MOBY DICK
Herman Melville
Herman Melville - Moby Dick

Índice
I - A ESTALAGEM DE A-BALEIA-QUE-FUMA 5
II - DOIS AMIGOS 16
III - O MEU BELO NAVIO 23
I...
Herman Melville - Moby Dick

2

I A ESTALAGEM DE A-BALEIA-QUE-FUMA
Chamem-me simplesmente Ismael. Aqui há
uns anos - não m...
Herman Melville - Moby Dick

3

conheço. Uma última pergunta. Como me
surgiu a ideia, a mim que nunca tinha
viajado senão ...
Herman Melville - Moby Dick

4

Resumindo, meti algumas camisas no meu
velho saco de marinheiro e, sem mais
demora, pus-me...
Herman Melville - Moby Dick

5

sejas muito exigente. E, sobretudo, informate do preço antes de escolheres uma
estalagem!
...
Herman Melville - Moby Dick

6

marinheiros, sentados em volta de uma
mesa, bebiam em silêncio. Aproximei-me
do dono e dis...
Herman Melville - Moby Dick

7

do que no bar. Aquela sala, com efeito,
tinha apenas duas candeias a iluminá-la.
Quanto à ...
Herman Melville - Moby Dick

8

bife... e muito mal passado!
- Caramba!... E onde está ele agora? - Não
está na sala de ja...
Herman Melville - Moby Dick

9

metro e noventa de altura, com o peito
semelhante a uma prancha e de ombros
soberbos. Uma ...
Herman Melville - Moby Dick

10

mudei de opinião.
Em vez de dormir lá em cima com o
arpoador, vou passar a noite aqui, ne...
Herman Melville - Moby Dick

11

horas tardias?
- Não - respondeu o estalajadeiro sem
levantar os olhos -, de uma maneira ...
Herman Melville - Moby Dick

12

Eu explico-lhe.
- O rapaz em questão acaba de chegar dos
mares do Sul. Trouxe da Nova Zel...
Herman Melville - Moby Dick

13

numa candeia -, vou conduzi-lo ao seu
quarto. Pode estar certo de passar uma
noite tranqu...
Herman Melville - Moby Dick

14

Mas ali, sobre a arca, o que seria aquele
objecto esquisito?
Aproximei-me e verifiquei que...
Herman Melville - Moby Dick

15

blusão, colete, calças, botas -, e depois de
ter apagado a candeia, enfiei-me na cama,
dei...
Herman Melville - Moby Dick

16

me do meu erro: o que eu tomara por
emplastros e cicatrizes recentes não era
mais que um ...
Herman Melville - Moby Dick

17

o rosto, o tronco, o peito, os braços e as
coxas desapareciam sob um inextricável
entrela...
Herman Melville - Moby Dick

18

descrever. Após o que, tendo sem dúvida
acabado de rezar, pegou no tomahawk,
colocou o se...
Herman Melville - Moby Dick

19

Quanto ao meu selvagem, continuava a
repetir: - Quem ser tu? Tu não querer dizer?
Se tu n...
Herman Melville - Moby Dick

20

Queequeg voltando a fumar o seu
tomahawk.
Levantou a manta e voltando-se para mim:
- Tu e...
Herman Melville - Moby Dick

21

o mais possível, como para mostrar que
não me tocaria numa unha, convidou-me de
novo com ...
Herman Melville - Moby Dick

22

um cão ao sair da água, olhou-me uns
instantes, esfregando os olhos, saltou
bruscamente d...
Herman Melville - Moby Dick

23

do saco. Iria barbear-se? E com quê? Mas,
de súbito, vi-o arrancar o cabo de ferro do
arp...
Herman Melville - Moby Dick

24

uma calma impressionante.
Nesse dia, não sabendo que fazer,
deambulei toda a manhã e uma ...
Herman Melville - Moby Dick

25

ilha situada muito longe para sudoeste. Não
a procurem no mapa. Seria uma perda de
tempo....
Herman Melville - Moby Dick

26

de bruços sobre a ponte e agarrou uma
grossa argola de ferro, gritando:
- Eu nunca mais i...
Herman Melville - Moby Dick

27

responder que estava até certo ponto
dentro da razão? Preferi deixar passar
alguns instan...
Herman Melville - Moby Dick

28

estar à nossa espera para levantar ferro.
Mal nos fizemos ao largo, sentime invadido
por u...
Herman Melville - Moby Dick

29

diabo, capitão, é o diabo! O capitão, um
grandalhão magrizela ressequido pelo mar,
caminh...
Herman Melville - Moby Dick

30

devido a uma terrível rajada de vento, o
barco inclinara-se de súbito com violência,
sacu...
Herman Melville - Moby Dick

31

a vestir o blusão, reacendeu o seu
cachimbo-tomahawk e olhou em volta como
um homem não s...
Herman Melville - Moby Dick

32

As-Duas- Canecas, uma das melhores
estalagens de Nantucket, como ele
precisara. Pusemo-no...
Herman Melville - Moby Dick

33

e minúsculos pedacinhos de porco salgado;
tudo, bem entendido, temperado por mão
de mestr...
Herman Melville - Moby Dick

34

Queequeg e a estátua do seu deus, Yojo,
fechados no quarto. Depois saí da
estalagem e dir...
Herman Melville - Moby Dick

35

bonanças dos quatro oceanos do planeta,
tinha a cor bronzeada das faces de um
granadeiro ...
Herman Melville - Moby Dick

36

de todas as coisas nobres, emanava dele
uma pesada tristeza.
Avistando um velhote sentado...
Herman Melville - Moby Dick

37

- Sim. É ele o comandante do Pequod.
Agora ouve bem: antes de assinares o
contrato, é bom...
Herman Melville - Moby Dick

38

baleia?
- Claro.
- Muito bem. Sentes-te capaz de lançar um
arpão à garganta de uma baleia...
Herman Melville - Moby Dick

39

- Queres mesmo embarcar no Pequod perguntou-me o capitão Bildad numa voz
cavernosa.

24 2...
Herman Melville - Moby Dick

40

- Claro! É um verdadeiro baleeiro. Matou
um número infinito de baleias. - Bom, está
combin...
Herman Melville - Moby Dick

41

sério. Pois bem, não é exactamente assim.
O capitão Acab... é uma espécie de deus...
Sim,...
Herman Melville - Moby Dick

42

assustou. - Outro conselho, meu rapaz:
enquanto estiveres a bordo do Pequod,
nunca repita...
Herman Melville - Moby Dick

43

27
cruel? Acredita, por mais rude que seja,
Acab tem o seu lado humano. Depois de ter
dei...
Herman Melville - Moby Dick

44

lado, porque não lhe permite mostrar do
que é capaz?
Os dois oficiais conferenciaram em vo...
Herman Melville - Moby Dick

45

tranquilamente a corda à qual estava fixado
o arpão -, tu compreender, captão?

28
Se manc...
Herman Melville - Moby Dick

46

disso. Mas ele, ele!, tem alma suficiente
para substituir a que falta aos outros!
- Queequ...
Herman Melville - Moby Dick

47

Elias... O profeta que anunciara ao sombrio
Acab da História Sagrada que os cães lhe
lamb...
Herman Melville - Moby Dick

48

- Alto! - gritou uma voz, enquanto o recémchegado nos agarrava cada um por um
ombro.
Eu j...
Herman Melville - Moby Dick

49

impressionado com a insistência daquele
pássaro agoirento em perseguir-nos...
Subimos par...
Herman Melville - Moby Dick

50

perguntas a respeito de Acab, quando um
ruído na ponte me impediu de continuar.
- Ah! Lá ...
Herman Melville - Moby Dick

51

polida. À proa pendiam pedaços de gelo, e
os dentes de cachalote cravados no filerete
cint...
Herman Melville - Moby Dick

52

Nantucket. Este homem, sério e grave,
parecia, olhando a sua carne tão dura como
biscoito...
Herman Melville - Moby Dick

53

tarefa quotidiana. Sempre de bom humor,
dirigia a chalupa como quem dirige um
barco de re...
Herman Melville - Moby Dick

54

ainda, como uma espécie de ratazanasdágua, com as quais bastava usar de um
pouco de paciê...
Herman Melville - Moby Dick

55

orientais, e pupilas muito negras com um
brilho gelado.
Imaginavam-se facilmente os seus
...
Herman Melville - Moby Dick

56

trabalho no Pequod.
Tratava-se do minúsculo Pip, um pobre
preto do Alabama. Não tardareis...
Herman Melville - Moby Dick

57

exercer o comando por delegação. O
senhor supremo e verdadeiro do Pequod
encontrava-se me...
Herman Melville - Moby Dick

58

um homem que, submetido à acção do
fogo, tivesse sido retirado a tempo, isto é,
no moment...
Herman Melville - Moby Dick

59

de me surpreender.
Porém não tardei a notar que mandara
fazer na ponte, junto das peias p...
Herman Melville - Moby Dick

60

timoneiro via de súbito emergir lentamente,
da sua escotilha, o velho mutilado. A maior
p...
Herman Melville - Moby Dick

61

- O quê? - bramiu o capitão. - Sou alguma
bala de canhão para me quereres assim
enfiar uma...
Herman Melville - Moby Dick

62

precipitadamente a escotilha que conduzia
à sua cabina.
Quando Stubb desapareceu, Acab fic...
Herman Melville - Moby Dick

63

cordame.
Na manhã seguinte, Stubb disse a Flask:

38
- Se soubesses o que me aconteceu! T...
Herman Melville - Moby Dick

64

Ouviste aquilo? Uma baleia branca! Estás a
ver? Palavra de honra, fica fora de si...
Mas, ...
Herman Melville - Moby Dick

65

Starbuck, seu imediato: - Junte toda a
gente à popa.
- Como, capitão? - disse Starbuck, j...
Herman Melville - Moby Dick

66

perseguimo-la! - E ao som de que cantiga é
que vocês remam? - Ao som desta:
Ou ela ou a g...
Herman Melville - Moby Dick

67

entre vós que me assinalar primeiro uma
baleia branca de testa enrugada, de
maxilares à b...
Herman Melville - Moby Dick

68

Daggoo, o negro gigantesco -, tem um jacto
curioso, rápido, possante e espesso. Não é,
ca...
Herman Melville - Moby Dick

69

grupo.

42
- Capitão - disse ele com o ar de um
homem a quem acaba de acudir uma ideia
-,...
Herman Melville - Moby Dick

70

la-emos até aos confins da terra! Que
dizem a isto, rapazes? Estão de acordo?
Vocês parece...
Herman Melville - Moby Dick

71

encarniçadamente é não só loucura, mas
um grande pecado!

43
O capitão Acab fixou durante ...
Herman Melville - Moby Dick

72

cometo um pecado encarniçando-me contra
Moby Dick. Aniquilaria também o Sol se ele
me inj...
Herman Melville - Moby Dick

73

grande jarro de estanho cheio de rum até à
borda, acrescentou: - Os arpoadores serão
serv...
Herman Melville - Moby Dick

74

desceu à cabina.
Se tivéssemos seguido o capitão até à sua
cabina, tê-lo-íamos visto apro...
Herman Melville - Moby Dick

75

murmurava, passando a mão pela testa:
"Vou apertando o cerco cada vez mais!
Escapar-me-á....
Herman Melville - Moby Dick

estivesse a arder e punha-se a correr pela
entrecoberta, soltando bramidos que
aterrorizavam ...
Herman Melville - Moby Dick

77

tripulação -, provava que o capitão Acab
tinha realmente a intenção de contribuir, por
su...
Herman Melville - Moby Dick

78

primeiro a assinalar a sua presença. Nas
noites claras, com efeito, ele tinha o
costume d...
Herman Melville - Moby Dick

79

voltou a ver o jacto prateado.
Porém todos os marinheiros estavam
prontos a jurar que o t...
Herman Melville - Moby Dick

80

avista este jacto, em qualquer latitude, vale
mais não o seguir, se não quisermos
perder-...
Herman Melville - Moby Dick

81

Cabo da Boa Esperança, assim se diz
hoje... Porque deixaram de lhe chamar,
como outrora, ...
Herman Melville - Moby Dick

82

espantar que o capitão Acab votasse a
Moby Dick um ódio de morte. Cego pelo
desespero, ch...
Herman Melville - Moby Dick

83

Tinha o aspecto de um esqueleto de morsa.
Nos seus flancos, que a acção das vagas
desbotar...
Herman Melville - Moby Dick

84

capitão Acab parecia reflectir. Iria lançar um
escaler à água? No entanto, renunciando a
e...
Herman Melville - Moby Dick

85

tristeza. Porém, recobrando logo o seu tom
imperioso, voltou-se para o timoneiro, que
até...
Herman Melville - Moby Dick

86

Uma manhã, mais transparente e mais azul
ainda do que as precedentes, Daggoo, que
se enco...
Herman Melville - Moby Dick

87

50 51
nem barbatana. Mas do centro desta massa
irradiavam braços imensos que se torciam
c...
Herman Melville - Moby Dick

88

para Queequeg o fosse.
- Quando vocês ver squid - disse ele
pousando o arpão na frente da...
Herman Melville - Moby Dick

89

avistei, muito perto de nós, a menos de
quarenta braças, um gigantesco cachalote,

52 53
...
Herman Melville - Moby Dick

90

concedida, Stubb tirou o cachimbo do bolso
e acendeu-o. Passado o tempo normal do
mergulh...
Herman Melville - Moby Dick

91

54
- É a tua vez, Tashtego!
Depois de o índio ter lançado o arpão, o
primeiro-tenente acr...
Herman Melville - Moby Dick

92

o cetáceo com golpes sucessivos. A cada
uma das suas ordens, a baleeira recuava,
para não...
Herman Melville - Moby Dick

93

Quando cessaram por completo, Daggoo
numa baleeira ao lado, disse a Stubb:

55
- Está mor...
Herman Melville - Moby Dick

94

segundos o cachalote, deu ordem para o
acondicionarem para a noite e, depois de
ter dado ...
Herman Melville - Moby Dick

95

pois ainda estava sob a
embriaguez da vitória: - Salta por cima do
filerete e vai-me corta...
Herman Melville - Moby Dick

96

na água negra para arrebatar mais
facilmente do corpo do vencido pedaços
redondos cuja fo...
Herman Melville - Moby Dick

97

dez marinheiros, entoando uma canção
selvagem, empreenderam a tarefa de fazer
girar o gui...
Herman Melville - Moby Dick

98

marinheiros especializados fazia-as descer
uma após outra por uma escotilha para um
espaç...
Herman Melville - Moby Dick

99

mancha indistinta no horizonte. Mas, na
ponte deserta, reinava agora um silêncio de
funer...
Herman Melville - Moby Dick

100

preparávamos para descer a escada de
abordagem, declarou: - É inútil! Há uma
epidemia a ...
Herman Melville - Moby Dick

101

Em resposta à declaração do capitão
Mayhew, o capitão Acab gritou: - Não tenho
medo da s...
Herman Melville - Moby Dick

102

Mayhew conseguiu então contar ao patrão
do Pequod uma triste história na qual Moby
Dick ...
Herman Melville - Moby Dick

103

Mayhew terminara a narração. Acab, então,
fez-lhe numerosas perguntas acerca deste
deplo...
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Moby dick   herman melville
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Moby dick herman melville

1.730 visualizações

Publicada em

Publicada em: Educação
0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.730
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
20
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Moby dick herman melville

  1. 1. MOBY DICK Herman Melville
  2. 2. Herman Melville - Moby Dick Índice I - A ESTALAGEM DE A-BALEIA-QUE-FUMA 5 II - DOIS AMIGOS 16 III - O MEU BELO NAVIO 23 IV - O CAPITÃO ACAB 31 V - TODOS À POPA! 40 VI - O JACTO FANTASMA 47 VII - FUNERAL DE UM CACHALOTE 58 VIII - A HISTÓRIA DO TOWN-HO 64 IX - O DONZELA 78 X - UM FRANCÊS: O BOTÃO DE ROSA 90 XI - O RÉPROBO 100 XII - O DOBRÃO 114 XIII - A PERNA DE ACAB 124 XIV - QUEEQUEG NO SEU ESQUIFE 131 XV - O PACÍFICO 139 XVI - O TUFÃO 151 XVII - A CORRIDA PARA O ABISMO 168 EPÍLOGO 191 1
  3. 3. Herman Melville - Moby Dick 2 I A ESTALAGEM DE A-BALEIA-QUE-FUMA Chamem-me simplesmente Ismael. Aqui há uns anos - não me peçam para ser mais preciso - tendo-me dado conta de que o meu porta-moedas estava quase vazio, decidi voltar a navegar, ou seja, aventurarme de novo pelas vastas planícies líquidas do Mundo. Achei que nada haveria de melhor para desopilar, quer dizer, para vencer a tristeza e regularizar a circulação sanguínea. Algumas pessoas, quando atacadas de melancolia, suicidam-se de qualquer maneira. Catão, por exemplo, lançou-se sobre a própria espada. Eu instalo-me tranquilamente num barco. O que nada tem de espantoso. Os homens não se dão conta disto, mas todos, em certo momento da vida, sentiram pelo mar um amor tão profundo como o meu. No entanto, não é como passageiro que navego. É como simples marinheiro. Porquê? Porque fazem questão de me pagar pelos tormentos que eu passo a bordo, e também porque a profissão do mar é a mais bela, a mais saudável que
  4. 4. Herman Melville - Moby Dick 3 conheço. Uma última pergunta. Como me surgiu a ideia, a mim que nunca tinha viajado senão em navios mercantes, de fazer uma campanha de pesca à baleia? Após madura reflexão, creio compreender as razões que me levaram a lançar-me nesta aventura. Em primeiro lugar surge a formidável imagem da baleia, monstro impressionante e misterioso, 5 que sempre povoou a minha imaginação. E, além disso, tinha vontade de ver os oceanos selvagens onde os grandes cetáceos rolam nas ondas as suas massas comparáveis a ilhas vivas. Queria iniciar-me nos perigos que eles fazem correr àqueles que os desafiam. Quantas vezes, nos meus sonhos, contemplei procissões de baleias, pelo meio das quais deslizava uma espécie de fantasma embuçado, semelhante a uma colina coberta de neve? Enfim, esperava maravilhas das paisagens e dos ventos da Patagónia. Em suma, tudo me impelia a não lutar contra o impulso do meu desejo.
  5. 5. Herman Melville - Moby Dick 4 Resumindo, meti algumas camisas no meu velho saco de marinheiro e, sem mais demora, pus-me a caminho do cabo Horn e do oceano Pacífico. Isto é, parti primeiro de Manhattan (1), onde residia, e dirigi-me para New Bedford, no Massachusetts. Quando cheguei a New Bedford, num sábado à tarde, em pleno mês de Dezembro, tive a desagradável surpresa de saber que o pequeno veleiro que servia a ilha de Nantucket já levantara ferro e que me seria preciso esperar a sua volta até à segunda-feira seguinte. Como empregar o meu tempo durante estes dois dias? Porque eu estava mesmo decidido a alcançar Nantucket, berço dos baleeiros americanos, ponto de partida das mais antigas expedições. A noite estava não apenas escura, mas muito fria. Parei perto de um marco, com o meu saco ao ombro. Depois, meti a mão ao bolso e tirei algumas moedas. Meu velho Ismael - disse comigo, olhando para todos os lados -, é indispensável que encontres um sítio para dormir. Mas não
  6. 6. Herman Melville - Moby Dick 5 sejas muito exigente. E, sobretudo, informate do preço antes de escolheres uma estalagem! Num passo hesitante, pus-me a caminhar pelas ruas e passei sucessivamente por várias estalagens onde me pareceu mais sensato nem sequer parar, de tal modo me pareciam sumptuosas. 1 Quando Herman Melville escreveu Moby Dick, em 1850-1851, Manhattan não era ainda o bairro dos arranha-céus de Nova Iorque. (N. do T.) 6 Enfim, já perto do porto, para o qual me dirigira instintivamente, vi de súbito num halo de luz uma tabuleta que balançava, rangendo. Representava um jacto de vapor de água, e por baixo podia ler-se: A-Baleiaque-Fuma, Peter Coffin, proprietário. Esta estalagem, de fachada deteriorada e decadente, não era nada convidativa. Mas, dado o estado das minhas finanças, não seria exactamente o abrigo que eu procurava? Empurrei a porta. À claridade de uma lanterna suspensa do tecto, vários
  7. 7. Herman Melville - Moby Dick 6 marinheiros, sentados em volta de uma mesa, bebiam em silêncio. Aproximei-me do dono e disselhe: - Eu queria um quarto. - Impossível respondeu ele -, está tudo ocupado. Depois, batendo na testa: - Um momento! O senhor vai à pesca da baleia, não é? Nestas condições, veria inconveniente em partilhar a cama de um arpoador? Para se habituar desde já aos seus futuros companheiros, não é verdade? A perspectiva de dormir com um homem que eu não conhecia não me agradava nada. Mas, por uma simples esquisitice, ia ficar condenado a errar toda a noite numa cidade em que punha os pés pela primeira vez? - Quem é esse arpoador? - perguntei. - Oh! Um bom tipo... - Sendo assim - respondi num tom resignado -, aceito. - Muito bem. E agora, sente-se. Vou servir-Lhe uma boa ceia. Instantes mais tarde introduziu-nos, aos outros clientes e a mim, na sala ao lado. Ali, a atmosfera glacial era ainda mais sombria
  8. 8. Herman Melville - Moby Dick 7 do que no bar. Aquela sala, com efeito, tinha apenas duas candeias a iluminá-la. Quanto à chaminé... vazia! Vendo a minha surpresa, o estalajadeiro explicou-me: - A lareira é um luxo que eu não posso permitirme... Para me aquecer não achei outra forma senão abotoar o meu blusão e segurar com as duas mãos a chávena de chá a escaldar. 7 Porém a ceia revelou-se das mais substanciais. Havia carne, batatas e, com grande espanto meu, dumplings (1)! A meu lado um jovem marinheiro de blusão verde - perdoem-me a expressão empanturrava-se! - Ouve lá - disselhe o estalajadeiro -, se não começas a ter mais juízo, não te livras de uma indigestão! - Oh! Não - murmurei -, é aquele o meu arpoador? - O seu arpoador, como Lhe chama não é um branco. - Disse o estalajadeiro com um sorriso que me pareceu diabólico. - E, além disso, nunca come dumplings. Só gosta de
  9. 9. Herman Melville - Moby Dick 8 bife... e muito mal passado! - Caramba!... E onde está ele agora? - Não está na sala de jantar. Mas não tardará a conhecê-lo. Terminada a ceia, voltámos para o bar. De súbito, ouviu-se à entrada uma barulheira enorme. - É a equipagem do Grampus! - exclamou o patrão. - Três anos de ausência. Ora viva, rapazes! Vamos ter enfim as últimas notícias das ilhas Fiji! Arrastando pesadas botas, os marinheiros do Grampus embuçados em peles, como ursos do Labrador, entraram no bar e dirigiram-se sem hesitar para a bocarra da baleia - quero dizer para o balcão -, onde Jonas - quero dizer, o patrão - se pôs a encher-lhes copos uns atrás dos outros. Passados uns minutos, já com o álcool a subir-lhes à cabeça começaram a fazer algazarra, a gesticular e a entoar desastradamente canções do mar. Reparei no entanto que um deles parecia resolvido a não participar da alegria geral. Tratava-se de um rapagão com mais de um
  10. 10. Herman Melville - Moby Dick 9 metro e noventa de altura, com o peito semelhante a uma prancha e de ombros soberbos. Uma verdadeira montanha de músculos! A brancura dos dentes contrastava com a pele tostada do rosto. As pupilas escuras pareciam carregadas de indecifráveis recordações. 1 Prato açucarado, feito de pasta cozida à maneira do plum-pudding, com frutos. (N. do T.) 8 Quando a algazarra chegou ao cúmulo, ele afastou-se. No entanto, alguns dos companheiros, tendo-o visto no momento em que saía da estalagem, foram-lhe no encalço gritando: Bulkington! Bulkington! Estava longe de calcular que mais tarde aquele nome ressoaria de novo aos meus ouvidos... Pelas dez horas, o bar esvaziou-se como por encanto. E eu voltei a pensar no meu arpoador. Decididamente não me agradava nada a ideia de passar a noite com um desconhecido... - Patrão - disse eu, após uma hesitação -,
  11. 11. Herman Melville - Moby Dick 10 mudei de opinião. Em vez de dormir lá em cima com o arpoador, vou passar a noite aqui, neste banco. - Como quiser - respondeu ele -, mas previno-o de que não tenho mantas para lhe dar. - Passo sem elas - disse eu. Empurrei o banco contra a parede e estendi-me em cima dele. No entanto, quase logo a seguir, apercebime do meu erro. As correntes de ar que se infiltravam por debaixo da porta e pelos interstícios da janela gelavam a atmosfera do bar e tornavam a minha situação insustentável. Sentei-me no banco, não sem ter tiritado durante uma boa hora. Por um momento fiquei a olhar os hóspedes que regressavam uns após outros e recolhiam aos seus quartos. O estalajadeiro sempre atrás do balcão, aparava tranquilamente um pedacinho de madeira em forma de palito. - Patrão - disse eu - É quase meia-noite, a que horas volta esse arpoador... sempre a
  12. 12. Herman Melville - Moby Dick 11 horas tardias? - Não - respondeu o estalajadeiro sem levantar os olhos -, de uma maneira geral, volta cedo. Pergunto a mim próprio o que andará a fazer. Afinal, não deve ter conseguido vender a sua cabeça... - O quê? A cabeça dele? O que está para aí a dizer? - Sim, a cabeça - repetiu o estalajadeiro na sua voz arrastada. - Eu já lhe tinha dito que não poderia vendê-la em New Bedford. O mercado está demasiado concorrido... - Concorrido? 9 Começava a subir-me a mostarda ao nariz. - Concorrido com quê? - repeti eu. - Bom... De cabeças, claro! - Olhe lá, patrão, parece-me que você é que está a querer dar volta à minha. Se me toma por um grumete, engana-se! Quanto à cabeça dele... - Não diga mal dela! Isto é um conselho de amigo. Senão, ele ainda lhe parte a cara. - A menos que eu comece por partir a dele! - Bem, bem, calma - disse o estalajadeiro. -
  13. 13. Herman Melville - Moby Dick 12 Eu explico-lhe. - O rapaz em questão acaba de chegar dos mares do Sul. Trouxe da Nova Zelândia várias cabeças reduzidas. Está a ver, curiosidades. Ora, ele vendeu- as todas menos uma, aquela que tenta despachar hoje. Porque amanhã é domingo. Não está a vê-lo a oferecer uma cabeça reduzida à boa gente que vai para a igreja! Domingo passado, vi-me doido para o impedir de sair com uma espécie de rosário composto de quatro cabeças enfiadas num cordel! Deixei passar uns minutos. A seguir, depois de ter reflectido maduramente: - Olhe, patrão - disse eu -, esse arpoador deve ser um tipo perigoso! - Não, não - respondeu o estalajadeiro num tom tranquilizador. - Aliás, no que me diz respeito, não tenho razões de queixa dele. Paga regularmente. Olhou para o relógio. - É quase meia-noite. Acho que deve ter parado em qualquer parte. Não voltará a aparecer antes de amanhã de manhã. Olhe, venha daí - ajuntou ele, pegando
  14. 14. Herman Melville - Moby Dick 13 numa candeia -, vou conduzi-lo ao seu quarto. Pode estar certo de passar uma noite tranquila. O quê, tem medo? Medo? Não. Mas devo confessar: não me sentia muito confiante. No primeiro andar, o estalajadeiro introduziu-me num pequeno quarto frio como gelo. - Ora aí tem - disse ele, pousando a candeia sobre uma velha arca que devia servir ao mesmo tempo de mesa de toilette e de mesa-de-cabeceira. - Está em sua casa. Fique à vontade. Boa noite. Quando me voltei, já ele tinha desaparecido. A cama era enorme, com espaço suficiente para vários arpoadores. Quanto ao resto, não havia neste cubículo escuro nada além de um aparador rústico, quatro paredes nuas, um biombo de cartão no qual se via pintado um arpoador em plena acção; depois, a um canto, um leito de campanha dobrado e um saco de marinheiro. Em cima da chaminé luzia vagamente um molho de anzóis, e à cabeceira da cama estava encostado um grande arpão.
  15. 15. Herman Melville - Moby Dick 14 Mas ali, sobre a arca, o que seria aquele objecto esquisito? Aproximei-me e verifiquei que se tratava de uma espécie de esteira enorme com as bordas ornadas de franjas coloridas. Peguei nele e, como tinha uma fenda semelhante às dos ponchos sulamericanos, enfiei-o pela cabeça e deixei-o cair por cima dos ombros. Estava húmido, como se o meu misterioso arpoador tivesse andado com ele à chuva. Mas, sobretudo, que peso! Pus-me em frente de um pedaço de espelho pendurado na parede. Assustado com a imagem que ali se reflectia apressei-me a desembaraçar-me daquela estranha vestimenta dizendo comigo: "Como pode um cristão digno deste nome passear pelas ruas assim enfarpelado?" Pensei ainda durante uns instantes naquele arpoador negociante de cabeças reduzidas e na sua estranha peça de vestuário. A seguir, enchendo-me de coragem, despi-me -
  16. 16. Herman Melville - Moby Dick 15 blusão, colete, calças, botas -, e depois de ter apagado a candeia, enfiei-me na cama, deixando o meu destino entregue à Providência. Passados talvez uns dez minutos, quando estava prestes a adormecer, ouvi um passo pesado no corredor, enquanto por debaixo da porta parecia deslizar uma débil claridade. "Deus me proteja!" - pensei. - "É ele!" Segurando na mão direita uma candeia e na esquerda a cabeça reduzida de que me falara o estalajadeiro, o recém-chegado 10 11 entrou no quarto. Depois, sem olhar para a cama, aproximou-se do saco de marinheiro colocado a um canto e começou a desatar os nós. Por fim, bruscamente, voltou-se. Santo Deus, que espectáculo! Pensei primeiro, ao ver o seu rosto onde alternavam o amarelo, um roxo quase purpúreo e o negro, que acabava de sair de uma zaragata e que tivera de recorrer aos cuidados de um cirurgião, mas quando, por acaso, ficou sob a luz da candeia apercebi-
  17. 17. Herman Melville - Moby Dick 16 me do meu erro: o que eu tomara por emplastros e cicatrizes recentes não era mais que um conjunto de tatuagens multicores de efeito deveras impressionante... Entretanto, o arpoador, ignorando ainda a minha presença, continuava a remexer no seu saco. Retirou de lá um tomahawk mas seria realmente um tomahawk? - e uma bolsa de pele de foca, ainda cheia de pêlo. Depois, enfiou no saco a horrorosa cabeça reduzida. Em seguida tirou o grande chapéu de feltro. Pouco me faltou para soltar uma exclamação de surpresa. Não tinha um único cabelo - à excepção de uma trança enrolada sobre a testa num minúsculo carrapito. Que fazer? Tinha vontade de fugir, apesar de a cobardia não ser dos meus maiores defeitos. Mas ele estava entre a porta e a cama. Claro, podia ter saltado pela janela... Enquanto assim pensava e com dificuldade dominava o medo, ele começara a despirse tranquilamente. Verifiquei que, tal como
  18. 18. Herman Melville - Moby Dick 17 o rosto, o tronco, o peito, os braços e as coxas desapareciam sob um inextricável entrelaçado de tatuagens. Quanto às pernas, tão decoradas como o resto do corpo, julguei distinguir nelas dezenas de rãs verdes que pareciam trepar por palmeiras de troncos amarelos... Começava a compreender: encontrava-me fechado naquele sinistro quarto com um selvagem, trazido sem dúvida por um baleeiro dos mares do Sul. E, além disso, um amador de cabeças! Se achasse a minha a seu gosto... Mas as minhas emoções ainda não tinham chegado ao fim. Agora quase nu - com uma tanga estreita à volta dos rins -, tirou de um dos bolsos do blusão pendurado numa cadeira uma estatueta 12 13 negra com chifres que foi colocar entre os cães da lareira e diante da qual acendeu, com um punhado de cavacos, um pequeno fogo de sacrifício. Depois, prostrado ante a estatueta, entregou-se a intermináveis momices de pagão, que prefiro não
  19. 19. Herman Melville - Moby Dick 18 descrever. Após o que, tendo sem dúvida acabado de rezar, pegou no tomahawk, colocou o seu ferro em contacto com os cavacos que acabavam de arder, meteu na boca a extremidade do cabo e puxou algumas fumaças. Depois, soprou a candeia e, na escuridão completa, de tomahawk nos dentes, saltou para a cama e caiu tão perto de mim que não pude deixar de gritar. O espanto arrancou-lhe um grunhido e, sem mais demora, pôs-se a apalpar-me. Encostei-me à parede, gemendo. - Largue-me, suplico-Lhe! Deixe-me levantar. Vou acender a candeia! Porém ele, numa inconcebível algaraviada: - Quem ser tu? Tu não querer dizer? Então, eu matar tu! E enquanto falava, sacudia por cima de mim o cachimbo-tomahawk, espalhando a cinza pela cama, de tal modo que pensei: "Não só vai matar-me, como também pegar fogo à minha camisa!" Em vista disto, pus-me a berrar: - Patrão! Senhor Coffin! Socorro! Socorro!
  20. 20. Herman Melville - Moby Dick 19 Quanto ao meu selvagem, continuava a repetir: - Quem ser tu? Tu não querer dizer? Se tu não querer dizer, mim matar tu! Mas, graças a Deus, neste momento o estalajadeiro entrou no quarto, com uma candeia na mão. De um pulo, saltei da cama e corri a acolher-me sob a sua protecção. - Não tenha medo - disseme ele com o tal sorrizinho diabólico. - O Queequeg não tocará num só cabelo da sua cabeça. - Primeiro deixe-se desse sorriso imbecil! gritei irritado. - Porque não me disse que este arpoador era na realidade um canibal? - Julgava que sabia... que tinha compreendido, pois! Eu disselhe que ele andava pela cidade a tentar vender a sua última cabeça reduzida... Vamos, deite-se e não falemos mais disso. E, dirigindo-se a Queequeg - pois era este o nome do meu canibal: - Ouve, Queequeg. Tu conhecer mim. Mim conhecer tu. Ele dormir com tu. Tu compreender? - Sim, mim compreender - respondeu
  21. 21. Herman Melville - Moby Dick 20 Queequeg voltando a fumar o seu tomahawk. Levantou a manta e voltando-se para mim: - Tu entrar lá - ajuntou ele com uma expressão quase delicada e um gesto de convite digno de um civilizado. Examinei-o por instantes. Apesar das tatuagens, estava bastante limpo e até atraente para um selvagem. Afinal - pensei -, é um homem tal como eu. Talvez procedesse mal fazendo este barulho. Não será melhor dormir com um canibal sóbrio do que com um cristão embriagado? Depois, dirigindo-me ao estalajadeiro: Patrão - disse eu -, mande-o tirar daí esse tomahawk... ou esse cachimbo, se prefere. Em todo o caso, diga-lhe que não fume. Não quero dormir com um homem que fuma na cama. É perigoso. E além disso o cheiro incomodame. Logo que o estalajadeiro lhe deu a conhecer o meu desejo, Queequeg obedeceu imediatamente e encolhendo-se
  22. 22. Herman Melville - Moby Dick 21 o mais possível, como para mostrar que não me tocaria numa unha, convidou-me de novo com uma delicadeza perfeita a deitarme. - Boa noite patrão - disse eu. - Agora, podese ir embora. Voltei a deitar-me, e cumpre-me reconhecer que, nessa noite, dormi melhor do que em toda a minha vida. 14 15 II DOIS AMIGOS Na manhã seguinte, acordei ao alvorecer. Qual não foi a minha surpresa ao verificar que o meu companheiro me agarrava pelo pescoço da maneira mais afectuosa do mundo! Por várias vezes tentei libertar-me em vão. Estou em bons lençóis! - pensei. - Que vai ser de mim nesta inquietante estalagem, deitado ao lado deste canibal armado até aos dentes e que parece mesmo resolvido a não me largar? Por fim, gritei: - Que Eh, Queequeg! Acorda, amigo. Ele soltou um grunhido, sacudiu-se como
  23. 23. Herman Melville - Moby Dick 22 um cão ao sair da água, olhou-me uns instantes, esfregando os olhos, saltou bruscamente da cama e deu-me a entender, mais por gestos do que por palavras, que ia vestir-se primeiro, a fim de me permitir dispor à vontade do quarto. Decididamente, usava de delicadezas que muitos civilizados poderiam invejar! Para se vestir, começou por cima, isto é, pôs em primeiro lugar o chapéu e o blusão. Depois, com as coxas e as pernas sempre nuas, meteu-se debaixo da cama, com muitos suspiros e gemidos e ali entregou-se à tarefa de calçar as botas. Porque acharia ele necessário calçar as botas escondido? Ora! - pensei. - É sem dúvida o seu modo de mostrar pudor... 16 Mas de qualquer modo não me recompunha do meu espanto! Por fim, saiu de debaixo da cama, com o chapéu amachucado e enterrado até aos olhos. Depois, fazendo estalar o couro das botas, molhou a cara e ensaboou as faces com um sabão duro como pedra que tirou
  24. 24. Herman Melville - Moby Dick 23 do saco. Iria barbear-se? E com quê? Mas, de súbito, vi-o arrancar o cabo de ferro do arpão, afiá-lo numa das botas e... "oh, céus!", postara-se diante do fragmento de espelho suspenso na parede e vigorosamente raspava o rosto com aquela assustadora lâmina! Um pouco mais tarde, terminada a toilette, como ele se dirigia já para a porta, não pude deixar de lhe gritar: Então, Queequeg! E as calças? Ele voltou-se, agradeceu-me com um sorriso que mais parecia uma careta, enfiou as calças e, apertando o seu arpão na mão esquerda, como um bastão de marechal, saiu altivamente do quarto. Quando cheguei ao bar, estava já instalado entre outros baleeiros: marinheiros, primeiros-tenentes, segundos-tenentes, carpinteiros, veleiros, arpoadores, mestres de equipagem, etc., que bebiam café, mastigando pãezinhos quentes e estaladiços. Mas ele contentava-se em picar com a ponta do arpão bifes quase crus, que estavam na outra extremidade da mesa, e devorava-os um após outro com
  25. 25. Herman Melville - Moby Dick 24 uma calma impressionante. Nesse dia, não sabendo que fazer, deambulei toda a manhã e uma parte da tarde pelas ruas e pelos cais de New Bedford. Foi somente à tarde que voltei a encontrar Queequeg, sentado à mesa do bar da estalagem. Estava bem longe de calcular que a nossa amizade nascente ia progredir em poucas horas a passos de gigante. Começámos por jantar lado a lado, conversando acerca da nossa profissão, do tempo que fazia e da nossa partida para Nantucket, que devia ter lugar no dia seguinte. Em seguida fomos para o quarto. Ali, depois de o meu companheiro dizer aquelas bizarras orações ante o seu ídolo negro, iluminado por um lume de cavacos semelhante ao da 17 véspera, deitámo-nos muito sensatamente. Queequeg acendeu o seu cachimbotomahawk e, de pergunta em pergunta, consegui fazê-lo contar a sua história. Queequeg nascera em Kokovoko, pequena
  26. 26. Herman Melville - Moby Dick 25 ilha situada muito longe para sudoeste. Não a procurem no mapa. Seria uma perda de tempo. Aliás, sem dúvida já repararam: as regiões interessantes nunca figuram nos mapas. Em geral, os meninos selvagens desejam apenas uma coisa: correr quase nus nas suas florestas ou nas suas selvas natais. Porém Queequeg tinha uma ambição. Queria conhecer da cristandade outra coisa além dos baleeiros, que de tempos a tempos apareciam nas margens da sua ilha, onde o pai era uma espécie de rei. Em resumo, tendo um barco ancorado na baía de Kokovoko, Queequeg apresentouse a bordo com esperança que acedessem a contratá-lo como marinheiro. Mas a equipagem estava completa e mandaramno passear. Então, usou de um expediente. Só, na sua piroga, foi postar-se num local por onde o barco devia passar para se afastar da ilha. Quando este apareceu, aproximou- se tão rapidamente quanto possível, serviu-se de uma das correntes para se içar por cima do filerete, lançou-se
  27. 27. Herman Melville - Moby Dick 26 de bruços sobre a ponte e agarrou uma grossa argola de ferro, gritando: - Eu nunca mais ir embora, mesmo se vocês cortar mim em bocados! Ameaçaram-no de o atirar aos tubarões, de lhe cortar os pulsos. Como verdadeiro filho de rei que era, nem pestanejou. Por fim, o capitão, impressionado com a sua coragem, declarou: - Está bem. Fico contigo. E dirigindo-se aos homens que o rodeavam: - Ocupem-se dele e façam com que venha a ser um bom baleeiro. Depois disto, Queequeg sulcara os mares em todos os sentidos, participara em numerosas campanhas de pesca, visitara portos e cidades. Sentia-se satisfeito entre aquela cristandade, com a qual ele tanto desejara travar 18 conhecimento? Julguei compreender que perdera a esse respeito algumas ilusões... - Cristãos nem sempre melhores que pagãos - disseme ele. Como cristão, teria eu o direito de lhe
  28. 28. Herman Melville - Moby Dick 27 responder que estava até certo ponto dentro da razão? Preferi deixar passar alguns instantes. Depois perguntei-lhe: - Tencionas voltar à tua ilha e seres coroado? Porque, enfim, desde que partiste, o teu pai deve ter morrido. - Sim, ele morto - respondeu. - Mas mim não pensar voltar lá. Mim querer ainda ver muitas coisas e arpoar muitas baleias. Agora, nós dormir, para nós partir amanhã para a grande pesca! Quando acabou de fumar o seu cachimbotomahawk, pousou-o no chão, junto de si. Depois, como nos havíamos tornado verdadeiros amigos, beijou-me à maneira do seu país, isto é, apertando a sua fronte contra a minha. Após o que voltámos as costas um ao outro e, passado um minuto, dormíamos os dois o sono dos justos. No dia seguinte, ou seja a segunda-feira da nossa partida, pedimos emprestado um carrinho de mão para carregar a nossa bagagem e, com este equipamento, dirigimo-nos ao porto, onde o pequeno veleiro Moss, que servia Nantucket, parecia
  29. 29. Herman Melville - Moby Dick 28 estar à nossa espera para levantar ferro. Mal nos fizemos ao largo, sentime invadido por uma emoção, que era um misto de alegria e de embriaguez. Queequeg, esse, nem procurava dissimular o seu contentamento. Tínhamos enfim deixado terra firme, com as suas maçadas, as suas inumeráveis restrições. À proa, junto do gurupés, lançámos ao vento grandes gargalhadas, sem nos darmos conta de que os passageiros zombavam de nós. Voltando-se de súbito e absolutamente por acaso, Queequeg reparou que um daqueles cretinos, uma espécie de alfenim, lhe estava fazendo caretas... Então, sem hesitar, larga o arpão, agarra o fedelho, fálo saltar no ar, apanha-o, aplica- lhe uma boa palmada e deixa-o cair desamparado. 19 Depois, com a maior tranquilidade, volta as costas, acende o tomahawk e passa-mo para eu tirar uma fumaça. Mas o jovem imbecil, espavorido, corria já para o capitão, bramindo: - Capitão, capitão! Este sujeito... este selvagem, é o
  30. 30. Herman Melville - Moby Dick 29 diabo, capitão, é o diabo! O capitão, um grandalhão magrizela ressequido pelo mar, caminhou p,ggqp, resolutamente para Queequeg. - Ora ouve lá! Que é que te deu? Não vês que podias ter morto este pobre tipo? - Que dizer ele? - perguntou Queequeg, olhando-me com a inocência de uma criança acabada de nascer. - Diz que podias ter morto aquele tipo expliquei, mostrando-lhe a sua vítima que tremia ainda como varas verdes. - Mim matar ele? - perguntou Queequeg, dando ao rosto tatuado uma expressão de sobre-humano desprezo - Oh! não! Ele peixinho muito pequeno. Queequeg nunca matar peixes pequenos. Queequeg matar baleias grandes! - Ora ouve! - rugiu o capitão -, se tu matas as baleias, eu cá encarrego-me de te matar. E não tarda nada! Porém esta ameaça irrisória, dada a força prodigiosa de que o meu canibal acabava de dar provas, ficou por ali. Com efeito,
  31. 31. Herman Melville - Moby Dick 30 devido a uma terrível rajada de vento, o barco inclinara-se de súbito com violência, sacudindo a maior parte dos passageiros e lançando borda fora o alfenim, sem dúvida menos seguro nas pernas do que os companheiros. Várias pessoas gritaram: - Homem ao mar! Homem ao mar! Houve um curto período de pânico. A equipagem, com gestos febris e desastrados, esforçava-se por largar o escaler à popa. Então, tão calmo como se estivesse em terra firme, Queequeg tirou o blusão, subiu para o filerete e mergulhou. Ao fim de uns dez segundos, reapareceu à superfície, nadando com uma das mãos e segurando com a outra o infortunado alfenim, que parecia ter perdido os sentidos. 20 Mal voltara para a ponte, e enquanto reanimavam o afogado, Queequeg viu-se rodeado por todos, acariciado, felicitado. Recebeu até, com muita dignidade, as desculpas do capitão. Depois, com inteira despreocupação, voltou
  32. 32. Herman Melville - Moby Dick 31 a vestir o blusão, reacendeu o seu cachimbo-tomahawk e olhou em volta como um homem não somente satisfeito consigo próprio, mas com o mundo inteiro, e que pensa: "Não é natural que nós outros, canibais, ajudemos de vez em quando estes pobres cristãos?" A partir desse dia, e até àquele em que efectuou o seu último mergulho, liguei- me a ele como uma lapa ao rochedo. Não houve qualquer outro incidente durante o resto da viagem. À tardinha qqg chegámos à vista de Nantucket. Nantucket! Sentime extremamente emocionado quando avistei pela primeira vez esta pequena ilha, composta por uma colina árida e uma simples praia, de onde partem desde tão longa data os mais ousados baleeiros da Terra! Caía a noite quando o Moss lançou ferro no porto. Nada mais tínhamos a fazer além de cear e procurar um abrigo. O patrão de A-Baleia-que-Fuma recomendara-nos a pensão de um certo Hosea Hussey, seu primo, proprietário de
  33. 33. Herman Melville - Moby Dick 32 As-Duas- Canecas, uma das melhores estalagens de Nantucket, como ele precisara. Pusemo-nos pois imediatamente à procura dessa maravilha e, após termos deambulado uma boa hora pelas ruelas, encontrámo-nos de súbito ante uma casa cuja fachada era incrustada de conchas e a tabuleta representava dois enormes copos de madeira balançando ao vento da noite. - Bom - disse eu a Queequeg -, acho que é aqui. Empurrámos a porta. No bar, a atmosfera tresandava a peixe. Aliás, toda aquela taberna parecia estar em molho de peixe. A senhora Hussey, imponente criatura de expressão autoritária, trazia ao pescoço um colar de vértebras de bacaLhau. O senhor Hussey folheava um livro de contabilidade encadernado em pele de tubarão e, como jantar, serviram-nos, acompanhado de dois copos de leite - que também cheirava vagamente a peixe, 21 embora fosse bastante cremoso -, um prato extremamente saboroso, que constava de amêijoas cozidas com bolachas esmagadas
  34. 34. Herman Melville - Moby Dick 33 e minúsculos pedacinhos de porco salgado; tudo, bem entendido, temperado por mão de mestre. Será preciso acrescentar que nos bastou obedecer ao nosso apetite, aguçado pelo ar do mar, para devorarmos num abrir e fechar de olhos este copioso e memorável prato? Engolida a última garfada, a senhora Hussey deu-nos um candeeiro, dizendo: - E para o pequeno-almoço, o que é que desej am? Amêijoas com porco salgado, como esta noite? - Claro - respondi após uma breve hesitação, devido à surpresa. - Mas ponha também dois arenques fumados para variar. 22 III O MEU BELO NAVIO Mal nos encontrámos deitados lado a lado, achei que era tempo de preparar os nossos planos. Pois, agora que atingíramos o nosso fim, precisávamos sem demora de procurar o baleeiro que quisesse aceitarnos a bordo. No dia seguinte, ao alvorecer, deixei
  35. 35. Herman Melville - Moby Dick 34 Queequeg e a estátua do seu deus, Yojo, fechados no quarto. Depois saí da estalagem e dirigi-me para o porto. Foi-me necessário empreender numerosas tentativas e fazer talvez uma centena de perguntas ao acaso antes de saber que iam aparelhar três navios para viagens de três anos. Estes três navios eram a Endemoninhada, a Gulodice e o Pequod, sendo este último nome o de uma tribo índia do Massachusetts, aniquilada há muito. Andei um momento em volta da Endemoninhada, depois em volta da Gulodice. Por fim, subi a bordo do Pequod e, quase logo, compreendi que era este que nos convinha. Já viram, com certeza, barcos estranhos no decorrer da vossa existência: lugres, juncos japoneses, galeotes. Mas, podem crer, nunca viram nada tão estranho como este estranho Pequod. Tratava-se de um navio da velha escola, mais pequeno que grande, semelhante a um monstro com garras. O seu casco maltratado pelos tufões e acariciado pelas
  36. 36. Herman Melville - Moby Dick 35 bonanças dos quatro oceanos do planeta, tinha a cor bronzeada das faces de um granadeiro francês que tivesse combatido sucessivamente no Egipto e em Moscovo. 23 A sua venerável proa parecia prolongada por uma barba. Os mastros eram rígidos como a coluna vertebral de uma estátua. As pontes gastas ostentavam numerosas e inquietantes fendas. Mas não era tudo: havia um século que o Pequod sulcava os oceanos e os seus sucessivos comandantes tinham-no sobrecarregado de desenhos e de acessórios, que lhe davam o aspecto de um escudo antigo ou de uma espécie de troféu ambulante. Assim, os seus fileretes, sobre os quais tinham aplicado agudos dentes de cachalote, lembravam dois monstruosos maxilares e a barra do leme - oh, espanto! era constituída não por uma sólida peça de madeira mas sim por um maxilar superior de cachalote, de uma brancura deslumbrante. Nobre navio, na verdade! No entanto, como
  37. 37. Herman Melville - Moby Dick 36 de todas as coisas nobres, emanava dele uma pesada tristeza. Avistando um velhote sentado atrás do mastro grande, sob uma espécie de tenda que lembrava pela forma o wigwam dos Índios, perguntei-lhe: - É você que comanda o Pequod? - Não - respondeu -, sou o capitão Peleg, um dos proprietários. Já não ando no mar. Mas tu, o que queres? - Queria embarcar. - Querias embarcar? Sabes alguma coisa de baleias? - Não. Mas aprendo depressa, pode estar certo. Fiz várias viagens na mercante e... - Não me fales nunca da mercante. Vê se entendes: na minha frente nem uma alusão a essa porcaria, a essa imundície da marinha mercante! Senão... Vês esta bota? Pois bem, ela não tardará a achar o caminho do teu traseiro! Bastante impressionado, fechei-me num silêncio prudente. - Já alguma vez viste o capitão Acab - tornou ele. - O capitão Acab? - repeti.
  38. 38. Herman Melville - Moby Dick 37 - Sim. É ele o comandante do Pequod. Agora ouve bem: antes de assinares o contrato, é bom que vejas o capitão Acab. Não precisas de dois segundos para verificares que só tem uma perna. - Devo compreender - balbuciei -, que a outra lhe foi tirada por... por uma baleia? - Isso mesmo, meu rapaz! Mas tirada é uma palavra muito fraca. Deve dizer-se arrancada, triturada, esmagada e pelo mais monstruoso cetáceo - baleia ou cachalote, para nós é tudo o mesmo - que alguma vez estoirou uma chalupa! Percebes, agora?... Aliás - ajuntou ele depois de me ter examinado com atenção -, duvido que a profissão de baleeiro te convenha. Acho-te um pouco brando nas atitudes, na linguagem. Não estás a brincar comigo quando me dizes que já andaste embarcado? - Asseguro-lhe... Fiz quatro viagens na mercante. - Uma vez por todas - explodiu ele -, deixame em paz com a tua mercante! Então, sempre estás decidido a ir à pesca da
  39. 39. Herman Melville - Moby Dick 38 baleia? - Claro. - Muito bem. Sentes-te capaz de lançar um arpão à garganta de uma baleia e de a perseguir na chalupa até ela se cansar? Vamos, responde, responde depressa! Gosto das respostas rápidas! - Acho que sou capaz... Com um pouco de treino, está visto. - Óptimo! Pois bem, podes assinar o teu contrato sem demora. Segue-me. Pela escada da escotilha, levou-me até à cabina. Ali, apresentou-me ao capitão Bildad, seu sócio, um sujeito alto e magro, abotoado até ao queixo, e que parecia absorvido na leitura de uma grande Bíblia. O capitão Bildad, também na reserva, tinha uma acentuada fama de avarento. - Bildad - exclamou o capitão Peleg -, lá estás tu outra vez com esse calhamaço! Há trinta anos que lês as Sagradas Escrituras, deves sabê-las de cor! O interpelado ergueu os olhos e fitou-me com atenção. - Ele quer embarcar explicou-lhe Peleg, indicando-me.
  40. 40. Herman Melville - Moby Dick 39 - Queres mesmo embarcar no Pequod perguntou-me o capitão Bildad numa voz cavernosa. 24 25 - Quero, sim - respondi num tom resoluto. Que pensas dele, Bildad? - perguntou o capitão Peleg. - Acho que deve servir. Depois começou, não sem uma certa aspereza, a discussão relativa às massas que eu receberia no fim da viagem. Já sabia que nas baleeiras, os membros da equipagem, em lugar de serem pagos ao mês ou ao ano, recebem, consoante o lugar que ocupam a bordo, uma parte dos lucros a que se dá o nome de massas. Depois de eu ter aceitado receber apenas a tricentésima parte dos lucros e assinado o contrato, subi para a ponte com o capitão Peleg. - Capitão - disselhe eu -, tenho um camarada que também gostaria muito de embarcar. Posso trazer-lho amanhã? - Com certeza. Traga-o. Veremos se serve. Ele já participou em alguma campanha de pesca à baleia?
  41. 41. Herman Melville - Moby Dick 40 - Claro! É um verdadeiro baleeiro. Matou um número infinito de baleias. - Bom, está combinado. Traga-o amanhã. Despedi-me do capitão Peleg. Porém, no momento de deixar o Pequod, reconsiderei e voltei para trás. - Capitão - disse eu -, onde poderei encontrar o capitão Acab? - O que é que lhe queres? Estás contratado. De que mais precisas? - Pois é... mas, sabe, eu gostava ao menos de o ver. - Vê-lo... - repetiu ele com uma expressão pensativa. Penso que neste momento isso seria bastante difícil. Ele esconde-se. Fica fechado na cabina. Estará doente. Não parece. No entanto... Aliás, ele recusa abrir-me a porta. Assim, é provável que fizesse o mesmo contigo... Sabes, meu rapaz, o capitão Acab é um homem bizarro... Mas um homem a sério! De resto, em breve travarás conhecimento com ele, podes crer! Queria explicar-te... Dissete que o capitão Acab é um homem 26
  42. 42. Herman Melville - Moby Dick 41 sério. Pois bem, não é exactamente assim. O capitão Acab... é uma espécie de deus... Sim, uma espécie de deus. Fala pouco. Mas aconselho-te a escutá-lo com atenção. Ele conhece tudo, andou por toda a parte, esteve mesmo entre os selvagens que se alimentam de carne humana. Estudou nas universidades. Está familiarizado com mistérios infinitamente mais profundos do que os do oceano. Como arpoador não há quem o iguale entre os baleeiros de Nantucket. No entanto - não sei se vais compreender -, quando lança o arpão dá a impressão de querer atingir outra coisa sem ser a baleia, um inimigo pessoal... Numa palavra, o capitão Acab... é Acab, sabes, aquele rei de Israel... - Sim, bem sei - respondi -, e, deixe-me que lhe diga, um rei muito mau. Se a memória não me atraiçoa, o profeta Elias predissera que, quando o matassem, os cães lamberiam as suas chagas... - É isso... Mas chega-te aqui um pouco mais para o pé de mim - murmurou o capitão Peleg, com um olhar que quase me
  43. 43. Herman Melville - Moby Dick 42 assustou. - Outro conselho, meu rapaz: enquanto estiveres a bordo do Pequod, nunca repitas o que acabei de te dizer. Se o capitão Acab tem tal nome, a culpa não é dele. Acab é um bom homem, tão piedoso como qualquer outro. Claro, às vezes também pragueja, tal como eu. No entanto, reconheço que sob muitos pontos de vista é superior a mim. Como é natural, desde que aquela maldita baleia Lhe cortou uma perna, no decurso da última viagem, ele passa tormentos. Como deves calcular, dóilhe o coto! E, se se mostra rabugento e às vezes até de uma implacável violência, quem ousaria censurá-lo? É verdade que ele nunca foi falador nem alegre. Mas estou certo de que acabará por reencontrar o seu humor normal... Não quero, meu rapaz, que penses mal dele porque o acaso o dotou de um nome que é o do pior de todos os reis da História Sagrada. E, além disso, não te esqueças: este velho casou tarde com uma rapariga encantadora que lhe deu um filho. Bom pai, esposo afectuoso, como poderia ser dotado de um carácter naturalmente
  44. 44. Herman Melville - Moby Dick 43 27 cruel? Acredita, por mais rude que seja, Acab tem o seu lado humano. Depois de ter deixado o capitão Peleg, voltei para a estalagem a passo lento. O capitão Acab inspirava-me agora uma espécie de simpatia mesclada de muito medo. E, mais do que nunca, vontade de o conhecer... No dia seguinte de manhã, o contrato de Queequeg levantou dificuldades. Quando o meu companheiro e eu nos aproximávamos do Pequod, uma voz rude fez-nos estacar: Alto aí, Ismael! Não me tinhas dito que o teu camarada era um canibal? Ora, fica sabendo, a bordo não são admitidos canibais! Ergui a cabeça e vi o capitão Peleg e o capitão Bildad eng quem falara. De momento, costados ao filerete. Fora Pele não soube que responder. Depois, recompondo-me: - Em primeiro lugar, capitão - respondi -, o Queequeg já não é um verdadeiro canibal. Há muito tempo que deixou de comer carne humana. Por outro
  45. 45. Herman Melville - Moby Dick 44 lado, porque não lhe permite mostrar do que é capaz? Os dois oficiais conferenciaram em voz baixa. Por fim, o capitão Peleg, depois de ter tido alguma dificuldade em convencer o austero Bildad, gritou: - Bom, estamos entendidos, subam a bordo. Temos vontade de ver de que é capaz essa espécie de selvagem! Uns segundos mais tarde, encontrávamonos na ponte. Queequeg, que compreendera bem o que esperavam dele, saltou para a proa de uma das baleeiras suspensas ao lado do navio. Depois, após ter-se firmado no joelho esquerdo, brandiu o arpão e declarou, na sua habitual algaraviada: - Tu ver, captão, aquele piqueno mancha de alcatrão longe, na água? Tu bem ver? Então tu pensar que ser olho de baleia. E tu agora olhar! O arpão partiu zunindo, fendeu o ar e caiu precisamente no meio da mancha de alcatrão! - Agora - disse Queequeg, puxando
  46. 46. Herman Melville - Moby Dick 45 tranquilamente a corda à qual estava fixado o arpão -, tu compreender, captão? 28 Se mancha de alcatrão ser olho de baleia, baleia toda morta! - Depressa Bildad - gritou Peleg ao sócio. Este tipo tem de assinar já o contrato. Não é todos os dias que se arranjam arpoadores com esta classe! Voltámos para a cabina e, com grande satisfação minha, Queequeg não tardou a ficar inscrito na lista da tripulação. Quando deixávamos o Pequod, um indivíduo pobremente vestido, com um lenço preto ao pescoço, um blusão coçado e calças remendadas, deteve-nos com um gesto e, voltando para nós o rosto bexigoso, perguntou-nos com ansiedade: Alistaram-se neste navio? - Alistámos sim - respondi. stá ossespo d - Mas então, e as vossas almas, pensaram nisso? - As nossas almas? - repeti, abrindo muito os olhos. - Oh! Claro - tornou ele -, talvez não tenham
  47. 47. Herman Melville - Moby Dick 46 disso. Mas ele, ele!, tem alma suficiente para substituir a que falta aos outros! - Queequeg - disse eu -, este tipo é marado. Está a falar-nos de uma pessoa que não conhecemos. Vamos embora. - Esperem - gritou o desconhecido. - Vocês disseram a verdade. Já viram o capitão Acab? Ainda não o viram, pois não? E alistaram-se no Pequod! Infelizes! O que tem de acontecer, acontecerá. Adeus. Desculpem tê-los feito parar. - Oiça lá, meu amigo - disse eu, porque aquele doidivanas começava a intrigar- me -, se sabe alguma coisa, se conhece algum segredo... - Não!, não! Tarde de mais, tarde de mais! Uma vez mais, adeus. - Está bem, adeus - disse eu -, mas antes de nos separarmos, gostaria muito de saber o seu nome. - Elias! - respondeu ele numa voz sepulcral. Depois, voltou-nos as costas. - Elias! - murmurei enquanto Queequeg e eu nos púnhamos de novo a caminho. 29
  48. 48. Herman Melville - Moby Dick 47 Elias... O profeta que anunciara ao sombrio Acab da História Sagrada que os cães lhe lamberiam as chagas antes que ele soltasse o último suspiro?... Não; não era possível. Nada daquilo tinha pés nem cabeça. E, apesar da inquietação que me possuía, consegui persuadir-me de que estivéramos a falar com um farsante. Como poderia eu imaginar que, nas semanas e nos meses que iam seguir-se, as palavras ambíguas deste farsante se esclareceriam dentro de mim e me acudiriam frequentemente ao espírito? 30 IV O CAPITÃO ACAB Tivemos de esperar ainda dois dias antes de sabermos que estava tudo aparelhado e que o Pequod se aprontava para levantar ferro. Assim, uma manhã pelas seis horas, na penumbra de uma alvorada cinzenta e brumosa, pusémo-nos a caminho do porto. - Se não me engano - disse eu a Queequeg -, acho que vejo além marinheiros a correr. Aposto que partimos ao nascer do Sol. Vamos depressa.
  49. 49. Herman Melville - Moby Dick 48 - Alto! - gritou uma voz, enquanto o recémchegado nos agarrava cada um por um ombro. Eu já reconhecera Elias. - Sempre embarcam? - perguntou ele. - Tira a pata! disse eu. - Não temos um instante a perder. - Sim, tu deixar nós! - apoiou Queequeg, num tom ameaçador. - Mas embarcam mesmo? - insistiu Elias. - Claro que embarcamos, claro! - gritei eu. - Bom, paciência... paciência... - Como, paciência? - Queria avisá-los - respondeu ele -, mas, uma vez mais vejo que, infelizmente, é demasiado tarde!... Ora! Agora já não tem importância. E, depois, têm de se cumprir as profecias... 31 Que pensam do tempo? Frescalhota, esta manhã, não acham? Bom, adeus, mais uma vez. Se as minhas previsões estão certas tão depressa não nos veremos... Talvez no Juízo Final. E, com estas palavras, voltou-nos as costas e afastou-se no seu passo mecânico. Fiquei uns segundos a olhá-lo, todavia
  50. 50. Herman Melville - Moby Dick 49 impressionado com a insistência daquele pássaro agoirento em perseguir-nos... Subimos para bordo. Vi, não sem surpresa, que as pontes estavam desertas. Que era então feito dos homens que, há pouco, eu vira correndo na direcção do Pequod? Por fim, descobrimos no castelo da proa um velho marinheiro esfarrapado, que dormia em cima de duas arcas colocadas lado a lado, ressonando como um porco. Decididos a esperar os acontecimentos, sentámo- nos ao pé dele e começámos a fumar o tomahawk de Queequeg. De súbito, incomodado sem dúvida com o cheiro do tabaco, o velho marinheiro resmungou meio a dormir, depois sentou-se esfregando os olhos. - Viva, rapazes - disse ele -, quem são vocês? - Alistámo-nos no Pequod - respondi. Quando partimos? - Bem... Hoje. O capitão embarcou ontem. - Que capitão? O capitão Acab? - Quem havia de ser, meu rapaz? Preparava-me para lhe fazer outras
  51. 51. Herman Melville - Moby Dick 50 perguntas a respeito de Acab, quando um ruído na ponte me impediu de continuar. - Ah! Lá está o Starbuck, o imediato, a acordar! - tornou o velho marinheiro. Aquele é um homem... um homem bom e piedoso... e, com tudo isso, activo Vamos, basta de dormir! Dizendo isto, ergueu-se. Nós seguimo-lo. Agora, era quase dia. A equipagem que, sem dúvida, ficara até tarde nos bares do porto começou a embarcar. Os gajeiros subiam para os cestos da gávea. Os oficiais movimentavam-se, emitindo ordens. Porém, o capitão Acab, fechado na sua cabina, continuava invisível. Enfim, apenas pelo fim da tarde, após os preparativos nos quais Queequeg e eu participámos, o Pequod levantou ferro içou as velas e fez-se ao largo. Era o dia 24 de Dezembro. Quando caiu a noite - a noite de Natal! -, com um frio glacial e cortante, estávamos já quase em pleno oceano. À nossa volta, a espuma gelada formava sobre o mar uma espécie de carapaça
  52. 52. Herman Melville - Moby Dick 51 polida. À proa pendiam pedaços de gelo, e os dentes de cachalote cravados no filerete cintilavam ao luar. Falei já de um certo Bulkington que encontrara na estalagem de A-Baleia-queFuma, em New Bedford, na companhia de outros membros da tripulação do Grampus. Qual não foi o meu espanto, nesta dura noite de Inverno, enquanto a raivosa proa do Pequod fendia as ondas perversas, ao vê-lo de pé, à barra! Um momento, com receio e simpatia, contemplei aquele homem. Poucos dias antes, regressara de uma viagem de quatro anos e, sem sequer descansar, ei-lo que embarcava para uma nova viagem, decerto tão longa e tão perigosa como a precedente! A terra queimar-lhe-ia os pés? Não se cansaria nunca de contemplar os oceanos, de atravessar as suas tempestades, de se defrontar com os seus mistérios? Mas é tempo de dizer algumas palavras acerca dos meus novos companheiros. Starbuck, o imediato do Pequod, era de
  53. 53. Herman Melville - Moby Dick 52 Nantucket. Este homem, sério e grave, parecia, olhando a sua carne tão dura como biscoito torrado duas vezes, perfeitamente apto a viver em todas as latitudes. Que idade poderia ter? Não mais de trinta anos, sem dúvida. Era magro como uma múmia e muito avaro de palavras. Apesar de dotado de grande coragem, não deixava de dizer: "A bordo da minha chalupa, só quero homens que tenham medo das baleias." Porque dizia isto? Provavelmente por achar que a verdadeira coragem se deve apoiar num justo cálculo do perigo, e que um baleeiro de uma intrepidez cega é mais perigoso do que um cobarde. 32 33 O primeiro-tenente chamava-se Stubb. Não era natural de Nantucket, mas do cabo Cod. Despreocupado e tão longe da cobardia como da bravura, não levantava problemas. No entanto, em plena luta, trabalhava com tanta calma e sangue-frio como um operário desempenhando a sua
  54. 54. Herman Melville - Moby Dick 53 tarefa quotidiana. Sempre de bom humor, dirigia a chalupa como quem dirige um barco de recreio. Quando se encontrava muito perto da baleia agonizante, servia-se da sua lança com uma indolência implacável, como um caldeireiro martelando um caldeirão. E, sem cessar, mesmo no auge do perigo, cantava, assobiava, cantarolava velhas canções. A morte? Será que pensava nela? Vivia na sua companhia há tantos anos! Se Starbuck, o imediato, era de Nantucket e Stubb, o primeiro-tenente, do cabo Cod, o segundo-tenente, de nome Flask, era natural de Tilbury, na ilha de Marthas Vineyard. Era um homenzinho vermelhusco e atarracado, de carácter belicoso. Tratava as baleias como se o tivessem ofendido pessoalmente e era para ele um ponto de honra destruir o maior número possível delas. Inacessível a todo o sentimento de respeito perante as suas massas colossais, afectava considerá- las como ratos exageradamente inchados ou, melhor
  55. 55. Herman Melville - Moby Dick 54 ainda, como uma espécie de ratazanasdágua, com as quais bastava usar de um pouco de paciência e de astúcia, se se queria ter a satisfação de as matar, de as despedaçar e de as cozer. Ignorava o medo e pescava a baleia para se distrair. Estes três oficiais - Starbuck, Stubb e Flask - eram pessoas importantes a bordo, pois asseguravam o comando das três baleeiras do Pequod. Armados de lanças reluzentes, formavam um soberbo trio. Mas, à sua volta, gravitavam personagens não menos importantes: os arpoadores. Façamos agora um rápido esboço dos três arpoadores do Pequod. Em primeiro lugar vem Queequeg, que Starbuck escolhera para o ajudar. Porém, nós já conhecemos de longa data o meu querido canibal. O segundo arpoador era um indiano de pura raça, Tashtego, natural de Gay Head, o promontório mais a oeste de Marthas Vineyard. Tashtego, escolhido por Stubb para o ajudar na sua tarefa, tinha cabelos negros e lisos, maçãs do rosto salientes, olhos talhados em amêndoa, como os dos
  56. 56. Herman Melville - Moby Dick 55 orientais, e pupilas muito negras com um brilho gelado. Imaginavam-se facilmente os seus antepassados, empunhando o arco e perseguindo nas florestas americanas os alces ferozes e outros animais selvagens. Mas, Tashtego renunciara a seguir a pista dos animais terrestres, para seguir apenas o rasto das baleias, os prodigiosos monstros marinhos, e era tão infalível com o arpão como o tinham sido os seus antepassados com a flecha. Daggoo, o terceiro arpoador, era um negro gigantesco, escuro como a noite. Tinha o andar leve e possante de um leão e usava nas orelhas argolas tão grandes que os companheiros propunham, rindo, utilizá-las para prender as driças do cesto da gávea. Tendo levado durante longos anos a vida pura e corajosa dos pescadores de baleias, conservava intactas as virtudes bárbaras. Com perto de dois metros de altura, e direito como uma girafa, ele percorria em passo majestoso as pontes do Pequod. Um outro negro encontrara também
  57. 57. Herman Melville - Moby Dick 56 trabalho no Pequod. Tratava-se do minúsculo Pip, um pobre preto do Alabama. Não tardareis a vê- lo, no castelo da proa, servindo-se do seu pequeno tambor para tocar uma espécie de prelúdio da eternidade..... Quanto ao resto da equipagem compunhase de marinheiros naturais de Nantucket, dos Açores ou das ilhas Shetland. Estes insulares tinham tendência para viver isolados, cada um por si, e formavam, à volta do personagem do qual vos vou, enfim, falar, como que uma floresta de sombras activas e quase sempre silenciosas. Dias depois da nossa partida de Nantucket, ninguém vira ainda o capitão Acab acima das escotilhas. Os oficiais faziam o quarto por turnos. Podia pensar-se que eles eram os únicos senhores a bordo. Contudo, de tempos a tempos, subiam da cabina com ordens tão bruscas e tão autoritárias que eu acabei 34 35 por me aperceber disto: eles limitavam-se a
  58. 58. Herman Melville - Moby Dick 57 exercer o comando por delegação. O senhor supremo e verdadeiro do Pequod encontrava-se mesmo ali, encerrado num inviolável retiro. Nos primeiros tempos, tivemos de suportar um frio quase polar, apesar de, naturalmente, fazermos rota para o sul. Porém, eu sentia que, cada vez que transpúnhamos um grau de latitude, nos afastávamos do implacável Inverno. Em suma, numa manhã menos rigorosa do que as precedentes, mas ainda brumosa e escura, subi à ponte com a equipa de quarto. Um bom vento impelia a grande carcaça do Pequod a um andamento saltitante e rápido. De súbito, quando por hábito me voltava para a armadoira de coroamento, não pude reprimir um estremecimento. O capitão Acab encontrava-se ali, em pé, no castelo de popa, e a realidade ultrapassava tudo o que eu imaginara! Nada, na sua pessoa, traía qualquer doença, nada nos levava a pensar que estava convalescente. Tinha, sim, o ar de
  59. 59. Herman Melville - Moby Dick 58 um homem que, submetido à acção do fogo, tivesse sido retirado a tempo, isto é, no momento em que as chamas começavam a lamber-lhe os membros. O seu largo torso parecia ter sido moldado no mesmo bronze que o Perseu de Benvenuto Cellini. Um traço lívido serpenteava-lhe pelos cabelos grisalhos, descia ao longo de um dos lados do rosto e do pescoço e desaparecia sob a camisola. O que seria. Um sinal de nascença? Uma cicatriz resultante de algum terrível ferimento? Um instante, fiquei como que fascinado por aquele traço lívido. Depois perguntei a mim próprio por que motivo o capitão Acab afectava aquela atitude rígida, quase arrogante. E, de súbito, compreendi. Não me tinham enganado: a perna sobre a qual se apoiava era feita com marfim polido de um maxilar de cachalote. Afirmavam que ele guardava na cabina várias pernas de reserva, todas semelhantes àquela. A sua estranha posição não deixou também
  60. 60. Herman Melville - Moby Dick 59 de me surpreender. Porém não tardei a notar que mandara fazer na ponte, junto das peias para atracar a lancha, uns buracos à broca com a profundidade de cerca de dois centímetros, nos quais fixava a perna artificial. Para manter o equilíbrio, segurava-se com a mão esquerda a uma das peias. Olhava a direito na sua frente, para além da proa do navio. Não pronunciava palavra. Os oficiais movimentavam-se em silêncio à sua volta, mostrando pela sua expressão que não ignoravam os tormentos que afligiam o seu chefe. Com efeito, o taciturno Acab parecia trazer no rosto o reflexo de uma angústia devoradora... Após esta primeira aparição, voltou para a cabina. Mas depois, como o tempo ia melhorando de dia para dia à medida que nos aproximávamos do equador, voltámos a vê-lo todos os dias no castelo da popa e depois, em breve, quase todas as noites. A partir do momento em que os quartos ficavam distribuídos e a equipa de ponte velava pelo sono da equipa de baixo, o
  61. 61. Herman Melville - Moby Dick 60 timoneiro via de súbito emergir lentamente, da sua escotilha, o velho mutilado. A maior parte do tempo, sem dúvida para não incomodar os seus oficiais que dormiam mesmo por baixo dele, o capitão Acab ia sentar-se no sítio do costume, num banco feito, como a sua perna, de um maxilar de cachalote. Mas, uma noite, provavelmente mais angustiado do que de costume, no seu passo mais pesado que o de um urso, pôsse a passear pela ponte, do castelo da popa ao mastro grande. Stubb, impedido de dormir, deixou o leito, subiu por sua vez à ponte e, aproximandose do capitão Acab, disseLhe, esforçandose por aparentar um tom despreocupado: Claro, capitão, que ninguém pode impedi-lo de passear se lhe apetece. No entanto, talvez houvessse um meio de fazer menos barulho... Podia, por exemplo, pôr um tampão de estopa na sua perna de marfim... Pobre Stubb! Não conhecias ainda o temível Acab.
  62. 62. Herman Melville - Moby Dick 61 - O quê? - bramiu o capitão. - Sou alguma bala de canhão para me quereres assim enfiar uma bucha? Ora vamos, deixa-me em paz! E volta para a tua casota, cão! 36 37 Stubb, estupefacto, ficou um momento de boca aberta. Depois, recompondo-se, replicou: - Saiba, capitão, que não estou habituado a ser tratado dessa maneira! - Põe-te andar! resmungou Acab. Depois voltou as costas e começou a afastar-se. Temeria as explosões da sua própria cólera? Porém Stubb, enchendo-se de coragem, embargou-lhe o passo. - Fique sabendo, capitão, não permito que me chame cão... - Se assim é, posso chamar-te azêmola, asno, rocim! E agora, vai-te! Senão, livro o universo da tua presença! E, assim dizendo, após ter dado bruscamente meia volta, avançou para o seu primeiro-tenente com uma expressão tão assustadora que este, num movimento involuntário, recuou, depois desceu
  63. 63. Herman Melville - Moby Dick 62 precipitadamente a escotilha que conduzia à sua cabina. Quando Stubb desapareceu, Acab ficou um momento debruçado sobre o filerete. Após o que, como o fazia quase todas as noites há alguns dias, mandou um dos marinheiros procurar o seu banco de marfim e o cachimbo. Acendeu o cachimbo no candeeiro da bitácula, instalou o banco na ponte, do lado exposto ao vento, sentouse e pôs-se a fumar. Passados alguns instantes, depois de ter puxado umas fumaças que o vento lhe atirava para o rosto, começou a murmurar: Como é possível que o tabaco já não me acalme? Ó querido cachimbo, como vai ser difícil o caminho se o teu encanto já não produz em mim qualquer efeito! Tu enchiasme de paz, de serenidade... Mas estou a ver que te tornaste inútil... Pois bem, sendo assim, não voltarei a fumar! Atirou o cachimbo ao mar e, erguendo-se, pôs-se de novo a passear na ponte. De tempos a tempos, para não se desequilibrar, tinha de se agarrar ao
  64. 64. Herman Melville - Moby Dick 63 cordame. Na manhã seguinte, Stubb disse a Flask: 38 - Se soubesses o que me aconteceu! Tive um sonho, ou antes um pesadelo. O velho e eu estávamos a discutir. E eis que ele me dá um pontapé com a perna de marfim! Quero ripostar. Levanto a perna direita e vejo que ela se desprende do corpo! Que pensas disto? - Ora... Parece-me bastante ridículo... - Não, Flask, não é ridículo. É uma advertência para todos nós. Estás a ver o capitão ali à popa? Olha fixamente o largo. Pois muito bem, vou dar-te um conselho: deixa-o em paz, não repliques nunca, digate ele o que disser... Mas escuta! Ele está a gritar! Com efeito, o capitão Acab gritava: - Eh! Lá em cima, o vigia! E vocês todos mexam-se. Há baleias nestas paragens! Se virem uma branca, berrem até fazer estalar os pulmões! Stubb fixou Flask. - Então, Flask, qual a tua opinião? Esquisito, não achas?
  65. 65. Herman Melville - Moby Dick 64 Ouviste aquilo? Uma baleia branca! Estás a ver? Palavra de honra, fica fora de si... Mas, chiu! Ei-lo. 39 V TODOS À POPA! Uma manhã, pouco depois do pequenoalmoço e alguns dias depois do episódio do cachimbo, o capitão Acab, como era seu hábito, saiu da cabina e subiu à ponte. Logo, erguendo a fronte enrugada, onde cada vez mais se notava a marca de uma ideia fixa, fez ressoar as tábuas sob o seu passo firme e duro. - Estás a ver, Flask? - murmurou Stubb ao ouvido do segundo-tenente. - Aquilo mexelhe com os miolos. Não tarda que o pinto que lá está dentro parta a casca! Passaram assim algumas horas. Muitas vezes, Acab voltou para a cabina e subiu de novo para a ponte. Mas a sua expressão permanecia de um fanatismo exaltado. Ao entardecer parou perto do filerete, meteu a perna de marfim no buraco que estava mais próximo dele, agarrou-se com uma das mãos a uma peia e ordenou a
  66. 66. Herman Melville - Moby Dick 65 Starbuck, seu imediato: - Junte toda a gente à popa. - Como, capitão? - disse Starbuck, julgando ter ouvido mal, pois aquela ordem só era dada em circunstâncias excepcionais. - Todos à popa! - repetiu Acab. - E vocês, aí em cima, os vigias, desçam! Os homens da equipagem agruparam-se na sua frente. 40 Cada um deles o olhava com um misto de receio e surpresa. Pois não tinha ele o ar de uma nuvem de tempestade? Lançou um rápido olhar aos marinheiros. Depois, de mãos atrás das costas, cabeça inclinada para a frente, pôs-se a caminhar pesadamente pela ponte. Por fim, parando de súbito e levantando a cabeça, perguntou em voz forte: - Vejamos, rapazes, que fazem vocês quando vêem uma baleia? - Damos sinal dela! - respondeu a maior parte dos assistentes. - Muito bem - disse Acab. E aproveitando a atenção silenciosa que lhe prestavam, ajuntou logo: - E depois, o que fazem? - Lançamos as lanchas ao mar e
  67. 67. Herman Melville - Moby Dick 66 perseguimo-la! - E ao som de que cantiga é que vocês remam? - Ao som desta: Ou ela ou a gente! Se ela não estoirar, Vamos nós ao ar! É-nos indiferente! Com uma expressão de satisfação selvagem, o velho marinheiro voltou para o seu buraco feito à broca, agarrou-se de novo a uma das peias e tornou, em voz vibrante: - Vigias, é a vocês em especial que agora me dirijo! Lembram-se, não é verdade, das ordens que dei a propósito da baleia branca? Pois bem - acrescentou ele, levantando acima da cabeça um objecto brilhante - , vêem esta moeda de ouro espanhola, este dobrão! Vale dezasseis dólares! Depois, voltando-se para Starbuck: - Dê-me aquele maço que está além! Quando Starbuck executou a sua ordem, o capitão Acab aproximou-se do mastro grande, brandiu o maço com uma das mãos e prosseguiu na mesma voz vibrante, continuando a mostrar a moeda de ouro: 41 - Esta moeda virá a pertencer àquele de
  68. 68. Herman Melville - Moby Dick 67 entre vós que me assinalar primeiro uma baleia branca de testa enrugada, de maxilares à banda, com três buracos a estibordo da cauda! E, dizendo estas palavras, pregou a moeda na madeira do mastro. Entusiasmados, os marinheiros gritavam a cada pancada do maço: - Hurra! Hurra! Hurra! Terminada a operação, Acab atirou o utensílio para a ponte e concluiu nestes termos: - Ouviram bem, rapazes? Uma baleia branca! Estoirem os olhos para a encontrar! Preciso absolutamente dela! Neste momento, Tashtego, o índio, avançou um passo e disse: - Essa baleia de que fala, capitão, não é aquela a que alguns chamam Moby Dick? - É Moby Dick! - bramiu o velho marinheiro. - Então tu conhece-la? Conheces mesmo a baleia branca, Tashtego? - Talvez, capitão, se é aquela que põe a cauda em leque antes de mergulhar! - E, se não me falha a memória - interveio
  69. 69. Herman Melville - Moby Dick 68 Daggoo, o negro gigantesco -, tem um jacto curioso, rápido, possante e espesso. Não é, capitão? Foi então que Queequeg, por sua vez, avançou um passo. - E ela ter muitos arpões na pele, não é, capitão. perguntou ele. - Arpões torcidos como... como... - Como saca-rolhas! - gritou o capitão. Sim, Queequeg, os arpões torcem-se no corpo dela como saca-rolhas... Quanto a ti, Daggoo, tens razão: o seu jacto é mais rápido, mais poderoso, mais espesso que o de qualquer outra baleia! E tu também, Tashtego, tens razão: quando ela se agita parece uma vela rasgada estalando durante uma tempestade. Inferno e danação, rapazes, foi mesmo Moby Dick que vocês viram, é mesmo Moby Dick que conhecem! Moby Dick. Moby Dick! Os três oficiais de bordo não tinham parado de contemplar o seu chefe com crescente surpresa. Starbuck afastou-se do pequeno
  70. 70. Herman Melville - Moby Dick 69 grupo. 42 - Capitão - disse ele com o ar de um homem a quem acaba de acudir uma ideia -, não foi Moby Dick que lhe cortou a perna? - Quem te disse isso? - bramiu Acab. Em seguida, dominando-se: - Sim, Starbuck! Sim, rapazes, foi Moby Dick que me pôs assim! Sim, é a Moby Dick que eu devo este coto sobre o qual agora me apoio! Sim, foi essa maldita baleia branca que fez de mim, para o resto da vida, uma espécie de marinheiro de água doce! E erguendo ao céu os braços trémulos: Mas eu persegui-la-ei por toda a parte: no cabo da Boa Esperança, no cabo Horn, no Maelstrõm da Noruega... Até ao Inferno se for preciso! Jamais renunciarei a dar cabo dela! Foi para isso que vocês todos embarcaram comigo! Matá-la-emos juntos! Quero vê-la esguichar sangue negro pelos orifícios! Quero vê-la de barriga para o ar! Persegui-
  71. 71. Herman Melville - Moby Dick 70 la-emos até aos confins da terra! Que dizem a isto, rapazes? Estão de acordo? Vocês parecem-me tipos corajosos! - E havemos de dar-lhe prova disso, capitão! - gritaram em conjunto marinheiros e arpoadores. Juntavam-se cada vez mais em redor do velho marinheiro exaltado. - Deus vos abençoe! - respondeu Acab, com a voz embargada pelos soluços. Tragam uma boa porção de rum! Vamos beber à morte de Moby Dick! Reparando que Starbuck parecia fechar-se num silêncio mal-humorado, perguntou-lhe: - O que é que tem? Porquê esse ar lúgubre? A baleia branca mete-lhe medo? - Não, capitão - respondeu o imediato -, nem Moby Dick nem a morte me metem medo. No entanto, acompanhei-o nesta viagem para pescar quaisquer baleias... E não para me tornar no instrumento da sua vingança. De resto, não compreendo que procure vingar-se de um animal talvez cruel, mas que se limitou a obedecer ao seu instinto. É normal matar um animal cuj a carne nos é indispensável. Persegui-lo
  72. 72. Herman Melville - Moby Dick 71 encarniçadamente é não só loucura, mas um grande pecado! 43 O capitão Acab fixou durante alguns instantes Starbuck com um olhar profundo. Depois respondeu-lhe quase em voz baixa: - Há muitas coisas que você ignora. Os objectos que nos rodeiam, os objectos visíveis, não são mais que máscaras de cartão. Porém, em cada acontecimento, no indiscutível acto de viver, há o desconhecido, um desconhecido que raciocina, enquanto a máscara, essa, não raciocina. E o homem não pode actuar senão através da máscara! Como pode um prisioneiro evadir-se da sua cela sem destruir o muro? Pois bem, a baleia branca é esse muro. Eis porque quero destruí-la. Por vezes acontece-me pensar que por trás dela, por trás deste muro, por trás desta máscara de cartão, não há nada. Não importa! Moby Dick obceca-me. Vejo nela uma força que me injuria, uma crueldade insondável. O insondável, eis o que eu odeio, o que quero atingir! Não me diga que
  73. 73. Herman Melville - Moby Dick 72 cometo um pecado encarniçando-me contra Moby Dick. Aniquilaria também o Sol se ele me injuriasse. Porque, o que o Sol pode fazer, sei que também eu posso fazê-lo!... Starbuck, você ora fica vermelho de cólera ora pálido como um morto. Mas veja estes homens da equipagem! Estão todos de acordo comigo. Compreenderam- me.E você também, Starbuck, concorda comigo, no fim de contas, não é verdade? Sim, sim. Sinto que consegui insuflar-lhe a minha vontade. Baixando a cabeça, Starbuck murmurou: Deus nos preserve a todos... Porém Acab, entregue ao prazer de ter estabelecido entre a equipagem e a sua pessoa uma espécie de harmonia diabólica, não ouviu esta invocação desesperada. Já não ouvia nada: nem os estalidos do casco do Pequod, que lembravam gargalhadas sufocadas de um riso sardónico, nem o sibilar profético do vento no cordame, nem o bater das velas contra a mastreação. - O rum, o rum! - gritou. Depois de o steward lhe ter levado um
  74. 74. Herman Melville - Moby Dick 73 grande jarro de estanho cheio de rum até à borda, acrescentou: - Os arpoadores serão servidos em primeiro lugar, pois são os verdadeiros senhores da festa. Queequeg, Tashtego, Daggoo, aproximem-se! Depois, os oficiais! Starbuck, Stubb, Flask, aproximem-se também! Tirem os ferros dos cabos dos arpões e das lanças... Muito bem. E agora orientem a ponta para baixo. Isso mesmo! Depois de encher de rum os ferros dos arpões e das lanças, continuou: - Brindem com estes cálices mortíferos, depois bebam-nos de um trago. E agora jurem: que Deus nos fulmine se não perseguirmos Moby Dick até aos confins do universo! Às aclamações da equipagem, arpoadores e oficiais ergueram os ferros das suas lanças e levaram-nos aos lábios. Após ter esvaziado o seu, Starbuck, muito pálido, voltou costas e afastou-se tremendo. O capitão Acab olhou os marinheiros passando uns aos outros o jarro de rum. Em seguida, após tê-los saudado com um sinal da mão, dirigiu-se para a escotiLha e
  75. 75. Herman Melville - Moby Dick 74 desceu à cabina. Se tivéssemos seguido o capitão até à sua cabina, tê-lo-íamos visto aproximar- se de uma arca, levantar a tampa e retirar de lá um rolo de cartas de marear amarelecidas e amachucadas. Desdobrou-as na sua frente, sobre uma mesa cujos pés estavam atarrachados ao chão. Em seguida, depois de se ter sentado, estudou-as atentamente e, com mão firme, traçou a lápis algumas linhas nas zonas ainda em branco. Por vezes, erguia a cabeça, pegava num velho livro de bordo e consultava-o para se certificar de alguns locais onde os navios de outrora tinham assinalado ou capturado cetáceos, baleias ou cachalotes. Assim, quase todas as tardes, quase todas as noites, o capitão Acab ficava debruçado sobre as suas cartas, apagando algumas linhas, substituindo-as por outras. E, pouco a pouco, ia apertando, cada vez de mais perto, o objectivo que, na sua loucura, jurara atingir. 44 45 Após assim ter trabalhado até muito tarde,
  76. 76. Herman Melville - Moby Dick 75 murmurava, passando a mão pela testa: "Vou apertando o cerco cada vez mais! Escapar-me-á. Não, é impossível! As suas enormes barbatanas estão todas furadas, rendadas, como a crista de uma onda extraviada..." Então, a sua imaginação delirante arrastava-o para loucas corridas que o levavam aos quatro cantos do planeta, de tal modo que, esgotado e prestes a desfalecer, se via forçado a subir à ponte a fim de recobrar as forças, respirando por alguns instantes o ar vivificante do largo. Feliz aquele cujo sono, sem nada a perturbá-lo, corre como um sereno ribeiro. O capitão Acab, esse, obcecado pelo desejo de tirar uma retumbante vingança da baleia branca, dormia de punhos cerrados e já nem se admirava quando, ao acordar, via as unhas cravadas até ao sangue nas palmas das mãos. Por vezes, expulso do leito por pesadelos de um realismo alucinante, surgia bruscamente da cabina como se esta
  77. 77. Herman Melville - Moby Dick estivesse a arder e punha-se a correr pela entrecoberta, soltando bramidos que aterrorizavam toda a tripulação. Tinha, no entanto, momentos de fria lucidez. Foi durante um destes momentos que, ao contrário do costume segundo o qual o capitão de uma baleeira não participa nas operações de pesca, escolhera para si a quarta baleeira, a que balançava a estibordo, junto do castelo da popa. E não só ficara com ela, mas constituíra para esta baleeira uma equipagem de cinco homens de cor, dirigidos por um certo Fedallah. Este personagem, do qual eu não notara a presença no dia da nossa partida, parecia feito das brumas do mar. De elevada estatura, usava uma espécie de túnica chinesa de um negro tão fúnebre como o seu rosto, e um turbante imaculado que nunca tirava. Só ao fim de algum tempo descobri que não se tratava de um turbante, mas das suas tranças brancas enroladas à volta da cabeça. Tudo isto - esta baleeira, esta misteriosa 76
  78. 78. Herman Melville - Moby Dick 77 tripulação -, provava que o capitão Acab tinha realmente a intenção de contribuir, por suas mãos, para o aniquilamento de Moby Dick. 46 VI O JACTO FANTASMA Os dias e as semanas iam passando sem qualquer incidente notável. Avançando a boa velocidade, o Pequod sulcara o Atlântico em todos os sentidos, dos Açores a Santa Helena, de Santa Helena à embocadura do rio da Prata, da embocadura do rio da Prata até a essa zona bastante vaga, situada a sul de Santa Helena e chamada Carrol Ground. Foi nas águas do Carrol Ground, numa noite calma e luminosa, uma noite apenas perturbada pelo rolar das vagas, que um dos vigias avistou de súbito, mesmo na nossa frente e a pouca distância do borbulhar da nossa roda de proa, um jacto prateado iluminado pelos raios da Lua. Dirse-ia um deus cintilante, com um capacete de plumas brancas, emergindo das profundezas do mar. Foi Fedallah o
  79. 79. Herman Melville - Moby Dick 78 primeiro a assinalar a sua presença. Nas noites claras, com efeito, ele tinha o costume de trepar para o cesto da gávea e dali vigiar toda a superfície visível do Atlântico. Quando os homens da tripulação o ouviram gritar: "Além! Olhem! Ela está a soprar!", foi como se acabassem de ouvir os acordes triunfantes da trombeta do Juízo Final. E todos desejaram que se aproveitasse aquela ocasião para lançar enfim as baleeiras ao mar. Passados dois segundos, o capitão Acab surgia na ponte. 47 Com o seu passo rápido e martelado, dirigiu-se para o castelo da popa e ordenou que desfraldassem todas as velas. Mandou para a barra o melhor timoneiro de bordo, enviou vigias suplementares para os outros postos de observação. Impelido por um vento bastante forte, o Pequod avançou rápido sob as estrelas, num silêncio apenas quebrado pelo ruído produzido pelo capitão martelando a ponte com a sua perna de marfim. No entanto, nessa noite ninguém
  80. 80. Herman Melville - Moby Dick 79 voltou a ver o jacto prateado. Porém todos os marinheiros estavam prontos a jurar que o tinham visto. No dia seguinte, à mesma hora, os vigias assinalaram-no de novo. Todos puderam contemplá-lo durante bastante tempo. No entanto, quando se dirigiram para ele, ela volatizou-se como da primeira vez. E, noite após noite, isto repetiu-se: o jacto fantasma erguia-se de súbito sobre as ondas e quase de seguida dissipava-se, como um sonho. Alguns quiseram deixar de lhe prestar atenção. Mas a maior parte continuava a interrogar-se sobre o assunto. E todos, sem nada dizermos, tínhamos a impressão de que ela procurava intrigar-nos, arrastar-nos para mais longe, talvez atrairnos para alguma incompreensível armadilha. Pouco a pouco, as nossas imaginações iam-se tornando presas de um estranho trabalho. Alguns de nós, depois de procurar na memória, julgaram poder declarar: - É tal qual como me disseram, trata-se de Moby Dick! Parece que de cada vez que se
  81. 81. Herman Melville - Moby Dick 80 avista este jacto, em qualquer latitude, vale mais não o seguir, se não quisermos perder-nos e morrer em oceanos ainda mais longínquos, ainda mais selvagens do que este... Apoderara-se de nós um medo vago, mas tenaz. E este pavor aumentou ainda quando ouvimos bramir as tempestades do Cabo e fomos sacudidos por vagas enormes e tumultuosas. Agora, o Pequod, sempre voluntarioso e arrebatado, afrontava a tempestade, inclinando-se sob os seus violentos ataques. Durante todo o dia a ponte era invadida por rolos de espuma esbranquiçada. 48 Todas as manhãs, nuvens de corvos do mar voavam à volta dos nossos mastros e pousavam nas vergas, onde, apesar das nossas ameaças, continuavam empoleirados, considerando sem dúvida o nosso navio como um destroço já à deriva. Sob os nossos olhos, o oceano ofegava, à maneira de um ser angustiado e atormentado pelo remorso.
  82. 82. Herman Melville - Moby Dick 81 Cabo da Boa Esperança, assim se diz hoje... Porque deixaram de lhe chamar, como outrora, e a justo título cabo das Tormentas? Durante todo o tempo em que os elementos nos foram desfavoráveis, o capitão encarregou-se do comando. Mais taciturno ainda do que de costume, mal dirigia a palavra aos seus oficiais. Com a perna de marfim cravada no buraco de broca, com a mão apoiada numa das peias, ficava horas inteiras imóvel, de olhar fixo na sua frente, e as pestanas carregadas de neve ou de granizo. O que ele via sempre, sonhando acordado, era a cena obsessiva, no entanto já com vários anos, em que afrontara a baleia branca num formidável corpo a corpo. Saltando da baleeira despedaçada, lançara-se sobre o monstro e procurara atingi-lo no coração. Porém, voltando de súbito a sua bocarra em forma de foice, o monstro arrebatara-lhe uma perna tão facilmente como um ceifeiro ceifa uma espiga de trigo no campo. Não era então de
  83. 83. Herman Melville - Moby Dick 82 espantar que o capitão Acab votasse a Moby Dick um ódio de morte. Cego pelo desespero, chegara ao ponto de identificar a baleia branca com os seus sofrimentos físicos e morais. Encarnava para ele o mal que devora alguns homens até lhes deixar apenas um pouco de coração ou de pulmão, um mal que, aos olhos dos cristãos, possui a maior parte dos seres e que a humanidade detesta desde Adão. Apesar da idade e da doença, jurara aniquilá-la... A sudeste do cabo da Boa Esperança e ao largo das longínquas ilhas Crozet, isto é, numa zona particularmente favorável aos pescadores de baleias, avistámos um dia a alta silhueta de um veleiro, o Albatroz. 49 Empoleirado, nesse dia, no posto de observação do mastro de traquete, fui um dos primeiros a poder contemplar - o espectáculo emocionante para o noviço que eu era então - uma baleeira que não via o seu porto há muito tempo e navegando ao largo.
  84. 84. Herman Melville - Moby Dick 83 Tinha o aspecto de um esqueleto de morsa. Nos seus flancos, que a acção das vagas desbotara, a ferrugem desenhara longos traços amarelados. As antenas e a enxárcia pareciam ramagens cobertas de geada. Trazia apenas as velas inferiores desfraldadas. Quanto aos marinheiros, empoleirados como vigias nos postos de observação dos seus três mastros, formavam um curioso quadro, com as vestimentas em farrapos e as barbas desgrenhadas. Quando o Albatroz passou muito perto da popa do nosso barco, uma voz - a do capitão Acab - elevou-se de súbito do castelo da popa: - Oh! Gente do navio! Viram a baleia branca? O capitão do Albatroz aproximou-se do filerete, ergueu o porta-voz e, sem dúvida por desastramento, deixou-o cair ao mar. No entanto respondeu à pergunta feita por Acab. Mas as suas palavras foram levadas para longe pelo vento, enquanto o navio se afastava progressivamente do nosso. O
  85. 85. Herman Melville - Moby Dick 84 capitão Acab parecia reflectir. Iria lançar um escaler à água? No entanto, renunciando a esta ideia, pegou por sua vez no porta-voz e gritou: - Eh! Vocês aí! Eu conheço-os. São de Nantucket. Aqui, o Pequod! Andamos a dar a volta ao Mundo. Remetam as nossas cartas para o oceano Pacífico! E, se não estivermos de volta dentro de três anos, digam às nossas famílias que nos escrevam para... Neste instante os dois sulcos confundiramse e - facto surpreendente - os peixes que, há dias e dias, seguiam em cardumes cerrados ao longo dos nossos flancos, deixaram-nos bruscamente e foram amontoar-se atrás do Albatroz. Acab - nada escapava àquele diabo de homem! - inclinou-se sobre o varandim e murmurou, como se visse um sentido neste facto: - Então vocês abandonam-me? Vocês abandonam-me! Ele, de costume tão violento, tão autoritário, falara com uma entoação de profunda
  86. 86. Herman Melville - Moby Dick 85 tristeza. Porém, recobrando logo o seu tom imperioso, voltou-se para o timoneiro, que até ali tinha manobrado para reduzir a velocidade, e ordenou- lhe: - Deixe andar! E a caminho para a volta ao Mundo! Meia hora mais tarde, o Albatroz desaparecia no horizonte, enquanto cada um de nós, com uma surpresa mesclada de apreensão e orgulho, repetia no seu foro íntimo: "A volta ao Mundo! A volta ao Mundo!..." Nos dias que se seguiram, o Pequod afastou-se das ilhas Crozet para nordeste, em direcção a Java. Atravessava continuamente várias extensões de brit, essa substância amarela que flutua à superfície das águas e que é o principal alimento das baleias. Os seus três mastros balançavam molemente ao sabor da leve brisa que o impelia a um andamento regular. E, quase todas as noites, os vigias continuavam a assinalar, solitário e misteriosamente atraente, o jacto prateado...
  87. 87. Herman Melville - Moby Dick 86 Uma manhã, mais transparente e mais azul ainda do que as precedentes, Daggoo, que se encontrava no posto de observação do mastro grande, avistou ao longe uma massa branca que se afundou pouco a pouco. Depois reapareceu a reluzir como uma colina de neve. "É Moby Dick?", perguntava de si para si o arpoador. E, como a massa branca voltava a passar, não se conteve sem gritar: - Além! Além! A direito, em frente! É a baleia branca! A baleia branca! Imediatamente, todos os marinheiros se precipitaram para as vergas. De cabeça descoberta, apesar do sol ardente, o capitão Acab subiu ao gurupés. Depois, após um exame de segundos, deu ordem para lançar os escaleres ao mar. Julgaria, também ele, encontrar-se na presença de Moby Dick? Passados instantes, as quatro baleeiras com a do capitão à frente, lançavam-se sobre a sua presa. Pouco a pouco, a massa branca tornava-se mais precisa. Não tinha cabeça,
  88. 88. Herman Melville - Moby Dick 87 50 51 nem barbatana. Mas do centro desta massa irradiavam braços imensos que se torciam como serpentes e pareciam prestes a devorar tudo o que se apresentasse ao seu alcance. Este monstro informe tinha sem dúvida sentido a nossa aproximação, pois, com um surdo ruído de sucção, deixou-se de novo afundar e não voltou a aparecer. Olhando para o turbilhão formado no sítio onde ele mergulhara, Starbuck declarou: Preferia ter combatido com Moby Dick a terte visto, maldito fantasma branco! - O que era aquilo? - perguntou Flask. - Era o grande squid, o grande cornudo dos mares quentes respondeu Starbuck. - Dizem que os barcos que o encontram não voltam nunca mais ao seu porto... O capitão Acab, esse, não dizia palavra. Depois de ter virado a sua baleeira, voltou para o Pequod. Nós seguimo-lo em silêncio. Se, para Starbuck, a aparição do squid era um mau presságio, não me parecia que
  89. 89. Herman Melville - Moby Dick 88 para Queequeg o fosse. - Quando vocês ver squid - disse ele pousando o arpão na frente da baleeira -, quando ela vir para bordo, vocês ver logo cachalotes e baleias. No dia seguinte, o tempo estava calmo e abafado. Sem nada que fazer, os marinheiros do Pequod dificilmente resistiam ao sono. É preciso ver que vogávamos agora no oceano Índico, isto é, que atravessávamos uma das superfícies líquidas menos animadas, mais enfadonhas, do globo terrestre. Eu estava de vigia no mastro de traquete. Encostado à vela bamba da vela do cimo e embalado pelo movimento leve e ondulante do navio, pus-me a devanear, depois fechei os olhos. Mas, de súbito, tive a impressão de que estalavam bolhas sob as minhas pálpebras fechadas. Alcançando as peias mais próximas, agarrei-me a elas com todas as forças. Porque milagre acordara no momento em que ia ser talvez projectado no vácuo? Sacudi-me, abri os olhos... E
  90. 90. Herman Melville - Moby Dick 89 avistei, muito perto de nós, a menos de quarenta braças, um gigantesco cachalote, 52 53 que corria nas vagas, lançando de tempos a tempos um jacto de água vaporizada que o fazia assemelhar-se a qualquer gordo burguês fumando tranquilamente o seu cachimbo ao sol. Um instante mais tarde toda a equipagem estava em ebulição. - Baleeiras ao mar! - gritou o capitão Acab. Depois, afastando o timoneiro com um gesto, deu ele próprio uma violenta guinada para estibordo. Alertado sem dúvida pelos nossos gritos, o cachalote descreveu uma curva majestosa e afastou-se para sotavento. O capitão ordenou-nos que não falássemos. Então, instalámo-nos em silêncio nas quatro baleeiras e lançámo-nos em perseguição do monstro. Bruscamente, este ergueu a cauda, agitou-a no ar a uma altura de cerca de quarenta pés e mergulhou. Dir-se-ia uma flecha de igrej a engolida por uma vaga monstruosa. Aproveitando a trégua que assim nos era
  91. 91. Herman Melville - Moby Dick 90 concedida, Stubb tirou o cachimbo do bolso e acendeu-o. Passado o tempo normal do mergulho, o cachalote reapareceu à frente da baleeira comandada pelo fumador, e bastante afastada das outras três. A partir deste instante, o primeiro-tenente pensou: "Este é meu!" E dirigindo-se aos companheiros: - Sigam-no, sigam-no, rapazes! Mas não se apressem demasiado. Tu, Tashtego, não percas o sangue-frio! Vais ver que as coisas se vão passar o melhor possível! Enquanto falava tirava do cachimbo fumaça após fumaça. - Hu, hu! Tratava-se do índio, que, para responder ao primeiro-tenente, soltava o grito de guerra da sua tribo. - Hi, hi! - gritou Daggoo da baleeira ao lado. - Ka-la! Ku-lo! Desta vez era Queequeg que, naturalmente, se encontrava comigo na minha baleeira. As quatro embarcações saltavam, baloiçavam, fendiam as ondas. De súbito, Stubb endireitou-se e gritou:
  92. 92. Herman Melville - Moby Dick 91 54 - É a tua vez, Tashtego! Depois de o índio ter lançado o arpão, o primeiro-tenente acrescentou: - Agora, rapazes, recuem como puderem! Os remadores pararam, ergueram os remos e, em conjunto, começaram a andar em sentido contrário. Então Stubb pôs-se a desenrolar a linha fixa a um robusto cilindro. E, no momento em que a baleeira era arrastada a uma velocidade que aumentava de segundo a segundo, o primeiro-tenente e o seu arpoador trocaram de lugar, isto é Stubb foi para a frente, enquanto Tashtego se sentava junto do cilindro. A linha esticava, esticava cada vez mais. A baleeira já não deslizava sobre as ondas: voava! Enfim, passado algum tempo, o cachalote diminuiu o andamento. - Firme! Firme, rapazes! - bradou Stubb. Habilmente virou e foi colocar-se junto ao flanco do cachalote e, apoiando o joelho no rebordo, brandiu a lança e pôs-se a atacar
  93. 93. Herman Melville - Moby Dick 92 o cetáceo com golpes sucessivos. A cada uma das suas ordens, a baleeira recuava, para não ficar presa nos remoinhos provocados pelo monstro. No instante seguinte sempre à voz de comando, ela voltava à carga. Ribeiros vermelhos começavam a correr ao longo do corpo do enorme animal e tingiam a água já avermelhada pelos raios oblíquos do Sol poente. Um vapor branco brotava sem cessar dos seus orifícios... À cadência das fumaças tiradas do cachimbo do primeiro-tenente. - Mais perto! Mais perto! - bramiu Stubb, brandindo de novo a lança. Desta vez a baleeira ficou completamente encostada ao flanco da prodigiosa massa de carne agonizante. Stubb mergulhou ali a lança com uma energia sobre-humana. Atingido enfim no coração, o cachalote rolou sobre si próprio com tanta violência que, mais uma vez, a baleeira teve de recuar. Depois as suas temíveis convulsões tornaram-se mais espaçadas e mais lentas.
  94. 94. Herman Melville - Moby Dick 93 Quando cessaram por completo, Daggoo numa baleeira ao lado, disse a Stubb: 55 - Está morto! - Pois está - respondeu o primeiro-tenente. - Acabou de fumar o seu cachimbo! E eu também, aliás... E, tirando o cachimbo da boca, espalhou as suas cinzas nas ondas, contemplando com um ar pensativo o formidável cadáver que acabara de fazer. Atrelando três baleeiras em fila, começámos a rebocar o nosso troféu. Éramos dezoito homens aos remos, isto é, trinta e seis braços ou, se se preferir, cento e oitenta dedos. No entanto, precisámos de várias horas para cobrir a distância que nos separava do Pequod. Caiu a noite. Três lanternas de bordo, colocadas a diferentes alturas num dos mastros do navio, iluminavam a nossa marcha. Por cima do filerete baloiçava- se outra. Ao aproximarmo-nos, verificámos que quem a segurava era o próprio capitão Acab. Com o olhar vazio, fixou por uns
  95. 95. Herman Melville - Moby Dick 94 segundos o cachalote, deu ordem para o acondicionarem para a noite e, depois de ter dado a lanterna a um marinheiro que estava mais perto dele, dirigiu-se para a escotilha. Só na manhã seguinte voltaria a aparecer. Enquanto durara a perseguição, despendera a actividade habitual. Mas, agora que o cachalote estava morto, aparentava, pela sua atitude, uma espécie de descontentamento: "Tudo isto está muito bem! Mas, ainda que me trouxessem mais cem cachalotes ou baleias, nada mudaria, visto que Moby Dick continua viva." Não tardou que os marinheiros lançassem pelo rebordo pesadas correntes. Meia hora mais tarde, o cachalote estava solidamente amarrado ao longo do navio, com a cauda para a proa e a cabeça para a popa como era o costume. Na escuridão da noite, o Pequod e a sua presa tinham o ar de dois bois colossais sob a mesma canga. A seguir, Stubb, após ter comandado esta operação do princípio ao fim, aproximou-se de Daggoo e disselhe com um ar alegre,
  96. 96. Herman Melville - Moby Dick 95 pois ainda estava sob a embriaguez da vitória: - Salta por cima do filerete e vai-me cortar uma fatia dele, uma boa fatia, na cauda! 56 Importa sublinhar que o primeiro-tenente, como muitos pescadores de Nantucket, era um bom apreciador da carne tenra dos cetáceos, sobretudo quando esta era proveniente da parte que ele indicara. À meia-noite, a fatia encontrava-se não só cortada, mas cozida. À luz de duas lanternas, Stubb, utilizando o cabrestante como mesa, começou a comer regaladamente. No entanto, nessa noite, não foi ele o único a comer cachalote. Centenas de tubarões comprimiam-se em volta do colosso morto e arrancavam-lhe pedaços de pele e de toucinho. Cada vez que as suas maxilas estalavam ou as caudas chicoteavam o casco do navio, os marinheiros deitados na entrecoberta estremeciam. E os vigias podiam distinguir de vez em quando os carnívoros do mar revirando- se
  97. 97. Herman Melville - Moby Dick 96 na água negra para arrebatar mais facilmente do corpo do vencido pedaços redondos cuja forma e tamanho lembravam os de uma cabeça humana. 57 VII FUNERAL DE UM CACHALOTE No dia seguinte era domingo. Porém, os nossos muitos afazeres não nos deixaram observar o descanso dominical. Desde o alvorecer, o Pequod transformou-se num imenso matadouro, e todos os marinheiros em magarefes. Dir-se-ia que estávamos sacrificando dez mil touros aos deuses do mar! Em primeiro lugar foi içado e solidamente fixo ao mastro um feixe de roldanas. Depois, por uma destas roldanas passou-se um robusto cabo, do qual pendia o gancho do toucinho e cuja outra extremidade estava ligada a um guindaste. Terminados os preparativos, Stubb e Starbuck, debruçados no filerete, fizeram com as lanças, no corpo do cachalote, um buraco suficientemente grande para lá caber o gancho. Logo que este ficou colocado, uns
  98. 98. Herman Melville - Moby Dick 97 dez marinheiros, entoando uma canção selvagem, empreenderam a tarefa de fazer girar o guindaste. Primeiro o navio estremeceu, abanou. Depois inclinou-se cada vez mais. A cada volta do guindaste, as vagas, em redor do casco, erguiam-se em fúria. Por fim, deu-se como que uma explosão. O Pequod endireitou-se e o gancho começou a subir, arrastando a primeira barra de toucinho. Os cetáceos são rodeados de toucinho como a laranja da casca. A operação estava pois no princípio. O guindaste continuava a girar, o cachalote rolava sobre si próprio e a barra ia crescendo, crescendo sem interrupção. Quando atingiu o cesto da gávea, 58 o guindaste parou. Um instante mais tarde, um novo gancho estava cravado no corpo do cachalote, o guindaste voltava a girar e a segunda barra elevava-se lentamente até ao cimo da mastreação. Mas, enquanto esta manobra prosseguia, e a terceira, a quarta, a quinta barras eram arrancadas ao cadáver do cachalote, uma equipa de
  99. 99. Herman Melville - Moby Dick 98 marinheiros especializados fazia-as descer uma após outra por uma escotilha para um espaçoso porão chamado câmara do toucinho e, na penumbra, enrolavam-nas lado a lado ao ritmo da canção entoada agora a plenos pulmões pelos seus companheiros que, lá em cima, continuavam a carregar com todas as forças nas manivelas do guindaste. - Icem as correntes e arriem a carcaça! Os ganchos, as roldanas e o guindaste cumpriram o seu dever. Depois de terem esfolado o cachalote, decapitaram-no e penduraram a sua cabeça sangrenta no costado do Pequod, tal como Judite atara à cintura a cabeça do gigante Holofernes. Um fantasma branco, colossal e informe, tudo o que resta do cetáceo, afasta-se lentamente nas vagas, onde redemoinham os insaciáveis tubarões. Centenas de aves de rapina sobrevoam-no, soltando gritos e acabam de desfazê-lo com os bicos acerados como punhais. Uma hora mais tarde, por volta do meio-dia, a carcaça nada mais era do que uma
  100. 100. Herman Melville - Moby Dick 99 mancha indistinta no horizonte. Mas, na ponte deserta, reinava agora um silêncio de funeral. Subitamente, o capitão Acab surgiu da sua escotilha, inclinou-se sobre o filerete e contemplou longamente a monstruosa cabeça pendurada no costado do navio. - Fala... Conta-me o teu segredo! murmurava ele. - Tu que mergulhas no mais profundo dos oceanos, tu para quem o tempo não tem sentido, tu que viste tantos cruzeiros triunfantes, Diz-me... mas também tantos naufrágios. Fala, peço-te! Bruscamente calou-se. Com efeito um dos vigias acabava de gritar: - Navio à vista! 59 - Um navio? - repetiu o capitão Acab endireitando-se. - Onde? - Na frente, a estibordo, capitão! E dirige-se para nós! Com efeito, o recém-chegado avançava a boa velocidade para o Pequod. Tratava-se do Jéroboam, outro baleeiro de Nantucket. Assim que se aproximou, lançou um escaler ao mar. No entanto, quando o seu capitão, de nome Mayhew, viu que nos
  101. 101. Herman Melville - Moby Dick 100 preparávamos para descer a escada de abordagem, declarou: - É inútil! Há uma epidemia a bordo. Não quero ter qualquer contacto convosco. - Parou o escaler a alguns metros do Pequod. Entre os marinheiros que o acompanhavam, encontrava-se um homem de aspecto singular. Bastante novo e de pequena estatura, apresentava um rosto bexigoso sob uma cabeleira amarela. E, ao contrário dos outros marinheiros que usavam todos camisolas, vestia um fraque com abas, do qual enrolava as mangas compridas de mais, acima dos pulsos. Mal o reconheceu, Stubb exclamou: - Olha, não há dúvida, é o Gabriel, aquele maluco do Jéroboam! Fazia alusão a uma certa história que corria em Nantucket a respeito deste esquisito personagem. Pois não se dizia que este meio-louco, com olhos onde luzia um brilho fanático, se tomava pelo arcanjo Gabriel e acabara por exercer sobre a tripulação do Jéroboam uma autoridade quase soberana?
  102. 102. Herman Melville - Moby Dick 101 Em resposta à declaração do capitão Mayhew, o capitão Acab gritou: - Não tenho medo da sua epidemia, amigo! Vamos, suba a bordo! Porém, ouvindo estas palavras, Gabriel largou o remo e pôs-se em pé bramindo: - Toma cuidado, capitão Acab! Não receias a febre-amarela, a febre biliosa? Nem mesmo receias a horrível peste? Mayhew quis fazê-lo calar: - Ora vamos, Gabriel, senta-te e deixa-nos em paz! Imperturbável, Acab perguntou: - Viram a baleia branca? Gabriel fingiu considerar que aquela pergunta lhe era dirigida e, erguendo-se de novo: - Ah, Acab, poderás imaginar a tua baleeira desmantelada e afundada! Pensa, pensa na formidável cauda da baleia branca! - Escuta, Gabriel - disse o capitão Mayhew -, se te levantares mais uma vez, se voltares a abrir a boca... Aparentemente reduzido ao silêncio Gabriel voltou a sen tar-se no banco, e o capitão
  103. 103. Herman Melville - Moby Dick 102 Mayhew conseguiu então contar ao patrão do Pequod uma triste história na qual Moby Dick representava o papel principal. - Sim - disse ele - dois anos após a nossa partida de Nantucket, avistámos um dia Moby Dick, a baleia branca! Macey, o meu imediato, ansiava por se defrontar com ela. Quando lhe dei o meu consentimento, convenceu cinco homens a acompanhá- lo na sua baleeira. Depois fez-se ao largo, mas teve de utilizar muitos rodeios antes de conseguir aproximar-se do monstro, o qual mergulhou mal o arpão lhe penetrou na carne. Macey, já certo do triunfo, esperava que ela se dignasse reaparecer para acabar de a matar a golpes de lança. Mas, subitamente, surgiu muito perto da baleeira uma massa branca que com uma forte pancada da cauda precipitou nas vagas o meu infeliz imediato... Cabe-me reconhecer que Gabriel, aqui presente, antes da sua partida, predissera a Macey que ele corria para a sua perdição.
  104. 104. Herman Melville - Moby Dick 103 Mayhew terminara a narração. Acab, então, fez-lhe numerosas perguntas acerca deste deplorável acidente, de tal modo que o capitão do Jéroboam não pôde deixar de lhe Perguntar: - Tenciona também defrontar Moby Dick? - Tenciono sim - respondeu Acab. porém Gabriel, que se mantivera sossegado enquanto o capitão falara, levantou-se pela terceira vez e tornou com veemência, apontando para Acab um indicador profético: 60 61 - Pensa, pensa em Macey, esse blasfemador que dorme hoje no fundo do oceano! Quererás participar da sua sorte? Acab encolheu os ombros e dirigindo-se a Mayhew: - Creio que tenho no meu saco de correio uma carta dirigida a um dos seus oficiais. Depois, avistando Starbuck: - Vá buscá-la. Aqui, são necessárias algumas palavras de explicação. Naquela época longínqua, todo o baleeiro se encarregava, no momento da partida, da

×