Entrevista ADRIANA BARBOSA                                                 DANIELA   GOMES   E   MARIANA   ANAST ÁCIO     ...
Entrevista ADRIANA BARBOSANo formato de feira de rua                      “Em 10 anoshavia apoio da Prefeitura? No        ...
enfrentado durante os 10 anos                                         “A Feira é um espaço                     na área de ...
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Trabalho interdisciplinar do primeiro semestre de 2011 desenvolvido por Daniela Gomes e Mariana Anastácio

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  1. 1. Entrevista ADRIANA BARBOSA DANIELA GOMES E MARIANA ANAST ÁCIO A Feira não é um gueto A organizadora de eventos afirma que 97% do público que freqüenta a Feira Preta é negro, mas a proposta é atrair outras etniasC oordenadora da maior Feira de Cultura Negra da América Latina, Adriana Barbosa, 33 anos, resolveu empreender em umevento que pretende tornar-se vitrine paratoda a sociedade. A paulistana formada emGestão de Eventos pela UniversidadeAnhembi Morumbi ini-ciou sua carreira comodivulgadoramusical. Ao ser demitida e passarpor dificuldades financeiras, decidiu montaro Brechó da Troca em feiras de rua. Motivadaa ampliar o projeto, criou em 2002 a FeiraPreta, um evento totalmente voltado para acultura negra. Após abaixo-assinado e vítimade racismo por parte da Associação de mora-dores da Praça Benedito Calixto, a festa quereúne negros e brancos foi migrando até fixar-se no Espaço Imigrantes. Nessa entrevista,Adriana revela como é gratificante respirarcultura negra.Como surgiu a idéia de criar aFeira Preta? A dificuldade econômicame impulsionou a montar um brechó comminhas roupas e assessórios usados emuma feira de rua comum. Depois de servítima de um arrastão, resolvi criar meupróprio projeto, um empreendimentocultural. A proposta era ter um formatomuito parecido com as feiras de rua, massegmentado para a cultura negra. Começouna Praça Benedito Calixto, longe daperiferia. Era um evento gratuito, ao arlivre, com expositores, palco, cinema. Namedida em que o evento foi crescendo, a “É nítido que aindaAssociação de moradores local começou a existese incomodar com nossa música ecostumes; um clássico de racismo. Foi feito um abismo entre oum abaixo-assinado que nos obrigou a sairdaquele local. Mesmo com a mobilização mundode mais de três mil assinaturas, não dos negros e o mundo MARIANA ANASTÁCIOconseguimos permanecer. Fomos migrandopara outros espaços, até chegar aoAnhembi em 2006, onde a Feira deixou de dos brancos”ser de rua, para ser feira de pavilhão. Ofomato mudou, mas o conceitopermaneceu. Hoje estamos no EspaçoImigrantes que tem uma estrurura melhorpara o nosso público. veja/universidade cruzeiro do sul I 26 DE MAIO, 2011 I 17
  2. 2. Entrevista ADRIANA BARBOSANo formato de feira de rua “Em 10 anoshavia apoio da Prefeitura? No contemplado pelo Programa de Açãoprimeiro ano tínhamos o apoio da aconteceram muitas Cultural da Secretaria de Estado daPrefeitura de São Paulo e Cultura de São Paulo, juntamente comCoordenadoria dos Assuntos transformações para o a subvenção da Embaixada daEspeciais da População Negra Espanha e Rede AECID e foram(CONE). Quando fomos para o movimento negro: realizadas 10 edições mensais na CasaAnhembi nós não conseguimos das Caldeiras, FNAC Pinheiros eisenção do pagamento do espaço. as cotas, o Barack Centro Cultural São Paulo com entradaNão haviam patrocinadores e a gratuita em todas as edições e locais,prefeitura era incapaz de manter essa Obama, e a Feira reunindo um público médio por ediçãoestrutura. Tivemos que encontrarformas para que a Feira pudesse sesustentar financeiramente. Hoje ela se foi acompanhando ” de 300 pessoas.. Como é o processo para trazerauto mantém em 60, 70%. Os outros 30 expositores? Mapeamosou 40%, nós buscamos fora. expositores que tenham o perfil desejado: produtos voltados pra umaComo é a divulgação do estética negra. O expositor nãoprojeto? Deixamos um espaço precisaria ser necessariamente negro,aberto para que o público decida mas sim trabalhar com a temáticaquem e o que quer ver, assim, todos negra. Alguns deles estão conoscoestão diretamente ligados ao sucesso desde o ínicio.do evento. Muitas das 14 mil pessoas O Instituto já foi lesada porvieram por conta do boca a boca e tentamos trazer elementos para que as algum patrocinador? Em 2010 adas redes sociais. Isso é uma pessoas da terceira idade venham e Fundação Palmares se comprometeu aparticularidade dos eventos negros. possam contar as esperiências das arcar com a programação cultural daVocê não vê nas grandes mídias, na gerações delas. Exposição da Barbie Black e até agoraGlobo. Nós temos parceria com a não recebemos. Quem ajudou a pagarrevista Raça, compramos mídia da O sucesso da Feira Preta foi a exposição foi o publico. Até foi feitoRádio 105, da Transcontinental, mas imediato? Quando houve a um acordo para antecipar opara atrair outros públicos, também necessidade de dedicar-se pagamento da exposição, mas sódeveríamos comprar na Nova FM, na integralmente ao projeto? Logo conseguimos pagar depois do evento.Eudorado, na Folha de São Paulo, e no primeiro ano tivemos um públicoisso nós ainda não temos recurso Quais as expectativas para a de cinco mil pessoas que queriampara investir. conhecer nossa proposta. Começou a próxima Feira Preta? Esse ano tomar uma dimensão muito grande, são 10 anos de Feira Preta. EstamosQual o obejtivo do Instituto então houve a necessidade de buscar na expectativa em relação ao espaço,Feira Preta? É nossa sede e espaço cada vez mais novidades para atrair ao conteúdo, de fazer umacultural de difusão e preservação retrospectiva. Teve um público queartística da cultura negra, na Vila mais pessoas e mais expositores. Desde 2007 me dedico integralmente à amadureceu com a Feira Preta, que foiMadalena. Temos artesanato, moda, Feira e ao Insituto. na primeira e tem 10 anos de históriamúsica, saraus, cursos livres na área dentro do evento. Nós queremos darde gestão cultural e eventos. São O que são as Pílulas de a voz, deixar o microfone aberto paravárias as atividades que concentram- Cultura? São ações de cultura negra, o público falar. Temos um projetose no Insituto. É aberto ao público, realizadas ao longo do ano, em tramitando na Lei de Incentivo àexpositores e artistas, para que parceria com a Casa das Caldeiras. O Cultura, caso seja aprovado, vamospossam comprar e expor produtos intuito do projeto é levar lançar um livro com imagens, umvoltados para a estética negra. manifestações artísticas, voltadas para documentário e uma exposição que a cultura negra contemporânea que descreverão toda a nossa história. NaExiste a preocupação apenas normalmente não estão presentes nos última década aconteceram muitascom o público jovem ou o grandes circuitos culturais e ao transformações para o movimentoevento é voltado para todas as mesmo tempo provocar uma reflexão negro: as cotas, Barack Obama, e aidades? Em mais de100 anos a sobre o espaço que a cultura negra Feira Preta foi acompanhando.realidadefinalmente mudou. Quem era tem ocupado na sociedade brasileira.escravo conquistou a liberdade. Nós No ano passado esse projeto foi Qual foi o maior desafio veja/universidade cruzeiro do sul I 26 DE MAIO, 2011 I 18
  3. 3. enfrentado durante os 10 anos “A Feira é um espaço na área de cultura, mas também nade Feira Preta? Por ser um projeto de libertação área de empreendedorismo. Existemque gera somente 60% do orçamento, muitas micro empresas e micronós investimos grande parte dotempo pensando em formas de dos nossos empresários que surgiram na Feira Preta. Em relação à cultura, os artistascaptação de recursos. Existe todo umprocesso de negociação com o antepassados, sabem que têm uma vitrine para se apresentar. Muitos deles seexpositor, de comunicação, precisa deequipe. Na Feira Preta hoje, 97% do das nossas dores. descobriram depois da Feira. As pessoas se mostram, colocam suaspublico é negro. Isso não é ruim, querdizer que o negro se apropriou de uma É um espaço que a melhores roupas, seus melhorescultura que é peculiar a ele. Mastambém queremos trazer outras etnias, gente é o que é ” penteados. Isso é um passo muito importante de afirmação, de identidade, de orgulho em dizer que ése não se transforma em um gueto,que não é a proposta da Feira Preta. negro, de enfrentamento, deQueremos ser vitrine para toda a posicionamento. Quem vai pelasociedade. Além disso, na medida em primeira vez observa tudo aquilo e seque atraímos outras etnias, temos pergunta onde estão aqueles negros .mais patrocinadores, afinal, o lindos. Eles estão camuflados comexpositor não quer atrair apenas um suas roupas e cabelos sem vida. É nagrupo expecífico de pessoas. nossa festa que acontece a libertação. Qual o diferencial da FeiraO preconceito ainda fecha Preta em relação aos outrosmuitas portas para o projeto? que nós ficamos endividados e só eventos de cultura negra?As empresas ainda estão despertando conseguimos terminar de pagar no Existem poucas similares à Feira Pretapara esse segmento. As pessoas têm outro ano. Algumas pessoas e as que existem são baseadas noseus preconceitos e cabe à raça negra reclamam por ter que pagar para entrar nosso projeto. Ao contrário dosmostrar seu valor. Muitos negaram na Feira, mas existe toda uma outros, o nosso é contínuo. Mas o .por ser um evento de preto. um estrutura para ser montada: aluguel grande diferencial é a disponibilidadeprocesso de reeducação, de do espaço, seguro, expositores, em estar pensando nela 24 horas.amadurecimento. Nós trabalhamos em comunicação, artistas. São dez horas Fomos nós que criamos o primeiroconscientização. Por mais que não de múltiplas manifestações que empreendimento voltado para oqueiram patrocinar, nós mostramos o envolvem um grande planejamento. público negro.projeto, as peculiaridades do negro e Eu adoraria fazê-la de graça, mas hojequal nossa proposta de inclusão. não temos um governo local que dê Qual a maior motivação paraNossa vivência e percepção do isso ao público negro. prosseguir com o projeto? É ummundo faz a diferença no mercado. projeto que propicia a troca de relações. Os negros são donos da suaDe que forma a Feira preta Como é a negociação com os própria historia, do seu própriotenta diminuir o preconceito artistas que se apresentam na destino. O que me move a fazer a Feiramútuo? Na medida em levamos Feira? Alguns apresentam-se de é saber o quanto isso impacta na vidaartistas, intelectuais, pesquisadores, graça, mas temos que garantir pelo das pessoas. Muitos casais separa falar dessa temática, estamos menos o básico: alimentação e formaram a partir da Feira, criançasabrindo para a sociedade, falando transporte. Outros se propõem a nasceram, laços de amizade sevamos para de estereótipo, vamos cobrar menos para que não seja formaram, artistas se descobriram. É oviver de uma forma normal. Dentro necessário aumentar o valor da momento de afirmação.das nossas estratégias de bilheteria. É uma preocupação garantircomunicação, nós tentamos nos a qualidade do que está sendo Qual frase definiria a Feiracomunicar com o público não negro. apresentado no evento. É um Preta? É o encontro de gerações, de ivestimento que custa muito para nós, sonhos, de libertação. A Feira é umHouve algum ano em que não mas seria insignificante para o poder público. espaço de libertação dos nossosfoi possível realizar a FeiraPreta? Todos os anos nós temos antepassados, das nossas dores. Édificuldades e dá vontade de desistir, A Feira Preta trouxe muitas um espaço que a gente é o que é. Temmas é pelo nosso comprometimento mudanças na Cultura Negra? uma energia que acontece lá e que éque nós continuamos. Já teve ano Influenciou e ainda influencia não só muito forte. veja/universidade cruzeiro do sul I 26 DE MAIO, 2011 I 19

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