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“Florinda e o Pai Natal”
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Página miúdos pública matilde 25 07-10

  1. 1. miúdos Os livros E scolher os livros estereótipo e nós fomos atrás. essenciais de Mais ou menos…” Matilde Rosa O rapaz em que Matilde Araújo não é fácil. se inspirou existiu mesmo, Há sempre mais diz Fátima de Medeiros, que de Matilde um que se impõe desenvolve pesquisa sobre esta acrescentar. A Pública pediu escritora, alguma de grande ajuda a duas especialistas profundidade: “Era um rapaz em literatura para a infância, pobre que vendia moinhos de Fátima Ribeiro de Medeiros e papel na praia.” Leonor Riscado, e a um escritor, A professora realça a António Torrado. Todos amigos importância do contributo de Matilde. Era fácil sê-lo. de Matilde para a literatura: As crianças foram o centro da sua obra, Não é possível falar da “Estávamos numa fase de mesmo quando não era para elas que escritora sem falar também de Maria Keil, “as suas ilustrações menorização da criança. Com o Estado Novo, não se escrevia. Rompeu com os estereótipos são a marca de água das obras de Matilde”, diz António podia ter ideias. A censura queria limitar as ideias dos impostos pelo Estado Novo e muitos Torrado. E tem razão. Muitos dos seus livros foram ilustrados escritores e conduzi-los por um determinado caminho. Mas, escritores de literatura para a infância por esta artista plástica e sobretudo na década de 1950, mesmo a obra que sairá em houve vários escritores que não seguiram-na nessa ousadia. Novembro terá imagens criadas seguiram a norma. Matilde foi Chamaram-lhe fada- recentemente por Maria Keil, já com 95 anos. “Uma dupla um deles.” -madrinha. Matilde Rosa fantástica.” Também não se pode A criatividade A autora nunca se coibiu de Araújo deixou por aí conhecer o trabalho de Matilde sem se nomear a sua primeira abordar qualquer tema: “Morte, sofrimento, alegria, pobreza. uma varinha de condão. obra dita para crianças: O Livro Tratou-os como se fossem da Tila, cantigas pequeninas, escritos para adultos. Sempre E um inédito. (Editorial, 1957). trazendo consigo o sentimento A abrir, pode ler-se “Quadra poético (mesmo sem ser na sozinha: Meninos pobres, tão poesia propriamente dita) Texto Rita Pimenta pobres/ São tão pobres, que ao e os sentimentos universais Ilustração Maria Keil vê-los/ Meus olhos, que são de cobre/ Têm a luz das estrelas.” e intemporais. Como os clássicos.” Por isso, conclui, “é Tila era o nome por que a uma escritora incontornável”. autora era tratada na infância, E não está, de forma alguma, diminutivo que nem sempre ultrapassada. lhe agradou, conta Fátima Para Leonor Riscado, Ribeiro de Medeiros, professora professora na Escola Superior e investigadora de Literatura de Educação de Coimbra, “a para a Infância e Juventude, obra literária para a infância do Instituto de Estudos de e a juventude que Matilde Literatura Tradicional da criou reflecte não só imenso Faculdade de Ciências Sociais e amor pelos seus destinatários Humanas, da Universidade Nova preferenciais, mas também uma de Lisboa. imaginação viva e inesgotável no que à capacidade de efabulação A coragem e à criatividade diz respeito. Seguiu-se O Palhaço Verde, Matilde é a fonte cristalina Portugália, 1962 (ainda está de onde brotaram obras disponível). “Foi uma grande incontornáveis que marcaram a surpresa para a literatura”, literatura do século XX, quer na considera António Torrado. poesia, quer no conto” (palavras “Estava-se num período em retiradas da comunicação decrescendo da literatura “Matilde Rosa Araújo — A voz para a infância. Já se tinha nua de uma fada verde”, Viseu, passado a fase das borboletas 2008). e passarinhos e não havia nada Mais obras importantes: O para substituir.” Cantar da Tila, Atlântida, 1967. É então que, com coragem, O Sol e o Menino dos Pés Frios, a autora escreve este livro: Ática, 1972 (disponível). As Botas “A personagem é mais um de Meu Pai, Livros Horizonte, arlequim do que um palhaço. 1977. As Fadas Verdes, Com ele, Matilde rompeu o Civilização, 1994 (disponível). c
  2. 2. “Florinda e o Pai Natal” Dezembro. Mês de frio, Mas não era para estranhar. Florinda, timidamente, muito frio. Dias de chuva e Em Dezembro é sempre assim. aproximou-se do banco. de gelo. Florinda vinha da E o Sol, nos dias em que Lembrou-se dos conselhos da escola, atravessava o Jardim brilha, é como se uma mão avó, sempre preocupada: da Estrela. Jardim tão bonito, amiga nos afagasse. — Florinda, nunca fales com mesmo no Inverno! Florinda gostava de desconhecidos. Ouviste? O cachecol enrolado em atravessar o jardim. Às vezes Em silêncio, continuava volta do pescoço, tapando- vinha acompanhada por a ouvir a avó. Não fales com lhe um poucochinho o nariz colegas da escola, outras vezes desconhecidos... vermelho de frio. eles tomavam outro caminho. — Queres comprar-me um As botas de cabedal — Psht... menina! balão, menina? (castanho como o tronco das Olhou para o banco de Florinda aproximou-se árvores) protegian os seus pés jardim, de onde vinha o mais. Ficou parada, hesitante, de menina. Menina de oito chamamento. Nele estava sem saber o que dizer. anos, que já sabia ler. E bem. sentado um Pai Natal, vestido — Sabe, menina? — Qua alegria, quando começou com um balandrau vermelho, confidenciou o Pai Natal. Excerto do inédito a juntar as letras! Ler. Escutar a mão direita a segurar — Estou cansado. Muito de Matilde Rosa as letras no papel do caderno, uma dezena de balões. Um cansado. Sentei-me aqui Araújo que será do livro, na lousa do quadro. verdadeiro arco-íris. Balões de porque já me doíam muito os publicado em Conversar com elas. todas as cores, agitados com o pés. Não se quer sentar um Novembro, com Ler alto ou em silêncio. ventinho da tarde. bocadinho? ilustrações de Maria Afagou a malinha da escola, Ah! O Pai Natal! O Natal está Florinda hesitou. Embora Keil. Edição da que trazia presa ao ombro. à porta, embora ainda tenha Pai Natal, sempre era um Calendário de Letras Ah! Mas que frio! escola... desconhecido. (...)
  3. 3. miúdos O Livro António Torrado fala de O Sol E, através do olhar e da voz da Tila e o Menino dos Pés Frios como inaugurais da sua autora, vamos Cantigas uma das obras “onde se revela aprender a ‘Saber ler na vida — Pequeninas, a sua marca neo-realista”, mas folhear honestamente a vida/ Livros Horizonte ressalva que “Matilde não era Apaixonadamente a vida/ Nas (1.ª edição, uma escritora neo-realista como arcas da noite, nas arenas do Notícias, 1957) o foram Alves Redol ou Sidónio dia:/ Risos, lágrimas, serenos Muralha”. rostos aparentes/ Como se Há várias obras editadas mais abríssemos cada dia a verde lima recentemente (todas disponíveis), do espanto’.” embora algumas sejam reedições de textos antigos com novas A voz ilustrações e outras contenham Leonor Riscado fala assim do O Cantar da Tila O Palhaço Verde histórias retiradas de obras convívio próximo com Matilde Livros Horizonte Livros Horizonte anteriores: Anjos de Pijama (Texto Rosa Araújo: “Era uma senhora (1.ª edição, (1.ª edição Editores, 2005). A Saquinha da que falava baixinho. E tudo o Atlântida, 1967) Portugália, 1962) — Flor (Gailivro, 2005). A Boneca que dizia era muito importante. disponível Palmira (Edições Eterogémeas, Uma figura apagada mas que nos 2007). História de Uma Flor deixava suspensos e presos pelo (Caminho, 2008). Lucilina e olhar e pela voz.” Antenor (Calendário de Letras, Um dos traços a que mais 2008). leitores, admiradores e amigos Se Fátima Ribeiro de Medeiros se referiram nas mensagens conheceu o “palhaço verde”, de despedida nos dias que se As Fadas António Torrado conheceu “a seguiram ao da sua morte (6 de Verdes boneca Palmira”, que serviu de Julho) foi precisamente a voz Civilização, inspiração à edição do livro com de Matilde. António Torrado 1994 esse nome, ilustrado por Gémeo conta-nos uma história antiga a (disponível) Luís. “Era preciso pedir licença propósito do efeito das palavras (e às vezes desculpa) às bonecas ditas pela escritora. para nos sentarmos nos sofás “Eu e Alice Vieira fomos da casa da Matilde. E muitas chamados para fazer parte de Anjos de Pijama vezes ficava-se com elas ao colo. um júri de poemas juvenis. Lisboa, Texto Foi assim que conheci a boneca Éramos nós os dois, a Matilde Editores, 2005 Palmira”, conta o escritor, entre e o Mário Castrim. Íamos (disponível) divertido e comovido. seleccionando o que chegava Para falar das obras “não para ao jornal e fazíamos encontros crianças”, de recolha, ensaio, de leitura em voz alta para contos e poesia, damos voz à escolhermos em conjunto. professora Leonor Riscado. “As Sempre que era ela a ler os suas antologias de textos de poemas, iam logo para o monte autores portugueses, As Crianças, dos escolhidos.” Todas as Crianças (Livros Até que António Torrado, “na Horizonte, 1979) e A Infância altura um jovem atrevido”, pediu Lembrada (Livros Horizonte, para ler um daqueles poemas 1986), constituem tributos a após a leitura de Matilde: “Aquilo uma infância que se pretende não valia nada. Mas só depois libertada. No campo do ensaio, de o escutarem lido por mim A Estrada Fascinante (Livros se apercebiam disso. Ela tinha Horizonte, 1988) é o exemplo da aquela voz de harpejo e de ‘inteligência do coração’ da sua violino ao mesmo tempo, e lia de O Sol autora e representa uma lúcida uma tal maneira que os poemas e o Menino reflexão sobre a literatura para eram todos aprovados.” História dos Pés Frios a infância, pois Matilde Rosa O autor é um dos que partilham de Uma Flor Livros Araújo sempre acreditou que do sentimento de orfandade Editorial Horizonte ser criança é uma promessa e, deixado pela morte de Matilde Caminho, 2008 (1.ª edição, portanto, ninguém tem o direito Rosa Araújo — que não chegou a (disponível) Ática, 1972) — de ‘infantilizar a criança’.” ter filhos, mas um colo imenso. disponível O livro de contos Praia Nova “Devo-lhe a primeira referência (Editora Lux, 1962) “mostra uma crítica ao meu trabalho, há mais capacidade única de penetrar de 40 anos. Foi graças a ela que no íntimo das personagens”. virei para esta área.” Acredita A Boneca Da obra de poemas Voz Nua no entanto que a “voz sobrevive Palmira (Livros Horizonte, 1986) diz- à pessoa”. Assim continuem a Edições nos: “Carregado de humanidade abrir-se os livros para a escutar. a Eterogémeas, e simbolismo, vai, nos seus 2007 (disponível) versos, ‘tecendo o xaile de Sol’. rpimenta@publico.pt

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