Roland barthes o prazer do texto

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Roland barthes o prazer do texto

  1. 1. ROLAND BARTHESO Prazer do Texto EDITORA PERSPECTIVA 1987
  2. 2. Coleção ELOSDirigida por J. GuinsburgEquipe de realização – Tradução: J. Guinsburg;Revisão: Alice Kyoko Miyashiro; Produção: PlínioMartins Filho; Capa: A. LizárragaTítulo original francês:Le Plaisir du TexteCopyright © Éditions du Seil, 1973Direitos reservados àEDITORA PERSPECTIVA S.A.Av. Brigadeiro Luiz Antônio, 302501401 – São Paulo – SP – BrasilTelefones: 885-8388/885-68781987
  3. 3. La seule de ma vie a été la peur. HOBBES
  4. 4. O prazer do texto: qual o simulador deBacon, ele pode dizer: jamais se desculpar,jamais se explicar. Nunca ele nega nada:“Desviarei meu olhar, será doravante a minhaúnica negação”. * * * Ficção de um indivíduo (algum Sr. Teste àsavessas) que abolisse nele as barreiras, as classes,as exclusões, não por sincretismo, mas porsimples remoção desse velho espectro: acontradição lógica; que misturasse todas aslinguagens, ainda que fossem consideradas
  5. 5. incompatíveis; que suportasse, mudo, todas asacusações de 7ilogismo, de infidelidade; que permanecesseimpassível diante da ironia socrática (levar o outroao supremo opróbrio: contradizer-se) e o terrorlegal (quantas provas penais baseadas numapsicologia da unidade!). Este homem seria aabjeção de nossa sociedade: os tribunais, a escola,o asilo, a conversação, convertê-lo-iam em umestrangeiro: quem suporta sem nenhuma vergonhaa contradição? Ora este contra-herói existe: é oleitor de texto; no momento em que se entrega aseu prazer. Então o velho mito bíblico se inverte,a confusão das línguas não é mais uma punição, osujeito chega à fruição pela coabitação daslinguagens, que trabalham lado a lado: o texto deprazer é Babel feliz.
  6. 6. (Prazer/Fruição∗: terminologicamente istoainda vacila, tropeço, confundo-me. De todamaneira, haverá sempre uma margem deindecisão; a distinção não será origem declassificações seguras, o paradigma rangerá, osentido será precário, revogável, reversível, odiscurso será incompleto.) 8 Se leio com prazer esta frase, esta históriaou esta palavra, é porque foram escritas no prazer(este prazer não está em contradição com asqueixas do escritor). Mas e o contrário? Escreverno prazer me assegura – a mim, escritor – o prazerde meu leitor? De modo algum. Esse leitor, é Alguns críticos têm considerado que a melhor tradução dejouissance para o português seria gozo, uma vez que estapalavra daria, de um modo mais explícito, o sentido do prazerfísico contido no termo original. De nossa parte, acreditamosque a palavra fruição, embora algo mais delicada, encerra amesma acepção – gozo, posse, usufruto" –, com a vantagem dereproduzir poeticamente o movimento fonético do originalfrancês. Em todo caso fica para o leitor o prazer que pretendadesfrutar nesta leitura.J. G.
  7. 7. mister que eu o procure (que eu o “drague”), semsaber onde ele está. Um espaço de fruição ficaentão criado. Não é a “pessoa” do outro que me énecessária, é o espaço: a possibilidade de umadialética do desejo, de uma imprevisão dodesfrute: que os dados não estejam lançados, quehaja um jogo. Apresentam-me um texto. Esse texto meenfara. Dir-se-ia que ele tagarela. A tagarelice dotexto é apenas essa espuma de linguagem que seforma sob o efeito de uma simples necessidade deescritura. Não estamos aqui na perversão, mas naprocura. Escrevendo seu texto, o escrevente adotauma linguagem de criança de peito: imperativa,automática, sem afeto, pequena debandada decliques (esses fonemas lácteos que o jesuítamaravilhoso, van Ginneken, colocava entre aescritura e a linguagem) são os movimentos deuma sucção sem objeto, de uma 9
  8. 8. oralidade indiferenciada, separada da que produzos prazeres da gastrosofia e da linguagem. Osenhor se dirige a mim para que eu o leia, maspara si nada mais sou que essa direção; não sou aseus olhos o substituto de nada, não tenhonenhuma figura (apenas a da Mãe); não sou parasi um corpo, nem sequer um objeto (isto pouco seme dá: não é a alma que reclama seureconhecimento), mas apenas um campo, um vasode expansão. Pode-se dizer que finalmente essetexto, o senhor o escreveu fora de qualquerfruição; e esse texto-tagarelice é em suma umtexto frígido, como o é qualquer procura, antesque nela se forme o desejo, a neurose. A neurose é um último recurso: não emrelação à “saúde”, mas em relação ao“impossível” de que fala Bataille (“A neurose é aapreensão timorata de um fundo impossível”,etc.); mas esse último recurso é o único quepermite escrever (e ler). Chega-se então a esteparadoxo: os textos, como os de Bataille – ou deoutros – que são escritos contra a neurose, do seio
  9. 9. da loucura, têm em si, se querem ser lidos, essepouco de neurose necessário para a sedução deseus leitores: esses textos terríveis são apesar detudo textos coquetes. 10 Todo escritor dirá então: louco não posso,são não me digno, neurótico sou. O texto que o senhor escreve tem de me darprova de que ele me deseja. Essa prova existe: é aescritura. A escritura é isto: a ciência das fruiçõesda linguagem, seu kama-sutra (desta ciência, sóhá um tratado: a própria escritura). * * *
  10. 10. Sade: o prazer da leitura vemevidentemente de certas rupturas (ou de certascolisões): códigos antipáticos (o nobre e o trivial,por exemplo) entram em contato; neologismospomposos e derrisórios são criados; mensagenspornográficas vêm moldar-se em frases tão purasque pó- 11deriam ser tomadas por exemplos de gramática.Como diz a teoria do texto: a linguagem éredistribuída. Ora, essa redistribuição se fazsempre por corte. Duas margens são traçadas:uma margem sensata, conforme, plagiária (trata-sede copiar a língua em seu estado canônico, talcomo foi fixada pela escola, pelo uso correto, pelaliteratura, pela cultura), e uma outra margem,móvel, vazia (apta a tomar não importa quaiscontornos) que nunca é mais do que o lugar de seuefeito: lá onde se entrevê a morte da linguagem.Estas duas margens, o compromisso que elasencenam, são necessárias. Nem a cultura nem asua destruição são eróticas; é a fenda entre uma eoutra que se torna erótica. O prazer do texto é
  11. 11. semelhante a esse instante insustentável,impossível, puramente romanesco, que o libertinodegusta ao termo de uma maquinação ousada,mandando cortar a corda que o suspende, nomomento em que goza. Daí, talvez, um meio de avaliar as obras damodernidade: seu valor proviria de suaduplicidade. Cumpre entender por isto que elastêm sempre duas margens. A 12margem subversiva pode parecer privilegiadaporque é a da violência; mas não é a violência queimpressiona o prazer; a destruição não lheinteressa; o que ele quer é o lugar de uma perda, éa fenda, o corte, a deflação, o fading que seapodera do sujeito no imo da fruição. A culturaretorna, portanto, como margem: sob não importaqual forma.
  12. 12. Sobretudo, evidentemente (é aí que amargem será mais nítida) sob a forma de umamaterialidade pura: a língua, seu léxico, suamétrica, sua prosódia. Em Lois, de PhilippeSollers, tudo é atacado, desconstruído: os edifíciosideológicos, as solidariedades intelectuais, aseparação dos idiomas e mesmo a armadurasagrada da sintaxe (sujeito/predicado); o texto jánão tem a frase por modelo; é amiúde um potentejato de palavras, uma fita de infralíngua. Noentanto, tudo isso vem bater contra uma outramargem: a do metro (decassilábico), daassonância, dos neologismos verossímeis, dosritmos prosódicos, dos trivialismos (citacionais).A desconstrução da língua é cortada pelo dizerpolítico, bordejada pela antiqüíssima cultura dosignificante. 13 Em Cobra, de Severo Sarduy (traduzido porSollers e pelo autor), a alternância é a de doisprazeres em estado de sobrelanço, a outra
  13. 13. margem é a outra felicidade: mais, mais, maisainda!, ainda mais outra palavra, mais outra festa.A língua se reconstrói alhures pelo fluxoapressado de todos os prazeres da linguagem.Onde, alhures? No paraíso das palavras. Trata-severdadeiramente de um texto paradisíaco, utópico(sem lugar), de uma heterologia por plenitude:todos os significantes estão lá e cada um delesacerta na mosca; o autor (o leitor) parece dizer-lhes: amo a vocês todos (palavras, giros, frases,adjetivos, rupturas: de cambulhada: os signos e asmiragens de objetos que eles representam); umaespécie de franciscanismo obriga todas aspalavras a se apresentarem, a se apressarem, atornarem a partir: texto jaspeado, variegado;estamos entulhados pela linguagem, comocrianças a quem nada fosse jamais recusado,censurado, ou pior ainda: “permitido”. É a apostade uma jubilação contínua, o momento em quepor seu excesso o prazer verbal sufoca e oscila nafruição.
  14. 14. Flaubert: uma maneira de cortar, de rompero discurso sem o tornar insensato. 14 Certo, a retórica conhece as rupturas deconstrução (anacolutos) e as rupturas desubordinação (assíndetos); mas, pela primeira vezcom Flaubert, a ruptura não é mais excepcional,esporádica, brilhante, engastada na matéria vil deum enunciado corrente: deixa de haver línguaaquém dessas figuras (o que quer dizer, num outrosentido: nada mais existe exceto a língua); umassíndeto generalizado apropria-se de toda aenunciação, de tal modo que esse discurso muitolegível é às escondidas um dos mais loucos que épossível imaginar: toda a moedinha lógica estános interstícios. Eis um estado muito sutil, quaseinsustentável, do discurso: a narratividade édesconstruída e a história permanece no entantolegível: nunca as duas margens da fenda forammais nítidas e mais tênues, nunca o prazer foi
  15. 15. melhor oferecido ao leitor – pelo menos se elegosta das rupturas vigiadas, dos conformismosfalsificados e das destruições indiretas. Ademais oêxito pode ser aqui reportado a um autor, junta-se-lhe o prazer do desempenho: a proeza é manter amimesis da linguagem (a linguagem imitando-se asi própria), fonte de grandes prazeres, de 15uma maneira tão radicalmente ambígua (ambíguaaté a raiz) que o texto não tombe jamais sob a boaconsciência (e a má fé) da paródia (do risocastrador, do “cômico que faz rir”). O lugar mais erótico de um corpo não é láonde o vestuário se entreabre? Na perversão (queé o regime do prazer textual) não há “zonaserógenas” (expressão aliás bastante importuna); éa intermitência, como o disse muito bem apsicanálise, que é erótica: a da pele que cintilaentre duas peças (as calças e a malha), entre duasbordas (a camisa entreaberta, a luva e a manga); é
  16. 16. essa cintilação mesma que seduz, ou ainda: aencenação de um aparecimento-desaparecimento. Não se trata do prazer do strip-teasecorporal ou do suspense narrativo. Em ambos oscasos, não há rasgão, 16não há margens; há uma revelação progressiva:toda a excitação se refugia na esperança de ver osexo (sonho de colegial) ou de conhecer o fim dahistória (satisfação romanesca). Paradoxalmente(visto que é de consumo de massas), é um prazerbem mais intelectual do que o outro: prazeredipiano (desnudar, saber, conhecer a origem e ofim), se é verdade que todo relato (toda revelaçãoda verdade) é uma encenação do Pai (ausente,oculto ou hipostasiado) – o que explicaria asolidariedade das formas narrativas, das estruturasfamiliares e das proibições de nudez, todasreunidas, entre nós, no mito de Noé coberto pelosfilhos.
  17. 17. No entanto, a narrativa mais clássica (umromance de Zola, de Balzac, de Dickens, deTolstoi) traz em si mesma uma espécie de mimeseenfraquecida: não lemos tudo com a mesmaintensidade de leitura; um ritmo se estabelece,desenvolto, pouco respeitoso em relação àintegridade do texto; a própria avidez doconhecimento nos leva a sobrevoar ou a passarpor cima de certas passagens (pressentidas como“aborrecidas”) para encontrarmos o mais depressapossível os pontos picantes da ane- 17dota (que são sempre suas articulações – o que fazavançar a revelação do enigma ou do destino):saltamos impunemente (ninguém nos vê) asdescrições, as explicações, as considerações, asconversações; tornamo-nos então semelhantes aum espectador de cabaré que subisse ao palco eapressasse o strip-tease da bailarina, tirando-lherapidamente as roupas, mas dentro da ordem, istoé: respeitando, de um lado, e precipitando, de
  18. 18. outro, os episódios do rito (qual um padre queengolisse a sua missa). A mimese, fonte ou figurado prazer, põe aqui em confronto duas margensprosaicas; ela opõe o que é útil ao conhecimentodo segredo e o que lhe é inútil; é uma fenda.surgida de um simples princípio defuncionalidade; ela não se produz diretamente aestrutura das linguagens, mas apenas no momentode seu consumo; o autor não pode prevê-la: elenão pode querer escrever o que não se lerá. Noentanto, é o próprio ritmo daquilo que se lê e doque não se lê que produz o prazer dos grandesrelatos: ter-se-á alguma vez lido Proust, Balzac,Guerra e Paz, palavra por palavra? (Felicidade deProust: de uma leitura a outra, não saltamos nuncaas mesmas passagens). O que eu aprecio, num relato, não é poisdiretamente o seu conteúdo, nem mesmo suaestrutura, mas antes as 18
  19. 19. esfoladuras que imponho ao belo envoltório:corro, salto, ergo a cabeça, torno a mergulhar.Nada a ver com a profunda rasgadura que o textoda fruição imprime à própria linguagem, e não àsimples temporalidade de sua leitura. Daí dois regimes de leitura: uma vai diretoàs articulações da anedota, considera a extensãodo texto, ignora os jogos de linguagem (se eu leioJúlio Verne, avanço depressa: perco algo dodiscurso, e no entanto minha leitura não éfascinada por nenhuma perda verbal – no sentidoque esta palavra pode ter em espeleologia); aoutra leitura não deixa passar nada; ela pesa, cola-se ao texto, lê, se se pode assim dizer, comaplicação e arrebatamento, apreende em cadaponto do texto o assíndeto que corta as linguagens– e não a anedota: não é a extensão (lógica) que acativa, o desfolhamento das verdades, mas ofolheado da significância; como no jogo da “mãoquente”, a excitação, provém, não de uma pressaprocessiva, mas de uma espécie de charivarivertical (a verticalidade da linguagem e de sua
  20. 20. destruição); é no momento em que cada mão(diferente) salta por cima da outra (e não umadepois da outra), que o buraco se produz e arrastao sujeito do 19jogo – o sujeito do texto. Ora, paradoxalmente (atal ponto a opinião crê que basta ir depressa paranão nos aborrecermos), esta segunda leitura,aplicada (no sentido próprio), é a que convém aotexto moderno, ao texto-limite. Leiam lentamente,leiam tudo, de um romance de Zola, o livro lhescairá das mãos; leiam depressa, por fragmentos,um texto moderno, esse texto torna-se opaco,perempto para o nosso prazer: vocês querem queocorra alguma coisa, e não ocorre nada; pois oque ocorre à linguagem não ocorre ao discurso: oque “acorre”*, o que “se vai”, a fenda das duasmargens, o interstício da fruição, produz-se novolume das linguagens, na enunciação, não naseqüência dos enunciados: não devorar, nãoengolir, mas pastar, aparar com minúcia,* No original arrive. (N. do T.).
  21. 21. redescobrir, para ler esses autores de hoje, o lazerdas antigas leituras: sermos leitores aristocráticos. * * * Se aceito julgar um texto segundo o prazer,não posso ser levado a dizer: este é bom, aquele émau. Não há quadro de honra, não há crítica, poisesta implica sempre um objetivo tático, um usosocial e muitas vezes uma cobertura imaginária.Não posso dosar, imaginar que o 20texto seja perfectível, que está pronto a entrar numjogo de predicados normativos: é demasiado isto,não é bastante aquilo; o texto (o mesmo sucedecom a voz que canta) só pode me arrancar estejuízo, de modo algum adjetivo: é isso! E maisainda: é isso para mim! Este “para mim” não énem subjetivo, nem existencial, mas nietzschiano
  22. 22. (“no fundo, é sempre a mesma questão: O que éque é para mim?...”). O brio do texto (sem o qual, em suma, nãohá texto) seria a sua vontade de fruição: lá ondeprecisamente ele excede a procura, ultrapassa atagarelice e através do qual tenta transbordar,forçar o embargo dos adjetivos – que são essasportas da linguagem por onde o ideológico e oimaginário penetram em grandes ondas. * * * Texto de prazer: aquele que contenta,enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, nãorompe com ela, está 21ligado a uma prática confortável da leitura. Textode fruição: aquele que põe em estado de perda,
  23. 23. aquele que desconforta (talvez até um certoenfado), faz vacilar as bases históricas, culturais,psicológicas, do leitor, a consistência de seusgostos, de seus valores e de suas lembranças, fazentrar em crise sua relação com a linguagem. Ora, é um sujeito anacrônico aquele quemantém os dois textos em seu campo e em suamão as rédeas do prazer e da fruição, poisparticipa ao mesmo tempo e contraditoriamentedo hedonismo profundo de toda cultura (que entranele pacificamente sob a cobertura de uma arte deviver de que fazem parte os livros antigos) e dadestruição dessa cultura: ele frui da consistênciade seu ego (é seu prazer) e procura sua perda (é asua fruição). É um sujeito duas vezes clivado,duas vezes perverso. * * *
  24. 24. Sociedade dos Amigos do Texto: os seusmembros não teriam nada em comum (pois não háforçosamente 22acordo sobre os textos do prazer), senão seusinimigos: maçadores de toda espécie, quedecretam a perempção do texto e de seu prazer,seja por conformismo cultural, seja porracionalismo intransigente (suspeitando de uma“mística” da literatura), seja por moralismopolítico, seja por crítica do significante, seja porpragmatismo imbecil, seja por parvoíce farsista,seja por destruição do discurso, perda do desejoverbal. Uma tal sociedade só poderia ocorrer, sópoderia mover-se em plena atopia; seria contudouma espécie de falanstério, pois as contradiçõesnela seriam reconhecidas (e portanto restringidosos riscos de impostura ideológica), nela adiferença seria observada e o conflito acometidode insignificância (sendo improdutor de prazer).
  25. 25. “Que a diferença se insinue sub-repticiamente no lugar do conflito.” A diferençanão é aquilo que mascara ou edulcora o conflito:ela se conquista sobre o conflito, ela está paraalém e ao lado dele. O conflito não seria nadamais do que o estado moral da diferença; cada vez(e isto torna-se freqüente) que não é tático(visando transformar uma situação real), pode-seapontar nele a carên- 23cia-de-fruição, o malogro de uma perversão quese achata sob o seu próprio código e já não sabeinventar-se: o conflito é sempre codificado, aagressão não é senão a mais acalcanhada daslinguagens. Ao recusar a violência, é o própriocódigo que eu recuso (no texto de Sade, fora detodo código, posto que ele inventa continuamenteo seu próprio e apenas o seu, não há conflitos:nada exceto triunfos). Eu amo o texto porque ele épara mim esse espaço raro da linguagem, do qualestá ausente toda “cena”, (no sentido doméstico,conjugal do termo), toda logomaquia. O texto nãoé nunca um “diálogo”: não há risco nenhum de
  26. 26. fingimento, de agressão, de chantagem, nenhumarivalidade de idioletos; ele institui no seio darelação humana – corrente – uma espécie deilhota, manifesta a natureza associal do prazer (sóo lazer é social), deixa entrever a verdadeescandalosa da fruição: que ela poderia muito bemser, abolido todo o imaginário da fala, neutra. Na cena do texto não há ribalta: não existepor trás do texto ninguém ativo (o escritor) ediante dele ninguém passivo (o leitor); não há umsujeito e um objeto. O texto 24prescreve as atitudes gramaticais: é o olhoindiferenciado de que fala um autor excessivo(Angelus Silesius): “O olho por onde eu vejoDeus é o mesmo olho por onde ele me vê”. Parece que os eruditos árabes, falando dotexto, empregam esta expressão admirável: ocorpo certo. Que corpo? Temos muitos; o corpo
  27. 27. dos anatomistas e dos fisiologistas; aquele que aciência vê ou de que fala: é o texto dosgramáticos, dos críticos, dos comentadores,filólogos (é o fenotexto). Mas nós temos tambémum corpo de fruição feito unicamente de relaçõeseróticas, sem qualquer relação com o primeiro: éum outro corte, uma outra nomeação; do mesmomodo o texto: ele não é senão a lista aberta dosfogos da linguagem (esses fogos vivos, essasluzes intermitentes, esses traços vagabundosdispostos no texto como sementes e quesubstituem vantajosamente para nós as “seminaaeternitatis”, os “zopyra”, as noções comuns, asassunções fundamentais da antiga filosofia). Otexto tem uma forma humana, é uma figura, umanagrama do corpo? Sim, mas de nosso corpoerótico. O prazer do texto seria irredutível a seufuncionamento gramatical (fenotextual), como oprazer do corpo é irredutível à necessidadefisiológica. 25
  28. 28. O prazer do texto é esse momento em quemeu corpo vai seguir suas próprias idéias – poismeu corpo não tem as mesmas idéias que eu. * * * Como sentir prazer em um prazer relatado(enfado das narrativas de sonhos, de festas)?Como ler a crítica? Um único meio: visto que souaqui um leitor em segundo grau, cumpre-medeslocar minha posição: esse prazer crítico, emvez de aceitar ser o seu confidente – meio segurode perdê-lo – posso tornar-me o seu voyeur:observo clandestinamente o prazer do outro, entrona perversão; o comentário faz-se então a meusolhos um texto, uma ficção, um envoltóriofendido. Perversidade do escritor (seu prazer deescrever não tem função), dupla e triplaperversidade do crítico e do seu leitor, até aoinfinito.
  29. 29. Um texto sobre o prazer não pode ser outracoisa senão curto (como se costuma dizer: isso étudo? é um 26pouco curto?), porque como o prazer só se deixadizer através da via indireta de uma reivindicação(tenho direito ao prazer), não se pode sair de umadialética breve, de dois tempos: o tempo da doxa,da opinião, e o da paradoxa, da contestação. Faltaum terceiro termo, outro além do prazer e suacensura. Esse termo fica postergado para maistarde, e enquanto nos agarrarmos ao nome mesmodo “prazer”, todo texto sobre o prazer será sempreapenas dilatório; será uma introdução ao quenunca se escreverá. Semelhante a essas produçõesda arte contemporânea, que esgotam a suanecessidade tão logo a pessoa as viu (pois, vê-las,é compreender imediatamente com que fimdestrutivo são expostas: não há mais nelasnenhuma duração contemplativa ou deleitativa),
  30. 30. uma tal introdução não poderia senão repetir-se –sem jamais introduzir nada. * * * O prazer do texto não é forçosamente dotipo triunfante, heróico, musculoso. Não temnecessidade de se arquear. Meu prazer pode muitobem assumir a forma de uma deriva. A derivaadvém toda vez que eu não respeito o todo e que,à força de parecer arrastado aqui 27e ali ao sabor das ilusões, seduções e intimidaçõesda linguagem, qual uma rolha sobre as ondas,permaneço imóvel, girando em torno da fruiçãointratável que me liga ao texto (ao mundo). Háderiva, toda vez que a linguagem social, osocioleto, me falta (como se diz: falta-me o
  31. 31. ânimo). Daí por que um outro nome da derivaseria: o Intratável – ou talvez ainda: a Asneira. Entretanto, se se chegasse a isso, dizer aderiva seria hoje um discurso suicida. * * * Prazer do texto, texto de prazer: estasexpressões são ambíguas porque não há palavrafrancesa para cobrir ao mesmo tempo o prazer (ocontentamento) e a fruição (o desvanecimento). O“prazer” é portanto aqui (e sem poder prevenir),ora extensivo à fruição, ora a ela oposto. 28Mas devo me acomodar com esta ambigüidade;pois, de um lado, tenho necessidade de um“prazer” geral, toda vez que preciso me referir aum excesso do texto, àquilo que, nele, excede
  32. 32. qualquer função (social) e qualquerfuncionamento (estrutural); e, de outro, tenhonecessidade de um “prazer” particular, simplesparte do Todo-prazer, toda vez que precisodistinguir a euforia, a saciedade, o conforto(sentimento de repleção em que a cultura penetralivremente), da agitação, do abalo, da perda,próprios da fruição. Sou compelido a estaambigüidade porque não posso depurar a palavra“prazer” dos sentidos de que ocasionalmente nãopreciso: não posso impedir que em francês“prazer” remeta ao mesmo tempo a umageneralidade (“principio de prazer”) e a umaminiaturização (“Os tolos estão neste mundo paraos nossos pequenos prazeres”). Sou portantoobrigado a deixar que o enunciado de meu textocaia na contradição. O prazer não é uma pequena fruição? Afruição é apenas um prazer extremo? O prazer éapenas uma fruição enfraquecida, aceita – edesviada através de um es-
  33. 33. 29calonamento de conciliações? A fruição não ésenão um prazer brutal, imediato (sem mediação)?Da resposta (sim ou não) depende a maneira pelaqual iremos contar a história de nossamodernidade. Pois se eu digo que entre o prazer ea fruição não há senão uma diferença de grau,digo também que a história está pacificada: otexto da fruição é apenas o desenvolvimentológico, orgânico, histórico, do texto de prazer, avanguarda não é mais do que a forma progressiva,emancipada, da cultura do passado: o hoje sai deontem, Robbe-Grillet já está em Flaubert, Sollersem Rabelais, todo o Nicolas de Stael em doiscentímetros quadrados de Cézanne. Mas se creio,ao contrário, que o prazer e a fruição são forçasparalelas, que elas não podem encontrar-se e queentre elas há mais do que um combate: umaincomunicação, então me cumpre na verdadepensar que a história, nossa história, não épacífica, nem mesmo pode ser inteligente, que otexto de fruição surge sempre aí à maneira de umescândalo (de uma claudicação), que ele é sempre
  34. 34. o traço de um corte, de uma afirmação (e não deum florescimento) e que o sujeito dessa história(esse sujeito histórico que eu sou entre outros),longe de poder acalmar-se levando em conjunto ogosto pelas obras passadas e a defesa das obrasmodernas num belo movimento dialético desíntese, nunca é mais do que uma “contradiçãoviva”: um sujeito clivado, que frui ao mesmotempo, através do texto, da consistência de seuego e de sua queda. 30 Temos, aliás, oriundo da psicanálise, ummeio indireto de fundamentar a oposição do textode prazer e do texto de fruição: o prazer é dizível,a fruição não o é. A fruição é in-dizível, inter-dita. Remeto aLacan (“O que é preciso considerar é que afruição está interdita a quem fala, como tal, ouainda que ela só pode ser dita entre as linhas...”),ou a Leclaire (“ ... aquele que diz, por seu dito, seinterdiz a fruição, ou, correlativamente, aquele
  35. 35. que frui faz com que toda letra – e todo ditopossível – se desvaneça no absoluto da anulaçãoque ele celebra”). O escritor de prazer (e seu leitor) aceita aletra; renunciando à fruição, tem o direito e opoder de dizê-la: a letra é seu prazer; estáobsedado por ela, como o estão todos aqueles queamam a linguagem (não a fala), todos oslogófilos, escritores, epistológrafos, lingüistas;dos textos de prazer é possível portanto falar (nãohá nenhum debate com a anulação do desfrute): acrítica versa sempre sobre textos de prazer,jamais sobre textos de fruição: Flaubert, Proust,Stendhal são comentados inesgotavelmente; acrítica diz então, do texto tutor, a fruição vã, afruição passada ou futura: vocês vão ler, eu li: acrítica é sempre histórica ou prospectiva; opresente constativo, a apresentação da fruição lheé interdita; sua matéria de predileção é portanto acultura, que é tudo em nós salvo nosso presente. Com o escritor de fruição (e seu leitor)começa o
  36. 36. 31texto insustentável, o texto impossível. Este textoestá fora-de-prazer, fora-da-crítica, a não ser queseja atingido por um outro texto de fruição: nãose pode falar “sobre” um texto assim, só se podefalar “em” ele, à sua maneira, só se pode entrarnum plágio desvairado, afirmar histericamente ovazio da fruição (e não mais repetirobsessivamente a letra do prazer). * * * Toda uma pequena mitologia tende a nosfazer acreditar que o prazer (e singularmente oprazer do texto) é uma idéia de direita. A direita,expede-se para a esquerda, com um mesmomovimento, tudo o que é abstrato, aborrecido,político, e as pessoas guardam para si o prazer:sejam bem-vindos entre nós, vocês que chegamenfim ao prazer da literatura! E à esquerda, por
  37. 37. moral (esquecendo-se os charutos de Marx eBrecht), suspeita-se, desdenha-se qualquer“resíduo de hedonismo”. À direita, o prazer éreivindicado contra a intelectualidade, o clericato:é o velho mito reacionário do coração contra acabeça, da sensação contra o raciocínio, da “vida”(quente) contra “a abstração” (fria): o artista nãodeve, segundo o sinistro preceito de Debussy,“procurar humilde- 32mente causar prazer”? À esquerda, opõe-se oconhecimento, o método, o compromisso, ocombate, à “simples deleitação” (no entanto, e seo próprio conhecimento fosse por sua vezdelicioso?). Dos dois lados, a idéia bizarra de queo prazer é coisa simples, e é por isso que oreivindicam ou o desprezam. O prazer, entretanto,não é um elemento do texto, não é um resíduoingênuo; não depende de uma lógica doentendimento e da sensação; é uma deriva,qualquer coisa que é ao mesmo temporevolucionário e associal e que não pode serfixada por nenhuma coletividade, nenhuma
  38. 38. mentalidade, nenhum idioleto. Qualquer coisa deneutro? E fácil ver que o prazer do texto éescandaloso: não porque é imoral, mas porque éatópico. * * * Por que todo este fasto verbal num texto? Oluxo da linguagem faz parte das riquezasexcedentes, do gasto inútil, da perdaincondicional? Uma grande obra de prazer (a deProust, por exemplo) participará da mesmaeconomia que as pirâmides do Egito? O escritorserá hoje em dia o substituto residual do Mendigo,do Monge, do Bonzo: improdutivo e no entantoalimentado? Análoga à 33Sangha búdica, a comunidade literária, qualquerque seja o álibi que apresentar, será mantida pela
  39. 39. sociedade mercantil, não pelo que o escritorproduz (não produz nada) mas pelo que elequeima? Excedente, mas de modo algum inútil? A modernidade faz um esforço incessantepara ultrapassar a troca: ela quer resistir aomercado das obras (excluindo-se da comunicaçãode massa), ao signo (pela isenção do sentido, pelaloucura), à boa sexualidade (pela perversão, quesubtrai a fruição à finalidade da reprodução). E,no entanto, não há nada a fazer: a troca recuperatudo, aclimatando o que parece negá-la: apreendeo texto, coloca-o no circuito das despesas inúteismas legais: ei-lo de novo metido numa economiacoletiva (ainda que fosse apenas psicológica); é aprópria inutilidade do texto que é útil, a título depotlach. Em outras palavras, a sociedade vivesobre o modo da clivagem: aqui, um textosublime, desinteressado, ali um objeto mercantilcujo valor é... a gratuidade desse objeto. Mas asociedade não tem a menor idéia do que seja essaclivagem: ela ignora sua própria perversão: “Asduas partes em litígio têm o seu quinhão: a pulsão
  40. 40. tem direito à sua satisfação, a realidade recebe orespeito que lhe é devido. Mas, acrescenta Freud,,nada há de gratuito exceto a morte, como todomundo sabe”. Para o texto, a única coisa gratuitaseria sua própria destruição: não escrever, nãomais escrever, salvo do risco de ser semprerecuperado. 34 Estar com quem se ama e pensar em outracoisa: é assim que tenho os meus melhorespensamentos, que invento melhor o que enecessário ao meu trabalho. O mesmo sucede como texto: ele produz em mim o melhor prazer seconsegue fazer-se ouvir indiretamente; se, lendo-o, sou arrastado a levantar muitas vezes a cabeça,a ouvir outra coisa. Não sou necessariamentecativado pelo texto de prazer; pode ser um atoligeiro, complexo, tênue, quase aturdido:movimento brusco da cabeça, como o de umpássaro que não ouve nada daquilo que nós
  41. 41. escutamos, que escuta aquilo que nós nãoouvimos. * * * A emoção: por que seria ela antipática àfruição (eu a via erradamente toda do lado dasentimentalidade, da ilusão moral)? É umaperturbação, uma orla de desvanecimento: algumacoisa de perversos, sob os exteriores de bonssentimentos; talvez seja mesmo a mais retorcidadas perdas, pois contradiz a regra geral, que querdar à fruição uma figura fixa: forte, violenta, crua:algo de necessariamente musculado, tenso, fálico.Contra a regra geral: nunca se deixar iludir pelaimagem da fruição; concordar em reconhecê-lapor toda parte onde sobreve- 35
  42. 42. nha uma perturbação da regulação amorosa(fruição precoce, retardada, emocionada, etc.): oamor-paixão como fruição. A fruição comosabedoria (quando consegue compreender-se a simesma fora de seus próprios preconceitos)? * * * Nada há a fazer: o enfado não é simples. Doenfado (perante uma obra, um texto), a gente nãose livra com gesto de irritação ou de desafogo.Assim como o prazer do texto supõe toda umaprodução indireta, do mesmo modo o enfado nãopode prevalecer-se de qualquer espontaneidade:não há enfado sincero: se, pessoalmente, o texto-tagarelice me enfada, é porque na realidade nãogosto da procura. Mas se eu gostasse dela (setivesse algum apetite maternal)? O enfado nãoestá longe da fruição: é a fruição vista dasmargens do prazer.
  43. 43. * * * Quanto mais uma história é contada de umamaneira decente, eloqüente, sem malícia, numtom adocica- 36do, tanto mais fácil é invertê-la, enegrecê-la, lê-laàs avessas (Mme de Ségur lida por Sade). Estainversão, sendo uma pura produção, desenvolvesoberbamente o prazer do texto. * * * Leio em Bouvard et Pécuchet esta frase,que me dá prazer: “Toalhas, lençóis, guardanapospendiam verticalmente, presos por pregadores de
  44. 44. madeira a cordas estendidas”. Aprecio aqui umexcesso de precisão, uma espécie de exatidãomaníaca da linguagem, uma loucura de descrição(que se encontra nos textos de Robbe-Grillet).Assistimos a este paradoxo: a língua literáriaabalada, ultrapassada, ignorada, na medidamesmo em que ela se ajusta à língua “pura”, àlíngua essencial, à língua gramatical (esta línguanão passa, evidentemente, de uma idéia). Aexatidão em questão não resulta de umencarecimento de cuidados, não é uma mais-valiaretórica, como se as coisas fossem cada vez maisbem descritas – mas de uma mudança de código: omodelo (longínquo) da descrição já não é odiscurso oratório (já não se “pinta” nada), masuma espécie de artefato lexicográfico. 37 O texto é um objeto fetiche e esse feticheme deseja. O texto me escolheu, através de todauma disposição de telas invisíveis, de chicanasseletivas: o vocabulário, as referências, alegibilidade, etc.; e, perdido no meio do texto (nãoatrás dele ao modo de um deus de maquinaria) há
  45. 45. sempre o outro, o autor. Como instituição, o autorestá morto: sua pessoa civil, passional, biográfica,desapareceu; desapossada, já não exerce sobre suaobra a formidável paternidade que a histórialiterária, o ensino, a opinião tinham o encargo deestabelecer e de renovar a narrativa: mas no texto,de uma certa maneira, eu desejo o autor: tenhonecessidade de sua figura (que não é nem suarepresentação nem sua projeção), tal como ele temnecessidade da minha (salvo no “tagarelar”). * * * Os sistemas ideológicos são ficções(fantasmas de teatro, diria Bacon), romances –mas romances clássicos, bem providos de intrigas,crises, personagens boas e más (o romanesco écoisa totalmente diversa: um simples corteinstruturado, uma disseminação de formas: omaya). Cada ficção é sustentada por um falar
  46. 46. social, um socioleto, ao qual ela se identifica: aficção é esse grau de consistente que umalinguagem atinge quando pegou 38excepcionalmente e encontra uma classesacerdotal (padres, intelectuais, artistas) para afalar comumente e a difundir. “... Cada povo tem acima de si um tal céude conceitos matematicamente repartidos, e, sob aexigência da verdade, entende doravante que tododeus conceitua) não seja buscado em outra parte anão ser em sua esfera” (Nietzsche): estamos todospresos na verdade das linguagens, quer dizer, emsua regionalidade, arrastados pela formidávelrivalidade que regula sua vizinhança. Pois cadafalar (cada ficção) combate pela hegemonia; setem por si o poder, estende-se por toda a parte nocorrente e no quotidiano da vida social, torna-sedoxa, natureza: é o falar pretensamente apolíticodos homens políticos, dos agentes do Estado, é oda imprensa, do rádio, da televisão; é o daconversação; mas mesmo fora do poder, contra
  47. 47. ele, a rivalidade renasce, os falares se fracionam,lutam entre si. Uma impiedosa tópica, regula avida da linguagem; a linguagem vem sempre dealgum lugar, é topos guerreiro. Ele imaginava o mundo da linguagem (alogosfera) com um imenso e perpétuo conflito deparanóias. Só sobrevivem os sistemas (as ficções,os falares) bastante 39inventivos para produzir uma derradeira figura aque marca o adversário sob um vocábulosemicientífico, semiético, espécie de torniqueteque permite ao mesmo tempo constatar, explicar,condenar, vomitar, recuperar o inimigo, em umapalavra: fazê-lo pagar. Assim, entre outros, é ocaso de certas vulgatas: do falar marxista, paraquem toda oposição é de classe; do psicanalítico,para quem toda denegação é confissão; do cristão,para quem toda recusa é busca, etc. Ele seespantava com o fato de a linguagem do podercapitalista não comportar à primeira vista, uma tal
  48. 48. figura de sistema (senão da mais baixa espécie,pois que os oponentes são sempre aí apresentadoscomo “intoxicados”, “teleguiados”, etc.);compreendia então que a pressão da linguagemcapitalista (tanto mais forte) não é de ordemparanóica, sistemática, argumentativa, articulada:é um empezamento implacável, uma doxa, umamaneira de inconsciente: em suma, uma ideologiaem sua essência. Para que esses sistemas falados cessem deenlouquecer ou incomodar, não há outro meioexceto habitar um deles. Senão: e eu, e eu, o que éque estou fazendo no meio disso tudo? 40O texto, esse, é atópico, senão no seu consumo,pelo menos em sua produção. Não é um falar,uma ficção, nele o sistema está desbordado,desfeito (esse desborda mento, essa defecção, é asignificância). Desta atopia ele toma e comunica aseu leitor um estado bizarro: ao mesmo tempoexcluído e pacífico. Na guerra das linguagens,
  49. 49. pode haver momentos tranqüilos, e essesmomentos são textos (“A guerra, diz uma daspersonagens de Brecht, não exclui a paz... Aguerra tem seus momentos pacíficos... Entre duasescaramuças, pode-se esvaziar muito bem umcanecão de cerveja...”). Entre dois assaltos depalavras, entre duas majestades de sistemas, oprazer do texto é sempre possível, não como umadistração, mas como uma passagem incongruente– dissociada – de uma outra linguagem, como oexercício de uma fisiologia diferente. Há ainda demasiado heroísmo em nossaslinguagens; nas melhores – penso na de Bataille –,há erotismo de certas expressões e finalmente umaespécie de heroísmo insidioso. O prazer do texto(a fruição do texto) é ao contrário como que umaobliteração súbita do valor guer- 41reiro, uma descamação passageira dos esporões doescritor, uma parada do “coração” (da coragem).
  50. 50. Como é que um texto, que é linguagem,pode estar fora das linguagens? Comoexteriorizar (colocar no exterior) os falares domundo, sem se refugiar em um úl timo falar apartir do qual os outros seriam simplesmenterelatados, recitados? Desde que nomeio, sounomeado: fico preso na rivalidade dos nomes.Como e que o texto pode “se safar” da guerra dasficções, dos socioletos? – Por um trabalhoprogressivo de extenuação. Primeiro o textoliquida toda metalinguagem, e é nisso que ele étexto: nenhuma voz (Ciência, Causa, Instituição)encontra-se por trás daquilo que é dito. Emseguida, o texto destrói até o fim, até acontradição, sua própria categoria discursiva, suareferência sociolingüística (seu “gênero”) é “ocômico que não faz rir”, a ironia que não sesujeita, a jubilação sem alma, sem mística(Sarduy), a citação sem aspas. Por fim, o textopode, se tiver gana, investir contra as estruturascanônicas da própria língua (Sollers): o léxico(neologismos exuberantes, palavras-gavetas,
  51. 51. transliterações), a sintaxe (acaba a célula lógica,acaba 42a frase). Trata-se, por transmutação (e não maissomente por transformação), de fazer surgir umnovo estado filosofal da matéria linguareira; esseestado inaudito, esse metal incandescente, fora deorigem e fora de comunicação, é então coisa delinguagem e não uma linguagem, fosse estadesligada, imitada, ironizada. O prazer do texto não tem preferência porideologia. Entretanto: essa impertinência não vempor liberalismo, mas por perversão: o texto, sualeitura, são clivados. O que é desbordado,quebrado, é a unidade moral que a sociedadeexige de todo produto humano. Lemos um texto(de prazer) como uma mosca voando no volumede um quarto: por ângulos bruscos, falsamentedefinitivos, atarefados e inúteis: a ideologia passasobre o texto e sua leitura como o rubor sobre umrosto (em amor, alguns apreciam eroticamente
  52. 52. esse vermelho); todo escritor de prazer tem suasruborizações imbecis (Balzac, Zola, Flaubert,Proust; somente Mallarmé talvez é senhor de suapele): no texto de prazer, as forças contrárias nãose encontram mais em estado de recalcamento,mas de devir: nada é verdadeiramente antagonista,tudo é plural. 43Eu atravesso ligeiramente a noite reacionária. Porexemplo, em Fécondité de Zola, a ideologia éflagrante, particularmente pegajosa: naturismo,familiarismo, colonialismo; isso não impede queeu continue a ler o livro. Esta distorção é banal?Podemos achar antes assombrosa a habilidadedoméstica com que o sujeito se partilha, dividindosua leitura, restituindo ao contágio do juízo, àmetonímia do contentamento: será isso que oprazer torna objetivo? Alguns querem um texto (uma arte, umapintura) sem sombra, cortada da “ideologiadominante”; mas é querer um texto sem
  53. 53. fecundidade, sem produtividade, um texto estéril(vejam o mito da Mulher sem Sombra). O textotem necessidade de sua sombra: essa sombra é umpouco de ideologia, um pouco de representação,um pouco de sujeito: fantasmas, bolsos, rastos,nuvens necessárias; a subversão deve produzir seupróprio claro-escuro. (Diz-se correntemente: “ideologiadominante”. Esta expressão é incongruente. Pois aideologia é o quê? É precisamente a idéiaenquanto ela domina: a ideologia só pode serdominante. Tanto é justo falar de “ideologia daclasse dominante” porque existe efetivamenteuma classe 44dominada, quanto é inconseqüente falar de“ideologia dominante”, porque não há ideologiadominada: do lado dos “dominados” não há nada,nenhuma ideologia, senão precisamente – e é oúltimo grau da alienação – a ideologia que elessão obrigados (para simbolizar, logo para viver) atomar de empréstimo à classe que os domina. A
  54. 54. luta social não pode reduzir-se à luta de duasideologias rivais: é a subversão de toda ideologiaque está em causa.) * * * Marcar bem os imaginários da linguagem,a saber: a palavra como unidade singular, mônadamágica; a fala como instrumento ou expressão dopensamento; a escritura como transliteração dafala; a frase como medida lógica, fechada; aprópria carência ou a recusa de linguagem comoforça primária, espontânea, pragmática. Oimaginário da ciência (a ciência como imaginário)toma a seu cargo todos estes artefatos: alingüística enuncia de, fato a verdade sobre alinguagem, mas, somente nisto: “que nenhumailusão consciente é cometida”: ora é a própriadefinição do imaginário: a inconsciência doinconsciente.
  55. 55. Já é um primeiro trabalho o de restabelecerna ciência da linguagem aquilo que só lhe éatribuído, fortuita- 45mente, desdenhosamente, ou com mais freqüênciaainda, recusado: a semiologia (a estilística, aretórica, dizia Nietzsche), a prática, a ação ética, o“entusiasmo” (Nietzsche ainda). Um segundotrabalho é o de reencaixar na ciência o que vaicontra ela: aqui, o texto. O texto é a linguagemsem o seu imaginário, e o que falta à ciência dalinguagem para que seja manifestada suaimportância geral (e não sua particularidadetecnocrática). Tudo o que é apenas tolerado outerminantemente recusado pela lingüística (comociência canônica, positiva), a significância, afruição, é precisamente isso que afasta o texto dosimaginários da linguagem. Sobre o prazer do texto, nenhuma “tese” épossível; apenas uma inspeção (uma introspecção)
  56. 56. que acaba depressa. Eppure si gaude! E noentanto, para com e contra todos, eu fruo do texto. Há exemplos ao menos? Poder-se-ia pensarnuma imensa colheita coletiva: recolher-se-iamtodos os textos que chegaram a dar prazer aalguém (de qualquer lugar que venham essestextos) e manifestar-se-ia esse corpo textual(corpus: é dizer bem), um pouco como a psica- 46nálise expôs o corpo erótico do homem. Um taltrabalho, entretanto, é de recear, levaria apenas aexplicar os textos retidos; haveria uma bifurcaçãoinevitável do projeto: não podendo dizer-se, oprazer entraria na via geral das motivações, dasquais nenhuma poderia ser definitiva (semenciono aqui alguns prazeres de texto, é semprede passagem, de uma maneira muito precária, demodo algum regular). Em uma palavra, umtrabalho assim não poderia ser escrito. Não possosenão girar em torno de um tal assunto – e porconseguinte mais vale fazê-lo breve esolitariamente do que coletiva e
  57. 57. interminavelmente; mais vale renunciar a passardo valor, fundamento da afirmação, aos valores,que são efeitos de cultura. Como criatura de linguagem, o escritor estásempre envolvido na guerra das ficções (dosfalares) mas nunca é mais do que um joguete,porque a linguagem que o constitui (a escritura)está sempre fora de lugar (atópica); pelo simplesefeito da polissemia (estádio rudimentar daescritura), o engajamento guerreiro de uma falaliterária é duvidoso desde a origem. O escritor seencontra sempre sobre a mancha cega dossistemas, à 47deriva; é um joker, um mana, um grau zero, omorto do bridge: necessário ao sentido (aocombate), mas ele mesmo privado de sentido fixo;seu lugar, seu valor (de troca) varia segundo osmovimentos da história, os golpes táticos da luta:pedem-lhe tudo e/ou nada. Ele próprio está fora datroca, mergulhado no não-lucro, o mushotoku zen,
  58. 58. sem desejo de ganhar nada, exceto a fruiçãoperversa das palavras (mas a fruição não é nuncaum ganho: nada a separa do satori, da perda).Paradoxo: esta gratuidade da escritura (queaproxima, pela fruição, a da morte) o escritorcala-a: ele se contrai, exercita os músculos, nega aderiva, recalca a fruição: são pouquíssimos os quecombatem ao mesmo tempo a repressãoideológica e a repressão libidinal (aquela,naturalmente, que o intelectual faz pesar sobre simesmo: sobre sua própria linguagem). * * * Lendo um texto referido por Stendhal (masque não é dele)1, encontro nele Proust por umminúsculo por-1 “Espisodes de la vie d’Athanase Auger, publiés par sa nièce”,em Les Mémoires d’un touriste, I, pp. 238-245 (STENDHAL,Obras Completas, Calmann-Lévy, 1891).
  59. 59. 48menor. O Bispo de Lescars designa a sobrinha deseu vigário-geral por uma série de apóstrofespreciosas (minha pequena sobrinha, minhaamiguinha, minha linda morena, ah pequenagulosa!) que ressuscitam em mim as fórmulas deduas mensageiras do Grande Hotel de Balbec,Marie Geneste e Céleste Albaret, ao narrador (Oh!diabinho de cabelos de gaio, oh profundamalícia! Ah juventude! Ah linda pele!). Alhures,mas da mesma maneira, em Flaubert, são asmacieiras normandas em flor que leio a partir deProust. Saboreio o reino das fórmulas, a inversãodas origens, a desenvoltura que faz com que otexto anterior provenha do texto ulterior.Compreendo que a obra de Proust é, ao menospara mim, a obra de referência, a mathesis geral, amandala de toda a cosmogonia literária – como oeram as Cartas de Mme de Sévigné para a avó donarrador, os romances de cavalaria para D.Quixote, etc.; isto não quer de modo algum dizerque sou um “especialista” de Proust: Proust, é oque me ocorre, não é o que eu chamo; não é uma
  60. 60. “autoridade”; é simplesmente uma lembrançacircular. E é bem isto o intertexto: aimpossibilidade de viver fora do texto infinito –quer esse texto seja Proust, ou o jornal diário, ou atela de televisão: o livro faz o sentido, o sentidofaz a vida. 49 * * * Se você mete um prego na madeira, amadeira resiste diferentemente conforme o lugarem que é atacada: diz-se que a madeira não éisotrópica. O texto tampouco é isotrópico: asmargens, a fenda, são imprevisíveis. Do mesmomodo que a física (atual) precisa ajustar-se aocaráter não-isotrópico de certos meios, de certosuniversos, assim é necessário que a análiseestrutural (a semiologia) reconheça as menores
  61. 61. resistências do texto, o desenho irregular de seusveios. * * * Nenhum objeto está numa relação constantecom o prazer (Lacan, a propósito de Sade).Entretanto, para o escritor, esse objeto existe; nãoé a linguagem, é a língua, a língua materna. Oescritor é alguém que brinca com o corpo da mãe(remeto a Pleynet, sobre Lautréamont e sobreMatisse): para o glorificar, para o embelezar, oupara o despedaçar, para o levar ao limite daquiloque, do corpo, pode ser reconhecido: eu iria aponto de desfrutar de uma desfiguração da língua,e a opinião pública soltaria grandes gritos, pois elanão quer que se Mesfigure a natureza”. 50
  62. 62. * * * Dir-se-ia que para Bachelard os escritoresjamais escreveram: por um corte bizarro, sãoapenas lidos. Pôde assim fundar uma pura críticade leitura, e ele a fundou no prazer: estamosempenhados em uma prática homogênea(escorregadia, eufórica, voluptuosa, unitária,jubilatória) e esta prática nos cumula: ler-sonhar.Com Bachelard, é toda a poesia (como simplesdireito de descontinuar a literatura, o combate)que passa ao crédito do prazer. Mas uma vez quea obra é percebida sob as espécies de umaescritura, o prazer range, a fruição desponta eBachelard se afasta. * * *
  63. 63. Eu me interesso pela linguagem porque elame fere ou me seduz. Trata-se, talvez, de umaerótica de classe? Mas de que classe? A burguesa?Ela não tem nenhum gosto pela linguagem, que jánão é sequer a seus olhos, luxo, elemento de umaarte de viver (morte da “grande” literatura), masapenas instrumento ou cenário (fraseologia). Apopular? Aqui, desaparecimento de toda atividademágica ou poética: não há mais carnaval, não sebrinca mais com as palavras: fim das metáforas,reino dos 51estereótipos impostos pela cultura pequeno-burguesa. (A classe produtora não temnecessariamente a linguagem de seu papel, de suaforça, de sua virtude. Logo: dissociação dassolidariedades, das empatias – muito fortes aqui,nulas ali. Crítica da ilusão totalizante: não importaqual aparelho unifica primeiro a linguagem; masnão é preciso respeitar o todo.) Resta uma ilhota: o texto. Delícias de casta,mandarinato? O prazer talvez, mas não a fruição.
  64. 64. Nenhuma significância (nenhuma fruição)pode produzir-se, estou persuadido disso, numacultura de massa (a distinguir, como o fogo daágua, da cultura das mas sas), pois o modelo dessacultura é pequeno-burguês. É a característica denossa contradição (histórica) que a significância(a fruição) esteja inteiramente refugiada em umaalternativa excessiva: ou numa prática mandarinal(proveniente de uma extenuação da culturaburguesa) ou então numa idéia utópica (a de umacultura vindoura, surgida de uma revoluçãoradical, inaudita, imprevisível, sobre a qualaquele que hoje escreve só sabe uma coisa: é que,como Moisés, não entrará aí). 52 Caráter associal da fruição. Ela é a perdaabrupta da socialidade e, no entanto, não se seguedaí nenhuma recaída no sujeito (a subjetividade),na pessoa, na solidão: tudo se perde,
  65. 65. integralmente. Fundo extremo da clandestinidade,negro de cinema. Todas as análises sócio-ideológicasconcluem pelo caráter deceptivo da literatura (oque lhes tira um pouco de sua pertinência): a obraseria finalmente sempre escrita por um gruposocialmente desiludido ou impotente, fora decombate por situação histórica, econômica,política; a literatura seria a expressão dessadecepção. Estas análises esquecem (e é normal,visto que são hermenêuticas baseadas na pesquisaexclusiva do significado) o formidável anverso daescritura: a fruição: fruição que pode explodir,através dos séculos, fora de certos textos escritosentretanto para a glória da mais sombria, da maissinistra filosofia. 53 * * *
  66. 66. A linguagem que eu falo em mim mesmonão é de meu tempo; está exposta, por natureza, àsuspeita ideológica; é portanto com ela que épreciso que eu lute. Escrevo porque não quero aspalavras que encontro: por subtração. E, aomesmo tempo, esta penúltima linguagem é a demeu prazer: leio ao longo das noites Zola, Proust,Verne, Monte Cristo, As Memórias de um Turistae mesmo as vezes Julien Green. Isto é o meuprazer, mas não a minha fruição: esta só tempossibilidade de aparecer com o novo absoluto,pois só o novo abala (infirma) a consciência(fácil? de modo algum: nove em dez vezes, onovo é apenas o estereótipo da novidade). O Novo não é uma moda, é um valor,fundamento de toda crítica: nossa avaliação domundo já não depende, pelo menos diretamente,como em Nietzsche, da oposição do nobre e dovil, mas da do Antigo e do Novo (o erótico doNovo começou desde o século XVIII: longa
  67. 67. transformação em marcha). Para escapar àalienação da sociedade presente, só existe estemeio: fuga para frente: toda linguagem antiga éimediatamente comprometida, e 54toda linguagem se torna antiga desde que érepetida. Ora, a linguagem encrática (aquela quese produz e se espalha sob a proteção do poder) éestatutariamente uma linguagem de repetição;todas as instituições oficiais de linguagem sãomáquinas repisadoras: a escola, o esporte, apublicidade, a obra de massa, a canção, ainformação, redizem sempre a mesma estrutura, omesmo sentido, amiúde as mesmas palavras: oestereótipo é um fato político, a figura principalda ideologia. Em face disto, o Novo é a fruição(Freud: “No adulto, a novidade constitui sempre acondição da fruição”). Daí a configuração atualdas forças: de um lado, um achatamento de massa(ligado à repetição da linguagem) – achatamentofora-de-fruição, mas não forçosamente fora-de-prazer – e, de outro, um arrebatamento (marginal,excêntrico) rumo ao Novo – arrebatamento
  68. 68. desvairado que poderá ir até a destruição dodiscurso: tentativa para fazer ressurgirhistoricamente a fruição recalcada sob oestereótipo. A oposição (o gume do valor) não ocorreforçosamente entre contrários consagrados,nomeados (o materialismo e o idealismo, oreformismo e a revolução, etc.); mas ocorresempre e em toda parte entre a exceção e a regra.A regra é o abuso, a exceção é a fruição. Porexemplo, em certos momentos, é possívelsustentar a exceção dos Místicos. Tudo depreferência à regra (a generalidade, o estereótipo,o idioleto: a linguagem consistente). 55 Entretanto, pode-se pretender exatamente ocontrário (não obstante, não seria eu que opretenderia): a repetição engendraria ela mesma afruição. Os exemplos etnográficos abundam:ritmos obsessivos, músicas encantatórias, litanias,ritos, nembutsu búdico, etc.: repetir até o excesso
  69. 69. é entrar na perda, no zero do significado. Somenteque: para a repetição ser erótica, cumpre que elaseja formal, literal, e, em nossa cultura, estarepetição afixada (excessiva) volta a serexcêntrica e repelida para certas regiões marginaisda música. A forma bastarda da cultura de massaé a repetição vergonhosa: repetem-se osconteúdos, os esquemas ideológicos, a obliteraçãodas contradições, mas variam-se as formassuperficiais: há sempre livros, emissões, filmesnovos, ocorrências diversas, mas é sempre omesmo sentido. Em suma, a palavra pode ser erótica sobduas condições opostas, ambas excessivas: se forrepetida a todo transe, ou ao contrário se forinesperada, suculenta por sua novidade (em certostextos, há palavras que brilham, são apariçõesdistrativas, incongruentes – pouco importa quesejam pedantes; assim, pessoalmente, tenho prazercom esta frase de Leibniz: “... como se os relógiosde bolso marcassem as horas por uma certafaculdade horodêitica, sem terem necessidade derodas, ou como se os moinhos partissem os grãos
  70. 70. por uma qualidade frativa, sem terem necessidadede nada que se assemelhasse às mós”). Nos doiscasos, é a mesma física de fruição, o sul 56co, a inscrição, a síncope: o que é cavado, batidoou o que explode, detona. O estereótipo é a palavra repetida, fora detoda magia, de todo entusiasmo, como se fossenatural, como se por milagre essa palavra queretorna fosse a cada vez adequada por razõesdiferentes, como se imitar pudesse deixar de sersentido como uma imitação: palavra sem-cerimônia, que pretende a consistência e ignorasua própria insistência. Nietzsche fez o reparo deque a “verdade” não era outra coisa senão asolidificação de antigas metáforas. Pois bem, deacordo com isso, o estereótipo é a via atual da“verdade”, o traço palpável que faz transitar oornamento inventado para a forma canonical,coercitiva, do significado. (Seria bom imaginaruma nova ciência lingüística; ela estudaria não
  71. 71. mais a origem das palavras, ou etimologia, nemsequer sua difusão, ou lexicologia, mas osprogressos de sua solidificação, seu espessamentoao longo do discurso histórico; esta ciência seriasem dúvida subversiva, manifestando muito maisque a origem histórica da verdade: sua naturezaretórica, linguareira.) 57 A desconfiança com respeito ao estereótipo(ligada à fruição da palavra nova ou do discursoinsustentável) é um princípio de instabilidadeabsoluta, que não respeita nada (nenhumconteúdo, nenhuma escolha). A náusea aparecedesde que a ligação de duas palavras importantesse torna evidente por si. E desde que uma coisa setorna evidente por si, abandona-a: é a fruição.Irritação fútil? Na novela de Edgar Poe, o Sr.Valdemar, o moribundo magnetizado, sobrevive,cataléptico, pela repetição das perguntas que lhesão dirigidas (“Sr. Valdemar, está dormindo?”);mas essa sobrevivência é insustentável; a falsamorte, a morte atroz, é aquilo que não é um termo,é interminável (“Pelo amor de Deus! – Depressa!
  72. 72. – Depressa! – façam-me dormir, – ou entãodepressa! acordem-me depressa! – Eu lhes afirmoque estou morto!”). O estereótipo é estanauseabunda impossibilidade de morrer. No campo intelectual, a escolha política éuma suspensão de linguagem – portanto umafruição. Entretanto, a linguagem reaparece, sob asua forma mais consistente (o estereótipopolítico). É então preciso engolir essa linguagem,sem náusea. 58 Outra fruição (outras margens): ela consisteem despolitizar o que é aparentemente político, eem politizar o que aparentemente não o é. – Masnão, vejamos, a gente politiza o que deve serpolitizado e é tudo.
  73. 73. * * * Niilismo: “os fins superiores se depreciam”.É um momento instável, ameaçado, pois outrosvalores superiores tendem, tão logo e antes que osprimeiros sejam destruídos, a tomar a dianteira; adialética nada mais faz senão ligar positividadessucessivas; daí a sufocação, no seio mesmo doanarquismo. Como pois instalar a carência detodo valor superior? A ironia? Ela parte sempre deum lugar seguro. A violência? É um valorsuperior e dos mais bem codificados. A fruição?Sim, se ela não for dita, doutrinal. O niilismo maisconseqüente está talvez sob máscara: de umacerta maneira é interior às instituições, aosdiscursos conformes, às finalidades aparentes. 59
  74. 74. * * * A. me confia que não suportaria que suamãe fosse desavergonhada – mas suportaria que opai o fosse; acrescenta: é estranho, isso, não é? –Bastaria um nome para pôr fim a seu espanto:Édipo! A. está a meu ver muito perto do texto,pois este não dá os nomes – ou suspende os queexistem; não diz (ou com que intenção duvidosa?)o marxismo, o brechtismo, o capitalismo, oidealismo, o Zen, etc.; o Nome não vem aoslábios; é fragmentado em práticas, em palavrasque não são Nomes. Ao se transportar aos limitesdo dizer, numa mathesis dá linguagem que nãoquer ser confundida com a ciência, o texto desfaza nomeação e é essa defecção que o aproxima dafruição. Num texto antigo que acabo de ler (umepisódio da vida eclesiástica relatado por
  75. 75. Stendhal), passagem da alimentação nomeada: doleite, das torradas, do queijo ao creme Chantilly,das compotas de Bar, das laranjas de Malta, dosmorangos ao açúcar. Será ainda um prazer de purarepresentação (sentido então apenas pelo leitorguloso)? Mas eu não gosto de leite nem deiguarias açucaradas e me projeto pouco nopormenor destas pequenas refeições. Outra coisase passa, ligada sem dúvida a um 60outro sentido da palavra “representação”. Quando,num debate, alguém representa qualquer coisa aseu interlocutor, não faz mais do que citar oúltimo estado da realidade, o intratável que existenela. Do mesmo modo, talvez, o romancista aocitar, ao nomear, ao notificar a alimentação (aotratá-la como notável), impõe ao leitor o últimoestado da matéria, aquilo que, nela, não pode serultrapassado, recuado (não é por certo o caso dosnomes que foram mencionados anteriormente:marxismo, idealismo, etc.). É isso! Este grito nãodeve ser entendido como o próprio limite danomeação, da imaginação. Haveria em suma dois
  76. 76. realismos: o primeiro decifra o “real” (o que sedemonstra mas não se vê) e o segundo diz a“realidade” (o que se vê mas não se demonstra); oromance, que pode misturar estes dois realismos,junta ao inteligível do “real” a cauda fantasmáticada “realidade”: espanto com o fato de que secomesse em 1791 “uma salada de laranjas comrum”, como em nossos restaurantes de hoje: iscade inteligível histórico e teimosia da coisa (alaranja, o rum) em estar aí. * * * Um francês em cada dois, parece, não lê;metade da França está privada – se priva do prazerdo texto. Ora, 61nunca se deplora esta desgraça nacional a não serde um ponto de vista humanista, como se,recusando o livro, os franceses renunciassem
  77. 77. somente a um bem moral, a um valor nobre. Seriapreferível fazer a sombria, estúpida, trágicahistória de todos os prazeres aos quais associedades objetam ou renunciam: há umobscurantismo do prazer. Mesmo se repusermos o prazer do texto nocampo de sua teoria e não no de sua sociologia (oque arrasta aqui a uma discussão particular,aparentemente desprovida de qualquer alcancenacional ou social), é efetivamente uma alienaçãopolítica que está em causa: a perempção do prazer(e mais ainda da fruição) em uma sociedadetrabalhada por duas morais: uma majoritária, davulgaridade, outra, grupuscular, do rigor (políticoe/ou científico). Dir-se-ia que a idéia do prazer jánão lisonjeia ninguém. Nossa sociedade parece aomesmo tempo calma e violenta; de toda maneira:frígida. * * *
  78. 78. A morte do Pai privará a literatura de muitode seus prazeres. Se não há mais Pai, de que servecontar histórias? Todo relato não se reduz aoÉdipo? Contar é sem- 62pre procurar a origem, dizer as disputas com aLei, entrar na dialética do enternecimento e doódio? Hoje, equilibra-se em um mesmo lance oÉdipo e o relato: já não se ama, já não se teme, jánão se conta. Como ficção, o Édipo servia aomenos para alguma coisa: para fazer bonsromances, para narrar bem (isto foi escrito depoisde ter visto City Girl de Murnau). Muitos leitores são perversos, implicamuma clivagem. Assim como a criança sabe quesua mãe não tem pênis e ao mesmo tempo julgaque ela tem um (economia cuja rentabilidadeFreud mostrou), do mesmo modo o leitor podedizer incessantemente: eu sei que são apenas
  79. 79. palavras, mas mesmo assim... (emociono-mecomo se essas palavras enunciassem umarealidade). De todas as leituras é a leitura trágicaque é a mais perversa: tenho prazer em me ouvircontar uma história cujo fim eu conheço: sei e nãosei, ajo em face de mim mesmo como se nãosoubesse: sei muito bem que Édipo serádesmascarado, que Danton será guilhotinado, masmesmo assim... Em relação à história dramática,que é aquela cujo resultado ignoro, há umaobliteração do prazer e uma progressão da fruição(hoje, na cultura de massa, grande consumo de“dramáticos”, pouca fruição). 63 Proximidade (identidade?) da fruição e domedo. O que repugna a uma tal aproximação nãoé evidentemente a idéia de que o medo é umsentimento desagradável – idéia banal – mas que éum sentimento mediocremente indigno; ele é odeixado-por-conta de todas as filosofias (só,Hobbes, creio: “a única paixão de minha vida foio medo”); a loucura não lhe quer mal (salvo talveza loucura antiquada: o Horla), e isso impede que o
  80. 80. medo seja moderno: é uma recusa da transgressão,uma loucura que se abandona com plenaconsciência. Para uma derradeira fatalidade, osujeito que tem medo permanece sempre sujeito;quando muito depende da neurose (fala-se entãode angústia, palavra nobre, palavra científica: maso medo não é a angústia). São estas razões mesmas que aproximam omedo da fruição; ele é a clandestinidade absoluta,porque é “inconfessável” (embora atualmenteninguém esteja pronto a confessá-lo), mas porque,cindindo o sujeito ao deixá-lo intato, só tem à suadisposição significantes conformes: a linguagemdelirante é recusada àquele que ouve o medeerguer-se nele. “Escrevo para não ficar louco”,dizia Bataille – o que queria dizer que escrevia aloucura; mas quem poderia dizer: “Escrevo paranão ter medo”? Quem poderia escrever o medo (oque não impediria dizer contá-lo)? O medo nãoexpulsa, não constrange, nem realiza a escritura:pela mais imóvel das contradições, os doiscoexistem – separados.
  81. 81. (Sem falar do caso em que escrever fazmedo.) 64 Uma noite, meio adormecido sobre umabanqueta de bar, eu tentava por brincadeiraenumerar todas as linguagens que entravam emminha escuta: músicas, conversações, ruídos decadeiras, de copos, toda uma estereofonia da qualuma praça de Tânger (descrita por Severo Sarduy)é o lugar exemplar. Em mim isso também falava(é coisa conhecida), e essa fala dita “interior”parecia muito com o rumor da praça, com esseescalonamento de pequenas vozes que me vinhado exterior: eu mesmo era um lugar público, umsouk; em mim passavam as palavras, os pequenossintagmas, as pontas de fórmulas, e nenhumafrase se formava, como se fosse a lei destalinguagem. Esta fala ao mesmo tempo muitocultural e muito selvagem era sobretudo lexical,esporádica; constituía em mim, através de seufluxo aparente, um descontínuo definitivo: esta
  82. 82. não-frase não era de modo algum algo que nãotivesse tido poder para chegar à frase, que tivesseexistido antes da frase; era: aquilo que existeeternamente, soberbamente, fora da frase. Então,virtualmente, toda a lingüística cairia por terra, elaque só acredita na frase e sempre atribuiu umadignidade exorbitante à sintaxe predicativa (comoforma de uma lógica, de uma racionalidade); eume lembrava deste escândalo científico: nãoexiste nenhuma gramática locutiva (gramáticadaquele que fala, e não daquilo que se escreve; epara começar: gramática do francês falado).Estamos entregues à frase (e daí: à fraseologia). 65 A Frase é hierárquica: implica sujeições,subordinações, recções internas. Daí o seuacabamento: como poderia uma hierarquiapermanecer aberta? A Frase é acabada; é mesmoprecisamente: essa linguagem que é acabada. Aprática, nisso, difere muito da teoria. A teoria(Chomsky) diz que a frase é por direito infinita
  83. 83. (infinitamente catalisável) mas a prática obrigasempre a terminar a frase. “Toda atividadeideológica se apresenta sob a forma de enunciadoscomposicionalmente acabados.” Tomemostambém esta proposição de Julia Kristeva por seuanverso: todo enunciado acabado corre o risco deser ideológico. Com efeito, é o poder deacabamento que define a mestria frástica e quemarca, como que com um savoir-faire supremo,duramente adquirido, conquistado, os agentes daFrase. O professor é alguém que acaba suasfrases. O político entrevistado tem visíveldificuldade em imaginar um fim para a sua frase:e se esquecesse o que ia dizer? Toda a sua políticaseria atingida! E o escritor? Valéry dizia: “Nãopensamos palavras, pensamos somente frases”.Dizia isso porque era escritor. É chamado escritor,não aquele que exprime seu pensamento, suapaixão ou sua imaginação por meio de frases, masaquele que pensa frases: um Pensa-Frase (querdizer: não inteiramente um pensador e neminteiramente um fraseador). 66
  84. 84. O prazer da frase é muito cultural. Oartefato criado pelos retóricos, gramáticos,lingüistas, mestres, escritores, pais, esse artefatoimitado de uma maneira mais ou menos lúdica:joga-se com um objeto excepcional, cujoparadoxo foi bem sublinhado pela lingüística:imutavelmente estruturado e no entantoinfinitamente renovável: algo como o jogo dexadrez. A menos que, para certos perversos, a fraseseja um corpo? * * * Prazer do texto. Clássicos. Cultura (quantomais cultura houver, maior, mais diverso será oprazer). Inteligência. Ironia. Delicadeza. Euforia.Domínio. Segu rança: arte de viver. O prazer dotexto pode definir-se por uma prática (sem
  85. 85. nenhum risco de repressão): lugar e tempo deleitura: casa, província, refeição próxima,candeeiro, família lá onde é preciso, isto é, aolonge e não longe (Proust no gabinete com aromasde íris), etc. Extraordinário reforço do ego (pelofantasma); inconsciente acolchoado. Este prazerpode ser dito: daí vem a crítica. 67 Textos de fruição. O prazer em porções; alíngua em porções; a cultura em porções. Sãoperversos pelo fato de estarem fora de qualquerfinalidade imaginável – mesmo a do prazer (afruição não obriga ao prazer; pode mesmoaparentemente aborrecer). Nenhum álibi resiste,nada se reconstitui, nada se recupera. O texto defruição é absolutamente intransitivo. Entretanto, aperversão não basta para definir a fruição: é oextremo da perversão que a define: extremosempre deslocado, extremo vazio, móvel,imprevisível. Este extremo assegura fruição: umaperversão média se atravanca rapidamente comum jogo de finalidades subalternas: prestígio,cartaz, rivalidade, discurso, parada, etc.
  86. 86. Todo mundo pode testemunhar que o prazerdo texto não é seguro: nada nos diz que estemesmo texto nos agradará uma segunda vez; é umprazer friável, cortado pelo humor, pelo hábito,pela circunstância, é um prazer precário (obtidoatravés de uma prece silenciosa dirigida à Gana desentir-se bem e que esta Gana pode revogar); daí aimpossibilidade de falar deste texto do ponto devista da ciência positiva (sua jurisdição é a daciência crítica: o prazer como princípio crítico). 68 A fruição do texto não é precária, é pior:precoce; não surge no devido tempo, não dependede nenhum amadurecimento. Tudo é arrebatadonuma só vez. Este arrebatamento é evidente napintura, a que se faz hoje: desde que écompreendido, o princípio da perda se tornaineficaz, é preciso passar a outra coisa. Tudo éjogado, tudo é fruído na primeira vista.
  87. 87. * * * O texto é (deveria ser) essa pessoadesenvolta que mostra o traseiro ao Pai Político. * * * Por que é que, em obras históricas,romanescas, biográficas, há (para alguns aos quaispertenço) um prazer em ver representar a “vidaquotidiana” de uma época, de uma personagem?Por que essa curiosidade pelos pequenospormenores: horários, hábitos, refeições;habitações, roupas, etc.? Será o gostofantasmático da “realidade” (a 69
  88. 88. própria matéria do “isto existiu”)? E não será opróprio fantasma que chama o “pormenor”, a cenaminúscula, privada, na qual posso facilmentetomar lugar? Em suma haveria aí “pequenoshistéricos” (esses leitores), que tirariam suafruição de um singular teatro: não. o da grandeza,mas o da mediocridade (não poderá haver sonhos,fantasmas da mediocridade?). Assim, é impossível de imaginar notaçãomais tênue, mais insignificante que a do “tempoque faz” (que fazia); no entanto, outro dia, ao ler,ao tentar ler Amiel, irritação pelo fato de que oeditor, virtuoso (mais um que exclui o prazer),tenha julgado estar procedendo bem ao suprimirdesse Diário os detalhes quotidianos, o tempo quefazia às margens do lago de Genebra, paraconservar apenas insípidas considerações morais:é no entanto este tempo que não teria envelhecidoe não a filosofia de Amiel. * * *
  89. 89. A arte parece comprometida, histórica esocialmente. Daí o esforço do próprio artista paradestruí-la. Vejo três formas para esse esforço. O artistapode passar a um outro significaste: se é escritor,tornar-se cineasta, pintor, ou, pelo contrário, se épintor, cineasta, desenvolver intermináveisdiscussões críticas sobre o cinema, 70a pintura, reduzir voluntariamente a arte à suacrítica. Pode também despedir a escritura,submeter-se à escrevinhação, tornar-se douto,teórico intelectual, nunca mais falar senão de umlugar moral, limpo de toda sensualidade delinguagem. Pode enfim pura e simplesmente pôr-se a pique, parar de escrever, mudar de profissão,de desejo. A desgraça é que esta destruição é sempreinadequada; ou se torna exterior à arte, mas se faza partir daí impertinente, ou então consente em
  90. 90. permanecer na prática da arte, mas se oferece bemdepressa à recuperação (a vanguarda é essalinguagem renitente que vai ser recuperada). Odesconforto desta alternativa vem do fato de que adestruição do discurso não é um termo dialético,mas um termo semântico: alinha-se docilmentesob o grande mito semiológico do “versus”(branco versus negro); a partir daí a destruição daarte está condenada às exclusivas formasparadoxais (aquelas que vão, literalmente, contraa doxa): os dois lados do paradigma estão coladosum no outro de um modo finalmente cúmplice: háacordo estrutural entre as formas contestastes e asformas contestadas. (Entendo ao contrário por subversão sutilaquela que não se interessa diretamente peladestruição, esquiva o paradigma e procura umoutro termo: um terceiro termo, que não seja,entretanto, um termo de síntese, mas um termoexcêntrico inaudito. Um exemplo? Bataille,talvez, que frustra o termo idealista por ummaterialismo inesperado, onde tomam lugar ovício, a devoção, o jogo, o erro-
  91. 91. 71tismo impossível, etc.; assim, Bataille não opõe opudor à liberdadade sexual, mas... o risco). O texto de prazer não é forçosamente o querelata prazeres, o texto de fruição não é nunca oque conta uma fruição. O prazer da representaçãonão está ligado a seu objeto: a pornografia não ésegura. Em termos zoológicos, dir-se-á que olugar do prazer textual não é a relação do mimo edo modelo (relação de imitação), mas somente ado otário e do mimo (relação de desejo, deprodução). Cumpriria aliás distinguir entre figuração erepresentação. A figuração seria o modo de aparição docorpo erótico (em, qualquer grau e sob qualquermodo que seja) no perfil do texto. Por exemplo: oautor pode aparecer em seu texto (Genet, Proust),mas de modo algum sob a espécie da biografiadireta (o que excederia o corpo, daria um sentido
  92. 92. à vida, forjaria um destino). Ou ainda: pode-seconceber desejo por uma personagem de romance(pulsões fugitivas). Ou enfim: o próprio texto,estrutura diagramática, e não imitativa, podedesvelar-se sob a forma de corpo, clivado emobjetos fetiches, em lugares eróticos. Todos estesmovimentos atestam uma figura do texto, ne- 72cessária à fruição de leitura. Do mesmo modo, emais ainda que o texto, o filme será seguramentesempre figurativo (daí por que apesar de tudo valea pena fazê-lo) – mesmo que não represente nada. A representação, por ela, seria umafiguração embaraçada, atravancada de outrossentidos que não o do desejo: um espaço de álibis(realidade, moral, verossimilhança, legibilidade,verdade, etc.). Eis um texto de pura representação:Barbey d’Aurevilly escreve sobre a virgem deMemling: “Ela está muito direita, muitoperpendicularmente colocada. Os seres purosestão direitos. Pela cintura e pelo movimento,reconhecem-se as mulheres castas; as voluptuosas
  93. 93. arrastam-se, enlanguescem e curvam-se, sempre aponto de cair”. Notem de passagem que oprocesso representativo pode gerar tanto uma arte(o romance clássico) quanto uma “ciência” (agrafologia, por exemplo, que, da moleza de umaletra, conclui a indolência do escrevente) e quepor conseqüência é justo, sem sofisticaçãoqualquer, considerá-la imediatamente ideológica(pela extensão histórica de sua significação). Semdúvida, acontece muitas vezes que a representaçãotoma por objeto de imitação o próprio desejo;mas, então, esse desejo nunca sai do quadro, dacena; circula entre as personagens; se tiver umdestinatário, esse destinatário permanece interior àficção (poder-se-á dizer, por conseguinte, quequalquer semiótica que mantenha o desejoencerrado na configuração dos actantes, por maisnova que seja, é 73uma semiótica da representação. A representaçãoé isso: quando nada sai, quando nada salta fora doquadro: do quadro, do livro, do écran).
  94. 94. * * * Mal se acabou de dizer uma palavra, emqualquer parte, sobre o prazer do texto, há logodois policiais prontos a nos cair em cima: opolicial político e o policial psicanalítico:futilidade e/ou culpabilidade, o prazer é ou ociosoou vão, é uma idéia de classe ou uma ilusão. Tradição antiga, muito antiga: o hedonismofoi repelido por quase todas as filosofias; só seencontra a reivindicação hedonista entre osmarginais, Sade, Fourier; para o próprioNietzsche, o hedonismo é um pessimismo. Oprazer é incessantemente enganado, reduzido,desinflado, em proveito de valores fortes, nobres:a Verdade, a Morte, o Progresso, a Luta, aAlegria, etc. Seu rival vitorioso é o Desejo: falam-nos sem cessar do Desejo, nunca do Prazer; oDesejo teria uma dignidade epistêmica, o Prazer
  95. 95. não. Dir-se-ia que a sociedade (a nossa) recusa (eacaba por ignorar) de tal modo a fruição, que sópode produzir epistemologias da Lei (e de suacontestação), mas jamais de sua ausência, oumelhor ainda: de sua nulidade. É 74curiosa esta permanência filosófica do Desejo(enquanto nunca é satisfeito): esta palavra nãodenotaria uma “idéia de classe”? (Presunção deprova bastante grosseira, e todavia notável: o“popular” não conhece o Desejo – nada maisexceto prazeres.) Os livros ditos “eróticos” (cumpreacrescentar: de feitura corrente, para excetuarSade e alguns outros) representam menos a cenaerótica do que sua expectativa, sua preparação,sua escalada; é nisso que são “excitantes”; e,quando a cena chega, há naturalmente decepção,deflação. Em outros termos, são livros do Desejo,não do Prazer. Ou, mais maliciosamente, põemem cena o Prazer tal como o vê a psicanálise. Um
  96. 96. mesmo sentido diz aqui e lá que tudo isso é muitoilusório. (O monumento psicanalítico tem de seratravessado – não contornado, como as viasadmiráveis de uma gran- 75de cidade, vias através das quais se pode brincar,sonhar, etc.: é uma ficção.) Haveria, parece, uma mística do Texto. –Todo o esforço consiste, ao contrário, emmaterializar o prazer do texto, em fazer do textoum objeto de prazer como os outros. Quer dizer:seja em aproximar o texto dos “prazeres” da vida(um petisco, um jardim, um encontro, uma voz,um momento, etc.) e em fazê-lo entrar no catálogopessoal de nossas sensualidades, seja em abrirpara o texto a brecha da fruição, da grande perdasubjetiva, identificando então esse texto com osmomentos mais puros da perversão, com seus
  97. 97. locais clandestinos. O importante é igualar ocampo do prazer, abolir a falsa oposição entre avida prática e a vida contemplativa. O prazer dotexto é uma reivindicação justamente dirigidacontra a separação do texto; pois aquilo que otexto diz, através da particularidade de seu nome,é a ubiqüidade do prazer, a atopia da fruição. Idéia de um livro (de um texto) onde estariaentrançada, tecida, da maneira mais pessoal, arelação de todas as fruições: as da “vida” e as dotexto, onde uma mesma anamnese captaria aleitura e a aventura. 76 Imaginar uma estética (se o termo nãoestiver por demais depreciado) baseada até o fim(completa, radicalmente, em todos os sentidos) noprazer do consumidor, qualquer que ele seja,qualquer que seja a classe, qualquer que seja ogrupo ao qual pertença, sem acepção de culturas elinguagens: as conseqüências seriam enormes,talvez mesmo dilacerantes (Brecht encetou uma
  98. 98. tal estética do prazer; de todas as suasproposições, é essa a que se esquece com maisfreqüência). * * * O sonho permite, sustenta, mantém, colocaem plena luz uma extrema sutileza de sentimentosmorais, por vezes mesmo metafísicos, o sentidomais sutil das relações humanas, das diferençasrefinadas, um saber da mais alta civilização, emsuma, uma lógica consciente, articulada, com umadelicadeza inaudita, que só um trabalho de vigíliaintensa deveria estar capacitado a obter. Em sumao sonho faz falar tudo o que em mim não éestranho, estrangeiro: é uma anedota indelicadafeita com sentimentos muito civilizados (o sonhoseria civilizador). 77
  99. 99. O texto de fruição coloca muitas vezes emcena este diferencial (Pae); mas pode também dara figura contrária (embora igualmente cindida):uma anedota muito legível com sentimentosimpossíveis (Mme Edwarda, de Bataille). * * * Que relação pode haver entre o prazer dotexto e as instituições do texto? Muito tênue. Ateoria do texto, quanto a ela, postula a fruição,mas tem pouco futuro institucional: o que elafunda, sua realização exata, sua assunção, é umaprática (a do escritor), mas de modo algum umaciência, um método, uma pesquisa, umapedagogia; por seus próprios princípios, estateoria não pode produzir senão teóricos oupráticos (escreventes), mas de modo algumespecialistas (críticos, pesquisadores, professores,estudantes). Não é apenas o caráter fatalmente
  100. 100. metalingüístico de toda pesquisa institucional quecria obstáculo à escritura do prazer textual étambém o fato de 78sermos atualmente incapazes de conceber umaverdadeira ciência do devir (que seria a única apoder recolher nosso prazer, sem o enfarpelar sobuma tutela moral): “... não somos bastante sutispara nos apercebermos do escoamentoprovavelmente absoluto do devir; o permanentesó existe graças a nossos órgãos grosseiros queresumem e reduzem as coisas a planos comuns,quando nada existe sob essa forma. A árvore é acada instante uma coisa nova; nós afirmamos aforma porque não apreendemos a sutileza de ummovimento absoluto” (Nietzsche). O texto seria também essa árvore cujanomeação (provisória) devemos ao carátergrosseiro de nossos órgãos. Nós seríamoscientíficos por falta de sutileza.
  101. 101. * * * O que é a significância? É o sentido namedida em que é produzido sensualmente. 79 * * * O que se procura, em diversos lados, éestabelecer uma teoria do sujeito materialista. Estapesquisa pode passar por três estados: ela podeprimeiro, tomando uma antiga via psicológica,criticar impiedosamente as ilusões de que se cercao sujeito imaginário (os moralistas clássicosdistinguiram-se nesta crítica); ela pode emseguida – ou ao mesmo tempo – ir mais longe,admitir a cisão vertiginosa do sujeito, descritacomo pura alternância, a do zero e de sua
  102. 102. obliteração (isto interessa ao texto, visto que afruição, sem poder aí dizer-se, faz passar nele ofrêmito de sua anulação); ela pode enfimgeneralizar o sujeito. (“alma múltipla”,”almamortal”) – o que não quer dizer massificá-lo,coletivizá-lo; e, ainda aqui, tornamos a encontraro prazer, a fruição: “Não se tem o direito deperguntar quem portanto é esse que interpreta? Éa própria interpretação, forma da vontade depoder, que existe (não como um “ser”, mas comoum processo, um devir), enquanto paixão”(Nietzsche). Talvez então retorne o sujeito, não comoilusão, mas como ficção. Um certo prazer é tiradode uma maneira 80da pessoa se imaginar como indivíduo, de inventaruma última ficção, das mais raras: o fictício daidentidade. Esta ficção não é mais ilusão de umaunidade; é ao contrário o teatro de sociedade onde
  103. 103. fazemos comparecer nosso plural: nosso prazer éindividual – mas não pessoal. Cada vez que tento “analisar” um texto queme deu prazer, não é a minha “subjetividade” quevolto a encontrar, mas o meu “indivíduo”, o dadoque torna meu corpo separado dos outros corpos elhe apropria seu sofrimento e seu prazer: é meucorpo de fruição que volto a encontrar. E essecorpo de fruição é também meu sujeito histórico;pois é ao termo de uma combinatória muitodelicada de elementos biográficos, históricos,sociológicos, neuróticos (educação, classe social,configuração infantil, etc.) que regulo o jogocontraditório do prazer (cultural) e da fruição(incultural), e que me escrevo como um sujeitoatualmente mal situado, vindo demasiado tarde oudemasiado cedo (não designando este demasiadonem um pesar nem uma falta nem um azar, masapenas convidando a um lugar nulo): sujeitoanacrônico, à deriva. 81
  104. 104. Poder-se-ia imaginar uma tipologia dosprazeres de leitura – ou dos leitores de prazer; nãoseria sociológica, pois o prazer não é um atributonem do produto nem da produção; só poderia serpsicanalítica, empenhando a relação da neuroseleitora na forma alucinada do texto. O fetichistaconcordaria com o texto cortado, com afragmentação das citações, das fórmulas, dascunhagens, com o prazer da palavra. Oobsessional teria a voluptuosidade da letra, daslinguagens segundas, desligadas, dasmetalinguagens (esta classe reuniria todos oslogófilos, lingüistas, semióticos, filólogos: todosaqueles para quem a linguagem reaparece). Oparanóico consumiria ou produziria textosretorcidos, histórias desenvolvidas comoraciocínios, construções colocadas como jogos,coerções secretas. Quanto ao histérico (tãocontrário ao obsessional), seria aquele que toma otexto por dinheiro sonante, que entra na comédiasem fundo, sem verdade, da linguagem, que já nãoé o sujeito de nenhum olhar crítico e se joga
  105. 105. através do texto (o que é muito diferente do seprojetar nele). Texto quer dizer Tecido; mas enquanto atéaqui esse tecido foi sempre tomado por umproduto, por um véu todo acabado, por trás doqual se mantém, mais ou 82menos oculto, o sentido (a verdade), nósacentuamos agora, no tecido, a idéia gerativa deque o texto se faz, se trabalha através de umentrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido –nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual umaaranha que se dissolvesse ela mesma nassecreções construtivas de sua teia. Se gostássemosdos neologismos, poderíamos definir a teoria dotexto como uma hifologia (hyphos é o tecido e ateia da aranha). Embora a teoria do texto tenhanomeadamente designado a significância (no

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