6565175 sabrina-romances-preciosos-no

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6565175 sabrina-romances-preciosos-no

  1. 1. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann O príncipe e a plebéia (Sabrina Romances Preciosos 1491) Tuca Hassermann (2007) Sonho de mil e uma noites de verão... Para encontrar seu irmão, de quem foi separa na infância, Sarah lançará mão de certas habilidades que desenvolveu e que poucas mulheres possuem. Mas ela não imagina que está prestes a conhecer um homem... não um homem qualquer, e sim um sheik de verdade... e que usará suas habilidades para salvar a vida dele, num luxuoso palácio numa ilha longínqua do Oriente Médio... Preocupado com sua irmã que fugiu do palácio, com a iminente rebelião por parte de uma facção de fanáticos religiosos em Nakabir, e com os preparativos para seu casamento, a última coisa que Neyah Faraj precisava era descobrir-se apaixonada por outra mulher! Mas é impossível ignorar o desejo que sente por Sarah Baker, uma mulher linda e intrigante, disposta a correr riscos para proteger o palácio e a família dele... e a paixão irresistível que inflama seus corações! CAPÍTULO I O palácio do sheik Ahmed Faraj recendia a ervas aromáticas. Aquele era o dia do casamento de seu filho mais velho, Neyah, seu sucessor ao governo de Nakabir. Toda a ilha estava em festa para celebrar a união — acertada desde o nascimento das crianças — do príncipe Neyah com a belíssima Ragda, filha de Nimrod, o melhor amigo do sheik. Havia três dias Ragda vinha sendo preparada no harém, segundo a tradição. Todos os cuidados com a pele, os cabelos, as unhas vinham sendo tomados. Sua beleza e sensualidade naturais estariam ainda mais evidentes, para agradar seu futuro marido. Naquela noite, Ragda iria se tomar mulher; e uma princesa. Se tivesse sorte, engravidaria durante a lua-de-mel, dando início a sua família com Neyah. A vida não poderia ser mais maravilhosa para Ragda. Nenhuma jovem sobre a face da terra podia estar mais feliz do que ela. Desde menina sempre foi muito respeitada por ser a prometida do príncipe Neyah, o sucessor do soberano. Todas as amigas a invejavam, mas se continham perante seu poder. Afinal, um dia ela seria rainha. Seu pai, Nimrod, era um homem muito rico. O sheik Ahmed costumava recompensar com generosidade os que colaboravam com ele, desde um simples carregador de água até o grão-vizir. Contudo, nenhuma fortuna, em toda a região, poderia se equiparar à do sheik. Riqueza, formosura, respeito e um marido poderosíssimo para protegê-la. O que mais Ragda poderia pedir aos céus? 1
  2. 2. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Fitou-se no espelho. Seus cabelos negros cintilavam quase tanto quanto seus olhos. Naquela noite, no leito de seu marido, poria em prática tudo o que aprendera desde os doze anos com as mulheres do harém. Em sua cultura, o sexo era um ato sagrado, a ser realizado apenas entre marido e mulher. No entanto, era dever de ambos dar o máximo de prazer um ao outro. Por isso, desde cedo as meninas eram iniciadas na arte da sedução. Elas aprendiam centenas de maneiras diferentes de como utilizar seus corpos para agradar, para levar um homem à loucura. E Ragda sempre recebera elogios por sua desenvoltura, aplicação e interesse por todas as técnicas. Poder-se-ia dizer que se tratava de uma virtuose. E agora, finalmente, iria dar vazão a todo aquele fogo que a consumia por dentro. Sua feminilidade atingira o ponto máximo. Seu corpo e sua alma estavam mais do que prontos para aquele casamento. O príncipe Neyah entrou nos aposentos do sheik. Não saberia dizer o que fazia ali, mas experimentava um peso no coração. Uma sensação de que algo estava muito errado o acompanhava desde cedo, naquela manhã. Não compreendia a si mesmo. Durante anos aguardara pelo momento em que, enfim, desposaria Ragda. Ela era lindíssima, e seu poder de sedução era tal que ninguém ficava imune a seus encantos. Assim que entrava em um ambiente, todos os rostos se voltavam para ela. Tudo conspirava a seu favor. Todas as bênçãos do deus de seu povo foram derramadas sobre sua cabeça desde que viera ao mundo. Fora agraciado pela formosura, pela valentia, por pais amorosos. Sua mãe era inglesa, e trouxera para Nakabir, após se tomar rainha, tudo de melhor que sua cultura possuía. Graças à convivência com ela, o sheik se tomara mais acolhedor, tolerante e sorridente. O amor que Ahmed dedicava à rainha Justine era tamanho que ele mandara construir um imenso oásis no deserto, apenas para desfrutar de românticos momentos a sós com sua adorada. Os trinta e cinco anos de seu casamento produziram seis filhos, cinco rapazes e uma moça: Neyah, Hassin, Miled, Fariso e Sardok, e a princesa Maata, a caçula. Os príncipes eram todos morenos como o pai, mas seus olhos eram claros, castanho-esverdeados. Maata, porém, se tomara de uma beleza incomum. Tinha pele clara, cabelos muito loiros e olhos negros. Era o grande amor de todos no palácio, a luz que iluminava cada um com sua alegria contagiante. Seu único defeito era ter nascido independente demais para aquele mundo em que os homens davam as ordens e as mulheres obedeciam. Maata jamais se conformou com isso. Não costumava entrar em conflito com os irmãos ou o pai. Sorria com a imensa doçura que sempre os desarmava, mas fazia exatamente o que queria. E ninguém tinha coragem de admoestá-la quando ela olhava no fundo dos olhos e dizia: — Eu não falei que ia obedecê-lo. Portanto, não menti. Por que está tão bravo? E lá vinha aquele sorriso maravilhoso, e a pessoa já não lembrava mais o motivo de sua zanga. De repente um arrepio subiu pela coluna de Neyah. — Papai? Sem obter resposta, ele se dirigiu ao dormitório do aposento real. Então, avistou uma folha de papel cor-de- rosa sobre a cama, encimada por um pequeno arranjo de flores. Outro arrepio. Leu sem demora: Paizinho amado, Quando você estiver lendo esta carta, eu me encontrarei bem longe daqui. Não quero que você, mamãe ou meus irmãos se aflijam. Sei o que estou fazendo. Aproveitei justamente este dia em que todos estarão ocupados com os últimos preparativos do casamento de Neyah para fugir. Caso contrário, dificilmente eu teria outra chance. Sei que vocês todos querem o melhor para mim. Como poderia ser diferente, se tanto me amam? Porém, não pretendo, de forma alguma, desperdiçar todo o meu talento artístico num país que não dá crédito algum às mulheres. Estudei tanto, papai! E me tornei uma desenhista de jóias de primeira linha. Superei até meus mestres, que nunca esconderam uma ponta de inveja por aquilo que eles — e eu! — consideram um dom. Pretendo ganhar o mundo. Quero ser reconhecida por meu trabalho. Irei para o Ocidente, e lá serei famosa por meus próprios méritos. Jamais me conformarei em ser a esposa peifeita de um homem que talvez eu nem ame, só porque o destino assim o quis. Meu destino eu mesma farei. Amo demais toda a minha família. Nunca duvidem, nem por um segundo, que eu morreria por vocês. Mas creio que minha porção inglesa — que herdei de mamãe — é forte demais para ser ignorada. Por favor, dê-me suas bênçãos, papai. E fique tranqüilo, eu saberei me cuidar. 2
  3. 3. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Diga a mamãe que não chore. Assim que possível, entrarei em contato, dando notícias. Só uma coisa: não mande ninguém atrás de mim. Se eu tiver de voltar à força, não hesitarei em levar o caso às autoridades do país onde eu estiver. Não se esqueça de que, assim como meus irmãos, tenho nacionalidade inglesa. Desse modo, fora de Nakabir, vocês não mandam em mim, visto que sou maior de idade. Até breve. Com todo meu amor, Maata Neyah releu a carta várias vezes, para ter certeza de que não entendeu errado e de que aquilo não era um pesadelo. Como podia ser?! — Ela não pode ter ido longe... Ou pode? Quando foi a última vez que a vi?! Então Neyah se deu conta de que não via Maata havia dois dias. Os preparativos para o casamento também consumiam muitas horas do noivo, entre orações, banhos e conversas com os mais velhos. Portanto, sua irmãzinha, àquela altura, já poderia ter deixado o país. O príncipe decidiu não se entregar ao desespero. Era um homem prático e acostumado ao comando. Assim, respirou fundo e mandou que Aran, seu serviçal mais antigo, convocasse uma reunião urgente com seus irmãos e o pai. — Leve-os sem demora para a sala dourada, Aran, a mais distante da área do harém, pois não quero que minha mãe saiba de nada, por enquanto. Em quinze minutos estarei lá. — Sim, Alteza — e Aran se foi, apressado. Ahmed empalideceu e levou a mão ao peito. — Como Maata pôde fazer isso comigo?! — Papai, acalme-se. Nós a traremos de volta. — Não entende, Miled? Maata é uma princesa real, que esteve cercada de todos os mimos e de toda a proteção desde que nasceu. Ela não sabe tomar conta de si! — Nenhuma mulher sabe. — Nossa mãe sempre soube. — Não me irrite, Hassin! Nossa mãe é inglesa. As ocidentais são diferentes. Elas desprezam os homens. — Sardok, o que diz é um disparate! — Não é! As mulheres têm de ser dirigidas. Quando não são, só fazem bobagens! — Como pode dizer algo assim?! Se nossa mãe ouvir o que você fala é bem capaz de lhe dar umas boas palmadas! — Parem de discutir! — o sheik bateu com força no tampo da mesa. — Não me importo nem um pouco com a opinião de vocês! Quero minha menina aqui, junto de mim, e agora! Isso é uma ordem! Todos se calaram e baixaram a cabeça, submissos. Foi Fariso quem quebrou o silêncio: — Ela não pode ter ido muito longe. Aran verificou em seu quarto e encontrou muito dinheiro em seu cofre particular. — Maata é tão rica quanto vocês. Sua fortuna fica depositada no banco; o dinheiro no cofre é apenas para despesas imediatas. Além disso, eu lhe dei todo o ouro e as pedras preciosas que me pediu, para fazer suas jóias. Minha filha pode viajar ao redor do mundo várias vezes, se assim o quiser — o sheik, inconformado, encarou o filho mais velho. — Neyah, prepare-se. Você irá agora mesmo atrás de Maata. Leve consigo tudo e todos de que necessitar. O príncipe ia dizer algo, mas o sheik o impediu: — O casamento será adiado. Ragda ficará no harém até que você retome. E não volte sem minha filha! Os príncipes fizeram uma reverência ao sheik para se retirar da sala dourada quando as portas se abriram e a rainha entrou. Justine continuava esplendorosa aos cinqüenta e cinco anos e depois de ter tido seis filhos. Era uma mulher de média estatura, corpo curvilíneo, longa cabeleira cor de areia e olhos azul-turquesa. Assim que olhou para eles, tantos anos atrás, o sheik Ahmed foi tomado de uma paixão tão fulminante que não descansou enquanto não conquistou o indômito coração de Justine. O que se mostrou uma tarefa árdua, visto que ela era dotada de muita personalidade e talento para a política. 3
  4. 4. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Na ocasião em que se conheceram, Justine cursava comércio exterior na faculdade, e pretendia seguir carreira diplomática. Ahmed a cobriu de presentes caríssimos, achando que assim ela enxergaria logo quanta vantagem teria em se tomar amante dele. Sim, porque nem de longe ocorria ao sheik desposar uma plebéia — e além do mais, estrangeira. Justine devolveu de imediato todas as jóias e raridades que vieram das mãos do sheik, com um sonoro "Digam- lhe para me deixar em paz!". Quando se deu conta de que não queria mais mulher nenhuma no mundo além dela, Ahmed capitulou. E, usando de muita astúcia e um elaboradíssimo estratagema, conseguiu se aproximar de Justine, que não resistiu ao charrne devastador do sheik. Mas o pedido de casamento só foi aceito quando Ahmed jurou que não haveria mais concubinas no harém. As mulheres que lá viviam ganharam o direito de optar: poderiam continuar no palácio como empregadas remuneradas, viver por conta própria com uma pensão vitalícia ou deixar que Ahmed lhes arrumasse marido. Sem demora, a prática — embora não tivesse sido imposta aos súditos — se tomou comum entre os cidadãos de Nakabir, e a monogamia passou a se tomar mais e mais aceita entre os homens. — Mamãe! a que faz aqui? Não deveria ter vindo, esta reunião é só... Justine se aproximou de Sardok e lhe fez um carinho na face. — Fique quietinho, meu filho. Se nem seu pai me diz o que fazer, imagine se você teria esse poder. Sardok enrubesceu. Muito altiva, Justine se aproximou do sheik e o cumprimentou segundo o protocolo. — Majestade, espero que não seja necessário que eu recorra a meios escusos para descobrir o que se passa neste salão. — Querida, depois falaremos sobre isso. — Se pretende ser indulgente comigo, Ahmed, terá de arcar com as conseqüências. Era dificílimo para o sheik, mesmo agora, ouvir uma mulher se dirigir a ele daquela maneira. No entanto, aquela era a sua Justine. Ela não era apenas seu amor; era seu coração inteiro. Tinha adoração pelos filhos, mas sua rainha pulsava em suas veias. E aquele caráter de guerreira do deselto o encantava, mais do que o aborrecia. Assim, suspirando, Ahmed indicou-lhe que se sentasse e a colocou a par de tudo. Justine empalideceu um pouco, mas não se deixou abater. — Que providências vocês tomaram? — Mandei que Neyah saísse à procura dela sem demora. — E para onde ele irá? — Devo começar a procurá-la no aeroporto, mamãe. — Sei... Mas não faz dois dias que não vê sua irmã? Nesse caso, não lhe parece um tanto difícil encontrá-la ainda no aeroporto? — Eu pretendia checar os vôos, para descobrir para onde Maata viajou. — Algo que você poderia fazer com um simples telefonema. — Ainda não tinha pensado direito, mamãe. Claro que ia encontrar uma idéia melhor. — Alguma sugestão, minha adorada Justine? A rainha segurou a mão do marido e a apertou, trocando com ele um olhar repleto de significados. Então, ficou de pé e começou a andar de um lado para o outro. Ahmed conhecia bem esse seu método; era dele que lhe vinha uma clareza de raciocínio em geral estupenda. — Deve fazer também uns dois dias que não vejo minha filha. Com toda essa azáfama dos preparativos do matrimônio de Neyah com Ragda, me mantive tão ocupada! Além do mais, Maata fica tanto tempo trancada em seu estúdio, trabalhando em suas peças, que não me importei com sua ausência. A rainha tocou o anel de turmalina azul em seu dedo anular da mão direita. Aquela foi uma das primeiras jóias confeccionadas por Maata, que ela ofertou à mãe. O aro e a caixa que envolvia a pedra eram em ouro branco, num trabalho em filigrana delicadíssimo. A turmalina tinha catorze quilates, e a lapidação utilizada por Maata era tão moderna que espantara os tradicionais ourives conhecidos do sheik, que não entendiam de onde ela tirava aquelas idéias tão avançadas. — Imagino que a nenhum de vocês tenha ocorrido verificar o computador dela. Os irmãos se entreolharam, embaraçados. — Como lhe falei, mamãe, assim que eu tivesse oportunidade de me acalmar, decerto seria a primeira providência que tomaria. — Claro, Neyah. Antes de sair em disparada para o aeroporto, não é? 4
  5. 5. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Ahmed não conteve um sorriso. Adorava a ironia fina de sua rainha. — Duvido que Maata tenha se decidido pela Inglaterra. Na verdade, creio que nenhum país da Europa seria seu escolhido. — Ela fala vários idiomas. Pode viver onde quiser. — Evidente, Miled. Mas minha intuição materna me diz que Maata daria preferência a um lugar de grande extensão territorial, o que tomaria mais difícil encontrá-la. Seu deslocamento seria fácil e não haveria necessidade de passaporte, como aconteceria se estivesse na Europa. Todos assentiram. — Vocês estão se afligindo à toa — Fariso fez um esgar. — Assim que Maata utilizar o cartão de crédito, descobriremos onde está. Justine o encarou. — Filho, foi justamente por querer fugir desse tipo de mentalidade retrógrada que sua irmã deixou Nakabir. Garanto que ela tomou todos os cuidados necessários para não deixar rastros; usar os cartões de crédito seria a última coisa que faria, portanto — a rainha tornou a andar. — Todos vocês sempre a trataram como um ser inferior, que gostava de se divertir com seus brinquedinhos caríssimos que ela mesma fazia. Maata é uma artista talentosíssima, e jamais teve o apoio do pai ou dos irmãos. — Está sendo injusta, mamãe. Nós sempre elogiamos as peças dela. — Sim. Com os sorrisos indulgentes que se lançam às crianças quando elas vêm nos mostrar as primeiras palavras que conseguem escrever. Não com a admiração que ela merecia. Eu me esforcei tanto para fazer meus filhos enxergar o absurdo dessa postura machista e ultrapassada... — Justine respirou fundo. — Falhei miseravelmente. — Mamãe, entenda. Maata é nossa irmã. E caçula, ainda por cima. Não está pedindo demais que homens como nós, de nossa estirpe e cultura, olhem para ela e vejam mais que uma menina a ser protegida? Não nos peça o impossível. — Não posso acreditar que ela tenha preferido enfrentar o mundo, com todos os riscos que ele oferece, a ficar aqui conosco, ao lado da família, que tanto a ama — Ahmed meneou a cabeça, desconsolado. — Também me preocupo com a segurança dela. Maata nunca enfrentou dificuldades, jamais teve de lavar um copo sequer. Mas ela tem o direito de seguir o próprio caminho. — Não tem, não, Justine! — o sheik ficou de pé, vermelho de indignação. — A obrigação dela é morar conosco e nos obedecer! Justine e o marido ficaram se encarando, numa comunicação muda que os filhos haviam presenciado em diversas ocasiões. O resultado era sempre o mesmo: o sheik suspirava e aceitava o desejo dela. E dessa vez não foi diferente. — Se você tivesse permitido que Maata abrisse a joalheria que tanto queria, Ahmed, nossa filha estaria aqui conosco, sã e salva. — Como uma princesa real pode trabalhar como uma mulher comum? — Vê? Você não deixou saída para ela. — A culpa é minha, então? Silêncio. — Bem, acusações não nos levarão a nada — Justine ajeitou os cabelos. — Nem sair correndo como baratas tontas por aí. Portanto, fiquem todos quietos e prestem atenção a minhas instruções. Ragda se trancou em seus aposentos. Jamais perdoaria Maata por ter escolhido justo o dia de seu tão esperado casamento para resolver fugir. E fugir do quê, afinal?, ela se perguntava. Do amor da família, do luxo, de todo bem material que qualquer ser humano poderia almejar? — Vou arrancar todos os cabelos dela quando a encontrar! — Ragda jurou, e se atirou na cama aos prantos. De repente, parou de chorar. — Não, nada disso. Não vou ficar aqui, infeliz, aguardando o regresso de meu noivo, que estará em outros países se esbaldando com todas as mulheres bonitas que encontrar pelo caminho. Fiz tudo o que cabe a uma moça decente, obedeci meus pais, obedeci Neyah. E o que ganhei com isso? Ninguém neste palácio se importa comigo. Podiam ter mandado um outro irmão atrás daquela infeliz, mas não. Teve de ser Neyah! Daí, basta que me tranquem no harém, como uma jóia dentro de um cofre, até a hora em que meu amo e senhor resolva se lembrar de que existo! Levantou-se e foi lavar o rosto. Enxugou-o com a toalha imaculadamente branca e se mirou no espelho. 5
  6. 6. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann — Eu decidi que hoje me tomaria mulher, e assim será. Vou dar um jeito de me divertir muito por aqui enquanto meu noivo estiver se divertindo no Ocidente. Os que vivem neste palácio não perdem por esperar! Ragda se despiu e admirou suas formas voluptuosas no espelho. Sabia muito bem que o que pretendia era arriscado, mas seu corpo ardia, exigindo ser saciado; e estava disposta a tudo para satisfazê-lo. Se fizesse tudo direito, teria uma noite inesquecível de sexo. Mais tarde pensaria numa boa desculpa para dar a Neyah quando, enfim, se casassem. Afinal, ele poderia demorar meses, até mesmo anos, para achar Maata. Retirou do armário seus diversos véus de seda. Com muita arte, seguiu todas as instruções aprendidas com as ex-concubinas do harém, e envolveu suas curvas perfeitas com eles. Ao terminar, o resultado era magnífico. Até mesmo um homem morto ficaria de queixo caído ao vê-la. Àquela hora da noite, todos no palácio deviam estar dormindo, menos os seguranças. Todos eles eram fortes, musculosos, altos. Portanto, qualquer um serviria. Num instante de hesitação, Ragda quase voltou atrás. Se fosse flagrada, seria exposta à execração pública. Toda sua família seria apontada na rua, e ela nunca mais poderia sair de casa, devido à vergonha. Mas sua forte libido — e também o fato de se sentir muito humilhada por não ter merecido sequer que os futuros sogros mandassem chamá-la para informá-la pessoalmente do ocorrido determinou que continuasse avante. Se houvesse um escândalo, a família real ficaria em maus lençóis. Portanto, sem dúvida procurariam abafar qualquer mau passo que ela pudesse vir a dar. Ragda, sorrindo por sua esperteza, cobriu-se com um manto que ia até os pés, envolveu a cabeça e o rosto com um véu vermelho, que lhe ocultava as feições, e se esgueirou para fora do quarto. Ragda se escondeu atrás de uma coluna para observar os arredores. O harém era separado do palácio por um átrio, no meio do qual se erigia uma fonte que despejava, com suavidade, sua água sobre o pequeno lago artificial, onde nadavam peixes de diversas variedades. Aquela parte era pouco vigiada, pois não havia portas que davam para fora, o que impedia a entrada de invasores. Sem fazer ruído, ela se esgueirou para dentro do palácio, e, sempre encostada na parede, continuou em frente. Já havia caminhado bastante sem encontrar ninguém. Droga! Será que até os guardas resolveram dormir hoje?! Então, o ruído de uma porta se abrindo muito perto dela a assustou, e Ragda correu escada acima, agachando-se embaixo de uma mesa decorativa, no hall que dava para o corredor que conduzia aos aposentos dos príncipes. O segurança, muito treinado, ouviu o barulho e exigiu saber: — Quem está aí? O coração de Ragda disparou. Devia se apresentar a ele e tentar seduzi-lo? Sim, claro, era para isso que estava ali. Então por que não o fazia? O que a impedia? O guarda começou a subir os degraus. Ragda olhou para a porta do hall. Seria atrevida a ponto de adentrar a área reservada aos homens? Quem encontraria lá dentro? O segurança se aproximava cada vez mais. Enfim, ela se decidiu e correu para a ala dos príncipes. Uma vez lá, disparou adiante, arrependida de toda aquela insensatez, que poderia, inclusive, destruir a amizade entre seu pai e o sheik. O corredor era imenso. E aquela parte do palácio lhe era desconhecida. Nenhuma mulher entrava ali, a não ser que fosse convocada. Ragda estacou e olhou para trás. A sombra do guarda surgiu debaixo da porta. Não havia mais tempo a perder. Estendendo a mão esquerda, Ragda, desesperada, girou a primeira maçaneta que encontrou e se refugiou lá dentro. Hassin saiu do boxe e começou a enxugar os cabelos. Despertara suando, em meio a um sonho muito erótico, no qual uma mulher maravilhosa dançava para ele e o convidava para o amor, e decidiu tomar um banho frio. As imagens foram tão reais que ainda sentia o perfume da pele dela. Voltou para o quarto, decidido a ler um pouco até o sono retomar. Colocou a mão no interruptor para acender a luz quando ouviu um ruído suave e o clique da porta. Ficou imóvel. Alguém entrara em seus aposentos. Mas quem se atreveria a tal? 6
  7. 7. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann A tênue luminosidade do luar permitiu-lhe ver um vulto encolhido atrás da poltrona. Hassin apanhou uma estatueta pesada de sobre a escrivaninha e se aproximou. — Levante-se bem devagar. Se tentar alguma gracinha, eu racho sua cabeça ao meio. Um soluço de surpresa escapou dagarganta do intruso. Mas ele obedeceu. Perto de Hassin, aquela pessoa era muito pequena. Seria uma mulher? Não, impossível. Só podia ser alguém que lhe desejava fazer mal. Assim que endireitou a coluna, a pessoa que invadiu seus aposentos deixou cair o manto que a cobria. O movimento levou até o príncipe um delicioso aroma. O mesmo da mulher em meu sonho!, Hassin reconheceu. — Quem é você? O que faz aqui? — Sou a resposta a suas preces, Alteza. Tudo o que quero é fazê-lo feliz. A uma leve batida na porta se seguiu a voz do segurança: — Alteza? Perdoe-me pelo adiantado da hora, mas... o senhor está bem? Embora confuso, Hassin atendeu ao guarda. — Sim, tudo em ordem. — Ouvi passos no corredor e vim checar se... — Era eu. Venho tendo problemas de insônia. Fique tranqüilo, ninguém invadiu o palácio. — Certo. Boa noite, Alteza. Hassin se virou para a mulher, e mesmo na penumbra pôde perceber que ela se sentiu aliviada. Ragda olhou em torno e avistou o aparelho de som. Foi até ele, escolheu um CD e o pôs para tocar. Uma música muito erótica soou em instantes. Ela caminhou até Hassin, tomou-lhe a mão e o fez sentar-se na beira da cama. Ragda tremia. Era a primeira vez que se via diante de um homem nu. E, embora estivessem na semi- escuridão, podia notar que o corpo dele era esplêndido. — Deixe-me acender a luz — ele pediu. — Nada disso. O mistério é muito mais excitante. Hassin não devia permitir aquilo. A mulher poderia ser uma assassina, enviada por alguma das diversas milícias rebeldes de fanáticos religiosos que odiavam o sheik por julgá-lo condescendente e progressista demais. Muitos diziam ser uma heresia de Ahmed ter abolido a prática da poligamia, que fazia parte da cultura de Nakabir. Não bastasse, ele deu permissão a todas as mulheres para estudar e até cursar universidade, além de trabalhar e receber salários quase iguais aos dos homens. Os adversários do sheik sabiam que seria um golpe terrível contra ele se um de seus filhos morresse. Não era segredo para ninguém o amor de Ahmed por sua família. Entretanto, Hassin se via refém da dança sensualíssima daquela jovem como um camundongo hipnotizado por uma serpente. Ao ritmo inebriante da música árabe, ela ia retirando os véus, um a um, num meneio de quadris capaz de ressuscitar os mortos. Em segundos, uma excitação vigorosa tomou conta do príncipe. A prova ficou muito evidente na ereção que se seguiu. Radga, prevendo o fim da melodia, curvou-se diante dele e lhe atirou o último véu. Estava nua diante do príncipe, com apenas o rosto coberto. Seus olhos cintilaram ao ver o resultado de sua dança no baixo-ventre de Hassin. O príncipe sentiu mais uma vez o perfume único daquela jovem, que lhe surgira em sonhos pouco antes de ela invadir seu quarto. Aquela podia ser a última noite de sua vida, mas nem uma explosão nuclear o impediria de tomar para si aquela beldade de seios incríveis. Hassin estendeu o braço e a puxou para si, jogando-a deitada sobre o leito. — Não sei quem é você, moça misteriosa, mas não vai sair daqui sem que eu prove todas as suas delícias. — De modo algum, Alteza. Estou aqui para servi-lo. Com um gemido estrangulado, Hassin ia lhe tirar o véu de sobre o rosto, mas Ragda o impediu. — Só o que lhe peço é que não me veja. — Mas como irei beijá-la? Com habilidade, Ragda expôs a boca. — Apenas meus olhos e meus lábios Vassa Alteza verá. Concorda? Embora intrigado, Hassin estava adorando aquele jogo. — Só se prometer que não me negará mais nada. — Tem minha palavra, Alteza. Hassin a abraçou forte e a beijou com paixão. 7
  8. 8. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann — As preliminares ficarão para a próxima vez. Preciso tomá-la para mim agora mesmo, senão sou capaz de morrer! Ragda gargalhou, feliz por sua capacidade de sedução. E gritou quando Hassin a penetrou, acalmando-se aos poucos à medida que ele prosseguia nos movimentos cada vez mais intensos. O auge atingiu os dois ao mesmo tempo. Ragda cravou as unhas nas costas de Hassin, arqueando-se toda, permitindo que ele se satisfizesse por completo. Horas depois, Ragda saiu da cama com todo o cuidado, apanhou seus véus, vestiu o manto e retomou a seus aposentos no harém. O príncipe ainda dormia. Mas qual dos irmãos de Neyah seria ele? Todos os cinco eram muito parecidos, e na penumbra ela não pôde enxergar direito as feições. Em seu quarto, trancou a porta e se ajeitou logo entre as cobertas. Começava a amanhecer. O que fiz, meu Deus?! Embora os momentos de intensa paixão com o príncipe tivessem sido inesquecíveis, naquele momento, passada a raiva e aplacada sua luxúria, Ragda se dava conta da loucura que fizera. E o preço a pagar talvez fosse alto demais. — Seu desempenho foi merecedor de um Oscar! — E o seu então, minha amada? Você chegou até mesmo a empalidecer! Como conseguiu aquilo? — Eu estava muito nervosa, Ahmed. Nossos filhos são muito inteligentes. Bastaria um deslize para que nosso plano fosse por água abaixo, e nós tínhamos de tirar Neyah de Nakabir com urgência. Justine e Ahmed, deitados entre as almofadas de sua imensa cama, não conseguiam dormir. Eram muitas as preocupações que os afligiam. — Maata telefonou? — Sim, querido. Fique tranqüilo, nossa menina está ótima. — Quanto tempo terei de ficar sem vê-la? — Só permitirei que Maata e Neyah retomem a Nakabir quando o perigo que nos ronda tiver terminado, Ahmed. — Esses malditos fanáticos! — Os espiões infiltrados nas facções extremistas vêm fazendo um excelente trabalho. Em breve você terá os líderes em suas mãos. Aí então, quando o governo não estiver mais ameaçado, nosso Neyah, o primeiro na linha sucessória, voltará a Nakabir. Por enquanto, Maata terá de se encarregar de mantê-lo muito ocupado bem longe daqui. O sheik suspirou. — Você tem razão. Não poderíamos nos arriscar. Se o pior nos acontecer, Neyah, estando em outro país, poderá pedir asilo político e em época melhor retomar e reivindicar seus direitos. Caso contrário, tudo estaria perdido, e Nakabir ficaria à mercê daqueles dementes. — Pois é. Nosso primeiro dever é com o povo. Para cuidar dele, todo sacrifício é válido. — Você está sempre certa, Justine. Tomara que Maata tenha metade de sua inteligência e sagacidade. Justine sorriu. — Metade? Às vezes tenho a impressão de que ela tem o dobro! Ahmed a beijou, apaixonado. — Tenho pena de Ragda... — Porquê? — Justine, a moça ia se casar hoje! — Ora, Ahmed, não seja tão sentimental. O destino de Nakabir está em jogo. Se o país for tomado pelos rebeldes, a vida de nenhum de nós valerá nada. Quem dera meu maior, problema fosse a frustração de Ragda. — Mesmo assim, gostaria de poder compensá-la de alguma forma. — Vamos esperar pelo desenrolar dos acontecimentos. Talvez tudo se resolva antes do que imaginamos, e, nesse caso, Neyah retomará logo e se casará com ela. Preocupo-me mais com nossos quatro filhos que ainda continuam aqui. Seria tão bom se pudéssemos enviá-los para fora do país também... — Isso é impossível. Todos ocupam cargos importantes no governo. Ficar sem Neyah já é desfalque suficiente no Conselho. Justine apagou as velas a seu lado. 8
  9. 9. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann — Sei disso, querido. Bem, que tal tentarmos dormir um pouco? Logo o sol nascerá. — Sim, e teremos um longo dia pela frente. Neyah ficou de telefonar assim que chegar a Londres. Muito boa aquela pista falsa que Maata deixou no computador. Até descobrir que a irmã não está na Inglaterra, terão se passado algumas semanas. — Não seja tão otimista. Neyah é esperto e muito intuitivo. Agora, meu amor, chega de conversa. — Durma bem, querida. CAPÍTULO II Sarah Baker subiu até seu apartamento pela escada de incêndio e saltou para a sacada do quarto. Não queria que ninguém a visse chegando àquele horário. Era perita em entrar e sair de qualquer ambiente sem ser vista. Aprendeu essa e muitas outras habilidades semelhantes no orfanato onde viveu até os nove anos, e as desenvolveu ao máximo nos doze lares adotivos que teve, desde então, até se tornar maior de idade. Seus pais, viciados em drogas, morreram muito cedo, deixando desamparados Sarah e seu irmão caçula, Jordan. Desde que saíra do orfanato, ela lutava por descobrir o paradeiro do irmão, sem sucesso. Essa era uma das grandes metas de sua vida: achar seu irmãozinho, que fora levado para longe dela ainda bebê. Dali a dois meses, Jordan iria completar dezoito anos, Se estivesse ainda no orfanato, teria de sair de lá, por ter atingido a maioridade. E para onde ele iria? Bobagem minha, ela se dizia pela enésima vez. Claro que Jordan foi adotado. A esta aftura deve viver com uma família amorosa, e talvez nem saiba que não é filho legítimo. Afinal, era apenas um bebê quando nos separamos. A primeira providência de Sarah, ao se ver livre para tomar as rédeas de sua existência, foi buscar por Jordan Baker na intemet. Encontrou diversas referências, mas nenhuma se encaixava no perfil de seu irmão. Portanto, era evidente que ele mudara de nome. Sem acender as luzes, Sarah guardou no fundo falso do anuário a mochila que trazia. Com suas parcas economias conseguira abrir uma pequena loja de variedades, como costumava dizer. Ali ela vendia desde alfinetes e novelos de lã até relógios de grife e jóias caríssimas. Esses últimos, no entanto, se mantinham guardados a sete chaves, e só estavam disponíveis para clientes muito especiais — que faziam encomendas de vulto por conhecer o lado negro de Sarah. Suspirou, muito satisfeita. Conseguira burlar o sistema de segurança de uma joalheria bastante conceituada em Manhattan, e as peças que roubara eram de excelente qualidade. Dwane ficaria surpreso e mais contente do que nunca quando recebesse o que pedira. Sarah pegou o telefone. — Dwane? Sou eu. O preço subiu, não é mais aquele. Com toda a paciência, escutou as recriminações e os impropérios do outro lado da linha. — Encontre-me amanhã na loja. Estarei lá às sete e meia. Você verá o que eu trouxe, e se achar que o que quero é excessivo, basta não pagar. Tenho certeza de que Lousada... Dwane a interrompeu. Sarah sorriu. Bastava citar o nome do concorrente para que Dwane se tomasse mais simpático. — Não, Dwane, não pretendo arrancar sua pele. Que serventia ela teria para mim? Vamos, pare de choramingar. Quantas pessoas com minha competência você conhece? Tem de pagar de acordo, portanto — ela olhou para as unhas. Precisava ir à manicure com urgência. — Primeiro, dê uma olhada na mercadoria. Depois, diga o que acha. Às sete e meia, amanhã, não se atrase. Desligou, tirou com certa dificuldade o macacão preto que se colava a seu corpo e foi tomar um banho de banheira, para tirar a tensão dos músculos. Jogou sais na água e mergulhou até o pescoço. Se tudo continuasse caminhando tão bem, em breve teria um patrimônio invejável. No entanto, Sarah não era boba. Jamais caiu na tentação de ostentar que tinha dinheiro. Seu apartamento era bom, mas simples e num bairro modesto, longe do centro de Nova York, e seu carro era popular. Tudo de acordo com os rendimentos de uma dona de loja pequena que vendia quinquilharias. Sarah era uma sobrevivente, e não via problema algum em lançar mão de tudo o que estivesse a seu alcance para abreviar o tempo para conseguir independência financeira. Era uma ladra; e das boas. Contudo, tinha sua ética. Nunca roubava dos amigos ou de pequenos comerciantes. Costumava até, dentro do possível, se informar se o dono da joalheria que ela visava tinha algum caso de doença ou problema sério na família. Se tivesse, ela o poupava. 9
  10. 10. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann De todo modo, lógico, se fosse pega, nada disso seria levado em consideração em seu julgamento. Ela não tinha ilusões a esse respeito. Sabia muito bem que seria condenada a muitos anos de prisão. Mas o risco valia a pena. Por seus cálculos, muito em breve poderia se estabelecer com total honestidade. Amava jóias, e queria muito viver cercada delas, comprá-las e vendê-las, usá-las e admirá-las sem medo. E seu gerente seria Jordan. Pagaria a ele um excelente salário, e os dois seriam compensados por toda a tristeza, o desamor e a insegurança que tiveram de enfrentar ainda tão pequenos. De repente, Sarah ficou triste. Se morresse naquele instante, ninguém daria por sua falta. Era absolutamente só no mundo. Sim, havia Jordan, mas seu paradeiro era ignorado. — Ah, pare de sentir pena de si mesma! Aborrecida com seu momento de fraqueza, ela se levantou, enrolou-se na toalha e foi secar os cabelos. Maata, naquela manhã, escolheu um vestido preto, sóbrio. Era muito jovem, e seu nariz arrebitado lhe dava um ar de adolescente. No entanto, era absolutamente necessário que passasse uma imagem de profissional séria. Nenhum joalheiro que se prezasse haveria de querer fazer negócios com uma garota recém-saída da escola, como sua aparência fazia crer que ela era. Tinha recursos mais que suficientes para abrir a própria joalheria. Porém, bastaria que fizesse isso para Neyah encontrá-la. E as instruções de Justine haviam sido muito claras: manter o irmão fora de Nakabir, e tão concentrado em achá-la que não teria tempo para se preocupar com os rebeldes em seu país. Mas nem por isso Maata iria perder a oportunidade única de tentar alcançar sucesso com suas criações. Suas peças eram belíssimas, e seu desenho oriental, muito original. Tornar-se uma designer respeitada e famosa no mundo todo era mera questão de tempo. Tinha hora marcada com o sr. Israel Davidovitch. Havia três meses que aguardava por aquela entrevista; na certa por isso se sentia tão nervosa. Num estojo apropriado acomodara as melhores peças que trouxera consigo. Como viajara em um dos jatos da família, não houve problema em trazer tudo o que quis. Desse modo, teria condições de mostrar ao sr. Davidovitch uma coleção estupenda de colares, anéis e pulseiras para que fosse vendida em consignação em sua loja. Terminando de aplicar o batom, Maata se mirou no espelho com os olhos brilhando. Tudo de que não precisava na vida era dinheiro. Como princesa que era, não havia bem material na face da terra que ela não pudesse ter. Mas isso não bastava. Era uma artista, e queria ser reconhecida por seu valor como tal. Respirou fundo, apanhou a grande bolsa dourada, guardou nela o estojo com as jóias e chamou um táxi. No fundo do coração sentia que, dali em diante, nada mais seria como antes. — De fato, srta. Faraj, estou encantado com suas peças. É difícil acreditar que uma moça tão novinha tenha tamanho talento. O sr. Israel Davidovitch tinha uma reputação a zelar. Muito antes de o mundo ter ouvido falar pela primeira vez sobre os diamantes de sangue, ele já se recusava a adquirir pedras procedentes das zonas de conflito africanas. Por isso, ao ver aquela quase criança - embora refinadíssima e autoconfiante como uma rainha — sentada a sua frente, mostrando-lhe aquelas jóias fabulosas e afirmando que eram suas, ficou desconfiado. A procedência das pedras, porém, era garantida. Ela lhe mostrara os documentos, que pareciam estar em ordem. De todo modo, teria de ser cuidadoso. Se a linda jovem fosse uma ladra cinco-estrelas, ter seu nome associado ao dela em manchetes de jornal poderia arruiná-lo. — Eu me dedico à fabricação de jóias desde criança, sr. Davidovitch. Não podia ser verdade. Apenas pais absurdamente ricos dariam ouro e pedras preciosas para sua filhinha brincar. Maata compreendeu que falara demais, e se apressou em remediar: — Na época eu utilizava latão e cobre, claro. Todas as minhas amigas na escola tinham pelo menos uma peça minha; nenhuma delas resistia — e esboçou seu mais lindo sorriso. Israel retribuiu. Aquela mocinha o fazia se lembrar de sua neta, por sua meiguice. Naquele momento, uma cliente entrou, olhou ao redor e se dirigiu ao atendente, na mesa ao lado da de Israel. Com um simples relance, o joalheiro viu se tratar de alguém de estirpe. A linda morena se movia com a graça e elegância de um guepardo. Era alta, de olhos claros — verdes ou cor de mel —, cabelos muito pretos e altiva como poucas. Disse algo ao funcionário, que se afastou por instantes para ir buscar o que lhe foi solicitado. 10
  11. 11. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Ela colocou a bolsa na outra cadeira e, com muita discrição, observou por não mais que três segundos as peças de Maata. Arqueou de leve uma sobrancelha e se voltou para o atendente, que acabara de retomar. — Façamos o seguinte, srta. Faraj. Guardarei suas jóias em meu cofre e entrarei em contato com alguns clientes meus. Se eles demonstrarem interesse e eu fizer a venda, eu lhe telefono, e aí sim poderemos pensar em um catálogo e talvez até em exclusividade. O que acha? — Concordo, sr. Davidovitch. Acho justo. — Ótimo. Aguarde-me um instante. Registrarei todas as peças e lhe darei o documento referente — Israel se virou para o computador e começou a digitar. Maata, sem conter a alegria, virou-se para o lado e sorriu para a cliente morena, que fez um leve e desinteressado aceno de cabeça. — Aqui está, senhorita. Espero entrar em contato, em breve. De todo modo, esteja à vontade para me ligar quando quiser. — Agradeço muito, sr. Davidovitch. Até logo. Naquele instante, a cliente efetivava a compra de um anel de ouro com água-marinha, uma peça bonita, mas não muito cara, que pagou em espécie. Israel fechou o estojo com as jóias de Maata e foi para o cofre. Assim que abriu a enorme porta, um arrepio subiu-lhe pela espinha. Sarah Baker entrou em casa e guardou sua mais nova aquisição. Comprara o anel sem nem mesmo avaliá-lo direito. Sua cobiça se dirigira toda para as jóias que a garota loira oferecia a Israel Davidovitch. Assim que as viu, apaixonou-se. E decidiu: faria sua visitinha noturna à loja de Israel, pegaria a mercadoria, mas não entregaria a Dwane aquelas maravilhas. Dwane não passava de um atravessador, que arrancava as pedras das peças e derretia o ouro para vender. por isso nunca fora pego. Ganhava fortunas com esse comércio. Sarah não podia reclamar dele, que lhe pagava muito bem pelo risco que corria. De todo modo, nada do que ela encontrasse no cofre de Israel Davidovitch que tivesse sido confeccionado pela belezinha platinada iria para as mãos hereges de Dwane. Permitir que aquelas jóias fossem destruídas seria um pecado punido com a danação eterna. Não, nada disso. Mesmo que só pudesse vir a usá-las dali a anos, pouparia as jóias e as garantiria para si. Sarah abriu a janelinha do banheiro da joalheria sem fazer ruído. Passou uma perna para dentro, depois a outra, virou-se de barriga para baixo e saltou para trás. Como sempre, alcançou o chão com a precisão de um gato. Foi até o escritório particular de Israel e parou no corredor ao ver a luz sob a porta. Alguém falava lá dentro. Aproximou-se e se pôs a ouvir. Israel conversava ao telefone, transtornado: — Não me diga uma coisa dessas, querida. Tudo dará certo. Nosso menino vai encontrar o doador a tempo e ficará bom. Sarah franziu o cenho. — Tamara, todo o dinheiro que entra nesta joalheria tem servido para dois propósitos apenas: pagar aos funcionários e cuidar da saúde de nosso filho. Por que acha que ainda não fui para casa? É meia-noite e meia, ainda não jantei... Não, não estou reclamando. O que digo é que nada no mundo é mais importante do que a saúde de Ivan — Israel suspirou. — Eu sei, amor, todos nós nos prontificamos a ser doadores, mas não somos compatíveis. Se ao menos soubéssemos por onde andam os pais biológicos de Ivan... Droga! Este meu coração mole ainda vai me levar à ruína! Sarah ia voltando para o banheiro, desistindo do roubo, quando teve uma idéia. Assim, escondeu-se embaixo de uma escrivaninha em outra sala, para aguardar até que Israel fosse embora. Duas horas depois, Sarah fazia alguns alongamentos no carpete da Joalheria Davidovitch. Ter ficado encolhida por tanto tempo sob a mesa, aguardando que Israel — enfim! — fosse para casa, fizera suas pernas formigar. Acendeu a lanterna, desativou o sistema de alarme que Israel acabara de ligar e foi abrir o cofre — outra de suas especialidades. Meu Deus!, não pôde deixar de exclamar. Os negócios vão bem, Tamara. Logo, logo seúfilho poderá fazer tratamento em Marte! Em segundos encontrou as jóias da garota loira e as enfiou na mochila, sem apanhar mais nada. Fechou o cofre e, ao passar diante da sala de Israel, sem entender direito por quê, teve vontade de dar uma olhada lá dentro. Ligou o computador, e com muita facilidade achou o endereço da srta. Faraj. Maata Faraj... Sem dúvida um nome árabe. Fez as anotações que queria — quantas outras jóias maravilhosas devia haver na casa dela? — e, ao erguer a cabeça, deparou com um porta-retrato. 11
  12. 12. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Na foto, Israel Davidovitch abraçava uma senhora, decerto Tamara, e uma mulher de seus quarenta anos. Agachado diante deles, um adolescente sorria largo. Aquele devia ser Ivan, o filho que precisava de transplante. Sarah apanhou o porta-retrato e respirou fundo. Uma família completa. Ivan nem imaginava como era feliz por ser tão amado. Israel se referiu aos pais biológicos dele... Pela idade, Ivan poderia ser Jordan. Bobagem! Quais as chances de uma coincidência dessas acontecer? Apanhou a mochila e a lanterna, tornou a ligar o sistema de alarme e escapou pela mesma janela pela qual entrara. — Pai, eu já revirei a Inglaterra de ponta a ponta, e nem sinal de Maata. — Ela tem de estar em algum lugar, Neyah! Faz meses que Maata se foi! — Isso é evidente. Mas certamente esse "algum lugar" não é aqui. Neyah não se conformava. Mesmo tendo de ser discreto — nem ele nem a família desejavam que o mundo todo soubesse que um príncipe árabe deixara seu país para sair atrás da irmã fujona —, usara sua influência ao máximo, e não encontrara pista alguma de onde Maata poderia estar. — Só posso acreditar que ela não veio para cá. — Céus, onde aquela cabeça-oca se meteu?! — Calma, papai. Não descansarei enquanto não a encontrar. — Isso é óbvio! Não me apareça aqui sem sua irmã, ouviu bem? Essa é a missão que lhe confiei, como pai e como sheik. Não falhe, Neyah. É uma ordem. Quero minha menina sã e salva a meu lado. — Jamais deixaria de cumprir uma ordem sua, Majestade. — E há de continuar assim, Alteza. Neyah cerrou os dentes. Seu pai sabia como irritá-lo. — Como está mamãe? — Desesperada. — Pai, todos os minutos do meu dia são dedicados a tentar achar minha irmã, e você me trata como se eu não estivesse levantando um dedo sequer. Por que faz isso? Afinal, não fui eu quem facilitou a fuga dela. Aliás, por acaso descobriu como Maata conseguiu deixar Nakabir? A nado é que não deve ter sido. — Ah, que ótimo! Primeiro, o rapaz quase choraminga. Depois, imagina que está em condições de fazer piadinhas idiotas! — gritou Ahmed. — Escute aqui, Neyah, após minha morte, você será o sheik. Porém, se nem ao menos é capaz de achar o rastro de uma garota desaparecida, como terá competência para dirigir uma nação?! Neyah nada respondeu. Sua indignação lhe fechava a garganta. — Não telefone mais para cá até encontrar Maata. Neste exato instante talvez alguém esteja ligando para lhe dar alguma informação, mas o aparelho está ocupado, porque você sentiu saudade de casa. Pois eu lhe digo que neste momento nada me importa menos do que seus sentimentos! Não durma, não coma, não respire até achar minha filha! O príncipe teve de afastar o celular da orelha, porque Ahmed recolocou o fone no gancho com... digamos... uma força excessiva e desnecessária. Neyah respirou fundo. Aquela explosão de seu pai não o magoava. Compreendia muito bem a aflição imensa dele e de sua mãe. — Maata, quando eu puser minhas mãos em você... Fez força para reprimir um sorriso. Adoraria dar umas boas palmadas naquela pequena travessa, mas tinha plena consciência de que jamais faria isso. Para ser franco, sentia-se tão temeroso quanto seus pais. Não parava de pensar na irmã, tão ingênua e despreparada, solta pelo mundo, à mercê de aventureiros e toda espécie de gente sem caráter e maldosa. Pegou o celular de novo para chamar seu secretário e meneou a cabeça. Estava tão acostumado a ser servido até nos menores detalhes, que por um segundo se esqueceu de que viajara sozinho; sem assessores, sem segurança. Então, ligou para a gerência. — Por favor, preciso de uma reserva para o primeiro vôo de amanhã para... Para onde? Ela pode estar em qualquer canto do globo terrestre. Neyah falou o primeiro destino que lhe ocorreu: — Washington. — Ida e volta, senhor? 12
  13. 13. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann — Apenas ida. Quando Maata entrou na Joalheria Davidovitch, encontrou Israel, muito pálido, conversando com quatro policiais. Assim que a avistou, o dono da loja lhe fez um sinal para que se aproximasse. — O que houve, sr. Davidovitch? Recebi seu recado e vim correndo. — Srta. Faraj, as jóias foram roubadas. Maata arregalou os olhos. — As minhas também? — Na verdade... só as suas. — Como é que é?! — Por favor, sente-se. Israel dirigiu um olhar súplice aos policiais, que lhe deram privacidade para falar com Maata. — Eu guardei suas peças no cofre, e desde então não precisei abri-lo. Esta noite, no entanto, tive de fazê-lo, e dei por falta do estojo com suas jóias. Alguém entrou aqui em algum momento nos últimos cinco dias, srta. Faraj, e, embora houvesse muitas coisas de valor em meu cofre, decidiu levar apenas suas jóias. Maata não sabia o que pensar. — E agora? — Tenho um seguro para tudo o que está dentro desta loja. Vou acioná-lo assim que os peritos terminarem com a inspeção. O valor que eu receber será seu. No entanto, há de ser bem abaixo do que de fato as peças valem... — Isso é o de menos. Queria tanto que minhas jóias fizessem sucesso! Israel, embora abatido pelo terrível contratempo, não perdia o bom-humor. — A meu ver, senhorita, já fizeram. Maata o encarou de cenho franzido. — Eu não devia lhe dizer isso, srta. Faraj, mas você me parece uma excelente pessoa; portanto, confiarei em sua discrição. — Sim? — Além de seu estojo com as peças, estavam guardados em meu cofre mais de quinhentos mil dólares em dinheiro vivo, e pedras preciosas de altíssimo quilate. Diamantes, topázios, rubis... E em nada disso foi sequer mexido. O ladrão fez questão de levar apenas as suas jóias. Maata resolveu dar um passeio no Central Park para clarear as idéias. O que era tudo aquilo? Se estivesse em Nakabir, não haveria dúvida de que algum dos irmãos teria tentado sabotá-la. Mas ali não havia como. Conversava com os pais todos os dias, e tinha certeza de que só Neyah deixara seu país, e até o momento não a encontrara. Portanto, qual o significado de um ladrão ter resolvido roubar apenas as suas jóias? Israel Davidovitch lhe disse que o invasor cometera um erro. Embora a polícia estivesse longe de saber sua identidade, podia garantir que se tratava de uma mulher. Israel não revelou como os agentes da lei fizeram essa descoberta, nem que relevância poderia ter, mas... Maata, apesar de frustrada e com muita raiva — desde que deixara suas peças com Israel, ela sonhava todas as noites que se tornara a predileta de dez entre dez estrelas de Hollywood —, não deixava de admirar o fato de uma garota ser tão arrojada a ponto de invadir uma casa comercial tão refinada, roubar o que bem desejava e sair sem deixar pistas. Em outras circunstâncias, talvez tivesse até alguma simpatia por ela. — Ora, o que é isso?! A criatura é uma ladra! Respirou fundo e deu tratos à bola. por que alguém — quem quer que fosse — haveria de querer para si justamente as jóias que ela confeccionara? A imagem distante de uma bela morena de olhos claros surgiu como um relâmpago em sua mente. — Mas ela não demonstrou o menor interesse pelas peças. No entanto, embora inexperiente, Maata era mulher. E as mulheres costumam ter mil maneiras de conseguir o que querem. — Mostrar desinteresse é uma das mais eficazes. 13
  14. 14. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Sarah levou um susto ao ler o jornal. Levava a terceira xícara de café à boca quando deparou com a notícia do roubo na Joalheria Davidovitch. Pôs a xícara no pires e foi para a sacada, para enxergar melhor. Amassou o periódico e o jogou no chão, furiosa com sua desatenção. A primeira providência ao entrar num lugar era desligar o sistema de alarme e a energia elétrica. Assim, se houvesse alguma câmera funcionando, por mais escondida que estivesse, seria desligada. Então, Sarah lembrou: — Eu usei o computador! — deu um tapa na testa. — Esqueci de desligar a energia! Como pude cometer um erro tão estúpido?! No entanto, sabia muito bem o porquê de sua distração. Assim que ouviu Israel comentar sobre o filho adotivo adolescente, que precisava de um transplante e não achava doador, a ilusão de que o garoto fosse Jordan a impediu de fazer direito seu trabalho. Nunca perdia tempo procurando por câmeras escondidas; não havia necessidade disso, uma vez que a eletricidade estava sempre cortada. E agora seu descuido monumental poderia lhe trazer problemas. Ao menos era impossível, por meio das imagens, saber quem ela era, pois Sarah se vestia sempre de um mesmo modo no exercício de suas funções: macacão preto colado ao corpo, luvas, botas — obviamente sem salto — e uma máscara ninja, que só deixavam de fora seus olhos, que ela escondia com óculos de lentes espelhadas. Mas aquele deslize feria seu orgulho profissional. E deixava mais uma coisa evidente: tinha de descobrir se Ivan Davidovitch era ou não seu irmão, Jordan. Por mais improvável que pudesse parecer, nenhuma possibilidade devia ser descartada. — Muito bem, e o que farei se Ivan for Jordan? Isso era algo a ser resolvido depois, em caso positivo. No momento, devia traçar um plano, e dessa vez com toda a perícia que lhe era peculiar. — Além de seu estojo com as peças, estavam guardados em meu cofre mais de quinhentos mil dólares em dinheiro vivo, e pedras preciosas de altíssimo quilate. Diamantes, topázios, rubis... E em nada disso foi sequer mexido. O ladrão fez questão de levar apenas as suas jóias. CAPÍTULO III — A informação extra-oficial que nossa redação recebeu foi de que o ladrão levou apenas uma coleção de jóias que nem havia sido colocada à venda ainda. São peças em estilo oriental, com pedras enormes, com lapidação e cravação exclusivas. Há quem diga que o mistério do roubo da Joalheria Davidovitch não passa de golpe de marketing. Se for, convenhamos, foi uma excelente tacada. A joalheria nunca foi tão procurada como agora, embora goze de ótima reputação há mais de trinta anos, e todos querem saber quem é a artista responsável pelas peças orientais. Israel Davidovitch, o proprietário, não revela sua identidade de modo algum. Mas em off nos disse que a designer, por si só, é uma preciosidade. Neyah apertou a tecla mute do controle remoto da tevê. — Aposto um dente da frente que eu sei muito bem quem é a desenhista das jóias! Até que enfim! — apanhou o celular e ligou para Justine. — Mamãe? Sou eu. Encontrei Maata! Pegarei o primeiro avião para Nova York. Deseje- me sorte! — Filha? É mamãe. — Olá, meu amor! Espere só um segundo, sim? Maata pagou ao motorista,do táxi, apanhou seus pacotes do supermercado, saiu do carro e entrou no prédio. Pôs o telefone no ouvido outra vez e chamou o elevador. — Pode falar, mamãe. — Tudo bem com você, querida? — Comigo, sim. Mas... aconteceu alguma coisa? Eu ia ligar para você mais tarde, como sempre — chegando a seu andar, saiu do elevador e se dirigiu a seu apartamento. — Seu irmão acaba de me telefonar. Ele viu uma reportagem na televisão falando... — ...do roubo na joalheria — Maata procurava a chave na bolsa. — Bem, um dia ele ia ter de me achar, não é? Sinceramente, mamãe, se Neyah tivesse de ganhar a vida como detetive... — Maata, não importa o que você faça, mas Neyah ainda não pode voltar para Nakabir. — Eu sei. Os rebeldes estão cada dia mais ousados. Ah, mamãe, será que terei de deixar Nova York? Gostei tanto daqui... 14
  15. 15. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann — Você é inteligente, saberá o que fazer para manter seu irmão longe de Nakabir. — Isso quer dizer "vire-se"? — Exatamente. Maata sorriu e enfiou a chave na fechadura. — Imaginei que sim. Pensarei em alguma coisa, mãezinha. Depois nos falamos, está bem? — Certo, meu doce. Salaam aleikum. — Salaam aleikum, amor. Ela trancou a porta e acendeu a luz. E por um triz não deixou suas compras se espatifarem no chão. Em seu sofá, uma bela morena de olhos claros a encarava com um sorriso no canto dos lábios. Sarah Baker se levantou de um salto e foi ajudar Maata com os pacotes. Automaticamente, a jovem princesa a seguiu até a cozinha em estilo americano. — O que... Como... O que... Como... Sarah arqueou uma sobrancelha, achando graça da gaguez de Maata. — O que faço aqui e como entrei? — É — Maata cruzou os braços e a encarou, zangada. — Foi você mesma quem roubou a joalheria, não foi? O que veio fazer em minha casa? Oh, que pergunta boba... Devia estar dando uma busca para apanhar mais peças, e eu a surpreendi. É isso, tenho certeza. Pois eu vou chamar a polícia. Invasão a domicílio é crime. O que tem naquela mochila? — Meu Deus, garota, fique quieta um segundo! — Eu estou na minha casa, e você não me dá ordens. Era só o que me faltava! Sarah abriu a geladeira e começou a guardar o que ia tirando da sacola. — O que... Como... — Ah, por favor! Você parece um disco riscado! — Sarah tornou a sorrir. — Fique tranqüila. Não tenho intenção alguma de lhe fazer mal. — Que sorte a minha! Invasora e ladra, sim, mas nem um pouco violenta. Estou a ponto de convidá-la para um chá! — Prefiro uma cerveja. Maata começava a se enfurecer com tamanha petulância. Num gesto intempestivo, fechou a porta da geladeira, quase prendendo a mão de Sarah. — Façamos o seguinte: se você sair daqui agora mesmo, prometo esperar meia hora até chamar a polícia e fazer a denúncia. Isso lhe dará algum tempo para fugir. Sarah foi lavar uma maçã na pia. Enxugou-a e a mordeu. — Façamos o seguinte: você prepara um lanche para nós duas e ouve a proposta que tenho a lhe fazer. Se não concordar com o que pretendo, espera meia hora para chamar a polícia. Isso me dará algum tempo para fugir — e piscou para Maata, de um jeito cúmplice. — Proposta?! O que eu poderia querer com uma pessoa como você?! — Como eu, como? — Moça, você é uma criminosa! — Anjinho, essa é uma palavra muito forte. — E muito adequada, também. — De fato, eu transgrido a lei. Mas, até onde fiquei sabendo, nunca prejudiquei quem quer que fosse. Maata pôs as mãos na cintura. — Você é uma ladra! — Sim, sou. — E diz isso assim, como se não fosse nada de mais? — É uma profissão que requer muito preparo, técnica e nervos de aço. Não é para qualquer um. Maata engasgou. — Sem dúvida você é uma pessoa muito útil para a sociedade. O que seria de nós, bons cidadãos, sem os ladrões? Sarah terminou de comer a maçã, jogou o talo e as sementes no lixo e retomou ao sofá. — Entendo sua indignação, mas tentar me ofender não levará a nada. Mesmo porque não dou a mínima para sua opinião a meu respeito. Vim até sua casa me oferecer para devolver suas jóias, contanto que você me faça um pequeno favor. 15
  16. 16. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann O coração de Maata deu um salto. Amava cada pequena peça que fazia, e imaginar que algum sujeito sem escrúpulos àquela altura poderia estar destruindo sua criação quase a levava às lágrimas. Por esse motivo, serviu-se de um copo d'água, procurando se acalmar, e foi se sentar diante de... da... daquela mulher. — Pensei que já tivesse se livrado delas. — Pensou errado — respirou fundo. — Meu nome é Sarah. Sarah Baker. Tenho verdadeiro fascínio por jóias, e por isso me especializei em roubá-las. Além de ganhar um bom dinheiro com elas, acabo aprendendo mais e mais. Por isso com um simples olhar sei avaliar uma jóia de valor. E as suas são espetaculares. Está de parabéns, Maata, que designer excepcional você é. Maata se esforçou para não demonstrar a imensa satisfação que o elogio de uma profissional tão abalizada — embora nem um pouco recomendável — lhe causava. Contudo, o leve rubor que tingiu suas faces a denunciou. — Obrigada. Mas não a entendo... No cofre do sr. Davidovitch havia muito dinheiro e pedras preciosas, mas você resolveu pegar só as minhas peças. Por quê? Ocorreu a Maata que talvez Sarah soubesse quem ela era e pretendesse chantageá-la de alguma forma. Bem, se fosse assim, não iria facilitar as coisas para aquela meliante. — Minha intenção era esvaziar o cofre de nosso bomjoalheiro. Mas eu o ouvi conversando com a esposa, falando de um problema muito sério de saúde em família, e então desisti de lhe impor tal prejuízo. Por isso apanhei suas jóias e deixei o resto para trás. Maata engasgou de novo. — Deixou de levar quinhentos mil dólares e mais uma fortuna em pedras porque teve pena dele? — Menina! Ladrões também têm coração, sabia? — Não, não sabia. Nunca conheci um antes. — É, mas foi o que aconteceu. Maata cruzou as pernas e pôs as mãos sobre o joelho. — Muito bem, srta. Sarah Baker, em que posso ser útil para sua tão nobre pessoa? Sarah se inclinou para a frente, ficando com o rosto bem próximo ao de Maata. — Esse seu cabeleireiro é excepcional. Eu poderia jurar que a cor de seus cabelos é natural. — E é. — Jura? Que raridade, uma loira de olhos negros! — Sarah virou um pouco de lado a cabeça. — Você tem nome árabe, mas é branca demais para ser do Oriente Médio. — Não tinha uma proposta a me fazer? Sarah tornou a se recostar. — Uma moça objetiva. Gosto disso. Muito bem, Maata, eu devolverei a você todas as suas jóias se me ajudar a descobrir se o filho adotivo de Israel Davidovitch é o meu irmão. Sarah contou a Maata como fora sua vida — entrando o menos possível em detalhes — desde que ela e Jordan perderam os pais. Ao fim do relato, a princesa não só nutria grande simpatia por ela como a julgava uma mulher interessantíssima. — ...e não vou descansar enquanto não encontrar meu irmão. — Juntos montaremos uma joalheria. Você poderia ser nossa sócia, Maata — Sarah sorriu-lhe com doçura. Maata limpou os lábios com o guardanapo. Preparara para elas o lanche que Sarah solicitara: pão com presunto e queijo, e chá quente. Sarah preferiu beber água. — Pronto. Agora você já sabe de tudo o que tinha de saber sobre mim. O que me diz? Vai me ajudar a saber se Ivan Davidovitch é Jordan? Maata ficou de pé. — Dê-me um instante, preciso ir ao banheiro. Com licença. Uma pessoa esperta e vivida como Sarah Baker poderia ser uma bênção para alguém como Maata, que àquela altura já esgotara sua criatividade para se manter fora do caminho de Neyah. Sua mãe a avisara de que ele vinha vindo. Na certa, no dia seguinte, naquele mesmo horário, seu irmão estaria tocando a campainha de seu apartamento e lhe ordenando que voltasse para casa, em Nakabir. A bem da verdade, Maata estava farta de ir de um lado para o outro, como vinha fazendo durante meses. Não era essa sua idéia de diversão. Queria se estabelecer, criar raízes, montar sua loja. E isso jamais aconteceria enquanto aquela sua missão durasse. 16
  17. 17. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Contudo, não podia desapontar os pais. Eles queriam Neyah fora do alcance dos rebeldes, e confiaram nela para alcançar esse intento. Foi quando uma idéia genial lhe ocorreu. Aquela moça bonita em sua sala, cheia de talentos que Maata nem sonhava um dia vir a ter, podia ser a aliada perfeita. Lamentava ser obrigada a mentir para Sarah, mas era por uma boa causa. Além disso, quando chegasse a hora, saberia como recompensá-la. Lavou o rosto e sorriu para si mesma no espelho. A começar por Neyah, todos os seus irmãos iriam descobrir que as mulheres eram o máximo! — Sarah, você se abriu comigo, e quero fazer o mesmo — Maata tornou a se sentar na poltrona. — Deve ter notado meu sotaque inglês. — Sem dúvida. — Meu pai é árabe, minha mãe, inglesa. Nasci em Londres e aos dezesseis anos me casei com um árabe. Fomos viver no Oriente, e meu inferno começou. Meu marido, Neyah, me obrigava a usar o xador, aquela roupa que nos cobre da cabeça aos pés. Enfim, todos já ouviram falar de como as mulheres são tratadas em alguns países orientais, não é? — Sim. — Eu não estava acostumada com aquilo. Fui criada na Inglaterra, com todo o carinho, e jamais vi meu pai maltratar minha mãe. E de uma hora para outra... — Não falou com seus pais sobre o que estava acontecendo? — Não, não queria magoá-los. Mas, com muito jeito e me fingindo de submissa, acabei conseguindo fugir de meu marido e vir para cá. Tudo ia muito bem até que a imprensa cdeu destaque ao roubo da Joalheria Davidovitch. — Não me diga que seu marido a encontrou. Maata fez que sim. — Tenho amigos que trabalham na alfândega, e eles me avisaram que Neyah chegou aos Estados Unidos. Em poucas horas estará batendo em minha porta. Maata respirou fundo e a encarou com a expressão mais súplice de que foi capaz. — Agora que nos tomamos amigas, quero lhe fazer a minha proposta. — Diga. — Eu a ajudo a descobrir se Ivan Davidovitch é o seu irmão e você me ajuda a manter Neyah longe de mim. Ele quer me levar de volta para o Oriente, mas tudo o que quero de meu marido é o divórcio. Porém, como é um homem muito violento, morro de medo de encontrá-lo. — Quer mantê-lo distante até conseguir se divorciar? — Isso mesmo. Nós nos casamos pelas leis inglesas, portanto posso conseguir o divórcio sem anuência dele. Então, uma colabora com a outra. E em vez de você me devolver todas as minhas jóias, eu lhe dou de presente a metade delas, a sua escolha. Que tal? Sarah sabia que Maata estava mentindo. Entrara no apartamento pelo menos quarenta e cinco minutos antes de a jovem chegar e dera uma boa olhada em tudo. Seus documentos diziam que ela nascera em um lugar chamado Nakabir. Seu pai era árabe, e a mãe, inglesa, de fato, e desse modo, devia ter dupla cidadania. Sim, nada disso dizia que o tal marido malvado fosse invenção. Mas Sarah sabia, melhor que ninguém, que todos os que mentem o fazem por um motivo. De todo modo, alguém estava atrás de Maata, era do sexo masculino e a garota queria se livrar dele. Em troca, faria de Sarah uma mulher rica, lhe daria uma mão para encontrar Jordan e tiraria a polícia de vez de seu encalço; Maata não sabia disso, mas Sarah não perderia aquela oportunidade única. Sendo assim, por enquanto, ela faria de conta que ignorava aquele simples pormenor. Uma carta na manga nunca era demais. Sarah se levantou e foi para o quarto de Maata. — O que está fazendo? — Vamos arrumar as malas, mocinha. Se não quer que o troglodita a encontre, terá de sair daqui. — Será tão fácil ele me achar num hotel... — Você não irá para um hotel — Sarah se virou para ela. — Apresse-se! Não queremos ter um desagradável encontro com aquele maluco, não é? — Quer dizer que vai me ajudar? O que pretende fazer? Sarah abriu a porta do armário e começou a tirar algumas roupas lá de dentro. 17
  18. 18. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann — Ainda não sei ao certo, mas uma coisa lhe garanto: eu a colocarei tão longe do alcance de seu marido que você nem imagina. Não foi difícil para Neyah conseguir o endereço de Maata. O fotógrafo que acompanhou o repórter que fez a matéria do roubo na Joalheria Davidovitch estava com quatro mensalidades da faculdade atrasadas, e, após dois segundos de relutância, concordou em colaborar. Num momento de distração do jornalista, na redação, deu uma busca no computador de seu chefe e encontrou o que procurava. Neyah preencheu um cheque polpudo, e todos ficaram felizes. Sem demora, o príncipe entrou em um táxi e foi direto para o prédio onde sua irmãzinha rebelde residia. Era um edifício de apenas quatro andares, sem porteiro, mas com elevador, Neyah pôde ver pelo vidro da porta. Para entrar era necessário usar o interfone e se identificar. — Ora, ela não se atreveria a não permitir minha entrada. Neyah tocou diversas vezes, mas ninguém o atendeu. Um rapaz chegou, de bicicleta, e sorriu-lhe. — Com licença — e enfiou a chave na fechadura. — Por gentileza, você mora aqui? — Sim. Está procurando alguém? — Conhece uma jovem loira, de olhos negros, que mora no 407? O sorriso do jovem se alargou. — Refere-se a Maata? — suspirou. — Como é linda aquela garota! Neyah sentiu uma pontada de ciúme. — Saberia me dizer se ela está em casa? — Eu a vi sair ontem com uma amiga, tão bonita quanto ela, mas morena. Elas levavam malas. Devem ter ido viajar. — Entendo. Será que alguém poderia me dizer para onde Maata foi? O moço o encarou, desconfiado. — Quem é você? — Apenas um amigo. Queria fazer uma surpresa, mas ela parece estar sempre um passo adiante. — Lamento. Não tenho idéia de quem teria mais infonnações a lhe dar. Se me der licença... O rapaz entrou e fechou a porta. Neyah respirou fundo. — Não se irrite. Isso é tudo o que ela quer. Sua irmã é especialista em tirá-lo do sério desde que era bebê. Você é um homem adulto, controlado e senhor de si. portanto, muita calma nesta hora. Não adiantou. Seu sangue continuava quente. — Aquela pirralha me paga! A única coisa que fazia Neyah aceitar deixar de lado sua posição e sair pelo mundo no encalço de sua irmã adolescente era que jamais se atreveria a desobedecer uma ordem do sheik. Gente de sua estirpe podia ranger os dentes, mas tudo o que seu soberano dizia era lei. O fato de o sheik e seu pai serem a mesma pessoa não o isentava de seu dever. Mas é tão humilhante tudo isso! Há tanto o que fazer em meu país, e eu aqui, para baixo e para cima, bancando o idiota! Certo, o dever para com o sheik não era a única coisa que o obrigava a seguir em frente. Havia também a genuína preocupação com Maata. Aquela cabeça de vento! Fazia parte da vida de todos os seus ancestrais cuidar e proteger as mulheres. E, muito embora elas tivessem em Nakabir um respeito e um valor que eram raríssimos em outros países do Oriente Médio, era impossível para Neyah esquecer o quão frágeis eram. Ou ao menos fingiam ser. E ao ver o sorriso bobo do vizinho de Maata, lembrou-se uma vez mais do risco que corria uma garota inexperiente e tão linda em terras estrangeiras. Em Nakabir ninguém se atrevia a colocar as mãos em uma mulher sem o total consentimento dela. As leis eram rigorosíssimas, e não havia complacência com estupradores. Assim, as mulheres podiam andar por todo lado, com a certeza de que nada de mallhes aconteceria. Mas ali não era Nakabir, e sua adorada irmã resolvera se atirar na cova dos leões. — Assim que voltarmos, vou arranjar um marido para ela. Nada como o casamento para manter ocupada uma menina mimada. 18
  19. 19. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Antes disso, porém, teria de achá-la. Do outro lado da rua havia um café, e Neyah decidiu ir até lá para comer algo e pensar um pouco. A jovem garçonete que veio atendê-lo se mostrou bastante solícita. Não era sempre que um homem tão belo e imponente vinha a seu estabelecimento. — Bom dia. O que vai ser? — Um café bem forte e um sanduíche de queijo quente, por favor. Ela fez a anotação e lançou-lhe um sorriso incandescente. Neyah achou graça, mas não deu mostras. Então Maata viajara. A primeira providência seria descobrir se ela deixara o apartamento de vez ou se pretendia voltar. Se sua irmã tivesse se mudado, tudo começaria de novo. Se fosse voltar, no entanto, dessa vez iria ter uma grande surpresa. No entanto, para pôr em prática o que pretendia, Neyah ia precisar de ajuda. Saíra em viagem sem os funcionários que costumavam acompanhá-lo, mas havia o piloto de seu jato, que permanecia a sua disposição. — Ele vai ter de servir. Neyah tomou seu lanche, pediu a conta e retomou ao prédio. Naquele momento, um homem de meia-idade limpava a portaria e abriu-lhe a porta. — Bom dia. O senhor poderia me informar se há algum apartamento para alugar aqui? — O senhor terá de se informar com a administradora — o faxineiro tirou do bolso do macacão um cartão de visitas. — Aqui estão o número do telefone e o endereço. — Muito obrigado. E Neyah retomou à calçada, pela primeira vez em meses com a sensação de que, enfim, conseguiria resolver aquele impasse. Caminhou algumas quadras, chamou um táxi e retomou ao hotel. — Decepcionada? Maata observava a sala do apartamento de Sarah sem conseguir disfarçar o espanto. — Não é isso. Mas, para ser sincera, eu imaginava que você morasse em um lugar bem luxuoso. Sarah deu risada. — A ostentação é o que costuma levar muito profissional de ponta para trás das grades, Maata. E, como eu lhe falei, não sou movida por uma ambição desmedida. O que faço é muito arriscado, mas eu não quero perder tempo. Já sofri muito nesta vida. Agora, vou aproveitar meus talentos para levantar fundos e me dar tudo o que mereço: um negócio próspero, uma casa muito confortável e, acima de tudo, achar Jordan. Nossos pais foram irresponsáveis demais, e fomos nós, eu e meu irmão, que tivemos de arcar com as conseqüências disso. — Diga-me uma coisa. E se Jordan for mesmo Ivan Davidovitch? O que você fará? — Em primeiro lugar, descobrir se ele foi bem tratado, se sua família adotiva o ama. Se Jordan estiver feliz, talvez eu siga com minha vida e o poupe de saber que sua irmã não é exatamente flor que se cheire. Mas se meu irmãozinho estiver infeliz, vou levá-lo comigo para bem longe de tudo isso. O telefone tocou, e Sarah foi atender. — Sim? Era Dwane, o receptador das peças que Sarah roubava. Ele não gostava nem um pouco daquela mania de Robin Hood de Sarah — como Dwane costumava chamar, por falta de comparação melhor —, que evitava "subtrair recursos" de pessoas em dificuldades. Contudo, como era ela a melhor de toda sua equipe, Dwane fazia vista grossa. Contanto que não atrapalhasse seus negócios, Sarah podia fazer o que quisesse. — Ficando famosa, hein? — Como assim? — O roubo da Joalheria Davidovitch é coisa sua. Quem mais deixaria uma fortuna no cofre, além de você? — ele riu. — O que foi dessa vez? Um pobre velhinho precisando fazer tratamento dentário? Sarah detestava Dwane. O sujeito não tinha escrúpulos, e provavelmente havia uma pedra no lugar do coração dentro daquele peito mirrado. — O que você quer, afinal? O de sempre, minha querida. Onde estão as jóias que você pegou? Ouvi dizer que são espetaculares. Menina esperta! 19
  20. 20. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Sarah fez um sinal para Maata, pedindo licença, e foi conversar com ele no quarto a portas fechadas. — Elas não estão à disposição, Dwane. — Como assim? — Tenho um assunto muito sério para resolver, e precisarei delas. — Não ligo a mínima! Meus contatos me informaram que as pedras dessas peças são valiosíssimas, e você não vai me passar para trás! — Claro que não, acalme-se. Você as terá, Dwane. Dê-me apenas um tempo. — Sarah, até hoje nós nos demos bem porque você sempre demonstrou que sabia com quem estava lidando. Será que esqueceu? — De modo algum. Não me ameace, Dwane. Nunca lhe dei motivo para desconfianças. — Até este momento. Eu lhe dou vinte e quatro horas. Se até amanhã, neste mesmo horário, eu não tiver em minhas mãos as jóias que você roubou, sua vida não valerá mais nada, Sarah Baker! — e ele desligou. Dwane Riscoe não costumava fazer ameaças vãs. Muitos dos que acabaram indo parar na lista de desaparecidos do FBI tinham tido encontros bastante desagradáveis com ele instantes antes de sumir. Dwane era um mafioso, por assim dizer, e ele não admitia erros. Sarah sempre fez as coisas a seu modo, e Dwane não se incomodava muito com isso porque os lucros que auferia com ela eram excelentes. Mas Sarah não tinha nenhuma ilusão quanto à realidade: bastaria uma simples escorregadela para que seu lindo pescoço tivesse um trágico destino. Teria de dar um jeito de sumir do mapa. Caso contrário, jamais encontraria seu irmão. Na verdade, não viveria para tanto. — Tudo bem? — Maata quis saber assim que a viu de novo na sala. — Não. Mas vai ficar. Sente-se aqui, meu bem. Tenho um ótimo plano em mente, que beneficiará nós duas. Irônico que elas se vissem na mesma situação, pensou Sarah. Ambas fugiam de homens violentos, e uma acabou no caminho da outra. Bem, a sorte não costuma sorrir por muito tempo se não aproveitamos as oportunidades que ela resolve disponibilizar. E Sarah não iria deixar aquela chance lhe escapar. De jeito nenhum. — Acha mesmo que isso vai dar certo? — Alguma sugestão melhor? Maata sentia um frio na barriga. O plano que Sarah arquitetara era ótimo. Daquela vez, Neyah não conseguiria encontrá-la de jeito nenhum. — Você é uma mulher muito inteligente, Sarah. Alguma vez pensou em usar seus dons para o bem? — Nunca — apanhou a bolsa. — Marquei hora para nós duas no melhor cabeleireiro de Manhattan. Gastaremos uma pequena fortuna, mas vai valer muito a pena. Maata se levantou da poltrona e desligou a tevê. — Mais tarde eu lhe mostrarei minha loja. — Não sabia que tinha negócio próprio. Um honesto, quero dizer. Sarah a fitou de soslaio. — Não se iluda. Ele faz parte de meu disfarce. — Sei... — Chega de conversa. Hoje seremos apenas duas garotas soltas em Nova York, dispostas a mostrar aos marrnanjos deste mundo que não estamos para brincadeiras. Rindo como velhas amigas, Maata e Sarah saíram para dar início àquilo que se tornaria em breve a maior aventura de suas vidas. CAPÍTULO IV Logo após o almoço, Neyah telefonou para Justine, para informá-la de que sua amada filhinha mais uma vez escapara dos dedos do irmão mais velho. — Filho, não é possível que uma garota de dezenove anos esteja fazendo de bobo um homem como você. Neyah ficou vermelho de indignação. — Perdoe-me, mamãe. Passei tempo demais estudando e me preparando para um dia me tomar o sheik de meu país, e acabei negligenciando os cuidados com meninas mimadas que não conhecem o seu lugar. Silêncio do outro lado da linha. 20
  21. 21. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann — Não seja rude com sua mãe. — Você foi injusta comigo. Há cinco meses saí às pressas de meu país por ordem de meu pai, na noite de meu casamento. Deixei minha noiva para trás, sem nem mesmo me despedir, e desde então toda vez que pergunto de Ragda você me vem com evasivas. A única coisa que faço, desde que me fui de Nakabir, é tentar achar o paradeiro de Maata. Até agora não entendi por que vocês não mandaram nossos agentes da Inteligência atrás dela. Eles são homens treinados, e a esta altura ela já estaria a seu lado, e há muito tempo. Mas tudo bem, não discuti as ordens que recebi, e tenho dado o melhor de mim. Temo que algo de ruim possa acontecer àquela cabeça-oca, e me angustio toda vez que Maata me escapa de novo. E como recompensa ouço minha própria mãe vindo com ironias para cima de mim. Portanto, não espere que eu me desculpe. — Eu entendo que... — Mamãe, quero falar com minha noiva. Por que o celular está sempre desligado? Por que ela não me telefona? — Neyah, nós todos aqui cuidamos do bem-estar de Ragda. E gostaríamos de fazer o mesmo com Maata. Sendo assim, concentre-se. Neyah suspirou. — Há algo de muito estranho em tudo isso, e eu ainda vou descobrir do que se trata. — Está sendo paranóico, meu filho. — Tomara. De todo modo, cheguei a meu limite. — O que quer dizer? — Farei as coisas a meu modo, de agora em diante. — Você fará o que eu e seu pai mandarmos. — A ordem do sheik foi que eu encontrasse minha irmã e a levasse de volta para Nakabir, e é o que farei. Mas, já que vocês não querem colaborar comigo, e sabe Deus por que motivo nem ao menos me deixam falar com minha noiva, digo o seguinte: só tomarei a me comunicar com o palácio quando estiver pousando no aeroporto de N akabir. — Nada disso! Quero notícias diárias, conforme combinamos! — Então, chame Ragda. Quero falar com ela. — Não é possível. — Por quê? — Não seja impertinente! — Pense o que quiser. Voltaremos a nos falar em Nakabir. Adeus. Assim que cortou a ligação, Neyah ligou para o número do piloto de seujato, hospedado em outro quarto, naquele mesmo andar do hotel, que, como de costume, fora reservado inteiro para o príncipe, por medida de segurança. — Nagib? — Pois não, Alteza. — Venha até aqui. Preciso de sua ajuda. — Agora mesmo, Alteza. As duas se miravam, uma ao lado da outra, no espelho de corpo inteiro no quarto de Sarah. Maata, de queixo caído, comentou: — Que coisa mais esquisita! Você ficou igual a mim, e eu estou idêntica a você! — Era essa a idéia. Os cabelos de Maata, antes loiríssimos, tornaram-se pretos como carvão. Os de Sarah assumiram uma tonalidade cor de areia. O toque final para a troca de identidades foram as lentes de contato: as de Sarah, pretas; as de Maata, castanhas. — Temos praticamente a mesma altura e constituição física. De longe, ninguém notará as poucas diferenças. Assim, ganharemos tempo. — Sem dúvida! — Maata continuava espantada demais com sua nova aparência. — Amanhã mesmo irei conversar com o sr. Davidovitch. — Seja discreta. Se ele desconfiar de algo, poderá nos colocar em apuros. — Sossegue. Não sou tão boba quanto posso parecer. Sarah deu risada. Gostava daquela jovem, mas não podia se deixar levar por sentimentalismos. Porém, se tudo desse certo conforme ela planejava, as duas ficariam muito bem. — Então é isso. A partir de hoje, você é Sarah Baker, e eu, Maata Faraj. Assuma minha casa e minha loja. Eu irei morar em seu apartamento. 21
  22. 22. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann — Mantenha-se longe de Neyah. Ele pode ser perigoso — Maata detestava inventar aquelas calúnias sobre seu irmão, mas algo muito maior estava em jogo. Sempre haveria tempo para pedir perdão à amiga. Sarah tomou as mãos dela e a encarou, muito séria. — Guarde bem o que vou lhe dizer. Talvez um sujeito chamado Dwane a procure. No ato ele verá que não está falando comigo. Não permita de modo algum que Dwane a toque. O miserável é traiçoeiro. Ele insistirá em saber meu paradeiro. Diga-lhe apenas que entrará em contato comigo e me dará o recado — Sarah fez uma descrição detalhada da aparência de Dwane. — Assim que o vir, dê um jeito de ter algo bem pesado à mão. — Nossa! — Dwane não tem nada contra você, óbvio, mas não aceitará você dizer que não sabe onde estou. Por isso. todo cuidado é pouco. Não revele meu endereço, mas procure não irritá-lo. — Certo. E você, Sarah, não acredite em nada do que Neyah lhe disser. Ele é capaz de inventar as histórias mais mirabolantes para se passar por bonzinho. — Muito bem — Sarah apanhou a sacola de viagem e a bolsa a tiracolo. — Vou indo. Nos falaremos apenas pelos celulares novos, que compramos para esse fim. Ela pôs a mão na maçaneta e olhou para Maata. — Não hesite em me chamar se tiver algum problema. Promete? — Pode deixar. Sossegue, eu ficarei bem. Durante todo o trajeto até o prédio de Maata, Sarah se perguntou se agira bem em deixar uma moça tão frágil exposta a um bandido como Dwane. Mas, ao se lembrar de que talvez estivesse prestes a encontrar Jordan, conformou-se. A sorte estava lançada. — Alteza? Sua irmã acaba de entrar no prédio, carregando uma sacola de viagem. — Ótimo! Mantenha a vigilância. Em breve eu lhe direi o que fazer. — Como quiser, Alteza. Nagib engoliu o último pedaço de seu sanduíche e pediu mais um café. Ainda bem que o estabelecimento funcionava vinte e quatro horas. Não poderia arredar pé dali até que o príncipe lhe desse permissão para isso. Às sete da manhã, o despertador acordou Maata. Era hora de ir para a loja. Ela tomou seu desjejum e foi se arrumar. — Meu Deus... Tocou o rosto. Mesmo com seu nariz arrebitado, sua marca registrada, poderia passar por irmã de Sarah. Colocou calça jeans, uma blusa de flanela e tênis. Todas roupas da amiga. As suas, que havia trazido de casa, estavam com Sarah. Vestiu um casaco grosso e impermeável. O dia amanheceu frio e chuvoso. O fim de outono prenunciava um rigoroso inverno. Maata sentiu uma saudade imensa de Nakabir, com seu céu sempre claríssimo, o sol dourando os tetos das residências. Não via a hora de poder voltar. O Ocidente acenava com incríveis possibilidades, sem dúvida. Mas o Oriente era seu lar. Desceu para a rua, e em instantes abriu o estabelecimento. Virou a placa da porta de vidro para "Aberto" e foi guardar a bolsa atrás do balcão. Em menos de cinco minutos, o sininho da entrada anunciava um cliente. Ao olhar para ele, o sangue de Maata gelou. Pela descrição minuciosa de Sarah, aquele era Dwane. Maata procurou por algo pesado, mas não deu tempo. Dwane, com um sorriso largo e a agilidade de um felino, estava a milímetros dela antes mesmo de Maata piscar. — Bom dia, Sa... — o sorriso desapareceu dos lábios dele, e seus lábios se tomaram uma linha fina e gélida. — Quem é você? — Sarah, a dona da loja. Em que posso ser útil? Dwane apoiou os dois cotovelos no balcão, num gesto despojado. — Última chance: quem é você? A entonação era suave como o silvo de uma cascavel. — O senhor deseja... A frase de Maata foi interrompida por um tremendo tapa, que a atirou sobre as prateleiras atrás do balcão. Desequilibrada e tonta, ela foi ao chão. Dwane se agachou, agarrou-lhe os cabelos e puxou a cabeça dela para cima, com brutalidade. 22
  23. 23. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann — Não chore, docinho. Eu avisei que era a última chance — ele olhou de lado e apanhou algo que caíra perto dela. — Hum, lentes de contato... A cabeleira é de verdade. Se fosse peruca, eu já a teria arrancado. Dwane a obrigou a ficar de pé. — Qual seu nome? — Maata Faraj. — Hum, que diferente... Então, Maata Faraj, a esperta Sarah Baker colocou você, uma farsante, para se passar por ela e tentar me enganar, não é? Más notícias, meu bem. Ou você me diz onde ela está ou esse seu lindo rostinho terá de ser reconstruído. Maata, desesperada, tentava se soltar, mas Dwane apertava tanto seus cabelos que quase arrancava seu couro cabeludo. Nesse momento, o sininho da porta soou de novo. Dwane largou Maata, mas ainda sussurrou-lhe: — Amanhã eu virei aqui de novo. Tenha as respostas na ponta da língua — e se foi. Na hora do almoço, Maata fechou a loja e correu para casa. Em sua face esquerda começava a surgir um hematoma. Foi direto para o quarto, largou a bolsa na cama e, ao se virar, encontrou o armário todo destruído. Roupas e prateleiras tinham sido arrancadas de dentro dele, e a tampa de um fundo falso ficara escancarada. Maata se aproximou, com o coração aos saltos, e verificou que estava vazio. Se existia algo ali dentro, o invasor o levara. Tremendo muito, ligou para Sarah e a colocou a par de todos os últimos acontecimentos. — Dwane bateu em você?! — Sim. E teria sido muito pior se um cliente não tivesse entrado naquele momento. Estou furiosa, Sarah. Jamais apanhei de um homem antes! Assim que acabou de falar, Maata se deu conta do erro que cometera. — Quer dizer... Nenhum que não fosse meu marido. E garanto que não gosto nada disso. — Ele é mesmo um gângster. — O que eu faço? O sujeito disse que voltará amanhã. O que direi? — Diga a Dwane que me encontre às duas horas no Sidarta, um restaurante indiano que eu e ele conhecemos. Tentarei acalmá-lo. — Olhe, esse camarada é muito perigoso. Não estou gostando nada de ter de entrar em contato com gente assim — Maata tocou o rosto machucado. — Nem entendo direito por que tive de me disfarçar também, mas foi tudo tão rápido! Faz sentido você ficar parecida comigo. Assim, ao vê-la de longe, meu marido vai segui-la pensando que sou eu, o que o confundirá e atrapalhará seus planos; e eu terei tempo de fugir. Mas o tal Dwane viu que eu não era você assim que me encarou. Não sabia que isso ia acontecer? — Não só sabia como a avisei. — Então? — Os clientes da loja... — Bastava que eu me apresentasse como uma amiga que estava cuidando de tudo enquanto você viajava. — É... Na hora não me ocorreu. Bem, agora já fizemos assim, não é? Paciência. Mas não se preocupe, vou dar um jeito em Dwane. Mudando de assunto, você prometeu ir hoje conversar com o sr. Davidovitch. — Sim. Tenho uma boa desculpa. Vou perguntar do prêmio do seguro de minhas jóias. — Ótimo. — E quanto a Neyah? Nada dele ainda? Meu marido não apareceu? — Ainda não. — Fique atenta, entrar nesse edifício é bem fácil. Se tocarem a campainha, não deixe de verificar quem é no olho mágico. Ah, que bobagem a minha! Você é especialista em entrar na casa dos outros sem ser convidada, portanto deve saber muito bem se livrar desse tipo de incômodo. E seu amigo Dwane também. Óbvio que foi ele quem veio aqui e revirou suas coisas. Aliás, o que havia naquele fundo falso? — Algo que está muito longe daquelas mãos sujas. — Sei — Maata suspirou. — Nos falamos depois. Maata desligou e pôs as mãos na cintura. Arrumaria aquela bagunça mais tarde. Agora iria comer alguma coisa e se arrumar para ir à joalheria. No momento em que ela foi para a cozinha, um homem escondido embaixo da cama deslizou para fora e, num movimento ágil, saltou pela janela. Caiu de pé, na rua, ajeitou a roupa e olhou para cima, com um sorriso torto nos lábios. 23
  24. 24. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann — Sarah é mesmo uma especialista. Arranjou uma tolinha perfeita. Na certa vai colocar essa garota numa bela encrenca — deu de ombros. — Bem, não encontrei as jóias, mas descobri o que queria. Achar o endereço de Maata será muito fácil e a a srta. Sarah Baker receberá uma visitinha de seu grande amigo Dwane Riscoe. Israel Davidovitch demorou alguns instantes para reconhecer Maata. — A senhorita ficou bem diferente com esses cabelos. Ela sorriu. — Sabe como são as mulheres, não é? Sempre atrás de novidades. Eu tinha curiosidade de saber como ficaria com uma vasta cabeleira negra. — Se me permite dizer, a senhorita ficou linda. — Obrigada — Maata colocou uma mão em cima da outra sobre o tampo da mesa. — Sr. Davidovitch, alguma notícia sobre o pagamento do seguro? Eu contava vender rápido aquelas peças e... estou precisando de dinheiro. — Esta manhã, recebi o telefonema da seguradora. Eles prometeram me enviar o cheque amanhã, no começo da tarde. — Que ótimo! Posso vir buscar? — Sem dúvida. Que tal às duas horas? — Combinado. Maata permaneceu sentada. Como abordar o assunto que de fato a trouxera até ali? — Posso ser útil em mais alguma coisa, senhorita? — Estava aqui pensando. O senhor me lembra muito meu pai. Sinto saudade dele. — Ele mora longe? — Muito. Não nos vemos há meses. Sou filha caçula, a única mulher. Eu e ele somos bastante próximos — ajeitou os grandes óculos escuros, que não tirara para disfarçar o hematoma. — O senhor tem filhos, sr. Davidovitch? — Dois. Rachel é a mais velha, mãe de minha neta, Mara. E Ivan. — Seu filho ainda não lhe deu netos? — Não, ele é solteiro. — Muito jovem ainda? — Isso mesmo. — Quantos anos ele tem? — Ivan é adolescente. — Ora! Um temporão! Israel começava a ficar desconfortável com aquela conversa. Não gostava de falar de sua família com estranhos. Nos dias de hoje, isso podia ser arriscado. — Um dia ainda vou querer ter muitos filhos. — Perdão. Meu celular está tocando — o sr. Davidovitch apanhou o aparelho no bolso e fingiu atender a uma ligação. Então, tapando o bocal, tomou a se dirigir a Maata: — Se a senhorita puder me dar licença... A chamada vai demorar, é internacional. — Claro. Amanhã à tarde nos veremos. Até lá. Quinze minutos após a saída de Maata, o investigador Capuano seguia o sr. Davidovitch até o escritório dele. Os dois se sentaram ao redor da escrivaninha. — Pensei que ela fosse demorar mais um pouco para aparecer. Mas, pelo visto, a ganância falou mais alto. É o que leva essa gente para trás das grades todos os dias. — O senhor tem certeza de que essa moça fina e gentil é mesmo uma ladra? Capuano se levantou e começou a andar de um lado para o outro. — Estamos atrás de Sarah Baker há muito tempo, sr. Davidovitch. No entanto, a mulher é um fantasma. Entra e sai dos lugares sem que ninguém descubra como, e nunca deixou digitais, cabelo ou alguma outra coisa que pudesse fornecer seu DNA ou qualquer pista de quem ela é. Mas, como o mundo dos ladrões é muito competitivo, a moça acabou arranjando muitos inimigos. Gente que a quer fora do negócio. E veio deles a informação: Sarah é uma mulher muito bonita, de cabelos negros, alta, longilínea, de formas perfeitas e, apesar de bem nova, tem o porte de uma rainha. Evidente que é muito pouco para colocarmos as mãos nela, mas, ao analisar o vídeo que o senhor tem, para mim tudo se encaixou. A moça que aparece nas imagens cabe muito bem na descrição. Davidovitch arregalou os olhos. — Só o que se vê na fita é que se trata de uma mulher alta e elegante. Mais nada. 24
  25. 25. O príncipe e a plebéia Tuca Hassermann Capuano tomou a se sentar e cruzou as pernas. — Acompanhe meu raciocínio. A garota pintou os cabelos de loiro, para disfarçar, veio até sua joalheria com jóias roubadas e as deixou em consignação. À noite, entrou aqui e apanhou apenas aquelas peças, para receber o dinheiro do seguro. — E não levou tudo o mais de dentro do cofre porque... — Algo deve tê-la assustado. Talvez o senhor ainda estivesse por aqui. Israel pensou um pouco. — Naquela noite eu saí muito tarde. Será que ela esteve por perto o tempo todo? — É minha teoria. Em algum momento o senhor deve ter dado a impressão de ter ido embora, mas na verdade foi ao banheiro digamos. Ela se sentiu livre para agir, mas aí o senhor voltou, e Sarah apenas conseguiu pegar pouca coisa, temendo ser flagrada. — Que perigo! Essa garota poderia ter me atacado! — Tudo é possível. No entanto, não há nenhum relato de agressão física por parte dela — Capuano cofiou o bigode. — Continuando, hoje pudemos constatar que de fato nosso informante a descreveu direitinho. Ela cometeu um deslize ao vir aqui com os cabelos em sua cor natural. Talvez tenha se tomado arrogante, porque até hoje ninguém a capturou. — Lamentável. Uma menina tão bonita, tão doce... Até falou da saudade que sente do pai, perguntou de minha família, meus filhos. Capuano mudou de postura na cadeira. — Sr. Davidovitch, os pais de Sarah Baker morreram quando ela era criança. Ela mentiu, na certa querendo extrair informações a seu respeito. A mulher está se tomando perigosa. — O que diz? Será que planeja um seqüestro? — Quem pode garantir que não? Muitos bandidos costumam evoluir. De meros batedores de carteira passam a ladrões de carro, e daí em diante. São marginais, gente em quem não se pode confiar nunca. — Meu Deus! Minha família! — Fique tranqüilo. Pedirei proteção policial para vocês todos. E mais do que isso: amanhã, quando Sarah Baker vier buscar o cheque do seguro, eu lhe darei voz de prisão. Estamos reunindo provas contra essa jovem há muito tempo. A bela larápia há de amargar muitos anos trancada numa cela. No dia seguinte, conforme combinado, Dwane passou de novo na loja, e mais que depressa Maata lhe passou o recado de Sarah. — Muito bem. Diga a ela que não falte, senão é você quem vai sofrer as conseqüências. Maata ligou para Sarah assim que ele se foi. — Tudo certo. O cretino estará às duas horas no Sidarta. Fez muito bem de escolher um local público, Sarah. Mesmo assim, cuide-se, ouviu? — Sem problemas. Sei lidar com Dwane. E veja se consegue descobrir a idade de Ivan. — Tenho de ir devagar. Notei que o sr. Davidovitch não estava gostando de minhas perguntas. E olhe que não fui nada invasiva. — Ponha a cabeça para funcionar, Maata. Não falhe comigo. — Tudo bem, pode deixar. Até mais. Sarah saiu do prédio para ir ao encontro de Dwane faltando vinte para as duas. Já havia reparado no rapaz árabe sentado no café, do outro lado da rua, e por isso sempre dava um jeito de não permitir que ele visse seu rosto. Aquele devia ser Neyah, o marido idiota de Maata. Pretendia dar um susto e tanto nele, quando o covarde decidisse abordá-la. A quatro quadras do Sidarta, assim que entrou numa viela para cortar caminho, Sarah sentiu alguém logo atrás de si. Virou-se rápido e deparou com Dwane. — Olá, meu bem. Senti tanta saudade que não pude esperar para encontrá-la no restaurante. Ficou uma graça nessa versão loirinha, sabia? Sarah tentou impor uma distância segura entre eles, mas Dwane não permitiu. — Antes de tratarmos de negócios, satisfaça minha curiosidade. O que está preparando para aquela menina... qual é mesmo o nome dela? Maata? — Algo que a médio prazo será bom para nós duas. Mas não tem nada a ver com você. 25

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