A Gente é Só Amigo

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Mélanie Vasconcelos e Gustavo Macedo se conhecem de madrugada, em uma farmácia. Ela havia ido comprar sorvete para a irmã grávida e ele foi atrás de remédios para curar sua ressaca. Do encontro inusitado, nasce uma profunda amizade que, geralmente, é confundida com um possível romance pelas pessoas que os cercam. Mesmo depois de anos, os melhores amigos continuam afirmando que não há nada de mais entre eles, só amizade.
Durante esses anos, Gustavo namorou bastante, mas nenhuma de suas namoradas conseguia entender e, consequentemente, aceitar sua amizade com Mélanie. O ciúme acabava causando o término de todos os seus relacionamentos, mas nem ele nem Mélanie parecem se importar muito com isso, os dois sempre confortáveis com a ideia de que se eles têm um ao outro, está tudo bem. Porém, quando Gustavo conhece Patrícia, uma garota extremamente compreensiva e que parece aceitar e encorajar sua amizade com Mélanie, as coisas ficam complicadas. Os dois amigos não sabem lidar com esse novo namoro, o compromisso sério, em que a amizade dos dois corre o risco de não ser mais relevante. A partir dessa situação, Mélanie e Gustavo começam a ter problemas com o funcionamento da sua amizade, levando-os a questionarem coisas que, até então, eram supérfluas. Mélanie pode continuar dormindo na casa de Gustavo? Tem problema se eles forem juntos ao cinema, só os dois, como sempre fizeram? As dúvidas começam a surgir e logo Mélanie e Gustavo se vêem em uma discussão sobre limites e sentimentos, assuntos que nunca os preocuparam.
Em “A Gente É Só Amigo”, vemos dois amigos cujo mundo sofre um abalo quando algo que eles não esperavam acontece de repente, mudando tudo de lugar. Gustavo e Mélanie não são muito bons com mudanças, e é aí que a complicação começa.

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A Gente é Só Amigo

  1. 1. “A Gente é Só Amigo” é uma publicação da ESTANTE CHEIA - CRIA Título original A GENTE É SÓ AMIGO Nº Registro (Biblioteca Nacional): 654.802 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, ou transmitida por qualquer forma ou meio eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópia, gravação ou sistema de armazenagem e recuperação de informação, sem a permissão escrita do editor. Senra, Marina A Gente é Só Amigo / Marina Senra - Minas Gerais, 2015 Projeto gráfico: Marina Senra 1. Amizade - Literatura. 2. Romance. 3. Relações humanas. 4. Ficção.
  2. 2. Agradeço a Deus, por ser o amigo mais constante. Dedico à uma grande amiga, por aquela conversa na praça que gerou a ideia do Gustavo & Mel.
  3. 3. 19 de abril de 2008, sábado Remédio pra ressaca, remédio pra ressaca...Onde que tá esse inferno desse remédio? Talvez fosse a visão embaçada de Gustavo, mas, ele não conseguia encontrar o remédio em lugar nenhum. Sim, já era tarde e, sim, ele devia estar quieto em casa, dormindo, mas, não deu para resistir. Quando seus amigos ligaram falando de uma festa que ele PRECISAVA ir, Gustavo nem pensou duas vezes. Inventou que ia assistir a um filme na casa de alguém e sumiu. Agora, às três horas da manhã, precisava dar um jeito de evitar a ressaca para que seus pais continuassem acreditando que ele havia ido à uma inofensiva sessão de cinema com os amigos, e não para uma balada do outro lado da cidade. Isso geraria perguntas que Gustavo não queria responder. Finalmente, encontrou o analgésico que procurava. Era um remédio eficaz e familiar, que ele já tinha usado inúmeras vezes antes. Falando desse jeito, fica parecendo que Gustavo vivia enchendo a cara, mas, não era bem assim. Ele era um jovem normal, que curtia ficar bêbado com os amigos, nada mais do que isso. Claro que o preço pago por essas bagunças costumava ser uma ressaca brutal no dia seguinte, mas, não era nada que ele não pudesse resolver com alguns analgésicos e água, muita água. Com o remédio em mãos, Gustavo foi pegar algumas garrafinhas de água. Em ocasiões como essa, ele sempre agradecia aos céus por morar bem em frente à uma farmácia que ficava aberta 24 horas. Era a sua salvação. Pronto, água. Gustavo cambaleou até o freezer, pronto para abraçar todas aquelas garrafinhas e já se imaginando pulando na cama em breve, quando reparou na garota parada bem ali perto. Mesmo com os olhos quase fechando, Gustavo podia ver a calça que ela usava. Era branca com estampa de peque- nos corações. O moletom, cinza e enorme, cobria mais da metade do corpo dela. E, sério, quem sai pra rua com um cabelo desses? O coque, que ela claramente havia feito às pressas, estava no topo da cabeça e os fios soltos iam para todos os lados. Foi só isso que Gustavo registrou antes de resolver deixar aquela estranha para lá. Meu Deus, é cada coisa que a gente vê às três horas da manhã... Estava pronto para sair dali com todas as suas lindas garrafas de água, mas acabou sendo abordado pela estranha. - Desculpa, mas você consegue ver se tem sorvete de abacaxi aqui? Eu esqueci meus óculos em casa e não tô conseguindo enxergar nada. Ela nem saiu do lugar, simplesmente continuou parada ali, apertando os olhos para o freezer cheio de potes de sorvete. Gustavo se aproximou do freezer e logo encontrou o sorvete que a menina estava pro- curando. Estava bem ali, de frente para ela. Ela era cega ou o que? Pegou o sorvete e entregou para ela. - Você deve gostar mesmo de sorvete de abacaxi para sair de casa no meio da noite para comprar. - Minha irmã tá grávida e parece que o bebê gosta de serviços delivery no meio da noite - ela disse, com um sorriso cansado. Aí, ela olhou para todas aquelas águas que Gustavo carregava - E você? Não tem água na sua casa? - Tem, tem sim. É que eu... - ele se atrapalhou com as garrafas e com os analgésicos - ... eu preciso tomar um remédio. A garota apertou os olhos, parecendo tentar identificar os remédios que Gustavo lhe mostrava. - Analgésicos - ele explicou - Pra dor de cabeça, você sabe. - Ah, sim... Pra ressaca, você quer dizer. - Ahn... é, não sei, talvez. Ela acenou discretamente e começou a caminhar para o caixa. Gustavo foi atrás, tomando cuidado para não tropeçar nos próprios pés. A garota caminhava rapidamente e, quando Gustavo a alcançou, ela já estava no caixa. O atendente, com uma cara de tédio que dava dó, nem pareceu notar a presença dela, muito menos a de Gustavo. Já tô bêbado mesmo, então, que se dane. - Como você se chama? - Mélanie. - Mélanie? Diferente nome. - Meu pai tava com mania de filme francês na época em que eu nasci, aí tinha uma atriz ou personagem 3
  4. 4. com esse nome, sei lá. E você? - Gustavo. - Seu nome tem alguma história também? - Não que eu saiba. Conhecendo a minha sorte, deve ter sido o nome do cachorro de alguém. Mélanie riu. - Cachorros são legais. - Tão legais que eu acabei pegando o nome de um deles. Já estavam na entrada da farmácia quando Mélanie perguntou: - Você tá de boa pra voltar pra casa? Não que eu vá te dar uma carona, até porque eu não tenho carro e vai saber se você não é um assassino maluco, mas, eu posso pedir um táxi e... - Não precisa, valeu. Eu moro naquele prédio ali - Gustavo disse, apontando. - Sério? E eu moro ali. Depois do prédio de Gustavo, havia aquele outro onde morava aquele casal de velhinhos com 500 gatos e, então, o prédio para onde Mélanie apontava. Eram todos parecidos, bem pequenos e, à essa hora, com todas as luzes apagadas. - Sério que você mora ali? Há quanto tempo? - Uns seis meses. E você? - Praticamente a minha vida toda. Você não deve sair muito de casa, né? - Não muito nesses últimos meses, é verdade. Deve ser por isso que a gente nunca se esbarrou. Bom, é melhor ir eu andando antes que a minha irmã dê à luz de tanto desespero. - Ah, é claro. Sua irmã. Bom, a gente se vê por aí. - Boa sorte com a sua ressaca. Mélanie saiu antes que Gustavo pudesse responder. Antes de andar até seu prédio, enfiou um analgé- sico na boca, abriu uma garrafa de água e bebeu quase tudo. Deu uns três tapas no rosto e, só então, se sentiu pronto para entrar em casa. Enquanto caminhava apressado pela rua, Gustavo viu Mélanie, um pouco mais abaixo na rua, apertando os olhos para abrir o portão do prédio. Ele pensou em ir ajudá -la, mas, aquele sono gostoso que precede uma ressaca infernal estava começando a tomar conta dele. Entrou no prédio e, em poucos segundos, já estava desmaiado na cama, abraçado à inúmeras garrafas de água. 22 de junho de 2012, sexta-feira Então, era essa a sensação de liberdade? Mélanie respirou fundo, sentindo-se até mais leve enquanto caminhava pelo campus da sua faculdade. Tirou os óculos e, por alguns segundos, quase viu unicór- nios multicoloridos pulando pelo campo, de tão feliz que estava. Ou talvez fosse o tal “pão da alegria” finalmente fazendo efeito. De qualquer maneira, com unicórnios ou não, Mélanie estava realmente alegre. Havia acabado de entregar o último trabalho gigantesco do semestre, um calhamaço de folhas e mais folhas que misturavam biologia, física, química e intermináveis noites sem dormir. Mas, agora ela estava passeando com unicórnios. E, como se não bastasse, ela tinha conseguido tirar uma folga do estágio, então, ela estava livre o dia inteiro. Agora, os unicórnios deixavam rastros de arco-íris por onde passavam. Estava caminhando feliz da vida quando ouviu o celular tocando. - E aí? Tá livre? - Gustavo foi logo perguntando. - Tô! Tô tão feliz que até os unicórnios apareceram pra comemorar comigo! Gustavo riu. - Você tá passando tempo demais nessa faculdade, Mel. - Nunca mais até agosto, meu amigo. - Ótimo. Você vai pra casa? - Sim! Vou comemorar minhas férias dormindo até morrer hoje. Onde você tá? - Saindo pra buscar o Daniel. Depois, tenho que voltar para o trabalho, mas, a gente vai sair hoje à 4
  5. 5. noite, né? - Claro. O que você tá pensando? - Não sei, o que você quer fazer? Uai, o que era isso? Gustavo era quem organizava as saídas, porque ele sabia que se deixasse isso por conta de Mélanie, eles acabariam passando o final de semana trancados em casa, assistindo a algum seriado que a garota houvesse desenterrado da internet. - Como assim o que eu quero fazer? Você não pensou em nada? - Sei lá! Eu pensei que, por ser o seu último dia de aula, a gente podia sair para comemorar, encher a cara, quebrar algumas coisas... - Muito engraçado, Macedo. Sério, o que você tá pensando? - Meu Deus, Mélanie! Só tô falando pra gente sair, mais nada. Aqui, vou ter que desligar. Depois a gente conversa mais. Mélanie encerrou a chamada e mal teve tempo de respirar antes de começar a correr como uma louca para pegar o ônibus. Entrou no veículo quase sem respirar, mas, logo estava assentada, pronta para ir pra casa. Huummm, casa. Pijama. Cabelo pra cima. Mélanie queria pular de alegria, ainda sem acredi- tar que estava de férias. Encostou a cabeça na janela do ônibus e fechou os olhos, sabendo do risco que corria de, em questão de segundos, desmaiar de sono ali mesmo. Bom, que se danasse. Era essa a vida dela agora. Qualquer folguinha que tinha, Mélanie fechava os olhos e dormia. Já tinha perdido as contas de quantas vezes dormira em pé no ônibus, ou no meio do banho, ou até em cima dos tubos de ensaio do laboratório onde trabalhava. O medo de ter misturado sua baba com amostras de sangue foi tão grande que agora ela só dormia no trabalho quando conseguia fazer uma pausa, ir ao banheiro, se trancar em um reser- vado e desmaiar de sono sentada em um vaso. Esse foi o último pensamento coerente de Mélanie. Quando ela abriu os olhos de novo, o trocador do ônibus estava sacudindo seu ombro. - Moça, seu ponto é o próximo, não é? Claro, o trocador teve que acordar Mélanie. Ele já devia ter marcado a cara da menina, porque ela costumava pegar esse ônibus quando havia uma oportunidade mágica de almoçar em casa ao invés de comer aquela massa desforme que eles chamavam de comida no refeitório da faculdade. De qualquer maneira, Mélanie se levantou rapidamente, agradeceu ao trocador e desceu do ônibus limpando a baba. O ponto de ônibus não ficava longe do seu prédio, o que era ótimo porque Mélanie realmente temia que pudesse cair de cara no chão de tanto sono. Já em casa, jogou a mochila em cima do sofá, tirou o par de tênis imundo e o jogou em um outro can- to, prendeu o cabelo em um coque e foi abrir a geladeira. Fala sério, ela merecia aquela grande e linda barra de chocolate que Paula havia comprado em uma grave crise de TPM. Pegou o bendito chocolate e se jogou em um sofá. Estava ali, reinando em sua pequena sala, quando ouviu a porta abrindo. A con- versa que ouviu, vindo do lado de fora, mostrou que todo o momento de paz e descanso que Mélanie tanto esperava logo sumiria. Mas, não tinha problema. - Ah, bom dia, bela adormecida! - Gustavo gritou. Mélanie nem se moveu. - Tia, a gente trouxe comida pra você! Obviamente, Daniel pulou em cima de Mélanie. Não tinha jeito de resistir àquele menino, sério. Mé- lanie puxou Daniel e começou a fazer cócegas no sobrinho, que ria escandalosamente. - Trouxe comida pra mim, foi? Que comida gostosa você trouxe pra mim? - A gente foi no japonês! - o menino respondeu. - Japonês? - Mélanie olhou para Gustavo - Humm... peixe cru, hein? Que delícia! Gustavo foi levar a comida para a cozinha e Daniel foi atrás. Ah, homens... Mélanie acabou se levan- tando e indo atrás também. Na última vez em que Gustavo e Daniel ficaram sozinhos na cozinha, eles tiveram a brilhante ideia de fritar ovo no microondas. O caso era que ainda havia manchas da gororoba no teto, então a instrução era nunca deixá-los sozinhos na cozinha novamente. Nunca. - A Paula vai te matar quando ela descobrir que você levou o Dani pra comer peixe cru. - Ele não comeu peixe cru, Mel. Lá tinha arroz, feijão... 5
  6. 6. - Comida de gente normal, você quer dizer. - Japonês é super normal. - Tio, cadê meu chocolate? Mélanie lançou um olhar de reprovação para Gustavo, enquanto ele tirava uma pequena barra de chocolate de uma das sacolas e entregava para Daniel. - Japonês e chocolate. É, a Paula com certeza vai te socar até a morte. - Só se alguém contar para a Paula. Alguém vai contar pra ela? - Não! - Dani gritou e saiu correndo da cozinha. Claro que logo eles ouviram o som do menino tro- peçando em alguma coisa, mas, logo ele estava correndo de novo. Gustavo olhou para Mélanie, rindo. - E eu não trouxe peixe cru pra você, bebê. Você devia entrar nessa mesma onda saudável da sua irmã, mas, quais as chances disso acontecer? - Desculpa, mas, eu não entendo porque não fritam essa chatice desse peixe, ainda mais com tanto óleo por aí - Mélanie já estava com uma batata frita na boca quando respondeu. - Mas, a gente faz uma excessão pra hoje à noite. E aí, aonde você quer ir? - Cinema? - Não, vamos sair de verdade, Mel. Tem um tempão que a gente não vai em um restaurante - Gustavo olha o relógio - Eu tenho que voltar para o trabalho. Te busco às nove horas, a gente vai num lugar novo lá na Savassi, tá? - Huummm... como somos chiques e ricos, gente... - É, eu tô nadando na grana. Gustavo dá um rápido beijo na testa de Mélanie e sai apressado. - Tchau, Dani! - ele grita. - Tchau, tio - o menino responde aos berros também. Quando Mélanie escuta o som de Gustavo trancando a porta, ela já está se afogando no prato de ba- tatas fritas. Não consegue deixar de suspeitar que por trás dessa vontade de Gustavo de sair para algum lugar, haja algo mais. Com certeza ele fez alguma merda. Será? Ai, meu Deus! Não, espera, não pode ser isso. Ele deve só falar que vai passar mais alguns meses fora. Talvez ele tenha sido promovido e tenha que ir pra São Paulo. Ele sempre falou que em São Paulo ficam os melhores empregos pra publicitários. Nossa, é isso, com certeza é isso. O Gustavo vai para São Paulo. Talvez Mélanie estivesse exagerando, mas, ela conhecia Gustavo bem demais para saber quando ele estava arrumando alguma coisa. Mas, pela madrugada, essas batatas estavam boas demais para que Mélanie se preocupasse com alguma coisa além de devorá-las. E lá estavam eles, em um restaurante badalado da Savassi. Não era o lugar favorito de Mélanie, mas ela admitia que a comida dali era sensacional. Gustavo vivia arrumando esses lugares novos, com gente que ela nunca havia visto antes e todas muito mais bem vestidas que ela. E que Gustavo também. Mas, dava para rir bastante e comer muita coisa boa. Gustavo e Mélanie passaram a primeira parte da noite falando sobre o dia de cada um. Isso era ridí- culo porque eles já estavam cansados de saber da rotina um do outro, do que eles gostavam ou não no trabalho, daquele professor infeliz que merecia ir para o sétimo círculo de fogo do inferno, do filme novo que ia estrear e que eles precisavam assistir. O ritmo da conversa era sempre o mesmo, mas, até Mélanie, uma “antissocial assumida”, como Gustavo falava, tinha que admitir que aquele sanduíche enorme deixava qualquer conversa mais interessante. - E aí? O que você quer me contar? - ela perguntou de repente. - O que eu quero te contar? Como assim? - Gustavo dá outra dentada no sanduíche. Mélanie acaba pendurando o guardanapo no colarinho da camisa dele. - Ai, Gustavo, você ainda acha que consegue esconder as coisas de mim. Pode ir falando! Você vai pra São Paulo? - O que? Mel, não tem nada disso - ele responde, limpando a boca no guardanapo. - Ok, então, não é São Paulo. Mas, tem alguma coisa, não tem? 6
  7. 7. - Por que você pensa que tem alguma coisa? - Cut the crap, tá bom? Gustavo fica em silêncio por alguns segundos, enquanto Mélanie continua observando o amigo. - Posso pelo menos terminar meu sanduíche? - Ah, eu sabia! - Mélanie diz, batendo na mesa - Sabia que tinha alguma coisa! O que é? - Vamos terminar de comer, Mel! Esse sanduíche é caro demais pra gente ficar conversando ao invés de comer. - Isso é verdade. Quem que paga trinta reais num hambúrguer, pelo amor de Deus? - Esse é o preço para se comer bem. - Na Savassi, né? A gente podia tá comendo naquela pizzaria lá do bairro. - Se você quiser, a gente larga os sanduíches aqui e vai pra lá. - Sem chance. Esse negócio tá muito bom. E para de me enrolar, Gustavo. Você tá escondendo alguma coisa de mim e eu odeio quando você faz isso. - Que tal a gente parar de falar e só comer esse sanduíche em paz, hein? Era o que Mélanie precisava escutar. Alguns minutos mais tarde, seu prato já estava praticamente lim- po, apenas as migalhas denunciando que, há pouco tempo, um sanduíche monstruoso passou por ali. Ela ficou encarando Gustavo, que parecia mastigar o sanduíche umas 50 vezes antes de engolir. Mélanie acabou perdendo a paciência. - Eu vou tirar esse hambúrguer da sua mão se você não acabar com ele em um minuto. - Um minuto? Quer que eu morra engasgado? - Eu tô falando sério, Gustavo Macedo. - Mélanie Vasconcelos, você consegue ser um pé no saco quando quer. - Obrigada. Gustavo terminou o sanduíche com mais três mordidas. Mélanie já estava batendo o pé de nervosis- mo, tentado adivinhar o que Gustavo ia falar. Dava para ver que era alguma coisa importante. PELOA- MORDEDEUSGUSTAVODÁPRAFALARRÁPIDOEUTÔMORRENDOAQUI... - Tudo bem, você me pegou. Aconteceu uma coisa, sim. - Isso não é novidade. Desde a hora em que você me ligou hoje cedo eu saquei que tinha alguma coisa. O que é? - Mel, eu... - Eu o que? - Eu tô namorando. - Para com isso, cara. - É sério. - Quão sério? - Muito sério. Mélanie se recostou à cadeira novamente. Então era isso? Gustavo estava namorando? E ele falou que era “muito sério”. O que isso significava? De boa, o que “muito sério” poderia significar para um garoto que ficava nervoso quando um menino de quatro anos ganhava dele em uma partida de jogo da memória? Mélanie resolveu entrar na brincadeira. - Então, você tá namorando? - É, eu tô. - Quem é a doida ? - Não sei se você vai se lembrar dela. É a Patrícia. - Patrícia quem? - Lembra do meu aniversário do ano passado? Ela era uma amiga que o meu primo levou. - Você tá pegando a ex-namorada do seu primo? - Ela não namorou o meu primo, Mel. - E de onde ela brotou, assim, tão de repente? - Uns dois meses atrás, naquele dia que eu saí com os meus primos e você não quis ir comigo. Ela estava lá. Aí, a gente conversou um pouco e, desde então, a gente tem se falado todos os dias. 7
  8. 8. - E por causa disso, você a pediu em namoro? - Não, não foi só por isso. Ela é uma garota legal, gosto muito dela e não tinha sentido em continuar nessa coisa indefinida. Aí, a pedi em namoro. - Quando? - Ontem à noite. - E por que você não me contou que tava de rolo com essa menina? - Porque você nunca gosta das meninas que eu gosto. - Que mentira! Teve aquela lá que eu gostei, a... qual era o nome dela? A Sandra, Sônia... - Samanta. E você só gostou dela porque ela arrumava desconto no cinema pra gente. - Uma garota adorável. - É diferente com a Patrícia, Mel. Ela é... bom, ela é diferente. - Diferente? Em que sentido? - Não dá pra explicar. Você precisa conhecer a Pati. Tenho certeza que você vai gostar dela. - Ela consegue arrumar desconto de alguma coisa pra gente? - Eu não vou nem comentar. Ele parecia estar mesmo falando sério. Pátricia. Huummm... Mélanie não fazia ideia de quem era essa menina. Não se lembrava dela de jeito nenhum. Aniversário do ano passado? Por favor, Mélanie não se lembrava nem do que ela havia comido no almoço. - E você já falou sobre mim pra ela? - Claro que sim. Ela também quer muito te conhecer. - E como eu vou ser apresentada dessa vez? Como uma menor abandonada que você tirou das ruas? Como a sua escrava? Como... - Eu sempre te apresento como a minha amiga, Mélanie. 6 de maio de 2010, quarta-feira 17 de agosto de 2010, terça-feira 4 de fevereiro de 2011, sexta-feira 28 de setembro de 2011, quarta-feira - Clara, essa é a Mélanie, a minha irmã adotiva. - Vanessa, essa é a Mélanie, ela é a minha...prima! - Juliana, essa é a Mélanie, ela é... - ... a amante secreta do Gustavo e, no momento, grávida do terceiro filho dele! Oi! - Mélanie! - E, Poliana, você precisa conhecer a Mélanie. Ela é... - ...a esposa número 1 do Gustavo. A gente é mórmon. Bem-vinda à família! - Mas, o que...? Mélanie! 8
  9. 9. 22 de junho de 2012, sexta-feira - O negócio é que eu já deixei claro pra ela que eu tenho uma melhor amiga e ela é muito tranquila com isso, você vai ver. Você não parece muito convencida. - É que eu já vi essa história antes, Gustavo. E, depois de uns dois meses, todas elas têm o mesmo fim. - Falta de fé no melhor amigo, hein? - É porque eu te conheço muito bem, querido. - A gente pode sair amanhã pra você conhecer a Pati? - Amanhã? Já? - É. A gente pode ir ao cinema. - Agora você quer ir ao cinema, seu safado?! Não, muito obrigada, não quero ficar de vela. Além do mais, acho que a Paula vai sair amanhã, então eu devo ficar com o Dani. - Em um sábado à noite, Mel? Sem chance. Eu vou falar com a Paula. A gente vai sair amanhã, com- binado? - Eu não quero sair. - Dane-se. Vou ver com a Patrícia que filme ela quer assistir e a gente decide o horário. O que? Não olha pra mim com essa cara, é a primeira vez que nós vamos sair juntos, nós três, então, nada mais educado do que deixar que ela escolha o filme. - Gustavo do céu, eu vou arrebentar a sua cara se você tiver arrumado uma namorada que gosta de... - Ela não gosta de Crepúsculo. É sério, a gente já conversou sobre isso. Vai ser legal amanhã, eu pro- meto. - E se ela não gostar de mim? - Mel, por favor! Como ela não gostaria de você? Já falei de você pra ela, você é a minha melhor amiga. Ela tá de boa com isso, sem ciúme nem nada, você vai ver. - E não vai mudar nada com a gente, né? - Nunca, Mel. Aliás, vou almoçar na sua casa amanhã, tá? Meus pais arrumaram uma reunião de negócios e eu não tô a fim de comer miojo. - Ah, a Paula vai ficar super feliz em fazer uma das receitas novas dela pra você experimentar. - Qual era o nome daquele negócio que a gente comeu outro dia? Salada o que? - Salada Dinamitada. Era por causa da manga explodida que ficava no meio, você lembra? - É verdade, tinha uma manga. Riram se lembrando das saladas de Paula e ficaram mais um bom tempo sentados no tal restaurante. Tempo suficiente para ficarem com fome novamente e pedirem uma sobremesa gigante, uma mistura exótica de sorvete, caldas e bolo, tudo banhado em chocolate. - A Paula infartaria se visse isso daqui - Gustavo disse. - Vamos deixar as preocupações vegetarianas para amanhã. Gustavo e Mélanie riram de novo e, antes que ela percebesse, Gustavo passou sua colher lambuzada de chocolate no nariz da garota. Ela riu ainda mais e fez a mesma coisa com o amigo. Os dois foram embora com o rosto sujo de chocolate. 23 de junho de 2012, sábado Gustavo estava caminhando para o prédio de Mélanie quando ouviu o celular tocando. Não fazia ideia de quem poderia ser àquela hora da manhã, já que todos os seus amigos sabiam que as manhãs de sábado eram sagradas para Gustavo e que ele não saía da cama antes das 11 horas. Era uma questão de princípios. Só tinha acordado mais cedo hoje porque tinha prometido a Daniel que iriam jogar video- game, e como o garoto tinha um horário determinado para ficar na frente da televisão, cada segundo era precioso. Equilibrando o videogame em um braço e tentando atender a chamada no outro, ao mesmo tempo 9
  10. 10. em que pegava as chaves do prédio no bolso, Gustavo não conseguiu ver quem estava ligando. Atendeu mesmo assim. - Alô? - Bom dia! Patrícia! Claro! Ela ainda não conhecia a regra NÃO ME PERTURBE de Gustavo. - Bom dia! E aí, como você tá? - Ótima! E você? - Com sono. Patrícia responde rindo. - Você tá sempre com sono. O que você vai fazer agora? - Indo almoçar. Por que? - Você não quer sair pra almoçar? A gente podia ir naquele restaurante japonês que você gosta. - Humm... bem que eu gostaria, viu? - Gostaria? - Não vou poder ir. Eu combinei de jogar videogame com o Daniel. - Quem é Daniel? - Meu sobrinho, uai. Eu te falei dele, Pati. - Não, você... Gustavo, você não é filho único? - Sim, mas, o Dani é o meu sobrinho - Gustavo já está abrindo a porta do prédio de Mélanie - Ele é filho da Paula, irmã da Mélanie. Lembra que eu falei deles pra você? - Ah, tá! Na verdade, ele é sobrinho da Mélanie, né? - Meu sobrinho também. O caso é que hoje é o único dia que a mãe dele libera o videogame, então, ele tá me esperando. - Não, sem problemas. Te avisei em cima da hora mesmo. Mas, a gente se encontra à noite, né? - Com certeza! - Ótimo! Então, até mais e bom videogame pra vocês. - Valeu, Pati! Te vejo daqui a pouco. Gustavo já está parado na porta do apartamento de Mélanie, numa confusão de celular, chaves e vi- deogame. Com muito esforço, consegue abrir a porta, apenas para encontrar Mélanie sentada no sofá com Daniel no colo. - Tio! - E aí, Dani? - Nossa, graças a Deus você chegou - Mélanie disse - Já não aguento mais esses desenhos do Mickey. - Eu gosto do Mickey - Daniel fala. - Então, você quer continuar assistindo ao Mickey e deixar o videogame pra depois? - Gustavo per- gunta. - Não, né, tio? Eu quero jogar aquele de lutinha! Mal o garoto termina de falar, Paula já está gritando ordens da cozinha. - Daniel Vasconcelos, nada de jogo de lutinha! E, Gustavo, ai de você se eu pegar meu filho atirando em alguém. - Não é de verdade, Paula. É só catchup. - Eu gosto de catchup - Daniel fala. Mélanie faz um sinal para que Daniel fique em silêncio. Paula não precisa saber de todas as batatas fritas encharcadas de catchup que Mélanie e Gustavo sempre dão um jeito de passar para o garoto. Dani coloca as mãozinhas na boca. - Você o que? - Paula pergunta, saindo da cozinha. - Nada! - os três respondem juntos. Paula faz cara de cansada. - Olha, não quero saber. Jogo de lutinha não, entenderam? - ela aponta para Gustavo e Daniel com uma colher de pau. - Tá bom. De futebol pode? - Gustavo pergunta enquanto monta o aparelho. - Do Galo! - Dani grita. 10
  11. 11. - Que tal da Europa, Dani? - De quem? - Esquece. É de futebol também, você vai gostar. - Se eu ouvir algum som de tiro aqui, Gustavo, eu vou fazer você pagar pela terapia do Daniel, enten- deu? - Paula fala. - Sem problemas. Vem, Dani. Os dois se acomodam no chão, de frente à TV, já devidamente preparados para passarem duas horas ali, sem sair do lugar. - Mel, vem me ajudar no almoço. - Nossa, você vai me deixar mexer na sua preciosa comida? - Você só vai picar as coisas pra mim, só isso. - Você tá fazendo salada? - É uma lasanha de quatro queijos. Gustavo e Mélanie olham espantados para Paula. - O que foi? Não posso comer lasanha? - E a onda da dieta? - Gustavo pergunta. - Já tô na luta com a onda vegetariana, a dieta vem depois. Mel, dá pra ser ou tá difícil? Mélanie se levanta com um esforço exagerado, mas, vai até a cozinha. Gustavo volta a se concentrar no jogo. Colocou no nível mais fácil e, de vez em quando, tem que dar alguns deslizes para que Dani consiga marcar um gol. O menino fica tão feliz que acaba compensando as besteiras que o time de Gustavo faz ao longo da partida. Até Daniel faz piadas. - Você perdeu o gol, tio! - É, eu tô precisando treinar mais. Continuam jogando sem nem prestar atenção no que está acontecendo na cozinha. Só de ter ouvido que eles não almoçariam salada, Gustavo já tinha ficado aliviado. De uns tempos pra cá, Paula tinha ficado com mania de comida mais saudável. Se fosse só ela, não tinha problema. O negócio foi que ela arrastou Mélanie, Gustavo e até o coitado do Dani pra essa onda vegan. Então, a tal lasanha de quatro queijos era a melhor coisa que Paula preparava em semanas. Não dava para reclamar. De repente, Gustavo sentiu o celular vibrando no bolso. Deu pause no videogame e Daniel olhou assustado para ele. - Tio, por que parou? - Eu só preciso ver uma coisa aqui, amigão. Era uma mensagem de Patrícia. “Como que tá o videogame? Lembra de deixar o seu ‘sobrinho’ ganhar tá? Beijo!” Primeira coisa que precisava falar com Patrícia: não se referir a Daniel como seu “sobrinho”, assim, entre aspas. Era sobrinho mesmo, não tinha nada de aspas no meio do negócio. - Anda, tio - Dani começou a falar com a sua voz chorosa. - Só um segundinho, Dani. Gustavo digita rapidamente uma resposta para Patrícia. “O Dani é melhor do que eu em tudo, nem preciso deixar ele ganhar. Haha! Beijão!” Celular de volta no bolso, bola correndo novamente e logo Dani já estava apertando os botões da manete quase com fúria. Enquanto Gustavo tentava mostrar para o garoto o que ele devia fazer para marcar um gol, ele não conseguiu deixar de imaginar como seria ter Patrícia ali. Será que ela se adapta- ria bem à família? Sim, porque Mélanie, Paula e Dani já eram sua família há bastante tempo, não havia discussão quanto a isso. As outras namoradas de Gustavo não sabiam lidar muito com esse arranjo, tanto que ele nem se lembrava de já ter levado alguma delas para conhecer os Vasconcelos. A maioria desistia depois de conhecer Mélanie. Mas, Patrícia era diferente. Gustavo já tinha falado sobre Mélanie para ela, antes mesmo de começar a rolar alguma coisa. Ele até entendia que algumas meninas tivessem ciúme da “melhor amiga do namora- do”, mas, não precisava de todo o circo que elas costumavam arrumar. Patrícia parecera entender como a coisa toda funcionava, graças a Deus. Gustavo esperava sinceramente que ela se desse bem com Mélanie. 11
  12. 12. - Ok, garotos, larguem isso daí e venham comer. Obviamente, Daniel e Gustavo nem se mexeram. Paula chamou de novo. - Daniel e Gustavo, vamos com isso, por favor? - Deixa a gente jogar, manhêêê... - Dani e sua voz chorosa de novo. - Não na hora do almoço. Depois vocês jogam mais. - Pode mesmo jogar mais? - Só se você comer tudinho. Gustavo deu pause no jogo e pegou Biel no colo. O garoto falava animado da partida de futebol, como se fosse o próprio campeonato europeu que ele havia acabado de disputar. Paula pegou Daniel e se assentou com ele à mesa, enquanto Gustavo e Mélanie pegaram seus pratos e se assentaram no sofá. Era hora de assistir seriados. - Vocês não podem deixar essa televisão desligada nem na hora do almoço? - Paula perguntou. - Acho que tá passando Friends agora - Mélanie responde - E, que milagre, a lasanha ficou muito boa. - Mesmo? - Gustavo pergunta, ainda com dúvidas. - Gustavo! - Paula reclama. - Tá boa, Gu. Pode comer sem medo. Eles se acomodoram no sofá e Paula continuou assentada à mesa com Dani, tentando convencer o menino que o Batman só era forte porque ele comia abóbora. - Nossa, Gustavo, você é tão previsível. - Por que? - Porque ela é do jeito que eu tava imaginando - Mélanie diz, apontando para algum lugar - Alta, magra e cabelo liso. Que surpresa. - Linda, né? - Cala a boca. Patrícia está vindo em direção aos dois e, pelo jeito que ela mexe o cabelo, dá pra ver que ela está ner- vosa. Gustavo acha, sinceramente, que ela e Mélanie vão se dar bem. Ele não estava brincando quando disse que Mélanie não gostava de nenhuma de suas namoradas, talvez porque ela soubesse que, no fim das contas, não ia dar em nada mesmo. Mas, Gustavo queria que fosse diferente agora. Tinha que ser, né? Ele já estava com 24 anos, estava na hora de ter um pouco de seriedade na vida, pelo amor de Deus. - Olá! - Patrícia diz, animada. - Oi, Pati - Gustavo se inclina e lhe dá um rápido beijo. Ela está realmente muito bonita. Obviamente, foi essa a primeira coisa que chamou a atenção de Gustavo: o fato de Patrícia ser muito gata - Tudo certo? - Tudo bem, e você? - Tudo bem. Vem cá, deixa eu te apresentar à Mélanie, a amiga que eu te falei. Gustavo fala rápido demais, antes que Mélanie falasse alguma outra coisa. É claro que Mel olha para ele de um jeito engraçado, entendendo porque ele falou rápido daquele jeito, mas, logo ela volta a sua atenção para Patrícia. - É, eu sou a amiga. - Muito prazer, ouvi falar muito sobre você. - Bem, eu espero. - Você vai acabar se acostumando com o drama da Mel, Patrícia - Gustavo diz, passando o braço pela cintura dela. - Eu, dramática? Só tô falando que é uma surpresa saber que você tá falando bem de mim para as pessoas! - Sim, muito surpresa - ele se vira para Patrícia - Vamos lá escolher o filme? - Achei que vocês já tinham escolhido. - Não, não. Como essa é a primeira vez que você sai com a gente, você vai ter a honra. - Desde que não seja nada dublado nem de adolescente - Mélanie completa - A gente é meio chato com filme, desculpa. 12
  13. 13. Patrícia parece um pouco confusa com todo aquele diálogo entre Mélanie e Gustavo, mas, acaba concordando com o arranjo. Gustavo sabe que ela não curte esses filmes, mas, também não é tão ligada em cinema como Gustavo. Mas, só o fato dela não gostar dessas porcarias que Hollywood andava pro- duzindo, já era suficiente para ela ganhar muitos pontos com Mélanie. Sim, Gustavo estava preocupado com isso. Queria, quase precisava, que Patrícia e Mélanie se dessem bem. Esse negócio de ter uma namorada e uma melhor amiga era complicado às vezes, mas, Patrícia era diferente. Ela não parecia o tipo que teria ciúmes ou qualquer coisa infantil desse jeito. E Mélanie só precisava ser convencida de que o negócio de Gustavo com Patrícia era sério, senão ela a trataria como mais um caso passageiro, como as outras. Agora, os três estão parados olhando para os cartazes. Patrícia e Mélanie observavam atentamente todas aquelas fotos e Gustavo sabia que, àquela altura, Mélanie já devia estar gritando internamente para que eles assistissem àquele novo filme de espionagem, que tinha um jeito meio cabeça desses que deixam você pensando pelo resto da vida se você entendeu o final. Milagrosamente, porém, ela conse- guiu ficar calada enquanto Patrícia continuava olhando. - Gente, eu não sei. O que vocês gostam de assistir? - Patrícia pergunta. - Tem esse daqui que... - Não, não - Gustavo interrompe - O que você gosta de assistir, Pati? Você que escolhe, lembra? Gustavo olha para Mélanie e a manda calar a boca, sem falar uma palavra. Mélanie manda ele ir à merda, também sem falar nada. - Esse daqui parece bom - Patrícia fala, apontando para o cartaz do filme que Mélanie queria ver. Gustavo e a amiga arregalam os olhos. - Sério? - Gustavo pergunta. - Eu gosto de filme policial. Vocês não? - Gostamos, sim. Pode ser esse, Mel? Mélanie e Gustavo se entreolham rapidamente e a garota faz um sinal de positivo com a mão. Isso é bom. Significa que Patrícia está aprovada ou, pelo menos, com grandes chances de ser. - É, pode ser - ela responde com voz de indiferente. Gustavo sabe que ela só está fazendo isso para encher o saco, então, nem responde. - Ótimo. Vamos comprar os ingressos? Algum tempo mais tarde, Gustavo sai do cinema agradecendo aos céus silenciosamente. Mélanie gos- tou do filme, Patrícia gostou do filme e, agora, as duas conversavam sobre quem tinha entendido o final do filme, quem tinha sacado quem era o vilão logo no início e como o protagonista se esforçava, sem sucesso, em ser o próximo Tom Cruise. Gustavo estava aliviado. Pediram algumas pizzas e se assentaram. A praça de alimentação estava bem cheia e barulhenta, coi- sa bem típica em um shopping de Belo Horizonte em um sábado à noite. Gustavo, Patrícia e Mélanie continuaram conversando sobre o filme. A certa altura da conversa, Mélanie fala: - Acho que a Paula ia gostar desse filme. - Paula é a sua irmã, certo? - Patrícia pergunta. - Minha irmã mais velha. - Você tem mais irmãos? - Não, a Paula já dá trabalho suficiente. E você, tem irmãos? - Tenho um irmão mais velho, mas, ele mora no Rio. Casou com uma carioca e tá lá há um ano já. - Ele vem muito aqui? - Pouco. Eu vou mais lá do que ele vem pra cá. Mas, é legal. Ele mora em um apartamento grande, a esposa dele é bem legal também. - Bem que a Paula podia ter casado com um carioca também. Praia todo final-de-semana. Patrícia ri. - Ah, quem dera fosse assim. Eu tento ir lá pelo menos uma vez por mês. A sua irmã não é casada? - Não, não. Ela fez o Dani antes da hora mesmo. Gustavo tenta lançar mais um olhar comunicativo para Mélanie, pedindo para que ela falasse de um 13
  14. 14. jeito menos escrachado, mas, a amiga simplesmente o ignora. Patrícia, por sua vez, só ri. - Sério? E o pai dele, onde que ele tá? - Ah, ele aparece às vezes, mas, faz mais o tipo que dá o dinheiro e é isso aí, sabe? A Paula é meio louca. Ela veio pra cá pra estudar e, quando já tava quase formando, ela conheceu esse cara e, um mês depois, surpresa! - Então, vocês não são de BH? - Itabira. Minha família toda é de lá. - Entendi. Quantos anos você tem? - Eu? 23. E você? - 23 também. E você já tá formando na faculdade? - Ano que vem, se Deus quiser. - A Mel faz biomedicina, Pati. Vocês devem ter alguns assuntos em comum - Gustavo fala. - Eu faço veterinária, Gustavo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. - Ah, o Gustavo é assim. Ele acha que tudo que tem biologia é a mesma coisa. Logo, Gustavo vê, com certo horror, sua namorada e sua melhor amiga rindo da cara dele. E olha que elas tinham acabado de se conhecer. Ele não poderia ter pedido por uma harmonia melhor. Geral- mente, as namoradas que ele apresentava para Mélanie torciam o nariz quando iam conversar com ela. Mélanie era bem irônica. Até demais, pra falar a verdade. A conversa se manteve amigável por mais um bom tempo. Patrícia queria conhecer mais sobre Méla- nie, então continuou perguntando sobre a vida dela, sobre as diferenças entre Itabira e Belo Horizonte, sobre o sobrinho dela e por aí vai. Gustavo acompanhava tudo com atenção e tranquilidade, sem inter- ferir muito na conversa. Queria que Pati e Mel tivessem esse momento para travarem conhecimento. Elas podiam ficar amigas. Na verdade, elas meio que tinham que ficar amigas, senão a vida de Gustavo seria um pesadelo. A conversa estava tão boa, que ele só foi perceber que estava tarde quando as lojas da praça de alimentação começaram a fechar. Mesmo na fila para pagar o estacionamento a conversa não parou. Agora, Mélanie e Patrícia conver- savam sobre os professores em comum que elas tinham tido. Como estudavam na mesma faculdade, elas acabaram descobrindo que tiveram aula com o mesmo professor chato de sociologia e com a mesma doida de estatística. Elas só pararam de conversar quando chegaram ao carro de Patrícia. Ela e Mélanie se cumprimentaram. - Foi um prazer conhecer a melhor amiga do Gu - Patrícia disse. Mélanie riu. - O Gustavo não me falou que você era tão boazinha! Vamos sair mais vezes, tá? - Com certeza - Pati diz, sorrindo. Gustavo olha para Mélanie, agora indicando que ela devia sumir dali para poder se despedir da sua namorada com certa privacidade. Mélanie entende o recado. - Vou deixar vocês em paz. - Pode me esperar no carro. - Tô indo pra lá, Gu. Mélanie sai antes de olhar para a cara de Gustavo. Que negócio era aquele de Gu? - Eu gostei da Mel, de verdade. Ela é muito engraçada - Pati diz. - Que bom. Sério, eu tô aliviado. - Por que? Gustavo se dá conta da besteira que fez, mas, não tem jeito de contornar. Talvez, dar uma amenizada. - É porque... bom, as outras meninas... elas sempre têm ciúme da Mel. - Outras meninas? - Esquece. A Mel é legal mesmo, minha irmã. Patrícia dá um sorriso irônico. - Percebi. Quer almoçar lá em casa amanhã? - Nossa, já vou conhecer a família? - Tá com medo? 14
  15. 15. - Não, é que... - Você não conheceu a família dessas outras meninas? Gustavo tenta pensar em alguma desculpa qualquer, mas, Patrícia é mais rápida. Ela se aproxima e o beija rapidamente antes de abrir a porta do carro. - Te espero amanhã, meio-dia. Ele continua parado ali, com um sorriso bobo no rosto, olhando sua namorada indo embora. Ele está realmente gostando dela. - Antes de você falar qualquer coisa, vamos deixar uma coisa clara. Você não vai me chamar de “Gu”. - Por que não? Por que a sua namorada pode e eu não posso? - Justamente por isso. Ela é a minha namorada. Você não. - Vocês já têm apelidos carinhosos? - Não. E nem vamos ter. - Gustavo amoreco, Gugu Docinho-de-Coco, Guguzinho... - Mélanie começa a falar com voz de bebê. - Cala a boca - ele diz, rindo. Gustavo está dirigindo de volta para casa e Mélanie, no banco ao lado, olha pela janela enquanto prende o cabelo em um coque. Ela tem mania de coque. - E aí, o que você achou dela? Mélanie pareceu ficar pensativa. - Bom, sejamos sinceros, né? Ela é a melhor de todas que você já arrumou. Escolheu um filme bom, é boa de conversa e parece que não é do tipo que vai encher o saco com a gente. Claro que eu acabei de conhecer a menina, mas, sei lá, ela parece ser legal. - O que falta pra ela ser aprovada? - Me levar pro apartamento dela no Rio, é claro. - O apartamento não é dela, é do irmão dela. Que é casado, caso você não se lembre. - Tanto faz. Quem liga pro irmão dela? Eu quero é ir pra praia. - Muito tempo que você não vai, né? - Bastante tempo. Olha aí, é mesmo! Nossa, Gustavo, você arrumou a namorada perfeita na melhor época possível. Eu tô de férias, ela tem um apartamento no Rio e eu preciso ir pra praia. É o destino. - O apartamento não é dela! E a gente começou a namorar há dois dias, Mel! Não vou sair pedindo pra gente ir pro apartamento no Rio. Que é do irmão dela. - E por que não? A gente vivia pedindo desconto no cinema pra aquela outra lá, a Simone, Sônia... - Samanta. - Essa daí. - É diferente agora. - O que é diferente agora? - Não sei, a Pati é diferente. Ela é mais tranquila com tudo. - Você tá gostando dela, não tá? - Acho que sim, viu? Acho que sim. - É pra eu ficar preocupada? - Não, pode ficar tranquila - Gustavo responde rindo - Não tô a fim de ficar fazendo hora mais. - Você tá falando igual a um adulto. - Eu sou adulto! - Ah, tá, claro que é. Diz isso para o seu cobertor do Buzz Lightyear! - Foi minha tia que me deu, eu guardo por razões sentimentais. - Gustavo, você ficou cinco dias chorando depois que a gente assistiu Toy Story 3! - Até você chorou nesse filme, Mel. - Aquele final foi muito triste, me dá um desconto. - Então para de falar do meu cobertor. Já estavam quase chegando em casa. Não era muito tarde ainda, dava para zoar um pouco mais, mas, Gustavo sentiu que precisava descansar bem. Ora, ia conhecer os sogros no dia seguinte, isso com 15
  16. 16. apenas dois dias de namoro! Era quase desesperador. Gustavo parou o carro em frente a sua garagem e esperou Mélanie descer. - Quer ir lá pra casa assistir alguma coisa? - ela perguntou. - Não, hoje não. Mélanie estranhou. - Por que? - Tenho que acordar cedo amanhã. Vou almoçar na casa da Patrícia. - Já? - É, já. Mélanie fez cara de surpresa e começou a caminhar em direção ao seu prédio. - Beleza, então - ela disse - Já combina com o sogrão pra gente ir pro Rio, tá? Gustavo só foi parar de rir quando precisou fazer silêncio para entrar em casa. 21 de fevereiro de 2009, sábado Mélanie gostava muito de praia. Muito mesmo. Era do tipo que só saía da água quando sentia que a pele ia começar a derreter. Na verdade, era do mar que ela gostava mesmo. Não entendia essa mania do povo de ficar estendido na areia, torrando igual a um frango assado, quando se tinha aquele mar geladinho logo ali. Naquela manhã de sábado, em pleno carnaval, a praia estava absurdamente lotada. Era difícil até de respirar. Bem que Paula avisou que era uma péssima ideia ir para Cabo Frio, em pleno Rio de Janeiro, bem na época do carnaval. Era muita gente junta, muito barulho, muito tudo. Mas, Mélanie queria tanto ir para a praia que ela relevou tudo isso. Assim que Gustavo disse que ele e mais alguns primos estavam planejando passar o carnaval na praia e perguntou se Mélanie queria ir com ele, ela já estava praticamente com as malas prontas. Sozinha no mar, Mélanie se lembrou das poucas vezes em que pode ir à praia quando era mais nova e ficava imaginando que era uma sereia. Claro que isso era por causa do filme da Disney, mas, além do cabelo vermelho e da barriga chapada de Ariel, outra coisa que Mélanie não tinha da pequena sereia era uma cauda de peixe. Portanto, precisava se contentar com a sua imaginação. Era quase vergonhoso descobrir que, vários anos depois, ela ainda sentia essa alegria infantil quando estava no mar. O resto da galera, toda aquela cambada de primos e amigos de Gustavo, estava na areia, bebendo cerveja, jo- gando frescobol ou, é claro, torrando debaixo do Sol. Imbecis. Mélanie deu algumas braçadas indo para o fundo. Sua mãe era daquelas que ficava gritando para ela voltar pro raso quando a água começava a bater nos joelhos dela. Como essa era a primeira vez que ela viajava sem os pais, precisava aproveitar cada segundo. - Ei, Mel! O grito a parou alguns segundos antes dela mergulhar de novo. Virou-se para trás e viu aquele amigo do primo do amigo do vizinho de outro primo de Gustavo. Ela nunca conseguia entender essas rela- ções muito bem, mas, se lembrava do nome do garoto porque ele foi um dos poucos que conversou com ela quando ela chegou. Se chamava Júlio. Gente boa pra caramba. - Finalmente alguém criou coragem pra entrar! - ela disse, quase sem fôlego por ter nadado tanto. - Não gosto de água gelada - ele respondeu, meio que se desculpando - Mas, o calor tá demais pra ficar na areia. - Foi o que eu tentei falar com vocês assim que a gente chegou. - É, devia ter escutado você. O garoto era desses charmosos, sabe? Não era o cara mais gato do mundo, mas, tinha um sorriso bonito e um jeito de falar que era bem fofo. Mélanie não sabia o que pensar disso. Era óbvio que havia mais meninas por ali, todas elas infinitamente mais bonitas que Mel. Porque diabos Júlio estava ali conversando com ela era algo que ela não entendia. E talvez nem quisesse entender. 16
  17. 17. - Você sabe nadar, né? - Claro, por que? - Porque eu tô a fim de ir mais para o fundo e, se você for me acompanhar, não quero ficar preocupada caso você resolva se afogar ou tomar um caldo. Júlio riu. - Caso eu me afogue, eu vou tentar ficar fora do seu caminho. - Ótimo. Bora lá? Mélanie voltou a nadar, ora mergulhando, ora dando braçadas. Se Júlio estava atrás dela ou não, era impossível dizer. Furou algumas ondas, mergulhou de novo e nem se incomodou em olhar para trás. Só foi parar quando sentiu que se desse mais uma braçada, seus braços se descolariam do corpo. Ficou batendo os pés sem sentir o chão. Onde quer que sua mãe estivesse agora, o sexto sentido dela devia estar apitando como um louco. Júlio se esforçava para chegar onde Mélanie estava e a garota não con- seguiu evitar não rir da cara dele, todo esforçado, coitado. - Que preparo físico, hein? - Sou bom no futebol. Esse trem de nadar não é comigo - ele respondeu ofegante. Mélanie riu de novo. - Tem certeza que você não tá morrendo nem nada disso? - Tenho. Quer apostar uma corrida até a praia? - Ahn... depois. Eu não quero sair ainda. - Desculpa, mas, eu tenho que te perguntar. É a primeira vez que você vem à praia? - Não, não. É a... - Mélanie faz uma rápida contagem - ...quinta vez. A última vez que eu entrei no mar foi há uns quatro anos. - Por isso essa emoção toda? - Exatamente. Vai saber quando eu vou poder voltar de novo, né? - A gente pode combinar de viajar mais vezes. A semana santa tá logo aí. O que pensar desse convite? Mélanie resolveu sair pela tangente. - Acho que não vai rolar. Semana santa é o feriado da família. Vou ter que passar alguns dias na minha cidade. - De onde você é mesmo? - Itabira. Mélanie já estava ficando cansada de bater os pés. Júlio estava falando alguma coisa, mas ela não prestou atenção. Estava de olho na onda que estava vindo. Poderia pegar uma carona nela e voltar mais para o raso. - Quer apostar a corrida agora? - ela perguntou. - O que? - Tá vindo uma onda boa aí pra gente pegar carona. Vamos? A onda agora parecia gigante e estava bem perto. Mélanie se preparou. - Não morra afogado, tá? Júlio não teve tempo de responder. Mélanie esticou os braços e nadou de braçadas em cima da onda. Emendou com um mergulho e logo estava com os pés no chão novamente. Passou a mão nos cabelos, ciente de que eles ficariam embaraçados como o inferno, e olhou para trás, procurando Júlio. Ele ainda estava há uma vida de distância, tossindo água. Claramente, tinha tomado um caldo. Mélanie esperou pacientemente para que ele chegasse, tentando segurar o riso. Paula já tinha falado da mania que ela tinha de rir de todo mundo, até de gente que ela tinha acabado de conhecer. Aparentemente, isso era falta de educação. - É melhor você ficar só com o futebol mesmo, Júlio. - Tô tão quebrado que até o futebol eu vou dispensar - ele respondeu, se ajoelhando na água. Já per- to da beirada, não tinha muitas ondas por lá, só grito de criança. De repente, Mélanie sentiu falta do sobrinho. Daniel estava com cinco meses e era a coisa mais fofa desse mundo. Mas, não era hora para ficar sentimental. - Essa praia sempre fica lotada desse jeito? - Nessa época de carnaval, fica sim. 17
  18. 18. - Vocês devem vir muito aqui, né? - Ah, às vezes... eu venho mais quando o Leandro anima, afinal de contas a casa é dele. - Me lembra quem é o Leandro, por favor. - Ele que é amigo do Válter, primo do Gustavo. - Ah, tá... agora eu lembrei. - Você lembra do meu nome, né? Mélanie riu. - Claro que sim, Juliano! Ele fez cara de decepcionado, realmente decepcionado. Meu Deus, será que esse menino não consegue ver quando eu tô brincando? - Antes que você comece a chorar, eu só tava zoando. Eu sei que o seu nome é Júlio. Júlio respirou aliviado. - Nossa, por dois segundos eu pensei... deixa pra lá. - Ia ser tão ruim assim se eu esquecesse o seu nome? - Um pouco, sim. Eu não esqueci o seu nome. - Graças ao meu pai, eu tenho um nome meio difícil de esquecer. - Mélanie... Eu gosto do seu nome. - Valeu. Ninguém sabia falar meu nome quando eu era mais nova, aí eu passei os meus primeiros dez anos de vida achando que meu nome era só Mel. Júlio riu e começou a fazer as perguntas de sempre. De onde você é, o que você faz da vida e tal. Não tinham tido muito tempo de conversar no primeiro dia por causa da bagunça, todo mundo se ajei- tando na casa e Mélanie logo correndo para o mar. Agora, sentados no mar, debaixo de um Sol super quente, Mélanie e Júlio travavam uma conversa amena e tranquila. Claro, ainda havia todas aquelas crianças ali por perto, correndo e espirrando água e areia nos dois, mas, não era nada terrivelmente insuportável. Para sua surpresa, Mélanie percebeu que estava gostando de conversar com Júlio. Ele parecia ser bem atencioso. De repente, Mélanie escutou alguém gritando por ela. Virou-se e viu Gustavo, em toda a sua bran- quidão, acenando para ela da praia, fazendo sinal para que ela saísse da água. Mélanie gritou de volta: - Depois! Gustavo continuou gritando, mas, Mélanie deu as costas para ele. - Será que não é nada importante? - Júlio perguntou. - Duvido. Ele deve tá me chamando pra comer alguma coisa. Dá pra esperar mais um pouco. Se você quiser sair, não tem problema. - Não, não. Eu saio com você. O que era aquilo? Será que Júlio estava dando em cima dela? Mélanie não tinha muita experiência no assunto, então, era complicado dizer. - Posso te perguntar uma coisa? - Claro. - Você e o Gustavo... Estava demorando. É sério. Se Mélanie ganhasse um real para cada vez que alguém perguntasse sobre ela e Gustavo, a essa altura ela estaria reinando em uma cobertura em Nova York. - Não. - Mas, eu ainda nem perguntei! - Faça a pergunta então, uai! - Você e o Gustavo... rola alguma coisa? Tipo, entre vocês dois? - Não, a gente é só amigo. - Mesmo? - Mesmo. Por que? Ele deu de ombros. - É porque eu não quero entrar numa disputa com um amigo. - Disputa? 18
  19. 19. - Quer dar uma volta? Rápido, mas, mesmo assim, sutil. Mélanie olhou para Júlio, tentando resolver o que faria. Claro, o menino não estava a pedindo em casamento e jurando amor eterno, só estava a chamando para dar uma volta. O que era mesmo que Paula sempre lhe falava? Vá viver sua vida, menina! É, era isso, uma clara referência à mania de Mélanie de sempre complicar o que era para ser simples. Ela se levantou pensando nas palavras da sua irmã. - Ok, vamos lá! Júlio se levantou rapidamente, com um sorriso estúpido no rosto. Vá lá, ele era bonitinho. Não fazia o estilo playboy igual a muitos amigos de Gustavo, mas, também não era o tipo de cara favorito de Mélanie. Não que ela tivesse um estilo definido. Ela só gostava de caras mais normais. Só isso. Mas, não ia arrancar pedaço se ela fosse andar um pouco com o Júlio, certo? Mélanie pensou em passar na mesa onde o grupo todo estava para pegar sua camiseta. Foi mal, mas, aquele corpo lindo e escultural da maioria das meninas da turma não era uma realidade na vida de Mélanie. Quando ficou de biquíni na frente de todos eles, rolou aquele momento de insegurança, afinal de contas ela tinha o corpo de uma pessoa normal que gostava de comer pizza ao invés de salada, com pneuzinhos e tudo mais. No final, ela mandou todo mundo para o inferno e foi nadar. Mas, agora, ela ia dar uma volta com um menino. Cristo, isso é tão quinta série! Decidiu mandar a camisa para o inferno também. Viu Júlio avisar rapidamente a uma das meninas que ele e Mélanie iriam andar por aí e logo o garoto já estava com ela de novo. - E aí, para onde vamos? - Sei lá! Eu não conheço nada daqui, esqueceu? - ela respondeu enquanto prendia o cabelo em um coque alto. - Eu também não! - replicou ele, sorrindo. - Vamos pra qualquer lugar então. E eles foram. Andaram por um bom tempo, conversando sobre qualquer coisa. Em poucos minutos, Mélanie já sabia praticamente tudo da vida de Júlio. Ele fazia direito, tinha dois irmãos mais velhos, morava com os pais, era dois anos mais velho que ela, gostava de Velozes e Furiosos e sua atriz favorita era Julia Roberts. Mélanie não entendeu muito bem como alguém que falava que Julia Roberts era sua atriz favorita conseguia gostar de uma coisa como Velozes e Furiosos e, se esquecendo do outro conse- lho de Paula (de guardar as suas opiniões para si), acabou abrindo a boca e falando demais. Isso levou a uma interminável conversa sobre filmes, que era um assunto que Mélanie gostava e até dominava. No final das contas, acabou admitindo que Júlio era uma boa companhia. E, se sentindo como uma adolescente idiota pela primeira vez em muito tempo, respondeu “sim” quando Júlio perguntou se eles podiam andar por mais um tempo. Abençoadosejaocaraqueinventouessecreme-gel-pós-queimadura-de-Sol-que-arde-como-o-in- ferno. Mélanie já tinha quase acabado com um pote inteiro da meleca verde, mas, ainda sentia seus ombros arderem só de olhar para eles. Uma das meninas com quem estava dividindo o quarto, Luciana, olhou com pena para ela. - Nossa, você tá muito vermelha, Mélanie. - É, eu reparei. Já tomei um banho desse gel, mas, nada adianta. - Deixa eu te ajudar - Luciana tirou um pote de algum outro creme e passou para Mélanie - Eu uso esse daqui quando acontece um desastre desses. Acho que é melhor que esse que você tá passando. Mélanie agradeceu à garota e voltou a tarefa de lambuzar o corpo com creme. Depois de ter passado o dia inteiro debaixo do Sol, era óbvio que ela podia esperar por algo desse tipo. E mesmo ela que nem era tão branquela assim conseguiu ficar vermelha. Vai entender. Por fim, quando Mélanie já não achava que era fisicamente possível passar mais nada nos ombros sob o risco de todos aqueles produtos entrarem em combustão, ela colocou a blusa branca que Paula tinha lhe emprestado. Era uma roupa enorme, que Paula usou quando estava no auge 19
  20. 20. da gravidez, e que agora havia sido transformada em vestido. Era bonita e, principalmente, confortável. Mélanie terminou de passar gel no rosto e saiu do quarto. A casa onde estavam era bem grande. Tinha uns cinco quartos, uma sala gigante e uma varanda maior ainda. Para essa noite de sábado, a galera tinha combinado um churrasco e, pelo visto, alguns amigos do dono da casa iriam para lá. Mais gente ainda. Sim, Mélanie era uma antissocial convicta. Gustavo estava tentando mudar isso nela, sempre a chamando para sair nos finais de semana e, agora, sendo muito bem sucedido ao convidá-la para ir pra praia (não que isso exigisse muito esforço). E, verdade seja dita, Mélanie estava gostando da galera. Era uma turma completamente diferente da que ela estava acostumada, mas, em geral, todo mundo era muito gente boa, tranquilo, ria demais e muito barulhento. Não muito diferente da família dela. A varanda já estava cheia quando Mélanie chegou. Mais gente para conhecer. OK, sem prob- lemas, vamos lá ser social com as pessoas. Viu Gustavo sentado um canto, em uma rodinha de amigos. Estava indo até ele quando sentiu alguém a puxando pelo braço. Se virou para encon- trar o sorriso simpático de Júlio. - Oi, pimentão! - ele disse. - Por que você não tá vermelho também? - Por causa dessa coisa revolucionária chamada protetor solar - ele respondeu, rindo. - Mas, eu passei! Uma vez, mas, passei! - Claro que passou. Quer beber alguma coisa? - O refrigerante mais gelado que você tiver, por favor. Foram juntos pegar as bebidas, conversando. Mélanie viu, pelo canto do olho, Gustavo ace- nando para ela, mas, não teve tempo de responder. Júlio estava perguntando alguma coisa para ela, provavelmente qual refrigerante ela queria. Pegaram as bebidas e se assentaram um pouco mais afastados. Agora, Júlio queria saber sobre a faculdade de Mélanie. O que ela estava achando do curso, todas essas perguntas que você faz para alguém que acabou de conhecer. Logo, estavam conversando animadamente, e Mélanie resolveu deixar de lado a preguiça que tinha de conhecer gente nova, pelo menos durante aquele feriado. Júlio era um cara legal, e, por alguma estranha razão, ele parecia interessado no que ela tinha para dizer. As meninas do seu quarto também eram muito simpáticas. Não custava nada tentar se aproximar dessa galera. Paula ficaria tão orgulhosa... 22 de fevereiro de 2009, domingo - E aí, graças a essa inteligente, tivemos que voltar pra casa e perdemos todo o feriado! Gustavo não foi o único que riu da história de como seu primo Fábio perdeu um final de semana por causa de uma ex-namorada. Fábio era cheio desses casos, mestre em transformar as situações mais fer- radas nas coisas mais engraçadas. Agora, ele já estava contando um novo caso, mas, foi nessa hora que Gustavo percebeu que sua cerveja tinha acabado. Fez sinal para uns quinhentos garçons, mas nenhum deles pareceu sequer notá-lo. O jeito era levantar e ir até o balcão. A turma inteira estava em um restaurante que ficava em frente à praia. Era fim de tarde e o calor in- fernal agora estava mais suportável. Enquanto Gustavo ia até o balcão, ele viu Mélanie sentada ao lado de Júlio. Os dois conversavam com outra garota, aquela baixinha que Gustavo não lembrava o nome. Lúcia, Luciana, era algo do tipo... Gustavo ficou surpreso. Mélanie não era a pessoa mais fácil do mun- do para conversar com gente que ela não conhecia. Não era timidez nem nada disso. Era pura preguiça. 20
  21. 21. Mas, desde que eles chegaram à praia, Gustavo e Mélanie mal conversaram. Gustavo se debruçou sob o balcão e logo foi atendido por um rapaz. - Me arruma uma cerveja, por favor. Enquanto esperava, um dos primos de Gustavo, o Válter, chegou por trás e lhe deu um tapa no ombro. - O que você tá fazendo aqui? - Pegando cerveja. E você? - Pegando cerveja. Parece que não tem mais garçom nessa bagaça. Gustavo riu, como sempre fazia quando estava com os primos. Eles eram todos mais velhos que Gus- tavo, mas, o incluíam em tudo o que faziam, principalmente nessas viagens malucas. Válter era uns seis anos mais velho que Gustavo e, de longe, o primo favorito dele. O garçom finalmente apareceu com a cerveja de Gustavo e Válter aproveitou para pedir a dele. - E aí, tá gostando da viagem? - Tô, cara. Tinha bastante tempo que eu não vinha aqui. - Agora você tá todo ocupado com faculdade, né? - É...quinto período agora. - Só fica complicado, priminho. - Valeu pelo incentivo. Válter pegou sua cerveja, mas, nem ele nem Gustavo fizeram menção de voltar aos seus lugares. Con- tinuaram sentados ali. - Posso te falar uma coisa, cara? - Claro. - Vou pedir a Bárbara em casamento. Gustavo quase se engasgou com a cerveja. What the hell?! Válter casado? Não, não dava para imagi- nar! - Cê tá zoando com a minha cara. - Não, tô falando sério. Já comprei a aliança e tudo mais. Até com o pai dela eu já conversei. - Cê tá muito zoando com a minha cara. - Não tô, Gustavo - Válter responde, rindo - A gente vai sair pra almoçar amanhã, só nós dois, e eu vou fazer o pedido. - Não tô conseguindo acreditar. - E por que não? Eu namoro a Bárbara há um tempão, já tá na hora da gente se arrumar, uai! - Mas... eu sei que você tá certo e, cara, eu tô muito feliz por vocês dois, mas, meu Deus, cara! Você vai casar! Você tem certeza que é isso mesmo que você vai fazer? Tipo, que você quer fazer? Válter deu de ombros e deu um gole em sua cerveja. - É, é isso, sim. Já tem um tempo que eu tô pensando nisso, sabe? Cheguei naquela fase que eu já não consigo imaginar como é a vida sem a Bárbara. - Olha só você, todo romântico - Gustavo brinca, puxando o primo para um abraço de lado. Válter ri de novo. - É segredo, tá? Espera para falar que já sabia depois que a gente voltar do almoço amanhã. Isso se a Bárbara aceitar o meu pedido, né? - É claro que ela vai aceitar. Do jeito que ela é, vai começar a planejar o casamento amanhã mesmo. - É, vai ser legal. Válter parece estranhamente tranquilo para um cara que vai pedir a namorada em casamento, Gusta- vo repara. Mas, não apenas tranquilo, feliz também. Bárbara é uma garota muito legal, já está presente na família deles há uns quatro anos. Realmente, não tinha ninguém melhor para o Válter. Gustavo fica sinceramente feliz pelo primo. Ele ergue a sua garrafa de cerveja. - Isso pede por um brinde. - Ao meu casamento? - E que vocês sejam felizes para sempre. Eles brindam e voltar a beber, tranquilamente. Sentado ali, Gustavo consegue escutar a conversa que vem da mesa onde estão os seus amigos. Se sente novamente feliz pelo primo ter contado sobre o casa- 21
  22. 22. mento primeiro para ele. Válter podia ter contado para qualquer um dos outros primos, mas, escolheu Gustavo, sabe-se lá porque. - Você viu que o Júlio tá se amarrando na sua amiga, né? - “Se amarrando”? Quem que fala “se amarrando” hoje em dia? - Tanto faz. Mas, você viu, né? - Acho que todo mundo já viu. - E você tá de boa com isso? - Por que não estaria? - Achei que você e a Mélanie tinham alguma coisa. Essa era a sexta vez que alguém fazia um comentário desse tipo sobre Gustavo e Mélanie só nesse feriado. Os dois precisavam fazer alguma aposta nesse sentido. Quem ouvisse mais vezes alguma fala sobre os dois terem alguma coisa teria que dar dinheiro para o outro. Ou o contrário. - Ela é minha amiga. Só isso. - Sério? Vocês não parecem só amigos... - É porque a gente tá sempre junto. E olha que desde que a gente chegou aqui, a gente nem ficou junto. Nem pra conversar, nem nada. Válter olhou para Gustavo de um jeito irônico. - Você tá com ciúme, cara. - Lógico que não. - Não negue. - Tô falando sério. Se tiver algum ciúme, é ciúme de irmão. Tipo quando a gente ficou quando a Cla- rinha apareceu com aquele namorado imbecil, você lembra? - Cara mais idiota de todos. Clara era a prima mais nova deles. Devia ter uns 14 anos quando apareceu com um garoto, falando que era o namorado dela. Os primos mais velhos só não se juntaram para encher o miserável de por- rada porque a avó deles não deixou. - É tipo isso. Mas, eu conheço a Mel. Acho muito difícil ela cair na conversa do Júlio. - O Júlio é um cara legal, tem um papo bom. - Você vai pedir é a Bárbara em casamento, né? Válter dá um soco no ombro de Gustavo, um pouco forte demais. - Só tô querendo saber, seu idiota. Então, tá tudo bem se o Júlio e a Mélanie ficarem? - Vai por mim, eles não vão ficar. - Você não respondeu a minha pergunta. - Sim, tá tudo bem. Parecia que Válter ia falar mais alguma coisa, mas, preferiu deixar pra lá. Os dois primos continuaram no balcão por mais um tempo, tomando suas bebidas e apreciando o fim da tarde. 24 de junho de 2012, domingo A mãe de Gustavo estranhou quando viu o filho sair do seu quarto às onze horas de um domingo. Deu pra ver na cara dela. - Está se sentindo bem, Gustavo? - Claro, mãe. Por que a surpresa? - Porque ainda nem é meio-dia e você já está de pé. E arrumado. Vai a algum lugar? - Sim, eu vou... na casa de uma amiga. - Amiga? Na casa da vizinha, você quer dizer? - O nome dela é Mélanie. Em algum momento da sua vida, você vai ter que aprender o nome dela, mãe. - Não fale comigo desse jeito. 22
  23. 23. - Desculpe. E não, não é na casa da Mel. É outra amiga. Sua mãe fez cara de surpresa de novo. - Outra amiga? Quem? - Você não conhece. Olha, mãe, eu tenho que ir. - Cheio de segredos, hein? Tudo bem, Gustavo. Eu e seu pai vamos almoçar no clube, tudo bem? - Já tava imaginando... - O que você falou? - Nada, nada... bom almoço pra vocês. Gustavo correu para a garagem. Sabia que veria seus pais novamente só à noite, então, não se pre- ocupou muito em dar explicações para onde estava indo. Geralmente, sua mãe só queria saber a que horas ele voltaria. Fora isso, ele podia ir para o fim do mundo que eles não ligariam muito. Seus pais eram meio desligados. Enquanto ligava o carro, ele se deu conta da estranheza que seria o seu dia. Gustavo estava acostuma- do a almoçar na casa de Mélanie aos domingos. Eram raras as vezes em que ele animava de sair com os pais e mais raras ainda as vezes em que seus pais ficavam em casa. Agora, parecia que ia arrumar uma nova companhia para os seus domingos. E ele não poderia ter pedido companhia melhor. Só esperava que a família de Patrícia fosse tão tranquila quanto ela. Pelo o que ela tinha falado, ele não precisava se preocupar com pai ciumento ou mãe chata. Todos eram de boa, da paz. Ficou imaginando como seria quando levasse Patrícia para conhecer os seus pais. Marta e Antônio eram...complicados. Eles quase nunca estavam em casa e, quando estavam, falavam pouco com o filho, apenas o suficiente para saber que ele estava vivo e bem. E ainda havia a complicação de Marta não ir com a cara de Mel. Gustavo não sabia explicar porque, mas, sua mãe simplesmente não parecia gostar de Mélanie, muito menos de Paula e do Dani. Seu pai era indiferente quanto a isso. Era apenas Marta que fazia cara de bunda quando Mélanie aparecia ou quando Gustavo falava alguma coisa sobre ela. Vai saber porque era assim, Gustavo já tinha desistido de tentar entender. Ele só podia torcer para que fosse diferente com Patrícia. Em menos de 15 minutos, Gustavo já estava em frente ao prédio onde Patrícia mora. Cedo demais. Nervoso, ele pega o celular e, sem saber muito bem o que fazer, acaba ligando para Mélanie. - Chora. - Cheguei na casa da Pati, mas tô com vergonha de entrar. - Fala sério. - É sério. Cheguei cedo demais. Você ainda tá dormindo? - E o Dani me deixa dormir? A gente vai almoçar no shopping com ele. - Vocês só fazem isso quando eu não tô aí. - Ah, Gugu... você vai almoçar com a sua namorada. Quer coisa melhor do que isso? - Você é uma idiota, Mel. - Não sou eu que tô parada na frente de um prédio por vergonha de entrar. Olha, eu tenho que ir. Boa sorte com o sogrão aí e não esquece de falar sobre o Rio. - Mel, eu... - Rio! Não esquece do Rio! Tchau. E desligou. Gustavo pensou em ligar para ela novamente, só para encher o saco, mas, desistiu. Sabia que Mélanie não iria atender. Então, o jeito, era entrar. Deu alguns tapas no rosto, respirou fundo e ligou para Patrícia. - Olá! - Tô na frente do seu prédio, com vergonha de entrar. - Mentira, Gustavo. - É sério! - Nossa, que ridículo - ela respondeu, rindo - Vou abrir a porta pra você. Pode entrar sem medo, meus pais não mordem. Gustavo tentou se lembrar das vezes em que chegou a conhecer os pais de suas namoradas. Não foram muitas as vezes, mas, ele se lembrava muito bem de ficar nervoso em situações assim. Já enfrentara pais 23
  24. 24. ciumentos, mães chatas e irmãs mais velhas que davam em cima dele na frente da irmã mais nova, que era a namorada em questão. Bagunça, como sempre. Gustavo tentou confiar nas palavras de Patrícia, de que seus pais eram tranquilos. Não estava com cabeça ou paciência para enfrentar famílias esquisi- tas. Já bastava a sua. Patrícia estava na porta esperando por ele. Cabelo solto, maquiagem leve e com um sorriso no rosto. Cada vez que a via, Gustavo tinha mais certeza que estava realmente gostando dela. Ele se aproximou dela e perguntou baixinho: - Posso te beijar ou seu pai vai socar a minha cara? - Beijo rápido. Um beijo rápido mais tarde, Gustavo e Patrícia já estavam entrando no apartamento da garota. Senta- do no sofá, o pai de Patrícia assistia a um jornal esportivo. Ele parecia tem uns cinquenta anos e olhava com preocupação para a televisão. - Pai, vem conhecer o Gustavo. O cara se levantou, mas não despregou os olhos da televisão. - Pai! - Claro, claro! Gustavo, seja bem-vindo! - ele disse, estendendo a mão - Desculpe, mas, esse Atlético ainda vai me matar do coração. - O senhor é atleticano? - Doente - Patrícia respondeu pelo pai - E não precisa chamar meu pai de senhor. Ele não gosta. - Eu não gosto. - Pai, esse é o Gustavo. Gu, esse é o meu pai, Elias. - Muito prazer, senhor. Quer dizer, Elias. Muito prazer, Elias. - Igualmente, garoto. Você gosta de futebol? - Sim. Não sou fanático, mas, gosto. - Atleticano também? Gustavo teve o primeiro ataque de pânico do dia. Não, ele não era atleticano. Era cruzeirense. Havia decidido torcer pro Cruzeiro depois que seu pai comprou uma camisa do Atlético para ele, quando tinha uns oito anos. Só pra implicar, Gustavo foi para o time adversário e permanece lá. Mélanie que era a atleticana doente. - Cruzeirense, graças a Deus - ele respondeu, tentando dar um tom de brincadeira na voz. Não funcionou. A cara de decepção que Elias fez foi tão grande, que Gustavo esperou ser expulso dali aos chutes e socos. - Vem conhecer minha mãe, Gustavo. Patrícia o puxou de lá rapidamente, mas, Gustavo teve tempo de ver Elias voltando a se assentar no sofá, balançando a cabeça em aparente negação. Parabéns, Gustavo, não tinha jeito melhor de começar mesmo. - Seu pai já tá me odiando, é claro. - Não tá, não. Ele é meio fanático com futebol, mas, com o tempo vocês se entendem. A minha mãe torce pro São Paulo e ela tá viva até hoje. - Mas, ela é a esposa dele. Eu sou o namorado da filha, que, ainda por cima, é cruzeirense. Patrícia riu. - Não sabia que você era medroso assim. Olha, só pra você ficar mais tranquilo, eu também sou cru- zeirense. - Sério? Por que? - Por incentivo da minha mãe. Mas, acho que ela só fez isso para irritar o meu pai. Venha, minha mãe tá na cozinha. O apartamento da família de Patrícia era bem grande e Gustavo percebeu que correria o risco de ficar perdido ali caso fosse deixado sozinho. Segurando sua mão, Patrícia o guiou pelos corredores até chegarem à cozinha. - Mãe, olha quem chegou! Uma versão mais velha de Patrícia levantou os olhos do fogão e olhou para Gustavo. Era impressionante. 24
  25. 25. Elas tinham o mesmo sorriso. - Ah, finalmente - ela disse. Se aproximou de Gustavo e lhe deu um rápido abraço - Sou a Joana. É um prazer conhecer você, Gustavo. Ouvi falar muito de você! - Não vai me fazer passar vergonha, mãe. - O prazer é meu, Joana. Também ouvi falar muito sobre a senhora. - Sem isso de “senhora”, por favor. Você chegou cedo, garoto. O almoço ainda não está pronto. Quer comer alguma coisa? - Não, obrigado. E, desculpa ter chegado mais cedo, eu... - O Gustavo tá sofrendo de nervosismo, mãe - Patrícia diz, rindo de Gustavo. - Por que, meu Deus? - Deve ser porque é difícil conhecer pai de namorada, né? - Patrícia responde, rindo ainda mais. À essa altura, Gustavo já está completamente sem graça, mas, acaba entrando na conversa. - Quero ver quando você for conhecer os meus pais - ele diz. - Vai ser perfeitamente normal, sem nervosismo. Você me viu nervosa ontem, quando conheci a Mel? - Uma coisa é conhecer a Mel, outra é conhecer os meus pais. - Quem é Mélanie? - Joana pergunta. - A melhor amiga do Gustavo. - Você tem irmãos, Gustavo? - Não, sou filho único. - Humm... filho único? Deve ter sido muito mimado, hein? - Joana falou. - Não, até que não. Minha família é bem grande, com muitos primos e tal, então, não tive chance de ser mimado. A partir daí, se iniciou a típica conversa de conhecimento. Joana perguntou várias coisas sobre a vida de Gustavo. Era compreensível, já que ele era o cara que estava namorando a filha dela. Gustavo falou sobre os pais dele, sobre as viagens que costumava fazer, sobre a agência em que trabalhava e sobre os meses em que passou nos Estados Unidos. Enquanto conversavam, Joana continuava preparando o al- moço. Ela recusou ajuda, falando que gostava de cozinhar sozinha. Gustavo logo pensou que ela daria super bem com Paula. Não havia outra pessoa mais obcecada com cozinha do que Paula. - A senhora me lembra uma amiga. Ela também gosta muito de cozinhar. - Minha mãe não gosta de cozinhar, Gustavo. Ela precisa de terapia pra tratar esse vício. - Que exagero, Patrícia. Eu só gosto de ninguém mexendo na minha comida. É, Joana parecia ainda pior do que Paula. Ela ainda deixava Mélanie picar o tomate para um molho. E esse era o máximo de coisas que Mélanie sabia fazer em uma cozinha. Continuaram conversando, dessa vez sobre comida. Joana quis saber o que ele comeu durante o tempo que passou nos Estados Unidos. Gustavo estava no meio de uma explicação elaborada sobre o hambúrguer de quatro carnes que costumava comer em Nova York, quando Elias apareceu. - E aí, família? O almoço não sai mais? - Já está quase pronto - Joana respondeu - Podem ir se assentando. E você, Elias, pode desligar a televisão. Elias saiu cabisbaixo e Joana explicou: - Ele é igual criança. Tenho que mandar desligar a televisão na hora do almoço. Se eu não falasse nada, ele ficaria sentado ali o dia inteiro, assistindo programa de esporte. - Meu pai também precisa de terapia - Patrícia completa, pegando na mão de Gustavo e o levando até à mesa. - Será que a sua mãe não vai precisar de ajuda? Patrícia riu e apertou a mão de Gustavo com força. - O dia em que a minha mãe pedir ajuda na cozinha, pode mandar internar. Gustavo estava impressionado. Já era fim de tarde e ele ainda estava no apartamento de Patrícia. O almoço tinha sido ótimo, os pais de sua namorada eram engraçadíssimos e até arrumar a cozinha com Patrícia foi bom. De verdade. Agora, os dois estavam assentados na área externa do apartamento, 25
  26. 26. enquanto Joana e Elias assistiam a um filme na sala. O dia todo tinha sido tranquilo, como Patrícia prometera. Agora, sentado ao lado dela, ele tinha ainda mais certeza que as coisas tinham tudo para caminhar bem. - E aí? Minha família foi aprovada? - Claro que sim. Eu tô quase pedindo para os seus pais me adotarem. - Isso seria meio doentio. E nojento. - É verdade. Mas, seus pais são bem legais. - Você ficou nervoso à-toa, não disse? - É normal ficar nervoso quando você vai conhecer a família da sua namorada. - Você parece ter muita experiência no assunto, hein? - Não é tanta assim... - Quantas namoradas você já teve, Gustavo? Gustavo teve que pensar. Namoradas oficiais, que ele se lembrava, foram quatro, sem contar Patrícia. Fora isso, foram só alguns casos. - Quatro, eu acho. Fui na casa de três... eu acho, de novo. - Quatro? Foi até menos do que eu esperava. - E você? Quantos namorados já teve? - Só um e nem foi tão sério. Namoro de colégio. Acabou assim que a gente se formou. - E você ficou esse tempo todo esperando pelo cara gato e engraçado que ia te salvar da solidão? - Acho que ainda tô esperando por ele. Gustavo olha para Patrícia, que começa a rir assim que vê a expressão emburrada dele. O riso de Patrícia é natural e a deixa ainda mais bonita. Gustavo olha para os lados e sussurra: - Não tem ninguém olhando, né? - Por que? - Eu posso não ser o cara gato e engraçado que você tá esperando, mas, preciso muito te beijar agora. Patrícia olha para os lados também, o sorriso se abrindo ainda mais. - Não tem ninguém olhando. Gustavo a puxa para mais perto e a beija. É aí que tem a certeza de que nunca gostou de nenhuma outra garota como gosta de Patrícia. 27 de junho de 2012, quarta-feira Mélanie nunca entendeu muito bem as quartas-feiras. Ela já tinha falado, mais de uma vez, que quando fosse presidente do Brasil, a primeira coisa que ela faria seria decretar feriado em todas as quartas-fei- ras. Para sempre. Claro, isso era apenas o cansaço falando. Por mais que estivesse de férias das aulas, ela ainda precisava ir ao campus todos os dias, por causa do estágio no laboratório. E ela gostava do estágio, realmente gostava. Tinha sido um custo para conseguir essa vaga. O processo de seleção foi um teste para a paciência de Mel, mas, no final das contas, ela e mais dois nerds conseguiram entrar para o laboratório de pesquisas científicas da sua faculdade. Mélanie estava lá há um ano. Ela, que se formaria em uma ano, esperava, do fundo do coração, que fosse contratada para continuar trabalhando lá. Gostava desse ambiente de tubos de ensaio, líquidos azuis e verdes, detalhes que não podiam passar despercebidos. Gostava de entender o que estava fazendo. E seus colegas de serviço também eram ótimos. Mas, nessa quarta-feira em especial, Mélanie estava com vontade de ir para casa. Talvez por ter passado boa parte da noite acordada, tentando fazer Daniel dormir, hoje ela não estava com a cabeça boa pra muita coisa. Só que- ria ir pra casa e desmaiar na cama. - Ei, Mel, quer fazer uma pausa pra tomar um café? Gabriela, uma das colegas de Mel no laboratório, olhava para ela com jeito de preocupada, como se já estivesse prevendo que Melánie cairia em cima dos tubos de ensaio. De novo. 26
  27. 27. - Tô com aquela cara de novo? - Tá pior hoje. Não dormiu à noite, filha? - Pior que não. O Dani arrumou uma gripe do inferno e não deixou ninguém dormir - ela disse, se levantando pesadamente - Tive que ficar com ele durante a noite toda. - E a sua irmã? - Gripada também. Cadê o café? - No lugar de sempre. Você vai precisar que eu caminhe com você até lá ou você consegue chegar lá sozinha? - Consigo chegar sozinha. Se eu não voltar em cinco minutos... - Eu vou atrás de você, Mélanie. Arrastando os pés pelo corredor afora, Mélanie caminhou até a pequena copa do laboratório, onde se assentou pesadamente e se serviu de um copo transbordando café. Ela estava com muito sono. Ver- dade seja dita, ela estava sempre com sono. Mas, hoje era pior. Daniel fazia um drama danado quando ficava gripado, tossindo e revirando na cama. Era claro que ele tinha puxado isso da mãe dele. Quando Paula ficava gripada, ela praticamente se preparava para o enterro. Só sobrava Mélanie para dar conta das coisas. - Bom dia. Droga. - Bom dia, Luís. - Tá tudo bem? - Sim, é só sono. - Que dia você não tá com sono, Mel? - Acho que nunca... - Até mais. E Luís sai, sem ver Mélanie esparramada na mesa, com o rosto escondido entre os braços. Deus, isso é tão ridículo. Luís, um cara que já tinha passado dos 30 e QUE TEM NAMORADA, conseguia deixar Mélanie se sentindo uma adolescente. Ele era um dos chefes do laboratório. Gato pra cacete. Não aque- la beleza óbvia de galãzinho de Hollywood, mas, com um jeito mais maduro. Obviamente, todas as ga- rotas do laboratório eram alucinadas por ele, Mélanie incluída. Era bem provável que A NAMORADA DELE não gostasse muito disso, mas, fazer o que? Não dava para não olhar pra ele e, cinco minutos mais tarde, imaginar o casamento, o nome dos filhos e onde eles iriam morar depois da aposentadoria. Com sono e se sentindo uma idiota, Mélanie fez a única coisa sensata que poderia ser feita em mo- mentos assim: ligou para Gustavo. - Olha quem resolveu aparecer! - Cala a boca. Você que não tem tempo para mim mais, sempre muito ocupado com a sua namorada. - Eu chamei você pra sair com a gente. - Não quero ser vela de ninguém, Gugu. - Idiota. E aí, tudo bem? - Tô com sono e o Luís acabou de passar por aqui. - Ixi... quer que eu passe aí pra deixar um chocolate? - Não, valeu. - Você sempre fica melhor depois que come chocolate, Mel. - Isso tem que parar em algum momento. Se eu comer chocolate em todas as vezes que eu me achar uma imbecil, não vai sobrar para o resto do mundo. - Isso é verdade. - Não era pra você concordar, seu imbecil. - Vamos fazer o seguinte, então. Sorvete, eu e você, assim que eu chegar em casa. Pode ser? - Huumm... você não vai ter que sair com a namorada hoje, Gu? - Mel, se você continuar assim, eu vou começar a achar que você tá com ciúme. - E o inferno congelou, né? Só tô te zoando. Eu topo o sorvete. - Ótimo. E sai de perto desse Luís. Ele tem namorada. 27
  28. 28. - Eu sei, eu sei... mas, ele é tão gato. - Tchau, Mélanie. Desligaram e Mélanie continuou deitada ali por mais alguns instantes. Por que diabos ela não con- seguia se interessar por um cara normal? Não, claro que não podia, claro que ela tinha que complicar tudo e crescer o olho para um cara mais velho QUE TEM NAMORADA. Ela precisava manter isso em mente. Por fim, bebeu todo o café de uma vez, queimou a língua e se levantou, dando alguns tapas no rosto para ver se acordava de vez. Nunca funcionava, mas, era o mínimo que podia fazer para evitar de cair em cima dos tubos novamente. - Mel, tem jeito de você me trazer aquele remédio de gripe? Paula se comunicava por ruídos. Sua voz estava rouca e, segundo ela, parecia que uma batata havia entalado em sua garganta. Mélanie chegou no quarto da irmã e teve que se segurar para não rir da cena. Paula e Daniel estavam deitados na cama, os dois empacotados em agasalhos, enrolados em cobertores e com a mesma cara de doente. - Nossa, isso aqui tá parecendo uma enfermaria na época da Peste Negra - Mélanie disse, passando o remédio para Paula. - Mel, se eu morrer... - E o Oscar de melhor atriz de drama vai para... - Cala a boca. Se eu morrer, cuida do Dani, tá? Se ele furar a orelha e descolorir o cabelo, a culpa vai ser sua e eu vou voltar pra te assombrar pelo resto da sua vida. - Toma o seu remédio e fica quietinha aí, Paula. E você, Dani? Como você tá? O menino respondeu com um acesso de tosse, mas, logo ele abriu um sorriso. Ô menino bonito, sô! - Tô doente, tia. - É claro que está. É por isso que você tem que tomar seu remédio - Mélanie encheu o copinho com o xarope que o médico tinha receitado para Daniel. O menino tomou todo aquele líquido viscoso que, supostamente, tinha gosto de morango. Pelo menos é o que estava escrito na caixa, e Daniel pareceu acreditar. - E o meu remédio? - Paula grunhiu. - Tá aí do lado da sua cama. Desculpa, mas, não vou te dar remédio na boquinha. - Eu não consigo mexer o braço, Mel... - Rainha do drama. Olha, eu tenho que sair. Se vocês precisarem de alguma coisa, me liguem. Mélanie já estava na porta do quarto quando ouviu o que restava da voz de Paula. - E onde você vai? - Vou sair com o Gustavo. - E com a namorada dele? - Não, só nós dois. Paula fez um cara esquisita, que ficou ainda mais acentuada por causa do aspecto de doente que ela estava, mas, não falou mais nada. Mélanie olhou de novo para a irmã e viu que ela tinha caído no sono. Daniel também. Esses remédios te nocauteavam com força. Gustavo já estava esperando por ela na porta do prédio. - E aí, como tá todo mundo? - Gripados e dramáticos. - Você não tá gripada também, né? - Não. Pelo menos, ainda não. Vamos? A sorveteria não ficava muito longe da rua deles. Caminharam conversando sobre o dia, enfrentando o frio daquele início de noite. Mélanie pensou se seria uma boa ideia encher a cara de sorvete em um dia frio desses e sabendo que ela poderia ficar gripada a qualquer momento. A dúvida durou cinco segundos. Logo eles estavam na sorveteria, Gustavo fazendo o favor de pedir a banana split que eles amavam, aquela coisa enorme que vinha banhada em chocolate, marshmellow e mais chocolate. - Por que você sempre fica desse jeito quando vê esse Luís? - Gustavo perguntou, depois que os dois já estavam assentados. 28
  29. 29. - Porque ele é o cara mais perfeito do universo. Só isso. - Tão perfeito que até já tem uma namorada. - Valeu por me lembrar. - E é o que? Uns quinze anos mais velho que você? - Dez anos. Nem é tanto assim. Olha o Michael Douglas e a Catherine Zeta-Jones. - Eles são famosos. Gente famosa pode fazer o que quiser. - É verdade. Eu queria ser famosa. Aí eu ia poder namorar um cara velho e chamar meu filho de Le- golas, e ninguém ia ficar me julgando. - Eu não vou ser tio de um menino chamado Legolas. - Você não é meu irmão! - Nossa, isso foi pesado, Mel. Mélanie deu um soco no ombro de Gustavo e esperou que a garçonete colocasse a banana split mo- numental na mesa deles para voltar a falar. - Você, como meu pseudo-irmão, deveria me dar alguns conselhos agora - Mélanie disse entre uma colherada e outra. - Que tipo de conselhos? - Gustavo disse, já com a boca cheia de sorvete. - Falar que eu não preciso de um cara como o Lúis, que eu sou especial, que eu vou conhecer um cara maravilhoso... - Isso não é conselho, Mel. Isso é palestra de auto-ajuda. - Deus me livre. - Amém. Mas, falando sério agora, você tá na desse cara há um tempão, Mel. Já tá na hora de sair disso, não acha? Mélanie olhou para Gustavo de um jeito irônico. - E é o mestre em relacionamentos que tá falando, né? O que foi? Agora que você começou a namorar sério, vai virar conselheiro amoroso também? Gustavo voltou sua atenção para a banana split, balançando a cabeça. - Você tá na tpm? - Acho que sim. Por que? - Você tá mais ácida do que o normal. - Achei que você já tinha se acostumado. - Nunca vou me acostumar com tpm, Mélanie. Ficaram em silêncio por alguns instantes, concentrados no sorvete. Mélanie pensava no que Gustavo tinha lhe falado. Aquilo não era novidade nenhuma para ela. Ele vivia falando que já tinha passado da hora de Mélanie deixar esse Luís pra lá. Claro que Gustavo ficava achando que Mélanie estava perdida- mente apaixonada por Luís, o que não era verdade. Era só uma atração. Uma leve e passageira atração, que Mélanie tinha certeza que iria acabar assim que ela ou Luís se mudasse para o fim do mundo, cor- tando todas as chances de comunicação. Comunicação, esta, que já é praticamente inexistente. - Eu sou muito ridícula. Gustavo não respondeu nada. Mélanie olhou brava pra ele. - “Não, você não é ridícula, Mel. Você é uma ótima garota, Mel...” - Nesse exato momento, eu também tô te achando meio ridícula. - Valeu. - De nada. - Pode me explicar por que? - Eu já cansei de te falar desses caras. Primeiro foi o Júlio, agora é o Luís. Você tem um dom pra achar caras imbecis. - Você tá se incluindo nesses “caras imbecis”? - Não, claro que não. Eu devo ser o único cara legal de verdade que você conhece. - Conselheiro sentimental e convencido. Se você continuar desse jeito, eu vou te trocar por um novo melhor amigo. - Você nunca faria isso, Mélanie - Gustavo disse, passando calda de chocolate no nariz da amiga. Ela 29
  30. 30. retribuiu o gesto. - É verdade. É você que vai acabar me trocando... - Não começa com isso, por favor. Mélanie ri. - Desculpa, é só que é muito fácil encher seu saco. - Você quer que eu vá ao laboratório e dê umas porradas nesse Luís? - Não vai precisar, obrigada. Eu sei me virar. - Ah, claro, você faz um ótimo trabalho quando cisma que sabe se virar. - Você não vai querer me irritar agora, Gustavo. - Eu tô mentindo, Mélanie? Ela olhou cabisbaixa para o sorvete. - Não, não tá. Eu odeio quando você tá certo. - Então você me odeia o tempo inteiro. - Cala a boca. - Você vai continuar desse jeito? - Desse jeito como? - Caindo aos pedaços todas as vezes que encontrar esse imbecil? - Não sei - Mélanie enche a boca de sorvete - É bem provável que sim, pelo menos por um tempo. - Você tem que arrumar um namorado. - Oi, mãe? Gustavo quase engasga com o sorvete, de tanto que ri. - Meu Deus, eu falei igualzinho a sua mãe! - Credo, Gustavo! Você andou conversando com ela, foi? - Não, claro que não! - Gustavo ri de novo - Nossa, foi mal, Mel. Mélanie ri também. - Ai, meu Deus... Realmente, o que eu faria sem você, hein, Gugu? - Cala a boca! Eles viviam mandando um ao outro calar a boca. Era a regra básica quando já não tinham mais ar- gumentos. Mélanie e Gustavo voltaram a se concentrar na banana split. - Você vai ficar bem - Gustavo fala, de repente. - Como você sabe disso? - Você sempre acha um jeito de ficar bem no final. - O problema é que o final demora para chegar. - A gente se vira até lá. Os dois se olham e dão um sorrisinho de lado, se lembrando de várias vezes em que tiveram que ajudar um ao outro a chegar até o final do que quer que fosse. - Sabe de uma coisa, Gustavo? - O que? - Tem chocolate na sua bochecha. 5 de agosto de 2008, terça-feira Gustavo já estava perdendo a paciência. De verdade. - Mãe, eu não quero discutir isso pela milésima vez, sério. - Isso não é uma discussão, Gustavo. Só estou falando isso porque ainda dá tempo de você mudar de ideia. - Mãe, não quero mudar de ideia. Não vou mudar de ideia. Será que você não vai desistir disso nunca? Ela fez cara de decepcionada. - Meu filho, você poderia estar tão longe, fazer tão mais... 30
  31. 31. - Eu tô fazendo o que eu gosto de fazer. - Você consegue fazer mais do que está fazendo agora, Gustavo... Ele desiste de tentar manter uma conversa racional com a mãe. Olha para o relógio e anuncia: - Vou sair. - Estamos conversando, Gustavo. - Desculpa, mãe, mas, a gente não tá conversando. Você tá falando de uma coisa sem sentido e eu não quero mais ficar escutando isso. - Não fale comigo desse jeito. - Volto mais tarde. Gustavo sai do apartamento rapidamente, respirando fundo para não colocar todos os seus pensa- mentos para fora. Se isso acontecesse, ele tinha certeza que sua mãe nunca mais olharia na cara dele. O jeito era sair de perto. Quando sua mãe começava com aquele papo de “você ainda tem chances de não ser um perdedor na vida”, a melhor coisa a se fazer era sair de perto. Gustavo desceu as escadas correndo, ao mesmo tempo em que tentava pensar em alguém com quem pudesse conversar, que o ajudasse a esfriar a cabeça. Tentou se lembrar. Os amigos estavam no futebol, que era onde ele devia estar também. Ele não estava com cabeça para futebol agora. Alguma das suas amigas, talvez... Não, não tinha ninguém. Seus primos? Gustavo também não conseguiu se lembrar de nenhum que estivesse disponível agora. Foi só então que se lembrou de Mélanie. Sabia que ela não ficava na faculdade à tarde nas terças, então, ela só podia estar em casa. Era meio bizarro, até porque tinha acabado de conhecer Mélanie, mas, nesses meses, eles acabaram ficando amigos. Ainda mais depois daquela noite idiota. Sim, Mélanie seria uma boa companhia, Gustavo pensou. Ligou para ela. - Oi, Gustavo. - Mel! Tudo bom? - Beleza, e você? - Mais ou menos. - Aconteceu alguma coisa? - Ah, minha mãe enchendo o saco. Escuta, você tá ocupada agora? - Não. Quer fazer alguma coisa? - Já tô aqui embaixo. - Tô descendo também. Em menos de dois minutos, Gustavo já via Mélanie saindo pelo portão do prédio dela. Naturalmente, estava com o cabelo preso em um coque alto e usava aquele mesmo moletom cinza gigantesco da noite em que se conheceram. Ela caminhou apressada até ele. - E aí? - E aí? - O que você quer fazer? - Não sei, eu só... sei lá, tava precisando sair um pouco de casa. Mélanie balança a cabeça. - Entendi... bom, tem aquela sorveteria na rua de cima. Você anima? - Claro, vamos lá. Caminharam sem pressa para a sorveteria. Gustavo conhecia bem o lugar, já tinha ido lá algumas vezes, mas, era a primeira vez que ia com Mélanie. Sabia que, assim que chegassem lá, ele teria que falar porque tinha chamado Mélanie para sair, então, para preencher o espaço, perguntou sobre o dia dela. Mélanie não tinha nenhuma novidade. As aulas ainda não tinham começado, então, ela estava passando a maior parte do dia aturando o final da gravidez de Paula. Gustavo riu quando Mel contou sobre as manias de grávida da irmã mais velha. Era o que ele estava precisando no momento, de um pouco de distração. - Vou pedir a maior banana split do universo, pode ser? - Mélanie perguntou quando chegaram na sorveteria. Gustavo deu de ombros, concordando - Ótimo. Pode se assentar enquanto eu faço o pedido. Obediente, Gustavo se assentou em um dos bancos da calçada. A rua não estava com muito movi- mento àquela hora, o que era perfeito. Mélanie logo voltou, se assentando de frente para Gustavo. Eles 31
  32. 32. se olharam, meio embaraçados, mas, Gustavo decidiu deixar o início da conversa por conta de Mélanie. - Então... - Então... - O que aconteceu? Gustavo olha para frente. De repente, se sente ridículo, com dramas de adolescente. - Você vai falar, né? - Agora tá parecendo meio idiota. - Não tem importância. Gustavo respira fundo, subitamente cansado. Por fim, decide falar. - Minha mãe ainda tá insistindo que eu devia largar o meu curso e ir fazer outro. Aí, toda vez que ela fala nisso, a gente discute. Ela não me escuta. - Mas, você já tá no quarto período, não é? - Minha mãe não liga para isso. Aliás, ela liga porque, segundo ela, eu tô perdendo o meu tempo. - E ela queria que você fizesse o que? - Os de sempre. Medicina, direito, engenharia de alguma porcaria qualquer... Mélanie ia responder alguma coisa, mas, é interrompida pela chegada da banana split. Quando ela disse que era a maior banana split do universo, Gustavo não levou muito a sério. Agora via que a coisa era realmente monstruosa. Olhou assustado do sorvete para Mélanie. - Você vai comer isso tudo? - Eu não! Nós dois vamos - ela disse, passando uma colher para Gustavo - Vai por mim, é a melhor coisa do mundo. Mas, você estava dizendo... - Era isso, só isso. Minha mãe me tirando do sério. Tem certeza que a gente vai dar conta de comer isso tudo? Gustavo não tinha tido muitas chances de sair com Mélanie até então. Na maioria das vezes, os dois se esbarravam no campus da faculdade em que estudavam e comiam alguma coisa juntos. Já tinha reparado que Mélanie comia mais que as meninas com quem estava acostumado a sair, mas, não era grande coisa. Agora, vendo aquela banana split gigantesca, ele começava a suspeitar que Mélanie ti- vesse algum problema com comida. Bom, não vai dar pra fugir daqui. Gustavo deu uma colherada no sorvete e enfiou tudo na boca de uma vez, congelando o cérebro, mas, tendo tempo de concordar com Mel. Realmente, esse trem era muito bom. - Sentiu como é bom? - Mélanie perguntou. - Sensacional - Gustavo respondeu, já pegando mais sorvete. - Eu disse. Mas, aqui, deixa eu te perguntar. Quando você prestou vestibular, rolou essa confusão também? - Foi um inferno, não gosto nem de lembrar. Até cheguei a fazer vestibular para direito em alguma faculdade, mas, foi só para minha mãe parar de me encher o saco, pelo menos um pouco. - E seu pai? - Ele não liga pra essas coisas - Gustavo responde, dando de ombros - Na verdade, ele não liga pra quase nada. Desde que eu esteja estudando, tá tudo certo. - Você já tentou conversar com ele? - Ele não passa muito tempo em casa. De repente, Gustavo se sentiu mal. Parecia aqueles adolescentes mimados que têm tudo que pode- riam sonhar em ter, mas, mesmo assim, não estão satisfeitos. Gustavo não era garoto de muitos capri- chos, mas, tinha tudo o que queria. Um carro legal, dinheiro para sair no final-de-semana, liberdade para chegar em casa a hora que quisesse, amigos de quem gostava e uma faculdade muito boa. O que mais poderia pedir? Que sua mãe parasse de encher o seu saco, talvez. Ou que pudesse conversar com o seu pai sobre isso. - Você não parece o tipo de cara que tem problemas em casa. - Não tenho. É só que... sei lá, meus pais são meio estranhos. - Você é filho único, né? - Sou. 32
  33. 33. - Filho único sofre mais com isso. Filho mais velho também. Meus pais encheram muito a paciência da Paula com essas chatices de faculdade e tal. - O que você tá falando? Que eu devia arrumar um irmão mais velho pra sofrer por mim? Mélanie ri. - Acho que já tá meio tarde pra isso. Eu não sei o que você faz quando sua mãe começa a falar demais. Comigo, eu só saio de perto. - Eu faço a mesma coisa, mas, ela sempre dá um jeito de me achar de novo. - Eu não sei como os pais funcionam, de verdade. - Como são os seus pais? - Gustavo pergunto, distraído. - Normais, eu acho. Preocupados como todos pais são. Eles piraram quando a Paula falou que tava grávida. Tipo, ficaram sem conversar com ela e tal. Só agora que tá voltando ao normal. Eles nunca encheram muito o meu saco, só preocupação normal mesmo. - Você é a santa da casa, Mélanie? - Eu sou a normal da casa. Sem grandes coisas, só... normal. A Paula que dava trabalho. E ainda dá, né? - Eu não tenho irmãos, então, não sei como é isso de dividir atenção. Tenho uns primos mais velhos, mas, eles são parecidos comigo. Só os meus pais que enchem o meu saco mesmo. - Isso acontece com todo mundo, Gustavo. Mas, a gente tem que aguentar isso, eu acho. Mais cedo ou mais tarde, essas pressões diminuem. - Achei que você ia falar que elas acabam. - Não, elas só diminuem. Sua mãe vai acabar cedendo, em algum momento da vida. - Acho que só quando eu for um publicitário montando na grana, casado com alguma filhinha de papai. Mélanie ri de novo. - Se você se casar com alguma filhinha de papai, não vai precisar trabalhar. - É verdade. Acho que eu posso largar a faculdade, então, e ir atrás de uma esposa. - Sei de um tando de menina na faculdade que entraria na fila. - Agora eu só vou andar com gente rica, Mélanie. - O que você tá fazendo comigo, então? - Você pode ser minha escrava quando eu ficar rico. Mélanie joga sorvete na cara de Gustavo. O garoto fica tão surpreso que não consegue falar nada. - Você tava falando o que mesmo? - Você jogou sorvete em mim! - É o que acontece quando falam coisas imbecis pra mim. Ainda com sorvete escorrendo pelo rosto, Gustavo pegou sua colher, aquela toda lambuzada de calda de chocolate, e, num ímpeto, a passou no rosto de Mélanie. Logo ela estava com uma faixa de chocolate cobrindo a testa. - GUSTAVO! - É o que acontece quando jogam sorvete em mim! Mélanie enfiou a colher no sorvete e Gustavo viu que ela estava se preparando para continuar a ba- gunça. Seria uma boa e velha guerra de comida, mas, Gustavo foi mais rápido. - Ei, você não vai querer desperdiçar essa maravilha jogando tudo na minha cara, né? Ela abaixou a colher, parecendo pensar no que Gustavo disse. - É, acho que a banana split não merece ir parar na sua cara. - Muito bom. Agora, que tal a gente voltar a comer e a conversar como duas pessoas normais? - Tem sorvete no seu cabelo. - Tem chocolate na sua testa. Os dois ficaram se olhando por alguns segundos e, em seguida, começaram a rir da idiotice que es- tavam fazendo. - Eu não limpo o meu chocolate se você não limpar o seu sorvete. - E por que eu não limparia? 33

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