Congresso Gulbenkian

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Páginas do Público de 22 de Janeiro de 2009, Congresso internacional de promoção da leitura, Gulbenkian, P2. Depoimentos de Júlio machado vaz, josé rodrigues dos santos, miguel guilherme, eduarda abbondanza e joão pedro lucas.

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Congresso Gulbenkian

  1. 1. P2 • Quinta-feira 22 Janeiro 2009 • P2@publico.pt Limpar os genes de todas as doenças é ficção científica Pág. 6/7 Todos os livros são bons, até os maus Pág. 4/5 FERNANDO VELUDO/ARQUIVO
  2. 2. 4 • P2 • Quinta-feira 22 Janeiro 2009 Passamos a vida a dizer que os miúdos devem ler. Criam-se planos nacionais de leitura e renovam-se estratégias de conquista para os livros. Até se fazem congressos internacionais para pensar nisso, como o de promoção da leitura que hoje começa em Lisboa. Porque ler é preciso, dizem os especialistas. Para quê? Leiam Rita Pimenta a Ler o quê? Tudo. Anúncios, legendas, jornais e até receitas de culinária, mas principalmente tudo o que Nacional do Livro e da Leitura no Brasil e fala na existência, em paralelo, de “95 milhões de leitores de livros e de 77 milhões de não leitores”. puderem literatura. E para quê? Para Virtudes da leitura: “Ler para ampliar as capacidades do cérebro, ampliar o próprio universo, para aprender a pensar, a ver com se apropriar do conhecimento o olhar dos outros e a recriar universal. Para desenvolver a emoções ou sentimentos. A leitura inteligência, mas, principalmente, torna o mundo mais inteligível e para olhar com o olhar do outro as pessoas mais inteligentes. Além e, assim, se tornar mais tolerante, disso, está vinculada directamente mais humano. Nos países pobres à educação e à cultura e também ou em desenvolvimento, ler ao desenvolvimento social é fundamental como meio de e económico sustentado de promover a cidadania.” qualquer país. Quem o diz são António Prole, assessor da os especialistas em promoção Direcção-Geral do Livro e das da leitura que hoje e amanhã Bibliotecas, diferencia-se dos se reúnem em congresso teóricos cujo objectivo essencial internacional na Gulbenkian, em é formar leitores literários. “Eu, Lisboa. O tema é Formar Leitores complexa e interessante, Nunca antecipar as fases como português, quero formar para Ler o Mundo e o objectivo então, provavelmente, estes de desenvolvimento da criança é leitores competentes. Sabendo também. leitores precisarão de ler ficção, uma das regras a seguir quando se que, quando tiver uma grande As perguntas devem ser feitas romances – livros”, explica o autor dos textos escritos para crianças (e orientam as suas leituras: “Devem massa de leitores competentes, pela ordem inversa – Ler o quê? Ler de Children’s Literature: Critical no conceito de infância implícito), ler as obras que conseguem terei (não na proporção directa) para quê? –, começa por dizer Peter Concepts in Literary and Cultural especialmente em termos de compreender em função do seu uma maior capacidade de ter Hunt, professor da Universidade de Studies. estilo, ritmo e complexidade nível de desenvolvimento e de leitores literários.” Cardiff (Reino Unido), especialista A escolha de Peter Hunt para de referências e estruturas domínio das convenções literárias. A redescoberta do prazer da em Literatura para a Infância e o a abertura dos trabalhos foi intertextuais e intratextuais”. Os miúdos não dominam os saltos leitura foi uma das respostas primeiro orador no congresso. “Ler justificada por António Prole, temporais e perder-se-iam em enviadas por Sandra Beckett, para quê? Ler o quê?”, é então a coordenador da Casa da Leitura, Ampliar o cérebro obras que se constroem alterando professora da Universidade de forma a partir da qual organiza as organizadora do congresso, pela Da Universidade Autónoma a linha cronológica.” Acredita que Brock, Canadá, que estuda a ficção respostas que envia ao P2 por e- comunicação abrangente que irá de Barcelona chegam ao P2 as os contos tradicionais são a melhor de cruzamento, em que adultos mail. Porque primeiro, argumenta, apresentar. “Irá reflectir sobre o respostas de Teresa Colomer, base literária, mas que a leitura e crianças partilham o mesmo é preciso definir que tipo de que se passou nos últimos 30 anos doutorada em Ciências da de livros medíocres também traz tipo de leituras, caso dos livros leitores se quer formar. na literatura infantil. O que é que Educação. “A leitura é uma vantagens, como a de “consolidar a do Harry Potter. “A ficção de “Se quisermos formar ‘leitores mudou? Qual é a diferença entre operação que amplia as capacidade leitora sem exigir muito cruzamento ganhou visibilidade funcionais’, pessoas que os livros de hoje e os de então? capacidades do nosso cérebro. esforço”, diz a autora de Siete Llaves nos media. Mais adultos estão conseguem ler o suficiente para ter Será que perderam qualidade? As Permite-nos recriar experiências para Valorar las Historias Infantiles. neste momento a ler literatura uma vida normal, como saberem componentes gráficas e ilustrativas perceptivas, diferentes para a infância, porque alguns dos ler anúncios ou um aviso para são diferentes? O álbum será uma perspectivas intelectuais e 77 milhões de não leitores melhores escritores são desta área. que não caiam num buraco mais influência dos meios visuais que emotivas e dar sentido às Para Galeno Amorim, escritor Redescobrem assim o prazer de adiante, então pouco importa o está a contaminar a escrita para as situações. Permite-nos dominar e jornalista brasileiro, “é uma boa história, como nos casos que lêem. Para isso, servem os crianças? No fundo, pôr o livro em as possibilidades da linguagem e fundamental ler, não importa o das imaginadas por J.K. Rowling, jogos de computador, os jornais, as questão.” essa é a matéria-prima do nosso suporte. Ler (ou ouvir ou tactear!) Philip Pullman e outros.” bandas desenhadas ou a televisão. Um estudo do Reino Unido pensamento. O mundo torna-se livros, revistas, jornais, histórias Outros especialistas vão passar Se quisermos formar leitores relativo a 2008, que será mais inteligível (e por conseguinte aos quadradinhos, tudo. Mas, pela Gulbenkian nestes dois dias, que consigam compreender apresentado por Hunt, conclui torna-nos mais inteligentes). É uma sobretudo, ler literatura, nos seus um congresso que fecha o primeiro uma linguagem complexa, para que, “nos últimos 30 anos, ocorreu forma de desfrutar melhor o nosso mais diferentes géneros”. Foi o ciclo da Casa da Leitura, criada há que a sua vida seja também mais uma mudança radical na natureza tempo de vida.” primeiro coordenador do Plano três anos. “Eu, como português, quero formar leitores competentes. Sabendo que, quando tiver uma grande massa de leitores competentes, terei uma maior capacidade de ter leitores literários”
  3. 3. P2 • Quinta-feira 22 Janeiro 2009 • 5 Os meus livros em criança Júlio Machado Vaz Eduarda Abbondanza Miguel Guilherme José Rodrigues João Pedro Lucas 59 anos 50 anos 50 anos dos Santos 11 anos Psiquiatra Directora da Moda Lisboa Actor Aluno do 6.º ano 44 anos Quando penso nos meus livros O meu pai tinha uma indústria Quando decidi que queria começar Jornalista e escritor Já li os livros todos do Harry Potter, de infância, o primeiro lugar tem gráfica e por isso havia muitos a ler livros sem bonecos, peguei alguns da colecção Uma Aventura inquilino perpétuo — os livros dos livros lá em casa (em Campo nos Cinco (Enid Blyton). Mas como Quando era miúdo, em Tete e outros da Viagens no Tempo (Ana Cinco, de Enid Blyton. O dono da de Ourique, Lisboa). Além da aprendi a ler tarde, por volta (Moçambique), lia sobretudo Walt Maria Magalhães e Isabel Alçada). Livraria Latina (Porto) telefonava imagética das aventuras de Enid dos oito anos, chegava ao fim de Disney, Tarzan, Spirou, Gaston Gostei muito do Marley, Um Cão a avisar da chegada de mais um, e Blyton (Os Cinco, Os Sete e as uma página muito cansado e já Lagaffe, Mundo de Aventuras, Especial ( John Grogan). Agora meu pai trazia-o à hora de jantar. Gémeas), tinha um imaginário de esquecido do que acontecera no Selecções do Reader’s Digest e estou a ler o Eragon (Christopher Porque a “ressaca” entre cada fadas muito presente. Chegava início. Mas não desisti. Também lia romances de cowboys, alguns Paolini). Leio porque gosto, um deles era longa, obrigava-me a fazer buraquinhos no jardim Walt Disney, as histórias do Pato bem grossos. Fui para Lourenço porque os livros são interessantes a um exercício de autodisciplina para encontrar tesouros. Lembro- Donald, do Tio Patinhas. Antes Marques com nove anos e e emocionantes. É a minha mãe férrea, lendo apenas dez páginas me de ter lido Tom Sawyer e mesmo de conseguir ler, “via os dediquei-me ao Astérix, Tintin, que os escolhe, mas, se eu gostar de cada vez. Um verdadeiro o Principezinho, mas também bonecos” nos livros do Tintin. Michel Vaillant, Os Sete e Os Cinco. do primeiro e for uma série, vou suplício para quem vibrava com as Albert Camus e Luiz Pacheco. Li Ainda hoje volto muito ao Tintin. Vim para Portugal com dez anos lendo os seguintes. Desde que haja aventuras da miudagem e do fiel bastante cedo Henry Miller. Os De vez em quando, leio a colecção em 1974 e, numa primeira fase, lia mundos fantásticos e aventura, cão e também com descrições de livros que estavam nas prateleiras de uma ponta à outra. Mas foi pouco, dava a impressão de que leio. scones e sanduíches irresistíveis! de cima eram os que eu não com Alexandre Dumas (Os Três havia menos livros disponíveis em Mas recordo outras leituras: os devia ler, os mais interditos, mas Mosqueteiros e Vinte Anos Depois), Portugal do que em Moçambique. Depoimentos recolhidos por Rita fascículos do Cavaleiro Andante, eu empoleirava-me e chegava aos 12 anos, que senti intensamente A partir dos 12 anos, comecei Pimenta Sandokan, o Tigre da Malásia lá. A minha infância foi rodeada o prazer da leitura, de uma forma a ler muitos livros de ciência, (Emilio Salgari), a lendária de rapazes, muitos primos. A que não mais se repetiu. Só queria em particular astronomia e Condessa de Ségur (Sophie minha mãe pensava que eu nunca isolar-me do mundo e ler, ler. cosmologia, e depois passei para Rostopchine)... E as principais iria ter uns joelhos normais. As A leitura acabou por me fazer a ficção científica. Consumia um notícias dos jornais, para ver um crostas sobrepunham-se e nunca desinteressar da escola, fui por livro da colecção Argonauta de dois sorriso de aprovação no brilhante chegavam a sarar totalmente. isso um aluno mediano. Só se em dois dias. Vendo as coisas em e implacável conversador que era Mais tarde, quando todos os gostasse muito das cadeiras é que retrospectiva, o que me atraía em meu pai. meus colegas se aborreciam com conseguia resultados bons. Mas todos estes livros era sobretudo os Lusíadas, eu maravilhava-me. Dumas permitiu-me fazer grandes o lado da aventura, e penso que Herdei da minha irmã, 11 anos mais brilharetes nas aulas de História: eu foi isso que ficou. Suponho que velha que eu, um livro anotado. Eu sabia quem era o cardeal Richelieu, ainda hoje esse lado aventureiro adorava aquilo. Como os nossos o Mazarin, conhecia os reinados de influencia o meu trabalho pais trabalhavam, as brincadeiras Luís XIII e Luís XIV de França. Um — enquanto jornalista e enquanto ou se passavam na rua ou em casa sucesso. Por essa altura li também a romancista. a descobrir os segredos deles. Isso Madame Bovary (Gustave Flaubert), conseguia-se na biblioteca e na adorava aquele erotismo... Li garrafeira. muito Emilio Salgari (Sandokan, O Corsário Negro). Pus-me a ler o Deus das Moscas (William Golding) e não percebi nada. Aos 13 anos, voltei a lê-lo e adorei. É fascinante como os livros têm diferentes camadas de entendimento. Quando os revisitamos, encontramos sempre algo novo porque já não somos os mesmos.

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