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(Retirado da Coleção “Os Pensadores” – Aristóteles – Vol. I, Ed. Nova Cultural).ARISTÓTELES        Atenas, 367 ou 366 a.C....
talvez pudesse ser convencido a adotar uma linhapolitica mais justa e condizente com osinteresses gerais do mundo helênico...
Durante anos o filosofo encarrega-se dessa missão. E ainda preceptor deAlexandrequando, em 338 a.C, os macedônios derrotam...
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O Tratado da Alma (De Anima) abre a serie de obras referentes ao mundovivo,sendo seguido de pequenos tratados sobre difere...
mesmo em obras de finalidade fundamentalmente didática (asacroamaticas, queconstituem, alias, a quase totalidade das obras...
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evoluiu ate a atualidade — não representa o único aspectoimportante dainvestigaçãoaristotélica no domínio da linguagem e d...
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  1. 1. (Retirado da Revista Nova Escola edição 179 - jan-fev/2005 grandes pensadores )SÓCRATES O pensamento do filósofo grego Sócrates (469-399 a.C.) marca uma reviravoltana história humana. Até então, a filosofia procurava explicar o mundo baseada naobservação das forças da natureza. Com Sócrates, o ser humano voltou-se para simesmo. Como diria mais tarde o pensador romano Cícero, coube ao grego ―trazer afilosofia do céu para a terra‖ e concentrá-la no homem e sua alma, a psique. Apreocupação de Sócrates era levar as pessoas, por meio do autoconhecimento, àsabedoria e à prática do bem. Nessa empreitada de colocar a filosofia a serviço da formação do homem,Sócrates não estava sozinho. Pensadores sofistas, os educadores profissionais da época,igualmente se voltavam para o homem, mas com um objetivo mais imediato: formar aselites dirigentes. Isso significava transmitir aos jovens um saber enciclopédico e desenvolver suaeloquência, que era a principal habilidade esperada de um político. Sócrates concebia o homem como um composto de dois princípios, alma (ouespírito) e corpo. De seu pensamento surgiram duas vertentes da filosofia que, em linhasgerais, podem ser consideradas como as grandes tendências do pensamento ocidental.Uma é a idealista, que partiu de Platão (427-347 a.C.), seguidor de Sócrates. Aodistinguir o mundo concreto do mundo das ideias, deu a estas status de realidade; e aoutra é a realista, partindo de Aristóteles (384-332 a.C.), discípulo de Platão quesubmeteu as ideias, às quais se chega pelo espírito, ao mundo real.O diálogo como estratégia de ensino Nas palavras atribuídas a Sócrates por Platão na obra Apologia de Sócrates, ofilósofo ateniense considerava sua missão ―andar por aí (ruas, praças e ginásios, asescolas atenienses de atletismo), persuadindo novos e velhos a não se preocuparemtanto, nem em primeiro lugar, com o corpo ou com a fortuna, mas antes com a perfeiçãoda alma‖. Defensor do diálogo como método de educação, Sócrates considerava muitoimportante o contato direto com os interlocutores – o que é uma das possíveis razõespara o fato de não ter deixado nenhum texto escrito. Suas ideias foram recolhidasprincipalmente por Platão, que as sistematizou, e por outros filósofos que conviveramcom ele. Sócrates se fazia acompanhar frequentemente por jovens, alguns pertencentesàs mais ilustres e ricas famílias de Atenas.O método socrático Sócrates comparava sua função com a profissão de sua mãe, parteira – que nãodá à luz a criança, apenas auxilia a parturiente. ―O diálogo socrático tinha doismomentos‖, diz Carlos Roberto Jamil Cury, professor aposentado da PontifíciaUniversidade Católica de São Paulo.
  2. 2. O primeiro corresponderia às ―dores do parto‖, momento em que o filósofo,partindo da premissa de que nada sabia, levava o interlocutor a apresentar suas opiniões.Em seguida, fazia-o perceber as próprias contradições ou ignorância para queprocedesse a uma depuração intelectual. Mas só a depuração não levava à verdade –chegar a ela constituía a segunda parte do processo. Aí, ocorria o ―parto das ideias‖,momento de reconstrução do conceito, em que o próprio interlocutor ia ―polindo‖ asnoções até chegar ao conceito verdadeiro por aproximações sucessivas. O processo deformar o indivíduo para ser cidadão e sábio devia começar pela educação do corpo, quepermite controlar o físico. Já para a educação do espírito, Sócrates colocava em segundoplano os estudos científicos, por considerar que se baseavam em princípios mutáveis.Inspirado no aforismo ―conhece-te a ti mesmo‖, do templo de Delfos, julgava maisimportantes os princípios universais, porque seriam eles que conduziriam à investigaçãodas coisas humanas.O conhecimento leva à prática da virtude Para Sócrates, ninguém adquire a capacidade de conduzir-se, e muito menos osdemais, se não tiver autodomínio. Depois dele, a noção de controle pessoal setransformou em um tema central da ética e da filosofia moral. Também se formou aí oconceito de liberdade interior: livre é o homem que não se deixa escravizar por seusapetites e segue os princípiosque, com a educação, afloram de seu interior. Opondo-se ao relativismo de muitos sofistas, para os quais a verdade e a práticada virtudedependiam de circunstâncias, Sócrates valorizava acima de tudo a verdade eas virtudes –fossem elas individuais, como a coragem e a temperança, ou sociais, comoa cooperação e aamizade. O pensador afirmava, no entanto, que só o conhecimento (ouseja, o saber, e nãosimples informações) leva à prática da virtude em si, que é una eindivisível. Segundo Sócrates, só age erradamente quem desconhece a verdade e, porextensão, o bem.A busca do saber é o caminho para a perfeição humana, dizia,introduzindo na história dopensamento a discussão sobre a finalidade da vida.O papel do mestre é despertar o espírito O papel do mestre é, então, o de ajudar o educando a caminhar nesse sentido,despertandosua cooperação para que ele consiga por si próprio ―iluminar‖ suainteligência e suaconsciência. Assim, o verdadeiro mestre não é um provedor de conhecimentos, mas alguémque despertaos espíritos. Ele deve, segundo Sócrates, admitir a reciprocidade ao exercersua funçãoiluminadora, permitindo que os alunos contestem seus argumentos da mesmaforma quecontesta os argumentos dos alunos. Para o filósofo, só a troca de ideias dáliberdade aopensamento e à sua expressão – condições imprescindíveis para oaperfeiçoamento do serhumano.A capital da democracia e do saber Sob o governo de Péricles (499-429 a.C.), a cidade-estado de Atenas,vitoriosa naguerracontra os persas e enriquecida pelo comércio marítimo, tornou-se o centro
  3. 3. cultural domundo grego, para o qual convergiam os talentos de toda parte. Fídias, oarquiteto eescultor que dirigiu as obras do Partenon, o maior templo da Acrópole, osdramaturgosSófocles, Ésquilo, Eurípedes e Aristófanes e o orador Demóstenes sãonomes dessa época. O regime democrático ateniense – restrito aos cidadãos livres, deixando deforaestrangeiros e escravos – foi fortalecido por reformas que limitaram os poderesdaburguesia rica e ampliaram os da assembléia e do júri popular. A educação artísticado povofoi estimulada pela exibição de obras de arte em locais públicos e pelasrepresentaçõesteatrais.BIOGRAFIAFilho de uma parteira e de um escultor, Sócrates nasceu em Atenas por volta de 469 a.C.Estudou a arte do pai e trabalhou como escultor por algum tempo. Adquiriu a culturatradicional dos jovens atenienses, aprendendo música, ginástica e gramática. Prestouserviço militar e lutou nas guerras contra Esparta (432 a.C.) e Tebas (424 a.C.). Duranteo apogeu de Atenas, onde se instalou a primeira democracia de que se tem notícia,conviveu com intelectuais, artistas, aristocratas e políticos importantes. Convenceu-sede sua missão de mestre por volta dos 38 anos, depois que seu amigo Querofonte, emvisita ao templo de Apolo, em Delfos, ouviu do oráculo que Sócrates era ―o mais sábiodos homens‖. Deduzindo que sua sabedoria só podia ser resultado da percepção da própriaignorância, passou a dialogar com as pessoas que se dispusessem a procurar a verdade eo bem. Em meio ao desmoronamento do império ateniense e à guerra civil interna,quando já era septuagenário, Sócrates foi acusado de desrespeitar os deuses do Estado ede corromper os jovens. Julgado e condenado à morte por envenenamento, ele serecusou a fugir ou a renegar suas convicções para salvar a vida. Ingeriu cicuta e morreurodeado por seus amigos, em 399 a.C."É sábio o homem que pôs em si tudo que leva à felicidade ou dela se aproxima"(Retirado da Coleção “Os Pensadores” – PLATÃO, Ed. Nova Cultural)PLATÃO "Outrora na minha juventude experimentei o que tantos jovens experimentaram.Tinha o projeto de, no dia em que pudesse dispor de mim próprio, imediatamenteintervir na política." Quem assim escreve, em cerca de 354 a.C, é o setuagenário Platão,numa de suas cartas — a carta VII, endereçada aos parentes e amigos de Dion deSiracusa. O interesse de Platão pelos assuntos políticos decorria, em parte, decircunstâncias de sua vida; mas era também uma atitude compreensível num grego deseu tempo. Toda a vida cultural da Grécia antiga desenvolveu-se estreitamente,vinculada aos acontecimentos da cidade-Estado, a polis. Essa vinculação resultavafundamentalmente da organização política, constituída por uma constelação de cidades-
  4. 4. Estados fortemente ciosas de suas peculiaridades, de suas tradições, de seus deuses eheróis. A própria dimensão da cidade-Estado impunha, de saída, grande solidariedadeentre seus habitantes, facilitando a ação coercitiva dos padrões de conduta; ao mesmotempo, propiciava à polis o desenvolvimento de uma fisionomia particular,inconfundível, que era o orgulho e o patrimônio comum de seus cidadãos. O fenômenogeográfico e o político associavam-se de tal modo que, na língua grega, polis era, aomesmo tempo, uma expressão geográfica e uma expressão política, designando tanto olugar da cidade quanto a população submetida à mesma soberania. Compreende-se,assim, por que um grego antigo pensava a si mesmo antes de tudo como um cidadão oucomo um "animal político". Essa ligação estreita entre o homem grego e a polis transparece na vida e nopensamento dos filósofos. Já Tales de Mileto (século VI a.C), segundo o historiadorHeródoto, teria desempenhado importante papel na política de seu tempo, tentandoinduzir os gregos da Jônia a se unirem numa federação e, assim, poderem oferecerresistência à ameaça persa que então se configurava. Desse modo, com Tales — que atradição considera o ponto inicial da investigação científico-filosófica ocidental — teriacomeçado também a linhagem dos filósofos-políticos e dos filósofos-legisladores, cujavida e cuja obra desenvolveram-se em íntima conexão com os destinos da polis. Nopróprio vocabulário dos primeiros filósofos manifesta-se essa conexão: muitas daspalavras que empregam sugerem experiências de cunho originariamente social,generalizadas para explicar a organização do cosmo. Por outro lado, a estrutura políticafornece ao pensador esquemas interpretativos: a polis monárquica corresponde umainterpretação do processo cosmogônico entendido como o desdobramento ou atransformação de um único princípio (arque), tal como aparece nas primeirascosmogonias filosóficas. Com o tempo, esses esquemas interpretativos vão, porém, sealterando, em parte pela dinâmica inerente ao pensamento filosófico, em parte comoreflexo das novas formas de vida política. A instauração do regime democrático em Atenas e em outras cidades suscitanovos temas para a investigação e sugere novos quadros explicativos: o filósofoEmpédocles de Agrigento — líder democrático em sua cidade — concebe a organizaçãodo universo como resultante do jogo de múltiplas "raízes" regidas pela isonomia(igualdade perante a lei). Ao monismo corporalista dos primeiros pensadores pode entãosuceder o pluralismo: o cosmo é compreendido à imagem da pluralidade de poderes dapolis democrática.Na Assembléia, quem pede a palavra? Entre 460 e 430 a.C, Atenas, sob o governo de Péricles, atingiu o apogeu de suavida política e cultural, tornando-se a cidade-Estado mais proeminente da Grécia. Essasituação fora conquistada sobretudo depois das guerras médicas, quando Atenas lideroua defesa do mundo grego e derrotou os persas. Libertando as cidades gregas da ÁsiaMenor e apoiando-se sobre poderosa confederação marítima, Atenas teve seu prestígioaumentado; enquanto expandia e fortalecia seu imperialismo, internamente aprimoravaa experiência democrática, instaurada desde 508 a.C. pela revolta popular chefiada por
  5. 5. Clíste-nes. Pela primeira vez na história, o governo passara a ser exercido pelo povo,que, diretamente, na Assembléia (Ekklesia), .decidia os destinos da polis. Mas, naverdade, a democracia ateniense apresentava sérias limitações. Em primeiro lugar, nemtodos podiam participar dos debates da Assembléia: apenas os que possuíam direitos decidadania. Essa discriminação excluía das resoluções políticas a maior parte doshabitantes da polis: as mulheres, os estrangeiros, os escravos. Em consequência,constituía uma minoria o demos (povo) que assumira o poder em Atenas. A democracia ateniense era, na verdade, uma forma atenuada de oligarquia(governo dos olígoi, de poucos), já que somente aquela pequena parcela da população— os "cidadãos" — usufruía dos privilégios da igualdade perante a lei e do direito defalar nos debates da Assembléia (isegoria). As decisões políticas estavam, porém, nadependência de interferências ainda mais restritas, pois na própria Assembléia nemtodos tinham os mesmos recursos de atuação. Lido o relatório dos projetos levados àordem do dia, o arauto pronunciava a fórmula tradicional: "Quem pede a palavra?"Segundo o princípio da isegoria, qualquer cidadão tinha o direito de responder a esseapelo. Mas, de fato, apenas poucos o faziam. Os que possuíam dons de oratória associados ao conhecimento dos negóciospúblicos, os hábeis no raciocinar e no usar a voz e o gesto, estes é que obtinhamascendência sobre o auditório, impunham seus pontos de vista através da persuasãoretórica e lideravam as decisões. A eloquência tornou-se, assim, uma verdadeirapotência em Atenas; sem ter necessidade de nenhum título oficial, o orador exercia umaespécie de função no Estado. Se além de orador era um homem de ação — comoPéricles — tornava-se, durante algum tempo, o verdadeiro chefe político. O cuidado dos democratas em impedir que o poder retornasse às mãos da antigaaristocracia e outra vez se centralizasse, reassumindo caráter vitalício e hereditário,acabava por erigir obstáculos à própria democracia. A preocupação em preservar apureza das instituições democráticas, defendendo-as das facções adversárias —derrotadas mas sempre atuantes e prontas a tentar recuperar antigos privilégios —,levou os democratas a estabelecer inclusive uma duração limitada para o exercício dasfunções públicas. Para que nenhum magistrado se acostumasse ao poder e nele quisessese perpetuar, as funções públicas duravam apenas um ano. Além disso adotou-se atiragem de sorte para a escolha dos ocupantes daquelas funções, com exceção doscomandos militares, dos ocupantes de cargos financeiros e dos que exerciam comissõestécnicas que exigissem competência especial. Com o processo de tiragem de sorte — que parece estranho e irracional àmentalidade afeita à administração pública moderna — a democracia grega procuravadefender-se firmando o poder nas mãos da Assembléia dos cidadãos. Tais escrúpulos,porém, vinham tornar ainda mais instáveis e flutuantes as decisões políticas. Ocomparecimento à Assembléia era frequentemente escasso, já que, em condiçõesnormais, muitos cidadãos preferiam ocupar-se de seus negócios particulares; os quecompareciam aos debates estavam sujeitos às influências dos oradores mais hábeis, quefaziam oscilar as decisões; finalmente, a curta duração das funções públicas aumentavamais ainda a dificuldade de se desenvolver uma linha política estável, contínua,duradoura.
  6. 6. As deficiências do regime democrático ateniense tornaram-se patentes paraalguns pensadores, que se empenharam em corrigi-las. Se a liberdade proporcionada aoscidadãos era um patrimônio caro a ser preservado, a estabilidade política exemplificadapor outros países, como o Egito, parecia invejável. Sem falar que, dentro da própriaGrécia, o militarismo de Esparta sugeria uma solução política baseada no sacrifício dasliberdades individuais em nome da disciplina e da ordem social. A crítica à democracia ateniense e a procura de soluções políticas do mundogrego foram preocupações centrais da vida e da obra daquele que é por muitosconsiderado o maior pensador da Antiguidade: Platão. Nele, filosofia e ação políticaestiveram permanentemente interligadas, pois alimentou sempre a convicção de que "...os males não cessarão para os humanos antes que a raça dos puros e autênticos filósofoschegue ao poder, ou antes que os chefes das cidades, por uma divina graça, ponham-se afilosofar verdadeiramente" (Carta VII).Entre a filosofia e a política Platão nasceu em Atenas em 428-7 a.C. e morreu em 348-7 a.C. Essas datas sãobastantes significativas: seu nascimento ocorreu no ano seguinte ao da morte dePéricles; seu falecimento deu-se dez anos antes da batalha de Queronéia, que asseguroua Filipe da Macedônia a conquista do mundo grego. A vida de Platão transcorreu,portanto, entre a fase áurea da democracia ateniense e o final do período helênico: suaobra filosófica representará, em vários aspectos, a expansão de um pensamentoalimentado pelo clima de liberdade e de apogeu político Filho de Ariston e de Perictione, Platão pertencia a tradicionais famílias deAtenas e estava ligado, sobretudo pelo lado materno, a figuras eminentes do mundopolítico. Sua mãe descendia de Sólon, o grande legislador, e era irmã de Cármides eprima de Crítias, dois dos Trinta Tiranos que dominaram a cidade durante algum tempo.Além disso, em segundas núpcias Perictione casara-se com Pirilampo, personagem dedestaque na época de Péricles. Desse modo, se Platão em geral manifesta desapreçopelos políticos de seu tempo, ele o faz como alguém que viveu nos bastidores dasencenações políticas desde a infância. Suas críticas à democracia ateniensepressupunham um conhecimento direto das manobras políticas e de seus verdadeirosmotivos. Segundo o depoimento de Aristóteles, Platão, na juventude, teria conhecidoCrátilo, que, adotando as ideias de Heráclito de Éfeso sobre a mudança permanente detodas as coisas — e certamente interpretando de forma parcial e empobrecida a teseheraclítica —, afirmava a impossibilidade de qualquer conhecimento estável. Os dadosdos sentidos teriam validade instantânea e fugaz, o que tornava inútil e ilegítimaqualquer afirmativa sobre a realidade: quando se tentava exprimir algo, este já deixarade ser o que parecia no momento anterior. Na versão apresentada por Crátilo, oincessante movimento das coisas tornava-se um empecilho à ciência e à ação, que nãopodiam dispensar bases estáveis. Buscando justamente estabelecer esses fundamentosseguros para o conhecimento e para a ação, Platão desenvolverá, na fase inicial de suafilosofia, teses que tendem a sustentar a realidade no intemporal e no estático. Sóposteriormente seu pensamento irá reabilitar e reabsorver o movimento e a
  7. 7. transformação, tentando estabelecer a síntese entre a tradição eleática (que negava aracionalidade de qualquer mudança) e a heraclítica (que afirmava o fluxo contínuo detodas as coisas). Mas o grande acontecimento da mocidade de Platão foi o encontro comSócrates. Na época da oligarquia dos Trinta (entre os quais estavam Cármides e Crítias),os governantes haviam tentado fazer de Sócrates cúmplice na execução de Leon deSalamina, cujos bens desejavam confiscar. Sócrates recusou-se a participar da tramaindigna e, evidentemente, deixou de ser visto com simpatia pelos tiranos. Mais tarde, járeinstaurado o regime democrático em Atenas, Sócrates foi acusado de corromper ajuventude, por difundir idéias contrárias à religião tradicional, e condenado a morrerbebendo cicuta. Platão, que seguira os debates de Sócrates e que o considerava — comoescreverá no Fédon — "o mais sábio e o mais justo dos homens", pôde acompanhar deperto o tratamento que seu mestre recebera de ambas as facções políticas. Parecia nãoexistir em Atenas um partido no qual um homem que não quisesse abrir mão deprincípios éticos pudesse se integrar. Diante da injustiça sofrida por Sócrates,aprofunda-se o desencanto de Platão com aquela política e com aquela democracia:"Vendo isso e vendo os homens que conduziam a política, quanto mais considerava asleis e os costumes, quanto mais avançava em idade, tanto mais difícil me pareceuadministrar os negócios de Estado" (Carta VII). Mas o impacto causado por Sócrates nopensamento e na vida de Platão teve também outra significado, este de repercussõesainda mais duradouras: com Sócrates, o jovem Platão pudera sentir a necessidade defundamentar qualquer atividade em conceitos claros e seguros. Por intermédio de Sócrates e de sua incessante ação como perquiridor deconsciências e de crítico de ideias vagas ou preconcebidas, o primado da política torna-se, para Platão, o primado da verdade, da ciência. Se o interesse de Platão foiinicialmente dirigido para a política, através da influência de Sócrates ele reconhece queo importante não era fazer política, qualquer política, mas a política. Por isso é quejustamente se recusa a participar, na mocidade, de atividades políticas: primeiro tem deencontrar os fundamentos teóricos da ação política — e de toda ação — para orientá-laretamente. A filosofia para Platão representou, assim, de início, a ação entravada, a quese renuncia apenas para poder vir a ser realizada com plenitude de consciência. Depois da morte de Sócrates, disperso o núcleo que se congregara em torno domestre, Platão viaja. Visita Megara, onde Euclides, que também pertencera ao gruposocrático, fundara uma escola filosófica, vinculando socratismo e eleatismo. Vai ao sulda Itália (Magna Grécia), onde convive com Arquitas de Tarento. O famoso matemáticoe político pitagórico dá-lhe um exemplo vivo de sábio-governante, que ele depoisapontará, na República, como solução ideal para os problemas políticos. Na Sicília, emSiracusa, conquista a amizade e a inteira confiança de Dion, cunhado do tirano Dionísio.Essa ligação com Dion — talvez o mais forte laço afetivo da vida de Platão —representa também o início de reiteradas tentativas para interferir na vida política deSiracusa. Platão visita ainda o norte da África, mas de sua ida ao Egito quase nada sesabe com segurança. Certo é que, em Cirene, inteirou-se das pesquisas matemáticasdesenvolvidas por Teodoro, particularmente as referentes aos "irracionais" (grandezas,
  8. 8. como V2, cujo valor exato não se podia determinar). Os irracionais matemáticosinspirarão várias doutrinas platônicas, pois representam uma "justa medida" quenenhuma linguagem consegue exaurir. Nessa época Platão compõe seus primeiros Diálogos, geralmente chamados"diálogos socráticos", pois têm em Sócrates a personagem central. Entre esses diálogosestá a Apologia de Sócrates, que pretende reproduzir a defesa feita pelo próprio Sócratesdiante da Assembléia que o julgou e condenou. Porém, de certa forma, outros diálogosdessa fase constituem também defesas que Platão faz de seu mestre, mostrando que nemera ímpio nem pervertia os jovens. Nessa categoria podem ser incluídos o Críton, oLaques, o Lísis, o Cármides e o Eutífron. Dentre os primeiros diálogos situam-se aindao Hípias Menor (talvez também o Hípias Maior), o Protágoras, o Górgias — nos quaisaparecem os grandes sofistas — e o lon. É possível que, também nessa época, Platãotenha começado a escrever a República. Em geral, os "diálogos socráticos"desenvolvem discussões sobre ética, procurando definir determinada virtude (coragem,Laques; piedade, Eutífron; amizade, Lísis; autocontrole, Cármides). Mas são diálogosaporéticos, ou seja, fazem o levantamento de diferentes modos de se conceituar aquelasvirtudes, denunciam a fragilidade dessas conceituações, mas deixam a questão aberta,inconclusa. Isso possivelmente estaria relacionado ao objetivo do próprio Sócrates, quese preocupava antes com o desencadeamento do conhecimento de si mesmo e nãopropriamente com definições de conceitos. De qualquer modo, algumas teses socráticasbásicas podem ser encontradas nesses diálogos, como a da identificação da virtude comcerto tipo de conhecimento e a da unidade de todas as virtudes. Os outros diálogos dessafase manifestam duas preocupações que permanecerão constantes na obra platônica: oproblema político (como no Cármides) e o do papel que a retórica pode desempenhar naética e na educação (Górgias, Protágoras, os dois Hípias).A Academia ou Siracusa? Cerca de 387 a.C. Platão funda em Atenas a Academia, sua própria escola deinvestigação científica e filosófica. O acontecimento é da máxima importância para ahistória do pensamento ocidental. Platão torna-se o primeiro dirigente de umainstituição permanente, voltada para a pesquisa original e concebida como conjugaçãode esforços de um grupo que vê no conhecimento algo vivo e dinâmico e não um corpode doutrinas a serem simplesmente resguardadas e transmitidas. O que se sabe dasatividades da Academia, bem como a obra escrita de Platão e as notícias sobre seuensinamento oral, testemunham sobre essa concepção da atividade intelectual: antes detudo busca a inquietação, reformulação permanente e multiplicação das vias deabordagem dos problemas, a filosofia sendo fundamentalmente filosofar — esforço parapensar mais profunda e claramente. Nessa mesma época, em Atenas, Isócrates dirige um outro estabelecimento deeducação superior. Mas Isócrates — seguindo a linha dos sofistas — pretende educar oaspirante à vida pública, dotando-o de recursos retóricos. Nada de ciência abstrata:bastava munir o educando de "pontos de vista", que ele deveria saber defender de formapersuasiva. Numa democracia dirigida de fato por oradores, a instituição de Isócratesindiscutivelmente desenvolve uma educação realista, atendendo às necessidades do
  9. 9. momento. Mas é outra a perspectiva da Academia. Para Platão a política não se limita àprática, insegura e circunstancial. Deve pressupor a investigação sistemática dosfundamentos da conduta humana — como Sócrates ensinara. Porém, suas bases últimasnão se limitariam ao plano psicológico e ético: os fundamentos da ação requerem umaexplicação global da realidade, na qual aquela conduta se desenrola. Depois de suasviagens, quando frequentou centros pitagóricos de pesquisa científica, Platão via namatemática a promessa de um caminho que ultrapassaria as aporias socráticas — asperguntas que Sócrates fazia, mas afinal deixava sem resposta — e conduziria à certeza.A educação deveria, em última instância, basear-se numa episteme (ciência) eultrapassar o plano instável da opinião (doxa). E a política poderia deixar de ser o jogofortuito de ações motivadas por interesses nem sempre claros e frequentemente poucodignos, para se transformar numa ação iluminada pela verdade e um gesto criador deharmonia, justiça e beleza. Durante cerca de vinte anos, Platão dedica-se ao magistério e à composição desuas obras. Sob forte influência do pitagorismo, escreve os "diálogos de transição", quejustamente marcam — segundo muitos intérpretes — o progressivo desligamento dasposições originariamente socráticas e a formulação de uma filosofia própria, a partir danova solução para o problema do conhecimento, representada pela doutrina das ideias:formas incorpóreas e transcendentes que seriam os modelos dos objetos sensíveis. Essasnovas formulações aparecem em vários diálogos: Ménon, Fédon, Banquete, República,Fedro. Do mesmo período é o Eutidemo, que procura estabelecer a distinção entre adialética socrática (que Platão adota e pretende desenvolver) e a erística, ou arte dasdiscussões lógicas sutis e da disputa verbal, que se tornara a preocupação central daescola de Euclides de Megara. Já no Menexeno o tema político reaparece, através dasátira a Péricles. Particular importância apresenta, entre os diálogos dessa fase, oCrátilo, no qual — abrindo perspectivas que ainda hoje a filosofia e a linguísticaexploram — Platão investiga a possibilidade de extrair a verdade filosófica da estruturada linguagem. Mas um fato interrompe a produção filosófica de Platão e seu magistério naAcademia. Novamente o apelo de Siracusa e da prática política: em 367 a.C. morreDionísio I, o tirano, que é então sucedido por Dionísio II. Dion chama Platão a Siracusa.Parece o momento propício para se tentar reformar a vida política da cidade. Numapolis governada por um único indivíduo, parece bastar convencê-lo para que tudo seencaminhe da maneira almejada e correta. Esse pensamento faz Platão afinal decidir-se,como confessa na Carta Vil, a atender os rogos de Dion. Para muitos historiadores, Platão vai então a Siracusa tentar aplicar praticamenteos ideais políticos que, a essa altura, já havia configurado na República. Isso não parecemuito provável. Siracusa, considerada a mais luxuriosa cidade do mundo grego, não épor seus costumes, o local indicado para Platão tentar concretizar o modelo políticoproposto na República e que representa um esforço de racionalização das funçõespúblicas e da estrutura social. Voltando a Siracusa, o objetivo de Platão seria outro, bemmais prático e realista: com visão de verdadeiro estadista, preocupa-o o conjunto domundo grego. Seu intento, tudo leva a crer, é o de preparar o jovem tirano para refrear oavanço dos cartagineses e, se possível, expulsá-los da Sicília, onde já estão instalados.
  10. 10. Siracusa poderia transformar-se no centro de forte monarquia constitucional, queabarcaria o conjunto das comunidades gregas do oeste da Sicília. E o mundo grego,fortalecido por essa união, poderia opor resistência ao estrangeiro invasor. Mas a missãode Platão fracassa: não consegue mudar as disposições de Dionísio II. Apenas consegueque ele se ligue, em relações de amizade, a Arquitas de Tarento, dando um passo emdireção ao ideal político de unificar essa parte do mundo helênico. Essa segunda tentativa política malograda deve ter interrompido a composiçãoda série de diálogos constituída pelo Parmênides, Teeteto, Sofista e Político. Diálogosda plena maturidade intelectual de Platão, neles as primeiras formulações da "doutrinadas ideias" (como, por exemplo, apareciam no Fédon) começam a ser revistas e todo opensamento platônico reestrutura-se a partir de bases epistemológicas mais exigentes eseguras. Ao mesmo tempo, as fronteiras entre o pensamento do próprio Platão e do seumestre tornam-se mais nítidas, de tal modo que, no Parmênides, em lugar de Sócratesconduzir e dominar a discussão ele aparece jovem e inseguro diante de um Parmênidesque, levantando dificuldades à teoria das ideias, deixa-o embaraçado. Costuma-se vernessa inversão do papel atribuído a Sócrates nos diálogos o indício de que o platonismojá avançara para além das concepções socráticas, que o haviam inicialmente inspiradoMas a crise que o Parmênides parece instaurar na teoria das ideias não significa quePlatão desiste dessa doutrina. No Teeteto, a discussão sobre o problema doconhecimento e as críticas à identificação do conhecimento com a sensação — posiçãoque é aí atribuída ao sofista Protágoras de Abdera — leva à reafirmação de que oconhecimento verdadeiro não pode dispensar a fundamentação nas ideias: E é esse mundo de essências estáveis e perenes que o diálogo chamado Sofistainvestiga. Ao examinar as bases da distinção entre verdade e erro, apresenta agudacrítica da atividade docente dos sofistas, acusados de criar e difundir imagens falsas,simulacros da verdade Já o Político retoma a tese de que o ideal para a polisseria aexistência de um rei filósofo, que inclusive pudesse governar sem necessidade de leis.A preocupação política que reaparece ao longo dos diálogos continua a ter seucontraponto no campo prático. Através da Carta VII sabe-se que Platão volta uma vezmais a Siracusa, pressionado por Dion e por Arquitas e a convite de Dionísio II, que sedeclara disposto a seguir sua orientação filosófica. A essa altura Dion havia sido banidode Siracusa pelo tirano, mas longe de sua pátria continua a alimentar o ideal de reformarsua cidade, para nela instaurar um regime que aliasse, como prescrevia Platão, aautoridade e a liberdade. Essa nova incursão de Platão a Siracusa foi decepcionante. Dionísio nãocumpriu nenhuma de suas promessas: nem modificou sua conduta política, nem trouxede volta Dion, nem se entregou ao estudo sério da filosofia. Apesar disso quis reterPlatão em Siracusa, e o filósofo só consegue afinal sair de lá graças à interferência deseus amigos de Tarento. Ao regressar, Platão encontra Dion, que prepara uma expediçãocontra Dionísio. A expedição inicialmente tem êxito: afinal Dion consegue livrar suacidade da tirania que a oprime. Dion, entretanto, começa a encontrar oposições àsreformas que quer introduzir e, em meio às perturbações que passam a agitar a vidapolítica da cidade, acaba traído por seus próprios amigos e assassinado. E o que é pior
  11. 11. para Platão: o mandante do crime, Calipos, é um ateniense ligado à Academia e que foracom Dion para Siracusa. Perdido o amigo, encerrada a aventura política de Siracusa, restam a Platão osdebates da Academia e a elaboração de sua obra escrita. Resta-lhe o principal: o seumundo de ideias. Manifestando uma vida espiritual inquieta, em reelaboração permanente, asúltimas obras de Platão levantam novos problemas ou reexaminam os antigos sob outrosângulos. Ao Sofista e ao Político deveria seguir-se o Filósofo, diálogo que terianovamente Sócrates como personagem central. Mas não chegou a ser escrito. Em seulugar surgiram o Timeu e o Crítias, que deveriam fazer parte de uma trilogia que ficouinacabada (o Hermocrates seria o terceiro). O Timeu constitui um vasto mitocosmogônico, no qual Platão — revelando a crescente influência do matematismopitagórico — descreve a origem do universo. O Crítias apresenta um Estado —semelhante ao descrito na República —, identificando-o com a Atenas pré-histórica, queteria salvo o mundo mediterrâneo da invasão dos habitantes de Atlas. Da fase final da obra de Platão é ainda o Filebo, que retoma o tema da felicidadehumana, tratado à luz das últimas formulações do platonismo. Ao morrer, Platão deixainterminada uma grande obra: as Leis. Retomando o problema político e alterando tesesexpressas anteriormente na República, Platão propõe, em sua última obra, umaconciliação entre monarquia constitucional e democracia. O interesse juvenil pelosassuntos políticos acompanhou-o até o fim de sua vida. Mas o aprofundamento daconsciência política significou um longo itinerário que permitiu a construção daprimeira grande síntese filosófica do pensamento antigo e abriu horizontes de pesquisaainda hoje explorados, servindo de inspiração e de estímulo a grandes aventuras doespírito.O mundo perfeito das ideias "Admitamos pois — o que me servirá de ponto de partida e de base — queexiste um Belo em si e por si, um Bom, um Grande, e assim por diante. Se admitires aexistência dessas coisas, se concordares comigo, esperarei que elas me permitirãotornar-te clara a causa, que assim descobrirás, que faz com que a alma seja imortal." ÉSócrates quem fala a Cebes, no Fédon, diálogo no qual Platão, descrevendo os últimosinstantes de vida e as últimas conversações de seu mestre, pouco antes de beber a cicuta,atribui-lhe explicitamente uma nova linha de resolução de antigos problemas filosóficose científicos: a doutrina das ideias. Pouco antes, no mesmo diálogo, Sócrates declarara:"... Eis o caminho que segui. Coloco em cada caso um princípio, aquele que julgo omais sólido, e tudo o que parece estar em consonância com ele — quer se trate decausas ou de qualquer outra coisa— admito como verdadeiro, admitindo como falso o que com ele não concorda".Aquela afirmação de que existe um Belo em si, um Bom em si ou um Grande em sisurge, dentro do desenvolvimento da filosofia platônica, justamente no momento emque esta — segundo a maioria dos intérpretes — começa a assumir fisionomia própria ese distingue do socratismo. Essa separação teria ocorrido no ponto em que a formulaçãoda noção de ideia, como essência existente em si — independente das coisas e do
  12. 12. intelecto humano —, representa a adoção, por Platão, de um método de pesquisa deíndole matemática. Colocar um princípio e aceitar como verdadeiro o que está emconsonância com ele, rejeitando o que lhe está em desacordo — como afirmara Sócrates— significa pensar "como geômetra", que propõe hipóteses das quais extrai asconsequências lógicas. E é o que Platão propõe através da boca de Sócrates: remontardo condicionado (os problemas a serem resolvidos ou as coisas a serem explicadas) àcondição (a hipótese explicativa), visando antes de tudo a estabelecer uma relação deconsequência lógica entre as duas proposições (a que exprime o problema e a queexprime sua hipotética resolução). Provisoriamente deixa-se de lado a questão de saberse a condição é ela própria autossustentável ou se exige o recurso a condições maisamplas ou básicas que a condicionem. De saída, o importante é verificar o que está emconsonância com o princípio proposto. Todavia o platonismo não se deterá aí: o exameda primeira hipótese que resulta da aplicação do "método dos geômetras" — aexistência de entidades em si, as ideias, causas inteligíveis do que os sentidosapreendem — remeterá a outras hipóteses que a condicionam. O pensamento de Platãoirá se construindo, assim, como um jogo de hipóteses interligadas. Ao relativismo dossofistas, Platão opõe não uma afirmação de verdade simplória e dogmática. A busca deuma condição incondicionada para o conhecimento, o encontro com o absolutofundamento da verdade (que só então se distingue do erro e da fantasia), é para Platãonão o ponto de partida mas a meta a ser alcançada. Porém só se chegará aí depois que seatravesse todo o campo do possível. O absoluto, o não-hipotético, habita além dasúltimas hipóteses. Nos primeiros diálogos — os da "fase socrática" — já se buscava algo deidêntico e uno que estaria por trás das múltiplas maneiras de se entender conceitos como"temperança" ou "coragem". Mas esse mesmo que existiria em diversas coisas não eraainda uma entidade metafísica, algo que existisse em si e por si. No Eutífron é que aspalavras ideiae eidos aparecem empregadas, pela primeira vez, numa acepçãopropriamente platônica. Ambas aquelas palavras são derivadas de um verbo cujosignificado é "ver" e têm, assim, como acepção originária, a de "forma visível"(primariamente no sentido de "formato" ou "figura"). Ao que parece, já estavamintegradas ao vocabulário dos pitagóricos, com o sentido de modelo geométrico oufigura. Nos diálogos da primeira fase, que parecem reproduzir as conversações dopróprio Sócrates, a procura do mesmo, além de ficar restrita à busca de um denominadorcomum no nível da significação das palavras, limitava-se a debates sobre questõesmorais. Esses debates não eram conclusivos: deixavam os problemas enriquecidos erevoltos, com isso denunciando a fragilidade ou a parcialidade dos pontos de vistaconfrontados. Ao chegar a esse ponto, a dialética socrática podia dar-se por satisfeita, namedida em que seu objetivo seria o dramático embate das consciências, condição para oautoconhecimento. Já em Platão — a partir da fase do Fédon — a dialética vaiprogressivamente perdendo o interesse humano imediato e a dramaticidade, para seconverter, cada vez com mais apoio em recursos matemáticos, num método impessoal eteórico, que visa aos próprios problemas e não apenas à sondagem da consciência dosinterlocutores. Torna-se uma pesquisa das interligações entre as ideias, chegando, na
  13. 13. fase final do platonismo, a ser considerada um tipo de "metrética" ou arte das medidas edas proporções. "Admitamos pois — o que me servirá de ponto de partida e de base — queexiste um Belo em si e por si, um Bom, um Grande, e assim por diante." Essas palavras,que Platão faz Sócrates dizer no Fédon, representam uma mudança de direção dainvestigação filosófica em relação aos pensadores do passado. A explicação do mundofísico, desde os filósofos da escola de Mileto, convertia-se na procura de uma situaçãoprimordial que justificaria, em seu desdobramento, a situação presente do cosmo. Antes,a água (Tales), o ilimitado (Anaximandro), o "tudo junto" (Anaxágoras) — depois,devido a diferentes processos de transformação ou de redistribuição espacial, o universoem seu aspecto atual. A explicação filosófica representava, assim, o encontro de umprincípio (arque) originário, e era, por isso mesmo, movida por interesse arcaizante, debusca das raízes, de desvelamento das origens. Com Platão essa índole retrospectiva e"horizontal" da investigação é substituída pela perspectiva "vertical" e ascendente quepropõe, seguindo a sugestão do método dos geômetras, as ideiascomo causasintemporais para os objetos sensíveis. O que é belo, mais ou menos belo, é belo porqueexiste um belo pleno, o Belo que, intemporalmente, explica todos os casos e grausparticulares de beleza, como a condição sustenta a inteligibilidade do condicionado. Através dos diálogos, Platão vai caracterizando essas causas inteligíveis dosobjetos físicos que ele chama de ideiasou formas. Elas seriam incorpóreas e invisíveis— o que significa dizer justamente que não está na matéria a razão de suainteligibilidade. Seriam reais, eternas e sempre idênticas a si mesmas, escapando àcorrosão do tempo, que torna perecíveis os objetos físicos. Merecem por isso mesmo, oqualificativo de "divinas", qualificativo que os filósofos anteriores já atribuíam àarque.Perfeitas e imutáveis, as ideias constituiriam os modelos ou paradigmas dos quais ascoisas materiais seriam apenas cópias imperfeitas e transitórias. Seriam, pois, tiposideais, a transcender o plano mutável dos objetos físicos. A afirmativa de que o mundo material se torna compreensível através dahipótese das ideias deixa, porém, em suspenso um problema decisivo: o dapossibilidade de se conhecer essas realidades invisíveis e incorpóreas. Com efeito, o queinicialmente foi tomado como hipótese explicativa — a existência do mundo das ideias— não basta a si mesmo. É preciso que se admita um conhecimento das ideiasincorpóreas que antecede ao conhecimento fornecido pelos sentidos, que só alcançam ocorpóreo. No Mênon Platão expõe a doutrina de que o intelecto pode apreender as ideiasporque também ele é, como as ideias, incorpóreo. A alma humana, antes do nascimento— antes de prender-se ao cárcere do corpo —, teria contemplado as ideias enquantoseguia o cortejo dos deuses. Encarnada, perde a possibilidade de contato direto com osarquétipos incorpóreos, mas diante de suas cópias — os objetos sensíveis — pode irgradativamente recuperando o conhecimento das ideias. Conhecer seria então lembrar,reconhecer. A hipótese da reminiscência vem, assim, sustentar a hipótese da existência domundo das formas. Mas, por sua vez, implica outra doutrina, que a condiciona: a dapreexistência da alma em relação ao corpo, a da incorruptibilidade dessa almaincorpórea e, portanto, a da sua imortalidade. Essa imortalidade, de que Sócrates não
  14. 14. teve certeza nos primeiros diálogos, converte-se, na construção do platonismo, numacondição para a ciência, para a explicação inteligível do mundo físico. Mas se a doutrina da reminiscência liga a alma às ideias e justifica que o homemas conheça, como explicar o relacionamento entre as formas e os objetos físicos, entre oincorpóreo e o seu oposto, o corpóreo? Essa é uma questão que o próprio Platão levantano diálogo Parmênides. Antes ainda suscita outro problema, que está na base daquele eque não havia sido esclarecido nas obras anteriores: afinal, de que há ideias? Os exemplos de ideias apresentados no Fédon são extraídos ou da esfera dosvalores estéticos e morais (o Belo, o Bom), ou das relações matemáticas (o Grande). Defato, desses dois campos é que o platonismo vai colher preferencialmente os pontos deapoio para propor um mundo de modelos transcendentes. Isso é compreensível, uma vezque a variação de mais e menos (mais belo, menos belo; maior, menor) parece sugerir areferência a um padrão absoluto, a uma "justa medida" (o Belo, o Grande). Todavia, jáno Crátilo, onde aparece a primeira afirmação da transcendência das ideias, ela é feita apropósito da ideia referente a um objeto físico, a um artefato, a navega. No Parmênideso problema ainda mais se aguça ao fazer-se a pergunta: há uma forma correspondente aofogo (realidade física e natural), uma forma correspondente ao lodo (objeto físico"inferior")? Valores negativos ou realidades abjetas teriam um modelo no plano dasessências divinas? O que está aí em questão é, na verdade, o significado que o mundofísico temenquanto corpóreo; se é cópia, o que lhe confere o estatuto de cópia,distanciando-o do arquétipo? Se sua causa inteligível é o mundo das ideias, o queconstitui isto que lhe dá concreção e materialidade? Num primeiro momento, de dialética ascendente, impulsionada pelo métodoinspirado no procedimento dos matemáticos, Platão deixara de lado, provisoriamente, anatureza do sensível enquanto sensível. Mas na etapa final de seu pensamento, animadatambém por uma dialética descendente que procura vincular o inteligível ao sensível,essa questão assume crescente interesse, motivando a cosmogonia e a física do Timeu.Também no ensinamento oral dessa fase — segundo o depoimento de Aristóteles —Platão ocupou-se do mesmo problema, embora tratando-o noutra direção, ao investigaras ideias relativas aos objetos de arte. A relação existente entre as formas e os objetos físicos que lhe sãocorrespondentes é a outra grande questão levantada pelo Parmênides. Platão pretenderesolvê-la através de duas noções fundamentais: a de participação e a de imitação. NoParmênides o próprio Platão formula muitas das objeções que pensadores posteriores(inclusive Aristóteles) farão a essas noções. E, se ao longo da evolução de seupensamento, permanentemente aprofundou, esclareceu ou refez o significado departicipação e de imitação, jamais abriu mão da transcendência das ideias. A doutrina platônica da imitação (mímesis) difere da que os pitagóricospropunham desde o século VI a.C. Desenvolvendo um pensamento fundamentado nasinvestigações matemáticas, os primitivos pitagóricos afirmavam que "todas as coisassão números", entendendo como números realidades corpóreas, constituídas porunidades indecomponíveis que eram ao mesmo tempo o mínimo de corpo e o mínimode extensão. As coisas imitariam os números, para os pitagóricos, numa acepçãoplenamente realista: os objetos refletiriam exteriormente sua constituição numérica
  15. 15. interior. A mímesis, no pitagorismo, apresentara portanto um caráter de imanência: omodelo e a cópia estão ambos no plano concreto; são as duas faces — interna(apreendida racionalmente) e externa (apreendida pelos sentidos) — da mesmarealidade. Com Platão a noção de imitação adquire acepção metafísica, como lógicadecorrência do "distanciamento" entre o plano sensível e o inteligível. Os objetos físicos— múltiplos, concretos e perecíveis — aparecem como cópias imperfeitas dosarquétipos ideais, incorpóreos e perenes. O mundo sensível seria uma imitação do mundo inteligível, pois todo ouniverso, segundo a cosmogonia do Timeu, seria resultante da ação de um divinoartesão (demiurgo) que teria dado forma, pelo menos até certo ponto, a uma matéria-prima (a "causa errante"), tomando por modelo as ideias eternas. A arte divina teriaproduzido as obras da natureza e também as imagens dessas obras (como o reflexo dofogo numa parede). Analogamente, a arte humana produz de dupla maneira: o homemtanto constrói uma casa real como, na condição de pintor, pode reproduzir num quadro aimagem dessa casa. O artista aparece por isso, na República, como "criador deaparências". O problema da imitação torna-se mais complexo quando referido aosobjetos de arte, objetos artificiais, artefatos. Faz-se então a distinção entre grausintermediários de imitação: o objeto natural imita a ideia que lhe é correspondente e aarte imita, por sua vez, aquela imitação. A relação cópia-modelo usada metafisicamentepor Platão para explicar a relação sensível-inteligível reaparece assim em sua concepçãoestética e justifica as restrições feitas aos artistas na República. Particularmente ospoetas, como Homero, são aí apresentados como fazendo "simulacros com simulacros,afastados da verdade". No caso das artes plásticas, Platão recusa a utilização dosrecursos da perspectiva, que então se difundiam e lhe pareciam a sofistica na arte, poisacentuavam a "ilusão de realidade". A arte imitativa deveria preservar o caráter de cópiade seus produtos, não querendo confundi-los com os objetos reais. Outro caminho paraas artes plásticas seria tentar reproduzir a verdadeira realidade — das formasincorpóreas —, o que coloca Platão, segundo alguns intérpretes, como antecipador daarte abstrata.O itinerário da sombra à luz Na República, a organização da cidade ideal apoia-se numa divisão racional dotrabalho. Como reformador social, Platão considera que a justiça depende dadiversidade de funções exercidas por três classes distintas: a dos artesãos, dedicados àprodução de bens materiais; a dos soldados, encarregados de defender a cidade; a dosguardiães, incumbidos de zelar pela observância das leis. Produção, defesa,administração interna — estas as três funções essenciais da cidade. E o importante não éque uma classe usufrua de uma felicidade superior, mas que toda a cidade seja feliz. Oindivíduo faria parte da cidade para poder cumprir sua função social e nisso consiste serjusto: em cumprir a própria função. A reorganização da cidade, para transformá-la em reino da justiça, exigenaturalmente reformas radicais. A família, por exemplo, deveria desaparecer para que asmulheres fossem comuns a todos os guardiães; as crianças seriam educadas pela cidadee a procriação deveria ser regulada de modo a preservar a eugenia; para evitar os laços
  16. 16. familiares egoístas, nenhuma criança conheceria seu verdadeiro pai e nenhum pai seuverdadeiro filho; a execução dos trabalhos não levaria em conta distinção de sexo mastão-somente a diversidade das aptidões naturais. A efetivação dessa utopia social dependeria fundamentalmente, por outro lado,de um cuidadoso sistema educativo, que permitisse a cada classe desenvolver asvirtudes indispensáveis ao exercício de suas atribuições. Mas a cidade ideal só poderiasurgir se o governo supremo fosse confiado a reis-filósofos. Esses chefes de Estadoseriam escolhidos dentre os melhores guardiães e submetidos a diversas provas quepermitiriam avaliar seu patriotismo e sua resistência. Mas, principalmente, deveriamrealizar uma série de estudos para poderem atingir a ciência, ou seja, o conhecimentodas ideias, elevando-se até seu fundamento supremo: a ideia do Bem. A discussão em torno da cidade ideal cede então lugar, na República, a duasapresentações sintéticas de como se desdobraria o conhecimento humano ao ascenderaté a contemplação do mundo das essências: o esquema da linha dividida e a alegoria dacaverna. Uma linha dividida em dois segmentos (AB, BC), um representando o plano,sensível e outro o plano inteligível, serve a Sócrates (aí certamente apenas porta-voz dePlatão) para tornar visualizável a ascese dialética. Esses dois segmentos apresentamsubdivisões correspondentes a diferentes tipos de objetos sensíveis e inteligíveis e,consequentemente, a modalidades diversas de conhecimento: O processo de conhecimento representa a progressiva passagem das sombras eimagens turvas ao luminoso universo das ideias, atravessando etapas intermediárias.Cada fase encontra sua fundamentação e resolução na fase seguinte. O que não é vistoclaramente no plano sensível (e só pode ser objeto de conjetura) transforma-se emobjeto de crença quando se tem condição de percepção nítida. Assim, o animal que naobscuridade "parece um gato" revela-se de fato um gato quando se acende a luz. Masessa evidência sensível ainda pertence ao domínio da opinião: é uma crença (pistes),pois a certeza só pode advir de uma demonstração racional e, portanto, depois que sepenetra na esfera do conhecimento inteligível. No plano sensível o conhecimento não ultrapassa o nível da opinião, daplausibilidade. A primeira etapa do conhecimento inteligível é representada peladiânoia, conhecimento discursivo e mediatizador, que estabelece ligações racionais: é oconhecimento típico das matemáticas. O conhecimento sensível deve fundamentar-senesse patamar que lhe está sobreposto e lhe dá sustentação. Isso significa que, paraPlatão (sugestão que o Renascimento desenvolverá), o conhecimento do mundo físicodeve ser construído com instrumental matemático. Mas os conhecimentos matemáticosnão constituem, no platonismo, o ápice da ciência. São ainda uma forma de inteligibilidade primeira, marcada por compromissoscom o plano sensível: as entidades matemáticas são múltiplas (faz-se um cálculo ouuma demonstração geométrica utilizando-se diversos 3 ou vários triângulos); além dissoa própria representatividade manifesta um liame do plano matemático com asensibilidade, a denunciar seu caráter de intermediário entre a percepção sensível e ainteligibilidade plena. Esta só se alcança quando, além das entidades matemáticas,chega-se à evidência puramente intelectual (nôesis) das idéias. Não se trata mais de
  17. 17. vários 3, mas da essência mesma de "trindade", que confere sentido àqueles seusreflexos matemáticos; não se trata mais de triângulos — de vários tipos —, mas da"triangularidade" que neles se efetiva, sem se esgotar em nenhum deles. Chega-se assimao domínio das formas, à dialética que se apresenta como uma metamatemática.Finalmente, no cume do mundo das idéias, a superessência do Bem daria sustentação atodo o edifício das formas puras e incorpóreas. Princípio de conhecimento (do ponto devista do sujeito) e de cognoscibilidade (do ponto de vista do objeto), o Bem exercepapel análogo ao que o Sol possui no plano sensível e material. Princípio de realidade— é ele que confere às coisas essência e existência, transmutando em estrutura real atessitura inicialmente hipotética das idéias. Superessência é o absoluto irrelacionável epor isso mesmo indefinível: dele — como dos irracionais matemáticos — só se podemter indicações aproximadas, como as que se obtêm de uma "justa medida". Do caráterindefinível do Bem necessariamente decorre um senso agudo da limitação da palavra,que perpassa toda a obra platônica e está expresso particularmente no Fedro e na CartaVII. A alegoria da caverna dramatiza a ascese do conhecimento, complementando oesquema da linha dividida. Descreve um prisioneiro que contempla, no fundo de umacaverna, os reflexos de simulacros que — sem que ele possa ver — são transportados àfrente de um fogo artificial. Como sempre viu essas projeções de artefatos, toma-os porrealidade e permanece iludido. A situação desmonta-se e inverte-se desde que oprisioneiro se liberta: reconhece o engano em que permanecera, descobre a "encenação"que até então o enganara e, depois de galgar a rampa que conduz à saída da caverna,pode lá fora começar a contemplar a verdadeira realidade. Aos poucos, ele, que forahabituado à sombra, vai podendo olhar o mundo real: primeiro através de reflexos —como o do céu estrelado refletido na superfície das águas tranquilas —, até finalmenteter condições para olhar diretamente o Sol, fonte de toda luz e de toda realidade. Essa alegoria de múltipla dimensão — pode ser vista tanto como fabulação daascese religiosa, como da filosófica e científica — guarda ainda uma conotação política,que o contexto da República não permite negligenciar. Aquele que se liberta das ilusõese se eleva à visão da realidade é o que pode e deve governar para libertar os outrosprisioneiros das sombras: é o filósofo-político, aquele que faz de sua sabedoria uminstrumento de libertação de consciências e de justiça social, aquele que faz da procurada verdade uma arte de desprestidigitação, um desilusionismo. O aspecto emocional que a alegoria da caverna ressalta no processo deconversão das consciências à luz também está apresentado no Banquete. A ascese aomundo das ideias é aí descrita — particularmente no discurso que Sócrates atribui aDiotima de Mantinéia — como uma "ascese erótica". Eros desempenha em relação aossentimentos e às emoções o mesmo papel de intermediário que as entidadesmatemáticas representam para a vida intelectual. Ele comanda a subida por via daatração que a beleza dos corpos exerce sobre os sentidos e remete, afinal, àcontemplação do Belo supremo, o Belo em si. A construção do conhecimento constitui, assim, no platonismo, uma conjugaçãode intelecto e emoção, de razão e vontade: a episteme é fruto de inteligência e de amor.
  18. 18. (Retirado da Coleção “Os Pensadores” – Aristóteles – Vol. I, Ed. Nova Cultural).ARISTÓTELES Atenas, 367 ou 366 a.C. Ao grande centro intelectual e artístico da Grécia noséculo IV a.C, chega um jovem de cerca de dezoito anos, proveniente da Macedônia.Como muitos outros, vem atraído pela intensa vida cultural da cidadeque lhe acenavacom oportunidades para prosseguir seus estudos. Não era belo e para os padrõesvigentes no mundo grego, principalmente na Atenas daqueletempo, apresentavacaracterísticas que poderiam dificultar-lhe a carreira e aprojeção social. Em particularuma certa dificuldade em pronunciar corretamente aspalavras deveria criar-lheembaraços e mesmo complexos numa sociedade que,além de valorizar a beleza física eenaltecer os atletas, admirava a eloquência edeixava-se conduzir por oradores. Naquela época duas grandes instituições educacionais disputavam em Atenasapreferencia dos jovens que, através de estudos superiores, pretendiam se prepararparaexercer com êxito suas prerrogativas de cidadãos e ascender na vida publica. De um lado, Sócrates, seguindo a trilha dos sofistas, propunha-se a desenvolvernoeducando a arete politica — ou seja, a "virtude" ou capacitação para lidar comosassuntos relativos a polis — transmitindo-lhe a arte de "emitir opiniõesprováveissobre coisas uteis". E, de fato, numa democracia como a ateniense, cujosdestinosdependiam em grande parte da atuação de oradores, a arte de persuasão pormeioda palavra manipulada com o brilho e a eficácia dos recursos retóricos erafatorimprescindível para o desempenho de um papel relevante na cidade-Estado.Aocontrario de Isocrates, Platão ensinava que a base para a ação politica — comoaliaspara qualquer ação — deveria ser a investigação cientifica, de índolematemática. Na Academia, que fundara em 387 a.C, mostrava a seus discípulos que aatividadehumana, desde que pretendesse ser correta e responsável, não poderia sernorteadapor valores instáveis, formulados segundo o relativismo e a diversidade dasopiniões; requeria uma ciência (episteme) dos fundamentos da realidade na qualaquelaação esta inserida. Por trás do inseguro universo das palavras — sujeitas aarteencantatória e a prestidigitação dos retóricos — o educando deveria ser levado,por viado socrático exame do significado das palavras, a contemplação, no ápicedaAscençãodialética, das essênciasestáveis e perenes: núcleos de significaçãodosvocábulos porque razão de ser das próprias coisas, padrões para a condutahumanaporque modelos de todos os existentes do mundo físico. Para além do planodapalavra-convenção (nomos) dos sofistas e de Isocrates, Platão apontava um idealdelinguagem construída em função das ideias, essas justas medidas de significação ederealidade. Diante dos dois caminhos — o de Isocrates e o de Platão — o jovemchegado daMacedônianão hesita: ingressa na Academia, embora a advertência dainscrição de queali não devesse entrar "quem não soubesse geometria" Mas em 367a.C.Platãonão seencontrava em Atenas. Havia morrido Dionísio I, tirano deSiracusa, e Platão para lá sedirigira, pela segunda vez, a chamado de seu amigoDion. O novo tirano, Dionísio II,
  19. 19. talvez pudesse ser convencido a adotar uma linhapolitica mais justa e condizente com osinteresses gerais do mundo helênico. O jovem que viera da Macedônia ingressa, assim, numa Academia na qualafigura principal era, no momento, Eudoxo de Cnido, matemático e astrônomoquedefendia uma ética baseada na noção de prazer. Somente cerca de um ano depoiseque Platão retorna, fatigado por mais uma frustrada experiência politica na Sicília.Etalvez tenha sido o próprio Eudoxo quem lhe apresentou o novo aluno daAcademia, ojovem da Macedônia de olhos pequenos porem reveladores deexcepcional vivacidade:Aristóteles de Estagira.O preceptor de Alexandre De pura raiz jônica, a família de Aristóteles estava tradicionalmente ligadaamedicina e a casa reinante da Macedônia. Seu pai, Nicomaco, era medico e amigodorei Amintas II, pai de Filipe. Estagira, a cidade onde Aristóteles nasceu, em 384acc.,ficava na Calcidica e, apesar de estar situada distante de Atenas e em território sob adependência da Macedônia, era na verdade uma cidade grega, onde o gregoera a línguaque se falava. A vida de Aristóteles — e pode-se dizer que ate certoponto sua obra —estará marcada por essa dupla vinculação: a cultura helênica e aaventura politica daMacedônia. Ao ingressar na Academia platônica — que viria a frequentar durante cercadevinte anos — Aristótelesjá trazia, como herança de seus antepassados,acentuadointeresse pelas pesquisas biológicas. Ao matematismo que dominava naAcademia, eleira contrapor o espirito de observação e a índoleclassificatória,típicas da investigaçãonaturalista, e que constituirãotraços fundamentais de seupensamento. Por outro lado, embora de raízes gregas, ele não era cidadão ateniense eestavaestritamente ligado a casa real da Macedônia. Essa condição de mereço —estrangeirodomiciliado numa cidade grega — explica que ele não viesse a se tornar,como Platão,um pensador politico preocupado com os destinos da polis e com areforma dasinstituições. Diante das questões politicas Aristóteles assumira a atitudedo homem deestudo, que se isola da cidade em pesquisas especulativas, fazendo dapolitica um objetode erudição e não uma ocasião para agir. Em 347 a.C, morrendo Platão, Aristóteles deixa Atenas e vai para Assos, naÁsiaMenor, onde Hermias, antigo escravo e ex-integrante da Academia, havia setornado ogovernante. E possível que a escolha de Espeusipo, sobrinho de Platão,para substituir omestre na direção da Academia, tenha decepcionado Aristóteles;sua destacada atuaçãonaqueles vinte anos parecia aponta-lo como o mais apto aassumir a chefia. Três anosdepois que Aristóteles havia se transferido para Assos,Hermias foi assassinado. Deixouentão a cidade, levando em sua companhia Pitias,sobrinha do tirano morto, e que setornou sua primeira esposa. Mais tarde,morrendo Pitias, desposara Herpilis, que lhe daráum filho, Nicomaco. Saindo de Assos, Aristóteles permanece dois anos em Mitilene, na ilhadeLesbos. E o momento em que a Macedônia, garantida pelo poderio militar, começa amanifestar suas vastas ambições politicas. Filipe, em 343 a.C, chama Aristóteles acortede Pela e confia-lhe importante missão: a de educar seu filho, Alexandre.
  20. 20. Durante anos o filosofo encarrega-se dessa missão. E ainda preceptor deAlexandrequando, em 338 a.C, os macedônios derrotam os gregos em Queroneia.Chega aofim a autonomia das cidades-Estados que caracterizara a Grécia do períodohelênico. A partir de então — dominada pela Macedônia, mais tarde por Roma —aGrécia integrara amplos organismos políticos que diluirão suas fronteiras eatenuarão asdistinções culturais que tradicionalmente separavam os gregos deoutros povos,sobretudo os "bárbaros" orientais. Em 336 a.C, Filipe e assassinado e Alexandre sobe ao trono. Logo emseguidaprepara uma expedição ao Oriente, iniciando a construção de seu grandeimpério. Nadamais justificava a permanência de Aristóteles na corte de Pela. E omomento de voltar aAtenas. La, próximo ao templo dedicado a Apoio Luciano,abre uma escola, o Liceu, quepassou a rivalizar com a Academia, então dirigida porEncartes. Do habito — aliascomum em escolas da época — que tinham osestudantes de realizar seus debatesenquanto passeavam, teria surgido o termoperipatéticos (que significa "os quepasseiam") para designar os discípulos deAristóteles. Ao contrario da Academia, voltada fundamentalmente para investigaçõesmatemáticas, o Liceu transformou-se num centro de estudos dedicadosprincipalmente asciências naturais. De terras distantes, conquistadas em suasexpedições, Alexandreenviava ao ex-preceptor exemplares da fauna e da flora queiam enriquecer as coleçõesdo Liceu. Mas o biologismo era mais que umaperspectiva de escola: tornou-se marcacentral da própriavisão cientifica efilosófica de Aristóteles, que transpôs para toda aNatureza categorias explicativaspertencentes originariamente ao domínio da vida. Emparticular, a noção deespécies fixas — sugerida pela observação do mundo vegetal eanimal — exerceradecisiva influencia sobre a física e a metafisica aristotélicas, namedida em que sereflete na doutrina do movimento, elaborada por Aristóteles. Apesar da estima que Alexandre parece ter devotado sempre a seu antigomestre,uma barreira os distanciava: Aristótelesnão concordava com a fusão dacivilização gregacom a oriental. Segundo ele, gregos e orientais eram naturezasdistintas, com distintaspotencialidades, e não deveriam coexistir sob o mesmoregime politico. Aristótelesestava profundamente convencido de que o regimepolitico dos gregos era inseparável deseu temperamento, sendo impossível transferi-lo para outros povos. Estabelecenítidadistinção entre as populações "barbaras" e a polis grega, somente esta sendo umacomunidade perfeita, pois aúnica a permitir ao homem uma vida verdadeiramente boasegundo os princípios morais e a justiça. Depois da morte de Alexandre, em 323 a.C, Aristóteles passou a serhostilizadopela facçãoantimaçônica, que o considerava politicamente suspeito.Acusado deimpiedade, deixou Atenas e refugiou-se em Cálcis, na Eubeia. Aimorreu no ano de 322a.C.O que restou da grande obra A partir de declarações do próprioAristóteles, sabe-se que ele realizou doistiposde composições: as endereçadas ao grande publico, redigidas em forma maisdialética doque demonstrativa, e os escritos ditos filosóficos ou científicos, queeram liçõesdestinadas aos alunos do Liceu. Estas ultimas foram as únicas que seconservaram,
  21. 21. embora constituam pequena parcela do total que e atribuído, desde aAntiguidade, aAristóteles. As obras exotéricas, destinadas apublicação, eram frequentementediálogos,imitados dos de Platão. Delas restaram apenas fragmentos, conservadospordiversos autores ou referidos em obras de escritores antigos. De dois dessesdiálogos,ambos escritos enquanto Platão ainda vivia, ficaram vestígios maisponderáveis: doEludem — que, a semelhança do Fédon de Platão, tratava daimortalidade da alma — ede Profético, um elogio da vida contemplativa e umconvite a filosofia. Protótipo de umaespécie de obra que se tornou muito apreciadapelos antigos, esse dialogo foi mais tardeimitado por Cicero (106-43 a.C.) no seuHortensius — a obra que despertara avocaçãofilosófica de Santo Agostinho (354-430). Depois que deixou a Academia edurante o período em que esteve em Assos,Aristóteles escreveu o dialogo Sobre aFilosofia, no qual combate a teoria platônica das ideias, particularmente a teoria dosnúmeros ideais, que caracterizara a ultimafase do platonismo. Como o Timeu de Platão,o Sobre a Filosofia apresenta umaconcepçãocosmológica de cunho finalista e teológico;mas, ao contrario do quepropunha Platão, o universo e ai explicado não a semelhança deuma obra de arte— resultado da ação de um divino artesão, o demiurgo —, e sim comoumorganismo que se desenvolve graças a um dinamismo interior, um principioimanenteque Aristóteles denomina "natureza" (physis). As obras de Aristóteles chamadas acroamaticas, ou seja, compostas paraumauditório de discípulos, apresentam-se sob a forma de pequenos tratados, muitosdosquais reunidos sob um titulo comum (como e o caso da Física). A arrumação dessestratados de modo a constituir as series que integram o conjunto das obras deAristóteles— o Corpus aristotelicum —, remonta a Andronico de Rodes, que dirigiu aescolaperipatética no século I a.C. O conteúdo do Corpus aristotelicum apresenta uma distribuiçãosistemática:Primeiro, os tratados de logica cujo conjunto recebeu a denominação deOrganon — jáque para Aristóteles a logica não seria parte integrante da ciência e dafilosofia, masapenas um instrumento (Organon) que elas utilizam em sua construção. O Organon inclui: as Categorias, que estudam os elementos do discurso, ostermos dalinguagem; Sobre a Interpretação, que trata do juízo e da proposição; osAnalíticos(Primeiros e Segundos), que se ocupam do raciocínio formal (silogismo) e ademonstração cientifica; os Tópicos, que expõem um método de argumentaçãogeral,aplicável em todos os setores, tanto nas discussões praticas quanto nocampocientifico; Dos Argumentos Sofísticos, que complementam os Tópicos einvestigam ostipos principais de argumentos capciosos. Apos o Organon, o Corpus aristotelicum apresenta obras dedicadas ao estudo daNatureza. Uma primeira serie de tratados refere-se ao mundo físico,compreendendo: aFísica, que examina conceitos gerais relativos ao mundo físico (natureza, movimento,infinito, vazio, lugar, tempo etc.); o Sobre o Céu (De Coelo) e oSobre a Geração e aCorrupção (De Generatione et Corruptione), estudos sobre o mundosideral e o sublunar;finalmente os Meteorológicos, relativos aos fenômenos atmosféricos.
  22. 22. O Tratado da Alma (De Anima) abre a serie de obras referentes ao mundovivo,sendo seguido de pequenos tratados sobre diferentes funções (a sensação, amemoria, arespiração etc.) e geralmente conhecidos sob a denominação latinaposterior de Parvanaturaliza. Mas da serie relativa aos seres vivos a obra principal e aHistoria dosAnimais, contendo o registro de múltiplas e minuciosas observações. A sequencia de obras dedicadas a filosofia teórica ou especulativa eencerradapor catorze livros sobre a filosofia primeira, ou seja, sobre os primeirosprincípios e asprimeiras causas de toda a realidade. Situados apos os tratadosrelativos ao mundo físico,esses tratados receberam a designação geral de Metafisica. Mas, já na própria Antiguidade tal denominação recebeu uma interpretaçãoneoplatônica: aqueles livros abordariam questões referentes a um plano derealidadesituado além do mundo físico. Depois da filosofia teórica seguem-se, no Corpus aristotelicum, as obrasdefilosofia pratica: a Ética e a Politica. Das varias versões existentes daéticaaristotélica,a principal e a Ética a Nicomaco, assim chamada porque o filho deAristóteles foiquem primeiro a editou. Por sua vez, a Ética a Eludem e hojegeralmenteconsiderada como uma redação mais antiga da Ética de Aristóteles, editadapor seudiscípulo Eudemo de Rodes. Já a Grande Moral (Magna Moralia) seria umresumo damesma Ética, feito em época posterior. A obra denominada Politica e na verdade um conjunto de oito livros que nãoapresentam encadeamento rigoroso. A Politica segue-se a Retorica, que sevincula,devido ao tema, a arte da argumentação ou dialética exposta nos Tópicos(Organon). Por fim, o Corpus aristotelicum apresenta a Poética, da qual restou apenasfragmento.Além desses trabalhos considerados autênticos, o Corpus abrangeaindaalguns escritos que a critica revelou serem apócrifos, como o Sobre o Mundo(DeMundo), os Problemas, o Econômico e o Sobre Melisso, Xenofanes e Gorgias.A verdade e a história O Corpus aristotelicum apresenta o pensamento de Aristóteles com uma feiçãosistemática, como vasto conjunto enciclopédico no qual os mais diversosproblemas sãoelucidados de forma aparentemente definitiva. As soluções propostas por outrospensadores são previamente analisadas e criticadas — edessas criticas Aristóteles partefrequentemente para a formulação de suas próprias concepções. O carátersistemáticoque revestiu, desde a Antiguidade, o pensamentoaristotélico, certamente contribuiu paraque, sobretudo na Idade Media, Aristótelespassasse a ser encarado como a grandeautoridade em matériasfilosóficas ecientificas: era o filosofo, que teria construído umadoutrina de âmbito universal e devalidade permanente, intemporal. Seus textos, por issomesmo, mereceriam não propriamente complementações ou correções, mas antesanalises e comentários. Todavia aquele aspecto sistemático e a aparente fixidez foram reapreciados pormodernos historiadores da filosofia que — sobretudo a partir de Werner Jaeger(1888-1961) — passaram a ressaltar a evolução interna revelada pelas ideias deAristóteles,
  23. 23. mesmo em obras de finalidade fundamentalmente didática (asacroamaticas, queconstituem, alias, a quase totalidade das obras que forampreservadas). Por outro lado, o apelo constante a evolução dos problemas, antes de paraelespropor sua solução, confere a Aristóteles o titulo de primeiro historiador dafilosofia. Naverdade, dele provem o primeiro esforço de explicaçãosistemática dodesenvolvimentodas ideias filosóficas. Não apenas informações esparsas — comojá haviam aparecidoem escritos de outros filósofos, particularmente em Platão —,mas uma tentativa deencadeamento das diversas doutrinas anteriores, com basenuma explicação dos própriosmotivos que teriam levado os homens, desde fasespre-filosoficas, a elaborar sucessivase cada vez mais aprofundadas concepções. Mostrando a chave desse processo, Aristóteles, por isso mesmo, apresenta-secomoseu ponto terminal: em sua obra, as tentativas do passado teriam atingido plena esatisfatóriaformulação. Em nome dessa verdade alcançada — a sua verdade, averdadede seu sistema filosófico — Aristóteles pretende então julgar as filosofiasde seuspredecessores, mostrando-lhes as falhas e os equívocos. O surgimento dahistoria dafilosofia esta, desse modo, estreitamente vinculado ao aristotelismo, já que a luz de suasdoutrinas e que, pela primeira vez, foram relacionados einterpretados os primeirosfilósofos. Devido ao interesse do Liceu por assuntos históricos, mais tardealgunsseguidores de Aristóteles — continuando o trabalho iniciado pelo própriomestre— coletarão textos e alusõesas doutrinas dos filósofos mais antigos.Esselevantamento das opiniões dos primeiros pensadores, chamado "demografia",feitosegundo pontos de vista aristotélicos, tornou-se uma das fontes principais paraarecuperação das doutrinas dos pré-socráticos. Mas os historiadores modernosprecisamrealizar meticuloso esforço critico para restabelecer o sentido originaldaquelasdoutrinas, extraindo-o de sob interpretaçõesaristotelizastes. Muitosdesses historiadoresinsistem nas "deformações" sofridas pelas ideias dos outrosfilósofos quando reportadase analisadas por Aristóteles e pelos doxografosaristotélicos. Tal "deturpação" tem,porem, um motivo fundamental: como emtodas as historias da filosofia que serão desdeentão produzidas, existe por trás dahistoria da filosofia contida nas obras de Aristótelesuma filosofia que apredetermina. No caso de Aristóteles, essa filosofia e naturalmente opróprio aristotelismo, que construirá uma explicação particular do movimento,datransformação e, consequentemente, das mudançashistóricas. Assim, seoaristotelismo formula uma verdade valida universal e intemporalmente —comoAristóteles parece acreditar —, e natural que essa verdade supostamenteabsolutaseja utilizada para julgar a própria historia dentro da qual teria sido gerada. Justamente porque ela se concebe como progressivamente preparada através dotempo (pelas "antecipações" dos pensadores precedentes), e que, ao eclodir,compretensão de plenitude e de validade intemporal, volta-se para o passado eprocuradesvendar-lhe o sentido: a meta atingida pretende conter a razão de ser de todooitinerário seguido pelas investigações humanas. Essa a causa fundamental deoaristotelismo "aristotelizar" a historia da cultura e, particularmente, a historiadafilosofia.
  24. 24. Mas ha outros motivos que levam Aristóteles a partir sempre do passado efazer ahistoria dos problemas que investiga. E são motivos historicamentecompreensíveis:Aristóteles procura alicerçar sua própria filosofia no consensogeral, no consensogentium ettempo rum, ou seja, num suposto acordo subjacente asopiniões das diversaspessoas nas diferentes épocas. Ele não pretende que suasideias representem renovaçõesabsolutas, nem manifestem absoluta originalidade. Apresenta-as, ao contrario, como a formulação acabada de conceitos queahumanidade vinha progressiva e espontaneamente elaborando, desde fasesanteriores asespeculaçõesteóricas. Aristótelesnão quer que sua visão-de-mundopareça paradoxal aosolhos do homem comum ou em confronto com a tradição —ao contrario do quepretendia, na época, uma filosofia como a dos cínicos. Estesdesenvolviam, a partir dosocratismo, uma ética baseada no ideal de retorno anatureza autentica do homem e, porisso mesmo, avessa asconvenções sociais. Aristóteles, porem, não faz filosofia para chocar a mentalidade corrente;seuproposito parecia ser, antes, o de abolir o "escândalofilosófico", que ali mesmo,naAtenas onde abrira o Liceu, já resultara em perseguição para Anaxágoras e emmortepara Sócrates. Passada a fase da dramáticapenetração das ideias filosóficas em Atenas— antes desenvolvidas em terras da Jônia ou da Magna Grécia, portantonos extremosorientais e ocidentais do mundo helênico —, parecia necessário mostrar que aquelasideias não se opunham fundamentalmente ao senso comum,nem demoliam as tradiçõesque serviam de justificativa a organização politica esocial vigente. Essa parece ter sidouma das tarefas centrais a que se propôs Aristóteles — e dai o cuidado em legitimar suaprópriaposiçãofilosófica apelandopara remotos antecedentes que, preparando-a,garantem-lhe o caráter de posição espontânea, natural, sensata (pois baseada no sensocomum). A grande quantidadede citações de outros pensadores e a frequente utilizaçãoda tradiçãopoética paracorroborar suas teses filosóficas parecem ser tambémindíciosdaquele cuidado. Domesmo modo poder-se-ia explicar a importância que ele atribui aosprovérbios:resumos de antiquíssima sabedoria e frutos da longa experiência dahumanidade, aeles Aristótelesnão pretende se contrapor, e sim preserva-los, desenvolve-los econduzi-los a plenitude, dando-lhes forma definida e fundamentos racionais. Todaaobra de Aristóteles esta, por isso mesmo, animada por forte senso de unidade domundoda cultura e pelo historicismo ditado, em ultima instancia, por suasconcepções metafisicas.Da dialética à lógica Platão ensinava na Academia e nos seus Diálogos que a compreensãodosfenômenos que ocorrem no mundo físico depende de uma hipótese: a existênciadeum plano superior da realidade, atingido apenas pelo intelecto, e constituído deformasou ideias, arquétipos eternos dos quais a realidade concreta seria a copiaimperfeita eperecível. Através da dialética — feita de sucessivas oposições esuperposições de teses— seria possível ascender do mundo físico (apreendidopelos sentidos e objeto apenasde opiniõesmúltiplas e mutáveis) a contemplação dos modelos ideais (objetos daverdadeira ciência).
  25. 25. A dialética era, todavia, uma construção marcada pela índolehipotéticadamatemática que inspirou o platonismo. Tanto que, mais tarde, seguidores de Platãodafase chamada Nova Academia serão alguns dos principais representantes doceticismoantigo. Novas e adversas circunstancias históricas —resultantes da perdada liberdadepolitica da Grécia — impedirão o otimismo que fizera Platãofundamentar oconhecimento cientifico no Bem. No ápice da pirâmide de ideias,essa superessencia eraa garantia ultima da certeza do conhecimento, transmutandoem verdade o que forainicialmente uma tessitura de afirmações apenas prováveis. Mas desde que seja abolida a sustentação do conhecimento no Bem nao-hipotetico,o platonismo ira se revelar, na formulação dos integrantes da NovaAcademia,terreno propicio a frutificação de teses relativistas e céticas.Aristótelesjustamente já teria percebido que a dialéticaplatônicasó secomprometia com a certezaem ultima instancia — o que conferia ao platonismosua inquietação permanente e suaflexibilidade, deixando-o, porem, sob a constanteameaça do relativismo. O projetoaristotélico torna-se, então, o de forjar uminstrumento mais seguro para a constituiçãoda ciência: o Organon. Nele a dialética ereduzida a condição de exercício mental que,não lidando com as próprias coisasmas com as opiniões dos homens sobre as coisas, nãopode atingir a verdade,permanecendo no âmbito da probabilidade. Essa concepção dadialética como uma"ginastica do espirito", útil como fase preparatória para oconhecimento, masincapaz de chegar a certeza sobre as coisas, justifica aconcepçãoaristotélica dahistoria e, em particular, da historia da filosofia: a historia —inserida no domínio da dialética — e útil e indispensável na medida em que conduz asua própriasuperação, quando o provável se transforma em certeza. Ou quando as opiniões dosantecessores preparam e dão lugar a verdade que somente seria alcançadapelopensamento aristotélico. Para se atingir a certeza cientifica e construir um conjunto deconhecimentosseguros, torna-se necessário, segundo Aristóteles, possuir normas depensamentoque permitam demonstrações corretas e, portanto, irretorquíveis.Oestabelecimento dessas normas confere a Aristóteles o papel de criador dalogicaformal, entendida como a parte da logica que prescreve regras de raciocínioindependentes do conteúdo dos pensamentos que esses raciocínios conjugam. Masalogica aristotélica nasce num meio de retóricos e de sutis argumentadores. Faz-senecessário, portanto, partir de uma analise da linguagem corrente, para identificarseusdiferentes usos e, ao mesmo tempo, enumerar os diversos sentidos atribuídos aspalavras empregadas nas discussões. Eis por que as Categorias abrem o Organoncompesquisas sobre as palavras, procurando inclusive evitar os equívocos queresultam dadesignação de coisas diferentes através do mesmo nome (homônimo)ou da mesma coisapor meio de diversas palavras (sinônimos). A teoria das proposições apresentada no Sobre a Interpretação baseia-senumatese de amplo alcance, pois realiza uma extraordináriasimplificação no universo dalinguagem: toda proposição seria o enunciado de um juízoatravés do qual umpredicadoe atribuído a determinado sujeito. As proposições podem então serclassificadas emuniversais ou particulares, se o atributo e afirmado (ou negado) dosujeito como um todo
  26. 26. (por exemplo: "Todos os homens são mortais"), ou se eafirmado (ou negado) de apenasparte do sujeito ("Alguns homens são gregos"). Aristóteles estabelece ainda a distinção entre cinco tipos possíveis deatributos: ogênero, a espécie, a diferença, o próprio e o acidente. O gênero refere-sea classe maisampla a que o sujeito pode pertencer ("O homem e um animal"); adiferença e quepermite situar o sujeito relativamente as subclasses em que se divideo gênero ("Ohomem e animal racional"); já a espécie constitui a síntese do gênero eda diferença ("Ohomem e animal racional"). O próprio e o acidente são atributosque não fazem parte daessência do sujeito, pois não dizem o que ele e; todavia, opróprio guarda emrelaçãoaquelaessência uma dependêncianecessária ("A somados ângulos internos de umtriangulo equivale a 180o"), enquanto o acidente podeou não pertencer ao sujeito,ligando-se a ele de modo contingente e podendo serafirmado de outros tipos de sujeitos("Este homem e magro").Por que Sócrates é mortal Aristóteles concorda com Platão ao considerar que só pode haver ciênciadouniversal. Mas o conhecimento do universal e necessário implica a consciênciadasrazoes que tornam necessária uma determinada afirmativa. Essa necessidadetornasseevidente apenas quando se apresenta a explicação daquela asserção, istoe,quando se mostra sua causa. O encadeamento rigoroso de proposições, de modoaexprimir um raciocínio que pretenda concluir por uma afirmativa necessária, e oqueAristóteles investiga nos Analíticos. Platão, através do método da divisão, procurava chegar a definições:comoexemplifica no dialogo Sofista, poder-se-ia obter a definição de uma espécieporsucessivas divisões do gênero em que ela estiver contida. Mas Aristótelesconsiderainsuficiente esse procedimento platônico, pois as dicotomias sucessivascolocamopções sem determinar necessariamente qual dos dois rumos deve ser tomado. Com sua doutrina do silogismo, Aristóteles pretende resolver os impassescriadospela simples dicotomia, apresentando um encadeamento que segue uma direçãoincoercível, rumo a conclusão. Com efeito, o silogismo seria um raciocínio noqual,determinadas coisas sendo afirmadas, segue-se inevitavelmente outra afirmativa. Assim, partindo-se das premissas "Todos os homens são mortais" e "Sócratesehomem" — conclui-se fatalmente que "Sócrates e mortal". A conclusão resulta dasimples colocação das premissas, não deixando margem a qualquer opção,masimpondo-se com absoluta necessidade. Todo o mecanismo silogístico repousa no pape! desempenhado pelochamadotermo médio ("homem"), que fornece a razão do que e afirmado naconclusão: porque ehomem, Sócrates e mortal. Esse mecanismo funciona comrigor, independentemente doconteúdo das proposições em confronto. Issosignifica, porem, que se pode aplicar osilogismo a proposições falsas, sem prejuízo para a perfeição formal do raciocínio("Todos os homens são imortais; Sócrates ehomem; logo, Sócrates e imortal"). Mas aciêncianão pretende, segundoAristóteles, ser dotada apenas de coerência interna: elaprecisa ser construída peloperfeito encadeamento logico de verdades. Assim, osilogismo que equivale ademonstração cientifica devera ser um raciocínio formalmente
  27. 27. rigoroso, mas queparta de premissas verdadeiras. Desde que a demonstração baseia-seempressupostos que ela mesma não sustenta, o conhecimento demonstrativo passa apressupor um conhecimento não-demonstrativo, capaz de atingir, de modo nãodiscursivo mas imediato, verdades que constituem os princípios da ciência. Para Aristóteles, os conhecimentos anteriores ademonstração seriam ouverdadesindemonstráveis, os axiomas, que se impõem a qualquer sujeito pensante eque seaplicam a qualquer objeto de conhecimento (como o principio decontradição, queafirma que toda proposição ou e verdadeira ou e falsa), ou então seriam definiçõesnominais que explicitam o significado de determinado termo("triangulo", por exemplo)e que são utilizadas como teses, já que são simplesmentepostas como pontos de partidapara uma demonstração. Os axiomas seriamcomuns a todas as ciências, enquanto asdefinições nominais diriam respeito asetores particulares da investigação cientifica. Aristóteles considera que não basta aciência ser internamente coerente: eladevetambém ser ciência sobre a realidade. Desse modo, não e suficiente que ela partadeaxiomas e teses, desenvolvendo-se dedutivamente com rigor logico. A definiçãonominal diz apenas o que uma coisa e, mas não afirma que ela e, ou seja, querealmenteexiste. Afirmar a existênciaseria, assim, mais do que apresentar uma tese,explorar osignificado de uma palavra: seria assumir uma hipótese. Através dehipóteses, cadaciência afirma a existência de certos objetos — o que não pode serfeito pordemonstrações, antes permanecendo na dependência de uma reflexão sobre o que existeenquanto apenas existe, sobre o "ser enquanto ser". A logica,para não ficar restrita aodomínio das palavras e para atingir a realidade das coisas— constituindo uminstrumento para a ciência da realidade — remete, portanto, aespeculações metafisicas.As definições buscadas pelo conhecimento cientificonão devem ser simplesesclarecimentos sobre o significado das palavras, mas simenunciar a constituiçãoessencial dos seres. Definir "homem" como "animalracional" significa, para Aristóteles,mostrar um liame necessário que, no caso daespécie "homem", liga determinado gênero("animal"), o mais próximo daquelaespécie, a diferença especifica ("racional").Justamente porque deve apresentar umelo essencial e necessário entre gênero ediferença e que não pode haver, porexemplo, definição essencial de "homem branco", jáque "branco" e acidente, ouseja, um atributo não-essencial de "homem". Pela mesmarazãonão pode haverdefinição essencial dos indivíduos: define-se "homem", mas não sedefine"Sócrates". Como qualquer individuo, "Sócrates" pode ser descritominuciosamenteem seus caracteres peculiares — por isso mesmo não universais —,mas não podeser jamais definido. O individual — Aristóteles concorda com Platão —não eobjeto de ciência.Lógica e argumentação retórica A tentativa de ultrapassar o caráterhipotético da dialéticaplatônicanão constituitoda a dimensão do empreendimento logico de Aristóteles. De fato, comAristóteles teminicio o esforçosistemático de exame da estrutura do pensamentoenquanto capaz deforjar provas racionais. Mas a teoria da prova racional contidana si logística dosAnalíticos — e que serviu de ponto de partida da longa tradição da logica formal, que
  28. 28. evoluiu ate a atualidade — não representa o único aspectoimportante dainvestigaçãoaristotélica no domínio da linguagem e da prova. Justamente porque nascida num ambiente cultural onde a eloquênciadesempenhava decisivo papel politico, o universo logico de Aristóteles e bemmaisamplo. Como autor dos Tópicos, de Dos Argumentos Sofísticos e da Retorica,Aristótelestambém e ponto de partida da corrente que investiga outro tipo decomprovação racional: a comprovação do tipo argumentativo ou persuasivo. Essacorrente,retomada e desenvolvida no século XX sobretudo pela Nova Retorica deChiamPerelman, volta-se para a linguagem corrente, informal, buscando descobrir osrequisitos da persuasão. Procura estabelecer as condições de mais forca persuasivadedeterminado argumento. O que se pretende não e obter uma conclusão necessária,irretorquível e universal (a semelhança do que pretende o silogismoperfeito), por meiode um raciocínio coagente e impessoal, mas obter ou fortalecera adesão de alguém auma tese que lhe e proposta. Por isso, permanece-se no âmbito do discurso não-formalizado — e talvez nao-formalizavel —, do intersubjetivoporque do dialógico, docircunstancial e portanto do histórico, do temporal."O ser se diz em vários sentidos" A construção de definições cientificasatravés do relacionamentoentregêneropróximo e diferença especifica pressupõe um meticuloso levantamentodosseres, em sua hierarquia e subdivisões. No caso dos seres vivos, Aristóteles eosintegrantes do Liceu realizaram esse trabalho prévio declassificaçãosistemática,baseado em acuradas observações. Puderam verificar, então,que as diferentesespécies se apresentam como variações de um mesmo tema, o gênero.Todos ostipos de pássaros, por exemplo, revelariam uma estrutura básica comum, quecadaqual manifestaria diversamente.Platão, movido pela índolematemática de seu sistema, considerava osobjetosparticulares e concretos como copias imperfeitas e transitórias de modelosincorpóreos eeternos, as ideias. Esses universais subsistiriam independentemente deseus reflexospassageiros e apenas aproximados. Aristóteles rejeita a transcendência dosarquétiposplatônicos, considerando-os uma desnecessáriaduplicação darealidadesensível. Para ele, a única realidade e esta constituída por seres singulares,concretosmutáveis. A partir dessa realidade — isto e, a partir do conhecimentoempírico — e quea ciência deve tentar estabelecer definições essenciais e atingir ouniversal, que e seuobjeto próprio. Toda a teoria aristotélica do conhecimentoconstitui, assim, umaexplicação de como o sujeito pode partir de dados sensíveis que lhe mostram sempre oindividual e o concreto, para chegar finalmente aformulações cientificas, que sãoverdadeiramente cientificas na medida em que são necessárias e universais. A repetição das observações dos casos particulares permitiria uma operação dointelecto, a indução, que justamente conduziria — num encaminhamentocontrario ao dadedução — do particular ao universal. O universal seria, portanto, oresultado de umaatividade intelectual: surge no intelecto sob a forma de umconceito (o conceito"pássaro", por exemplo, que pode existir na mente humanacomo resultado final, por viaindutiva, da observacao3 de vários seres concretos damesma espécie: os pássaros de

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