Revista personnalite 20

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Revista personnalite 20

  1. 1. galcosta|lauracatena|cacádiegues|pauloviniciuscoelhosetembro|outubro|novembro exemplar distribuído nas agências personnalité Gal Costa “Minha voz não sou eu. Minha voz vem” Laura Catena Cacá diegues Paulo Vinicius coelho Revista do Itaú Personnalité no 20 | Ano 6
  2. 2. 90 91
  3. 3. EDITORIAL Diversidade é um conceito cada vez mais importante no mundo moderno. Abraçar de forma harmônica diferen- tes interesses e indivíduos tem se tornado fundamental para crescer. Não se fala em evolução sem passar pelo respeito às diversas formas de pensar e fazer. A edição 20 da Revista Personnalité traz esse conceito embutido em suas páginas. Va- mos do vinho ao futebol; do Rio de Janeiro a Mendoza; do jazz à MPB; do presente ao passado, costurando temas ligados à valorização da experiência de cada um. Só assim conseguimos dar unidade a personagens tão distintos como, por exemplo, Gal Costa e Paulo Vinicius Coelho, o PVC. Um ícone da música brasileira, com uma história pautada pela inovação e espiritu- alidade, e o mais cartesiano dos comentaristas de futebol que tem o seu regrado hábito de passar as manhãs de sexta-feira telefonando para todos os técnicos da série A do Campeonato Brasileiro. Afinal, no mundo conectado, onde o network é fun- damental, ninguém mais quer falar só de samba ou futebol. Estamos firmes no presente, voltados ao futuro, mas tam- bém atentos ao legado do passado recente, com reportagens sobre o lançamento de novos LPs de vinil e sobre o saudoso Canal 100, que deve virar exposição e DVD no ano que vem. Cenas impressionantes do futebol-arte das décadas de 60, 70 e 80 mudaram o jeito de filmar as partidas. E não poderíamos falar em diversidade sem trazer nossos hermanos argentinos com pompa. Você vai conhecer Laura Catena, dona da mais importante vinícola de Mendoza. A própria diversidade em pessoa: além de sommelière e empresária, é médica plantonista de um hospital na Califór- nia. Ainda na Argentina, temos as melhores casas de jazz de Buenos Aires, a Nova Orleans latina. Na versão de iPad desta edição da Revista Personnalité, não perca a videorreportagem com Pipi Piazolla, neto de Astor Piazolla e um dos principais músicos argentinos da atualidade. Completando o quarteto de personagens principais, uma entrevista com o cineasta Cacá Diegues, seguida de uma repor- tagem com Renata de Almeida, diretora da Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, que escolheu alguns cartazes dos 36 anos do evento para contar histórias inéditas – assista no aplicativo para iPad trechos dos filmes favoritos de Renata. Um abraço e boa leitura, André Sapoznik Itaú Personnalité Mistura de loja de discos e casa de shows, o Notorious, em Buenos Aires, é tido pela revista DownBeat como um dos melhores bares de jazz do mundo
  4. 4. fotos:arquivopessoal/arquivopessoal/arquivopessoal/arquivopessoal Colaboradores Editor Paulo Lima Diretor Superintendente Carlos Sarli Diretor Editorial Fernando Luna Diretora de Criação Ciça Pinheiro Diretora de Criação Adjunta Micheline Alves Diretora de Publicidade e Circulação Isabel Borba Diretora de Eventos e Projetos Especiais Proprietários Ana Paula Wehba Diretor de Núcleo Tato Coutinho Diretora de Desenvolvimento de Negócios Adriana Naves Diretor Financeiro Renato B. Zuccari Diretor de Redação Décio Galina Projeto Gráfico e Direção de Arte Elizabeth Slamek Editora de Arte Kiki Tohmé Produtora Executiva Kika Pereira de Sousa Assistente de Produção Bruna Serrano Editora Lia Bock Editora Executiva de Conteúdo Digital Eliana Castro Moderador da Fan Page Luiz Henrique Brandão Repórter do Site Fernanda D’Angelo Departamento Comercial Publicidade Diretor de Publicidade Heitor Pontes Diretor de Planejamento e Marketing Publicitário Rogério Rocha Assistente Comercial da Diretoria Bruna Ortega Gerente de Publicidade Mercado Segmentos Claudia Atala Coordenadora Comercial e Atendimento Vanessa Soares Gerentes de Contas Flavia Marangoni, Paulo Paiva e Roberta Rodrigues Executivos de Contas Marcelo Milani, Thais Meneghello, Vivian Viviani e Gabriela Llovet Gerente de Contas On-line Marco Guidi Assistente Comercial On-line Sharon Ajzental Tráfego Comercial Letícia Nobre Para Anunciar publicidade@trip. com.br Representantes Internacional Multimedia Inc.(USA) info@ multidediausa.com Argentina Roberto Rajmilevich rra@ar.inter. net BA Romário Júnior DF Alaor Machado MG Rodrigo Freitas PE Wladmir Andrade PR Raphael Muller RJ Juliana Rocha RJ (Trip e Tpm) X² Representação RS/SC Ado Henrichs SE Pedro Amarante SP Interior Daniel Paladino Pesquisa de Imagens Aldrin Ferraz Assistente de Biblioteconomia Daniel de Andrade Estagiárias Renata Rodrigues Produção Gráfica Walmir S. Graciano Produtor Gráfico Cleber Trida Tratamento de Imagens Roberto Longatto e Roberto Oliveira Revisão Ecila Cianni (coordenação) – Adriana Rinaldi, Janaína Mello, Márcia Costa e Marcos Visnadi Projetos Especiais e Eventos Diretora Ana Paula Wehba Assistentes Pedro Toledo e Mariana Beulke Editora de Arte Camila Fank Comercial Trade e Circulação Diretora Daniela Basile Analista de Trade Renata Vilar Assistente de Trade Fábio Pinheiro Gerente de Circulação Adriano Birello Assistentes de Circulação Aline Trida e Vanessa Marchetti Projetos Digitais Diretor de Mídias Eletrônicas de Custom Publishing Beto Macedo Editora de Arte Débora Andreucci Negócios Diretor de Negócios Jan Cabral Gerente de Negócios Izabella Zuanazzi Núcelo de Vídeo Coordenação Ana Rosa Sardenberg Videomakers Vinicius Nora e Marco Paolielo Editor de Vídeo Pitzan Oliveira Produtora Camila Nunez Colaboraram nesta edição Edmundo Clairefont (edição), Ana Manfrinatto, Eduardo Logullo, Gian Oddi, Gonçalo Junior, Jorge Schwartz, Luciana Lancellotti, Maria Lucia Rangel, Millos Kaiser, Ricardo Calil, Rosane Queiroz e Vivian Sotocórno (texto), André Schiliró, Agencia Nalata, Marcelo Correa, Nelson Mello, Nino Andrés, Paula Perrier, Victor Affaro (fotos) Zé Otávio (ilustração), Ana Horas e Juliana Carletti (produção) Comitê Itaú responsável por esta edição Fernando Chacon, André Sapoznik, Cristiane Portella, Danielle Sardenberg, Ligia Benavente e Mariana Couto de Arruda Colaboradores Marcello Barcelos, Maria Pestana e Mariana Salles – DPZ Propaganda Capa Gal Costa fotografada por André Schiliró Revista Personnalité é uma publicação trimestral da Trip Editora e Propaganda em parceria com o Itaú Personnalité. Endereço para Correspondência: rua Cônego Eugênio Leite, 767, 05414-012, São Paulo, SP. E-mail: contato@revistapersonnalite.com.br www.tripeditora.com.br expediente Aos 28 anos, o ilustrador Zé Otávio trabalha para os principais títulos do país e assina uma coluna na revista americana Car & Driver. Paulista de Olímpia, já transformou desenhos seus em uma coleção de camisetas e acaba de expor uma série de pinturas na galeria Urban Arts, em São Paulo. Nesta edição, ilustrou a matéria sobre Jorge Luis Borges. “Meu processo é sempre um tanto caótico. Combinou com o autor: acredito que ler Borges é como estar em um labirinto.” Dupla por trás da agência fotográfica Na Lata, criada em 2007, o capixaba Bruno Miranda, 30, e o paulistano Renato Stockler, 34, são experts em contar histórias por meio de imagens. Atualmente, dedicam-se a uma série de documentários para a Folha de S.Paulo. Eles abriram um espaço na agenda para fazer a foto de PVC nesta edição e resumiram a experiência: “Enquanto fotografávamos, Paulo ditava a uma assistente um texto para o seu blog. Ele é bem- humorado, espirituoso e não para de trabalhar!”. Diretor do Museu Lasar Segall e professor titular aposentado pela USP, o argentino Jorge Schwartz, 68, naturalizou-se brasileiro há cinco décadas. Autor e organizador de diversas obras, atualmente prepara o Guia de leitura de Borges para o Brasil. Nesta edição, Schwartz recontou a visita que Jorge Luis Borges fez ao país em 1984. “Foi um susto perceber que já se passaram 30 anos. A intensidade do evento fez com que ele parecesse muitíssimo mais recente.” Nome por trás do site Gourmet Viajante, Luciana Lancellotti, 40, foi apresentadora do Jornal Hoje e colaboradora de moda da Elle antes de eleger a gastronomia como sua verdadeira vocação no jornalismo. Baseada em São Paulo, viaja frequentemente para o exterior para escrever matérias sobre viagem e enogastronomia. Nesta edição, voou até Mendoza para conversar com Laura Catena. “A Laura é uma mulher inteligentíssima e dedicada. Impossível entrevistá-la sem sair impressionada.” O jornalista carioca Eduardo Logullo não revela a idade (“Para que mentir, não é?”), mas teve tempo suficiente para passar pelos principais jornais, editoras e emissoras do país. Hoje prefere viver do que escreve em sua casa: roteiros semanais para a GNT, matérias para revistas nacionais e livros, como Minha alma canta, sobre a fotógrafa Thereza Eugenia. Eduardo topou a missão de perfilar Gal Costa. “Conheço a Gal faz muito tempo. Ela é a voz que trouxe o canto moderno ao Brasil.” Com 15 anos de carreira recém-completados, o paulista Victor Affaro, 31, costuma ter suas fotografias publicadas em importantes títulos, como Vogue, Rolling Stone e Financial Times. Enquanto planeja uma exposição de retratos feitos na África Central, viajou para Mendoza para clicar Laura Catena, a herdeira da vinícola mais importante da Argentina. “Me encantou o fato de Laura dizer para o mundo que seus vinhos são latino-americanos, em vez de argentinos.” Há três anos, a jornalista Ana Manfrinatto, 30, trocou São Paulo por Buenos Aires, onde trabalha como editora do site de um canal de TV. Acostumada a difundir a música brasileira por lá, Ana vem transformando seu passatempo em trabalho: foi ela quem cuidou da assessoria de imprensa da passagem de Criolo e Emicida pela Argentina. Nesta edição, escreveu sobre os bares de jazz da capital portenha. “Fui aos clubes, vi shows, tomei vinho... Escrever essa matéria foi uma delícia!” Colaboradores fotos:arquivopessoal/Arquivopessoal/arquivopessoal/arquivopessoal Aos 38 anos, o paulistano Gian Oddi dedica seu dia a dia ao futebol: é comentarista e blogueiro da ESPN Brasil e editor-chefe da revista ESPN. Ex-jornalista da revista Placar, trabalha lado a lado com Paulo Vinicius Coelho, sobre quem escreveu um perfil para esta edição. “Ele é um maluco por futebol, cujo sucesso não mudou em nada seu jeitão no dia a dia. Mesmo quem não concorda com sua visão meio ‘matemática’, tem que dar o braço a torcer à maneira como o PVC exerce a profissão.” A Trip Editora, cons­ci­en­te das questões am­bi­en­tais e sociais, utiliza papéis Suzano com certificado FSC (Forest Stewardship Council) para impressão deste material. A Certificação FSC garante que uma matéria-prima florestal provenha de um manejo considerado social, ambiental e economicamente adequado. Impresso na Gráfica Log&Print – Certificada na Cadeia de Custódia – FSC
  5. 5. 60 76 42 16 10 Cá entre nós Música, viagem, gastronomia e filmes – dicas de quem sabe viver bem 15 Prestígio Causa natural O fotógrafo Araquém Alcântara conta como a foto que fez de seu pai para protestar contra usinas nucleares iniciou sua militância na questão ambiental 16 aos pés da cordilheira Viajamos pelas estradas de Mendoza, na Argentina, ao lado de Laura Catena, a herdeira da empresa familiar que produz o melhor vinho da América do Sul 24 Onde o jazz nunca dorme Buenos Aires tem dois dos melhores clubes de jazz do mundo e uma cena pulsante de novos artistas. A Revista Personnalité listou os endereços essenciais para aproveitar a noite portenha 32 1984 - Borges em São paulo Em agosto daquele ano, Jorge Luis Borges veio a São Paulo para uma visita de dois dias. Jorge Schwartz, cicerone da viagem e autor do livro Borges no Brasil, revela as lembranças da curta – e intensa – intimidade com o maior escritor argentino 42 CINEMA de novo Aos 72 anos, Cacá Diegues, o fundador do Cinema Novo e diretor do clássico Bye bye Brasil, conta por que decidiu voltar a filmar: “Se isso sair da minha vida, viro um débil mental” 52 Cartazes à mostra Às vésperas do início da 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Renata de Almeida, diretora do evento, relembra momentos marcantes do festival a partir de oito pôsteres favoritos sumário 60 “FAAALA, PVC!” É assim que técnicos como Mano Menezes e Vanderlei Luxemburgo atendem aos telefonemas de Paulo Vinicius Coelho, um dos jornalistas mais influentes do futebol brasileiro 68 futebol (7a ) arte Os grandes lances do Canal 100, o cinejornal esportivo que transformou salas de cinema em arquibancada de estádio, entre 1959 e 1986, e agora volta à cena em exposição e livro com DVD 76 “Minha voz vem” Gal Costa passeia por canções icônicas dos 32 discos da carreira, detalha a relação com Caetano Veloso e tenta explicar o dom de (en)cantar em shows como Recanto, considerado o melhor do ano 84 a virada do vinil A história por trás do retorno dos LPs ao Brasil, com reedições de álbuns clássicos, trabalhos inéditos, reativamento da única fábrica da América Latina, além de fãs apaixonados e discos importados 90 Ideias no sótão O cartunista João Montanaro, 16 anos, ilustra seu autorretrato e revela o que tem na cabeça victoraffaro/marcelocorrea/nalata/andréschiliró
  6. 6. 10 11 cá entre nóscá entre nós divulgação divulgação/PARAMOUNTPICTURES/EVERETTCOLLECTION/EVERETTCOLLECTION/Latinstock/pARAMOUNTPICTURES viagem, gastronomia e cultura – convidados especiais abrem suas preferências | Por Rosane Queiroz Humor ou drama? “Que eu me lembre, assisti a Crepúsculo dos deuses [1950] pela primeira vez em casa. Ainda era adolescente. O filme é exemplo de como se pode fazer algo engraçado e profundo; leve e denso; divertido e triste. Me questiono: é uma comédia dramática ou um drama cômico? Ou humor negro? Não sei, mas sei que gosto bastante.” termina no começo “Gosto de algo especialmente. O filme termina pelo co- meço, com o personagem morto, Joe [William Holden] , revelando o motivo da sua morte. No início do longa, ele aparece boiando na piscina. Um recurso comum hoje em dia, mas na época era inovador.” O roteirista de Avenida Brasil e um dos melhores escritores brasileiros pela revista Granta revela como Crepúsculo dos deuses influenciou seus textos por Fernanda D’Angelo _ ANTONIO PRATA, escritor decadência “Um dos temas do filme é a decadência dos astros com a passagem do tempo. Há uma cena bem exemplar, com a participação especial de Buster Keaton, um dos grandes atores de cinema mudo e que acabou perdendo o prestígio depois do surgimento do cinema falado. Ele aparece como coadjuvante numa cena de pôquer.” A MARCA Do diretor “Acho que peguei algo dele. De algum jeito, mesmo que minúsculo, eu espero que os filmes do Billy Wilder tenham deixado alguma marca nos meus textos e roteiros.” CENA INESQUECÍvEL “Norma [Gloria Swanson] é uma atriz decadente que enlouquece. Ela acaba matando Joe, que virara seu amante. Quando a polícia vai prendê-la, ela desce achando que são os seus fãs.” o filme da minha vida Na suíte Fernando & Humberto, recém-inaugurada no hotel Lutetia, em Paris, os designers brasileiros transformam móveis comuns em arte _ irmãos Campana, designers objetos de desejo Tapete Mágico “O carpete Sushi 2 injeta modernidade no quarto”, diz Humberto. “Ele cobre o chão e sobe pela parede, sugerindo uma cabeceira. O resultado é elegante e com um toque brasileiro.” Boa trama As almofadas Trousseau pertencem à coleção Soft Reptile. O destaque é o trabalho das tramas: as peças trazem a textura e a sinuosidade que emulam os répteis. Luz indireta Os abajures Amanita, na forma do cogumelo, são da italiana Alessi. Feitos de vime, projetam uma luz difusa com três combinações de iluminação. Reciclagem Os quadros são reproduções de colagens criadas para o catálogo da exposição Anticorpos (2009), realizada pela dupla no Vitra Museum, na Alemanha. 400 peças de couro As poltronas Leather Works, desenhadas pela dupla, foram fabricadas pela Edra. Cada uma possui 400 pequenas peças de couro com tons de marrom. Verde e marrom “Nosso objetivo foi criar uma suíte contemporânea em um ambiente clássico”, afirma Fernando. “Usamos tons de marrom e verde para criar uma atmosfera aconchegante.”
  7. 7. 12 13 cá entre nóscá entre nós divulgação/reprodução nelsonmello “Todas as músicas que marcaram minha vida se situam entre a infância e a adolescência”, diz o diretor de Nina (2004), O cheiro do ralo (2006), À deriva (2009) e do hollywoodiano 12 horas (2012). Aqui, o cineasta faz uma seleção dessa memória musical. O cineasta pernambucano deixa de lado a ficção e assina a trilha sonora de sua vida real: rock, MPB e eletrônica _ Heitor Dhalia, diretor de cinema trilha sonora 1. “João e Maria”, Chico Buarque Costumava cantar com minha mãe e meus irmãos quando íamos para casa depois da escola. Era um momento mágico da família reunida no carro, e a letra da música me inspirava com seus personagens líricos e imaginários. 2. “Vaca Profana”, Caetano Veloso Música também bastante ouvida na adolescência, começo da rebeldia e dos anos de influência hippie. 3. “Another Brick in the Wall”, Pink Floyd Muitas aulas perdidas na escola para ouvir este protesto contra o sistema. Um hino da adolêscência de todas as épocas! 4. “Cabeça Dinossauro”, Titãs Esta música sintetiza todo o rock brasileiro que ouvi nos anos 80. 5. “Thriller”, Michael Jackson Ícone pop máximo do século 20. Ouvi muito e amava cada novo videoclipe. 6. “Bizarre Love Triangle”, New Order Eu adorava música eletrônica. A banda é o símbolo da geração que ouviu esse tipo de som nos anos 1990 e 2000. 7. “Anarchy in the U.K.”, Sex Pistols Clássico do punk rock. Amo o Sex Pistols e uso as botas da Dr. Martens, clássicas no visual punk, até hoje. Atualmente, escuto muita coisa diferente. O cantor Thiago Pethit, por exemplo, está no toca-CDs do meu carro e não sai de lá. 2 3 4 1 5 No comando do Clos de Tapas, eleito o melhor espanhol pela revista Veja São Paulo, o casal Ligia Karazawa e Raúl Jiménez falam de suas preferências por Fernanda D’Angelo _ LIGIA KARAZAWA E RAÚL JIMÉNEZ, chefs Água na Boca 1. ALGUM INGREDIENTE PREDILETO? Ligia: Azeite de oliva. Temos cinco tipos em casa. Também sou apaixonada por tomates. E adoro trabalhar com peixes. Raúl: Sal é a base da cozinha. Realça sabores, é indispensável, mas tem que ter equilíbrio. 2. O QUE INSPIRA? Ligia: Estar feliz. Mas tem algo que me inspira muito. Sou muito de feira, de ir ao supermercado. Comprei uns tomatinhos na feira de sábado de manhã e já pensei em um prato. 3. ALGUM RITUAL NA HORA DE COZINHAR? Ligia: Uma tacinha de vinho ajuda na criação. Dá uma relaxada. Raúl: Preciso estar tranquilo e em um bom estado de humor. Uma semana de estresse não é compatível com criação. 4. EM CASA, QUEM COZINHA? Ligia: Ninguém [risos]. Normalmente, temos só o domingo de folga, então saímos para comer. Raúl: Mas às vezes cozinhamos coisas como ovo mexido e um sanduíche. 5. INGREDIENTES BRASILEIROS DO MOMENTO. Ligia: A semente amburana do Pará. Com ela, preparamos uma manteiga. Raúl: Em Minas tem a pimenta-de-macaco, também bem especial. Experimente Clos de Tapas R. Domingos Fernandes, 548. Tel.: (11) 3045-2154 Guarnições Pérolas de mostarda Lâmina de salmão Pão baguete Folhas de ruqueta 4 gemas de ovos de codorna Montagem Dispor a carne numa forma para steak no fundo de um prato liso e decorar com as guarnições. O Clos de Tapas faz parte do Menu Personnalité: www.itaupersonnalite.com.br/ Experiência > Menu Personnalité STEAK TARTAR DE PATO CEBADO Ingredientes 1 magret de pato de 400 g 2,5 g de cebola roxa 0,5 g de alho 2 g de picles 1,5 g de pimenta dedo-de-moça 2 g de alcaparras Pimenta-do-reino preta moída Quanto basta de sal fino 5 g de mostarda de Dijon 4 gotas de tabasco 10 gotas de molho Perrins Quanto basta de grãos de mostarda Modo de preparo Limpar o magret de gordura, tendões e pele e cortar em brunoise. Cortar os legumes em brunoise muito fina. Juntar a carne com os temperos numa tigela de aço inox e misturar bem. A brasileira Ligia Karazawa e o espanhol Raúl Jiménez têm mais em comum do que a idade (os dois têm 33 anos). Os chefs dividem a mesma casa e o mesmo trabalho: o comando da cozinha do Clos de Tapas, endereço incontornável dentro da alta gastronomia paulistana. O casamento de ingredientes brasileiros com técnicas da culinária vanguardista espanhola, além da receita de sucesso, é também uma espécie de biografia do casal. A brasileira Ligia conheceu o espanhol Raúl enquanto trabalhavam no celebrado Mugaritz (restaurante do País Basco – Espanha – considerado o terceiro melhor do mundo pela revista britânica Restaurant). Os dois já atuaram juntos em outro endereço festejado, o El Celler de Can Roca (pontuação máxima no Guia Michelin e quarto lugar na lista da Restaurant), na Espanha. Para completar, Ligia ainda trouxe na bagagem uma experiência no conceituado elBulli, de Ferran Adrià. 6 7
  8. 8. 14 15 cá entre nós O titã, que morou no Chile na infância, conta como suas viagens por locais históricos definiram a escolha do próximo destino: a Grécia por Luiz henrique brandão _ Sérgio Britto, músico sonhos Grécia PRÓXIMA PARADA “Assim como a Riviera Maia, a Grécia reúne arquitetura e belezas naturais. Um lugar com tanta história... Vai ser a minha próxima viagem. Quero conhecer o berço da civilização ocidental.” divulgação/arquivopessoal/ISTOCKPHOTO Península de Yucatán, 2012 jornada inesquecível “Meu pai foi exilado durante a ditadura brasileira. Por isso, vivi por dez anos no Chile quando era criança. Lá, pude fazer viagens bacanas pela América Latina. Conheci, dentre outros destinos, as catacumbas de Lima e Machu Picchu, ambas no Peru. A partir daí, comecei a me interessar por ir a lugares que envolvam não só as belezas naturais, mas também ricos em história. No início do ano, fui com minha esposa e meus dois filhos para a Riviera Maia, na Península de Yucatán (México). Não conhecia as ruínas maias, como a cidade de Chichén Itzá (foto). Era uma vontade antiga. A região oferece opções de lazer, incluindo parques temáticos para crianças. Curiosamente, o que meus filhos mais gostaram foram as ruínas e suas histórias.” O senhor na imagem ao lado parece um ermitão. Na verdade, ele é seu Manuel, ou velho Queco, pai de Araquém Alcântara, um dos principais fotógrafos de natureza no mundo. Dificilmente algum brasileiro ou estrangeiro percorreu tantos cantos do país quanto o catarinense ao longo dos 44 anos de carreira. A incessante busca por registros da fauna e flora brasileiras e a militância ambiental são sua marca. Araquém soma mais de 40 livros publica- dos e mais de cem prêmios conquistados (entre eles, um Jabuti inédito para um livro de fotografia). Até o próximo ano, mais dois livros devem ser lançados, e o filme Amazônia – Planeta verde, dirigido pelo francês Thierry Ragobert, em que assume a função de consultor artístico. Ao clicar seu pai na Jureia (SP), em 1980, Araquém definia o engajamento ambiental como alicerce de sua carreira. O retrato é uma imagem de protesto. O morro da Grajaúna, ao fundo, corria o ris- co de ter sua imponente beleza destruída pela construção de duas usinas nucleares. O mórbido quadro que o velho Queco segura é a foto de um autor desconhecido até hoje pelo próprio Araquém. “Foi uma coisa totalmente mística. Folheava um livro sobre Hiroshima e, quando achei essa foto dos esqueletos, tive um insight. Decidi reproduzir a foto sem meios-tons, emoldurei, e escolhi meu pai para repre- sentar os pescadores dali. Eles sabiam que as usinas eram sinônimo de morte”, conta. “Com essa foto, eu pude mostrar ao mundo o primeiro ‘souvenir do apo- calipse’ por meio das exposições e das reproduções que essa imagem gerou. É preciso estar presente no momento cer- to.” No fim, as usinas não foram erguidas. Prestígio | Araquém Alcântara Por Luiz Henrique Brandão O fotógrafo Araquém Alcântara conta como a foto que fez de seu pai para protestar contra usinas nucleares iniciou sua militância na questão ambiental arquivopessoal _ Causa natural
  9. 9. 16 Viajamos pelas estradas de Mendoza, na Argentina, ao lado de Laura Catena, a herdeira da empresa familiar que produz o melhor vinho da América do Sul. Médica de formação, ela conseguiu abrir espaço em um mundo predominantemente masculino e tornou internacional o sonho do pai: cultivar uvas malbec na Cordilheira dos Andes telma sobolh observa a comunidade de paraisópolis, onde trabalha desde 1985 aospésda cordilheira Por Luciana Lancellotti, de Mendoza Fotos Victor Affaro estrada no distrito de agrelo, em mendoza, no oeste da argentina, que leva para a propriedade da família catena, a principal produtora de vinhos do país
  10. 10. 18 19 Personnalité laura catena 19 Ocaminho para o distrito de Agrelo, no oeste da Argentina, percorre a típica paisagem árida da região de Mendoza. Por esses lados, o índice pluviométrico é baixíssimo, inferior a 200 milímetros anuais, patamar próximo ao do deserto do Saara. O destino é a Bodega Catena Zapata, vinícola mais importante do país e uma das principais da América do Sul. Ao meu lado, no carro, Laura Catena, representante da quarta geração da família que revolucionou a viniviticultura argentina. O inverno pálido confere uma incrível elegância ao lugar, que se evidencia em discretas camadas cromáticas, do amarelo-palha ao âmbar. Esses tons também colorem os vastos parreirais do vinhedo La Pirámide, em Luján de Cuyo, onde fica a bela vinícola dos Catenas. A construção, do final dos anos 1990, reproduz uma pirâmide maia, contrariando o estilo comum a boa parte das vinícolas do mundo, que emulam modelos arquitetônicos italianos ou franceses. A referência à cultura mais avançada da América pré-colombiana homenageia o caráter não europeu e único do terroir mendocino. Nós descemos do carro para caminhar pelo solo fofo onde estão plantadas as videiras. “Olha só, experimente”, diz Laura ao encontrar um cacho de uvas desidratadas pelo sol. “Não é bom? É um de meus sabores favoritos”, prossegue, sorrindo diante de um dos cenários mais incríveis do planeta: a Cordilheira dos Andes. De fato, foram as melhores uvas-passas que provei. Não exatamente pela textura, nesse caso um tanto rígida e rústica, mas pelo gosto doce que se espalhou na boca conforme as sementes estalavam ao mastigá-las. Ainda assim, é provável que o conjunto de recordações acumuladas desde a infância em um sem-número de vinhedos deva tornar aquele sabor ainda mais especial para Laura. Uma espécie de madeleine proustiana, capaz de despertar as memórias de sua vida e de sua família. A origem de uma revolução A tradição vitivinícola da família teve início com a chegada do italiano Nicolás Catena à Argentina, no fim do século 19. O bisavô de Laura era, então, um jovem imigrante “quando meu pai plantou malbec a 1.500 metros de altitude acharam que estava louco. mas ele tinha que tentar” acima, vista do vinhedo a partir da fachada da La Pirámide, vinícola que imita a arquitetura maia. na página ao lado, laura checa os barris da família Em seu recém-publicado Vinho argentino (208 págs., VMF Martins Fontes), Laura Catena faz um mergulho nas principais regiões viniviticultoras de seu país – Mendoza, Salta e Patagônia. A autora reuniu informações ao longo de 15 anos e o resultado, mais do que um documento com belas fotos, paisagens, personagens, pratos típicos e vinhedos, é um verdadeiro guia de viagem para quem pretende desbravar as vinícolas portenhas. Lançado na 22ª edição da Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, o livro traz ainda um capítulo dedicado à capital, Buenos Aires, com dicas de restaurantes, cafés e shows de tango, além de um glossário com termos de enologia. A edição em inglês, lançada em 2010, recebeu indicações de veículos como os jornais The New York Times e Wa- shington Post e as revistas Decanter e Wine Spectator. _ Livro mapeia o vinho argentino
  11. 11. 20 21 Personnalité laura catena 20 Durante o período que passou com a família na Califórnia, Laura começou a planejar a vida acadêmica. Quando seu pai decidiu retornar a Mendoza, a filha ficou. Acabou aceita em Harvard, aos 17 anos, onde se formaria em biologia. “Foi a parte mais difícil da minha vida – tanto quis ir para longe de casa que quando me vi sozinha, em um lugar tão frio e distante, tive medo.” Estar ali, com profissionais mais experientes, trouxe um sentimento de desafio. “Percebi como seria difícil me tornar realmente boa em algo.” A formação em medicina aconteceu no curso universitário seguinte, em Stanford, onde se especializou em emergência. Ainda que a rotina exigisse dedicação intensa, sobrava tempo para degustar vinhos com o pai, que a visitava regularmente nos Estados Unidos. “Laura me surpreendeu quando começou a degustar vinhos de qualidade internacional”, conta Nicolás. “Sua análise sobre sabor, aromas e qualidade eram opiniões dignas de um expert. Fora isso, seu interesse em descobrir a melhor qualidade entre diversas regiões vitivinícolas do mundo me pareceu realmente fora do comum.” Essa busca por um vinho sofisticado e a maneira pela qual se dedicou às degustações e pesquisas da bebida, ainda que a medicina lhe tomasse muito tempo, deixavam claro um traço dos Catena facilmente detectável: a obsessão. “Tem gente que julga essa obsessão como uma doença”, explica Laura. “Mas penso diferente. Acho que para triunfar em algo, seja como médico ou artista, insistir nos detalhes é fundamental.” A filha de Nicolás despontava como candidata natural a herdar o comando dos negócios da família. cheio de sonhos. O primeiro deles se concretizou em 1902, quando plantou, em Mendoza, a primeira vinha de malbec, até então utilizada nos vinhos de corte de Bordeaux, na França. Em 1934, seu filho, Domingo Catena, casou-se com Angelica Zapata, assumindo a empresa familiar e dando forte impulso à Bodega Catena Zapata, que atravessou décadas de êxitos mesclados a fracassos por conta dos períodos turbulentos da economia do país. Em 1960, foi a vez do neto, também batizado de Nicolás, se incorporar à empresa. E foi ele, o pai de Laura, quem deu origem, na década de 1980, a uma verdadeira revolução na indústria vitivinícola local, colocando os rótulos e a bebida argentina no mapa e nas taças de enólogos de todo o mundo. Para contar essa trajetória, Laura me conduz até a vinícola, onde o ambiente silencioso recepciona quem chega com o sutil e inconfundível perfume de carvalho que evolui a partir das barricas. É ali que começa nossa conversa. “Meu pai conta que minha avó, Angelica Zapata, não sabia preparar um café”, diz. “Em compensação, na década de 1930, ela já era diretora de colégio e uma das coisas que disse a ele, um mês antes de falecer, foi que deveria se tornar físico e conquistar o Prêmio Nobel.” O tempo passou e o filho não estudou física nem conquistou o Nobel. Mas se tornou PhD em economia, foi cofundador do Centro de Estudos Macroeconômicos da Argentina e implantou, com uma mistura de teimosia e conhecimento, a técnica e o estilo que moldaram a indústria vitivinícola de seu país. Na era pré-Nicolás, o vinho argentino oferecia baixa qualidade, e a marca mais famosa até então, produzida pela Bodegas Esmeralda, destinava sua produção para o mercado interno. Quando tinha 14 anos, Laura foi morar com a família em Berkeley, onde o pai ministraria um curso de economia como professor visitante na Universidade da Califórnia. Na época, a região na costa oeste americana turbinava sua indústria vitivinícola, numa tentativa de produzir rótulos capazes de rivalizar com o olimpo dos enólogos: as garrafas francesas. Nicolás passou a estudar os vinhos do Napa e Sonoma Valley, convencendo-se de que o clima e as terras da região de Mendoza também podiam gerar uma boa bebida. Ao retornar à Argentina, em 1983, estava decidido a implantar vinhedos em grandes altitudes, algo inédito na região. Passou a temporada seguinte descobrindo e explorando o terroir mendocino. “Vinhos não são como a medicina” Por conta das novas ideias, acabou sendo conhecido no meio como um visionário... ou um doido. “Quando meu pai plantou malbec pela primeira vez em Tupungato, a 1.500 metros de altitude, todos os cientistas disseram que não ia funcionar”, diz Laura. “E ele sempre respondeu que tinha que saber no que ia dar.” Assim, o que no início parecia loucura, resultou no vinhedo Adrianna, que produz hoje um vinho com excepcional concentração e estrutura, permitindo guarda de 20 a 30 anos. “Vinhos não são como a medicina, que utiliza a ciência precisa”, afirma Laura. “Na viticultura, a investigação mescla ciência, arte e instinto.” a partir da esquerda: Nicolás Catena e Laura; o casamento com daniel mcdermott; ao lado dos filhos; e no hospital onde trabalha arquivopessoal divulgação _ As melhores safras Uma lista com os cinco principais rótulos produzidos pelos Catenas e dicas de como harmonizá-los • Catena Alta Malbec 2008 (Catena Zapata) Eleito um dos cem melhores vinhos do mundo por três anos consecutivos pela conceituada revista norte-america- na Wine Spectator, este vinho, intenso e elegante, é consi- derado o melhor malbec produzido por Catena Zapata. A ótima complexidade é raramente encontrada na América do Sul. Harmoniza muito bem com carnes grelhadas. • Angelica Zapata Chardonnay 2009 (Catena Zapata) Elaborado para o mercado interno argentino a partir das uvas do vinhedo Adrianna, a 1.500 metros de altitude. Tido como o melhor branco do país, é potente e concen- trado, com textura macia e leve toque amanteigado. Uma ótima companhia para peixes, frutos do mar e bacalhau. • Beso de Dante 2009 (Luca, Laura Catena) Grande tinto argentino, recebeu 94 pontos da Wine Advo- cate. Resultado de um corte de malbec (50%), cabernet sauvignon (40%) e cabernet franc (10%), é um vinho elegante, com buquê de ervas, frutas pretas e especiarias. Acompanha bem carnes elaboradas e cordeiro. • Catena Alta Cabernet Sauvignon 2007 (Catena Zapata) Encorpado e potente, é provavelmente o melhor cabernet sauvignon argentino. Um vinho elegante e equilibrado, produzido apenas em anos excepcionais, com sugestão de guarda superior a dez anos. Para acompanhar carnes grelhadas e cordeiro. • Luca Chardonnay 2009 (Luca, Laura Catena) Com grande complexidade, vem recebendo consecutiva- mente 92 pontos da Wine Advocate. Passa por 12 meses de maturação em barricas de carvalho francês novo e apresenta notas aromáticas de maçãs, peras e especiarias. Proporciona ótima harmonização com frutos do mar e peixes grelhados.
  12. 12. 22 23 Personnalité laura catena 22 na página ao lado, laura caminha pelo solo fofo onde estão plantadas as videiras da propriedade dos catenas. A produção rende uma uva-passa doce e de textura rústica Já como médica residente, Laura, na época com 26 anos, se apaixonou pelo colega norte-americano Daniel McDermott, com quem se casaria. Os dois se mudariam de Los Angeles para San Francisco pouco depois. Então, a argentina passou a conciliar a carreira na medicina com o comando das exportações dos vinhos Catena para os Estados Unidos. “Ver o meu pai sair pelo mundo, com um vinho no qual ninguém acreditava, provocou em mim o desejo de ajudá-lo”, afirma. Naquela altura, os nomes Mendoza, malbec e Catena pouco diziam ao universo do vinho. Foi quando Laura passou a se dividir entre seu terroir e a Califórnia. Estudou o desenvolvimento das diferentes cepas nos vinhedos cultivados em regiões montanhosas – foi ela quem constatou que a mesma variedade de uva, plantada em altitudes diferentes, apresenta perfis aromáticos e parâmetros de qualidade distintos. “Os vinhos argentinos já foram muito mais rústicos e concentrados”, afirma Manoel Beato, sommelier do grupo Fasano. “Se hoje eles estão mais elegantes, sem dúvida é por influência da Laura, que vem dando continuidade a um trabalho árduo com confiança e tranquilidade, duas de suas características mais marcantes.” Nicolás Catena é definitivo: “Laura é a responsável por levar nossa empresa a uma dimensão internacional”. ponte aérea A paixão pela profissão é a mola mestra da rotina intensa de Laura. Uma rotina dividida entre dois países. Durante a colheita, que acontece nos meses de fevereiro e março, ela permanece em Mendoza. O mesmo acontece em agosto, quando é feito o assemblage – processo que associa vinhos elaborados a partir de diferentes variedades de uvas de uma mesma região. No restante do ano, Laura visita a vinícola em meses alternados e viaja pelo mundo para participar de eventos e degustações. A vida com o marido e os três filhos é sediada em San Francisco, onde Laura dedica ao menos cinco dias por mês à ala de emergência do setor pediátrico do California Pacific Medical Center, instituição filiada à Escola de Medicina da Universidade da Califórnia. “No mundo do vinho as coisas são um tanto incertas e tudo se desenvolve a longo prazo”, afirma. “Mas é no hospital, salvando vidas, que vejo o resultado imediato do meu trabalho e aprendo mais, principalmente com as crianças, que, por incrível que pareça, são mais fortes do que os pais.” Ainda que a influência direta do pai seja decisiva no trabalho de Laura, a primogênita de Nicolás Catena vem se destacando com uma filosofia muito particular, fato que começou a se evidenciar quando decidiu produzir seus próprios vinhos, utilizando uvas de pequenos produtores dos vinhedos mais antigos de Mendoza. “Na Bodega Catena Zapata, sempre usamos uvas dos nossos próprios vinhedos”, explica. “Mas eu queria experimentar, conhecer o trabalho e as histórias das famílias produtoras mais antigas da região.” O resultado dessa investigação deu origem ao rótulo Luca Wines. O nome homenageia o filho mais velho de Laura. Além disso, lançou vinhos com as castas malbec, syrah, chardonnay, pinot noir e Beso de Dante. A tacada foi certeira. Alguns dos varietais (vinhos produzidos com um só tipo de uva) vêm conquistando pontuações superiores a 90 pontos (numa escala que vai até cem) em veículos de referência internacional como o Wine Advocate, um relatório bimestral publicado por Robert Parker, o crítico de vinhos mais influente do mundo. A revista Wine Spectator chegou a listar o Luca Malbec 2007 entre os top 100 do mundo. “Já faz tempo que o universo do vinho não é mais tão masculino”, explica o jornalista Jorge Lucky, colunista do jornal Valor Econômico. “Laura vem se mostrando muito competente, e a forma como ela comanda e distribui o trabalho é de tirar o chapéu.” Por mais recorrente que venha se tornando o feito de conquistar altas pontuações e aplausos no mundo do vinho, o sentimento de desafio permanece. “Queremos tanto nos superar que, às vezes, lamentamos não aproveitar os triunfos que conseguimos como manda aquela expressão: smell the roses, cheirar as rosas, desfrutar do momento.” Hoje, à frente de 700 funcionários, Laura é convicta quanto ao que chama de Catena Dream. Para ela, trabalhar com um grupo jovem e apaixonado, instigando-o diariamente a elevar a qualidade do vinho argentino, é algo emocionante. “Quero fazer com que trabalhar aqui seja como estudar em Harvard”, diz. “Algo movido por um fogo interno. O mesmo fogo que me arrepia sempre que volto de fora do país para cá.” O sonho de Catena. “laura fez o vinhoargentino deixar de ser rústico para se tornar sofisticado”, diz manoel beato
  13. 13. 24 25 Buenos Aires oferece muito mais do que tango: com dois dos melhores clubes de jazz do mundo, bares de música ao vivo com cardápios deliciosos e uma cena pulsante de novos artistas, a cidade tem opções para os sete dias da semana Por Ana Manfrinatto, de Buenos Aires fotos Paula Perrier 25 Jazzy [adjetivo, do inglês]: pertence ao jazz, “jazzístico”, extravagante, chamativo. Chamar Buenos Aires de jazzy é vestir a capital argentina com uma luva sob medida. É defini-la à perfeição. Importante, histórico, um clichê turístico: esqueça o tango por um momento. Para respirar a au- tenticidade cultural e viver noites fervilhantes, visitar os clubes de jazz é uma opção quase obrigatória. Não é exagero. A DownBeat Magazine, publicação norte- americana fundada em 1934, referência internacional no assunto, listou dois clubes portenhos, Thelonious e Notorious, entre os melhores do mundo. Na cidade, sobretudo no bairro de Palermo, é pos- sível assistir a shows nos sete dias da semana. Buenos Aires é um tesouro escondido, uma Nova Orleans sul- americana, um templo, uma igreja em que é possível se ajoelhar diante do som de mestres como Miles Davis, John Coltrane, Dizzy Gillespie e Billie Holiday. Além de uma fartura de novos artistas. Adrián Iaies, pianista e diretor do Festival In- ternacional de Jazz de Buenos Aires, explica que a motivação de um jazzista não é comercial. É religio- sa. Para ele, o músico escolhe o clube onde toca por convicção. O público faz o mesmo. São fiéis. A Revista Personnalité visitou os cinco clubes de maior desta- que na capital. São locais que oferecem um cardápio de comidas, bebidas, ragtimes, bebops, hardbops, big bands e standards. Tudo absolutamente imperdível. Onde o jazz nunca dorme
  14. 14. 26 27 Virasoro Bar O que importa no Virasoro não é a co- zinha básica, de onde saem pizzas e sanduíches. Nem a carta de vinhos, com etiquetas comuns. “O Virasoro é um lugar para escutar boa música. E ponto”, diz o contador Alejandro Bassi, 50 anos. Ele mora na Patagônia, mas costuma visitar o clube com a mulher, a agente de viagens Susana Perez, 43. “As outras casas são um pouco escandalosas, com barulho de pratos e talheres. Aqui, o ambiente é intimista, silencioso, menos comercial”, explica. Susana concorda. “Esse deveria ser o conceito de um clube de jazz.” Construído em uma casa art déco desenhada, nos anos 20, por Alejandro Virasoro, o principal arquiteto argentino do estilo, o bar foi aberto em 2001. Exis- tem apenas 12 mesas em um ambiente que remete aos bailinhos de garagem. Marcelo Gutfraind refere-se ao local como sua segunda casa. Compositor e guitarrista desde os 17 anos, ele estudou música na conceituada Berklee College of Music, em Boston, nos Estados Uni- dos. Para ele, a cena do jazz na Argentina não pode ser comparada com a europeia ou a norte-americana. “Em Buenos Aires há muitos músicos para poucas casas. As que existem são boas, mas as condições para que toquemos, não.” Sua crítica é dirigida à administração municipal, que oferece fartura de burocracia para a aber- tura de espaços culturais. “O governo não quer que a cultura se expanda”, diz. Já a razão pela qual ele escolheu ser residente com o seu Marcelo Gutfraind Cuarteto – ao lado de Alan Zimmerman, no piano, Maximilano Kirsner, no contra- baixo, e Carto Brandan, na bateria – é o tratamento. “Sou recebido como um mili- tante da música e não como um reles mú- sico que vem tocar e receber sua porcen- tagem da venda de ingressos”, explica. Thelonious Por mais habitué que o visitante seja, é impossível não subir os dois lances de escada da casa centenária que está na esquina das ruas Salguero e Güemes, em Palermo, e não se maravilhar. Ali, no primeiro andar, está o Thelonious Club, fundado no ano 2000 pelos irmãos e músicos Lucas e Ezequiel Cutaia. Inspirado nos clubes de Nova York, o Thelonious conserva uma atmosfera que beira o mágico. Um corredor de mesas e sofás conduz ao palco. À es- querda, um bar comprido e, do outro lado, janelas de 2 metros de altura com vista para a varanda, com árvores que tocam o vidro e são tomadas pela ilumi- nação da rua, cor âmbar. Teto de tijolo à vista, uma lumi- nária feita com muitas lâmpadas que caem sobre os músicos, o tradicional abajur em cada mesa, cardápio com bons coquetéis, uma tábua de queijos gostosinha. Além de ser o cenário ideal para um primeiro (segundo, terceiro...) encontro, a casa funciona de quarta a domingo com uma programação exclu- sivamente dedicada ao jazz. Não foi à toa que a revista norte- americana DownBeat, em março deste ano, escolheu o Thelonious como um dos melhores lugares para ouvir jazz em todo o mundo. “Venho sem consul- tar a programação. Aqui eu encontro jazz de excelente qualidade”, afirma o sociólogo Miguel Murua, 42 anos. Mais interessado nas condições de trabalho, o baterista Martín Lambert, 34, comemora o fato de tocar em uma casa que é reconhecida pelo público e pela crítica. “O sistema de som é impe- cável”, conta. O mesmo acontece com o guitarrista Marcelo Gutfraind, que admira o tratamento dado aos músicos. Para ele, tocar no Thelonious significa se sentir em casa. Músicos no palco, clientes nos sofás, um manhattan na mão: a receita de noites inesquecíveis. “Ao ver a imagem de elizeth cardoso desejei ser aquela mulher” Virasoro Bar Guatemala 4.328, Palermo. Funciona de terça a domingo, a partir das 21 horas. www.virasorobar.com.ar Dica: escolha a primeira mesa à esquerda do palco Thelonious Club Salguero 1.884, 1º andar, Palermo. Funciona de quarta a domingo, a partir das 21 horas. www.thelonious.com.ar Dica: sozinho, vale sentar no balcão. Peça a tábua de queijos
  15. 15. 28 29 Café Vinilo As casas do tipo “chorizo” (linguiça, em castelhano) existem aos montes em Buenos Aires. São construções do fim do século 19 onde há um pátio interno com- prido. Na lateral, cômodo atrás de cômo- do interligados por uma porta. E é numa dessas casas, no bairro de Palermo, que funciona o Café Vinilo. À primeira vista parece um restaurante charmoso com pé-direito alto, tijolo à vista, uma vitrola no canto e um telefone antigo. A entrada é pelo pátio lateral, com plantinhas e bancos de mosaico, como na casa da avó. Os poucos e bons pratos – saladas, crepes, tortas e sanduíches –, com gosto caseirinho, são ideais para quem quer sair de casa, mas continuar se sentindo nela. “Clube musical e gastronô- mico” é o slogan do Vinilo. A sala de espetáculos tem capacidade para cem pessoas. Verónica Epelman trabalha no mercado imobiliário, tem 38 anos e frequenta o Café Vinilo desde a inauguração, em 2009. “Meu marido e eu vamos pelo menos uma vez por mês. O ambiente é alegre, nos sentimos em casa. Da mocinha da bilheteria ao dono, todos nos conhecem”, diz. Mas não é só o aten- dimento que faz com que Verónica seja habitué. Além de jazz, ela é fã de tango e folclore, ritmos que também fazem parte da agenda do lugar. “Confio na progra- mação e venho de olhos fechados”, conta. Quem também escolheu o Vinilo para chamar de seu foi Adrián Iaies, pianista e diretor do Festival Internacional de Jazz de Buenos Aires. “Aqui na Argen- tina o músico não vive com o dinheiro que ganha tocando, mas, sim, gravando e produzindo. Logo, acaba escolhendo o clube onde toca por convicção”, diz. “É uma relação quase religiosa. Você termi- na elegendo um lugar porque gosta do camarim, da iluminação, da garçonete, do dono. O músico deve se sentir em casa.” Café Vinilo Gorriti 3.780, Palermo. Funciona segunda, das 12 às 16 horas, terça a sexta, das 12 as 2 horas, sábado e domingo das 20 horas à meia-noite. www.cafevinilo.com.ar Dica: após o show vá ao restaurante na parte da frente da casa
  16. 16. 30 31 Notorious Quem atravessa a pracinha que está na esquina da rua Marcelo T. de Alve- ar com a avenida Callao, no bairro da Recoleta, dá de cara com uma pequena joia: uma vitrine grande e muitos dis- cos. Música africana, raridades france- sas, brasileiros notáveis, jazz argentino e internacional. É aí que se começa a viver a experiência Notorious. Como se estar em uma boa loja de discos não fosse suficiente, um corredor com mesinhas, que, para quem vê de fora, parece um ingênuo café, conduz ao que seria o coração do lugar: uma sala com capacidade para 90 pessoas e, atrás dela, “um bem-vindo jardim para jazz ao ar livre”, como definiu a DownBeat, que também elegeu o Notorious como um dos melhores lugares do mundo para se ouvir o gênero. É a casa que mais recebe artistas do exterior. Não à toa, é sede do Festival In- ternacional de Jazz de Buenos Aires. “No Notorious o jazz nunca dorme”, afirma Boris Reith, responsável pela programa- ção. “Temos shows de domingo a domin- go e jam sessions gratuitas todas as sextas e sábados à meia-noite.” Os números também são generosos na carta de vinhos: há mais de 40 rótulos nacionais para acompanhar pratos típi- cos da cozinha argentina servidos. Quem é de fora adora. Caetano Velo- so já foi visto algumas vezes e João Bosco costuma almoçar por lá. “Vi o Nando Reis tocando sozinho, banquinho e violão, na minha frente”, conta a tradutora María Eugenia Gómez Barbosa, 30 anos. Nando Reis? Ele mesmo! A casa é do mesmo grupo da gravadora Random Records, o maior distribuidor de música brasileira fora do Brasil, e do programa Club Brasil, transmitido pela FM Mile- nium. Tá explicado por que o banheiro masculino é identificado por um quadri- nho de Chico Buarque e o feminino, por um de Bebel Gilberto. Boris Club Ele chama a atenção de quem passa pela altura do número 5.500 da rua Gorriti, em Palermo. Imponente, ilumi- nado, moderno. Inaugurado em 2010, leva o nome do escritor, dramaturgo, poeta, jornalista, engenheiro e músico de jazz, o francês multitasking Boris Vian. Multitasking também é a progra- mação, que inclui nomes do pop rock argentino, como David Lebón e Diego Frenkel, passando pelo trovador David Blanco. O que não impede que o Boris Club seja um dos endereços procurados pelos amantes de jazz na cidade e palco para grandes bandas, como a Ensamble Real Book Argentina, uma espécie de dream team do gênero. Esteban Sehinkman, 39 anos, encar- regado dos sintetizadores e arranjos, é também o líder da big band. Para ele, que morou em Chicago e pôde conhe- cer a cena norte-americana, as casas de jazz de Buenos Aires estão à altura dos clubes internacionais. O problema é o número, que não atende à demanda do público nem dos músicos. À altura dos clientes exigentes tam- bém estão a decoração, o sistema de som e o cardápio. Na casa com capacidade para 150 pessoas, os músicos, em frente ao telão, ficam em um palco cercado de mesas. Essa disposição permite escu- tar o ruído das teclas do saxofone e do piano. Do bar, repleto de garrafas em estantes de vidro de luz, saem tragos – coquetéis, em castelhano – recomen- dadíssimos pelo casal Federico Romag- noli, 32, e Romina García, 33. Enquanto o funcionário público vai de Suffering Bastard (bourbon, gin, hortelã e ginger ale), a designer indica o Bubble Love (champanhe rosé, morango, laranja e pimenta-negra) como acompanhamento ideal para uma noite fria de inverno. Notorious Callao 966, Recoleta. Funciona de domingo a domingo. www.notorious.com.ar Dica: a combinação do vinho Saint Felicien Malbec (Catena Zapata) com “ojo de bife” é uma ótima pedida Boris Club Gorriti 5.568, Palermo. Funciona de terça a domingo na hora do almoço e jantar. www.borisclub.com.ar Dica: o melhor drink é o Suffering Bastard
  17. 17. 32 33 Em agosto daquele ano, dois anos antes de morrer, Jorge Luis Borges veio a São Paulo para uma visita de dois dias. Deu palestra e entrevista, cantou milongas e calou Drummond. Aos 84 anos e cego havia três décadas, viu o Brasil pelos olhos de seu cicerone, o professor Jorge Schwartz. O autor do livro Borges no Brasil relembra a curta – e intensa – intimidade com o maior escritor argentino Por Jorge Schwartz ilustrações Zé Otávio 1984Borges em São paulo
  18. 18. 34 35 Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 1899. Morreu em Genebra, na Suíça, em 1986, derrotado por um câncer no fígado. “O mestre da fábula e da fantasia está morto”, deu no New York Times. Filho de um advogado com aspirações literárias, Borges acumulou leituras ainda menino, garimpando desde os 3 anos a biblioteca do pai. Adolescente, viveu com a família na Suíça. Na volta ao país natal, aos 22 anos, desovou a experiência europeia em contos. Publicou peças fundamentais da literatura mundial, como as coletâneas O Aleph e Ficções, recebendo a chancela de “o maior escritor argentino” (provavelmente, o maior latino-americano, numa disputa pena a pena com Machado de Assis). Nunca recebeu um Nobel. Sobre isso, primeiro disse: “Minha obra não precisa de prêmios. O tempo é curto, e eu sou um poeta velho e cego, como Homero, que não ganhou prêmios em sua vida”. Mas depois: “Um Nobel me deixaria morrer satisfeito”. Por fim: “Eu não mereço esse prêmio. Os suecos [que concedem a premiação] são muito sensatos. O Nobel foi recebido por Gide, Kipling, Faulkner, Juan Ramón Jimé- nez... Quem sou eu? Agora, que passei dos 80 anos e sei que não vou mais recebê-lo, finalmente posso ficar tranquilo”. Foi ensaísta, diretor de biblioteca, crítico e tradutor. Na maior parte da vida, residiu no sexto andar do edifício 994 da rua Mai- pú. Ali, recebeu fãs, deu entrevistas e ficou cego. Isso em 1955, num processo gradual de perda da visão que tomou uma década. Com essa condição, tornou-se dependente da mãe, de empregados e das companhei- ras (entre elas, a última, María Kodama) para ouvir os textos que gostaria de ler, para escrever os contos que inventava. O convite A vinda de Borges a São Paulo não estava prevista. Havia, sim, uma palestra agendada, na Universidade Federal de Santa Catarina, que foi suspensa por uma greve. Ao me inteirar da interrupção das atividades, con- sultei o anfitrião, o professor Raúl Antelo, para saber se haveria possibilidade de transferi-la para São Paulo. Dado o sinal verde, telefonei para Borges (quem me deu o número do apartamento da calle Maipú, em Buenos Aires, a mítica residência do escritor, foi Emir Rodríguez Monegal, seu melhor biógrafo). Borges é literatura por excelência. Difícil imaginar que ele pudesse responder a viva voce a um telefonema. Para minha enorme surpresa, quem atendeu foi o pró- prio. Apresentei-me, disse que era um estudioso de sua obra, e perguntei se estaria disposto a vir a São Paulo, visto que o evento em Florianópolis fora cancelado. A esposa de Borges, María Kodama, que estava naquele momento ao seu lado, confir- mou de imediato a agenda. Borges pediu apenas que, no hotel em que ficaria hos- pedado, tivesse “um banheiro previsto para uma pessoa cega”. Foi o que ele disse, e dessa forma, no único telefonema que lhe fiz. 1 à esquerda, borges e maría kodama se despedem do brasil na pista do aeroporto internacional de guarulhos. acima, Jorge Schwartz e borges numa suíte do hotel maksoud plaza RenatodosAnjos/Folhapress divulgação
  19. 19. 36 37 “Ao pisar no apartamento do escritor o desapontamento foi imediato”, relembra Augusto Massi. “Sentado à mesa, um guardanapo branco pendurado no pes- coço protegia o paletó cinza, ele tomava leite com Sucrilhos... Diante de tudo que a imaginação havia me prometido, aque- la cena revelava um aspecto extrema- mente prosaico. Depois, o mundo voltou a adquirir um contorno fantástico.” “Em 1970, eu era coordenador de um instituto de ensino conhecido como su- pletivo, na época, madureza”, conta Ban- tim. “Um dos professores de espanhol tornou-se amigo do secretário de Borges e veio nos perguntar se gostaríamos que o escritor fizesse uma palestra na escola. Tratamos de organizar a palestra. Audi- tório cheio, Borges falou generalidades sobre literatura. Então, se propôs a res- ponder a perguntas. Quando um aluno não muito brilhante levantou a mão, nós ficamos em pânico. ‘Aí vem bobagem’, pensei. Eis que o aluno perguntou para Borges o seguinte: o que ele que achava da coragem! Borges sorriu e falou pelo resto da noite.” Nos anos 1940, Borges viera ao Brasil e aqui permaneceu por dez dias. Em Sant’Ana do Livramento, no Rio Grande do Sul, testemunhou uma cena que ja- mais esqueceu, relembrada ao repórter Alessandro Porro: “Vi um homem matar outro. Assim: o reluzir de uma faca diante dos meus olhos, e um corpo cair sem gritos. Era a morte, em toda a sua essên- cia, como um documento. No momento, aceitei a cena sem turbamento, como um fato natural. Lembro que foi uma briga entre um negro e um branco, e o branco morreu. Mais tarde, sempre que pensei na morte, vi aquele episódio que teria preferido não ter visto. Tão real, tão frio, tirava da morte todo o seu indescritível mistério. Fosse cego àquela época, teria escutado o tombo do corpo e teria ima- ginado a morte. Mas assim, vendo, eu possuía apenas o registro insípido de um momento extraordinário. E nada mais”. JORGES Comecei a pensar em qual seria a melhor estratégia para fazer de sua vinda um evento digno de sua importância. Convidei Augusto Massi, que se formara na gra- duação na área de espanhol e que, na época, era editor de livros na Folha de S.Paulo. Massi não apenas aceitou como teve a delicadeza de ir a Buenos Aires para acompanhá-lo na viagem ao Brasil. Assim chegaram os três, Massi, María Kodama e Borges, ao aeroporto de Congonhas. Eram 22h30 de 12 de agosto de 1984, uns dias antes do 85º aniversário de Borges. Ao entrarmos no carro, me apresentei. Borges deteve-se na etimologia do meu nome, uma vez que coincidia com o dele. Buscou na memória a origem de nossos Jorges, chegando então às Geórgicas, a imensa obra em que o poeta romano Virgílio se de- bruçava sobre a vida rural. Era perceptível que Borges habitava um cotidiano dentro de um universo mental literário. Um universo presente a todo momento. Mais tarde naquela viagem, durante uma palestra, o escritor diria ter sido iniciado nesse mundo de leituras, sentidos e palavras aos 3 anos: “Tenho a impressão de não haver saído nunca da biblioteca de meu pai, à qual devo tanto, talvez tudo...”. BORGES NA MADUREZA Agosto de 1984 foi a última vinda de Borges ao Brasil, a segunda a São Paulo; a ante- rior ocorrera em 1970, para receber o Prêmio Interamericano de Literatura, criado por Francisco Matarazzo Sobrinho. Aceitou assim um cheque de US$ 25 mil, das mãos do próprio Ciccillo (o apelido de Matarazzo). Naquela viagem, hoje esquecida um pouco pelo tempo, Borges curiosamente visitara o Curso de Madureza Santa Inês (!), em São Paulo. Não fosse o registro fotográfico, diríamos que não passou de uma ficção borgiana. Ele veio acompanhado nessa ocasião pelo tradutor Norman Thomas Di Giovanni e, na mesa da palestra no Curso Santa Inês, encontravam-se, entre ou- tros, o editor José Bantim Duarte e o ensaísta Antônio Medina Rodrigues. BORGES COM ESCRÚPULOS A viagem a São Paulo em 1984 foi programada exatamente para dois dias, uma vez que, logo após o retorno a Buenos Aires, Borges tinha agendada com seu médico uma consulta que não podia ser protelada. Um ano mais tarde seria diagnosticado o câncer de fígado, que o levaria à morte, em Genebra, em 14 de junho de 1986. Foi montada uma estratégia. A Universidade de São Paulo não mostrou interes- se especial pela presença de Borges – e essa foi uma das razões de não ter sido dada nenhuma palestra na Cidade Universitária da USP. O empresário Henry Maksoud ofereceu três quartos em seu elegante hotel na região da avenida Paulista: para Borges, para María Kodama e para mim, já que seriam dois dias intensos, dedicados integralmente à sua presença. Era comovedor ver María, com a delicadeza com que sempre o tratou, descrevendo-lhe os espaços pelos quais circulavam. Até mesmo ajudando Borges a “enxergar” a vista panorâmica do elevador do hall interno do Maksoud Plaza. Os três cafés da manhã foram um verdadeiro acontecimento. Curiosamente, Borges preferia descer até o restaurante do Maksoud a tomar o café no quarto. Lá, já estavam amigos e colegas, convidados de antemão, muito atentos, muito excita- dos, para de alguma maneira participar de sua conversa. Houve um episódio mais do que interessante. Borges pediu chá “com um escrúpulo de leite”. Pensamos não ter ouvido direito. O estupor causado pela frase fez com que Borges explicasse, com enorme simplicidade, que essa palavra, “escrúpulo”, era usada pelos alqui- mistas medievais para medir os elementos, mas que, na atualidade, não ficara mais nada além do seu sentido metafórico. (Pesquisando, mais tarde, de fato confirmei que se tratava, na Idade Média, de uma medida de peso.) Foi assim que se tornou possível compartilhar de forma mais íntima, e sempre surpreendente, da presença do maior escritor argentino. divulgação 2 3 4 “Borges era simpático, polido e gostava de declamar”, recorda Augusto Massi, na época com 25 anos. “No Maksoud, estávamos descendo um daqueles eleva- dores panorâmicos do hotel. De repente, ele começa a cantarolar uma de suas milongas: ‘Me acuerdo. Fue em Balva- nera/ En una noche lejana/ Que alguien dejó caer el nombre/ De um tal Jacinto Chiclana’. Em outra ocasião, fui buscá-lo para que concedesse a sua primeira en- trevista coletiva. A porta do quarto esta- va levemente aberta. Parecia não haver ninguém. Mas, assim que entrei, o quarto quase completamente escuro, pude ver Borges sentado, segurando sua bengala, recitando: ‘Na mão de Deus, na sua mão direita,/ descansou afinal meu coração...’, versos do português Antero de Quental [1842-1891].” acima, borges conversa, durante uma coletiva de imprensa no maksoud plaza, com o editor augusto massi, destacado por jorge schwartz para buscar o escritor em buenos aires 36
  20. 20. 38 39 DRUMMOND SEM PALAVRAS A primeira apresentação pública ocorreu no auditório da Folha de S. Paulo, que de alguma maneira patrocinou a vinda de Borges e de María Kodama e encampou o evento do ponto de vista jornalístico. Borges, que sempre foi avesso ao surrealismo, estava no centro de um happening que poderia ser chamado surrealista. O estacionamento interno da Folha foi utilizado como auditório, lotadíssimo de pessoas. Os entrevistadores éramos Caio Túlio Costa, Davi Arrigucci Jr., Raúl Antelo, Augusto Massi e eu. Literalmente, o que era para ser um diálogo com um escritor cego virou, por questões acústicas, um diálogo de surdos. A ressonância, os caminhões estacionando e as impressoras rotativas impediram quase totalmente a audição. Mesmo assim, a presença mágica de Borges transformou o evento em algo memorável. Vê-lo era uma felicidade quase maior do que ouvi-lo. Assistir a Moisés descendo do Monte Sinai com as Tábuas da Lei não poderia ter tido maior efeito! A segunda apresentação (que deveria ter acontecido na USP) foi realizada no Masp. Pietro Maria Bardi, diretor do museu, aceitou de imediato sediar o evento. O grande auditório lotou, muitas pessoas que não conseguiram entrar ficaram iradas, até o professor Bardi mandar cerrar a cortina metálica da escadaria do museu, para poder dar início à palestra. As perguntas foram todas solicitadas antecipadamente. Lembro, ainda hoje, o que Carlos Drummond de Andrade me disse ao telefone: “Fico desvanecido com o convite, mas não tenho nada a perguntar ao Borges”. O evento foi pouco menos que extraordinário. Borges respondeu a todas as questões com a maior paciência. Em momento algum mostrou estar cansado ou in- quieto. No final da apresentação, o professor Rui Coelho, então diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ofereceu-lhe um exemplar da pri- meira edição de Os sertões, de Euclides da Cunha, da coleção de José Mindlin. Borges abraçou o volume e abriu um sorriso. O mais largo de toda a sua estada. “Borges foi recebido como um músico pop”, afirma Massi. “Na chegada a Con- gonhas, não havia nenhum esquema de escolta. Ele desembarcou de cadeira de rodas, tinha problemas de circula- ção após ficar muito tempo sentado. No caminho até o taxi, uma multidão avançou sobre ele. María Kodama e eu ficamos assustados. Outra situação de risco aconteceu no auditório do Masp. Deveríamos ter entrado pelos fundos do museu e saído diretamente no palco. Mas o esquema também não funcionou. Tive- mos que ingressar como qualquer pessoa da plateia. Dá até vergonha de lembrar. Descemos todos aqueles degraus até chegarmos ao palco. As pessoas queriam tocá-lo, o puxavam pelo terno, gritavam coisas no seu ouvido. Hoje me dou conta de como éramos amadores. Mas, no fim, tudo deu certo. Ele, por sua vez, nunca perdeu a fleuma.” Massi conta que Borges era espirituoso: “Durante o almoço na Folha, ele pergun- tou como Getúlio Vargas havia se mata- do. Na sequência, fez o seguinte comen- tário: ‘Um balaço no peito? Bom, penso que um balaço na boca é muito mais seguro’. E depois de gravar uma longa entrevista para a televisão, na boate do Maksoud, a 150 Night Club, comentou: ‘O Brasil foi o único país que conseguiu me levar a um night club’. Hoje, passados quase 30 anos, a ideia de que eu trouxe Jorge Luis Borges ao Brasil me parece um pouco borgiana. Ele continua sendo Borges, eu pareço um intruso”. 5 na página ao lado, caio túlio costa, maría kodama, raúl antelo, borges, schwartz e davi arrigucci jr. no debate da folha. acima, o escritor em companhia de maria kodama é cercado pelo público JorgeAraújo/Folhapress REGINALDOMANENTE/AGENCIAESTADO 38
  21. 21. 40 41 LAURA CATENA pergunta: CACÁ DIEGUES responde: Não há razão para isso não acontecer. Os filmes brasileiros, argentinos, cubanos, chilenos e mexicanos já se impuseram mundialmente por suas qualidades tématicas e técnicas. Alguns têm sido premiados nos festivais internacionais. Nem todos chegam ao mercado comercial, mas esse é um fenômeno mundial que não acontece só com nossos filmes: cada vez mais filmes são feitos e as salas não se multiplicam. O cinema sul- americano compete com o que há de melhor no mundo?
  22. 22. Por Maria Lucia Rangel, do Rio de Janeiro Fotos Marcelo Correa Aos 72 anos, Cacá Diegues, o fundador do Cinema Novo e diretor do clássico Bye bye Brasil, conta por que decidiu voltar a filmar: “Se isso sair da minha vida, viro um débil mental” 43 CINEMA DE NOVO
  23. 23. 44 45 Personnalité cacá diegues 45 Em 1979, entrevistei Cacá Diegues para o Caderno B do Jornal do Brasil. O diretor tinha 40 anos e acabara de filmar o clássico Bye bye Brasil quando disse: “Recuso-me a perenizar a minha adolescência. Acho, aliás, que o grande problema do cinema brasileiro hoje é de jovens cineastas. Está na hora, de uma vez por todas, de criar condições para que esses jovens cineastas comecem a fazer filmes”. Trinta e três anos depois, reencontro um dos fundadores do Cinema Novo (com o filme 5x Favela, de 1962) para uma conversa em seu apartamento no Rio de Janeiro. Nesse in- tervalo, Cacá dirigiu títulos como Dias melhores virão (1989), Veja esta canção (1994), Tieta do agreste (1996), Deus é bra- sileiro (2003) e O maior amor do mundo (2006). Mais recen- temente, escreveu um livro de memórias que lhe consumiu cinco anos e deve ser lançado em 2013 (o cineasta selecio- nou trechos, apresentados ao longo da entrevista). Nesta conversa, Cacá Diegues fez um balanço de sua trajetória. Ele afirmou, por exemplo, que deve ao cinema tudo o que sabe. “Se sair da minha vida viro um débil men- tal”, diz. Até por isso, agora, aos 72 anos, o diretor planeja um retorno à tela grande. Está prestes a realizar o sonho antigo de filmar O grande circo místico, baseado no poema de Jorge de Lima (1893-1953), para ele o maior poeta da língua portuguesa. Será seu 17º longa-metragem. Cacá não esconde que vive uma fase feliz. Mudou de casa – voltou a morar de frente para o mar –, está casado desde 1981 com Renata de Almeida Magalhães, que conhe- ceu num set de filmagem e hoje é sua produtora, os filhos vão bem e, entre os netos, a mais nova, Flora, o surpreen- deu ao anunciar que deseja fazer cinema. O diretor também vive dias de bem com o país. Para ele, as patrulhas ideológicas ficaram no passado. O termo foi uma brincadeira inventada por Diegues quando o Brasil co- meçou a se democratizar: “As pessoas, em vez de usar essa liberdade, ficavam se castrando, se policiando, se patru- lhando”, conta rindo. “Não sou cientista político, mas esses últimos 20 anos foram os 20 anos de ouro na história da república brasileira. Nunca tivemos um período tão liberal e tão democrático tão longo. As coisas, mesmo não dando certo na velocidade que gostaríamos, estão dando certo.” O que o levou a escrever um livro de memórias? Cinco anos atrás a editora Objetiva fez o contato comigo. Queriam que eu escrevesse umas memórias não muito pes- soais – não gosto de falar de mim – mas sobre minha relação com o cinema brasileiro, o que vi acontecer como partici- 1. com a equipe de ganga zumba (1963). 2. cacá em 1969, quando filmou os herdeiros. 3. dirigindo chuvas de verão (1978). 4. com o elenco de 5x favela (1962). 5. ao lado da atriz parisiense jeanne moreau, na locação de joanna francesa (1973) pante, como protagonista, como coadjuvante e como ciné- filo. Comecei a trabalhar e cheguei a mais de 800 páginas... E aí não dá, né? Ninguém compra um livro de 800 páginas. No momento estou reduzindo. Deve ser lançado em mea- dos do ano que vem. Está com o título provisório de Meu almanaque íntimo do cinema brasileiro. Você começa o livro em Maceió? Tem uma parte lá, sim. Explico quem é minha família e o ambiente cultural de onde vim. Falo muito do meu pai – o antropólogo e sociólogo Manuel Diegues Junior. O cen- tenário dele é comemorado este ano. Toda minha família está lá. Como minha mãe odiava o Rio, achava a cidade muito violenta, agitada, com muita gente na rua – imagi- ne, naquela época! – voltávamos a Maceió nas férias. Mi- nha infância, até os 14, 15 anos, foi passada lá. Enquanto o Rio era o lugar da prisão, do Colégio Santo Inácio, de não poder sair porque minha mãe não deixava, Maceió era outra coisa: era a liberdade. As famílias de meu pai e de minha mãe são de Alagoas. Meus pais e os quatro filhos – sou o segundo – morávamos em Maceió, até que meu pai foi convidado a trocar a cidade pelo Rio de Janeiro, então a capital do país. Cheguei muito jovem, tinha apenas seis anos. Durante toda a “entre fazer e ver filmes, prefiro ver. tudo o que sei aprendi com o cinema” 1 2 4 5 3 arquivopessoal
  24. 24. 46 47 cacá dieguesPersonnalité minha infância e adolescência, retornávamos até Maceió para as férias de verão. Depois disso, já casado e com filhos, voltei em várias outras ocasiões relacionadas a compromissos familia- res ou algum lazer. E, mais tarde, para filmar Bye bye Brasil e Deus é brasileiro. Mesmo morando definitivamente no Rio, a casa de meus pais vivia impregnada do espírito de Alagoas, seus perso- nagens, histórias, fofocas, costumes e cultura, como se ainda estivéssemos em Maceió. (Trecho de Meu almanaque íntimo do cinema brasileiro.) O livro se fixa nas lembranças mais marcantes? O melhor período da minha vida foi o do Cinema Novo. Digo isso sentimentalmente, e não em termos de amores, mas de vida, como cidadão. Tinha 17, 18 anos, quando en- contrei aquelas pessoas que tinham o mesmo sonho que eu. Conheci Glauber [Rocha] com 18 anos. [Luiz Carlos] Barreto e David [Neves] logo depois. Eu adorava cinema, fazia caderno com ficha técnica, crítica do que tinha achado do filme, tinha uma grande obsessão por aquele mundo, mas, confesso, nunca me acorreu que podia ser cineasta. Só quando conheci essas pessoas com o mesmo sonho. Você cursou direito na PUC, foi presidente do Diretório Estudantil, fundou um cineclube e começou a fazer ci- nema amador na época de faculdade. Mas era jornalista também, diretor do jornal de estudantes O Metropolita- no. Por que jornalismo? Adoro jornalismo. De certo modo, pratico até hoje. O Metro- politano foi em 1959 e o jornalismo para mim era uma coisa paralela. Naquela época a universidade era o centro cultural do país. Os acontecimentos se passavam nela, como a bossa nova e o cineclube da PUC, que eu fundei. Começamos a nos encontrar na cinemateca do Museu de Arte Moderna, dirigido pelo crítico de cinema Moniz Vianna. Sentávamos Paulo Perdigão, José Carlos Avellar, Sérgio Augusto, David Neves, Arnaldo Jabor. Acho que foi o período mais solar da minha vida. A gente passava o dia inteiro falando sobre cinema, pelo menos umas dez pessoas, andando pra cima e pra baixo, achando que iríamos mudar o mundo com nosso cinema. Isso durou até 1968, quando a barra política militar pesou e a gente começou a se distanciar e a viajar. Saí do Brasil, o Glauber e o Ruy Guerra também. Mas até 1968 – eu tinha 28 anos – foram dez anos muito solares. Vocês podem não ter mudado o mundo, mas não acha que mudaram o Brasil? Tenho certeza disso. Descobrimos que o cinema não mudava o mundo, mas mudava a maneira de ver o mundo. Depois do Cinema Novo o Brasil não poderia mais ser o mesmo. É um marco cultural que está aí, como o Modernismo, a música de Villa-Lobos, a bossa nova, o time brasileiro de 1970, Pelé, coisas que marcaram a alma brasileira. Não quero reproduzir isso, nem é o caso, pois é uma coisa de 50 anos atrás. Mas me lembro que escrevi um artigo muito triste naquela época, em que dizia que a metralhadora é mais poderosa do que a câme- ra, mas a câmera é que iria mudar o jeito de ver o mundo. Um dos maiores equívocos, entre tantos outros criados a propósito do Cinema Novo, é o de pensar que não tínhamos nenhum interesse pela técnica cinematográfica, que não nos in- comodávamos com ela. Muito pelo contrário, foi o Cinema Novo brasileiro que introduziu a moderna tecnologia audiovisual no Brasil e na América Latina, a partir do início dos anos 1960. Assim como sem os modernos microfones mais sensíveis não haveria bossa nova, sem o negativo Tri-X e as câmeras europeias não haveria Cine- ma Novo. (Trecho de Meu almanaque íntimo do cinema brasileiro.) Reproduzir aquela época é impossível, mas houve algu- ma coisa dessa vontade de mudar o mundo quando você criou e produziu em 2010 o 5x Favela – Agora por nós mesmos, um projeto que se originou de um filme seu de 1962 e que é considerado fundador do Cinema Novo? Esse projeto é um grande sucesso, felizmente. Eu sabia que estava assistindo – e estou ainda – ao nascimento da primei- ra geração de cineastas moradores de favela. O filme não só foi um prazer pessoal grande, porque estava lidando com jovens cineastas, com ideias novas, e você sabe como isso me rejuvenesceu. Ao mesmo tempo ele fechou um ciclo, mostrando que o cinema brasileiro existiu durante todo esse tempo – e está aqui o que liga uma coisa a outra. Os cineastas o procuraram? Em antigas entrevistas você diz que conhecia bem a cidade, zona sul e zona norte, até porque começou filmando na zona norte. E agora descobriu o morro. “descobri que o cinema não muda o mundo, mas muda, sim, a maneira de vê-lo”
  25. 25. 48 49 Personnalité cacá diegues 48 Não, fui eu que decidi fazer. No final dos anos 80, início dos 90, quando começaram a se formar esses coletivos de favela, AfroReggae, Cufa [Central Única das Favelas], Nós do Morro, me chamaram para dar aula de cinema. Pensava que encontraria um bando de ignorantes. Mas na primeira aula, na Cufa, deparei com 120 meninos inscritos, o que já foi uma emoção, e 15% deles já tinham feito um filme com ce- lular ou smartphone. A primeira aula foi sobre o filme deles. Conversando com Renata [Magalhães, mulher e produtora de Cacá], pensamos no projeto 5x Favela. Montamos um esque- ma, criamos oficinas, mas foi um filme concebido, escrito e realizado por eles. Estou felicíssimo porque eles entraram no mercado de trabalho: televisão, publicidade e cinema. Eu conto isso nas memórias. E agora, com O grande circo místico, você volta ao cine- ma depois de seis anos. Seu último longa de ficção foi O maior amor do mundo, de 2006. É. Vou voltar a fazer cinema [risos]. Fiz documentários nes- se período, como Nenhum motivo explica a guerra [2006], a história do grupo cultural AfroReggae, formado na favela carioca de Vigário Geral depois da chacina de 1993. E termi- nei agora [o curta] A cidade em trânsito, sobre a passagem do Rio de Janeiro violento para o pacificado. O circo místico, baseado no poema de Jorge de Lima [1893-1953], é um velho sonho. Sou doido pelo Jorge de Lima, é meu poeta preferido. Usarei a trilha de Chico Buarque e Edu Lobo, mas não farei um musical. Já tenho dois atores confirmados, Lázaro Ramos e João Miguel. Vou precisar de intérpretes estrangeiros para encarnar o mágico francês e a imperatriz austríaca. O filme será uma coprodução com Portugal e França. Do que você gosta no que tem sido feito no cinema no Brasil e no exterior ultimamente? Fiquei muito emocionado quando abri o jornal e vi a relação dos filmes brasileiros escolhidos para o Festival do Rio. Tiran- do o Domingos de Oliveira e o José Eduardo Belmonte, são todos estreantes. Isso é uma prova da permanência do cinema brasileiro. São gerações que se revezam, vindas de várias re- giões. O Cinema Novo não passava de uma dúzia de pessoas. Que diretores e filmes mais recentes você destacaria? Transeunte, de Eryk Rocha, filho do Glauber, belíssimo. Eryk é totalmente diferente do pai, mas tem o talento de um cineasta. Ele faz um cinema delicado. em sentido horário, a partir do alto: durante divulgação de xica da silva em 1976; gravação de um trem para as estrelas, de 1987; no caminhão caravana rolidei de bye bye brasil, em 1979 _ “O dia em que Cacá me apresentou Glauber Rocha” Por Maria Lucia Rangel Aquela noite no Antonio’s foi especial. Eu ia muito ao restaurante do Leblon frequentado por Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Tônia Carrero, Rubem Braga, Fernando Sabino e toda a fauna ipanemense. Mas naquela data, era 1976, logo que pisei na varanda vi o casal Nara Leão e Cacá Diegues sentado com Glauber Rocha, recém-chegado de um exílio de cinco anos. Só conhecia o diretor de Terra em transe de nome e fotografia. Fui falar com Nara e Cacá e ouvi Glauber pedindo a ele: “Me apresenta”. No ano seguinte, quando fiz minha primeira entrevis- ta com Glauber para o Caderno B, do Jornal do Brasil, já éramos grandes amigos. Ainda transtornado com a morte trágica da irmã, Anecy, não conseguira vibrar nem com o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes por seu curta-metragem Di Cavalcanti, filmado durante o velório do pintor. Em pé de guerra com a esquerda, a direita e o cen- tro, ele mandou ver: “As pessoas que combatem o regime militar não merecem o meu respeito”. Os únicos amigos que entenderam e respeitaram sua surpreendente posição foram Cacá e o jornalista Zuenir Ventura. Com Zuenir, passei uma madrugada acompanhando Glauber em interrogatórios ao porteiro e vizinhos do prédio onde Anecy caíra no poço do elevador. O próprio Glauber conta essa história no livro Riverão Sussuarana, nos tratan- do pelas iniciais Z.V. e M.L.R. Sentados na beira da calçada da rua em Botafogo, lá pelas três da manhã, Zuenir pediu arrego: “Vamos embora porque o Glauber está quase nos convencendo que a Anecy foi assassinada”. No dia do enterro de Di Cavalcanti, Glauber me ligou cedo para contar que tinha conseguido alguns filmes com Mário Carneiro e iria fazer um documentário. À primeira exibição na TVE ele assistiu comigo, já que não tinha tele- visão em casa. E não se conformou quando a filha adotiva de Di, Elizabeth, proibiu na Justiça a exibição do filme por considerá-lo ofensivo. Nem sei mais quantas entrevistas depois, ele me convidou para atuar em seu último filme, Idade da Terra (1980). “Eu escrevo um papel pra você”, insistiu. Não aceitei. Era apenas uma repórter. Me arrependi. arquivopessoal
  26. 26. 50 51 Personnalité cacá diegues Nas memórias, você fala de sua experiência de morar na Europa? Conto várias coisas, como meu encontro com Truffaut. Foi muito importante. Eu o adorava. Almoçamos naquele restaurante, Val d´Isère, na Rue de Berri, em Paris, onde ele filmou a cena final de La Peau Douce [Um só pecado, 1964]. Falo também da última vez em que vi Glauber. Em junho de 1981, dois meses antes de ele morrer, fui a Sintra, em Portu- gal, tentar trazê-lo de volta ao Brasil. Glauber já estava mui- to doente. Passamos quatro dias juntos. Foi uma coisa ina- creditável. Glauber era um homem extraordinário, com um amor imenso pelo Brasil, pelo Cinema Novo e pelos amigos. Falávamos sempre por telefone. Glauber era muito amigo do Raphael de Almeida Magalhães, pai da Renata, minha mulher. Chegou a convidá-lo para o papel de Paulo Martins em Terra em transe; Raphael até aceitou, mas Mitzi, mãe da Renata, não deixou. Pouca gente sabe, mas o jornalista Jânio de Freitas e Tom Jobim também foram sondados para esse papel, que acabou entregue a Jardel Filho. No dia 20 de agosto, eu estava em Maceió, par- ticipando de um seminário sobre Palmares, orga- nizado pelo [historiador e jornalista] Décio Freitas, quando recebi um telefonema do [diplomata] Cel- so Amorim. Glauber estava com septicemia gene- ralizada [causada por uma broncopneumonia] e ia embarcar imediatamente para o Brasil, em estado semiconsciente. Era melhor eu voltar para o Rio, o mais depressa possível. Ainda cheguei a tempo de vê-lo pela última vez, num momento em que o doutor Pedro Henrique Paiva julgou conveniente deixar-nos entrar no quarto do hospital, para nos despedirmos dele. Glauber me olhou com os olhos semiabertos, certamente sem plena consciência do que estava acontecendo. Ele tentou sorrir e me chamou de “mestre”, como costumava fazer quan- do queria agradar alguém, com uma voz lenta e baixinha, de cansaço infinito. Tinha 42 anos e era o melhor de todos nós. (Trecho de Meu almana- que íntimo do cinema brasileiro.) Você prefere repetir parcerias quando filma, trabalhar com os mesmos profissionais, como o Woody Allen? Eu diria que gosto de trabalhar com meus amigos. Dá mais certo. Você tem não só a dedicação profissional mas tam- bém os laços sentimentais. Agora, também gosto de traba- lhar com gente mais jovem do que eu. Isso me rejuvenesce. Afonso Beato, por exemplo, foi produtor, com David Neves, do meu primeiro curta-metragem, chamado Domingo [1961], mas depois foi trabalhar como diretor de fotogra- fia nos Estados Unidos e na Europa. Quando ele voltou, peguei-o para fotografar Orfeu, em 1999. Em O circo místico vou trabalhar com Gustavo Hadba, que foi câmera do Afon- so, inclusive nos filmes que fizemos juntos. Os filmes de estrada são uma constante em sua filmo- grafia. É pelo tamanho do Brasil? O que você gosta ne- les? O grande circo místico também será assim? Será um pouco de estrada, sim. Gosto de filmes de estrada, não só pelo tamanho do Brasil, mas porque eles permitem falar de várias coisas. O importante não é o leito da estrada, mas o que está ao lado. Não sou um romancista, mas um contista. Então, meus filmes têm sempre uma espécie de estrutura coral, com várias vozes. E o filme de estrada é muito próximo disso. Nele você pode perfeitamente falar de um personagem que aparece só cinco minutos e depois vai embora. Mesmo um filme que dirigi sem sair do Rio, Um trem para as estrelas [1987], é, no fundo, um filme de estra- da, mostrando um menino viajando pela cidade, à procura da namorada que sumiu. Dá mais trabalho, porém é mais divertido. Permite a improvisação. E você continua se divertindo enquanto filma? Muito. Só gosto de filmar porque é muito divertido. Detesto filmagens tensas, com as pessoas gritando e brigando. Fil- mar é o momento mais feliz da vida de um homem, então tem que ser feito com alegria e diversão. Não consigo enten- der os cineastas que se dizem aliviados e dão graças a Deus quando terminam de rodar um filme. Você vai muito ao cinema? Sempre fui. Mas este ano fui muito pouco. Talvez tenha ficado mais preguiçoso e com esse negócio de Apple TV, Netflix [serviços de exibição de vídeo via internet] fica mais fácil você ver filme em casa. Mas, se Deus me obrigasse a escolher entre fazer e ver cinema, eu escolheria ver. Tudo que sei aprendi com ele. Se o cinema sair da minha vida, viro um débil mental. Cinco vezes Cacá Entre os 19 filmes do cineasta, o crítico José Geraldo Couto escolhe os fundamentais A grande cidade (1965) – Tragédia social e amo- rosa em torno de uma moça nordestina recém- chegada ao Rio de Janeiro. O filme mais forte de Diegues na fase heroica do Cinema Novo. Xica da Silva (1976) – Versão carnavalizada da história da ex-escrava que virou madame em Diamantina na época da mineração. A carac- terização de Zezé Motta como a protagonista marcou época. Chuvas de verão (1978) – A história de amor en- tre um viúvo e uma solteirona traz atuações me- moráveis de Jofre Soares e Miriam Pires e uma aguda observação da vida no subúrbio carioca. Bye bye Brasil (1980) – A Caravana Rolidei percorre o interior do país e se defronta com a padronização causada pela TV. Road movie pre- cursor de Central do Brasil e À beira do caminho. Deus é brasileiro (2002) – Nesta comédia pica- resca inspirada em conto de João Ubaldo, Deus (Antonio Fagundes) vem tirar férias na Terra e toma como guia um borracheiro e pescador (Wagner Moura). no alto, com marília pera durante as gravações de dias melhores virão (1989). acima, ao lado do escritor jorge amado, conferindo um trecho de tieta do agreste, filmado em 1996 arquivopessoal
  27. 27. Personnalité 52 Por Ricardo Calil Às vésperas do início da 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Renata de Almeida, diretora do evento, relembra momentos marcantes do festival a partir de oito pôsteres favoritos Os cartazes da Mostra sempre foram uma atração à parte dentro do maior evento cinematográfico de São Paulo. Sobrenomes como Tarantino, Angeli, Antonioni, Fellini e Babenco já assinaram a concepção dos pôsteres. Organizadora da festa há 24 anos, Renata de Almeida escolheu para a Revista Personnalité seus oito cartazes favoritos. Ao revirar esse arquivo, relembrou as histórias que leva- ram o evento modesto – criado há 36 anos pelo seu ex-companheiro, o crítico Leon Cakoff, morto no ano passado – à consa- gração como uma das mais importantes datas do calendário cinematográfico mun- dial. Amos Gitai, Wim Wenders, Pedro Almodóvar, Manoel de Oliveira, Quentin Tarantino e Abbas Kiarostami são alguns dos diretores que vieram lançar filmes durante as duas semanas anuais de even- to. A nova edição – a primeira depois da morte de Cakoff – acontecerá entre 19 de outubro e 1o de novembro e trará mais de 200 filmes inéditos no Brasil. Cartazesà mostra O Irã no Brasil A 14a edição da Mostra foi marcada pelo Plano Collor – ou “golpe Collor”, como preferia Leon Cakoff. Com menos recursos, o evento foi feito no sufoco. “Não tem jeito. O patrocínio ou a falta dele sempre se reflete na programação”, afirma Renata de Almeida, que começou a trabalhar no festival um ano antes. “O cartaz do Angeli é um clássico, uma linda homenagem ao público da Mostra. Mas o catálogo desmanchava na mão, o papel era ruim. Faltou até o dinheiro que a gente achava que tinha”, conta. “Essa edição também ficou na história pelas primeiras sessões de filmes iranianos no Brasil”, afirma Renata, referindo-se a Close up, de Abbas Kiarostami, e O ciclista, de Mohsen Makhmalbaf, dois cineastas que passa- riam a ser cultuados por aqui. “A gente descobriu os iranianos antes do Festival de Cannes.” 1990 divulgação
  28. 28. 5554 Cinema e jornalismo “Se você olhar para o passado da Mostra, tem muito da história do que acontecia no país e no mundo naquela época. A gente está sempre conversando com o nosso tempo. É um trabalho quase jornalístico”, afirma Renata. E o pôster da 16a edição deixava essa vocação ainda mais evidente, com uma foto tirada por Eder Chio- detto de uma manifestação pelo impeachment de Fernando Collor diante do Masp. “Era nossa homenagem ao poder dos caras-pintadas.” Por falar em jovens poderosos e anônimos, Quentin Tarantino veio apresentar seu longa de estreia, Cães de aluguel, e passou praticamente desper- cebido pela cidade. “Ele era um cinéfilo invete- rado mesmo. Ficou uma noite sem dormir lendo os catálogos das Mostras anteriores. Viu todos os filmes que conseguiu. Lembro de assistir a Dias selvagens [de Wong Kar-wai] ao lado do Quentin, e ele pulando da cadeira numa cena: ‘Vou copiar isso num filme meu!’.” A viagem renderia frutos a Tarantino: foi em São Paulo que ele conheceu a atriz portuguesa Maria de Medeiros, que viria a estrelar seu longa seguinte, Pulp Fiction. 1992 A batalha alfandegária Quem frequentou o começo da Mostra se lembra que muitas sessões eram uma incógnita: não se sabia se o filme programado seria liberado pela al- fândega a tempo. “O Leon Cakoff ia para os jornais reclamar, eu tinha até medo que fizessem alguma coisa com ele”, conta Renata. Mas, na edição de 20 anos da Mostra, Cakoff ganhou a parada: ele aju- dou a criar uma instrução normativa facilitando o trânsito de obras de arte no Brasil – o que se torna- ria um marco para o evento e para o país. A edição de aniversário foi feita sob o signo do Japão. O cartaz foi assinado por Akira Kurosawa e a retros- pectiva foi dedicada a Eizo Sugawa. “A gente deve essa ao Carlão [o cineasta Carlos Reichenbach, que morreu neste ano]. Foi ele que nos convenceu a trazer a obra do Sugawa, que havia conhecido nos cinemas da Liberdade nos anos 60”, diz. “O Sugawa já estava esquecido no Japão, mas aqui foi tratado como um Tarantino. Ele morreu dois anos depois, ainda muito grato a nós.” Como homena- gem a Carlão e a Sugawa, a Mostra fará em 2012 uma sessão dupla com um filme de cada cineasta. 1996 Melancolia e alegria de Sokúrov Um caso de pôster “adulterado” pela Mostra: o cineasta russo Aleksandr Sokúrov (Arca russa) enviou o desenho de uma árvore. “Nós achamos meio triste, meio sombrio. E o Sokúrov é mesmo uma figura meio melancólica”, conta Renata. Então o designer Ebert Willian multiplicou o número de árvores e emprestou cor ao pôster. Já em São Paulo, Sokúrov ficaria surpreso com a recepção calorosa. Houve fila de dobrar o quar- teirão para assinar um livro sobre sua obra e sala lotada até a madrugada para um debate. “O pú- blico é bem formado. Ele quer ver o que passou por Cannes, mas também quer fazer descober- tas.” Ao final da Mostra, Sokúrov comentou com Renata: “Agora eu entendi por que não podia ser só uma árvore. Ela ficaria muito solitária para um brasileiro”. O público premiaria ainda dois filmes que se tornariam sucessos: a ficção argentina o Filho da noiva, com Ricardo Darín, e o documen- tário Tiros em Columbine, de Michael Moore. 2002 Encontros e desencontros Na 27a edição, Leon Cakoff aproveitou a presença de vários convidados estrangeiros e realizou um filme produzido pela Mostra. Bem-vindo a São Pau- lo reuniria 17 episódios filmados na capital por dire- tores como o australiano Phillip Noyce, o americano Jim McBride, o israelense Amos Gitai, o finlandês Mika Kaurismäki e o malaio Tsai Ming- liang. “O Leon era insistente, batalhou muito para que eles rodassem no meio do evento. Eles acaba- ram entrando na brincadeira.” Foi uma edição com forte presença do passado, com retrospectivas dos japoneses Yasujiro Ozu e Kiju Yoshida e exibições especiais de clássicos como A casa do mistério (1923) e Chicago (1927). Mas o futuro do cinema também deu as caras em filmes como Encontros e desencontros, de Sofia Coppola, filha de Francis Ford Coppola, que ganhou o prêmio da crítica. O cartaz é assinado por Atom Egoyan, cineasta cana- dense que, como Cakoff, tem origem armênia. 2003 divulgação
  29. 29. O ano de Tarkovski Neste ano, o grande homenageado da Mostra será o cineasta russo Andrei Tarkovski, de Solaris (1972) e O sacrifício (1986), que completaria 80 anos em 2012. Além de uma retrospectiva com dez filmes de ou sobre Tarkovski, haverá uma exposição no Masp com polaroids tiradas pelo artista em seu país natal e em seu exílio na Itália – três delas foram selecionadas para o cartaz da edição. “É uma ocasião muito especial, porque talvez essas fotos não sejam mais expostas, segundo o filho do Tarkovski. Polaroids são muito frágeis.” Renata também adianta que um dos pontos altos do ano deverá ser a exibição do filme mudo Nosferatu (1922) ao ar livre, no parque do Ibirapuera, com acompanhamento de orquestra. A produtora conta que manteve a decisão tomada no ano passado de só exibir filmes inéditos no Brasil. “Foi uma decisão do Cakoff, uma das últimas vontades dele para a Mostra. É uma herança que vamos honrar.” 56 2012 A paixão de Leon Cakoff Foi a primeira vez que a Mostra teve dois carta- zes. Um deles era uma foto de um drive-in feita por Wim Wenders. Na assinatura, o cineasta alemão desenhou uma asa de anjo, referên- cia a Asas do desejo, seu grande sucesso. Por conta desse detalhe, a Mostra escolheu como segundo pôster um desenho do japonês Akira Kurosawa que mostrava um homem carregado por um anjo. “Foi uma coincidência trágica”, diz Renata, emocionada. No final daquele ano, Leon Cakoff recebeu a notícia de que a metástase de um antigo câncer de pele havia chegado a seu cérebro. Ele morreria menos de um ano depois, deixando Renata, quatro filhos e várias gerações de espectadores paulistanos. Mas o sucesso dos monumentais Mistérios de Lisboa, do chileno Raúl Ruiz, e Carlos, do francês Olivier Assayas, mostrou que a cinefilia alimentada por Cakoff continuava vivíssima. 2010 A invasão brasileira Por quase 30 anos, a Mostra foi vista como um evento de cinema estrangeiro. A presença brasi- leira sempre foi mais relevante pela qualidade do que pela quantidade de filmes selecionados. “Os diretores brasileiros não gostavam muito de com- petir com os estrangeiros”, afirma Renata. Mas na 29a edição ficou evidente que as coisas haviam mudado. Mais de 70 filmes brasileiros foram exibi- dos. “O cinema nacional ficou mais seguro depois de anos de retomada da produção. Está certo mesmo: quem está na chuva é pra se molhar.” O resultado veio na premiação: Cinema, Aspirinas e urubus, de Marcelo Gomes, ganhou o prêmio de melhor ficção do júri, e Pro dia nascer feliz, de João Jardim, o de melhor documentário. Outro destaque da edição foi a homenagem ao cineasta italiano Roberto Rossellini, com a exibição do curta Meu pai tem 100 anos, escrito e interpretado por sua filha Isabella Rossellini. A atriz também fez o desenho que ilustrou o pôster daquela edi- ção – “um dos mais simples, mas nem por isso menos especial”, diz. 2005 36a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo De 19/10 a 2/11 (ingressos à venda a partir de 13/10) Informações: www.mostra.org | info@mostra.org |Central da Mostra (Cj. Nacional, das 12h às 18h) divulgação
  30. 30. 58 59 Quais times cariocas têm chance no Brasileirão? CACÁ DIEGUES pergunta: (torcedor do botafogo) Paulo vinicius coelho responde: O Fluminense é a equipe que mais tem conseguido se organizar. Parceria com Unimed + revelações como Wellington Nem = chance de título importante.
  31. 31. 60 Por Gian Oddi Fotos Na Lata “FAAALA, PVC!” É assim que técnicos como Mano Menezes e Vanderlei Luxemburgo atendem aos telefonemas do jornalista Paulo Vinicius Coelho. Por meio de prosaicos arquivos de computador, uma tosca agenda de papel e uma rotina de ligações matinais e diárias, PVC oferece uma visão muito particular sobre o futebol

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