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  1. 1. "Olhar e ver esta peça é entrar no âmago da pintura, é perceber-lhe acarne e a palpitação. O que o século XX trouxe para o domínio dasartes, além da sua destruição, foi a gratificação e a reinventar, arran-cando-lhe novos símbolos e perturbantes reconstruções.Hoje, a carne da pintura pendura-se do gancho do imaginário, plural,convivente, desde a tela lisa aos mares tormentosos onde flutuam osdestroços da nossa civilização. Entre estes seres rochosos, cúmulos daadversidade e da aventura dos materiais semi-livres."de Rocha de Sousa Cristo para o altar de todos os Espantos
  2. 2. OLHARESRocha de SousaMaria João FrancoCORPO TANGÍVELA certa altura da vida, Maria João Franco sentiu o seu corpo partido em dois,entre um silêncio frio e um fact0 lancinante. Metade de si soçobrava com amorte de alguém. E a outra metade, ardente e tangível, teve de abraçar todaa vida já vivida, além da que estaria para se acercar de si, a cobrar-lhe ascontas do presente e do futuro. O sonho de então foi simultaneamentetumular e sangrento, sobretudo através de uma pintura que tinha de ser feita,assim, segundo o protesto surdo do medo, na solidão e na intransigência dasimagens. É por isso que ela parece ter fixado um estilo, um imparável modode formar.Maria João vive, digamos assim, uma ancoragem inabalável à memóroa docorpo que ainda lhe resta e que representa, afinal, dos ângulos mais difíceis,na vertigem mais insuportável, assumindo todas as diferenças e todas assemelhanças com a matéria orgânica, os metais brutos, a pedra cinzelada deforma a sugerir diversos pontos de decomposição e restos ainda lisos da pele.Pele por vezes amaciando músculos aquém das mutilações pressentidas oumesmo expostas.Esta prioridade conferida ao discurso matérico, de alguma violência, tem dese compreender a montante e na hora em que a escolha está contida numespaço restrito, no estreitamento da dor. Fazendo da sua metade anímica umprojecto de vida, um modo de se exprimir pela totalidade, Maria João abriu àforça das mãos um caminho ao mesmo tempo preciso mas quase insustentávelnas insistentes dilacerações. O corpo era assunto e era tema, minuto dosinstante tangíveis em que tudo se duplicava pelas entregas, um abraço dedesejo, de partilha, exposto como nudez escultórica, bronze ou pedra, tudovertido para a palpitação textural da pintura — medida, tempo, angústia. Osmeios de instauração plástica traduziam, assim, uma ampla oratória dosgestos, grafias insondáveis, recortes perceptíveis, o habitual e antigo desafioda expressão aos limites da percepção. Mas o sofrimento e a grandezadestacam-se da massa, presos no campo como os contrastes da formafingidamente inacabada dos «Escravos», de Miguel Ângelo.
  3. 3. Os nomes intensos e humanosMaria João Franco não tem sido eleita entre os eleitos, apesar da sua obrajuntar tradições modernas com nomes intensos, com valores de um profundosentido do humano. Hoje voltam a ser louvadas as «histórias», em contradiçãocom a anterior exigência incontrolável da forma abstracta: porque os restosfigurativos da perplexidade e da revolta já só tinham lugar museológico enenhum futuro à vista. Quem retratava ou representava, fazia bonecos,circunscrevia-se ao pior da tradição, pequeno discurso de narrativasilustradas. Mas as ideologias da estética totalitária mão tinham verdadeirocabimento no domínio das disciplinas de índole artística, porque, como játenho sublinhado, a arte não se realiza sob o império dos dogmas nem seencerra num só tamanho da verdade na variedade. Todos os modos de darforça expressiva à comunicação pelas imagens, por exemplo, são processos deum fazer entregue ao imaginário, tornando os sonhos coláveis ao real para o«tornar visível». E as artes mais se abriram à inovação, a matérias e formassurpreendentes, inundando o espaço social de uma grande harmonia dediscursos não coincidentes. Isso dá nome à civilização que entretanto seglobaliza e aceita fazer-se sobre o fio da navalha.Na sua consolidação tremendista, a pintura de Maria João Franco pratica umacerta convocação rochosa do corpo humano — ou do corpo simplesmente. Doiscaminhos têmconfluido para isso, a dor da perda e graves impressões do exterior, encontroque sempre acabou por devolver às mãos da pintora fragmentos amassados nadevidamaturação, corpos recuperados sob o impulso da vontade poética, entre amorte e a vida. Corpos míticos, também, sonho transitado de algumaRenascença, memória problematizada dos clássicos e dos avançosexpressionistas que se expandiram pelo século XX todo. O que se traduz emtestemunho, em grito, em dilaceração, com a manipulação do gesto e dasmatérias (líquidas ou substanciais) por forma a ocupar o campo de presençasao mesmo tempo carnais e de pedra. Fusão de metais igualmente, embora averdade técnica se determine sobretudo no domínio da pasta acumulada sobreesboços gráficos ou já pulsantes e líquidos.um trajecto de coerência e forçaA forma plástica em Maria João Franco assenta, além de tudo, numasedentarização positiva, de núcleo tormentoso, e desenha no espaço umtrajecto de coerência, de proximidade significante entre as peças, o quedetermina grande continuidade das várias presenças, uma inusitada força nasmassas pictóricas, de cor surda, onde por vezes um fio de sangue aflora, ouaté na pele falsamente envelhecida sob a sua intocável frescura. De perto,visível a maior distância, nítido ou desfocado, quase metalizado,aparentemente escultórico, o corpo (assunto-tema) lembrado e representado
  4. 4. por Maria João Franco é fruto de uma importante conquista em termos dediscurso, na obstinação, na recuperação da imagem e da ideia — a liberdadedo fazer, em suma, num aparente paradoxo que liga e desliga a memóriadorida do corpo partido em dois e a necessidade de sublimar a brutalidadeobscena dessa injustiça. Porque a liberdade de que a autora dá importantesprovas, da metodologia escolhida aos materiais de instauração plástica,não significa que ela esteja isenta de pensar o modo de formar, quais asrazões da força ao petrificar-se, ao escorrer como tinta de facto, queobjectivos aí se envolvem, que limites e regras assistem à própria amputaçãoanatómica. Na verdade, Maria João sabe perfeitamente em que condiçõesestá a agir e o que lhe sobra de talento depois dos cortes de acerto, daspessoas que premeia: ela cria processos de catarse para si mesma, sabendo,entretanto, que está processando um legado a alguém, com a marca de queas obras, no futuro, terão de conter um inalienável testemunho de vida.OBRA ENQUANTO VIDAFoi numa espécie de silêncios ensurdecedores que Maria João Francosobreviveu, emergiu várias vezes, e solta agora, ao expor mais uma vez, o seugrito de intransigência perante as «forças» que carreiram modos, modas, osautores e ordens em vigor, com frequentes violações do trabalhoindependente, para a constelação internacional, sucesso a termo, porqueoutras barreiras selectivas e obscuras existirão neste século.Desde longa dataque Maria João Franco foi dando prioridade a um discurso matérico e dealguma violência, proferido entre uma abstracção de teor expressionista e aconvocação rochosa do corpo humano — ou do corpo simplesmente. Passo apasso, o seu imaginário recebia impressões graves do exterior, da experiênciaexógena, acabando por devolver às mãos da pintora fragmentos amassados nadevida maturação, coisas endógenas, reanimações poéticas da morte e davida. Tais verdades interiores, sempre em transformação mas nunca emruptura, contrariavam o terreno minado pela cultura urbana, formaçõesespúrias, filiação nos concursos rápidos ou guerra dos prémios. Com a sua artereaprendemos algumas versões de valor porventura romântico, até de raiz namemória dos clássicos problematizantes, a par de uma afirmaçãoexpressionista (da mesma mágoa) assente mo testemunho de outros
  5. 5. renascimentos e no sentido da revolta. A manipulação do gesto, abarcandologo grande parte do campo, entra depois no domínio da pasta, matériaacumulada sobre esboços líquidos. Alguns dos quais parecem despontarpropositadamente nas zonas onde a autora preferiu aderir à transparência epor vezes, quando acha necessário conter a catarse, a decisão de aplicarmansas velaturas sobre troncos antropomórficos duros, brutais, escultóricos.Essa aparente moderação lírica avança com um brilho baço sobre aquelascarnações decepadas, de largas texturas e aparência lítica. Esta busca, algoarriscada, passa por matérias e cores sobretudo acinzentadas, exprimindo defacto a pedra da escultura que evoca o corpo, é um trabalho quase contínuo,quase sisifiano, princípio e fim de um todo que também nos pertence, emborasempre nos escape. Anunciada assiduamente pela sua diversidade, o percursocoerente de Maria João Franco parece abalado, sem que as suas bases seressintam, dado que esse ponto de vista implica diferença, a simbiose entrediferença e semelhança, o que, apesar de todos os paradoxos, confere umaforça inusitada a estas massas onde algum fio de sangue aflora, e mesmo noscasos em que a autora representa (na boa memória académica) os nusfalsamente envelhecidos na sua intocável frescura. A forma plástica, em MariaJoão Franco, recupera do espaço da memória, da própria dor, comobstinação, a ideia e a imagem do corpo, mesmo quando este não se apertaentre os limites do campo e se projecta gestualmente no espaço. A liberdadedo fazer, no acesso a qualquer metodologia e materiais próprios, não isenta oformador de pensar quais as razões da sua luta, quais as razões do seuobjectivo, o que implica a criação ou aceitação de limites ou regras. MariaJoão sabe perfeitamente essa condição, porque a condição sobra mesmoquando traída com talento. Neste caso, a pintora está sobretudo ao serviço desi mesma, legando a alguém, a verdade da obra ser um destino de vida.ROCHA DE SOUSA _2010
  6. 6. MARIA JOÃO FRANCOConheci Maria João Franco como aluna da Escola de Belas Artes, numa alturaem que, para além dos alunos em idade escolar, esta era procurada pormuitas pessoas que, ou para completarem habilitações ou porque sempretinham tido um desejo secreto de se tornarem artistas, a procuravam. MariaJoão vinha dum curso de Arquitectura no Porto, mas efectivamente a pinturaera o seu caminho. Desde então, tenho seguido com algum interesse a suacarreira de artista – mulher – com uma continuidade que nem sempre seencontra no meio das artes plásticas no feminino, não obstante as vicissitudesque a vida lhe tem deparado.A sua arte é uma arte sofrida, que se aquisermos classificar será de expressionismo, um expressionismo matérico emque o tema dominante é o corpo. Expressando-se através da pintura e dodesenho, numa forma que se afasta decididamente de qualquer representaçãoacadémica, embora o seu ponto de partida seja, efectivamente, o mesmo – ocorpo nu – nos seus corpos contorcidos, dolorosos, por vezes apenas evocadosnuma linguagem quase abstracta, sente-se o pulsar de alguém que não temtido um percurso de vida fácil.Os seus nus não são eróticos – pelo menos nãoos sentimos assim – mesmo quando os títulos das obras o podem fazer supor(Intimidades). Mulheres, muitas vezes assim as percebemos pelos seios caídosde mulheres maduras, pela zona púbica aflorada, por vezes apenasfragmentos evocativos de um corpo – e por isso falamos de uma quaseabstracção – evocam essencialmente dor, muitas vezes de evidência física quenão é mais do que expressão de uma dor da alma.Nesta exposição, comoacontece na sua obra, aborda também outros corpos, quase silhuetas, deanimais, dificilmente identificáveis, talvez feridos, que equacionam memóriaspré-históricas no observador (Bestiário). Podem ser cães, lobos – não temos acerteza – mas participam certamente da mesma dor dos humanos.A opçãopela forma do tríptico apresenta-se como uma solução original, de acentuadoênfase religioso, em que duas formas de pintar - a do painel central maisdensa, mais escura, também mais dramática – em contraste com as abas, detonalidades mais suaves, evocando processos do desenho, mas também ocontraste dos antigos trípticos do final da Idade Média, entre a cor intensa dopainel central e as grisalhas das abas. Os nus das abas, em pose contorcida,trazem por sua vez à memória não a pintura medieval mas Ignudimiguelangelescos, portanto uma época de tensões mais acentuadas, talvezcomo a nossa (Retábulo para o altar dos espantos).Há um certo barroquismona obra de Maria João Franco, pelos jogos de claro-escuro, pelos toques devermelho que evocam martírios contra-reformistas, mesmo pela densidadematérica que a sua pintura normalmente demonstra.Maria João é tambémpoeta, aliás quer através da palavra, quer da imagem, a sua obra é poesia nosentido pleno da palavra e aqui não temos de citar Horácio – ut pictura poesis– porque afinal as duas formas emergem paralelamente da actividade criadorada artista.Dra. Margarida Calado,Historiadora, Professora da Faculdade de Belas Artes da Faculdade de Lisboa
  7. 7. A sua pintura faz-me sempre lembraros mitos da dor, uma espécie de destino castigo, como em Sísifo ou Prometeu, paranão falar da urdidura permanente de Penélope, algo que se faz e desfaz na espera dealguèm e para afastar os assediadores.O destino tocou-a (ou Deus) e a sua dor (mesmo que a não sinta) vem pelo«expressionismo romântico» marcar cada peça que faz. Esta figura petrificando-seserá assim, um dia, transformada em perda,grandiosa mesmo na morte.Rocha de Sousa
  8. 8. Contemporary Portuguese Artists: MARIA JOAO FRANCODuring her 40 years of career, Maria João Franco has become an intransigent pursuerof interior truth and liberty, being an artist in constant changing yet managing toremain true to herself.Maria João Franco marks the contour, captures the movement,turns into reality an idea, within a pictorial imagery which gained her a noteworthyplace in the Portuguese Fine Arts.Her art is deeply connected with the body, be iteither the human body or the body of things.There is a warm and tender involvementin her paintings which figurates our condition, and which confers harmony andbeauty to the triviality of the ordinary life.Her painting, in which rhythm is a stylisticelement, declares the autonomy of colour, of utmost importance.It is a painting ofimmediate gesture, of capture of space, of the vanity of existing, by restoring thelost childhood and creating a new way in which we look at things.Maria João Franco’s art is extremely sensitive to the fluidity of the languages of theforms, to the strong materiality of the colour, to the force and charm of its evasionand its ecstasy. It is a fascinating and wonderful journey, both spiritual as well astechnical.Therefore, her works are the materialization of feelings of longing, dreams, andbecame important notes in the Contemporary Portuguese Painting.The devotion and commitment of Maria João Franco reveal to us the definite factthat we stand in the presence of a great painter, an excellent artist, recognised assuch not only in Portugal, but also abroad.
  9. 9. Flowers of MouldBy Bianca Andreea MarinAnd the will there in lieth, which dieth not.Who knoweth the mysteries of the will, with its vigor? For God is but a great willpervading all things by nature of its intentness. Man doth not yield himself to theangels, nor unto death utterly, save only through the weakness of his feeblewill.Joseph GlanvillCharles Baudelaire once said that art has the miraculous privilegeto turn ugliness into beauty, and that pain, when rhythmic and cadenced, fills thespirit with a quiet joy.When verses turn into colours, ideas into textures, feelingsinto substances we enter an eerie world where poetry meets painting, birth meetsdeath, love meets pain and flowers meet mould. It is the strange and delicate worldof a painter, Maria João Franco, a poetess of the canvas. I would dare say that shedoes not paint, she writes verses using colours, forms and shades, light and darknessinstead of words.What is a word? It is an instrument by means of which we send amessage, convey a feeling. If this definition is accurate, then her paintings areletterless words, because they overwhelmingly transmit feelings and emotions.Herworks are a confession of hopes, dreams, failures and sins expressed by plasticmetaphors, chromatic epithets, where the immateriality of all the most importantthings (love, despair, sadness, tragedy) embraces the cloak of the flesh until they lie,exposed, strip naked on the canvas, bleeding like a baby first ripped out of hermother’s womb. They tremble, amazed at their own existence, at their own life. The
  10. 10. painful, tragic, screaming moment of birth that also seals our doom. It is difficult tolook at them, at human emotions and fears. How would we live if our feelingsmaterialized in front of us? This seems to be the questions that Maria João Francoboldly asks. We would not be able to hide from them, nor to force them out of ourmind. It would be our most terrible tragedy, as human beings, to be forced to look atour materialized, touchable emotions, at our utmost secrets and thoughts. Nobodywould survive the screaming sincerity of facing ourselves and the world would turninto a desolated sanatorium with people trying to escape from themselves.Have youever had a dream whose powerful image haunted you the day after? Imagine livingeach and every day under the constant assault, a material, colourful, loud siege ofnot one, but all of your desires, dreams, fears, anger. Even love would become aburden, as true love generally is so hard to bear.When we look at one of Maria João´spaintings, our faces unconsciously make a grin, and our eyes seem to want to turnaway, but at the same time they are drawn to them as if hypnotised. It is because weall recognise parts of ourselves in them, and usually there are the parts that wemostly like to hide: fear of death, horror of putrefaction, lost of faith, the never-ending questions of the man seeking Immortality, unwilling to give in to the decay ofthe body and the claws of death.What if we should look of them in the eyes? What ifthe key to ending the pain is embracing it, facing it? What if the only way to conquerdeath is by accepting it? What if the only way to love is to let ourselves be consumedby it?I am drawn to these paintings in the same way as I am drawn to the poetry ofBaudelaire, Arghezi or Blaga. Baudelaire’s Fleurs du Mal attempts to extract beautyfrom the malignant. Unlike traditional poetry that relied on the serene beauty of thenatural world to convey emotions, Baudelaire thought that beauty could evolve on itsown, irrespective of nature and even fuelled by sin. The result is a clear oppositionbetween two worlds, "spleen" and the "ideal." Spleen signifies everything that iswrong with the world: death, despair, solitude, murder, and disease. In contrast, theideal represents a transcendence over the harsh reality of spleen, where love ispossible and the senses are united in ecstasy.Just as in Baudelaire’s verses, MariaJoõa Franco is endlessly confronted with the fear of death, the failure of her will,and the suffocation of her spirit.One of the most amazing similarities lie in thecomparison of Baudelaire’s poems ―The Cat‖ (inspired by Edgar Allen Poes Tales ofMystery and Imagination, where he saw Poes use of fantasy as a way of emphasizingthe mystery and tragedy of human existence) and Maria João Franco’s painting ―TheDog‖.
  11. 11. In two separate poems both entitled "The Cat," the poet is horrified to see the eyesof his lover in a black cat whose chilling stare, "profound and cold, cuts and crackslike a sword."( ―Je vois avec étonnement/ Le feu de ses prunelles pâles,/ Clairsfanaux, vivantes opales/Qui me contemplent fixement).In ―The Dog‖ the same terroris provoked by the big, stout dog with his face directed to a river of blood, and onecan easily distinguished the form of a human face appearing in the place of the dog’shead. It is as if Baudelaire’s verses came to life in images, it is sheer Baudelairepoetry on canvas.Moreover in ―The Laying woman‖(Deitada) a feminine figure seemsto be sleeping or laying dead, her body torn into hundreds of little atoms, reduced tosmall dispersed fragments, traces of paint flowing from her like drops of water. It isyet another example of how beauty can reside even in the most horrible moments.The image created by the irregularity of the forms and the play of the splashes ofpaint is so beautiful that it seems as if flowers were growing out of her decayingbody, the fertilizing territory of human flesh. Flowers of putrefaction, flowers ofmould, the Romanian poet Tudor Arghezi would say. Maria João Franco makescaresses out of open wounds, ―out of furuncles moulds and mud‖ (Tudor Arghezi,Testament) she creates ―new beauties and treasures‖ (Tudor Arghezi,Testament)Maria João Franco is not obsessed with the ugliness or the pain. Sheaccepts all the aspects of humanity, even the most infamous, because, as I saidbefore, this may be the only way to extinguish them. The objective of her paintingsis not to shock, but to heal. Her love for the human being is such, that its physicaldecay hurts her to the extent of endlessly trying to conquer it. It is a painful, deeplove for the transient human body in all its circumstances, even in death. We canhear Maria Jiao Franco’s voice speaking to us through the words of poet Lucian Blagain his poetic statement ―I will not crush the world’s corolla of Wonders‖: ―I enrichthe darkening horizon with chills of the great secret. All that is hard to knowbecomes a greater riddle under my very eyes because I love alike flowers, lips, eyes,and graves‖.In order to understand a painting we should look at it with eyes of apoet. It is easy to recognized fragments of Maria Jiao Franco’s paintings in the versesof a poem. I tried to present here her paintings as seen through the verses of threepoets that explain them better than any critical essay. There are no boundaries inart, and it would be no wonder if some day a poet would inspire himself from one ofMaria João Paintings to create his poetry.
  12. 12. ―Un matin nous partons,le cerveau plein de flamme,Le coeur gros de rancune et de désirs amers,Et nous allons, suivant le rythme de la lame,Berçant notre infini sur le fini des mers.‖inhttp://www.artreview.com/profiles/blog/show?id=1474022%3ABlogPost%3A301745MARIA JOÃO FRANCO – PINTORA E POETA "TU NÃO ACONTECES, QUANDO EU TEQUERO"Quando a olhamos pela primeira vez, apercebemo-nos de imediato que estamosperante uma alma feminina marcada. Não de uma forma azeda, como tantasmulheres que se afundam nas suas impotências ou incapacidades, mas de uma formaprofunda e reflexiva, de uma forma emotiva, humana e silenciosa.Maria João Franco,esteve recentemente nos Açores, e o seu encanto foi imediato, brevemente irá voltarpara cá expor. Ao contrário da maioria dos artistas, tem o dom da palavra e o seutom de voz grave funciona como um fio condutor, que transporta cada uma das suaspalavras, ao local do córtex devido. Porquê essa diferença acentuada em relação àmaioria dos artistas plásticos? Resposta enganadoramente simples – trata-se dumapintora poetisa.A sua exposição ―Tu Não Aconteces, Quando Eu Te Quero‖ estápatente no Museu da Água é, como não poderia deixar de ser um misto líquido entrea poesia e a pintura –―tu não aconteces, quando eu te quero,Não falas ainda, quandoeu te escuto,Tu não dizes, quando eu te encontro,Tempos passados de sabersentido,Tempos esquecidos de saber sofridoNão sabes ainda quanto eu teentendo‖―Ao longo de quarenta anos de carreira, Maria João Franco tem vindo a seruma intransigente pesquisadora de verdades e de liberdades interiores, não cessandode se transformar, mantendo-se, no essencial, fiel a si mesma.‖ Quem o diz é ÁlvaroLobato de Faria, director do MAC – Movimento de Arte Contemporânea ao qual aartista aderiu em 2006, com a exposição ―Mulher e Eu‖, tendo na altura lhe sidoatribuído por este Movimento o Prémio Carreira ―MAC´2006‖.Iniciou-se a ―sério‖ nasartes plásticas muito cedo, com 15 anos já frequentava cursos de Artes plásticas.Muito influenciada por uma família cujo universo considera ―mágico‖, com enfoqueespecial em seu pai – Miguel Franco – reconhecidamente um dos dramaturgos mais
  13. 13. importantes da década de setenta em Portugal, pela natureza histórica da sua obraque se confronta então com o espírito do ―regime‖, e pelo seu marido, Nelson Dias,Professor de Desenho e de Pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa, artista quedeixou uma inestimável obra de qualidade plástica e uma outra criação na área dabanda desenhada, que faz igualmente parte da história de Portugal de BandaDesenhada, também relativa à década de setenta. Dois homens que a marcaramprofundamente, quer no plano afectivo, no espaço que naturalmente cada um ocupa,quer no seu desempenho artístico, quer na sua consciência social e postura perante avida e a morte. E como o sofrimento é o alimento do artista, cada título de cadaexposição de Maria João Franco é em si, arte: ―A Terra dos Mitos‖― O amanhecer damemória‖, ―Um olhar de Pele‖, "Estórias do Corpo"."Tempo de o Senso e o Ser "―Lírica do nu entre Sombras‖, "tu vens tão perto...que a distância existe" epoderíamos continuar, porque as exposições foram muitas, estando certos porém quecom apenas os seus títulos temáticos, este texto se embelezaria.―amo-tee os fumos do último atentado ainda não aconteceramamo-tee a luz que nos iluminanão nasceu aindaamo-te, amo-te é a chave do esconderijo dos meus sonhose a palavra e a senhapara entrar de novono meu canto de hinode novoà alegria.‖Esta sua notável sensibilidade, realça uma honestidade nas palavras a que nãopodemos ser indiferentes. É com a mesma honestidade e frontalidade que fala sobreaqueles que considera ― graves problemas‖ que afectam a cultura Portuguesa e maisparticularmente as artes plásticas. ―Um dos maiores problemas que os artistas têmque enfrentar são os ―lobbys‖ das galerias. ―A maioria das galerias estáexclusivamente vocacionada para vender quadros, e só por esse prisma enaltecem epromovem os ´seus` artistas. Fecham o círculo, apertando-o em torno de um númeroreduzido de pessoas, algumas efectivamente com qualidade, outras talvez nemtanto, mas assim, fecham-se portas e veta-se à ignorância artistas importantes, porvezes geniais, porque não se encaixam nesse circuito, ou porque estão demasiadoembrenhados a produzir obras, ou porque simplesmente não se encaixam‖. Econtinua – isto é muito grave, porque à sombra desta mecânica se vetam aodesconhecimento valores emergentes, mas também ao esquecimento valoresreconhecidos e inequivocamente valiosos para a identidade cultural deste povo.‖Esta
  14. 14. frontalidade, como anteriormente demos a entender nasce com a sua convivênciafamiliar. Tal como se lê na sua biografia -―Uma forte ligação triangular "MiguelFranco - Maria João Franco - Nelson Dias " desencadeia no espírito ainda jovem deMaria João Franco o seu sentido de busca, de procura e de pesquisa.Fortemente marcada pelo "expressionismo abstracto" Maria João Franco segue nasenda de Nelson Dias a tendência expressionista quer na abstracção, quer na suapassagem para a figuração.Sentindo como fortes expoentes da pintura portuguesa Rocha de Sousa, Gil TeixeiraLopes, Artur Bual, Luís Dourdil, Júlio Pomar, Resende bebe neles a influência tendoem mira o extravasar de uma pintura de emoções contidas num expressionismo líricode uma sensualidade quase "aquática" ou meramente fluida que adquire os tons datragédia atlântica nas suas vagas de tombar profundo.A gravura é outra das suas paixões. Mas a esse respeito, a várias vezes premiada (em1987 o 1º Prémio de Gravura no concurso de gravura integrado nas comemorações doAno Internacional do Ambiente Setúbal/Beauvais. Ainda em 97 tem o Prémio deEdição na "IV Exposição Nacional de Gravura" Cooperativa de Gravadores Portugueses/ Fundação Calouste Gulbenkian – Lisboa) Maria João Franco denuncia adesvalorização e a recusa da maioria das Galerias em aceitar expor gravuras. ―Arazão prende-se com o facto da gravura ser mais acessível no preço em relação àpintura a óleo, acrílico ou qualquer outro material. A maioria das galerias teme que omercado se habitue a adquirir gravuras em detrimento das outras obras queobviamente são mais proveitosas do ponto de vista financeiro.‖Contudo, esta artistaplástica reconhece não ser este o único problema ―a reprodução indevida, em sériede gravuras – uma desonestidade – transformam as obras em algo que não era suposto– um produto reproduzível e logo menos valioso. Quando se produz gravuras, aschapas devem ser eliminadas – isso nem sempre acontece.‖Quanto ao estado maisgeral da cultura em Portugal, é clara a sua posição ― sem cultura não há identidade,e é frágil o apoio, o reconhecimento dos artistas plásticos, e não só, neste país.Muitos, passaram grandes dificuldades, mesmo aqueles que viram o seu talentoreconhecido. O que é uma injustiça dolorosa.‖Recapitulando – a dor alimenta a almado artistaA Mãe‖Estou triste. O sofrimento enegrece-me a alma. Se eu o pudesse abraçar e passarpara mim um pouco de tanta tortura. Como o amor de mãe pode tornar-se em tantaangústia. Já foi. A leveza da criança loira a correr pelo jardim. Já foi o calor mornodo colo da mãe. Ainda Maio. E a morte ronda a Mãe. O colo já não é morno. O peitojá não é terno. A mãe morre devagar e ainda é Maio e o meu amigo sofre. Quanto doamor, quanto da ternura quanto das memórias lhe guarda o corpo.E ainda é Maio...‖ Maria João Francoentrevista por Margarida Neves Pereira para Açoriano Oriental
  15. 15. texto de catálogoAo longo de quarenta anos de carreira, Maria João Franco, tem vindo a seruma intransigente pesquisadora de verdades e de liberdades interiores, nãocessando de se transformar – mantendo-se, no essencial, fiel a simesma.Maria João Franco perfaz o contorno, realiza o movimento,concretiza a ideia num imaginário pictórico único que lhe atribui um lugarmarcante nas artes plásticas portuguesas.A sua arte tem uma estreitarelação com o corpo, com o corpo das coisas, com a ideia primeira dematéria mater, que refaz incessantemente numa busca interminável, comose procurasse o princípio e o fim de um todo que sente ser o nosso, mas, nasua pesquisa, anseia sempre por um fim ou princípio outro.Aqui assentatoda a diversidade da sua obra em que o fio condutor submerge e emerge,consentindo e confirmando toda a sua versatilidade como artista plástica,como criativa e autora.No envolvimento cálido e terno nas pinturas quefiguram a nossa condição, e que confere harmonia e beleza à trivialidade doquotidiano, sabe-se a vontade e o modo de subtrair riqueza plástica a umseu muito pessoal universo imagético.O grafismo, aqui afirmado comoelemento estilístico, afirma a autonomia da cor, que polariza e atrai afluidez antropomórfica das formas, é na sua obra de uma importânciafundamental.Fala-nos pela incidência da cor que transporta e assume opapel de interlocutor entre a obra e o espectador.Estamos agora peranteuma artista sem hesitações, de um saber constante e ritmado, onde cadatomada de consciência nos abre o caminho para o seu mundomultidisciplinar, onde cada gesto tem o sabor de uma certeza.A arte deMaria João Franco, extraordinariamente sensível na fluidez da linguagemdas formas, na vigorosa materialidade da cor, na força e no encanto da suaevasão e do seu êxtase, é uma fascinante e esplêndida aventura espiritual etécnica.As suas obras, são pois materialização de anseios e de sonhos,notas de realce, na Pintura Portuguesa Contemporânea.A devoção e ogrande profissionalismo, a continuidade e o grande empenho que MariaJoão Franco nos transmite nas suas obras, revelam-nos estar perante umagrande pintora e uma excelente artista, reconhecida não só em Portugalcomo internacionalmenteEm “tu não aconteces, quando eu te quero” títuloda exposição que agora nos apresenta, mostra-nos a sua constanteevolução, a sua busca sem fadiga, a qualidade intranquila da sua poética,
  16. 16. que faz de cada momento uma reencarnação imprevisível, nova umaconquista, um constante enriquecimento.O vigor e qualidade do conjuntodestas obras fará, com toda a certeza, que ele ocupe um significativo lugarna excelente pintura que Maria João Franco vem construindo e a que já noshabituou, confirmando o grande talento e sobretudo a surpreendentequalidade técnica e criativa desta grande artista das artes plásticas donosso país.Álvaro Lobato de FariaDirector Coordenador do MAC-Movimento Arte Contemporânea______________________________________________tu não aconteces, quando eu te queronão falas ainda, quando eu te escuto,tu não dizes, quanto eu te encontro.Tempos passados de saber sentidoTempos esquecidos de saber sofridoNão sabes ainda quanto eu te entendo.Numa pesquisa, aliada a uma auto reflexão constante do ser/estar criado erecriado, ainda que numa atmosfera imersa, paradigma de todas asrealizações encontradas, e não…Que o título da exposição: “tu nãoaconteces, quando eu te quero” denuncia já a busca incessante do encontroefectivo e afectivo com a “coisa” /”pessoa” amada.O universo plástico emque me situo denuncia-se pelo equívoco meio das ilusões em que as leiturasvárias se sobrepõem deixando ao espectador o disfarce amplo para asmúltiplas e constantes leituras.“tu não dizes, quanto eu te encontro”negação aparente de diálogo com a ”coisa” em que o “quanto” nega ainda odar a conhecer a infinidade das possibilidades dele mesmo.“não sabes aindaquanto eu te entendo” é o passo anunciado para a próxima realização emque o acto está já contido no “tu não te encontras, quando eu te quero”,impossibilidade de simultaneidade de actos e realizações de ser e estarafectivo e efectivo.Poema/projecto de formalizaçãoplástica e autobiográficaMaria João FrancoLisboa Março de 2008
  17. 17. ―Tu não aconteces, quando eu te quero‖A obra de Maria João Franco é talvez o último reduto de sensualidade nestemundo cada vez mais individualista e asséptico.É pura poesia que habita na tela, na construção da cor e verbo — na palavraque é indissociável da obra final.Mais do que uma linguagem estética e uma metalinguagem através da palavraa artista criou uma translinguistica que contempla ambas.Uma translinguististica sobre o amor, sobre o corpo, sobre a sensualidade,sobre nós e sobre como nos relacionamos no tocar da pele, sobre o respeitono fogo do prazer, sobre a sacralidade da água que escorre de nós no extâse.―Tu não aconteces, quando eu te quero‖ é uma exposiçãosobre a dádiva e a negação no amor.Porque quando amamos e queremos e o outro ser não acontece, morre umpedaço de nós.Ensombra-se a claridade do amor puro e pára o movimento para a frente queo distingue.A Maria João Franco pinta esse jogo de claridade e sombra dos corpos e dasalmas, conhece dimensões imperceptíveis do amor e estuda o Mistério.Fala-nos de mulheres e homens que não se contentam em ser comuns etentam ser Deus.Agradeço à Maria João Franco a reverência do amor e a sua arte belíssimaMargarida Ruas Gil CostaLisboa,Março de 2008
  18. 18. InsinuaçõesToda a apresentação plástica tem no gosto do olhar a procura do táctil, do sensual,do amor pelo feito, do amor pela Vida.E a vida é feita de uma ―assemblage‖ de sentidos que se entreolham, se entrelaçam,e se entre amam.Aí reside o ―eros‖ da vida, o sentido erótico da Arte.Os contrastes de luz e sombra acentuam a vontade e o desejo do ―estar‖ e da suaforma.A síntese da representação insinua a vontade de mostrar e de tornar desejável o quelá não está.O gosto da pele, o olhar dirigido pela ausência, procura erotizar precisamente o nãorepresentado, mas sim sugerido.
  19. 19. A força da vontade, do amor,‖insinuam-se‖ no não directamente representado eoferecem-se ao espectador como um apelo a sentidos ocultos, secretos, digamos,antes, poetizados.Maria João Franco2008 Corpos e Almas/JL autor:_Prof Pintor Rocha de SousaUm sentimento de tragédia atravessa a pintura de Maria João Franco.A sua visão do mundo, constrangida pela dor e pelas sombras de que sõ feitas as noites longas do tempo,deixa-nos pressentir fragmentos de corpos nús,talvez destroços de sonhos que se materializaram de forma enovelada e parda. Enfrentamos nesses espaços um conjunto de enquadramentos sumários, na aproximação de cada focagem, de cada pedaço de matéria,de coisa inominável. Não sabemos quase nunca,se nos defrontamos com matérias inorgânicas ou commateriais orgânicos,se a vida passou por ali, entre gritos mutilados e palavras sem voz(...)
  20. 20. (...)Os pontos de partida encontram-se parcialmente com os pontos de "chegada", as pinturas rupestres,os sulcos das rochas,e os materiais em extrema diversidade desta civilização autofágica.O drama desta obra parte de si mesma, do modo de a formar, desde a mistura lúdica de vários materiais sem sentido até á grande metáfora do nosso destino cósmico(...) (...) Os fragmentos dos corpos que surgem naquela pintura sãovestígios simbólicos, sagrações de um sofrimento absurdo. Bocados
  21. 21. de gente ou de deuses, em todos os tempos houve vagabundos e artistas parietais viajando no ciclorama do mundo e aí gravando mensagens premonitórias, a raiva e o amor, a guerra e a paz.Desertos de pedra. rochas que modelamos na cova de um imaginárioperturbado portantos milénios de perguntas sem resposta. Eis-nos de novo perante as paredes das cavernas, amassando óxidos e outrs impurezas, riscando ou sobrepondo figuras de um contexto duríssimo. A pintura abstracta de Maria João Franco vai buscar às raízes expressionistas e líricas a massa para um novo começo das coisas, terras, gelos, rochas, a misteriosa simbiose da mistura dos matrais inorgânicos com os orgânicos, água deslizando, sangue a anunciar os sacrifícios iniciais, perante um deus feito à imagem e semelhança de um homem pretérito.Rocha de Sousa in "Jornal de Letras & Artes" sobre a série NOVOS FRAGMENTOS_1998_Galeria Municipal GYMNÁSIO_Lisboa
  22. 22. Maria João Franco não tem abandonado aquele sentimento de tragédia queassinalámos no texto CORPOS E ALMAS onde procurávamos apresentar a suaúltima exposição.Essa atitude da autora ,agora prolongada numa série de desenhos, conserva,salvo as diferenças que as matéris impôem aos materiais, o mesmo espírio dedor e de sombras que a sua pintura trabalhava entre formas enoveladas epardas. Também aqui não sabemos muitas vezes se bos defrontamos commatérias orgânicas ou com materiais orgânicos, se a vida passou por aí,(1)(...)(ver CORPOS E ALMAS) SEGREDOS DA LINHA E DA SOMBRA
  23. 23. Trabalhando por vezes com carvão sobre tela, formando linhas e sombras deuma visibilidade assiduamente agressiva, é a pintura que está na memóriadesres desenhos, a sua modelação em claro-escuro, a textura que sobeja dasmatérias sobre os materiais, ou seja: formas ou parte delas começando,pela técnica, pelo modo, a dar corpo a um universo dolorido, emergindoquase sempre do escuro, e no qual podemos paralelamente relacionar corposnús, bocados deles se respondemos ao apelo que esta obra propõe naexploração do pormenor, detalhe ela também de qualquer batalha perdida,mutilações, a dor e a sombra, apesar dos instantes de luz que parecemrevelar mais do que o sono, antes a morte.(...)DESNUDAMENTO DA DORFiel a si própria, fiel a uma espécie de luto que paira sobre ela, Maria JoãoFranco não sai deliberadamente desta exploração onde os corpos e osfragmentos nos forçam a diversas encontros da memória contemporânea,desde Treblinka (como referi antes) aos rios empapados de corpos num dosrecentes conflitos africanos. Não interessa se isto não se passou assim nacabeça da pintora: se ela não se compromete com títulos das suasdilacerações, nós podemos viajar em liberdade por esta (para mim) colossaldesnudamento da dor.
  24. 24. (1) Rocha de Sousa/texto Corpos e Almas/prefácio de exposiçãoRocha de Sousa Jornal de Letras &Artes_2 de Dezembro de 1998Vai-se ao âmago destas cores, ao seu núcleo mais íntimo e secreto e sente-sea respiração da terra a rebentar nos poros, a vibração nas raízes, a levar
  25. 25. estremecimentos de vento até onde o olhar chega.Como explicar o inexplicável? Como dizer o indizível?O fogo e a fúria que habitam estas telas são ancestrais e profundos como amemória das mãos que remexem o húmus, que profanam aquietude da seiva, que rasgam o silêncio dos mitos.A cada cor corresponde a força orgânica de um gesto que tanto poderepresentar crispação e mágoa com sede de luz, como incontida ânsia de maisespaço, como torrencial desejo de exprimir o inexprimível.Há nestes quadros uma sabedoria antiga, imaterial, que clama porcumplicidade e partilha, por entendimento e entrega.Não se espere deles, porém, que nos franqueie todas as portas e todos osmistérios, que a textura em que se materializem tem muito de ciênciaalquímica, de saber oculto e perene.Pode bem acontecer que o olhar, ao confrontar-se com a força telúrica destesóleos em revolta, serpenteie pelas arcas da lembrança e encontre a Espanhanegra, fragmentos de um universo goyesco, rituais de penitência e desabedoria trágica.Como explicar o inexplicável?Como dizer o indizível?Há nestas telas a raiva faíscante do traço e o tom lancinante do grito. Cadacor está em trânsito para outra cor. E bem pode ser corpo ou voz, amálgamade braços ou explosão vegetal, novelo de lumes ou espiral de sombras.Cumpre-se nestas telas o mistério supremo da pintura.José Jorge Letria9 de Maio de 1989sobre ―Mulher e EuMAC-Movimento Arte Contemporânea2006A pintura (minha) não existe a partir de uma atitude perceptível oureprodutora.
  26. 26. A sua ―fisiologia‖ advém de uma acção sistemática e dinâmica dereconstrução ou reformulação do seu próprio objecto. Adquire forças evectores que se interligam por uma forma quase autobiográfica. A ―forma‖visual tem a forma do sentir, do arrancar, do dissociar para reconstruir.Essa dissociação constante, essa reavaliação persistente, essa dinâmicalatente contem toda a poética da minha obra.Cada imagem criada conterá já em si o potencial para a sua auto-reconstrução.Isto é um processo mental que me ultrapassa na sua ―mecânica‖. Mas é assime sistemático, não no acto voluntário, mas no automatismo do desconstruirpara reconstruir dentro da mesma identidade, com o distanciamentonecessário para a não repetição , acto contínuo descontextualizando-se parase igualar.Não é uma história de repetições mecânicas de formas inventadas.Assisto a uma regeneração constante e imanente de cada forma e imagem,objecto em si não repetindo-se, mas prolongando-se em séries que se autodeterminam pelo modo como são abordadas .Ao libertarem-se das imagens primeiras, criam vida própria, inserta numasintomatologia própria.Ao atribuir títulos ás séries estou a denotá-las com situações extremas,carentes de análise:-nós os nus e os outros objectos “-lugar dos desencontros ou os sítios da memória…-tu vens tão perto… que a distancia existe-Mulher e EuSão situações alegóricas a estados do sentimento do estar.O fio condutor destas mensagens passam pela relação necessária existencialentre mim e o mundo, ora inscrevendo-se nele como peça sujeita a todas as
  27. 27. manipulações e as memórias percorridas pela sensação de ter estado, até àconstatação efectiva da existência de um EU gerador e suficientementedistanciado da ideia para poder discernir.Mulher e Eu é talvez a ponta do iceberg que se desnuda a cada passagem dasHoras.Um modo de estar percorrido por toda uma simbologia plástica ligada a umaformalização antropomórfica em que o útil objecto pagão se mistura nãoalienadamente, nem de forma aleatória com o sagrado.Com um sagrado de sentido universalizante que emana de todos sentidos(sinais) de começo dos mundos…Da Mulher à mulherDas Vénus às SantasDe que uma é eleita Virgem.Nada nesta dualidade ―começo e fim‖ de todas as coisas, onde mesmo a Terratem lugar de Mãe, afirma ou confirma o lugar de ―macho‖.Há sim um universo plástico onde a Forma-Mãe se concebe como principio efim de todas as CRIAÇÕES.
  28. 28. Maria João FrancoMaio 2006PessoaSensibilidade, humanismo, inteligênciacultura elevada, criatividade, emoção, lágrimas, risos e gargalhadas,grandeza, fragilidades e certezas e dúvidas materializadas na projecção quecada obra, nos seus detalhes, de forma, movimento, cor, luz, claro, escuro, alua e o sol no seu esplendor, nos fazem perder no sonho, na vida, nas vidasplanando na metamorfose constante, que cada pormenor, em cada olharmosfaz recriarmo-nos, encontrarmo-nos, enternecer-nos, fascinarmo-nos, nanecessidade crescente quase impulsivade, ao ver e admirar, nos sentirmos também caleidoscópicos, na dança dabeleza que nos projecta ao infinito.Tal como a obra, uma mulher que amo pelo que me dá, nos dá, nesta dançamelódica que a cada passo me abre e faz sonhar.Obrigado Maria JoãoMarino Tralhão
  29. 29. Da existência “sagrada” do não ser.A forma exacta do não estar. O saber de não saber a liberdade.A vida. Na coexistência impossível dos poderes.O jogo.Tabuleiro incompleto nas peças fulcrais.Engrenagem viciada na inércia da volta que implicou uma ideia para alémdos processos inelutáveis com que nos deparamos – consequências fatais danossa condição… (?)O sistema e a Terra este planeta em que o ser homem, se exige a si próprioum “auto – poder” em que se “absurdam” os princípios da coexistência.Afinal a inteligência e os instintos sobrepõem-se de forma plasmada, de talmodo que nos leva a pensar que o instinto e/ou a inteligência seinterconjugamE que a lógica do instinto é a verdadeira estrutura mental de defesa danossa existência.Por absurdo cria-se a lógica da existência e da continuidade no maisprimário dos seres e as nossas humanas teorias, tão sabiamenteconstruídas sobre alicerces de medo e de desencontros fatais.Afinal a espiral não tem princípio nem fim.Começa no não começo e ergue-se e caminha e percorre até ao infinitoque nos representa e simboliza o desconhecido.Medo de todos os medos.No fim de todas as coisas, onde o átomo e o possível não estar seencontram num sítio que não sabemos…Esta dificuldade em definir o saber que difere do conhecimento – dadoadquirido pelo transcorrer das civilizações, universos “ mutandos” emutáveis; paradigmas de universos que são os patamares dosconhecimentos estratificados.De onde retiramos as possibilidades da razão (causa) da nossa existênciasobre a terra a que chamamos Terra.De onde emanam os seres que nos iludem numa forma de céu que é osuposto transponível ilimite do nosso conhecimento.
  30. 30. De onde emana a nossa sapiência que é o entendimento do estatuto dascoisas que nos rodeiam e não!Maria João Franco2009Maria João Franco, Procura e RenovaçãoComo quem se redescobre em insuspeitada pujança, Maria João Franco, nestasérie de trabalhos, retoma anteriores percursos e assume uma posturaestética que já lhe valeu atenção especial. A grande escala, o gesto largo,aquele seu usual fascínio pelas cidades que brotam, texturadas, em pontosestratégicos da composição, constituem algumas vertentes desta "nova"pintura ou, se quisermos, o outro lado de um "modus operandi" que privilegiaa densidade, o peso, e a força como elementos estruturais da sua comuniçãoplástica. No fundo há como que uma evocação de arquétipos que estavam emrepouso ou a recuperação de atitudes de que, racionalmente, havia abdicado.A renovação do seu vocabulário pictórico passa, portanto, por uma espécie deregresso às origens e pelo exercício do desenho, ponto de partida para voosmais ambiciosos Acontece-lhe uma figuração que não ulpassando os limites domate, permanece como suporte de outras descobertas e de uma aventura deconsequências sempre imprevisíveis.Pintar, raras vezes foi, como agora, um acto de febril magia, uma fuga parara frente, um tocar de universos ambíguos e dúcteis nos quais se organiza ocaos, se freia a mão e se medita a cor da harmonia, Só então o espaço sedivide sem compartimentações estanques, no gerar de sucessivos equilíbrios,na exaltação da luz, na procura de uma fluidez que nos surge, límpida,caligraficamente definida e plena de uma rara monumentalidade Maria JoãoFranco merece destaque no contexto da nossa Arte Actual,Edgardo Xavier_____________________
  31. 31. PRODUÇÃO de objectos /produção ARTÍSTICAÉ uma das características do homem a produção de objectos e na sua facturaintervêm componentes de ordem vária que decorrem de intençõesdiferenciadas.A função de cada um dos objectos produzidos está em estreita ligação com asatisfação de fenómenos de necessidade. Mas há um momento de satisfaçãonão necessária que ultrapassa o sistema de necessidades elementares. Aprodução de objectos com arte é a primeira fase de ultrapassagem do sistemade necessidades primário.O objecto – por vezes estético – (por vezes ético) é ultrapassado na suaintenção com o decorrer do tempo e surge um significado-outro, desligando-odo referente (real ou imaginário) que lhe estava na base. No fundo, quando oobjecto perde função imediata, torna-se objecto de contemplação e surgecomo obra de arte, quando ele não representa, de facto, e antes de mais, umdeterminado estádio de evolução do homem, não no sentido plástico, mas nosentido de relação homem-natureza.O que acontece é que os objectos que perderam função são hoje sublimados,no sentido de se situarem de se situarem no plano de organizações sígnicasrepresentativas de estádios de civilização diferentes: é sempre sinal da
  32. 32. passagem do homem sobre o mundo e da sua vitória sobre os materiais, nosentido em que os domina e lhes dá forma.E é só nesse sentido que podemos dizer que tudo o que o homem faz tem umcarácter estético.O homem, na sua necessidade natural, como ser gregário, e, individualmente,como ser dominador, manipulador, tende a dar forma a todas as suas acções.É nessa tendência que está implícita uma estética – e dela surgirá porventurao fenómeno artístico ou para-artísticoOs vários conceitos de arte estiveram sempre dependentes do binómio―forma-função‖.Na medida em que a função se vai sobrepondo à forma criam-se objectosestéticos – as sub-categorias de objectos – que ao abrirem um novo espaçoformal tentaram introduzir-se no campo da arte. O pressuposto estético ficaaquém do artístico e a apologia da norma e do funcionalTorna-se perfeitamente apologética, como consequência daquilo que lhefalta: a dinâmica poética.A obra de arte não resulta de conceitos estéticos, mas da própria vida:justifica-se a si própria na sua capacidade ambivalente de a assimilar eprojectar.Contudo, a capacidade expressiva de um objecto não e forçosamente índicede fenómeno artístico. Ela surge muitas vezes por empatia perceptual impostapor ditaduras de gosto. Por isso a arte favorece o diletantismo ―estético‖ e osnobismo cultural. E os seus agentes na sua anciã de auto promoção subsidiamintelectualmente e não só a produção maciça de objectos para – estéticos. Ofenómeno artístico esta mais ligado ao que esta subjacente ou supra jacente afisicidade do objecto. E esta aqui o fulcro do problema: o fenómeno artísticosurge quando, a partir de uma concepção e uma determinada execução detécnica se introduz no mundo um mundo que nele não existia. O artista nãoenfeita a sociedade, antes a completa, e essa complementaridade, seincomoda, tanto melhor…Confrontamo-nos hoje, com efeito, com uma crise que em si, e por sua vez,se confronta com a ideia de que o saber manipular os materiais é sinal deestatuto artisticamente inferior. Corresponde socialmente a uma atitude dedesprezo pelo trabalho manual assumido como saber.Certas correntes actuais, bastante na linha deste pensamento, contradizem-se, na medida em que consideram já o objecto artístico o simples acto dofazer (puro acto lúdico), desprezando a partida o acto de dominar o fazer, emfunção do conceber. Não se trata de trabalho, mas de simples imitação de
  33. 33. trabalho. O truque só é eficaz enquanto esconde o artifício. A displicência dafactura e o desprezo acintoso pela estrutura artificializa esta, na medida emque a transforma de suporte da imagem em imagem em si mesma. Ao simularcomo autentica a atitude, o objecto concretiza-a, mas esvazia-se comofinalidade artística.Este esteticismo apriorístico e normativo que contraditoriamente se apresentacomo anti-norma, funcionaliza o objecto tornando-o ilustrativo da teoria e damoda, retira-lhe finalidade intemporal, torna-se simples exemplo de umateorização estética, mas afasta-o da arte, pois que a obra de arte, enquantoproduto humano não pode, não deve tornar-se simplesmente imitação de siprópria.Se a arte começou por reflectir uma tentativa de o homem dominar aNatureza, imitando a sua vitória, caminhou para a imitação da Ideia, para aimitação da Natureza ou como processo representacional de imitação dohomem, passando inclusivamente pela representação da sua realidadeinterior.Sob pressão d estéticas normativas algumas correntes actuais tentam aimitação do fazer: no fundo, assistimos a casos em que os artistas se limitamobsessivamente a imitarem-se a si próprios. E isto porque os valores demercado, a assinatura tornada objecto de consumo como sinal de troca valor-signo de estatuto social, as conexões estabelecidas a partir de relaçõesconfusas entre os conceitos de objecto estético e objecto artístico, aindefinição falaciosa com que a crítica de arte mal autorizada faz eleger a―objecto de arte‖ uma qualquer moda ditada pelas associações internacionaisde críticos, faz com que a história da arte hoje corra o risco de ser a históriados êxitos fracassados a curto prazo. Muitas das obras actuais serão, com todaa certeza encaradas no futuro como ―cheques sem cobertura‖,O objecto artístico contemporâneo é hoje extremamente difícil de definir, detal modo o conceito de ―arte‖ tem sido alargado e empobrecido. Digamosantes que de conceito se passou ―pré-conceitos‖. Parece haver aqui umacontradição; mas se considerarmos que o pré-conceito se baseia em falsosvalores, eles próprios não autorizam a formulação de qualquer espécie deconceito,Pois até o conceito de ―conceito‖ não existe, porque não há critério quedefina o campo em que determinado objecto se coloca e se oferece à análise.Será o entendimento do fenómeno artístico que limpará o terreno e definirá oque é arte hoje.Mas antes haverá que estabelecer uma deontologia da critica do nosso tempo.Maria João FrancoLisboa, Julho 1987
  34. 34. A pintura de Maria João Franco remete-nos para o drama da condiçãohumana, afinal, o "criptotema", sempre presente na grande Pintura ouna grande Arte.Que coisa oculta há com a existência do tempo e com a existência davida,que inevitavelmente tem que acabar. A incomodidade (para não dizerrevolta) de termos um corpo que se vai estragando e que, muitasvezes, é mesmo violentado,como a mente é também violentada. Então, para quê representar"bem" e comtodos os contornos, o que se vai estragar ? Para quê, representar comrigor oupormenor, toda a destruição ? Todos a adivinham.O conceito de beleza evoluiu ao longo do tempo. Depois de Picasso, osadjectivosmudaram muito e o "belo" foi desaparecendo, em favor do "bom".Diz-se: - Isto é muito "bom", é boa Pintura, é bom trabalho. O trabalhopressupõe esforço, desgaste. O "bom", é a boa prestação, feita com aconsciência de que inclui o esforço e toda a tragédia da condiçãohumana. Reflecte a contradição, bem e mal, presentes, em simultâneona natureza humanaPorto,2006António José Pinto PereiraArquitecto
  35. 35. selecção de textos :Prof. Rocha de SousaPintor Edgardo XavierMaria João Francoem 30 de Outubro de 2011+ info www.mariajoaofranco.blogspot.com

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