de um pluralismo visto como natural ao social e aohumano – e que muitas vezes se sintetiza na expressão atenção à diversidade – até a críticaradical às formas como se marcam e se classificam os sujeitos em categorias sociaisordenadas de modo hierárquico. Por um lado, e especialmente quando matizada por um viés celebratório, a abordagemdas diferenças acaba por ressaltar, como tendência geral, o exotismo de certas condutas, oua riqueza da diversidade e daquilo que se poderia destacar como “contribuições” dos gruposdiferentes para a constituição de uma suposta cultura nacional unificada. E, nesta direção,como não pensar que as diferenças também são capturadas, desde uma racionalidadeneoliberal, para diversificar nichos de consumo e para agregar valor a um produto, noespetáculo contemporâneo da vida para consumo? Por outro lado, assumindo-se uma perspectiva pós-estruturalista e entendendo alinguagem como constituidora daquilo que nela se expressa, a questão das diferençassuscita uma problematização das formas como se ordenam e se classificam os grupossociais e os sujeitos, definindo alguns como os diferentes, em relação a outros que seriamos iguais. Assumindo-se esta perspectiva, já não se pode pensar que a diferença diz respeitoa atributos essenciais, fixos, estáveis, desde sempre dados. Identidades e diferenças sãocriaturas da linguagem e se estabelecem em processos culturais atravessados por relaçõesde poder. Fundamentando tal argumentação particularmente no pensamento de Hall (1997)e Woodward (2000), entende-se que os significados atribuídos às coisas vão, a um sótempo, as posicionando e hierarquizando em um sistema classificatório, no qual adiferenciação é, antes de tudo, uma engrenagem pela qual se definem posições de sujeito.As fronteiras entre identidades e diferenças são, então, constitutivas e necessárias aqualquer cultura. Contudo, ao marcar a diferença, o está em jogo não é somente umaoperação linguística, como também uma disputa por recursos, por espaços, porpossibilidades de acesso a bens simbólicos e materiais. As diferenças são vistas, nesta perspectiva, como “marcas” culturais, e “sua definição –discursiva e linguística – está sujeita a vetores de força, a relações de poder. Elas não sãosimplesmente definidas; elas são impostas. Elas não convivem harmoniosamente, lado alado, em um campo sem hierarquias; elas são disputadas” (SILVA, 2000, p. 81). Partindodesta premissa, pode-se dizer que as diferenças são imputadas a alguns grupos e a algunssujeitos num dado contexto histórico e cultural. E vale lembrar também que a marcas dadiferença “são, também, impressões que, ao informarem sobre como o outro nos vê,imprimem em nós sentimentos que nos constituem como um sujeito marcado pelo outro e,por isso, diferente em relação ao outro”, conforme analisam Lopes e Veiga-Neto (2004). Assim, a um só passo, se estabelece a diferença – e as supostas carências, incoerências,deficiências dos sujeitos assim posicionados –, e se reafirma a completude, coerência, aeficiência da identidade, num processo que é, sempre, relacional. De um modo ou de outro,as diferenças sempre exercem algum fascínio e também algum temor pois, tal comoargumenta Hall (1997), embora imprescindíveis para a significação, fazem pensar naarbitrariedade e na provisoriedade de qualquer sistema de classificação. Considerando a relevância desta temática das diferenças na atualidade e a visibilidade 37
  3. 3. IARA TATIANA BONINque adquirem certas lutas em torno das representações, especialmente daquelasempreendidas por sujeitos posicionados como diferentes, discute-se, no presente artigo, asrepresentações da diferença indígena em obras de literatura infantil contemporânea. Paraisso, foram selecionados 15 livros escritos por autores indígenas, publicados a partir dosanos 2000. Partindo-se do entendimento que tais livros possivelmente sejam endereçados acrianças leitoras da sociedade majoritária – e não propriamente às crianças das aldeias –parece relevante investigar como estes autores representam, em seus textos, a vida dospovos indígenas. Tomando a literatura indígena como parte de uma políticarepresentacional, interessa analisar também quais significados, constantes em variadasproduções culturais, são referendados e quais são replicados nas obras de autoria indígena,e a partir de quais estratégias estes autores dão a conhecer uma realidade diversa daquelavivida pelos pequenos leitores.Breves notas sobre a literatura infantil e sobre as formas de representar a vida indígena nestas produções culturais De acordo com Colomer (2003), a produção de obras para crianças teve início noséculo XVIII, na Europa, e gradativamente foi se expandindo. A literatura, adjetivada comoinfantil, guarda estreita relação com o entendimento do que sejam a infância, tendoinclusive surgido em articulação com a própria “invenção” desse tempo da vida (a infância,tal como a concebemos, é resultado de variados processos de separação e de classificaçãoempreendidos na cultura ocidental a partir do século XVII). Embora em alguns paíseseuropeus a produção de livros para o este público em particular seja ainda consideradamarginal, as obras para crianças têm hoje um largo alcance e não podem ser ignoradas,especialmente quando se leva em conta o caráter pedagógico da prática da leitura e suarelativa importância na atualidade. Dado que as crianças têm sido entendidas como sujeitos que devem serpreferencialmente educados na escola, a literatura também tem sido, de diferentes formas,integrada às práticas pedagógicas escolares, vinculando-se a certos ideários que marcaramcada tempo histórico e, portanto, apresentando distintas finalidades: moralizar, estabelecercerto sentido de patriotismo, ensinar sobre procedimentos e condutas desejáveis;complementar aprendizagens; divulgar informações de uma forma leve e prazerosa;desenvolver a criatividade; estimular a imaginação; cultivar o gosto pela leitura, entreoutras dimensões (Silveira; Bonin, 2011). Especialmente nas duas últimas décadas, observa-se uma profusão de títulos deliteratura infantil que colocam em cena um discurso em favor das diferenças. Tal tendênciaé impulsionada, em parte, pela expansão do mercado editorial em direção a rentáveis nichosespecíficos de consumo, inclusive no âmbito escolar (a esse respeito, pode-se dizer que aincorporação do tema transversal Diversidade Cultural nos Parâmetros CurricularesNacionais, por exemplo, foi promissor para um mercado ávido por novas possibilidades deconsumo). Contudo, certas nuances do discurso diferencialista também entram em cenadevido à ação política de uma gama de novos sujeitos – autores e autoras vinculados a38
  4. 4. Literatura infantil de autoria indígenamovimentos sociais que visam problematizar certas representações das diferençasgeracionais, de gênero, de constituição corporal, de raça, de etnia, entre outras e, nesteinterim, adquirem visibilidade outros repertórios, outras tramas, outros personagens, emnarrativas contemporâneas marcadas pela multiplicidade do olhar de quem as escreve e dequem as lê. A emergência das lutas indígenas e indigenistas, por exemplo, especialmente apartir da década de 1970, coloca a necessidade de se considerar a existência atual dos maisde 240 povos que habitam o Brasil, falantes de cerca de 180 línguas diferentes e que vivemem terras tradicionais, mas também em periferias urbanas em quase todos os estadosbrasileiros (à exceção do Piauí). Em relação à literatura, vale ressaltar que a inserção de personagens indígenas não éuma novidade. O surgimento de produções nacionais, nos primeiros anos da república e soba tendência estética do parnasianismo e do romantismo marca também, de certo modo, aentrada dos índios como protagonistas nas cenas descritas – e não mais simplesmente comoos vilões das sagas coloniais, tal como eles são referidos nos escritos seiscentistas esetecentistas (Bosi, 1992, p. 178). Como não lembrar dos clássicos indianistas de José deAlencar, Iracema e O Guarani (da segunda metade do século XIX), que figuram ainda hojecomo leituras escolares obrigatórias? Como não lembrar, também, da obra As aventuras deHans Staden, escrita por Monteiro Lobato em 1927 especificamente para um públicoinfantil, ou do livro As aventuras de Tibicuera, assinado por Érico Veríssimo e publicadoem 1937? Como esquecer os cativantes personagens das histórias em quadrinhos – Tininim,de Ziraldo e Papa-Capim, de Maurício de Souza, criados nos anos 1960 – que temacompanhado gerações de pequenos leitores? Mesmo levando em conta estas e outras produções, é necessário reconhecer que, nasúltimas décadas, cresce a olhos vistos o número de livros de literatura – especialmentevoltados para um público infantil – que tematiza a vida indígena. As narrativas atuais vãoconstituindo cenários e personagens variados que ora referendam, ora contestam certasimagens que estão naturalizadas em nossos repertórios representacionais. E, como novidadeneste campo de produções, surgem os livros de autoria indígena. Tratando-se de obrasendereçadas a crianças, o autor indígena de maior projeção no Brasil, hoje, é DanielMunduruku, que lançou seu primeiro livro (Histórias de Índio) pela Companhia dasLetrinhas, em 1996. Considerando esse novo veio de produções literárias, neste artigo se procede à análisede 15 obras, escritas por oito autores indígenas. De autoria de Daniel Munduruku foramselecionadas cinco obras: Catando Piolhos, contando histórias (ilustrada por Maté);Caçadores de aventuras (ilustrada por Inez Martins); O diário de Kaxi: um curumimdescobre o Brasil (ilustrada por crianças Munduruku); Parece que foi ontem e, ainda, Acaveira-Rolante, a Mulher-Lesma e outras histórias de assustar (ambas ilustradas porMaurício Negro). De autoria de Yaguarê Yamã analisam-se três livros: O totem do rioKãwéra e outros contos fantásticos (ilustrado pelo próprio autor); As pegadas do Kurupyra(ilustrado por Uziel Guaynê) e Puratig: o remo sagrado (ilustrado por Keila da Glória,crianças Saterê Mawé e pelo próprio autor). De Olívio Jekupé são analisadas as obras Verá:o contador de histórias (ilustrações de crianças Guarani) e A ajuda do saci Kamba’i(ilustrada por Rodrigo Abrahim). Examinam-se também as obras O caso da cobra que foi 39
  5. 5. IARA TATIANA BONINpega pelos pés, de autoria de Wasiry Guará, (ilustrada porAna Luiza Mello); a obra Meulugar no mundo, escrita por Sulami Katy (ilustrada por Fernando Vilela); o livro Txopai eItôhã, escrita e eilustrada por Kanátyo Pataxó; a obra A onça protetora : Borum HuáKuparak, de autoria de Shirley Djukurnã Krenak (ilustrada por Geovani Krenak) e, por fim,o livro Jóty: o tamanduá, de Vãngry Kaingáng (com ilustrações de Maurício Negro).Textos de autoria indígena – diálogos, mesclas, deslocamentos Discutindo as produções indígenas, D’Angelis (2006) argumenta que tais escritostrazem para a cena literária seres “da floresta”, com poderes excepcionais, sendo os maisconhecidos: o saci, o caapora, o curupira, a boitatá, a boiúna e o boto. Embora, sob a óticaocidental, tais histórias sejam classificadas como contos folclóricos, lendas e/ou comoliteratura fantástica, nas culturas indígenas elas possuem uma função social importante,vinculada à regulação cultural. Tais histórias explicam a origem das coisas, ou funcionamcomo narrativas exemplares, contadas para valorizar certas atitudes desejáveis aosindígenas. Em algumas obras examinadas, observa-se que os autores procuram afirmar essadistinção entre as narrativas tradicionais e as histórias de ficção. Ao final da obra Aspedagadas do Kurupyra, por exemplo, o autor, Yaguarê Yamã, apresenta um paratextointitulado “Ficção?” e, nele, o autor destaca: Kurupyra, que em língua geral significa “pelede sapo”, é uma entidade da floresta. Segundo a religião tradicional dos Maraguá, é oprotetor dos animais de caça” (p. 37). Outro exemplo pode ser encontrado na obra Verá: ocontador de histórias, de Olívio Jekupé. Trata-se de uma coletânea de pequenas histórias e,em uma delas, intitulada Ba’i, o protetor das aves, o narrador afirma: “Ba’i é o pássaroprotetor de todas as aves. Ele fica muito bravo quando as pessoas matam-nas só debrincadeira. Os Guarani matam só para comer, por isso Ba’i não fica bravo com eles...” (p.33). A narrativa permite afirmar que Ba’i seria visto como um ente que atua sobre o mundoe sobre os seres humanos no plano real e não num suposto mundo da imaginação. Também nesta direção, destacam-se os entrelaçamentos estabelecidos em algumasnarrativas indígenas entre as dimensões natural e sobrenatural que, desde uma perspectivaocidental, não seriam compatíveis. Na obra Kurupyra, de autoria de Yaguarê Yamá, oprotagonista é um menino chamado Tuim, que saiu da aldeia com sua família e foi morar àbeira de um igarapé, distante de todos os seus amigos. Na nova morada, ele passa aexplorar a floresta, tentando aprender a caçar sozinho, prática que em geral se aprenderiaem grupos de meninos, conforme explica o narrador. Em suas andanças Tuim acabaencontrando rastros estranhos e, ao seguir as pegadas, se depara com um Kurupyra menino,que também vive solitário, Assim, os dois se tornam amigos, passando a explorar áreascada vez mais longínquas da floresta. Já na obra Ajuda do saci: Kamba’í, escrita por Olívio Jekupé, a narrativa principalinicia com a apresentação do protagonista “Verá era um indiozinho de 7 anos que sonhavaem estudar na cidade e ter também o conhecimento dos juruá” (p. 7). A história prossegue,informando que, diante da insistência de Verá, o pai o leva para a cidade e deixa o menino40
  6. 6. Literatura infantil de autoria indígenaaos cuidados de um casal de amigos. Verá é matriculado em uma escola, frequenta as aulas,produz certo estranhamento em colegas e professores por seus costumes e seu visual,surpreende com as histórias que conta sobre a origem das coisas, que aprendera com asnarrativas de seu povo Guarani e, aos poucos, vai se adaptando ao novo lugar. O nónarrativo se estabelece quando o menino é atropelado em uma avenida da cidade e, depoisde hospitalizado por longo tempo, volta para a aldeia, porém, agora, paraplégico. Nodesfecho, o menino pede ao pai vá à floresta e peça ajuda a Kamba’í, porque não quer viverassim (sem poder se movimentar). Naquela noite Karaí, o pai do menino, sai pela matafumando seu petyguá (um cachimbo ritual) e anda horas e horas gritando o nome deKamba’i. À certa altura da narrativa, descreve-se o encontro de Karaí e Kamba’i, o diálogotravado e, mais adiante, a conversa de Kamba’i com o menino doente, na qual o espíritoprotetor da floresta entoa um canto e informa que este não estaria mais doente, devendoapenas vencer o medo de voltar a andar. Na sequencia, o menino tenta acompanhar osmovimentos de Kamba’i e sai caminhando pela casa, deixando seus parentes muito felizes. Pode-se observar como, nas duas histórias destacadas, não há uma distinção rígidaentre os seres do suposto mundo natural e sobrenatural, de modo que os personagens – osdois meninos, os pais, mães, Kurupyra e Kamba’i (os entes protetores dos animais e dafloresta nestas duas narrativas) vão sendo inseridos na trama e interagem em um mesmoplano, sem artifícios comuns aos contos fantásticos – como, por exemplo, a alusão a umsonho. Um segundo aspecto que se sobressai nas produções indígenas é a busca por contestarcerta representação genérica de índios – ou seja, as imagens homogêneas e estereotipadascom as quais se apresentam os indígenas em diferentes contextos e em variados tipos deprodução cultural. O conceito de estereótipo, aqui acionado, liga-se à simplificação de umfato ou de uma figura. Mas não se trata de falseamento ou de representação equivocada dascoisas uma vez, tal como explica Bhabha (2005, p. 117) “o estereótipo não é umasimplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade. É umasimplificação porque é uma forma presa, fixa de representação”. Em outras palavras, aoutilizar estereótipos, o que fazemos é tentar manter um sentido estável para ser facilmenteapreendido. Assim, os estereótipos funcionam como um dispositivo de economia semiótica, onde a complexidade do outro é reduzida a um conjunto mínimo de signos: apenas o mínimo necessário para lidar com a presença do outro sem ter que se envolver com o custoso e doloroso processo de lidar com as nuances, as sutilezas e profundidades da alteridade (SILVA, 1999, p. 51). Por essa razão, argumenta Hall (1997, p. 258), “o estereótipo reduz, essencializa,naturaliza e estabelece a diferença”. Talvez essa seja a principal questão a ser pontuada – aonaturalizarmos as características de um sujeito em geral somos impelidos a atribuir estasmesmas características a todos os que identificamos como seus pares – a expressãocoloquial viu um índio, viu todos, se aplica muito bem a esta simplificação. O usoestereótipo impede que sejamos sensíveis ao movimento e ao dinamismo das culturas, de 41
  7. 7. IARA TATIANA BONINum modo geral, e das culturas indígenas, em particular. Pensando esta questão relacionada à caracterização dos corpos indígenas, Bonin (2008,p. 122) afirma: Narrados através de estereótipos, os povos indígenas adquirem, na maioria das produções escolares, feições genéricas, fixas, homogêneas, sendo esse um efeito de relações de poder. Nesse sentido, é importante indagar sobre as representações que circulam mais amplamente e que constituem nossas maneiras de entender as culturas indígenas. Contrapondo-se a uma noção genérica de índio, as obras de autoria indígena investemem uma caracterização mais específica e contextual das narrativas. Nos paratextos e, porvezes, nos textos principais, são trazidas informações relativas ao povo indígena, incluindo-se, em alguns casos, sua localização geográfica expressa por recursos visuais, tais comoinfográficos, mapas, além dos glossários que apresentam termos específicos da língua dopovo ao qual se vincula a história narrada. Vale ressaltar que, além da referência feita aonome do povo indígena, em 14 das 15 obras analisadas neste artigo apresentam-seinformações (com maior ou menor volume de dados) a cultura indígena. Destacam-sealguns exemplos. Na obra A Caveira-Rolante, a Mulher-Lesma e outras histórias indígenas de assustar,Daniel Mulduruku reúne histórias de diferentes povos indígenas. Para marcar o vínculo danarrativa com um povo específico, ele inicia cada uma delas com afirmações tais como:“Contam os Tukano... (p. 12); O povo Makurap, de Rondônia conta que... (p. 28); Contamos velhos Tembé... (p. 35); Contam os velhos do povo Karajá... (p. 40). Ao final da obra, ospovos indígenas referidos nos contos são apresentados, destacando-se aspectosconcernentes à organização social, língua, população, localização geográfica das aldeias,bem como alguns dados históricos sobre as formas de contato daquele povo com apopulação circunvizinha. A obra apresenta, ainda, uma relação de sites nos quais o leitorpoderá encontrar outras informações sobre os povos indígenas. No livro Meu lugar no mundo, de Sulami Katy, destacam-se, além dos dados sobre opovo Potiguara, dois outros paratextos – um deles escrito por Daniel Munduruku, queinforma sobre a situação indígena no século XXI e coloca em destaque alguns aspectos daidentidade indígena. Comenta o autor: Em um mundo globalizado, qual o futuro da cultura indígena? Muitos acreditam que os índios devem permanecer do mesmo jeito que vivem há milhares de anos. Quem pensa assim, acha que as culturas devem preservar seu estado puro. No caso dos indígenas, eles perderiam se deixassem seus costumes e tradições e se adaptassem à sociedade civilizada. Existem outras pessoas que, ao contrário, defendem que os índios precisam aprender a manipular os mecanismos da cultura ocidental para poderem aproveitar os benefícios do progresso. Desta maneira, poderiam fazer parte do mercado de trabalho e ajudar o desenvolvimento econômico do Brasil. Entre estas opiniões tão díspares há um terceiro caminho que aponta para uma integração responsável. De acordo com42
  8. 8. Literatura infantil de autoria indígena essa ideia, os índios poderiam dar uma grande contribuição ao Brasil sem precisar abandonar os conhecimentos tradicionais (p. 60). Embora longo, esse excerto traz algumas pistas do modo como, através de seusescritos, alguns autores indígenas buscam contestar representações sobre os índios que seestabelecem em diferentes âmbitos culturais, incluindo a academia. Eles afirmam, emdiferentes momentos, a relevância de se escutar a voz indígena, destacam o valor de suastradições, a atualidade de seus saberes apostando, possivelmente, numa outra sensibilidadea ser desenvolvida nas gerações de pequenos leitores, para quem as obras de literaturainfantil são endereçadas. E as formas de estabelecer a diferença indígena (aquilo quedistinguiria cada povo e que os diferenciaria da sociedade majoritária) também sãovariáveis. Uma das marcas mais evidentes parece ser o uso da língua indígena – seja nanomeação de objetos, lugares, personagens utilizando-se termos da língua do povo emquestão, seja produzindo textos bilíngues – a exemplo das obras Parece que foi ontem, deDaniel Munduruku, e Ajuda do Saci – Kamba’i. de Olívio Jekupé (e, nestas obras, parecehaver um duplo endereçamento: as crianças leitoras indígenas e as crianças leitoras nãoindígenas). Embora estes autores marquem as distintas identidades étnicas – nomeando cada povoe descrevendo aspectos de suas tradições etc. – também é comum a utilização de metáforasque expressam um senso de pertença à determinada coletividade. Expressões como todosfazemos parte de uma grande teia; nós, os povos indígenas; todos os povos são diferentes,mas formamos um povo só exemplificam o modo como se reafirma uma coletividademanifestada, em geral, no uso da expressão povos indígenas. Tem-se, assim, a afirmação deuma comunidade, em sentido amplo, que se assemelha à plasticidade que as identidadescomunitárias assumem no mundo ocidental contemporâneo. Tratando-se ainda dos deslocamentos produzidos na literatura indígena, relativamente aum conjunto mais amplo de representações sobre a vida indígena, observa-se que aafirmação lugar de índio é na floresta é também problematizada de muitas formas nasnarrativas que compõem este estudo. A apresentação de histórias que se desenrolam emaldeias urbanas, por exemplo, colabora para relativizar a noção de que a vida indígena sematerializa exclusivamente em aldeias, no meio da floresta e em contato íntimo com anatureza. Neste sentido, serve de exemplo o paratexto de apresentação da obra Verá, ocontador de histórias, de autoria de Olívio Jekupé: Talvez muita gente não acredite, mas na capital do estado de São Paulo, em pleno século XXI, existem três aldeias indígenas: a aldeia Jaragua, cujo cacique é dona Jandira, quem sabe a única Guarani a exercer essa função em todo o Brasil; a Morro da Saudade, do cacique Timóteo Potyguá; e a do Krucutu, do cacique Marcos Tupã (p. 6). Já nas obras Meu lugar no mundo, de Sulami Katy, O diário de Kaxi: um curumimdescobre o Brasil, de Daniel Munduruku, A ajuda do saci – Kamba’i, de Olívio Jekupé,apresentam-se protagonistas que deixam a aldeia e passam a viver no mundo urbano –integrando-se à escola, viajando para receber tratamento de saúde, frequentando espaços de 43
  9. 9. IARA TATIANA BONINcomercialização de produtos e artesanatos etc. Os enredos destas narrativas são profícuosno sentido de mostrar as mesclas e as negociações feitas quando os personagens rompemfronteiras (geográficas, culturais, linguísticas e simbólicas). Em Ajuda do Saci – Kamba’i, o protagonista é Verá – um menino que sonhava emestudar na cidade para conhecer o mundo dos Juruá (homens brancos). Nas primeiraspáginas o menino é descrito num cotidiano de aldeia. Quando Verá é levado para a cidade ematriculado na escola, as ilustrações mantém os traços físicos indígenas e o colar desementes e penas no pescoço, porém o personagem está vestido como os demais meninos.Assim, a narrativa vai alternando cenários (Verá na cidade; de volta à aldeia, no hospital, deférias com o seu povo, na sala de aula) e, neles, vão sendo mesclados elementos e artefatosdas duas diferentes culturas. Em O Diário de Kaxi o texto verbal e as ilustrações(produzidas por crianças Munduruku da aldeia Katõ) exibem um modo particular dedescrever o espaço urbano: prédios nomeados como “caixinhas de morar”, e destaques paraos compartimentos das casas, o chuveiro, as formas de vestir das pessoas deste “outro”lugar. Nas obras Ajuda do Saci, de Olívio Jekupe e Diário de Kaxi, de Daniel Munduruku,por exemplo, os protagonistas são apresentados em contextos variados, fora da aldeia e damata. Nestes casos, o leitor é confrontado com imagens e textos que podem, entre outrascoisas, colocar em questão a naturalidade com a qual se imagina que os povos indígenassomente podem habitar lugares específicos para manter-se etnicamente diferenciados. Estaquestão adquire relevância quando os autores indígenas colocam à mostra uma variedade demaneiras de ser e de viver dos índios brasileiros. Há, ao que parece, um esforço em narrar avida indígena como algo dinâmico, que se altera e se reinventa, inclusive em ambientesurbanos. Para pensar essa questão são uteis as reflexões de Bauman (2003) sobre aimpossibilidade da manutenção de fronteiras rígidas entre os de dentro e os de fora,decorrente de algumas transformações na vida contemporânea (particularmente acompressão espaço-temporal, os fluxos de informação provenientes de diversificados ecada vez mais acessíveis meios de comunicação, a circulação de pessoas e as migrações).Na mesma direção, Garcia Canclini (1997, p. 17) vai afirmar que a “globalização supõeuma interação funcional de atividades econômicas e culturais dispersas, bens e serviçosgerados por um sistema com muitos centros, no qual é mais importante a velocidade comque se percorre o mundo do que as posições geográficas a partir das quais esta se agindo”.Tais transformações dizem respeito também à vida indígena – e eles vão tambémescapando às fronteiras inventadas para contê-los, e o fazem ora em grupos mais amplos,ora individualmente. Assim, os índios vão mesclando costumes específicos a outros da eraglobal - utilizam tecnologias (internet, rádio, telefone celular), produzem textos, publicamobras de literatura, organizam Jogos Indígenas ao estilo dos Jogos Olímpicos e se lançammão de espaços outros que vão sendo apropriados também como seus. O estranhamento que tais práticas nos causam decorre de um entendimento de que odinamismo tecnológico não combinaria com a natureza indígena. Desde este ponto de vista,as transformações nas condutas destes povos são vistas como aculturação, como impureza,como sinal de uma identidade em risco, sob a influência do mundo exterior.44
  10. 10. Literatura infantil de autoria indígenaProblematizando este entendimento, Martin-Barbero (1997, p. 260) observa: por um longo tempo a questão indígena se manteve presa a um pensamento populista e romântico, que identificou o índio como o mesmo, e este, por sua vez, com o primitivo. E convertido em pedra de toque da identidade, o índio passou a ser o único traço que nos resta de autenticidade: esse lugar secreto onde subsiste e se conserva a pureza de nossas raízes culturais (grifos do autor). Assim, uma suposta pureza indígena seria dependente da condição de isolamento, oque faz pensar que os imaginados índios puros não teriam culturas constituídas tambémpela mescla e pela apropriação de usos, práticas, estratégias e tecnologias oriundas deoutros lugares e povos. E faz pesar também que toda mobilidade equivale à impureza. Voltando às obras examinadas e às formas como nelas se contestam e se referendamcertas representações, vale a pena examinar também algumas estratégias utilizadas pelosilustradores. Observando os textos imagéticos dos 15 livros – Inicialmente no seu conjunto– nota-se que alguns ilustradores se valem de expressões artísticas específicas de um dadopovo indígena para desenhar – e assim definir e marcar – os personagens. Exemplo disso éa incorporação de pinturas corporais específicas de um povo para ilustrar uma históriasobre a referida etnia, ou a incorporação de artefatos artísticos e domésticos daquele povoindígena (fotografias de cestaria, de cerâmica, de utensílios, por exemplo) na ilustração daspáginas do livro. Assim, os textos imagéticos também podem colaborar para romper, decerto modo, o estereótipo comum e genérico de índio, cotejando suas criações emproduções culturais específicas e contextuais. Nas obras Jóty: o tamanduá, Parece que foiontem e A Caveira-Rolante, a Mulher-Lesma e outras histórias de assustar, ilustradas peloartista plástico Maurício Negro, chama atenção, no trabalho artístico deste ilustrador, amescla elementos naturais, as texturas e materiais reciclados. Ele se vale da pirogravura,colorindo as imagens com pigmentos naturais – o que permite que se multipliquem aspossibilidades de leitura mas, de certa forma, também reafirma e reconfigura um enlacetido como indissociável entre índio e natureza.A criança indígena como protagonista Nesta parte do texto o objetivo é discutir alguns significados associados ao ser criançaindígena, constantes nas obras selecionadas. Para tal examina-se, particularmente, adescrição dos protagonistas de algumas histórias e, nos casos em que há um narrador-autor(ou seja, quando a narrativa em primeira pessoa assemelha-se a um relato autobiográfico),observa-se também as cenas descritas e o modo como se configuram, na tramas, certasrepresentações do ser/fazer dessas crianças. Como estratégia analítica, foram consideradas separadamente as obras narradas emterceira pessoa e aquelas em que o narrador é protagonista, sendo a narrativa feita emprimeira pessoa. Inicia-se, então, com a seleção de alguns excertos do primeiro estilonarrativo destacado acima. 45
  11. 11. IARA TATIANA BONIN Assim, na obra Caçadores de Aventuras, uma característica que se destaca nosprotagonistas é o espírito aventureiro – o grupo de crianças sai pela floresta seguindorastros de animais e não consegue retornar para a aldeia antes do anoitecer. Contudo, elasencontram uma saída: Mas vamos passar a noite aqui neste lugar escuro? – choramingou o pequeno Biõ. Acho que não temos outra saída – disse Kaxi. – Vamos ter de enfrentar os perigos da noite. Agora é hora de mostrar que somos fortes e corajosos. Nossos pais ficarão orgulhosos de nós. Na sequencia da narrativa, destacam-se as formas de organização do grupo paraenfrentar a noite na floresta – escolha do lugar, preparação de uma fogueira, coleta delenha, turnos para vigilância etc. Já no livro O caso da cobra que foi pega pelos pés oprotagonista é um menino que, após receber ensinamentos para sobreviver e alimentar-sedos recursos oferecidos pela natureza, enfrenta os perigos de forma astuta e valente. Naprimeira página da narrativa principal descreve-se o protagonista, sua vontade de se tornarcaçador desde muito cedo, sua habilidade em manobrar o arco e a flecha já aos cinco anosde idade. Mais adiante, afirma-se, sobre o protagonista, que “sua maior qualidade era agenerosidade” (p. 6). E, adiante, relata-se: “Kurumi fez onze anos. Sentiu-se pronto paraprovar ser um grande caçador. Disse aos pais que traria o jantar daquele dia. Mas queria irsozinho” (p.10). Tais destaques mostram que a coragem e a iniciativa são atributosvalorizados em personagens indígenas. Também na obra As pegadas do Kurupyra, o protagonista é narrado como sendoesperto, curioso e destemido. Descreve-se, por exemplo, que inicialmente Tuim tinha medode sair das imediações da casa e seguir em direção à floresta, mas com o tempo ele passou aandar solto pela mata, a correr por entre as árvores, a saltar de galho em galho, a banhar-senas águas de lagos cristalinos e, assim, foi adquirindo conhecimento e controle do espaçoem que vivia. Em outra parte da narrativa afirma-se que ele “queria mostrar que eracorajoso, Sonhava com o dia em que provaria a todos seu potencial de grande caçador ehomem de verdade. Neste dia passaria pelo teste, rodeado de todos os amigos, feliz da vida(p. 14). Neste caso, a valentia liga-se a um ritual de passagem para a vida adulta – provarque é bom caçador requer treino, domínio do espaço da mata, manejo adequado dosinstrumentos, entre outras coisas. Na obra Verá, o contador de histórias o atributo destacado inicialmente – como marcadistintiva do protagonista – é a esperteza e inteligência: “Esta é a história de um meninomuito esperto, tão esperto, que vivia muitas aventuras”(p. 10). Ressalta-se, da composiçãodeste personagem, também a curiosidade em escutar os mais velhos e sua capacidade deinventar novas histórias. Assim, ele se torna um contador de histórias e todos na aldeia oescutam, não apenas as outras crianças, como também os adultos. Em Ajuda do Saci –Kamba’i o protagonista, Verá, é um menino de 7 anos que deseja estudar na cidade e, emdestaque, está a sua inteligência e capacidade de aprender (e, neste caso, ressalta-se odesempenho escolar do protagonista como marca de sua esperteza, associada a umasimpatia que o tornava popular entre colegas e professores).46
  12. 12. Literatura infantil de autoria indígena Pois bem, os destaques anteriores mostram que há certa regularidade nos atributos queservem para descrever e caracterizar os protagonistas– crianças indígenas, nestes casos. Ospersonagens centrais são descritos como sendo ativos, aventureiros, curiosos, astutos,valentes, espertos, inteligentes, generosos, capazes de viver aventuras, de encontrarsoluções para diferentes conflitos. Destacam-se, também nestas narrativas, um conjunto deafazeres que constituiriam a vida destes personagens – acordar cedo, caçar pequenosanimais, utilizar arco e flecha, brincar, subir em árvores, banhar-se em rios, remar econduzir canoas, coletar frutos, e tais ações se desenrolam sem a intervenção/ supervisãodos adultos. Também integra o rol de atividades dessas crianças protagonistas trazer lenhapara casa, alimentar galinhas, buscar água e encher potes, recolher materiais paraartesanato, entre outras. Note-se, portanto, que as narrativas apresentam protagonistasintegrados a uma rotina comunitária e familiar e, ao mesmo tempo, autônomos eresponsáveis por si mesmos, nas ações associadas ao mundo das crianças. Outro aspecto que merece destaque é a prevalência de personagens masculinos – emquase todas as obras examinadas os protagonistas são meninos indígenas, à exceção de Meulugar no mundo, de Sulami Katy, na qual a narradora-autora é protagonista. Nas obras háreferências a personagens femininas, mas estas são secundárias e quase sempre possuemvínculos de parentesco com os protagonistas – materno, particularmente. Vale ressaltar que,no leque de relações que definem os distintos lugares sociais, estão também as distintasgerações. Uma vez que os protagonistas são crianças (e, em maioria meninos), observa-se apresença de adultos (homens e mulheres) em momentos pontuais destas narrativas – osadultos aparecem ensinando, orientando ou simplesmente observando as cenasprotagonizadas pelos pequenos. As figuras masculinas são, com frequência, aquelas quesurgem no enredo para ajudar a solucionar um conflito, ou para conduzir, orientar e ensinaros protagonistas, principalmente quando as ações acontecem fora dos limites da aldeia. Asmulheres, por sua vez, aparecem vinculadas a ações que acontecem no âmbito doméstico,em especial o preparo de alimentos e a atenção às crianças menores.Crianças em cenas cotidianas: notas sobre processos educativos Deste ponto em diante, examinam-se duas obras nas quais o narrador é tambémprotagonista – ou seja, aquelas em que os relatos ocorrem em primeira pessoa: Catandopiolhos, contando histórias, escrita por Daniel Munduruku e Puratig, o remo sagrado, deYaguarê Yamá. Recortam-se, destas obras, alguns traços que caracterizariam a vida decrianças indígenas. Em Catando Piolhos, Contando Histórias, as várias narrativas apresentadas emprimeira pessoa situam-se num contexto de vida na aldeia Munduruku. A obra inicia-seassim: sempre que eu chegava em casa, depois de um dia de muita correria pela aldeia e seus arredores, minha mãe mandava que eu fosse ao igarapé tomar um gostoso banho para tirar o suor do corpo (...) E nós, crianças ainda, corríamos para a 47
  13. 13. IARA TATIANA BONIN beira do igarapé para lá brincar mais um pouco, até que o sol fosse engolido pela noite que se anunciava” (p. 7). A partir daí, o narrador vai inserindo, num tom coloquial, algumas cenas de um dia navida das crianças Munduruku: acordar cedo para poder aproveitar bem o dia, ir à roça,observar os adultos, coletar raízes, coletar frutos do mato, preparar farinha, brincar, banhar-se no igarapé, subir em árvores, atirar flechas para o ar ou em bananeiras, caçar pequenosanimais, observar e conhecer o lugar em que se vive, sentar ao redor do fogo, alimentar-see, a noite, ouvir as histórias dos mais velhos, que acariciam suas cabeças, catando piolhosenquanto falam. Na obra de Daniel Munduruku também vão sendo inseridas, aos poucos,algumas histórias míticas do seu povo, bem como relatos sobre a experiência cotidiana deescutar e contar histórias, o que, por sua vez, estabelece ensinamentos sobre a vida numcontexto específico e particular. O autor descreve algumas formas de aprendizagem na cultura Munduruku – escutar osmais velhos, ser atento, respeitar as palavras dos avós, observar os adultos, realizar tarefascom estes, brincar para explorar o ambiente, utilizar instrumentos de caça, pesca etc. E, emalguns casos, o destaque dado à conduta indígena funciona, em alguma medida, comocrítica ao modo ocidental de viver. A seguir, recortam-se algumas passagens que vão nestadireção: Assim a gente aprendia. Não precisava ninguém chamar a nossa atenção ou implorar que a gente ficasse quieto para poder falar. Não. Todos nós tínhamos que fazer um respeitoso silêncio quando algum adulto, especialmente se fosse já avô ou avó, falava. Eles falavam e a gente ouvia. E o mais interessante é que eles sempre diziam a mesma coisa: é preciso estarmos atentos aos sinais da natureza. Ela nos revela quem somos e qual o melhor caminho a seguir. - mas ouvir como esses sinais, meu avô? Perguntávamos sem receio. - Vocês tem que brincar, meus netos. Vocês tem que brincar, respondia o velho sorrindo (p. 15). Em outras partes da obra, o autor-narrador destaca: “Ser velho ou velha não é sinal decoisa que não serve mais. Ao contrário...” (p. 20); “numa aldeia, é papel do homem educaro menino nas artes da caça e da pesca. É papel dele ensinar coisas práticas, que ajudarão osmeninos a se tornarem úteis para a sociedade e para a família. É o homem que ensina e acomunidade que educa” (p. 32). Estas afirmações podem ser melhor compreendidas selançarmos mão das teorizações de Meliá (1979) acerca da educação indígena. O autorafirma que os povos indígenas educam pela palavra e pelo exemplo (aconselhar e permitirque os pequenos realizem as atividades em conjunto seria constituinte deste modo deeducar). E nesta rede de relações, os mais velhos tem uma função central, uma vez que elesteriam a obrigação de aconselhar (o dever, e não o direito da palavra), explica o autor. Na obra Catando Piolhos, contando histórias, o narrador reitera essa ideia ao afirmar,por exemplo, que Catar piolho é uma prática afetiva que se liga ao ensinamento pelapalavra – catar piolho enquanto conta uma história ou enquanto aconselha uma criançaseria, neste sentido, uma característica da pedagogia Munduruku. Melià (1979) explica, a48
  14. 14. Literatura infantil de autoria indígenaeste respeito, que nas práticas educativas indígenas opera uma rede de sujeitos, comvínculos variáveis com a criança, incluindo pais, avós, irmãos, mas também pajés, caciques,adultos que possuem vínculos espirituais com ela, entre outros – a isso ele chama decomunidade educativa. Na obra Puratig, o remo sagrado, o autor – Yaguarê Yamã – inicia sua narrativaapresentando o lugar onde vivera na infância: “Na minha aldeia, que fica lá dentro dafloresta amazônica, numa região muito distante, a que se chega depois de viajar luas e luas,as crianças gostam muito de se divertir, especialmente de brincar de pular na água e ouvirhistórias” (p. 8) Assim, o narrador descreve as aventuras vividas por ele e seu grupo deamigos, explorando as imediações da aldeia: “andávamos a procura de penas de pássarospara fazer enfeites e ovos de tartaruga para preparar omelete, que era o meu prato predileto.Corríamos entre as árvores, e saltávamos entre troncos caídos...”(p. 24). Em outra parte, onarrador informa que, ao final da tarde, depois de muitas aventuras, meninos e meninas sereuniam para tomar banho de rio, e esta brincadeira se estendia até o sol se por. À noite ascrianças espalhavam-se pela grande casa coberta de palha, aos pés dos adultos, para escutaras histórias antigas de seu povo. Os aspectos destacados anteriormente, sobre as crianças descritas nestas narrativas queassumem um tom autobiográfico, fazem pensar nos muitos estudos realizados no campo daantropologia da criança. Silva e Nunes (2002), por exemplo, afirmam que a criança foiconstituída, na tradição antropológica, desde uma adultocêntrica (uma narrativa centrada naperspectiva dos adultos). Assim, as imagens mais comuns de crianças indígenas asposicionam como passivas, ou como seres incompletos, preparando-se para ocupar umlugar no mundo adulto ou, ainda, como meras reprodutoras de um mundo adulto jáestabelecido. As autoras afirmam que, em tempos mais recentes, tal perspectiva vemcedendo lugar a uma concepção dinâmica e historicizada de cultura, “em que as criançaspassam a ser consideradas seres plenos (e não adultos em potencial ou em miniatura),atores sociais ativos capazes de criar um universo sociocultural com uma especificidadeprópria... (Silva; Nunes, 2002, p. 20). Nesta mesma direção, Cohn (2005) afirma sernecessário empreender um esforço de deslocamento em relação ao modo como se percebe opapel da criança no mundo indígena. Ela defende que é preciso apresentar tais criançascomo socialmente ativas, e produtoras de culturas. É o que parece ocorrer nas históriasexaminadas, cuja autoria é indígena. As crianças que protagonizam tais histórias estão bemdistantes de um perfil passivo ou dependente do mundo adulto. Há um reconhecimento darelevância dos adultos, mas nas narrativas estes sujeitos estão diluídos e o foco são ospequenos protagonistas – e suas aventuras, estripulias, aprendizados, descobertas.Finalizando... O percurso analítico deste estudo mostra a relevância de se considerar as produções daliteratura infantil, com seus múltiplos enfoques e matizes. Neste sentido, Silveira (2001)destaca todos nós vivemos em um ambiente discursivo e vamos aprendendo a distinguir oque é desejável ou não em termos de condutas para nós mesmos e para os outros através 49
  15. 15. IARA TATIANA BONINdas histórias que nos são contadas e que aprendemos a contar, das imagens da mídia, dapublicidade, enfim, através das experiências cotidianas e do modo como as organizamos eatribuímos a elas certas significações. Além disso, é preciso considerar que as experiênciasque ouvimos e narramos sobre diferenças têm o potencial de reafirmar representaçõescorrentes, ou desestabilizar, atualizar e fazer emergir outras formas de pensar e de narrar osoutros, diferentes de nós. As obras de autoria indígena analisadas parecem indicar que existe, por parte dosautores, um esforço em problematizar uma imagem genérica de índio, de um lado, e emestabelecer outros cenários a partir dos quais as crianças poderiam vislumbrar o dinamismodas culturas indígenas, de outro. Ao que parece, eles tem ampliado os espaços de lutapolítica pela representação: mais do que nunca a literatura se assemelha a uma arena na qualdiversos grupos, situados em diferentes lugares de poder, disputam significados e constituemuma pluralidade de formas para a literatura contemporânea. Assim, é possível que as narrativas de autores indígenas, nas obras que circulamatualmente nas escolas brasileiras, coloquem em movimento outras possibilidades parapensar não apenas a vida indígena, como também a vida daqueles que, em geral, observamos índios com lentes culturais eurocêntricas. Finaliza-se esse texto com um recorte poéticoe com um convite à leitura! Uma das minhas preocupações constantes é o compreender como é que outra gente existe, como é que há almas que não sejam a minha, consciências estranhas à minha consciência que, por ser consciência, me parece ser a única. (...) Os outros não são para nós mais que paisagem, e, quase sempre, paisagem invisível de rua conhecida. Tenho por mais minhas, com maior parentesco e intimidade, certas figuras que estão escritas em livros, certas imagens que conheci de estampas, do que muitas pessoas, a que chamam reais, que são dessa inutilidade metafísica chamada carne e osso. E “carne e osso”, de facto, as descreve bem: parecem coisas cortadas postas no exterior marmóreo de um talho, mortes sangrando como vidas, pernas e costeletas do Destino. (Fernando Pessoa)ReferênciasBAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.BONIN, Iara Tatiana. Com quais palavras se narra a vida indígena na literatura infanto-juvenil que chega às escolas?. In: SILVEIRA, Rosa Maria Hessel. (Org.). Estudos culturais para professor@s. Canoas, Editora da Ulbra, 2008, p. 115 – 133.BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. 3. ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1992.COHN, Clarice. Antropologia da Criança. Rio de Janeiro, Zahar, 2005.COLOMER, Teresa. A formação do leitor literário. São Paulo, Global, 2003.GARCIA CANCLINI, Néstor. Consumidores e Cidadãos. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.HALL, Stuart. The Work of Representation. In: HALL, Stuart (Org.). Representation. Cultural50
  16. 16. Literatura infantil de autoria indígena Representations and Signifying Practices. London, Thousand Oaks, New Delhi: Sage Publications/Open University, 1997.LOPES, Maura Corcini e VEIGA-NETO, Alfredo. Marcadores culturais surdos: quando eles se constituem no espaço escolar. Perspectiva, Florianópolis, v. 24, n. Especial, p. 81-100, jul./dez. 2006 Disponível em: http://www.perspectiva.ufsc.br, acesso em 15 de outubro de 2011.MARTIN-BARBERO, Jesus. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.MELIÀ, Bartomeu. Educação indígena e alfabetização. São Paulo: Loyola,1979.SILVA, Tomaz Tadeu da. A produção social da identidade e da diferença. In: ______. (org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 73 – 103.SILVA, Aracy Lopes da e NUNES, Ângela. Introdução: contribuições da etnologia indígena brasileira à antropologia da criança. In: SILVA Aracy Lopes da; MACEDO, Ana Vera Lopes da. e NUNES, Ângela (orgs). Crianças Indígenas: ensaios antropológicos. São Paulo: Global, 2002.SILVEIRA, Rosa Maria Hessel. Leitura, literatura e currículo. In: COSTA, Marisa Vorraber (Org.). O currículo nos limiares do contemporâneo. 3 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.SILVEIRA, Rosa Maria Hessel e BONIN, Iara Tatiana. lendo histórias – um estudo sobre o reconto de obras de literatura infantil por crianças do ensino fundamental. Ensino Em Re-Vista, v. 18, n. 1, jan./jun. 2011.WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In. SILVA, Tomaz Tadeu da (org). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 7- 72.Livros analisados:GUARÁ, Wasiry. O caso da cobra que foi pega pelos pés. Ilustrações Ana Luiza Mello. Rio de Janeiro, Imperial Novo Milênio, 2009.JEKUPÉ, Olívio. Verá: o contador de histórias. Ilustrações das crianças guarani. São Paulo, Peirópolis, 2003.JEKUPÉ, Olívio. Ajuda do saci kamba’i. Ilustrações de Rodrigo Abrahim. São Paulo, CDL, 2006.KAINGÁNG, Vãngri. Jóty o tamanduá. Ilustrações Mauricio Negro. São Paulo: Global, 2010.KATY, Sulami. Meu lugar no mundo. Ilustrações de Fernando Vilela. São Paulo: Ática, 2005.KRENAK, Shirley D. A onça protetora. Ilustrações de Geovani Krenak. São Paulo: Paulinas, 2004.MUNDURUKU, Daniel. O diário de kaxi: um curumim descobre o Brasil. Ilustrado pelas crianças Munduruku da aldeia Kato. São Paulo: Editora Salesiana, 2001.MUNDURUKU, Daniel. Caçadores de aventuras. Ilustrações Inez Martins. São Paulo, Editora Caramelo, 2006a.MUNDURUKU, Daniel. Parece que foi ontem. Ilustrações Mauricio Negro. São Paulo: Global, 2006b.MUNDURUKU, Daniel; MATÉ. Catando piolhos, Contando histórias. São Paulo: Brinque-Book. 2006c.MUNDURUKU, Daniel. A Caveira-Rolante, a Mulher-Lesma e outras histórias de assustar. Ilustrações Maurício Negro. São Paulo: Global, 2010.PARAXÓ, Kanatyo. Txopai e Itôhã. 2 Ed. São Paulo: Formato Editorial, 2000.YAMÃ, Yaguarê. Puratig, o remo sagrado. Ilustrações Yaguarê Yamá, Queila da Glória e crianças Saterê Mawé. São Paulo: Peirópolis, 2001.YAMÃ, Yaguarê. As pegadas do Kurupyra. Ilustrações de Uziel Guayanê. São Paulo: Mercuryo Jovem, 2008. 51
  17. 17. IARA TATIANA BONINYAMÃ, Yaguarê. O Totem do rio Kãwéra e outros contos fantásticos. Rio de Janeiro: Imperila Novo Milênio, 2010.CorrespondênciaIara Tatiana Bonin – Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Luterana do Brasil. A pesquisa conta com o apoio do CNPq.E-mail: iara.bonin@uol.com.br Texto publicado em Currículo sem Fronteiras com autorização da autora.52

×