O que é semiotica lucia santaella

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O que é semiotica lucia santaella

  1. 1. Aqui encontro a função deste pequeno volume sobre Semiótica: juntos perseguirmos as questões desde seus começos, para que, por fim, cheguemos a um patamar que torne possível ao meu leitor prosseguir, caso queira, livre no seu próprio caminho de investigação e de descoberta. Uma definição ou um convite? Alguns anos atrás, em um seminário sobre Semiótica, realizado em uma das cidades do Brasil, um aluno que perma- necia ainda muito curioso, apesar de já ter assistido a algumas palestras, subitamente me perguntou: — "Mas, afinal, o que é Semiótica?". Assim, de chofre, tomada de surpresa no corredor de passagem de uma sala a outra, devo ter respondido algo parecido com isto: — "Quando alguma coisa se apresenta em estado nascente, ela costuma ser frágil e delicada, campo aberto a muitas possibilidades ainda não inteiramente consu- madas e consumidas. Esse é justamente o caso da Semiótica: algo nascendo e em processo de crescimento. Esse algo é uma ciência, um território do saber e do conhecimento ainda não sedimentado, indagações e investigações em progresso. Um processo como tal não pode ser traduzido em uma única definição cabal, sob pena de se perder justo aquilo que nele vale a pena, isto é, o engajamento vivo, concreto e real no caminho da instigação e do conhecimento. Toda definição acabada é uma espécie de morte, porque, sendo fechada, mata justo a inquietação e curiosidade que nos impulsionam para as coisas que, vivas, palpitam e pulsam". Sei que, em vez de dar uma resposta direta e positiva (função que provavelmente me cabia na ocasião), estava ten- SUMÁRIO tando armar uma estratégia de sedução. Em lugar de saciar ã sua curiosidade, só queria aumentá-la. Contudo, o peso dasPrimeiro passos para a Semiótica................... ..........................01 certezas ó sempre mais forte que o das dúvidas. Recebi, porO legado de C. S. Peirce............................................................03 isso, uma segunda pergunta que, aliás, não era mais umaPara se ler o mundo como linguagem........................................05 pergunta, mas uma crítica só levemente velada: — "Que impor-Abrir as janelas: olhar para o mundo..........................................07 tância pode ter isso para nós? Nós que temos a resolver umPara se tecer a malha dos signos ............................................. 11 problema muito mais. prioritário e urgente, o da miséria e daOutras fontes e caminhos...........................................................15 fome?".Indicações para leitura ...............................................................18 Acenei, então, mais uma vez com uma sugestão de resposta: — "Há duas espécies de fome: a da miséria do corpo, esta, mais fundamental e determinante, visto que PRIMEIROS PASSOS PARA A interceptadora de quaisquer outras funções, necessidades e realizações humanas; mas há também a carência de SEMIÓTICA conhecimento, este, outro tipo de fome. Nossa luta tem de ser travada sempre simultaneamente em ambas as direções. A Semi-ótica — ótica pela metade? ou Simiótica — estudo Semiótica está rapidamente se desenvolvendo em todas asdos símios? partes do mundo. Por que haveremos nós de cruzar os braços, Essas são, via de regra, as primeiras traduções, a nível ficando à espera dos restos de sopa científica que os outrosde brincadeira, que sempre surgem na abordagem da poderão, porventura, nos deixar de sobra?"Semiótica. Aí, a gente tenta ser sério e diz: — "O nomeSemiótica vem da raiz grega semeion, que quer dizer signo. Linguagens verbais e não-verbaisSemiótica é a ciência dos signos.". Contudo, pensandoesclarecer, confundimos mais as coisas, pois nosso Antes de tudo, cumpre alertar para uma distinção neces-interlocutor, com olhar de surpresa, compreende que se está sária: o século XX viu nascer e está testemunhando o cresci-querendo apenas dar um novo nome para a Astrologia. mento de duas ciências da linguagem. Uma delas é a Lingüís- Confusão instalada, tentamos desenredar, dizendo: — tica, ciência da linguagem verbal. A outra é a Semiótica, ciência"Não são os signos do zodíaco, mas signo, linguagem. A de toda e qualquer linguagem. As principais relações funda-Semiótica é a ciência geral de todas as linguagens". Mas, mentais de semelhança e oposição entre ambas são problemasassim, ao invés de melhorar, as coisas só pioram, pois que, que tentaremos ir focalizando oportunamente no decorrer doentão, o interlocutor, desta vez com olhar de cumplicidade — percurso que iremos efetuar neste livro.segredo desvendado —, replica: — "Ah! Agora compreendi. Como ponto de partida, porém, que tentemos desatar oNão se estuda só o português, mas todas as línguas". nó de um equívoco de base: a diferença entre língua e lingua- Nesse momento, nós nos damos conta desse primordial, gem em conexão com a diferença, quê buscaremos discriminar,enorme equívoco que, de saída, já ronda a Semiótica: a confu- entre linguagens verbais e não-verbais.são entre língua e linguagem. E para deslindá-la, sabemos que Tão natural e evidente, tão profundamente integrado aotemos de começar as coisas de seus começos, agarrá-las pela nosso próprio ser é o uso da língua que falamos, e da qualraiz, caso contrário, tornamo-nos presas de uma rede em cuja fazemos uso para escrever — língua nativa, materna ou pátria,tessitura não nos enredamos e, por não nos termos enredado, como costuma ser chamada —, que tendemos a nos desaper-não saberemos lê-la, traduzi-la. ceber de que esta não é a única e exclusiva forma de 1
  2. 2. linguagem que somos capazes de produzir, criar, reproduzir, político...) invadem nossa casa e a ela chegam mais ou menostransformar e consumir, ou seja, ver-ouvir-ler para que do mesmo modo que chegam a água, o gás ou a luz.possamos nos comunicar uns com os outros. E claro que no sistema social em que vivemos estamos É tal a distração que a aparente dominância da língua fadados a apenas receber linguagens que não ajudamos aprovoca em nós que, na maior parte das vezes, não chegamos produzir, que somos bombardeados por mensagens que ser-a tomar consciência de que o nosso estar-no-mundo, como vem à inculcação de valores que se prestam ao jogo deindivíduos sociais que somos, é mediado por uma rede intrin- interesses dos proprietários dos meios de produção de lingua-cada e plural de linguagem, isto é, que nos comunicamos gem e não aos usuários. Contudo, a discussão dessas contra-também através da leitura e/ou produção de formas, volumes, dições seria assunto para um outro livro que, aliás, já constamassas, interações de forças, movimentos; que somos também desta coleção Primeiros Passos (cf. O que é Indústria Cultural).leitores e/ou produtores de dimensões e direções de linhas, Assim, que passemos aqui para a observação mais cui-traços, cores... Enfim, também nos comunicamos e nos dadosa da extensão que um conceito lato de linguagem podeorientamos através de imagens, gráficos, sinais, setas, núme- cobrir. Considerando-se que todo fenômeno de cultura sóros, luzes...Através de objetos, sons musicais, gestos, expres- funciona culturalmente porque é também um fenômeno desões, cheiro e tato, através do olhar, do sentir e do apalpar. comunicação, e considerando-se que esses fenômenos sóSomos uma espécie animal tão complexa quanto são comple- comunicam porque se estruturam como linguagem, pode-sexas e plurais as linguagens que nos constituem como seres concluir que todo e qualquer fato cultural, toda e qualquersimbólicos, isto é, seres de linguagem. atividade ou prática social constituem-se como práticas Cumpre notar que a ilusória exclusividade da língua, sígnificantes, isto é, práticas de produção de linguagem e decomo forma de linguagem e meio de comunicação privilegia- sentido.dos, é muito intensamente devida a um condicionamento Iremos, contudo, mais além; de todas as aparênciashistórico que nos levou à crença de que as únicas formas de sensíveis, o homem — na sua inquieta indagação para aconhecimento, de saber e de interpretação do mundo são compreensão dos fenômenos — desvela significações.aquelas veiculadas pela língua, na sua manifestação como E no homem e pelo homem que se opera o processo delinguagem verbal oral ou escrita. O saber analítico, que essa alteração dos sinais (qualquer estímulo emitido pelos objetoslinguagem permite, conduziu à legitimação consensual e insti- do mundo) em signos ou linguagens {produtos da consciência).tucional de que esse é o saber de primeira ordem, em Nessa medida, o termo linguagem se estende aos sistemasdetrimento e relegando para uma segunda ordem todos os aparentemente mais inumanos como as linguagens binárias deoutros saberes, mais sensíveis, que as outras linguagens, as que as máquinas se utilizam para se comunicar entre si e comnão-verbais, possibilitam. o homem (a linguagem do computador, por exemplo}, até tudo No entanto, em todos os tempos, grupos humanos aquilo que, na natureza, fala ao homem e é sentido comoconstituídos sempre recorreram a modos de expressão, de linguagem. Haverá, assim, a linguagem das flores, dos ventos,manifestação de sentido e de comunicação sociais outros e dos ruídos, dos sinais de energia vital emitidos pelo corpo e,diversos da linguagem verbal, desde os desenhos nas grutas até mesmo, a linguagem do silêncio. Isso tudo, sem falar dode Lascaux, os rituais de tribos "primitivas", danças, músicas, sonho que, desde Freud, já sabemos que também se estruturacerimoniais e jogos, até as produções de arquitetura e de como linguagem.objetos, além das formas de criação de linguagem que viemos Até onde vai a Semióticaa chamar de arte: desenhos, pinturas, esculturas, poética, Aqui tocamos um ponto que nos permite retornar àcenografia etc. E, quando consideramos a linguagem verbal questão de onde partimos. As linguagens estão no mundo eescrita, esta também não conheceu apenas o modo de nós estamos na linguagem, A Semiótica é a ciência que temcodificação alfabética criado e estabelecido no Ocidente a partir por objeto de investigação todas as linguagens possíveis, oudos gregos. Há outras formas de codificação escrita, diferentes seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituiçãoda linguagem alfabeticamente articulada, tais como hieróglifos, de todo e qualquer fenômeno como fenômeno de produção depictogramas, ideogramas, formas estas que se limitam com o significação e de sentido.desenho. Seu campo de indagação é tão vasto que chega a cobrir Em síntese: existe uma linguagem verbal, linguagem de o que chamamos de vida, visto que, desde a descoberta dasons que veiculam conceitos e que se articulam no aparelho estrutura química do código genético, nos anos 50, aquilo quefonador, sons estes que, no Ocidente, receberam uma tradução chamamos de vida não é senão uma espécie de linguagem,visual alfabética (linguagem escrita), mas existe simulta- isto é, a própria noção de vida depende da existência deneamente uma enorme variedade de outras linguagens que informação no sistema biológico. Sem informação não hátambém se constituem em sistemas sociais e históricos de mensagem, não há planejamento, não há reprodução, não hárepresentação do mundo. processo e mecanismo de controle e comando. No caso da Portanto, quando dizemos linguagem, queremos nos re- vida, estes são necessariamente ligados a uma linguagem, aferir a uma gama incrivelmente intrincada de formas sociais de uma ordenação obtida a partir de um compartimentocomunicação e de significação quê inclui a linguagem verbal armazenador da informação como a DNA (substância universalarticulada, mas absorve também, inclusive, a linguagem dos portadora do código genético). Portanto, os dois ingredientessurdos-mudos, o sistema codificado da moda, da culinária e fundamentais da vida são: energia (que torna possíveis os pro-tantos outros. Enfim: todos os sistemas de produção de sentido cessos dinâmicos) e informação (que comanda, controla, co-aos quais o desenvolvimento dos meios de reprodução de ordena, reproduz e, eventualmente, modifica e adapta o uso dalinguagem propiciam hoje uma enorme difusão. energia). Sem a linguagem seria impossível a vida, pelo menos De dois séculos para cá (pós-revolução industrial), as como a conceituamos agora: algo que se reproduz, que tem uminvenções de máquinas capazes de produzir, armazenar e comportamento esperado e certas propensões.difundir linguagens {a fotografia, o cinema, os meios de impres- Nessa medida, não apenas a vida é uma espécie desão gráfica, o rádio, a TV, as fitas magnéticas etc.) povoaram linguagem, mas também todos os sistemas e formas de lingua-nosso cotidiano com mensagens e informações que nos gem tendem a se comportar como sistemas vivos, ou seja, elesespreitam e nos esperam. Para termos uma idéia das transmu- reproduzem, se readaptam, se transformam e se regeneramtações que estão se operando no mundo da linguagem, basta como as coisas vivas.lembrar que, ao simples apertar de botões, imagens, sons, Caracterizado o campo de abrangência da Semiótica,palavras (a novela das 8, um jogo de futebol, um debate podemos repetir que ele é vasto, mas não indefinido. O que se 2
  3. 3. busca descrever e analisar nos fenômenos é sua constituição como fez, quando jovem, estudos intensivos de classificaçãocomo linguagem. Neste sentido, embora a Semiótica se cons- zoológica sob a direção de Agassiz.titua num campo intrincado e heteróclito de estudos e indaga- Em nenhum momento de sua vida, contudo, Peirce seções que vão desde, a culinária até a psicanálise, que se confinou estritamente às ciências exatas e naturais. No campointrometem não só na meteorologia como também na anatomia, das ciências culturais, ele se devotou particularmente à Lingüís-que dão palpites tanto ao cientista político quanto ao músico, tica, Filologia e História. Isso sem mencionarmos suas enormesque imprevistamente invadem territórios que se querem bem contribuições à Psicologia que fizeram dele o primeiroprotegidos pelas bem demarcadas fronteiras entre as ciências, psicólogo experimental dos EUA.isso não significa que a Semiótica esteja sorrateiramente Como se isso não bastasse, conhecia ainda mais dechegando para roubar ou pilhar o campo do saber e da uma dezena de línguas, além deter realizado estudos eminvestigação específica de outras ciências. Nos fenômenos, Arquitetura e cultivado a amizade de pintores. Conhecedorsejam eles quais forem — uma nesga de luz ou um teorema profundo de Literatura (especialmente Shakespeare e Edgarmatemático, um lamento de dor ou uma idéia abstrata da Allan Poe), fez elaborados estudos de dicção poética e chegouciência —, a Semiótica busca divisar e deslindar seu ser de a escrever um longo conto (A Tale of Thessaly) para o qual nãolinguagem, isto é, sua ação de signo. Tão-só e apenas. E isso encontrou editor. Mais para o fim de sua vida, estavajá é muito. escrevendo uma peça de teatro. Praticava ainda a "arte quirográfica", além de ser um grande experimentador de vinhos, tendo desenvolvido essa aprendizagem numa estada O LEGADO DE C. S. PEIRCE de seis meses em Voisin. Como explicar essa quase assombrosa diversidade de A Semiótica, a mais jovem ciência a despontar no hori- campos e interesses?zonte das chamadas ciências humanas, teve um peculiar nas- Repetimos: Peirce era, antes de tudo, um cientista. Ecimento, assim como apresenta, na atual fase do seu desen- como cientista sobreviveu, trabalhando para o governo federalvolvimento histórico, uma aparência não menos singular. A a serviço da "Costa e Inspeção Geodésica", durante o dia, deprimeira peculiaridade reside no fato de ter tido, na realidade, 1861 a 1891, e simultaneamente, por algum tempo, no Obser-três origens ou sementes lançadas quase simultaneamente no vatório de Harvard College, durante a noite; trabalhos quetempo, mas distintas no espaço e na paternidade: uma nos aparentemente o afastaram da Química para pesquisas emEUA, outra na União Soviética e a terceira na Europa Astronomia e ciências correlatas. No entanto, ao se aposentar,Ocidental. aos 52 anos de idade, Peirce tentou se estabelecer como Esse surgimento em lugares diferentes, mas engenheiro químico, numa atividade que hoje chamaríamos detemporalmente quase sincronizados, só vem confirmar uma free-lancer.hipótese de que os fatos concretos — isto é, a proliferação Um cientista, portanto, ele jamais deixou de ser, tendohistórica crescente das linguagens e códigos, dos meios de produzido contribuições importantes e originais na Matemáticareprodução e difusão de informações e mensagens, e outras ciências até poucos dias antes de sua morte, em 1914.proliferação esta que se iniciou a partir da Revolução Industrial No entanto, por trás de tudo isso, existia um fio condutor: sendo— vieram gradativamente inseminando e fazendo emergir uma um cientista, Peirce era, acima de tudo, um lógico. Essa foi a"consciência semiótica" grande e irresistível paixão de toda a sua vida. A quase Não foi senão essa consciência de linguagem em inacreditável diversidade de campos a que se dedicou pode sersentido amplo que gerou a necessidade do aparecimento de explicada, portanto, devido ao fato de que se devotar ao estudouma ciência capaz de criar dispositivos de indagação e das mais diversas ciências exatas ou naturais, físicas ouinstrumentos metodológicos aptos a desvendar o universo psíquicas, era para ele um modo de se dedicar à Lógica. Seumultiforme e diversificado dos fenômenos de linguagem. interesse em Lógica era, primariamente, um interesse na São três, conforme já disse, as fontes nas quais a Lógica das ciências. Ora, entender a Lógica das ciências era,ciência Semiótica encontrou seu nascimento e através das em primeiro lugar, entender seus métodos de raciocínio. Osquais veio teoricamente se desenvolvendo. Dedicarei, no métodos diferem muito de uma ciência a outra e, de tempos ementanto, a quase totalidade deste pequeno livro a uma dessas tempos, dentro de uma mesma ciência. Os pontos em comumfontes, a norte-americana, que germinou nos trabalhos do entre esses métodos só podem ser estabelecidos, desse modo,cientista-lógico-filósofo Charles Sanders Peirce. No último por um estudioso que conheça as diferenças, e que as conheçacapítulo contudo, o leitor encontrará um panorama geral das através da prática das diferentes ciências.outras duas fontes, de modo que possa tomar conhecimento de Essa gigantesca empresa foi o que Peirce tomou paraum quadro mais complexo dos caminhos da Semiótica. si, durante toda a sua vida. E, pela enormidade dessa empresa, pagou o preço da solidão, da miséria e de uma existência sem qualquer tipo de glória. Durante 60 anos de sua vida, lutou pela Um Leonardo das ciências modernas consideração da Lógica como uma ciência. Mas o dia da Lógica não havia ainda soado... Peirce estava perfeitamente consciente (e isso ele C. S. Peirce (1839-1914) era, antes de tudo, um declarou muitas vezes) de que a deliberada diversificação decientista. Seu pai (Benjamim Peirce) foi, na época, o mais seu trabalho em múltiplas ciências impediria que ele atingisse aimportante matemático de Harvard, sendo sua casa uma eminência que ele deveria ter atingido, se tivesse concentradoespécie de centro de reuniões para onde naturalmente seus esforços em apenas uma delas, ou mesmo em algumasconvergiam os mais renomados artistas e cientistas. Portanto, ciências proximamente relacionadas. No entanto, para ele adesde criança, o pequeno Charles já conduzia sua existência Lógica não era uma opção, mas uma paixão da qual não podianum ambiente de acentuada respiração intelectual. É por isso se desviar, mesmo que quisesse.que químico ele já era, desde os seis anos de idade. Aos 11 É por isso que as poucas e temporárias vezes queanos escreveu uma História da Química; e em Química se penetrou, como professor convidado, os umbrais dabacharelou na Universidade de Harvard. Universidade do seu tempo, foram para ministrar palestras Mas Peirce era também matemático, físico, astrônomo, sobre Lógica. É por isso que, ao ser nomeado membro daalém de ter realizado contribuições importantes no campo da Academia Americana de Ciência e Artes, em 1867, ele nãoGeodésia, Metrologia e Espectroscopia. Era ainda um estudio- apresentou senão cinco estudos, todos sobre Lógica. E, emso dos mais sérios tanto da Biologia quanto da Geologia, assim 3
  4. 4. 1877, ao ser nomeado membro da Academia Nacional de vida, estava trabalhando num livro que se chamaria Um Siste-Ciências (depois de ter sido indicado por cinco anos ma de Lógica, considerada como Semiótica.consecutivos), ele assim o foi, apesar de ter enviado apenas Mas o caminho de Peirce para a Semiótica começouquatro estudos sobre Lógica, pelos quais queria ser julgado um muito, muito cedo. Diz ele:"... desde o dia em que, na idade dehomem da ciência ou não. Ao responderá Academia pela honra 12 ou 13 anos, eu peguei, no quarto de meu irmão mais velho,concedida, Peirce expressou sua satisfação pelo uma cópia da Lógica de Whateley e perguntei ao meu irmão oreconhecimento implícito da Lógica como ciência, que era Lógica, ao receber uma resposta simples, joguei-me no Mesmo assim, foi apenas na edição de 1910 em Quem assoalho e me enterrei no livro. Desde então, nunca esteve emé quem na América que compareceu, pela primeira vez, uma meus poderes estudar qualquer coisa — matemática, ética,referência à profissão de Peirce como aquela de um lógico. metafísica, anatomia, termodinâmica, ótica, gravitação, astro-Mas foi só depois de sua morte que ele passou a ser conside- nomia, psicologia, fonética, economia, a história da ciência,rado um filósofo. E aqui começa uma outra estória. jogo de cartas, homens e mulheres, vinho, metrologia, exceto como um estudo de Semiótica". De tudo isso, cumpre, por enquanto, ser enfatizado que Um só homem dialogando com 25 séculos de foi de dentro do diálogo de um só homem com 25 séculos de filosofia ocidental tradição filosófica ocidental, assim como foi de dentro de um gigantesco corpo teórico que veio gradativamente emergindo a sua teoria lógica, filosófica e científica da linguagem, isto é, a Todo o tempo em que Peirce foi um cientista, ele foi Semiótica. Aproximar-se, portanto, dessa Semiótica, ignorandotambém um filósofo. Aos 16 anos de idade, começou a estudar suas fundações e seu caráter de diálogo com a tradição, éKant e, alguns anos mais tarde, sabia a Crítica da Razão Pura "perder 99% de seu potencial instigador e enriquecedor para ade cor. Não há qualquer campo da especulação filosófica que história da Filosofia.lhe tenha passado despercebido: dos pré-socráticos e gregos Trata-se da obra de um pensador solitário e incansável,aos empiristas ingleses, dos escolásticos a Descartes e todos figura de uma rara e inimaginável envergadura científica, queos alemães... passou praticamente os últimos 30 anos de sua vida estudando Desde muito cedo, quando ele começou na Filosofia, 16 horas por dia, e que deixou para a posteridade nada menospretendeu trazer para esta uma aproximação alternativa que do que 80 000 manuscritos, além de 12 000 páginas publicadastinha, até então, poucos representantes, isto é, a aproximação em vida.ao pensamento filosófico através das ciências. Um filósofo, Considerando-se que, décadas depois de sua morte,portanto, que levou para a Filosofia o espírito da investigação apenas perto de 5.000 páginas (fragmentos mais ou menoscientífica, que assumiu que as disciplinas filosóficas são ou arbitrariamente selecionados por entre essas 80 000) forampodem se tornar também ciências e que, para tal, propôs publicadas; considerando-se que só recentemente, graças aosaplicar na Filosofia, com as modificações necessárias, os esforços de grupos de estudiosos norte-americanos, essesmétodos de observação, hipóteses e experimentos que são manuscritos foram catalogados; considerando-se que só agorapraticados nas ciências. uma edição cronológica da produção de Peirce está sendo Não é difícil se perceber, a partir disso, o vínculo que se preparada para restaurar, senão a integralidade, pelo menos aestabeleceu, no seu pensamento, entre a Lógica e a Filosofia. integridade do seu pensamento, pode-se concluir que é comPara ele, o caminho para a Filosofia tinha de se dar através da muito vagar que sua obra está sendo posta a público. ComLógica, mais particularmente, através da Lógica da ciência. igual vagar está sendo decifrada, devido ao seu alto teor deEste caminho, por seu turno, se bifurcava: de um lado, através complexibilidade e originalidade.da prática das diversas ciências, de outro, através da História Contudo, pelo que me foi dado conhecer por entre essasda ciência. dezenas de milhares de páginas — inclusive consultando Conclusão: se, até quase o final de sua vida, Peirce não diretamente os arquivos de Peirce, nos Estados Unidos —conseguiu ser reconhecido como lógico, não é de se estranhar posso afirmar que a Semiótica peirceana, longe de ser umaque, através do caminho pelo qual optou pela Filosofia, tenha ciência a mais, é, na realidade, uma Filosofia científica daatravessado sua existência inteira, sem jamais ser reconhecido linguagem, sustentada em bases inovadoras que revolucionam,como filósofo. Não é de se estranhar, ainda, por que nenhuma nos alicerces, 25 séculos de Filosofia ocidental. Afirmei isso,Universidade americana soube lhe dar um emprego como com alguma timidez, alguns anos atrás. Cada vez mais, noprofessor: nem como cientista, nem como lógico, nem como entanto, sou levada a confirmá-lo com menos hesitação.filósofo. Peirce chegou cedo demais para o seu próprio tempo. Evidentemente, neste pequeno volume, não poderei senão Conforme uma afirmação de Max H. Fisch (filósofo nor- insinuar certas pistas e aclarar alguns conceitos de sua teoria.te-americano, venerável figura humana que tem dedicado pra- Faço questão dessas afirmações, no entanto, para que elasticamente quase 50 anos de sua existência à recuperação da aqui compareçam como uma espécie de sinal de alerta.obra de Peirce e a cujos artigos devo grande parte das infor- Resta, entretanto, tocar uma outra questão. Não hámações biográficas que ora exponho), "Peirce era uma espécie dúvida de que a tarefa, que assumi levar à frente neste livro,de filósofo que era, em primeiro lugar um cientista, e uma pode parecer ousada: traduzir para um nível de compreensãoespécie de cientista que era, em primeiro lugar, um lógico da bem simples a visão geral de um pensamento e uma teoria queciência. Nenhuma Universidade, grande ou pequena, do seu pulsam em complexibilidades e desbordam de muito o campotempo, soube o que fazer com tal filósofo ou com tal cientista". mais estrito de minha própria capacidade. No entanto, assumo Mas aqui chegamos ao ponto de cercar uma outra ques- os riscos de minhas possíveis e prováveis lacunas. Se atão: o que tem a Semiótica a ver com tudo isso? amplidão de horizontes da Semiótica de Peirce veio muito cedo A resposta, pelo menos em princípio, é simples: desde o para o seu próprio tempo, que, pelo menos, não venha tardecomeço do despertar do seu interesse pela Lógica, Peirce a demais para o nosso próprio tempo. E isso defendo porque,concebeu como nascendo, na sua completude, dentro do tanto quanto posso ver, toda grande descoberta científica,campo de uma teoria geral dos signos ou Semiótica. assim como toda grande obra de criação, não deveria, dePrimeiramente, ele concebeu a lógica propriamente dita (aquilo direito, pertencer a um grupo, uma classe ou mesmo umaque conhecemos como Lógica) como sendo um ramo.da nação, mas ao acervo da espécie humana.Semiótica. Mais tarde, ele adotou uma concepção muito maisampla da Lógica que era quase coextensiva a uma teoria geralde todos os tipos possíveis de signos. Na última década de sua 4
  5. 5. não, são sempre importados de princípios matemáticos e PARA SE LER O MUNDO COMO filosóficos, especialmente dos lógicos. LINGUAGEM O universo está em expansão Embora Peirce considerasse toda e qualquer produção,realização e expressão humana como sendo uma questão Alertamos neste momento para uma questão. Peirce erasemiótica, isto não significa que a ciência semiótica tenha sido um evolucionista de tipo muito especial, nem mecanicista talpor ele concebida como uma ciência onipotente, ou toda como Spencer, nem estritamente materialista, pois, para ele,suficiente, visto que, para ele, qualquer todo suficiente é neces- "materialismo sem idealismo é cego: idealismo semsariamente insuficiente. materialismo é vazio". Isto não significa que professasse, por Nessa medida, dentro do conjunto do seu sistema filosó- outro lado, um evolucionismo idealista. Ele próprio sefico, a Semiótica é apenas uma parte e, como tal, só se toma autodenominou idealista objetivo.explicável e definível em função desse conjunto. Além disso, o O que Peirce na realidade postulava, como base do seupróprio sistema filosófico por ele criado localiza-se como parte pensamento, era a teoria do crescimento contínuo no universode um sistema ainda maior, tal como aparece na sua gigantes- e na mente humana. "O universo está em expansão", dizia ele,ca arquitetura classificatória das diferentes ciências e das rela- "onde mais poderia ele crescer senão na cabeça dosções que elas mantêm entre si. homens?". Esse crescimento contínuo se alicerça, contudo, em Assim sendo, há que se considerar primeiramente três bases lógicas radicalmente dialéticas, visto que o pensamentotipos de ciência: 1) ciências da descoberta, 2) ciências da humano gera produtos concretos capazes de afetar edigestão (as que digerem e divulgam essas descobertas, transformar materialmente o universo, ao mesmo tempo quecriando a partir delas uma nova filosofia da ciência) e 3) são por ele afetados.ciências aplicadas. As ciências da descoberta são: Matemática, Segundo Peirce, não sendo nem as leis da naturezaFilosofia e Ideoscopia ou ciências especiais. Esta última divide- absolutas, mas evolutivas, daí o caráter estatístico dessas leis,se em dois ramos: ciências físicas e ciências psíquicas. os princípios científicos, por seu turno, não chegam a ser senãoEntretanto, este termo "psíquico" tem, na acepção peirceana, fórmulas rigorosas, mas sempre provisórias, no sentido deum caráter tão vasto que, para evitarmos maiores equívocos, estarem sujeitas a mudanças contínuas.melhor seria tomá-lo aqui como sinônimo de ciências humanas. Não há, portanto, princípios absolutos, nem na Na sua classificação, os dois ramos científicos (físicos e Matemática. Cada investigador individual, por mais sistemáticopsíquicos) vão se desmembrando, então, em uma enorme e rigoroso que possa ser seu pensamento, é essencialmentequantidade de ciências, desde as ciências mais gerais às falível. Daí Peirce ter batizado sua teoria de Falibilismo. Issoclassificatórias, passando pelas descritivas até chegar às nos dá uma idéia de sua concepção da ciência e Filosofia comociências aplicadas. processos que amadurecem gradualmente, produtos da mente Evidentemente, não vem ao caso entrarmos aqui nos coletiva que obedecem a leis de desenvolvimento interno, aomeandros dessas divisões. Cumpre, apenas, localizarmos o mesmo tempo que respondem a eventos externos (novaslugar do seu sistema filosófico nessa arquitetura maior e, dentro idéias, novas experiências, novas observações), e quedo seu sistema, o lugar ocupado pela Semiótica. dependem, inclusive, do modo de vida, lugar e tempo nos quais Sua construção filosófica, concebida como ciência e sob o investigador vive.o caráter das ciências da descoberta, localiza-se entre a O próprio sistema peirceano assim cresceu. Todo oMatemática e a Ideoscopia. Apesar de serem essas três as passado filosófico e científico era por ele tomado comomais abstratas de todas as ciências, um nível de generalidade imprescindível material de trabalho. Sua arquitetura teórica nãotal que as torne capazes de fornecer princípios para as ciências foi, desse modo, construída a priori, mas só chegou a sermais particulares, tratam-se, no entanto, todas elas, inclusive a divisada depois de mais de trinta anos de infatigáveisMatemática, de ciências da observação. investigações. A Matemática é observativa na medida em que monta Ouçamos Peirce: "O desenvolvimento das minhas idéiasconstruções na imaginação de acordo com preceitos abstratos, tem sido a indústria de trinta anos. Eu não sabia se um diapassando, então, a observar esses objetos imaginários para chegaria a publicá-las. Seu amadurecimento parecia tãoneles encontrar relações entre partes que não estavam vagaroso. Mas o tempo da colheita chegou, afinal. Em meio aespecificadas no preceito da construção. No entanto, a um contrito falibilismo, combinado com uma elevada fé naMatemática estuda o que é e o que não é logicamente possível, realidade do conhecimento e um intenso desejo de descobrir assem se fazer responsável pela existência atual desse possível. coisas, é que toda a minha filosofia parece ter crescido".Nesse sentido, é a ciência que fornece subsídios e encontra Isso foi pronunciado aos 58 anos de idade, momento emaplicação em todas as outras ciências, inclusive a que Peirce se deu conta da importância de algumas de suasFenomenologia e a Lógica. descobertas para a história da filosofia. Só então seus extensos trabalhos sobre lógica, matemática, teoria do conhecimento, A Filosofia, por seu turno, é também uma ciência pragmatismo, doutrina dos signos, metafísica científica etc.positiva, não no sentido que comumente damos a positivismo, apareceram a ele como constitutivos da construção de umvisto que segundo Peirce os positivistas são os metafísicos sistema consistente e coerente. Só então passou a estruturarmodernos, mas no sentido de se descobrir o que ó realmente sua classificação das ciências na qual seu sistema se encaixa.verdadeiro. Ela se limita, porém, ao tanto de verdade que pode Mas também, foi apenas a partir da localização da Semiótica,ser inferido da experiência comum. É uma ciência no conjunto do seu próprio sistema, isto é, a partir da posiçãofundamentalmente observativa pois que visa colocar em ordem de dependência que esta mantém em relação às ciências queaquelas observações que estão ao aberto para todo homem, devem necessariamente antecedê-la, que Peirce passou a pôrtodo dia e hora. em ordem suas formulações anteriores e a dar prosseguimento A diferença dessas duas primeiras ciências (Matemática a sua doutrina formal de todos os tipos possíveis de signos, oue Filosofia) em relação às ciências especiais reside no fato de seja, a Lógica ou Semiótica.que estas últimas requerem instrumentos e métodos especiaispara que suas observações sejam levadas a efeito. Osmétodos de investigação de que elas se utilizam, queiram ou Uma arquitetura filosófica 5
  6. 6. da ação ou conduta que da Estética recebe seus primeirosVejamos, primeiramente, num gráfico a configuração do edifício princípios. Sob ambas, e delas extraindo seus princípios,filosófico peirceano: estrutura-se em três ramos a ciência Semiótica, teoria dos signos e do pensamento deliberado. Por fim, como última ciência desse edifício aparece a Metafísica ou ciência daI— Fenomenologia realidade.II — Ciências Normáticas Definindo realidade ou real como sendo precisamente 1 — Estética aquilo que é de modo independente das nossas fantasias, pois 2 — Ética que "vivemos num mundo de forças que atuam sobre nós, 3 — Semiótica ou Lógica sendo essas forças, e não as transformações lógicas do nosso 3.1 — Gramática pura próprio pensamento, que determinam em que devemos, por 3.2 — Lógica Crítica 3.3. — Retórica pura fim, acreditar", fica claro por que a Metafísica comparece como resultante e não antecedente de toda sua filosofia.III —Metafísica A Semiótica ou Lógica, por outro lado, tem por função classificar e descrever todos os tipos de signos logicamente Embora o termo fenomenologia ou phaneroscopia, con- possíveis. Isso parece dotá-la de um caráter ascendente sobreforme Peirce preferia chamar, só tenha sido por ele empregado todas as ciências especiais, dado que essas ciências sãopor volta de 1902, quando da construção arquitetônica de seu linguagens. Não era assim, contudo, que Peirce a concebia.sistema, a preocupação fenomenológica constituiu-se na base Para ele, as ciências têm de ser deixadas a cargo de seusfundamental de toda sua filosofia, e já comparecia como inves- praticantes, o que o conduz, como lógico, apenas à elucidaçãotigação primordial desde seus escritos em 1867. dos métodos e tipos de pensamento utilizados pelas diversas ciências.Para ele, a primeira instância de um trabalho filosófico é a Como filósofo, no entanto, Peirce era muito mais ambi-fenomenológica. A tarefa precípua de um filósofo é a de criar a cioso. Através de sua fenomenologia, pretendia gerar umaDoutrina das Categorias, que tem por função realizar a mais fundamentação conceituai para uma filosofia arquitetônica,radical análise de todas as experiências possíveis. baseada em uns poucos conceitos simples e suficientementeInsatisfeito com as categorias aristotélicas, consideradas como vastos a ponto de dar conta do "trabalho inteiro da razãocategorias mais lingüísticas do que lógicas, profundamente humana". Esses conceitos, a partir dos 58 anos, Peirce estavainfluenciado por Kant, mas considerando suas categorias, certo de tê-los atingido com as suas categorias.extraídas da análise lógica da proposição, como sendo Nessa medida, sem uma inteligibilidade cuidadosa emateriais e particulares e não formais e universais, Peirce acurada das categorias peirceanas, assim como de suadedicou grande parte de sua existência à elaboração, aperfei- phaneros-copia (descrição dos Phanerons ou fenômenos),çoamento e ampliação do campo de aplicação das suas cate- muito pouco pode toda sua teoria ser compreendida,gorias universais, categorias estas que não brotaram nem de principalmente a Semiótica, que da Fenomenologia extrai todospressupostos lógicos, nem da língua, mas do exame atento e os seus princípios.perscrutante da "experiência" ela mesma. Aproximar-se, assim, da Semiótica peirceana na Com Hegel, Peirce manteve relações contraditórias. ignorância ou desprezo por essa viagem fenomenológica (longaDesprezava seu idealismo absoluto ao mesmo tempo que o viagem que exige de nós a paixão paciente pela decifração dosconsiderava "o mais grandioso dentre todos os filósofos que já conceitos) redundará, sem escapatória, numa utilização anê-existiram". Via as categorias hegelianas como puramente ma- mica e tecnicista de suas classificações e definições de signos.teriais e também particulares mas enxergava, nos três estágios Não por acaso estou aqui pondo tanta ênfase nas fundaçõesdo pensamento formulados por Hegel, profundas semelhanças fenomenológicas da Semiótica, único meio de se evitar o usocom suas categorias fenomenológicas universais. leviano e mecanicista de seus conceitos. Peirce era adepto da Isso não pode nos levar a apressadamente afirmar, con- criação de novas palavras para designar significados científicostudo, que o pensamento peirceano tenha qualquer débito para novos. Sua terminologia é, nessa medida, estranhíssima.com Hegel. É Peirce quem diz: "Embora meu método apresente Contudo, mais estranha, porque vazia, é a apropriação mera-uma similaridade muito geral com o de Hegel, seria histori- mente terminológica e redutora dos seus conceitos semióticos,camente falso considerá-lo uma modificação do método sem o lento escrutínio de seus meandros.hegeliano. Ele veio à luz através do estudo das categorias Por outro lado, só a partir da Fenomenologia é que sekantianas e não das hegelianas". pode extrair a possibilidade por nós enunciada no título deste Foi só depois de ter elaborado sua própria doutrina das capítulo (Para se ler o mundo como linguagem), que não secategorias é que Peirce veio a se dar conta de suas semelhan- constitui em mera frase de efeito, mas num fruto efetivo que oças genéticas com os estágios hegelianos, o que, para ele, só estudo fenomenológico está habilitado a nos oferecer.servia como mais uma comprovação de que suas categorias Que passemos, pois, a ele. Sem qualquer pretensão,estavam no caminho certo. contudo, de podermos aqui explorar com detalhes um campo Delineados esses pressupostos, voltemos à sua arquite- que se desenvolveu por muito mais de mil e umatura filosófica. A Fenomenologia, como base fundamental para páginas dos escritos de Peirce. Daí que nossa opção seja, aqualquer ciência, meramente observa os fenômenos e, através par da transmissão de alguns conceitos certos fundamentais,da análise, postula as formas ou propriedades universais des- também aquela de distribuir certos semáforos no caminho dosses fenômenos. Devem nascer daí as categorias universais de que, no futuro, se dispuserem a percorrer com mais vagar astoda e qualquer experiência e pensamento. Numa recusa cabal veredas da Fenomenologia e Semiótica peirceanas.a qualquer julgamento avaliativo a priori, a Fenomenologia étotalmente independente das ciências normativas. É, porém, sob a base da Fenomenologia que as ciênciasnormativas se desenvolvem obedecendo à seqüência seguinte:Estética, Ética e Semiótica ou Lógica. Tendo todas elas porfunção "distinguir o que deve e o que não deve ser", a Estéticase define como ciência daquilo que é objetivamente admirávelsem qualquer razão ulterior. É a base para a Ética ou ciência 6
  7. 7. Foi só através da observação direta dos fenômenos, nosABRIR AS JANELAS: OLHAR PARA modos como eles se apresentam à mente, que as categorias O MUNDO universais, como elementos formais do pensamento, puderam ser divisadas. Pela acurada e microscópica observação de tudo o que aparece, Peirce extrai os caracteres elementares e gerais Não há nada, para nós, mais aberto ã observação do da experiência que tornam a experiência possível. Desseque os fenômenos. modo, sua pequena lista de categorias consiste de concepções Entendendo-se por fenômeno qualquer coisa que esteja simples e universais. Elementares porque são constituintes dede algum modo e em qualquer sentido presente à mente, isto é, toda e qualquer experiência, universais porque são necessáriasqualquer coisa que apareça, seja ela externa (uma batida na a todo e qualquer entendimento que possamos ter das coisas,porta, um raio de luz, um cheiro de jasmim), seja ela interna ou reais ou fictícias.visceral (uma dor no estômago, uma lembrança ou A 14 de maio de 1867, depois de três anos que, muitoreminiscência, uma expectativa ou desejo), quer pertença a um mais tarde, Peirce confessou, em várias cartas, terem sido ossonho, ou uma idéia geral e abstrata da ciência, a anos de maior esforço intelectual de toda sua vida, esforço malfenomenologia seria, segundo Peirce, a descrição e análise das interrompido sequer para o sono, vieram à luz, num artigoexperiências que estão em aberto para todo homem, cada dia e intitulado "Sobre uma nova lista de categorias", suas trêshora, em cada canto e esquina de nosso cotidiano. categorias universais de toda experiência e todo pensamento. A fenomenologia peirceana começa, pois, no aberto, Considerando experiência tudo aquilo que se forçasem qualquer julgamento de qualquer espécie: a partir da sobre nós, impondo-se ao nosso reconhecimento, e nãoexperiência ela mesma, livre dos pressupostos que, de confundindo pensamento com pensamento racional (deliberadoantemão, dividiriam os fenômenos em falsos ou verdadeiros, e auto-controlado), pois este é apenas um dentre os casosreais ou ilusórios, certos ou errados. Ao contrário, fenômeno é possíveis de pensamento, Peirce conclui que tudo que aparecetudo aquilo que aparece à mente, corresponda a algo real ou à consciência, assim o faz numa gradação de três propriedadesnão. que correspondem aos três elementos formais de toda e Suportada por esse modo de partir em estado de qualquer experiência.liberdade, a fenomenologia tem por tarefa, contudo, dar à luz as Em 1867, essas categorias foram denominadas:categorias mais gerais, simples, elementares e universais de 1) Qualidade,- 2) Relação e 3) Representação. Algumtodo e qualquer fenômeno, isto é, levantar os elementos ou tempo depois, o termo Relação foi substituído por Reação e ocaracterísticas que pertencem a todos os fenômenos e partici- termo Representação recebeu a denominação mais ampla depam de todas as experiências. Mediação. Mas, para fins científicos, Peirce preferiu fixar-se na A tarefa não é fácil. As coisas, quando nos aparecem, terminologia de Primeiridade, Secundidade e Terceiridade, porsurgem numa miríade de formas, enoveladas numa multiplica- serem palavras inteiramente novas, livres de falsas associa-ção de sensações, além de que tendem a se enredar às ções a quaisquer termos já existentes.malhas das interpretações que inevitavelmente fazemos das Mais à frente, demonstraremos, através de váriascoisas. exemplificações, o caráter e funcionamento dessas categorias Dizia Peirce: "A fenomenologia ou doutrina das na consciência. Antes porém, que alertemos para algunscategorias tem por função desenredar a emaranhada meada pontos que nos parecem importantes.daquilo que, em qualquer sentido, aparece, ou seja, fazer a O resultado a que Peirce chegou nesse estudo de 1867análise de todas as experiências é a primeira tarefa a que a não foi imediatamente visto com bons olhos nem mesmo porfilosofia tem de se submeter. Ela é a mais difícil de suas seu próprio autor. Parecia-lhe fantasia absurda e detestáveltarefas, exigindo poderes de pensamento muito peculiares, a reduzir toda a multiplicidade e diversidade dos fenômenos aohabilidade de agarrar nuvens, vastas e intangíveis, organizá-las número três e, sobretudo, a uma gradação de 1, 2, 3. Apesarem disposição ordenada, recolocá-las em processo". dos três anos mal interrompidos para o sono que esse estudo Trata-se, portanto, de um estudo que, suportado pela havia lhe exigido, apesar de seu profundo conhecimento deobservação direta dos fenômenos, discrimina diferenças grande parte da história da filosofia, apesar de saber a Críticanesses fenômenos e generaliza essas observações a ponto de da Razão Pura de cor, nada naquele momento parecia demo-ser capaz de sinalizar algumas classes de caracteres muito vê-lo do descrédito em que ele próprio havia colocado suasvastas, as mais universais presentes em todas as coisas que a categorias.nós se apresentam. Nessa medida, são três as faculdades que devemosdesenvolver para essa tarefa: 1) a capacidade contemplativa, Categorias do pensamento e da naturezaisto é, abrir as janelas do espírito e ver o que está diante dosolhos; 2) saber distinguir, discriminar resolutamente diferenças Dezoito anos mais tarde, Peirce escreveu um outronessas observações; 3) ser capaz de generalizar as observa-ções em classes ou categorias abrangentes. artigo, até hoje parcialmente inédito, com o seguinte título: "1, A princípio, Peirce tentou estabelecer suas categorias a 2, 3, Categorias do Pensamento e da Natureza". Com isso, aspartir da análise material dos fenômenos (por exemplo : como categorias universais ou elementos do pensamento, dezoitocoisas de madeira, de aço, de carne e osso etc), mas a anos antes descobertas pela análise lógica do fenômeno mental,diversidade infinita da materialidade das coisas fê-lo abandonar eram agora estendidas para toda a natureza. Isso significa queeste ângulo de sua empresa, empreendendo seu caminho pelo aquelas mesmas categorias, por ele desmerecidas muitos anoslado formal ou estrutural dos fenômenos. antes, voltavam agora com maior vigor. Ou Peirce permaneceu O que quer isso dizer? Apesar de apresentar uma fiel à sua obsessão ou sua obsessão lhe permaneceuatitude de retorno à experiência mesma que temos do mundo, fiel.apesar de partir da observação acurada dos próprios Entre 1867 e 1885, repetidamente Peirce encontrou, nasfenômenos, Peirce chega às suas categorias através da análise ciências da natureza e do pensamento, confirmações inde-e do atento exame do modo como as coisas aparecem à pendentes que corroboravam suas três idéias. A tríade estavaconsciência. Que razão pode haver para que um cientista, continuamente aparecendo na lógica e nas ciências especiais,treinado em laboratório, cuja aptidão para as ciências positivas primeiro na psicologia, então na fisiologia e na teoria dasera de um raro teor, devesse começar pela análise dos células, finalmente na evolução biológica e no cosmos físicofenômenos mentais? 7
  8. 8. como um todo. ou visceral, que se espalha de gânglio a gânglio; 2) ação Em 1890, Peirce escreveu: "A importância das categorias reflexa repetitiva ou descarga neuronal, adaptada para removerchegou à minha casa originalmente no estudo da lógica, onde a excitação; 3) estabelecimento de passagens neuronais, ou aelas são responsáveis por partes tão consideráveis que fui fixação de hábitos ou crenças. Note-se que hábitos ou crençaslevado a procurá-las na psicologia. Encontrando-as aí, tam- devem ser entendidos aqui como composições neuronais quebém, não pude evitar me perguntar se elas não entravam na tendem a se fixar, ou seja, entendidos num sentido fisiológicofisiologia do sistema nervoso. Orientando-se um pouco sobre que certamente produz efeitos psicológicos e comportamentais.hipótese, consegui detectá-las lá... Não tive dificuldades em Para Peirce, uma crença se alicerça e se aloja fisiologicamente,seguir o conduto dentro do domínio da seleção natural; e uma como um hábito cerebral que determinará o que faremos na fantasia assim como na ação concreta,vez atravessado esse ponto, fui irresistivelmente carregado Desse modo, nosso hábitos estão incorporados na fisio-para especulações com respeito à física". logia dos nossos cérebros de modo que eles estruturam nossos Em suma: a aplicação das categorias do pensamento à comportamentos de maneira a torná-los não mais espontâneosnatureza não foi uma determinação imposta pela descoberta ou cegos. No entanto, a espontaneidade e o acidentalnum campo que passou a ser arbitrariamente aplicada a todos os coexistem junto ao hábito e a sua revelia.demais, nem ocorreu gradualmente por imperceptíveis mu- 4) Na física: 1) Acaso, 2) Lei e 3) Tendência ou propensão adanças de visão. Ao contrário, foi o resultado de uma série de assumir hábitos; Note-se que a primeira categoria incorpora asaltos relacionados de um campo ao outro, culminando num indeterminação do acaso no mundo físico e que, para Peirce, assalto especulativo de caráter cosmológico. No fim de sua vida, leis são sempre contingentes, ou melhor, fatos de observação e,Peirce estava se movendo na direção de uma cosmologia como tal, contingentes, visto que toda observação contém umevolucionista que tinha na mente sua categoria explanatória traço de inexatidão. Nessa medida, as leis da natureza não sãoprincipal. Chegar a essa lúcida adivinhação cosmológica foi vistas como absolutas e invariantes, Há espaço para opara Peirce, no entanto, uma longa viagem. crescimento contínuo (3º) e para acaso genuíno (1°). Sua precaução natural, reforçada pelo temperamento Como se pode ver, as categorias fundamentais, encon-científico, levou-o a trabalhar 30 anos em busca de verificação tradas no pensamento e descobertas pela análise reflexiva dosempírica para suas categorias nos mais diversos campos. fenômenos, estão também presentes na natureza básica deNessa medida, seu conjunto de categorias extraídas da análise todas as coisas, sejam elas físicas ou psicológicas. Observe-se,lógica do pensamento não deveriam, segundo ele, ser aplicadas contudo, que essas categorias são as mais universalmentea todos os seres, antes que cada categoria tivesse sido presentes em todo e qualquer fenômeno. Como tal, sãoempiricamente verificada. Ou, conforme ele diz: "Na minha conceitos simples aplicáveis a qualquer objeto. Não excluem,opinião, cada categoria tem de se justificar através de um portanto, a variabilidade infinita de outras tantas categoriasexame indutivo do que resultará dotar a categoria apenas de particulares e materiais, passíveis de serem encontradas nosuma validade aproximativa". fenômenos. Só depois de ter comprovado a universalidade de aplicação Tratam-se, pois, de idéias tão amplas que devem serdas categorias, Peirce se julgou apto a erigir seu sistema consideradas mais como tons ou finos esqueletos do pensa-filosófico, cuja base estaria num livro infelizmente inacabado, mento e das coisas do que como noções estáticas e terminais. AoUma Adivinhação para o Enigma (1890), e cujo argumento se contrário, são dinâmicas, interdependentes e, a cada campo emdesenvolve através do exame das três categorias aplicadas de que se aplicam, apresentam-se nas modalidades própriasum campo a outro: da lógica à psicologia, desta à fisiologia até o daquele campo. O que se mantém em todos os campos é oprotoplasma ele mesmo, então do domínio da seleção natural até substrato lógico dos caracteres de 1º, 2º e 3º.a física. Para se ter uma idéia da amplitude e abertura máxima Por curiosidade, passarei a sintetizar os diferentes carac- dessas categorias, basta lembrarmos que, em nível mais geral, ateres ou matizes que suas categorias adquirem nos diferentes 1º corresponde ao acaso, originalidade irresponsável e livre,campos a que se aplicam: variação espontânea; a 2º corresponde à ação e reação dos 1) Na teoria do protoplasma: as propriedades do proto- fatos concretos, existentes e reais, enquanto a 3º.° categoria dizplasma são como se segue: contração, irritabilidade, respeito à mediação ou processo, crescimento contínuo e devirautomatismo, nutrição, metabolismo, respiração e reprodução. sempre possível pela aquisição de novos.hábitos. O 3o pres-Essas propriedades, no entanto, podem ser condensadas sob supõe o 2o e 1º; o 2º pressupõe o 1P; o 1o é livre. Qualquertrês grandes eixos: sensibilidade, movimento e crescimento. relação superior a três é uma complexidade de tríades.Numa antevisão monumental das atuais teorias biológicas, sua Como exemplificação mais detalhada dessas categorias,teoria molecular do protoplasma repousa na afirmação de que escolhemos o campo das manifestações psicológicas, istoa consciência pertence a todo protoplasma e não pode ser porque, neste campo, estaremos nos referindo aos elementosexplicada mecanicamente. Com isso, Peirce afirma que a vida sedesenvolve através da interação dialética entre acaso e ou categorias de um fenômeno que é o mais perfeitamentedesígnio, palavras dele que antecedem de quase um século o familiar a todas as pessoas, visto que faz parte integrante detítulo do polêmico livro de Jacques Monod: Acaso e Necessi- nossa vivência cotidiana, assim como das experiências quedade. fazem de nós seres humanos, acordados ou sonhando. 2) Na teoria da evolução: há três modos de evolução Com isso, qualquer leitor estará apto a julgar e conferiroperativos de maneira interdependente no universo: 1) o que por si mesmo, no cotejo com suas próprias observações, aenvolve acaso e pura espontaneidade, ligado à teoria darwiniana validade dessas noções de 1º, 2º e 3º.da evolução por variações acidentais e destruição das Notemos, contudo, o fato de que essas categorias nãoespécies cuja habilidade de se reproduzir torna-se frágil; 2) são psicológicas. Foram, ao contrário, extraídas da análiseevolução ligada à teoria dos cataclismos, ou seja, devida a mais rigorosamente lógica do que aparece no mundo. Pormudanças súbitas no ambiente externo e à ruptura de hábitos; 3) outro lado, não estamos também aí lidando com metafísica,associada com a teoria de Lamarck, evolução através do efeito mas com lógica apenas. Ouçamos Peirce: "Não perguntamos odo hábito. que realmente existe, apenas o que aparece a cada um de nós 3) Na fisiologia: mais especialmente, na fisiologia da em todos os momentos de nossa vida. Analiso a experiência, queatividade cerebral. Esta pode ser sintetizada do seguinte modo: a é a resultante de nossa vida passada, e nela encontro trêsação nervosa que subjaz ao processo do pensamento divide-se elementos. Denomino-os categorias".em três grandes estágios: 1) excitação nervosa, seja periférica São, portanto, categorias lógicas que aqui aplicaremos ao 8
  9. 9. campo das manifestações psicológicas não só porque, como entenda essas categorias como entidades mentais, mas comotal, as categorias se nos apresentam como coisas vivas e modos de operação do pensamento-signo que se processamvividas, mas também porque, a partir disso, tornar-se-á claro por na mente. Assim sendo, consciência não é tomada como umaque, para nós, o mundo aparece e se traduz como linguagem, espécie de alma ou espírito etéreo, mas como lugar ondefundamento de toda a Semiótica. interagem formas de pensamento. As categorias, portanto, dizem respeito às modalidades peculiares com que os pensamentos são enformados e entretecidos. Enfim: camadas Qualidade de sentimento... conflito... interpenetráveis e, na maior parte das vezes, simultâneas, se interpretação bem que qualitativamente distintas. Essas três categorias irão para o que poderíamos chamar Exemplificar as categorias como manifestações psicoló- três modalidades possíveis de apreensão de todo e qualquergicas significa examinar os modos mais gerais conforme os fenômeno. Certamente há infinitas gradações entre essas mo-quais se dá a apreensão dos fenômenos na consciência. Para dalidades. Elas se constituem, no entanto, nas modalidadestal, esclareçamos o que Peirce entende por consciência. mais universais e mais gerais, através das quais se opera a Consciência não se confunde com razão. Consciência é apreensão-tradução dos fenômenos. Senão vejamos:como um lago sem fundo no qual as idéias (partículas materiais daconsciência) estão localizadas em diferentes profundidades e em Primeiridadepermanente mobilidade. A razão (pensamento deliberado) éapenas a camada mais superficial da consciência. Aquela que Se fosse possível parar, para examinar, num determinadoestá próxima da superfície. Sobre essa camada, porque instante, de que consiste o todo de uma consciência, qualquersuperficial, podemos exercer autocontrole e também, porque consciência, a minha ou a sua, isto é, de que consiste essesuperficial, é a ela que nossa autoconsciência está atada. Daí labiríntico "lago sem fundo", num instante qualquer em que é otendermos a confundir consciência com razão. No entanto, se que é, por que é tudo ao mesmo tempo, repito, se fossebem que a razão seja parte da consciência, ela não compõe,nem de longe, o todo da consciência. possível parar essa consciência no instante presente, ela não Apesar de não restringir consciência à razão, isto não seria senão presentidade como está presente. Trata-se, pois, designifica que Peirce menosprezasse a razão. Sua lógica, aliás, se uma consciência imediata tal qual é. Nenhuma outra coisapropõe como sendo um método científico para orientar o senão pura qualidade de ser e de sentir. A qualidade da cons-raciocínio. Sua lógica se estrutura, portanto, como a criação de ciência imediata é uma impressão (sentimento) in totum, indi-instrumentos científicos para auxiliar e ampliar o poder da visível, não analisável, inocente e frágil.razão. Contudo, sua noção de consciência é ampla, dinâmica, Tudo que está imediatamente presente à consciência deem alguns aspectos próxima dos estudos da estrutura psíquica alguém é tudo aquilo que está na sua mente no instanteem Freud e mais próxima ainda da noção de consciência que as presente. Nossa vida inteira está no presente. Mas, quandoatuais pesquisas do cérebro estão nos dando. perguntamos sobre o que está lá, nossa pergunta vem sempre muito tarde. O presente já se foi, e o que permanece dele já está Confiramos com Peirce: "Tal era o dictum da velha grandemente transformado, visto que então nos encontramos empsicologia que identificava a consciência com o ego, declarava outro presente, e se pararmos, outra vez, para pensar nele, elesua absoluta simplicidade e mantinha que suas faculdades também já terá voado, evanescido e se transmutado num outroeram meros nomes para divisões lógicas da atividade humana. presente.Isso tudo era a mais pura fantasia. A observação dos fatos O sentimento como qualidade é, portanto, aquilo que dáagora nos ensinou que o cego é uma mera onda na consciência,um traço pequeno e superficial; ensinou-nos ainda que a sabor, tom, matiz à nossa consciência imediata, mas é tambémconsciência pode conter diversas personalidades e é tão paradoxalmente justo aquilo que se oculta ao nosso pensa-complexa quanto o cérebro ele mesmo, e que as faculdades, mento, porque para pensar precisamos nos deslocar no tempo,embora não absolutamente fixáveis e definíveis, são tão reais deslocamento que nos coloca fora do sentimento mesmo quequanto o são as diferentes circunvoluções do cérebro". tentamos capturar. A qualidade da consciência, na sua Ao levar o rigor científico ao máximo de suas possibilida- imediaticidade, é tão tenra que não podemos sequer tocá-lades, Peirce acaba encontrando, pelas vias do Ocidente, uma sem estragá-la.concepção de consciência que se aproxima muito mais da Por exemplo: aí está você, em algum lugar, provavelmentefilosofia oriental do que de qualquer um dos sistemas filosóficos sentado, lendo este livro. Tome agora o que está em suaque o mundo ocidental produziu. Desse modo, tomando-se consciência em qualquer um dos seus simples momentos. Háconsciência como um todo, nada há nela senão estados mutáveis. primeiro uma consciência geral da vida. Então, há a reunião deO que chamamos racionalidade sofre, a todo momento, a influência pequenas sensações epidérmicas de sua roupa. Há, então, ode interferências fora do nosso controle. senso da qualidade geral do lugar em que você está. Há As interferências são internas, isto é, as que vêm das também a consciência de estar só, se estiver só. Então, há aprofundezas do nosso mundo interior, e externas, as que dizem luz, uma sensação muito vaga do cheiro e da temperatura dorespeito às forças objetivas que atuam sobre nós. Essas forças ambiente e do seu corpo, um certo gosto na boca... Então, asvão desde o nível das percepções que, pelo simples fato de letras impressas neste livro as quais, em qualquer um dosestarmos vivos, nos inundam a todo instante, até o nível das instantes, serão a mera apreensão de um simples traço. Há,relações interpessoais, intersubjetivas, ou seja, as relações de ainda, um conjunto de noções, o provável sentimento de estaramizade, vizinhança, amor, ódio etc, encontrando ainda as compreendendo o que estou tentando lhe transmitir. Em adi-forças sociais que atuam sobre nós: as condições reais de ção, há centenas de coisas no fundo de sua consciência:nossa existência social, isto é, as relações formais de classes lembranças vagas, desejos indiscerníveis, sentimentos muitosociais que variam de acordo com as determinações históricas gerais de estar mais ou menos bem ou de estar mais ou menosdas sociedades em que se vive. mal. Sua vida inteira está aí com você em cada lapso de instante A partir disso, podemos nos aproximar de suas em que você está existindo.categorias que são, para ele, os três modos como os Esse é o melhor modo em que posso descrever o quefenômenos aparecem à consciência. Contudo, que não se está em sua consciência num simples momento. Mas levei considerável tempo e usei muitas palavras para descrevê-lo. 9
  10. 10. Impossível, pois, capturar o que está em sua mente tal como de comparação, interpretação ou análise. Consciência as-está, visto que tento capturar justamente a consciência In totum de somada pela mera qualidade de um sentimento positivo, sim-uma presentidade. Pela natureza mesma do pensamento e da ples, intraduzível.linguagem, sou obrigada a quebrar sua consciência em Note-se, contudo, que Peirce tem aí a precaução de nãopedaços para descrevê-la. Isso requer reflexão e a reflexão confundir a qualidade de sentimento de uma cor vermelha, porocupa tempo. exemplo, de um som ou de um cheiro, com os próprios objetos A consciência de um momento, contudo, como ela está percebidos como vermelhos, sonantes ou cheirosos. Cons-naquele exato momento, não é reflexionada nem quebrada em ciência em primeiridade é qualidade de sentimento e, por issopedaços. Como eles estão naquele vero momento, todos os mesmo, é primeira, ou seja, a primeira apreensão das coisas,elementos de impressão estão juntos e são um único sentimento que para nós aparecem, já é tradução, finíssima película de mediação entre nós e os fenômenos. Qualidade de sentir é oindivisível e sem partes. O que foi destilado pela fragmentação modo mais imediato, mas já imperceptivelmente medializado dedescritiva, como sendo partes do sentimento, não são nosso estar no mundo. Sentimento é, pois, um quase-signo dorealmente partes desse sentimento como ele está no exato mundo: nossa primeira forma rudimentar, vaga, imprecisa emomento em que está presente; elas são o que aparece como indeterminada de predicação das coisas.tendo estado lá, quando refletimos sobre o sentimento, depois Esse estado-quase, aquilo que é ainda possibilidade deque ele passou. Como ele é sentido, no momento em que lá ser, deslancha irremediavelmente para o que já é, e no seu irestá, essas partes não são reconhecidas e, portanto, essas sendo, já foi. Entramos no universo do segundo.partes não existem no sentimento ele mesmo. Nessa medida, o primeiro (primeiridade) é presente eimediato, de modo a não ser segundo para uma representação. Eleé fresco e novo, porque, se velho, já é um segundo em relação Secundidadeao estado anterior. Ele é iniciante, original, espontâneo e livre,porque senão seria um segundo em relação a uma causa. Ele Há um mundo real, reativo, um mundo sensual, inde-precede toda síntese e toda diferenciação; ele não tem nenhuma pendente do pensamento e, no entanto, pensável, que seunidade nem partes. Ele não pode ser articuladamente pensado; caracteriza pela secundidade. Esta é a categoria que a asperezaafirme-o e ele já perdeu toda sua inocência característica, porque e o revirar da vida tornam mais familiarmente proeminente. É aafirmações sempre implicam a negação de uma outra coisa. arena da existência cotidiana. Estamos continuamentePare para pensar nele e ele já voou. esbarrando em fatos que nos são externos, tropeçando em O que é o mundo para uma criança em idade tenra, antes obstáculos, coisas reais, factivas que não cedem ao mero saborque ela tenha estabelecido quaisquer distinções, ou se tornado de nossas fantasias. Enfim: "a pedra no meio do caminho" de queconsciente de sua própria existência? Isso é primeiro, presente, nos fala Carlos Drummond de Andrade.imediato, fresco, novo, iniciante, original, espontâneo, livre, O simples fato de estarmos vivos, existindo, significa, a todovivido e evanescente. Mas não se esqueça: qualquer descrição momento, consciência reagindo em relação ao mundo. Existir edele deve necessariamente falseá-lo. sentir a ação de fatos externos resistindo à nossa vontade. É por Mas o que quer isso dizer? Que não existe para nós, isso que, proverbialmente, os fatos são denominados brutos: fatosadultos, senão a nostalgia de uma experiência de primeiridade? brutos e abruptos. Existir ó estar numa relação, tomar um lugar naEstamos para sempre fadados à perda irrecuperável desse infinita miríade das determinações do universo, resistir e reagir,sabor do viver? Não, em termos. O fato de que essa experiência ocupar um tempo e espaço particulares, confrontar-se com outrosnão possa ser descrita não significa, em primeiro lugar, que não corpos... Certamente, onde quer que haja um fenômeno, há umapossa ser indicada ou imaginativamente criada. qualidade, isto é, sua primeiridade. Mas a qualidade é apenas Em segundo lugar, e isto é o mais importante, de qualquer uma parte do fenômeno, visto que, para existir, a qualidade temcoisa que esteja na mente em qualquer momento, há necessa- de estar encarnada numa matéria. A factualidade do existirriamente uma consciência imediata e conseqüentemente um (secundidade) está nessa corporificação material.sentimento. Qualidades de sentimento estão, a cada instante, lá, A qualidade de sentimento não é sentida como resistindomesmo que imperceptíveis. Essas qualidades não são nem num objeto material. É puro sentir, antes de ser percebido comopensamentos articulados, nem sensações, mas partes consti- existindo num eu. Por isso, meras qualidades não resistem. É atuintes da sensação e do pensamento, ou de qualquer coisa que matéria que resiste. Por conseguinte, qualquer sensação já éesteja imediatamente presente em nossa consciência. pivô do pensamento, aquilo que move o pensar, retirando-o Há instantes fugazes, entretanto, e nossa vida está prenhe da do círculo vicioso do amortecimento.possibilidade desses instantes, em que a qualidade de sentir Falar em pensamento, no entanto, é falar em processo,assoma como um lampejo, e é como se nossa consciência e o mediação interpretativa entre nós e os fenômenos. É sair,universo inteiro não fossem, naquele lapso de instante, senão uma portanto, do segundo como aquilo que nos impulsiona para opura qualidade de sentir. universo do terceiro. Embora qualidade de sentimento só possa se dar no Antes de penetrarmos no devir incessante do pensamentoinstante mesmo de uma impressão não analisável e incapturável, como representação interpretativa do mundo, que fique claro queou seja, num simples átimo, esse momento de impressão, nossas reações à realidade, interações vivas e físicas com adependendo do estado em que a consciência se encontra, materialidade das coisas e do outro, já se constituem empode se prolongado. respostas sígnicas ao mundo, marcas materiais perceptíveis em Levantemos, por exemplo, algumas instâncias de quali- maior ou menor grau que nosso existir histórico e social,dades de sentir ao imaginarmos um estado mental caracterizado circunstancial e singular vai deixando como pegadas, rastros depor uma simples qualidade positiva: o sabor do vinho, a nossa existência.qualidade de sentir amor, perfume de rosas, uma dor de cabeça Agir, reagir, interagir e fazer são modos marcantes, con-infinita que não nos permite pensar nada, sentir nada, a não ser a cretos e materiais de dizer o mundo, interação dialógica, ao nívelqualidade da dor. Um instante eterno, sem partes, indiscernível da ação, do homem com sua historicidade.de prazer intenso ou a sutil qualidade de sentir quando vamosgentilmente acordando, dóceis, ao som de uma música. Tratam-se de estados de disponibilidade, percepção cân-dida, consciência esgarçada, desprendida e porosa, aberta aomundo, sem lhe opor resistência, consciência passiva, sem eu, Terceiridadeliberta dos policiamentos do autocontrole e de qualquer esforço Três elementos constituem todas as experiências. Eles são 10

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