07 06 12_teatro_do_oprimido_e_teatro-educacao_construindo_caminhos_na

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Teatro do Oprimido

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07 06 12_teatro_do_oprimido_e_teatro-educacao_construindo_caminhos_na

  1. 1. TEATRO DO OPRIMIDO E TEATRO-EDUCAÇÃO: CONSTRUINDO CAMINHOSNA EDUCAÇÃO DO SENSÍVELMarli Susana Carrard SittaUPFCilene Maria PotrichUPFGraciela OrmezzanoUPF – UNOESCResumo: A pesquisa realizada focou o desenvolvimento de jogos eexercícios teatrais, de acordo com a proposta do Teatro do Oprimido de AugustoBoal, cujo objetivo principal foi proporcionar uma experiência estética na educação,possibilitada pelo contato com os códigos estéticos da arte teatral, desvelando seussignificados e suas implicações para a construção do conhecimento e odesenvolvimento humano. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de cunhofenomenológico. As atividades pedagógicas foram desenvolvidas com noveprofessoras de diversas áreas do conhecimento, da rede pública estadual, na cidadede André da Rocha, RS com duração de 32 horas/aula. Utilizou-se um diário decampo para registrar todas as informações obtidas durante o desenvolvimento dasatividades artístico–pedagógicas. Também foi aplicada uma entrevista individual nofinal dos encontros. Os achados da investigação foram considerados a partir daobservação do grupo e, também, por meio da reflexão crítica do que aconteceu nosquatro encontros do desenvolvimento do trabalho, resgatando-se a fala dasprofessoras quanto à significação dos encontros, que girou em torno de um melhorrelacionamento com seus alunos, deixando-as mais espontâneas e confiantes noseu fazer pedagógico diário. A cada encontro mostravam-se mais motivadas. Asexperiências estéticas revelaram-se inquietantes para o grupo de docentes, levando-as a refletir sobre o papel de “ser educador”, comprometendo-as de forma pessoalnas transformações vistas como necessárias no âmbito educacional.Palavras-chave: Educação básica; Teatro do Oprimido; teatro-educação;educação sensível; experiências estéticas.Considerações iniciaisNeste artigo pretendemos divulgar uma pesquisa qualitativa cuja temáticaestá centrada numa experiência estética que busca aguçar os sentidos emergentedos jogos e exercícios teatrais do arsenal do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal(1998), em escola estadual, e desvelar a sua importância como processo deaprendizagem para a vida.O principal objetivo da investigação foi proporcionar uma experiência estéticana educação, possibilitada pelo contato com códigos estéticos da arte teatral,desvelando seus significados e suas implicações para a construção doconhecimento e para o desenvolvimento humano. Abrem-se, assim, precedentespara os seguintes objetivos específicos: promover a valorização de um saber
  2. 2. sensível e suas relações no âmbito da educação básica; auxiliar na percepção darealidade e na práxis por um projeto educacional mais humanitário; oferecer tambémaos educadores de arte subsídios para a ação/reflexão/ação a partir dos jogos eexercícios teatrais do arsenal do Teatro do Oprimido.O sentido de experiência estética está associado, neste estudo, àcapacidade sensível do ser humano para organizar os estímulos que lhe alcançam ocorpo, para que ele sinta e perceba a interdependência dos múltiplos aspectosinerentes à condição humana, potencializando a vida e a natureza humana.Nesta pesquisa qualitativa, utilizamos uma metodologia de cunhofenomenológico, sendo desenvolvida conforme os passos propostos por Giorgi(1985) e Comiotto (1992). A compreensão fenomenológica das entrevistas, por suavez, permitiu descrever o fenômeno como um todo.O campo de ação deste estudo foi a Escola Estadual de Ensino MédioAmantino Vieira Hoffmann, na cidade de André da Rocha, Rio Grande do Sul. Nela,foi iniciado, com nove professoras, um trabalho sobre questões do saber sensível naeducação, na forma de exercícios e jogos teatrais apoiados na proposta do arsenaldo Teatro do Oprimido de Augusto Boal (1998). As nove participantes trabalham naescola, lecionando na educação infantil, séries iniciais, ensino fundamental e médio,tendo formação acadêmica nas mais diversas áreas do conhecimento. Algumasresidem no próprio município; outras, em cidades vizinhas.A seleção das participantes foi realizada dentre dezoito professoras, quedemonstraram interesse pelo tema da pesquisa, contudo apenas nove delas tinhamdisponibilidade de tempo naquele momento. As atividades foram propostas eexperenciadas durante quatro encontros, cada um deles com 8 horas/aula,totalizando 32 horas/aula. Todas escolheram um pseudônimo para guardar sigilosobre seus depoimentos.Visando cumprir os objetivos, foi proposto em cada um dos quatro encontrosum tema, um objetivo geral e vivências de jogos e exercícios teatrais do arsenal doTeatro do Oprimido. Esse arsenal de jogos e exercícios de teatro foi dividido emcinco categorias, as quais, de acordo com a proposta de Boal (1998) em seu livroJogos para atores e não atores, partem do princípio de que o ser humano é umaunidade, é um corpo, um todo indivisível onde os cinco sentidos estão todosinterligados, fazendo com que todas as atividades físicas, intelectuais ou emocionaissejam do corpo inteiro. É o próprio Boal (1998: 88) quem comenta: “Nós respiramos
  3. 3. com o corpo todo: com os braços, com as pernas, os pés, mesmo que os pulmões eo aparelho respiratório tenham uma importância prioritária no processo. Nóscantamos com o corpo todo (...). Fazemos amor com o corpo inteiro (...)”.Porém, justifica ainda Boal (1998), na relação do corpo no mundo em quevive, os sentidos sofrem, e nós começamos a sentir muito pouco daquilo quetocamos, a escutar muito pouco daquilo que ouvimos, a ver muito pouco daquilo queolhamos. Escutamos, sentimos e vemos segundo nossas especialidades. Oscorpos adaptam-se ao trabalho que devem realizar, ao dever que devem cumprir, aoquerer que lhes é imposto por alguns segmentos da sociedade atual, em geral,ávidos por lucros excessivos. Essa adaptação, por sua vez, leva à anestesia, àincapacidade de sentir com sentimento, a respostas de impulsos mecânicos.Dentro do vasto campo da sensibilidade que se apresenta como possibilidadepara amenizar a situação de privar o corpo de atuações originais, criativas eespontâneas causando, o que Capra (1996) chama de “crise de percepção”,escolhemos neste estudo, resgatar e dar ênfase à percepção, tomando-a como aelaboração mental das sensações. Para tanto, articulamo-la aos jogos e exercíciosteatrais do Teatro do Oprimido, os quais Boal (1998) classifica em cinco categorias.São elas: sentir tudo que se toca, escutar tudo que se ouve, ativando os váriossentidos, ver tudo que se olha e a memória dos sentidos.Cada jogo ou exercício realizado com o grupo foi explorado e relacionadocom o tema e o objetivo de cada encontro. Na primeira categoria, procuramosdiminuir a distância entre sentir e tocar; na segunda, entre escutar e ouvir; naterceira, procuramos desenvolver os vários sentidos ao mesmo tempo; na quarta,buscamos ver tudo aquilo que olhamos e finalmente, na quinta categoria, ossentidos têm também sua memória. Foi preciso trabalhar para despertá-la. Ametodologia, tendo como parâmetro de ação a proposta do Teatro do Oprimido, foiutilizada de forma dinâmica, conectada com nossas experiências anterioresenquanto educadoras em teatro-educação, permitindo-nos certa liberdade paraestabelecer o nosso modo e estilo de trabalho em cada proposta e atividade.As nove professoras foram entrevistadas no final dos quatro encontros, com ointuito de chegarmos à perspectiva do todo. Assim, solicitamos às envolvidas querespondessem à questão: "O que significou para você esta experiência estética?” Aentrevista foi gravada individualmente e proporcionou abertura para outras questõespertinentes à investigação.
  4. 4. Durante as entrevistas, em quase todas as falas das pesquisadas, houve umquestionamento sobre o porquê de durante a formação profissional não seoportunizarem experiências semelhantes a esta, onde o sensível pode fundir-se aointeligível fazendo com que o conhecimento se torne mais significativo e prazeroso.Confirmam isso as considerações de Morin (1995), ao observar que entreinteligência e afetividade não existe hierarquia, com dominação de uma instânciasobre a outra. Uma só teria sentido de dominação sobre a outra se o ser humanofosse controlado permanentemente pela inteligência racional, o que é humanamenteimpossível.Solange, uma das professoras entrevistadas, comenta:Essas atividades humanizam o trabalho, seja em que disciplina for. Faza gente perceber que não está trabalhando com coisas, com objetos,mas sim com pessoas que pensam e têm sentimentos. Os alunos,assim como nós educadores, podem se perceber dentro de umcontexto, de um mundo e que existem muitas possibilidades, boas eruins, mas que podem escolher.A partir desta resposta, observamos a carência de atividades proporcionadasaos educadores, que lhes permitam registrar um conhecimento tanto reflexivoquanto sentido, ou seja, um conhecimento percebido por todo o corpo em suatotalidade. Estamos nos referindo aqui a uma realidade singular, não tendo aintenção de generalizar o que sucede em todo o país.Nas considerações de Aldrich (1976: 34) podemos ver que a experiênciaestética está ligada às sensações do sujeito que a vive:Se se espera que a experiência tenha qualidade estética, ela não devefazer uma exclusão dos diversos fatores comumente presentes, masuma inclusão mais compreensiva do que a costumeira, apresentandouma unidade, que possa ser sentida, dos elementos que aparecemmais dispersos na percepção atual.Essa realidade nos faz rever e pensar sobre alguns aspectos no processoeducacional, tanto na formação inicial do profissional quanto num processo contínuode formação. Por isso, as experiências estéticas com jogos e exercícios teatraisforam se construindo como espaço para uma prática educativa de qualidade,permitindo às participantes terem uma visão inovadora sobre o ato de educar em si,
  5. 5. rompendo com os limites das práticas pedagógicas tradicionais vigentes. DuarteJúnior (2001) aponta que o sentido das ações devem se sobrepor a suafuncionalidade, que a dimensão poética dessas mesmas ações deve transcenderpara um movimento além de formas já estabelecidas, padronizadas e impostas pelasociedade, que causam alienação e sofrimento para o ser humano.Jogos e exercícios teatrais do arsenal do Teatro do Oprimido: umapossibilidade estética/ educativa.Nietzsche (1992) aponta que o desejo tem como ingrediente primeiro o sentire, segundo, o pensar, e nesse complexo entre sentir e pensar existe uma pluralidadede sensações que se aproximam dos sentidos corporais.Tomando os apontamentos de Nietzsche (1992), podemos apresentar oTeatro do Oprimido e seu arsenal como possibilidade estética/educativa, porque neletodos os sentidos corporais são chamados para trabalhar nas mais diversas ordens:feitas de odores, de ruídos, de texturas, de cores, de formas, de sons, deexpressões...A finalidade é preparar para a ação, não para a passividade e/ourepouso; para o desequilíbrio, que dá início a uma ação transformadora. Seuobjetivo é sempre o de dinamizar, e nesse movimento dinâmico é que vemos umaspecto pedagógico novo, capaz de acompanhar as mudanças rápidas do mundo.Na busca incessante de si mesmo, o ser humano experimenta diversosmateriais e técnicas, seguindo vários caminhos à procura da expressão. Durante odesenvolvimento das atividades foram aparecendo tanto aspectos pessoais quantoprofissionais. Madalena comentou:(...) tudo que ia sendo falado vinha do “fundo”, do íntimo de cada umade nós, e tudo parecia mais verdadeiro. Chegamos a nos emocionar,me senti muito à vontade para falar de mim, tanto como profissionalquanto pessoa. Muitas coisas que encarava como normal comecei aquestionar, comecei a me inquietar, me auto-avaliar. Vi que em muitascoisas tenho que mudar. É sempre mais fácil jogar no outro, ver comoele é, julgá-lo e o meu eu deixar para trás.Foi interessante perceber que a maioria das participantes, quando recebia aproposta dos jogos e exercícios relacionados ao tema de cada encontro, respondiade forma muito espontânea, logo expressando suas idéias em discussão, buscandojuntas a melhor solução para aquele momento. Mas em algumas de suas falas fica
  6. 6. claro o esforço que fizeram, conforme revelou-se na fala de Noemia: “No começotentei negar as atividades, porque percebi que podiam revelar coisas em mim, masquando via, estava fazendo e descobrindo coisas interessantes, muito reveladorasque me ajudavam a entender melhor o meu aluno suas possibilidades e limitações”.Bentley (1981) afirma que, nos jogos teatrais, desejos são realizados, medossão desmistificados, emoções são ensaiadas; mente e corpo entram no jogo,exercitando-se, ganhando massa e agilidade, preparando-se para enfrentar desafiosfuturos. Jogando sozinho ou em grupo, o sujeito aprende a conviver, a ouvir osoutros e fazer-se ouvir, a assumir responsabilidades e permitir que os outrostambém assumam. Conflitos afloram naturalmente e são enfrentados sem culpa esem temores, dando origem a um precioso banco de dados, que será consultadomais tarde, quando o indivíduo tiver de tomar decisões complexas.Boal (1998), em sintonia com Bentley, deixa anotado que o teatro é capaz degerar um registro muito mais consciente na memória ao atingir quem dele participacomo ator ou espectador em três níveis: racional, emocional e, conseqüentemente,estético. Portanto, quando utilizado em programas de aprendizagem, pode resultarnum germe de criação e formação da consciência estética. Essa experiência estéticase dá de forma global, mantendo-nos conectados e em relação com o universo eestá a serviço do criativo, do espontâneo, do belo.Nesse sentido, percebemos que as docentes participantes conseguiramproduzir respostas nunca imaginadas, nem possíveis de serem ditas apenas compalavras, e surpreendiam-se com o resultado de cada criação e seus significados.Assim, experimentavam, conheciam e passavam a se sensibilizar com o grupo embusca de respostas novas para compreender melhor a escola e o mundo em tornodelas. Sentiam-se mais fortes, diziam que era preciso se unirem para ganhar forças.Ao comentar sobre isso, Corina disse:Muitas das atividades de início pensei que não conseguiria fazer, masfui lentamente permitindo-me fazer e percebi resultadossurpreendentes. Às vezes vemos o outro fazendo determinadas coisase admiramos. Mas dizemos a nós mesmos que não conseguiremosfazer. Porém se nos desafiarmos a fazer, conseguimos e nos sentimoscapazes e realizados. Eu me julgo o tempo todo incapaz, tenho medodo julgamento, mas pude ver que eu não sou a única a ter que superarisso. Fiquei mais forte agora. Precisaríamos ter mais espaços na
  7. 7. escola para continuar essas atividades e ter uma relação mais próximacom todas as disciplinas. Precisamos nos reunir para ganhar forças.Não para discussões apenas teóricas, mas para troca de experiências.Momentos sensíveis para saber qual a melhor sugestão em aproximarmais o aluno de todo o contexto escolar, para chegar a um bomtrabalho.Registramos que muitas das participantes se colocaram no papel do aluno,tanto no desenvolvimento das atividades quanto na reflexão sobre elas, o quepodemos perceber na fala de Marta:Coloquei-me inúmeras vezes no lugar do aluno durante odesenvolvimento das atividades. Se eu estou sentindo isso, como seráque o meu aluno se sente cada vez que lhe proponho alguma coisa?Preciso oportunizar formas diferentes para que ele possa se expressar,se colocar. Temos que dar espaço para que a pérola apareça. Mas éimportante fazer-se um trabalho coletivo, para vencer preconceitos epara que exista a aceitação. Na adolescência isto é complicado, elesnão querem se mostrar e colocam máscaras de proteção o tempo todo.No teatro existe a ficção de que a vida pode ser reinventada, revista, revisada.Nada precisa ser novo, mas tudo precisa ser recriado. Nesse processo do refazer,lembramos, refletimos e damos nossa opinião e, assim, exercitamos nossa posturadiante da vida.Através dos jogos e exercícios do arsenal do Teatro do Oprimido foipossibilitado vivenciar momentos que pertenciam ao cotidiano dos alunos e daescola como um todo. Foi possível experimentar, por meio de uma construçãológica, o desenvolvimento de histórias- reais ou metafóricas- que falassem de cadauma, daqueles ligados a elas de alguma maneira: de alunos, de colegas, de amigos,de inimigos, de nosso país e da situação atual do educador e da educação. Asexperiências teatrais proporcionadas nos encontros possibilitou que elas secolocassem no papel do outro, conhecendo melhor a si mesmas e aos “outros” eaprendendo a aceitar e conviver com as diferenças ao invés de tentar eliminá-las.Fica claro nas colocações de Salomé:
  8. 8. Eu diria que o que fizemos mostrou o esqueleto de cada personalidade.A forma de fazer é que nos fazia desligar do mundo e apenas nosconcentrar naquilo que estávamos fazendo. Eu sempre conseguia mever em tudo, não adiantava querer me esconder. Coisa maisimpressionante, não conseguia parar de falar sobre o que fazia, eramuito revelador. Estava pensando, trabalhar dessa forma com os alunotambém vai fazer com que eles se percebam cada vez mais, como nósnos percebemos. Assim como, possibilitaria conhecê-los pelo ladoavesso, como ele é realmente. Possibilitaria um trabalho mais humanodentro da sala de aula.Pela arte teatral podemos refletir sobre quem somos e sobre os diversospapéis que representamos hoje. Vejamos o que disse Maria: “Eu no começo queriame esconder. A cada atividade proposta sempre achava o outro antes, tudo serviapara um dos colegas, menos para mim. Achar as minhas coisas foi muito difícil.Parece que queria negá-las o tempo todo”. Por outro lado Madalena comentou:Eu, ao contrário, já achei que a forma conduzida de fazer cadaatividade me deixou muito livre e espontânea. Cada uma de nós podefalar de si de forma tranqüila. As propostas feitas a cada encontro eramdesafiadoras. Não propunham: agora cada uma vai dizer o que pensasobre isso, sobre o tema proposto. Não, a gente pegava uma revista,uma bola, um pincel e outros objetos, ou só o nosso corpo e nãosabíamos muito bem no que aquilo ia dar, mas no final “aquilo” diziaexatamente o que eu queria dizer.Percebemos que as professoras participantes estavam passando por umprocesso de aprendizagem, reavaliando sua postura profissional. Foi possívelreconhecer as especificidades que caracterizam a linguagem artística como uminstrumento de construção do conhecimento do sujeito. Vanda, professora dematemática, comentou a respeito:Ao relacionar o que nos foi proposto ao meu fazer pedagógico, querodizer que tive muitas idéias. Eu preciso mudar o “visual” das aulas parachamar mais atenção para a disciplina. Preciso variar os estímulos. Emalgumas disciplinas fica mais fácil. Mas em todas elas é possíveldesenvolver esse tipo de atividade, pois proporcionam prazer,estimulam a vontade de aprender.Muitas vezes ignoramos o que pode fazer a diferença, e muito, para astransformações necessárias e esperadas na educação. Porém, para descobrirmos
  9. 9. as essências precisamos de espaços para, primeiro, nos colocarmos, nosposicionarmos, sentirmos como é importante a nossa cultura, para podermosintermediar uma relação mais humana do aluno com o mundo. O teatro mostra-sefundamental, como oportunidade na tentativa de um aprendizado mais humano.Sabemos que momentos possibilitando experiências estéticas devem serproporcionados de forma contínua, pois, na nossa condição humana, sempre novosdesafios deverão ser superados e novas alternativas buscadas. Estamos inseridos eexpostos diariamente numa sociedade que muitas vezes não é a que desejamosnem a que idealizamos; assim, principalmente como educadores, necessitamosquase que a todo o momento de estímulos que suscitem pensamentos capazes dereavaliar a situação, bem como conhecimento de procedimentos práticos capazes detransformar continuamente nossas ações porque a educação é um processocontínuo e dinâmico.Considerações finaisNeste estudo compreendemos que a arte teatral nos permite estabelecerleituras diferentes do mundo. Percebemos que foi possível resgatar no tempo-espaço da experiência estética realizada uma universalidade. Entretanto, só aliberdade de expressão não é suficiente; precisamos aprender a conhecer o real e aentrar na lógica da estética ampla que permite um leque enorme de possibilidadesde convívio com o outro e com nós mesmos.Melhorar a qualidade da educação está intrinsecamente ligada com amelhoria da qualidade das experiências estéticas vividas pelos alunos nas escolas.Para tanto, é imprescindível que os profissionais da educação reflitam sobre suasconcepções e relações entre ensinar e aprender, e sobre suas práticas pedagógicas.A experiência estética depende de um aprendizado e, à medida que os códigosestéticos forem familiares a quem a eles estiver exposto, não como um adereço oudivertimento, mas como parte fundamental e essencial da vida, a própria maneira desentir irá se refinando, tornando as pessoas mais sensíveis às sutilezas da vida, aosmeandros do mundo, tanto interior quanto exterior. Assim, será intensificada apercepção do estar no mundo, do conhecer, reconhecendo que somos sujeitosinalienáveis, únicos e capazes. Duarte Júnior (2001: 12) pontua a respeito:
  10. 10. Sem dúvida, há um saber sensível, inelutável, primitivo, fundador detodos os demais conhecimentos, por mais abstratos que estes sejam;um saber direto, corporal, anterior às representações simbólicas quepermitem os nossos processos de raciocínio e reflexão.A realização dos encontros tendo como parâmetro de ação os jogos eexercícios teatrais do Arsenal do Teatro do Oprimido de Augusto Boal (1998)permitiu-nos compreender melhor a relação do teatro com a educação do sensível,transformando esse aprendizado numa experiência única e profundamentesignificativa.Referências BibliográficasALDRICH, Virgil. Filosofia da arte. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.BENTLEY, Eric. A experiência viva do teatro. Rio de Janeiro: Zaar, 1981.BOAL, Augusto. Jogos para atore e não-atores. Rio de Janeiro: CivilizaçãoBrasileira, 1998.CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1996.COMIOTTO, Miriam S. Adultos médios: sentimentos e trajetórias de vida. Tese(Doutorado) FACED, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre,1992.DUARTE JÚNIOR, João-Francisco. O sentido dos sentidos: a educação (do)sensível. Curitiba: Criar Edições, 2001.GIORGI, Amadeu. Phenomenology and psicological research. Pittsburgh: DuquesneUniversity Press, 1985.MORIN, Edgar.Os meus demônios. Portugual: Publicações Europa-América, 1995.NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma educação do futuro.São Paulo: Companhia das Letras, 1992.Bibliografia Complementar
  11. 11. ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. 10 ed. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1984.BERTRAND, Yves. VALOIS, Paul. Paradigmas educacionais: escola e sociedade.São Paulo: Horizontes Pedagógicos, 1994.BOAL, Augusto. O teatro do oprimido e outras poéticas. 4 ed. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 1983.BRITES, Blanca e TESSLER, Elida. O meio como ponto zero: metodologia dapesquisa em artes plásticas. Porto Alegre: Universidade/UFRGS, 2002.MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. 2. ed. São Paulo:Martins Fontes, 1999.

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