A crise do islão - Guerra Santa e Terror ímpio
Bernard Lewis
A Crise do Islão
Guerra Santa e Terror ímpio
Relógio D’Água E...
Guerra Santa e Terror Impio
Tradução Margarida Periquito
Antropos
A Harold Rhode
com amizade
Índice
Mapas
A Era dos Califa...
«humilhação e ignomínia» que o Islão sofreu durante «mais de oitenta anos.» A maior parte
dos observadores americanos - e ...
ainda dolorosamente conscientes desse vazio, e diz-se que o próprio Osama bin Laden tinha
- ou tem - aspirações ao califad...
vestígios da época de dominação imperial anglo-francesa que se seguiu à conquista do
Império Otomano, que conservam a estr...
ou nacionais, mas simplesmente como infiéis (kâfir), e algumas vezes usando termos gerais
imprecisos, como Francos ou Roma...
comum. As afrontas de Bin Laden, tal como são reveladas neste documento, não são
exactamente aquilo que muitos esperariam....
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enquanto a mesquita Aqsa [em Jerusalém] e a mesquita Harâm [em Meca] não forem
libertadas das suas garras, e enquanto o...
no sul. Ambos constituíam comunidades antigas e profundamente enraizadas, árabes pela
língua, cultura e estilo de vida, qu...
foram mais do que satisfatórias para mitigar
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todos os agravos, a presença dos forasteiros era suportável. Mas nos últim...
civilização islâmica possa ser difícil e por vezes, num certo sentido, perigoso, não é
contudo impossível, e de certo modo...
imperador Constantino ao cristianismo, o próprio César se tornou cristão e deu início a uma
série de mudanças, pelas quais...
constituídos por colectâneas de livros vários, abrangendo um vasto período de tempo e
vistos pelos crentes como contendo a...
profundamente influenciadas pela lembrança destes factos. Maomé triunfou em vida, e
morreu como um soberano e um conquista...
potências imperiais europeias e também naqueles que se mantiveram independentes, as
ideias e atitudes políticas islâmicas ...
Houve e continua a haver limites importantes à eficácia da OCI como factor da política
internacional. A invasão soviética ...
os crentes de outras religiões explica em parte a atitude única dos muçulmanos em relação à
política; não constitui a expl...
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muçulmanos, é constituído pelos grupos radicais islâmicos hoje vulgarmente designados,
ainda que erroneamente, por «fun...
profundamente afectados de uma maneira que altera as suas vidas, afastando-os dos
verdadeiros caminhos do Islão para outro...
muçulmanos e fazem uma simulação do Islão, mas na verdade são apóstatas que aboliram a
Lei Santa e adoptaram leis e costum...
Corão.
No Islão, a luta entre o bem e o mal adquiriu, desde o início, dimensões políticas e também
militares. Maomé, como ...
confundir os segundos com os terceiros.
II
A Casa da Guerra
Ao longo da história da humanidade, muitas civilizações surgir...
uma obrigação de todo o indivíduo fisicamente apto. Foi este princípio que Osama bin
Laden invocou na sua declaração de gu...
Hijra. A primeira jihad foi empreendida pelo Profeta contra os governantes da sua cidade
natal e terminou com a conquista ...
Depois da conquista afegã passou a ser chamada «Nuristão» - «Terra da Luz». Durante o
mesmo período, diversos géneros de j...
pelo latim eclesiástico mãrtyre, e no uso judaico-cristão designa aquele que está pronto a
sofrer a tortura e a morte para...
muçulmanos, é de longe pior do que o não-crente. O não-crente ainda não viu a luz, e há
sempre a esperança de que eventual...
Os muçulmanos souberam, desde muito cedo, que havia certas diferenças entre os povos da
Casa da Guerra. Na sua maioria era...
O estado de guerra canonicamente obrigatório podia ser interrompido por aquilo que era
legalmente designado por tréguas, m...
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  1. 1. A crise do islão - Guerra Santa e Terror ímpio Bernard Lewis A Crise do Islão Guerra Santa e Terror ímpio Relógio D’Água Editores Rua Sylvio Rebelo, nº 15 1000-282 Lisboa tel. 21 8474450 fax: 21 8470775 www.relogiodagua.pt relogiodagua @ relogiodagua.pt © 2003 by Bernard Lewis Esta tradução é publicada por acordo com a Modern Library, uma marca da Random House Publishing Group, uma divisão da Random House, Inc. Título: A Crise do Islão - Guerra Santa e Terror ímpio Título original: The Crisis of Islam - Holy War and Unholy Terror (2003) Autor: Bernard Lewis Tradução: Margarida Periquito Revisão técnica: Alda Couto Capa: Relógio D’Água Editores sobre pormenor do Alhambra em Granada © Relógio D’Água Editores, Janeiro de 2006 Composição e paginação: Relógio D’Agua Editores Impressão: Rainho & Neves, Lda. / Sta. Maria da Feira Depósito Legal nº: 236829/05 Bernard Lewis A Crise do Islão
  2. 2. Guerra Santa e Terror Impio Tradução Margarida Periquito Antropos A Harold Rhode com amizade Índice Mapas A Era dos Califas 11 O Império Otomano 12 A Era do Imperialismo 13 O Médio Oriente Hoje 14 Introdução 15 I. Definição do Islão 29 II. A Casa da Guerra 47 III. Dos Cruzados aos Imperialistas 59 IV. À Descoberta da América 71 V. Satanás e os Soviéticos 83 VI Modelos Ambíguos 97 VII. Uma Falha da Modernidade 105 VIII. O Casamento entre o Poder Saudita e a Doutrina Wahhabita 111 IX. A Origem do Terrorismo 123 Agradecimentos 143 Epílogo 145 Notas 149 Nota: Os mapas referenciados no índice foram suprimidos desta versão digitalizada por não ser possível transcrevê-los para texto. Introdução O presidente Bush e outros políticos ocidentais têm-se esforçado para tornar claro que a guerra em que nós estamos envolvidos é uma guerra contra o terrorismo - não uma guerra contra os Árabes, nem, de modo mais generalizado, contra os muçulmanos, que são induzidos a unirem-se a nós nesta luta contra o inimigo comum. A mensagem de Osama bin Laden é o oposto. Para Bin Laden e os seus seguidores trata-se de uma guerra religiosa, uma guerra do Islão contra os infiéis, e por conseguinte, inevitavelmente, contra os Estados Unidos, a maior potência do mundo dos infiéis. Nas suas declarações, Bin Laden faz frequentes referências à história. Uma das mais dramáticas foi a menção que fez, na sua videocassete de 7 de Outubro de 2001, à
  3. 3. «humilhação e ignomínia» que o Islão sofreu durante «mais de oitenta anos.» A maior parte dos observadores americanos - e também, sem dúvida, europeus - do cenário do Médio Oriente deram início a uma busca ansiosa de algo que tivesse acontecido há «mais de oitenta anos», e sugeriram várias respostas. Mas podemos estar certos de que os ouvintes muçulmanos de Bin Laden - aqueles a quem ele se dirigia - identificaram a alusão imediatamente e perceberam o seu sentido. Em 1918 o sultanato otomano, o último dos grandes impérios muçulmanos, foi finalmente derrotado - Constantinopla, a capital, foi ocupada, o soberano foi feito prisioneiro, e grande parte do seu território foi dividido entre os impérios britânico e francês, seus conquistadores. As anteriores províncias otomanas de língua árabe do Crescente Fértil foram divididas em três novas entidades, com novos nomes e novas fronteiras. Dois deles, o Iraque e a Palestina, 16 ficaram sob jurisdição britânica; o terceiro, denominado Síria, foi atribuído aos Franceses. Mais tarde, a França dividiu o território sob sua administração em dois, chamando a uma das partes Líbano e conservando o nome Síria para a outra parte. Os Ingleses fizeram outro tanto na Palestina, criando uma divisão entre as duas margens do Jordão. O segmento oriental recebeu o nome de Transjordânia, e mais tarde passou a ser simplesmente Jordânia; o nome Palestina foi mantido, sendo reservado para o segmento ocidental, ou seja, a parte cisjordana do território. Nessa altura considerou-se que a Península Arábica, constituída em grande parte por desertos e montanhas áridos e inacessíveis, não justificava a maçada de a conquistar, tendo sido permitido aos seus governantes conservarem uma independência precária e limitada. Os Turcos acabaram por conseguir libertar a sua terra, a Anatólia, não em nome do Islão mas sim por acção de um movimento nacionalista secular, dirigido por um general otomano chamado Mustafá Kemal, mais conhecido por Kemal Ataturk. Ao mesmo tempo que lutou - com êxito - para libertar a Turquia do domínio do Ocidente, deu os primeiros passos no sentido da adopção dos costumes ocidentais, ou modernos, como ele preferia chamar-lhes. Um dos seus primeiros actos foi a abolição do sultanato, em Novembro de 1922. O soberano otomano não era apenas um sultão que governava um estado específico; era também reconhecido por todos como o califa, o chefe de todo o Islão sunita, e o último de uma série de governantes que remontava à morte do profeta Maomé, em 632 d.C, e à nomeação de um sucessor para o substituir, não como chefe espiritual mas sim religioso e político, do estado e da comunidade muçulmana. Após uma curta experiência de um califa à parte, em Março de 1924 os Turcos aboliram também o califado. Durante os seus quase treze séculos, o califado passara por muitas vicissitudes, mas mantivera-se como um símbolo poderoso da unidade muçulmana e mesmo da sua identidade; o seu desaparecimento, devido ao duplo ataque de imperialistas estrangeiros e modernistas nacionais, foi sentido em todo o mundo muçulmano. Foram feitas algumas tentativas bastante timoratas por parte de diversos monarcas e líderes muçulmanos para reivindicar o título vago, mas nenhum deles obteve grande apoio. Muitos muçulmanos estão 17
  4. 4. ainda dolorosamente conscientes desse vazio, e diz-se que o próprio Osama bin Laden tinha - ou tem - aspirações ao califado. A palavra «califa» vem do árabe khalifa, que, graças a uma ambiguidade muito conveniente, combina em si o significado de «sucessor» e de «substituto». Originalmente, o chefe da comunidade islâmica era «o Khalifa do Profeta de Deus». Alguns, mais ambiciosos, encurtaram o título para «o Khalifa de Deus». Esta pretensão de autoridade espiritual foi veementemente contestada e por fim posta de parte, embora houvesse um título que expressava uma pretensão semelhante - «a Sombra de Deus na Terra» -, que era largamente usado por governantes muçulmanos. Ao longo da maior parte da história da instituição, os detentores do califado contentaram-se com o título mais modesto de Amir al- Mu’minin, habitualmente traduzido por «Comandante dos Fiéis». Alusões históricas como a de Bin Laden, que podem parecer obscuras a muitos americanos, são comuns entre os muçulmanos, e só podem ser perfeitamente entendidas dentro do contexto da noção de identidade do Médio Oriente e tendo como pano de fundo a história do Médio Oriente. Os próprios conceitos de história e identidade requerem uma redefinição para o ocidental que tenta compreender o Médio Oriente contemporâneo. No uso americano actual, a frase «isso é história» usa-se comummente para rejeitar qualquer coisa por ela não ter importância, porque não é relevante para os interesses actuais, e embora se faça um enorme investimento no ensino e na escrita da história, o nível geral de conhecimento histórico da sociedade americana é abissalmente baixo. Os povos muçulmanos, como todos os outros neste mundo, são moldados pela sua história, mas, ao contrário de alguns outros, estão profundamente conscientes disso. Contudo, essa sua consciência data do advento do Islão, e inclui talvez algumas referências mínimas aos tempos pré-islâmicos, necessárias para compreender as alusões históricas presentes no Corão e nas tradições e crónicas islâmicas primitivas. Para os muçulmanos, a história islâmica tem um importante significado religioso e também legal, uma vez que reflecte a realização do desígnio de Deus para a Sua comunidade, ou seja, aqueles que aceitam os ensinamentos 18 do Islão e obedecem à sua lei. A história dos estados e dos povos não-muçulmanos não transmite essa mensagem, e portanto é desprovida de valor ou de interesse. Mesmo nos países com uma civilização antiga como os do Médio Oriente, o conhecimento da história pagã dos seus próprios antepassados - cujos monumentos e inscrições se encontravam por toda a parte à sua volta - era mínimo. As línguas e escritas antigas foram esquecidas e os registos antigos queimados, até serem recuperados e decifrados nos tempos modernos por arqueólogos e filólogos curiosos. Mas, no que respeita ao período que tem início com o advento do Islão, os povos muçulmanos produziram uma rica e variada narrativa histórica - com efeito, em muitas regiões e até mesmo em países com uma cultura antiga, como a índia, os textos históricos sérios têm início com a chegada do Islão. Mas, história de quê? No mundo ocidental, a unidade básica de organização humana é a nação, que do ponto de vista americano - mas não do europeu - é sinónimo virtual de país. Este é depois dividido de várias maneiras, uma das quais pela religião. Os muçulmanos, porém, tendem para ver não uma nação dividida em grupos religiosos, mas uma religião dividida em nações. Não há dúvida que isto acontece, em parte, porque a maioria das nações-estado que constituem o actual Médio Oriente são de criação relativamente recente,
  5. 5. vestígios da época de dominação imperial anglo-francesa que se seguiu à conquista do Império Otomano, que conservam a estrutura de estado e as demarcações de fronteira feitas pelos seus anteriores senhores imperiais. Até os seus nomes reflectem essa artificialidade: o Iraque era uma província medieval com fronteiras muito diferentes das da actual república, que não compreendia a Mesopotâmia a norte e incluía uma fatia da zona ocidental do Irão; Síria, Palestina e Líbia são nomes da antiguidade clássica, que não eram usados naquela região havia mil anos ou mais, até que foram recuperados e impostos - também eles com novas fronteiras, em muitos casos diferentes - pelos imperialistas europeus no século XX; Argélia e Tunísia nem sequer existem como palavras em árabe, e o mesmo vocábulo serve tanto para a cidade como para o país. O mais extraordinário de tudo é que na língua árabe não existe nenhuma palavra para Arábia, e designa-se a actual Arábia Saudita por «o reino saudito-árabe» ou «a península dos Árabes», dependendo do 19 contexto. Isto não acontece por o árabe ser uma língua pobre - o contrário é que é verdade - mas simplesmente porque os Árabes não pensaram em termos de uma combinação das identidades étnica e territorial. Com efeito, o califa Umar é referido como tendo dito aos Árabes: «Aprendam quais as vossas genealogias, e não sejam como os camponeses locais que, quando lhes perguntam quem são, respondem: ”Sou de tal sítio assim e assim. Nos primeiros séculos da era muçulmana, a comunidade islâmica era um único estado com um único governante. Mesmo depois de essa comunidade se dividir em muitos estados, o ideal de uma única comunidade política islâmica persistiu. Os estados eram quase todos dinásticos, com fronteiras variáveis, e é sem dúvida significativo que, na historiografia imensamente rica do mundo islâmico escrita em árabe, persa e turco, haja histórias de dinastias, de cidades e, sobretudo, do estado e da comunidade islâmicos, mas não existam histórias da Pérsia ou da Turquia. Estes nomes, ao contrário de Síria, Palestina ou Iraque, não designam entidades políticas novas, mas sim velhas, com séculos de independência e soberania. Contudo, até aos tempos modernos estes nomes também não existiam em árabe, persa ou turco. O nome Turquia, que designa um país habitado por pessoas a que se chama Turcos e que fala uma língua chamada turco, parece ajustar-se ao padrão europeu normal de identificar os países pelos nomes étnicos. Mas este nome só foi adoptado na Turquia depois da proclamação da república, em 1923. Pérsia é uma adaptação europeia, originalmente grega, do nome Pars, mais tarde Fars, que era o nome de uma província no oeste do Irão. Após a conquista árabe, como no alfabeto árabe não existe a letra p, passou a ser conhecida por Fars. Do mesmo modo que o castelhano passou a chamar-se espanhol, e o toscano passou a ser italiano, também o farsi, o dialecto regional de Fars, veio a ser a língua oficial do país, mas no uso persa o nome da província nunca foi aplicado ao país como um todo. Tanto os Árabes como os Turcos produziram uma vasta literatura descrevendo as suas lutas contra a Europa cristã, desde as primeiras incursões árabes no século VII até à retirada turca final, no século XX. Mas até à era moderna, em que as ideias e as categorias europeias se tornaram dominantes, os soldados, oficiais e historiadores quase nunca se referiam aos seus opositores em termos territoriais 20
  6. 6. ou nacionais, mas simplesmente como infiéis (kâfir), e algumas vezes usando termos gerais imprecisos, como Francos ou Romanos. Do mesmo modo, nunca se referiam a si próprios como Árabes, Persas ou Turcos; identificavam-se como muçulmanos. Esta perspectiva ajuda a explicar, entre outras coisas, a preocupação do Paquistão com os Talibãs e os seus sucessores, no Afeganistão. O nome Paquistão, uma invenção do século XX, designa um país que é inteiramente definido pela sua religião e fidelidade ao islamismo. Em todos os outros aspectos, o país e o povo do Paquistão fazem parte da índia há milénios. Um Afeganistão caracterizado pela sua identidade islâmica seria um aliado natural, ou mesmo um satélite, do Paquistão. Ao passo que um Afeganistão caracterizado por uma nacionalidade étnica, pelo contrário, poderia ser um vizinho perigoso, que apresentaria reivindicações irredentistas em relação às zonas do noroeste do Paquistão de língua pashto, e que possivelmente até se aliaria à índia. As referências à história passada, e mesmo à história antiga, são um lugar-comum nos discursos públicos. Nos anos 80 do século XX, durante a guerra Irão-Iraque, por exemplo, ambas as partes promoveram enormes campanhas de propaganda que frequentemente evocavam acontecimentos e personalidades que remontavam a tempos tão antigos como o século VII, às batalhas de Qadisiyya (637 d.C.) e de Karbala (680 d.C). A batalha de Qadisiyya foi ganha pelos muçulmanos árabes que invadiram o Irão, contra o exército defensor do xá dos Persas, ainda não convertidos ao Islão, e portanto ainda pagãos e infiéis aos olhos dos muçulmanos. Por conseguinte, ambas as partes podiam reclamar a vitória como sua: para Saddam Hussein, era a vitória dos Árabes sobre os Persas, e para o Ayatollah Khomeini era a dos muçulmanos sobre os infiéis. As referências a estas batalhas não eram descrições ou narrações detalhadas, mas sim alusões breves e incompletas; no entanto, ambas as partes fizeram uso delas com a certeza de que seriam identificadas e compreendidas pelas suas respectivas audiências, até mesmo pelas largas percentagens dessas audiências que eram iletradas. É difícil imaginar que os comunicadores de propaganda de massas do Ocidente apresentem as suas ideias por meio de alusões que se reportem a épocas tão antigas, isto é, à heptarquia anglo-saxónica em Inglaterra ou aos monarcas carolíngios em França. Dentro desse 21 mesmo espírito, Osama bin Laden insulta o presidente Bush comparando-o a um faraó, e acusa o vice-presidente Cheney e o secretário de Estado Powell (referidos em conjunto) de terem forjado uma devastação do Iraque, através da Guerra do Golfo em 1991, maior do que a que foi perpetrada pelos cãs mongóis que em meados do século XIII conquistaram Bagdad e destruíram o califado dos Abássidas. O conhecimento da história no Médio Oriente é fomentado pelo púlpito, pelas escolas e pelos meios de comunicação, e embora ele possa ser - e sem dúvida muitas vezes é - oblíquo e inexacto, é no entanto vivo e fortemente ressonante. A 23 de Fevereiro de 1998, oAl-Quds al-’Ambí, um jornal árabe publicado em Londres, editou o texto integral de uma «Declaração da Frente do Mundo Islâmico para ajihad contra os judeus e os cruzados». De acordo com a publicação, a declaração fora-lhes enviada por fax assinada por Osama bin Laden e pelos líderes dos grupos dâjihad no Egipto, Paquistão e Bangladesh. O texto - um magnífico fragmento de prosa árabe, eloquente e por vezes poético - revela uma versão da história que a maior parte dos ocidentais achará pouco
  7. 7. comum. As afrontas de Bin Laden, tal como são reveladas neste documento, não são exactamente aquilo que muitos esperariam. A declaração começa com um exórdio que cita as passagens mais militantes do Corão e das palavras do profeta Maomé, e depois prossegue: «Desde que Deus criou a Península Arábica e o seu deserto e a rodeou pelos seus mares, nunca nela aconteceu uma calamidade como estas chusmas de cruzados que por ela se espalharam como gafanhotos, cobrindo o seu chão, comendo os seus frutos e destruindo a sua vegetação; e isto num tempo em que as nações contendem contra os muçulmanos como glutões que se acotovelam em volta de uma tigela de comida». A partir daqui o texto continua, falando da necessidade de compreender a situação e de agir por forma a corrigi-la. Os factos, diz, são do conhecimento de todos, e são apresentados em três tópicos principais. Primeiro - Há mais de sete anos que os Estados Unidos ocupam as terras do Islão no mais sagrado dos seus territórios, a Arábia, saqueando as suas riquezas, oprimindo os seus governantes, humilhando 22 o seu povo, ameaçando os seus vizinhos, e usando as suas bases nesta península como uma ponta de lança para lutar contra os povos islâmicos vizinhos. Embora no passado alguns tenham discutido a verdadeira natureza desta ocupação, o povo da Arábia na sua totalidade já a reconheceu. Não há melhor prova disso do que a constante agressão americana contra o povo do Iraque, feita a partir da Arábia a despeito dos seus governantes, que se opõem, todos eles, à utilização do seu território para esse fim, mas que são dominados. Segundo - Apesar da enorme destruição infligida ao povo do Iraque às mãos da aliança entre cruzados e judeus, e apesar do terrível número de mortos, que excede um milhão, os Americanos contudo, não obstante tudo isso, estão uma vez mais a tentar repetir essa medonha carnificina. Parece que o longo bloqueio que se seguiu a uma guerra feroz, o desmembramento e a destruição não são bastante para eles. Por isso vêm hoje de novo para destruir o que resta deste povo e para humilhar os seus vizinhos muçulmanos. Terceiro - Embora os objectivos dos Americanos nestas guerras sejam de natureza religiosa e económica, também servem os interesses do insignificante estado dos judeus, para desviar as atenções da sua ocupação de Jerusalém e dos assassínios de muçulmanos aí perpetrados. Não há melhor prova de tudo isso do que a sua ânsia de destruir o Iraque, o mais forte dos estados árabes vizinhos, e a sua tentativa de desmembrar todos os estados da região, como o Iraque, a Arábia Saudita, o Egipto e o Sudão, em pequenos estados insignificantes, cuja divisão e enfraquecimento garantiriam a sobrevivência de Israel e a continuação da calamitosa ocupação das terras da Arábia pelos cruzados. Estes crimes, diz o texto a seguir, equivalem a uma «clara declaração de guerra dos Americanos contra Deus, o Seu profeta e os muçulmanos. Em tal situação, é opinião unânime do ulemá ao longo dos séculos que quando os inimigos atacam as terras muçulmanas, a Jihad passa a ser um dever pessoal de cada muçulmano». Os signatários citam diversas autoridades muçulmanas e prosseguem para a parte final e mais importante da sua declaração, afatwa, deixando expresso que «matar Americanos e os seus aliados, tanto civis como militares, é um dever pessoal de todos os muçulmanos que forem capazes de o fazer, em qualquer país onde isso seja possível,
  8. 8. 23 enquanto a mesquita Aqsa [em Jerusalém] e a mesquita Harâm [em Meca] não forem libertadas das suas garras, e enquanto os seus exércitos, destroçados e sem fôlego, não saírem de todas as terras do Islão, incapazes de ameaçar qualquer muçulmano». Depois de citar mais alguns versículos relevantes do Corão, o documento continua: «Com a permissão de Deus, apelamos a todos os muçulmanos que acreditam em Deus e que esperam ser recompensados por obedecer às ordens de Deus, para matarem os Americanos e saquearem os seus bens onde quer que os encontrem e sempre que puderem. Apelamos igualmente aos ulemás, líderes, jovens e soldados muçulmanos para lançarem ataques contra os exércitos dos demónios americanos e contra aqueles, de entre os ajudantes de Satanás, que são seus aliados». A declaração e ãfatwa encerram com mais uma série de citações das escrituras muçulmanas. A Guerra do Golfo de 1991, no comum entendimento ocidental, foi uma iniciativa dos Estados Unidos e de uma coligação de árabes e outros aliados para libertar o Koweit da invasão e ocupação por parte do Iraque, e para proteger a Arábia Saudita de um ataque do Iraque. Ver esta guerra como um ataque americano contra o Iraque pode parecer um pouco estranho, mas é essa a perspectiva aceite por todos no mundo islâmico. À medida que a lembrança do ataque de Saddam Hussein ao Koweit se vai desvanecendo, as atenções concentram-se nas sanções contra o Iraque, nos aviões americanos e ingleses a patrulhar os céus a partir de bases na Arábia, no sofrimento do povo iraquiano e, cada vez mais, no visível apoio americano a Israel. As três zonas que eram objecto de queixas na declaração - Arábia, Iraque e Jerusalém - serão familiares aos observadores do cenário do Médio Oriente. Aquilo que pode ser menos familiar é a ordem pela qual são apresentadas e a ênfase com que são mencionadas. Isso não constituirá surpresa para quem for versado em história e literatura islâmicas. Nós, no Ocidente, temos tendência para esquecer que para os muçulmanos a Terra Santa por excelência é a Arábia, e sobretudo a região do Hejaz e as suas duas cidades santas - Meca, onde o Profeta nasceu, e Medina, onde ele 24 fundou o primeiro estado muçulmano: o país cujo povo foi o primeiro a aderir à nova religião e se tornou o seu porta-estandarte. O profeta Maomé viveu e morreu na Arábia, o mesmo acontecendo com os seus sucessores imediatos, os califas, líderes da comunidade. Depois disso, com excepção de um breve período em que se fixou na Síria, o centro do mundo islâmico e cenário dos seus principais empreendimentos foi o Iraque, e a sua capital, Bagdad, foi a sede do califado durante meio milénio. Para os muçulmanos, é impensável renunciar de modo definitivo a qualquer parcela das terras em tempos acrescentadas ao reino do Islão, mas nenhuma se compara à Arábia e ao Iraque em importância. E dessas duas, a Arábia é de longe a mais importante. Os historiadores árabes clássicos dizem-nos que no ano 20 da era muçulmana, correspondente ao ano 641 d.C, o califa Umar decretou que os judeus e os cristãos deviam ser retirados da Arábia, com excepção das suas orlas sul e este, em cumprimento de uma determinação do Profeta pronunciada no seu leito de morte: «Não permitam que haja duas religiões na Arábia». Os povos em questão eram os judeus do oásis de Khaybar, a norte, e os cristãos de Najran,
  9. 9. no sul. Ambos constituíam comunidades antigas e profundamente enraizadas, árabes pela língua, cultura e estilo de vida, que apenas diferiam dos seus vizinhos na religião. A atribuição destas palavras ao Profeta foi refutada por algumas autoridades islâmicas anteriores. Mas de um modo geral foi aceite e posta em vigor. A expulsão de minorias religiosas é extremamente rara na história islâmica; ao contrário do que se passou com a cristandade na Idade Média, para quem a expulsão de judeus e, após a reconquista, de muçulmanos, era normal e frequente. Em comparação com as expulsões realizadas na Europa, o decreto de Umar era não só limitado como clemente. Não incluía o Sul e o Sudeste da Arábia, que não eram considerados como fazendo parte da Terra Santa islâmica. E ao contrário dos judeus e muçulmanos expulsos de Espanha e de outros países europeus, que tiveram de procurar refúgio noutros lugares conforme puderam, os judeus e cristãos da Arábia foram realojados em terras que lhes foram atribuídas: os judeus na Síria e Palestina, e os cristãos no Iraque. Além disso, o processo foi gradual e não repentino, e há registo da presença de judeus e cristãos em Khaybar e Najran durante algum tempo após a publicação do 25 decreto. A expulsão completou-se na devida altura, e desde então até agora a Terra Santa de Hejaz tem sido território proibido a não-muçulmanos. De acordo com a escola islâmica de jurisprudência aceite pelo estado saudita e por Osama bin Laden e seus sequazes, o simples facto de um não-muçulmano pôr o pé no solo sagrado é uma grande ofensa. No resto do reino, os não-muçulmanos, embora admitidos como visitantes temporários, não tinham autorização para fixar residência nem para praticar a sua religião. O porto de Jedda, no mar Vermelho, serviu durante muito tempo como uma espécie de zona de quarentena religiosa, na qual diplomatas, pessoal dos consulados e representantes comerciais estrangeiros tinham autorização para viver numa base estritamente temporária. A partir dos anos 30, a descoberta e exploração de petróleo e o consequente crescimento da capital saudita, Riade, que de uma pequena cidade de oásis se transformou numa grande metrópole, ocasionou muitas mudanças e uma afluência considerável de estrangeiros, predominantemente americanos, o que afectou o estilo de vida árabe em todos os seus aspectos. A sua presença, que ainda é vista por muitos como uma profanação, pode ajudar a explicar o crescente sentimento de indignação. A Arábia foi alvo de uma ameaça breve dos cruzados no século XII d.C. Depois da sua derrota e expulsão, a ameaça dos infiéis à Arábia que se registou a seguir teve início no século XVIII, com a consolidação do poder europeu no Sul da Ásia e o aparecimento de navios europeus, ou, noutras palavras, cristãos, ao largo das costas da Arábia. A sensação de ultraje daí resultante foi pelo menos um dos factores do despertar religioso incutido na Arábia pelo movimento wahhabita e liderado pela Casa de Saud (Su’ud em árabe), os fundadores do estado saudita. Durante o período de influência, e depois domínio, anglo- francês no Médio Oriente nos séculos XIX e XX, estas potências imperiais governaram o Egipto, o Sudão, o Iraque, a Síria e a Palestina. Depenicaram nas orlas da Arábia, em Adem e no golfo Pérsico, mas foram suficientemente prudentes para não terem qualquer envolvimento militar, e apenas um envolvimento político mínimo, nos assuntos da península. Enquanto esse envolvimento estrangeiro foi exclusivamente económico e as recompensas
  10. 10. foram mais do que satisfatórias para mitigar 26 todos os agravos, a presença dos forasteiros era suportável. Mas nos últimos anos as condições do compromisso mudaram. Com a queda dos preços do petróleo e o crescimento da população e dos gastos, as recompensas deixaram de ser satisfatórias; os agravos tornaram-se mais numerosos e mais sonoros. Nem o envolvimento se limita já às actividades económicas. A revolução no Irão, as ambições de Saddam Hussein e o consequente agravamento de todos os problemas da região, sobretudo o conflito israelo- palestino, acresceram dimensões políticas e militares ao envolvimento estrangeiro, e deram uma certa plausibilidade aos gritos de «imperialismo» que se ouvem cada vez mais. Quando a sua Terra Santa está em causa, muitos muçulmanos tenderão a classificar a luta, e por vezes também o inimigo, em termos religiosos, e a ver as tropas americanas, enviadas para libertar o Koweit e para proteger a Arábia Saudita de Saddam Hussein, como invasores e ocupantes infiéis. Esta ideia é intensificada pela inquestionável primazia da América entre as potências do mundo infiel. Para a maioria dos Americanos, a declaração de Bin Laden é uma mascarada, uma enorme distorção da natureza e do objectivo da presença americana na Arábia. E deviam também estar conscientes de que para muitos, talvez mesmo para a maioria dos muçulmanos, aquela declaração é uma mascarada igualmente grotesca da natureza do Islão, e também da sua doutrina à Jihad. O Corão tanto fala de paz como de guerra. As centenas de milhar de tradições e de dizeres atribuídos ao Profeta, com um grau de credibilidade variável e por vezes interpretados de maneiras muito diversas, proporcionam uma vasta série de exemplos, sendo a interpretação militante e violenta da religião um entre muitos. Entretanto, um número considerável de muçulmanos está pronto para aprovar, e alguns deles para pôr em prática, esta interpretação da sua religião. O terrorismo necessita apenas de alguns. Obviamente, o Ocidente deve defender-se por todos os meios que possam ser eficazes. Mas para planear os meios para combater os terroristas, seria sem dúvida útil compreender quais as forças que os impelem. 29 I Definição do Islão É difícil generalizar acerca do Islão. Para começar, a própria palavra é habitualmente usada com dois significados relacionados mas distintos, equivalentes a cristianismo e cristandade. Num dos sentidos designa uma religião, um sistema de fé e de culto; no outro, designa a civilização que cresceu e floresceu sob a égide dessa religião. Por conseguinte, a palavra «Islão» designa mais de catorze séculos de história, 1,3 biliões de pessoas, e uma tradição religiosa e cultural de enorme diversidade. Cristianismo e cristandade representam um número maior e um período de tempo mais longo: mais de 2 biliões de pessoas, mais de vinte séculos, e uma diversidade ainda maior. Contudo, algumas generalizações podem ser e são feitas acerca daquilo a que variavelmente se chama civilização cristã, judaico-cristã, pós-cristã e - de modo mais simples - civilização ocidental. Embora generalizar acerca da
  11. 11. civilização islâmica possa ser difícil e por vezes, num certo sentido, perigoso, não é contudo impossível, e de certo modo pode ser útil. Em termos de espaço, o reino do Islão estende-se de Marrocos à Indonésia, e do Cazaquistão ao Senegal. Em tempo, remonta a mais de catorze séculos atrás, ao advento e missão religiosa do profeta Maomé na Arábia no século VII d.C, e à criação, sob a sua liderança, da comunidade e do estado islâmicos. No período que é visto pelos historiadores europeus como um interlúdio de trevas entre as antigas civilizações - Grécia e Roma - e o aparecimento da civilização moderna - Europa -, o Islão era a civilização dominante no 30 mundo, caracterizada como tal pelos seus grandes e poderosos reinos, a sua indústria e comércio ricos e diversificados, e pela originalidade e criatividade das suas ciências e letras. O Islão foi, muito mais que a cristandade, o estádio intermédio entre o Oriente antigo e o Ocidente moderno, para o qual contribuiu notavelmente. Mas durante os últimos três séculos, o mundo islâmico perdeu o seu domínio e liderança, ficando para trás em relação ao Ocidente moderno e também ao Oriente em processo de modernização rápida. Esta brecha que se alarga coloca problemas cada vez mais prementes, tanto de natureza prática como emocional, para os quais os governantes, os pensadores e os rebeldes do Islão ainda não encontraram respostas eficazes. O Islão, como religião, está em todos os aspectos muito mais próximo da tradição judaico- cristã do que de qualquer das grandes religiões da Ásia, como o hinduísmo, o budismo e o confucionismo. O judaísmo e o Islão partilham a crença numa lei divina que regula todos os aspectos da actividade humana, incluindo até a comida e a bebida. Cristãos e muçulmanos partilham um triunfalismo comum. Em contraste com as outras religiões da humanidade, incluindo o judaísmo, acreditam que somente eles são os afortunados receptores e guardiões da mensagem final de Deus à humanidade, que têm a obrigação de levar ao resto do mundo. Comparadas com as mais remotas religiões do Leste, as três religiões do Médio Oriente -judaísmo, cristianismo e Islão - são todas estreitamente aparentadas, e surgem como variantes da mesma tradição religiosa. A cristandade e o Islão são em muitos aspectos civilizações irmãs, bebendo ambas da herança comum da revelação e da profecia judaicas e da filosofia e ciência gregas, e alimentando-se ambas das tradições imemoriais da Antiguidade no Médio Oriente. Durante a maior parte da sua história comum têm travado uma luta corpo-a-corpo, mas mesmo envolvidas em luta e em polémica revelam o seu parentesco essencial e os aspectos comuns que as ligam uma à outra e as separam das civilizações mais remotas da Ásia. Mas do mesmo modo que há semelhanças, há também disparidades profundas entre elas, que vão para além das diferenças óbvias no que respeita a dogmas e ao culto. Diferenças essas que são mais profundas - e mais evidentes - nas atitudes dessas duas religiões, e dos seus representantes autorizados, perante as relações entre governo, religião e sociedade, do que em qualquer outro aspecto. O 31 fundador do cristianismo ordenou aos seus seguidores: «dai a César aquilo que é de César; e a Deus aquilo que é de Deus» (Mateus, XXI 121); e durante séculos o cristianismo cresceu e desenvolveu-se como uma religião dos oprimidos, até que, com a conversão do
  12. 12. imperador Constantino ao cristianismo, o próprio César se tornou cristão e deu início a uma série de mudanças, pelas quais a nova religião conquistou o Império Romano e transformou a sua civilização. O fundador do Islão foi o seu próprio Constantino, que fundou o seu estado e império próprios. Por conseguinte ele não criou - ou não precisou de criar - uma igreja. A dicotomia regnum e sacerdotium, tão crucial na história da cristandade do Ocidente, não teve equivalência no Islão. Durante a vida de Maomé, os muçulmanos tornaram-se imediatamente uma comunidade política e religiosa, com o Profeta como chefe de Estado. Nessa qualidade, ele governou um lugar e um povo, exerceu a justiça, cobrou impostos, comandou exércitos, declarou a guerra e fez a paz. A primeira, e fundadora, geração de muçulmanos, cujas aventuras constituem a história sagrada do Islão, não foi posta à prova durante muito tempo através de perseguições nem teve uma história de resistência a um poder estatal hostil. Muito pelo contrário, o estado que os governava era o do Islão, e a aprovação dada por Deus à sua causa foi-lhes manifestada na forma de vitória e império neste mundo. Na Roma pagã, César era Deus. Para os cristãos, há uma escolha entre Deus e César, e gerações infinitas de cristãos foram apanhadas na ratoeira dessa escolha. No Islão não houve uma escolha dolorosa como essa. Na nação islâmica universal tal como é concebida pelos muçulmanos, não existe César mas apenas Deus, que é o único soberano e a única fonte emanadora de leis. Maomé foi o Seu profeta, que ao longo da sua vida ensinou e governou em nome de Deus. Quando Maomé morreu, em 632 d.C, a sua missão espiritual e profética de levar à humanidade o livro de Deus estava completa. O que faltava realizar era a tarefa religiosa de propagar a revelação de Deus até que todo o mundo a tivesse aceitado. Isto seria conseguido através do alargamento da autoridade, e, portanto, do número de membros da comunidade que abraçava a verdadeira fé e fazia com que a lei de Deus fosse cumprida. Para garantir a coesão e liderança necessárias a esta tarefa, era preciso um representante ou sucessor do Profeta. A palavra árabe khalifa foi o título adoptado 32 pelo sogro de Maomé e seu primeiro sucessor, Abu Bakr, cuja ascensão à chefia da comunidade islâmica representou a fundação da grande instituição histórica do califado. Sob os califas a comunidade de Medina, onde o Profeta tinha sido empossado, em apenas um século transformou-se num vasto império, e o Islão tornou-se uma religião mundial. Na experiência dos primeiros muçulmanos, que foi preservada e registada para as gerações futuras, a verdade religiosa e o poder político estavam indissoluvelmente associados: a primeira santificava o segundo e o segundo apoiava a primeira. O Ayatollah Khomeini uma vez fez notar que «o Islão ou é política ou não é nada». Nem todos os muçulmanos iriam tão longe, mas a maioria concordaria que Deus se ocupa de política, crença essa que é confirmada e apoiada pela shari’a, a Lei Santa, que se ocupa extensivamente da aquisição e exercício do poder, da natureza da legitimidade e da autoridade, dos deveres do governante e do súbdito, resumindo, daquilo a que nós, no Ocidente, chamaríamos lei constitucional e filosofia política. A longa interacção entre Islão e cristianismo e as muitas semelhanças e influências mútuas entre os dois têm levado por vezes os observadores a negligenciar algumas diferenças significativas. Diz-se que o Corão é a Bíblia muçulmana; que a mesquita é a igreja muçulmana; que os ulemás são o clero muçulmano. As três afirmações são verdadeiras, no entanto, todas elas são seriamente enganadoras. O Antigo e o Novo Testamento são ambos
  13. 13. constituídos por colectâneas de livros vários, abrangendo um vasto período de tempo e vistos pelos crentes como contendo a revelação divina. O Corão, para os muçulmanos, é um simples livro, feito de uma vez só por um só homem, o profeta Maomé. Depois de um debate ao vivo nos primeiros séculos do Islão, foi adoptada a doutrina de que o Corão em si é indestrutível e eterno, divino e imutável. Isto tornou-se um princípio básico da religião. A mesquita é de facto a igreja muçulmana, na medida em que é um lugar de culto comunal. Mas não se pode falar «da mesquita» como se fala «da Igreja», isto é, de uma instituição com a sua própria hierarquia e as suas leis, destacada do Estado. Os ulemás (que no Irão e nos países muçulmanos influenciados pela cultura persa são conhecidos por mulas) podem ser definidos como um clero em sentido sociológico, enquanto profissionais da religião, acreditados 33 como tal através de instrução adequada e diploma. Mas no Islão não existe sacerdócio - não há mediação sacerdotal entre Deus e o crente, não há ordenação, nem sacramentos, nem rituais que só um clero ordenado pode celebrar. No passado poder-se-ia acrescentar que não há concílios nem sínodos, nem bispos para definir a ortodoxia ou inquisidores para a fazer cumprir. Hoje isto já não é inteiramente verdade, pelo menos no Irão. A função fundamental do ulemá - deriva de uma palavra árabe que significa «conhecimento» - é fazer cumprir e interpretar a Lei Santa. A partir de finais da Idade Média começou a surgir algo semelhante a um clero paroquial, que acudia às necessidades das pessoas comuns em cidades e aldeias, mas que habitualmente nada tinha a ver com os ulemás nem merecia a confiança destes, estando mais relacionado com o Islão místico do que com o dogmático. Nas últimas monarquias islâmicas da Turquia e do Irão apareceu uma espécie de hierarquia eclesiástica, mas que não tinha raízes na tradição muçulmana clássica, e os membros dessas hierarquias nunca exigiram, e muito menos exerceram, os poderes dos prelados cristãos. Nos tempos modernos houve muitas alterações, sobretudo devido a influências ocidentais, e surgiram instituições e profissões que apresentam semelhanças suspeitas com as igrejas e os clérigos cristãos. Mas representam um afastamento do Islão clássico, e não um regresso a ele. Se é possível falar de um clero no mundo islâmico num sentido sociológico limitado, de laicidade, porém, não é possível falar em sentido nenhum. A simples ideia de algo separado ou possível de separar da autoridade religiosa, que em linguagem cristã se exprime por termos como «leigo, temporal ou secular», é totalmente estranha ao pensamento e à prática islâmicos. Só em tempos relativamente recentes surgiram vocábulos equivalentes a estes em árabe. Foram copiados dos usados por cristãos de língua árabe, ou inventados recentemente. Desde os tempos do Profeta que a sociedade islâmica teve um carácter duplo. Por um lado, era uma nação - uma chefatura que se tornou sucessivamente um estado e um império. Por outro lado era, ao mesmo tempo, uma comunidade religiosa fundada por um profeta e governada pelos seus representantes, que eram também seus sucessores. Cristo foi crucificado, Moisés morreu sem ter entrado na 34 terra prometida, e as crenças e atitudes dos seus seguidores religiosos continuam a ser
  14. 14. profundamente influenciadas pela lembrança destes factos. Maomé triunfou em vida, e morreu como um soberano e um conquistador. As atitudes muçulmanas daí resultantes só podem ter sido confirmadas pela história posterior da sua religião. Na Europa ocidental, os invasores bárbaros mas susceptíveis de aprendizagem vieram para onde já existia um estado e uma religião: o Império Romano e a Igreja Cristã. Os invasores reconheceram ambos e tentaram satisfazer os seus próprios objectivos e necessidades dentro das estruturas existentes da nação romana e da religião cristã, que usavam ambas a língua latina. Os invasores muçulmano-árabes que conquistaram o Médio Oriente e o Norte de África trouxeram consigo a sua própria religião, com as suas próprias escrituras escritas na sua própria língua; criaram a sua própria nação, com um novo conjunto de leis, uma nova língua imperial e uma nova estrutura imperial, com o califa como chefe supremo. Este estado e este governo foram definidos pelo Islão, e só podiam considerar-se seus membros aqueles que professavam a religião dominante. A carreira do profeta Maomé, modelo que todos os bons muçulmanos desejam emular, nisso e em tudo o mais, divide-se em duas partes. Na primeira, durante os anos que passou no seu lugar de nascimento, Meca (7570-622), ele era um antagonista da oligarquia pagã reinante. Na segunda, depois de se mudar de Meca para Medina (622-632), foi o chefe de um Estado. Estas duas fases da carreira do Profeta, uma de resistência e outra de governação, estão ambas reflectidas no Corão, onde, em diferentes capítulos, se ordena aos crentes que obedeçam ao representante de Deus e desobedeçam ao faraó, paradigma do governante injusto e tirano. Esses dois aspectos da vida e do trabalho do Profeta inspiraram duas tradições no Islão: uma autoritária e quietista, e outra radical e activista. Ambas estão amplamente reflectidas, por um lado no desenvolvimento da tradição, e por outro no desenrolar dos acontecimentos. Nem sempre foi fácil determinar quem era o representante de Deus e quem era o faraó; muitos livros foram escritos e muitas batalhas se travaram, na tentativa de o fazer. O problema persiste, e ambas as tradições são ainda claramente visíveis nas polémicas e lutas dos nossos dias. Entre os extremos do quietismo e do radicalismo existe uma atitude de reserva, e mesmo de desconfiança, em relação ao governo, 35 muito difundida e bastante explícita. Exemplo disso é a diferença nítida de atitude que era comum, na época medieval, para com o qadi, um juiz, e o mufti, um jurisconsulto segundo a Lei Santa. O qadi, que era nomeado pelo chefe do governo, é apresentado na literatura e no folclore como uma figura corrupta e até ridícula; o mufti, instituído no Islão medieval com o reconhecimento dos seus colegas e da população em geral, gozava de consideração e respeito. Um topos das biografias de homens piedosos - que temos às centenas de milhar - é ser oferecida ao herói uma nomeação para o governo e ele recusar. A oferta comprova a sua erudição e reputação, e a recusa, a sua integridade. Na época otomana deu-se uma mudança importante. O qadi adquiriu muito mais poder e autoridade, e mesmo o mufti foi integrado no quadro público de autoridade. Mas a velha atitude de desconfiança para com o governo persistiu, e é frequentemente expressa em provérbios, contos populares e até na literatura erudita. Durante mais de mil anos, o Islão proporcionou o único conjunto de regras e princípios universalmente aceitáveis para regulamentar a vida pública e social. Mesmo durante o período de máxima influência europeia, nos países governados ou dominados pelas
  15. 15. potências imperiais europeias e também naqueles que se mantiveram independentes, as ideias e atitudes políticas islâmicas continuaram a ter uma influência profunda e difusa. Em anos recentes tem havido muitos sinais de que estas ideias e atitudes podem estar a recuperar a sua antiga influência, embora sob formas alteradas. É no campo da política - tanto nacional, como regional ou internacional - que nós observamos as mais notáveis diferenças entre o Islão e o resto do mundo. Os chefes de Estado ou ministros dos Negócios Estrangeiros dos países escandinavos e do Reino Unido não se reúnem de tempos em tempos em conferências de líderes protestantes, nem nunca foi prática corrente dos governantes da Grécia, Jugoslávia, Bulgária e União Soviética realizar encontros regulares, com base na sua actual ou passada adesão à Igreja Ortodoxa, esquecendo temporariamente as suas divergências políticas e ideológicas. De modo análogo, os estados budistas do Este e Sudeste 36 da Ásia não constituem um bloco budista nas Nações Unidas, nem em nenhuma das suas actividades políticas. A simples ideia de agrupamentos desse género, baseados na religião, no mundo actual pode parecer anacrónica e até absurda. Mas no que respeita ao Islão, não é anacrónica nem absurda. Durante os tempos de tensão da guerra fria e mesmo depois, mais de cinquenta governos muçulmanos - incluindo monarquias e repúblicas, conservadores e radicais, regimes capitalistas e socialistas, apoiantes do bloco do Ocidente, o bloco do Oriente, e um conjunto de diversos graus de neutralidade - constituíram um elaborado organismo de consulta, e em muitos casos de cooperação, internacional. Em Setembro de 1969, numa conferência de líderes islâmicos realizada em Rabat, Marrocos, decidiu-se criar um organismo a que se chamaria Organização da Conferência Islâmica (OCI), com um secretariado permanente em Jedda, na Arábia Saudita. Esse organismo foi devidamente criado e desenvolveu-se rapidamente na década de 70. A OCI preocupava-se sobretudo com a ajuda aos países muçulmanos pobres, o apoio às minorias muçulmanas em países não-muçulmanos, e com a situação internacional do Islão e dos muçulmanos - os direitos islâmicos do homem, nas palavras de um observador. Essa organização conta agora com cinquenta e sete estados membros, mais três com o estatuto de observadores. Dois desses estados, a Albânia e a Turquia, estão ou aspiram a estar na Europa (a Bosnia tem apenas estatuto de observador); outros dois, o Suriname (admitido em 1996) e a Guiana (admitida em 1998), situam-se no hemisfério ocidental. Os restantes situam-se na Ásia e na África, e, com poucas excepções, obtiveram no último meio século a independência de países da Europa ocidental ou, mais recentemente, do império soviético. A maior parte deles são esmagadoramente muçulmanos em termos de população, mas alguns foram admitidos com base nas suas significativas minorias muçulmanas. Além destes estados, existem minorias muçulmanas importantes noutros países - algumas delas semelhantes à maioria, como na índia, outras étnica e religiosamente diferentes, como os Tchetchenos e os Tártaros da Federação Russa. Alguns países, como a China, têm minorias muçulmanas dessas duas categorias. Vários outros países estão agora a adquirir minorias muçulmanas através da imigração. 37
  16. 16. Houve e continua a haver limites importantes à eficácia da OCI como factor da política internacional. A invasão soviética do Afeganistão em 1979, um acto flagrante de agressão contra uma nação muçulmana soberana, não suscitou protestos sérios e foi até defendida por alguns estados membros. Mais recentemente, a organização não mostrou qualquer interesse pelas guerras civis ocorridas em estados membros como o Sudão e a Somália. A sua folha de serviços no que toca a questões regionais também não é impressionante. Entre 1980 e 1988, dois países islâmicos, o Iraque e o Irão, travaram uma guerra devastadora, tendo infligido um ao outro danos enormes. A OCI nada fez para evitar essa guerra nem para lhe pôr fim. Dum modo geral, a OCI, ao contrário da Organização dos Estados Americanos e da Organização da Unidade Africana, não dá atenção às violações dos direitos humanos e outros problemas internos dos estados membros; as suas preocupações com os direitos humanos têm-se limitado aos muçulmanos que vivem em estados não- muçulmanos, sobretudo na Palestina. Contudo, a OCI não pode ser menosprezada. As suas actividades culturais e sociais são importantes e estão em crescimento, e os mecanismos que ela proporciona para uma regular troca de impressões entre os estados membros pode crescer em importância à medida que a guerra fria e o factor de separação que ela representava se diluem no passado. Passando da política internacional e regional para a interna, a diferença entre o Islão e o resto do mundo, embora menos notável, é ainda assim substancial. Em alguns dos países que têm regimes de democracia multipartidária, há partidos políticos que têm designações religiosas - cristãs no Ocidente, hindus na índia, e budistas no Oriente. Mas esses partidos são em número relativamente reduzido, e aqueles que desempenham um papel de relevo são ainda menos. E mesmo nestes, os temas religiosos são habitualmente de pouca importância nos seus programas e nas suas formas de atrair o eleitorado. Contudo, em muitos países islâmicos, aliás na maior parte deles, a religião continua a ser um factor político fundamental - muito mais, de facto, nos assuntos internos, do que nos internacionais ou nos regionais. Porquê tal diferença? Há uma resposta que é óbvia: os países muçulmanos, na sua maioria, são ainda profundamente muçulmanos, duma forma e num sentido que os países cristãos, na sua maior parte, já não são cristãos. 38 Temos de reconhecer que em muitos desses países a fé cristã e o clero que a defende ainda representam uma força poderosa, e embora o seu papel já não seja o que foi em séculos passados, não se pode dizer que é insignificante. Mas actualmente, não há nenhum país cristão em que os líderes religiosos possam contar com o grau de fé e de participação que continua a ser normal em terras muçulmanas. Em poucos países cristãos, ou mesmo em nenhum, os valores sagrados cristãos gozam de imunidade ao comentário ou discussão crítica que é aceite como normal até nas sociedades muçulmanas ostensivamente seculares e democráticas. Com efeito, essa imunidade privilegiada foi alargada aos países ocidentais onde existem agora comunidades muçulmanas, e onde a fé e as práticas religiosas muçulmanas gozam de um nível de imunidade à crítica que as maiorias cristãs perderam e as minorias judaicas nunca tiveram. Particularmente importante é o facto de, com muito poucas excepções, o clero cristão não exercer e nem sequer reclamar a espécie de autoridade pública que ainda é normal e aceite na maioria dos países muçulmanos. O nível mais elevado de fé e de prática religiosa entre os muçulmanos em comparação com
  17. 17. os crentes de outras religiões explica em parte a atitude única dos muçulmanos em relação à política; não constitui a explicação completa, pois pode-se encontrar a mesma atitude em indivíduos e até em grupos cuja relação com a fé e a prática religiosa é, no mínimo, negligente. O Islão não é apenas uma questão de fé e de prática religiosa; é também uma identidade e uma lealdade - para muitos, uma identidade e uma lealdade que transcende qualquer outra. A superfície, a importação das noções ocidentais de patriotismo e nacionalismo alterou tudo isto e levou à criação de uma série de modernos estados-nação que se estendem através do mundo islâmico, de Marrocos à Indonésia. Mas nem tudo é aquilo que à superfície parece ser. Dois exemplos devem bastar. Em 1923, depois da última guerra greco-turca, os dois governos concordaram em resolver os seus problemas de minorias com uma troca de populações: foram enviados Gregos da Turquia para a Grécia, e Turcos da Grécia para a Turquia. Pelo menos, é assim que os livros de história costumam contar o episódio. Os factos foram um pouco diferentes. O protocolo que os dois governos assinaram 39 em Lausana em 1923, que incluía o acordo de troca, não fala em «Gregos» e «Turcos». Designa as pessoas a trocar por «súbditos turcos de religião ortodoxa grega residentes na Turquia» e «súbditos gregos de religião muçulmana residentes na Grécia». Por conseguinte, o protocolo reconhece apenas dois tipos de identidade: uma definida pelo facto de se ser súbdito de um estado, e outra por se ser crente de uma religião. Não faz qualquer referência a nacionalidade étnica ou linguística. A precisão com que este documento expressa as intenções dos signatários foi confirmada pela troca efectiva. Muitos dos chamados Gregos da província turca de Karaman, na Anatólia, tinham o turco como língua materna, mas escreviam-no em caracteres gregos e praticavam o culto em igrejas ortodoxas. Muitos dos chamados Turcos da Grécia sabiam pouco ou nada de turco e habitualmente falavam grego, mas escreviam-no em caracteres turco-árabes. Um observador ocidental, acostumado a um método de classificação ocidental, poderia muito bem ter concluído que aquilo que os governos da Grécia e da Turquia acordaram e cumpriram não foi uma troca e repatriamento de minorias nacionais gregas e turcas, mas sim uma dupla deportação para o exílio - de Gregos muçulmanos para a Turquia e de Turcos cristãos para a Grécia. Até muito recentemente a Grécia e a Turquia, duas democracias em processo de ocidentalização, uma delas membro da União Europeia e a outra aspirante a sê-lo, tinham nos seus documentos de identificação emitidos pelo Estado uma linha para a religião. O segundo exemplo é o Egipto. Poucas nações haverá, se é que há alguma, com mais direito a reivindicar o estatuto de nação: é um país claramente definido tanto pela história como pela geografia, com uma história de civilização contínua que remonta a mais de cinco mil anos atrás. Mas os Egípcios têm várias identidades, e durante a maior parte dos últimos catorze séculos, ou seja, desde a conquista árabo-islâmica do Egipto no século VII e a subsequente islamização e arabização do país, a identidade egípcia raramente foi a predominante, concedendo essa honra à identidade cultural e linguística do arabismo e, durante a maior parte da sua história, à identidade religiosa do Islão. O Egipto, como nação, é uma das mais velhas do mundo. Como estado-nação o Egipto é uma instituição moderna, e enfrenta ainda muitos desafios internos. Actualmente, o mais forte desses desafios, tanto no Egipto como noutros países
  18. 18. 40 muçulmanos, é constituído pelos grupos radicais islâmicos hoje vulgarmente designados, ainda que erroneamente, por «fundamentalistas». Desde os tempos do seu fundador, e portanto das suas sagradas escrituras, que o Islão está associado, nas mentes e na memória dos muçulmanos, ao exercício do poder político e militar. O Islão clássico reconhecia uma distinção entre as coisas deste mundo e as do outro, entre considerações de natureza religiosa e de natureza mundana. Não reconhecia uma instituição à parte, com uma hierarquia e leis próprias, para regulamentar as questões religiosas. Significa isto que o Islão é uma teocracia? No sentido em que Deus é visto como o soberano supremo, a resposta teria de ser sim. No sentido de um governo exercido por um clero, a resposta é definitivamente não. O aparecimento de uma hierarquia clerical que assumiu a autoridade suprema dentro do estado é uma inovação recente e é um contributo sem paralelo do falecido Ayatollah Khomeini, do Irão, para o pensamento e os usos islâmicos. A Revolução Islâmica no Irão, tal como as Revoluções Francesa e Russa, com as quais tem muitas semelhanças, teve um impacte tremendo não só no próprio país e no seu povo, mas também em todos os países e povos com os quais partilhava um universo comum de raciocínio. Como aconteceu com as Revoluções Francesa e Russa nos seus tempos, originou uma esperança e um entusiasmo extraordinários. Tal como aquelas revoluções, passou pelo seu Terror e pela sua Guerra de Intervenção; à semelhança delas, tem os seus jacobinos e bolcheviques, determinados a esmagar qualquer sinal de pragmatismo ou moderação. E tal como essas revoluções anteriores, sobretudo a russa, possui a sua rede própria de agentes e emissários que se esforçam de diversas maneiras para promover a causa da revolução ou, pelo menos, do regime que é visto como a sua encarnação. A palavra «revolução» tem sido usada muito abusivamente no Médio Oriente moderno, sendo aplicada - ou reivindicada a sua aplicação - a muitos acontecimentos que seriam designados de modo mais adequado pela expressão francesa coup d’etat, a alemã Putsch, ou a espanhola pronunciamiento. A experiência política dos povos de língua inglesa, curiosamente, não dispõe de um vocábulo 41 equivalente. O que aconteceu no Irão não foi nada disso, mas nas suas origens foi um autêntico movimento revolucionário de mudança. Como as suas antecessoras, correu muito mal em muitos aspectos, tendo levado à tirania no país e ao terror e subversão fora dele. Ao contrário da França e da Rússia revolucionárias, ao Irão revolucionário faltam os meios, os recursos e as competências para se tornar uma grande potência e uma ameaça mundial. A ameaça que ele representa recai em primeiro lugar e de maneira esmagadora sobre os muçulmanos e o próprio Islão. A onda revolucionária do Islão tem várias componentes. Uma delas é um sentimento de humilhação: o sentimento de uma comunidade de indivíduos habituados a considerarem-se os únicos guardiões da verdade de Deus, encarregados por Ele de a levarem aos infiéis, que de repente se vêem dominados e explorados por esses mesmos infiéis e, mesmo quando já não dominados, ainda
  19. 19. profundamente afectados de uma maneira que altera as suas vidas, afastando-os dos verdadeiros caminhos do Islão para outros caminhos. À humilhação juntou-se a frustração à medida que as várias soluções, a maior parte delas importadas do Ocidente, foram sendo experimentadas e uma após outra falharam. Depois da humilhação e da frustração veio uma terceira componente, necessária ao ressurgimento: uma nova confiança e sensação de poder. Teve origem na crise do petróleo de 1973, quando, em apoio à guerra do Egipto contra Israel, os países árabes produtores de petróleo usaram o fornecimento e o preço do petróleo como aquilo que comprovadamente foi uma arma muito eficaz. A riqueza, o orgulho e a autoconfiança daí resultantes foram reforçados por outro elemento novo: o desprezo. Relacionando-se mais de perto com a Europa e a América, os visitantes muçulmanos começaram a ver e a descrever aquilo que viam como a depravação moral e consequente fraqueza da civilização ocidental. Numa época de tensões intensas, de ideologias vacilantes, de lealdades desgastadas e instituições a desmoronarem-se, uma ideologia expressa em termos islâmicos oferecia várias vantagens: uma base comovedoramente familiar de identidade de grupo, solidariedade e exclusão; uma base aceitável de legitimidade e autoridade; e uma formulação de princípios de compreensão imediata para uma crítica do presente e um programa para o futuro. Através delas, o Islão 42 podia proporcionar os mais eficazes símbolos e slogans de mobilização, a favor ou contra uma causa ou um regime. Os movimentos islâmicos têm ainda outra vantagem enorme em relação a toda a concorrência. Nas mesquitas, dispõem de uma rede de associação e de comunicação que nem o governo mais ditatorial consegue controlar totalmente. Com efeito, as ditaduras implacáveis favorecem-nos de modo não intencional, por eliminarem os concorrentes que se lhes opõem. O islamismo radical, a que se tornou usual chamar fundamentalismo islâmico, não é um movimento homogéneo único. Há muitos tipos de fundamentalismo islâmico em vários países e por vezes até no mesmo país. Alguns são patrocinados pelo Estado - fundados, usados e promovidos por um ou outro governo muçulmano para servir os seus objectivos; outros são movimentos populares genuínos vindos de baixo. Entre os movimentos islâmicos patrocinados pelo Estado há-os de várias espécies, radicais e conservadores, subversivos e dissuasores. Os movimentos conservadores e dissuasores foram iniciados por governos no poder que procuravam proteger-se da onda revolucionária. Trata-se de movimentos encorajados em épocas diversas pelos Egípcios, Paquistaneses e, sobretudo, pelos sauditas. A outra espécie de movimentos, de importância muito maior, vem de baixo, tem uma base popular autêntica. O primeiro desses movimentos a tomar o poder e que o exerceu com mais êxito foi o movimento conhecido como revolução islâmica no Irão. Regimes islâmicos radicais estão actualmente no poder no Sudão e governaram durante algum tempo o Afeganistão, e os movimentos islâmicos representam uma maior ameaça à ordem existente em outros países, especialmente a Argélia e o Egipto, já de si em risco. Os fundamentalistas muçulmanos, ao contrário dos grupos protestantes cujo nome foi transferido para eles, não diferem da corrente principal em questões de teologia e na interpretação das escrituras. A sua crítica é, num sentido mais amplo, social. O mundo islâmico, na sua opinião, tomou a via errada. Os seus líderes chamam a si mesmos
  20. 20. muçulmanos e fazem uma simulação do Islão, mas na verdade são apóstatas que aboliram a Lei Santa e adoptaram leis e costumes estrangeiros e infiéis. Para eles, a única solução é um regresso ao estilo de vida muçulmano autêntico, e para isso o afastamento dos governos apóstatas é um primeiro passo essencial. 43 Os fundamentalistas são anti-ocidentais na medida em que vêem o Ocidente como a fonte do mal que está a corromper a sociedade muçulmana, mas o seu ataque principal é dirigido contra os seus próprios governantes e líderes. Foram movimentos como esses que levaram a cabo a deposição do xá do Irão em 1979 e o assassinato do presidente Sadat do Egipto dois anos depois. Eram ambos vistos como sintomas de um mal mais profundo que tinha de ser corrigido através de uma purificação interior. No Egipto assassinaram o líder mas não conseguiram apoderar-se do país; no Irão destruíram o regime existente e criaram o deles. O Islão é uma das grandes religiões do mundo. Conferiu dignidade e sentido a vidas infelizes e empobrecidas. Ensinou homens de raças diferentes a viver em fraternidade, e pessoas de credos diferentes a viver lado a lado num clima razoável de tolerância. Inspirou uma grande civilização em que outros que não só os muçulmanos viveram vidas criativas e úteis e que, com esse feito, enriqueceram o mundo inteiro. Mas o Islão, como outras religiões, também passou por períodos em que inspirou em alguns dos seus seguidores sentimentos de ódio e violência. Por infelicidade nossa temos de nos confrontar com o mundo muçulmano quando ele atravessa um desses períodos, e quando a maior parte desse ódio - embora de modo nenhum todo ele - é dirigido contra nós. Porquê? Não devemos exagerar as dimensões do problema. O mundo muçulmano está longe de ser unânime na sua rejeição do Ocidente, assim como as regiões muçulmanas do Terceiro Mundo não têm estado sós na sua hostilidade. Ainda há um número significativo de muçulmanos, que em algumas regiões talvez sejam uma maioria, com os quais partilhamos certas crenças e aspirações básicas de natureza cultural e moral, ou social e política; ainda há uma presença ocidental significativa - cultural, económica, diplomática - em terras muçulmanas, algumas das quais são aliadas do Ocidente. Mas existe uma onda de ódio que angustia, alarma e sobretudo confunde os Americanos. Muitas vezes esse ódio ultrapassa o nível de hostilidade para com interesses ou acções específicos, políticas ou mesmo países, e 44 transforma-se numa rejeição da civilização ocidental como tal, não tanto por aquilo que ela faz como por aquilo que ela é, e pelos princípios e valores que ela pratica e professa. Estes são vistos, de facto, como um mal inato, e aqueles que os promovem ou aceitam são vistos como os «inimigos de Deus». Esta frase, que ocorre com tanta frequência nas declarações dos líderes do Irão, tanto nos seus processos judiciais como nos discursos políticos, devem parecer muito estranhos ao outsider moderno, seja ele religioso ou leigo. A ideia de que Deus tem inimigos, e necessita da ajuda humana para os identificar e se desembaraçar deles, é um bocado difícil de assimilar. Contudo, não é assim tão estranha. O conceito de inimigos de Deus é familiar na Antiguidade pré-clássica e clássica, e tanto no Antigo como no Novo Testamento e no
  21. 21. Corão. No Islão, a luta entre o bem e o mal adquiriu, desde o início, dimensões políticas e também militares. Maomé, como se lembrarão, não foi apenas um profeta e um professor, como os fundadores de outras religiões; foi também um governante e um soldado. Por isso a sua luta envolveu um estado e respectivas forças armadas. Se os combatentes da guerra pelo Islão, a guerra santa «na senda de Deus», lutam por Deus, quer dizer que os seus adversários lutam contra Deus. E como Deus é, em princípio, o soberano, o chefe supremo do estado islâmico, tendo o Profeta, e após o Profeta os califas, como Seus vice-gerentes, então Deus como soberano comanda o exército. O exército é o exército de Deus, e o inimigo é o inimigo de Deus. O dever dos soldados de Deus é despachar os inimigos de Deus o mais depressa possível para o lugar onde Deus os há-de punir, ou seja, o outro mundo. A pergunta-chave que ocupa os políticos ocidentais actualmente pode ser posta de maneira simples: é o Islão, fundamentalista ou de qualquer outra espécie, uma ameaça para o Ocidente? A esta simples pergunta foram dadas várias respostas simples, e como é próprio das respostas simples, na sua maioria são enganadoras. De acordo com uma escola de pensamento, após o colapso da União Soviética e do movimento comunista, o Islão e o fundamentalismo islâmico substituíram-nos como a principal ameaça para o Ocidente e o estilo de vida ocidental. Segundo outra escola de pensamento, os muçulmanos, incluindo os fundamentalistas radicais, são basicamente 45 pessoas decentes, amantes da paz e piedosas, algumas das quais perderam a paciência com todas as coisas horríveis que nós, os do Ocidente, lhes fizemos. Nós decidimos vê-los como inimigos porque temos uma necessidade psicológica de um inimigo que substitua a defunta União Soviética. Ambos os pontos de vista contêm elementos verdadeiros, e ambos estão perigosamente errados. O Islão em si mesmo não é um inimigo do Ocidente, e há um número crescente de muçulmanos, tanto lá como aqui, que tudo o que mais desejam é um relacionamento mais próximo e mais amigável com o Ocidente e a criação de instituições democráticas nos seus próprios países. Porém, um número significativo de muçulmanos - sobretudo mas não só aqueles a quem chamamos fundamentalistas - são hostis e perigosos, não porque nós precisemos dum inimigo mas sim porque eles precisam. Em anos recentes, deram-se algumas mudanças de discernimento e, consequentemente, de tácticas por parte dos muçulmanos. Alguns deles ainda vêem o Ocidente em geral, e em particular o seu actual líder, os Estados Unidos, como o velho e irreconciliável inimigo do Islão, o verdadeiro obstáculo à restauração da fé e da lei de Deus nos seus países e ao seu triunfo universal definitivo. Para estes, o único caminho é a guerra até à morte, em cumprimento daquilo que eles consideram os mandamentos da sua religião. Outros há que, embora sejam muçulmanos convictos e cientes dos defeitos da sociedade ocidental moderna, no entanto reconhecem também os seus méritos - o seu espírito investigador que produziu a ciência e a tecnologia modernas, a sua preocupação com a liberdade que originou os modernos governos democráticos. Estes, embora conservando as suas crenças e a sua cultura, procuram juntar-se a nós na tentativa de alcançar um mundo mais livre e melhor. Há ainda outros que, embora considerando o Ocidente o seu inimigo derradeiro e a fonte de todos os males, todavia estão conscientes do seu poder e pretendem um alojamento temporário, para melhor se prepararem para a luta final. Temos de ser prudentes para não
  22. 22. confundir os segundos com os terceiros. II A Casa da Guerra Ao longo da história da humanidade, muitas civilizações surgiram e desapareceram - China, índia, Grécia, Roma, e, antes delas, as antigas civilizações do Médio Oriente. Durante os séculos que na história europeia são designados por Idade Média, a civilização mais avançada do mundo era sem dúvida a do Islão. Pode ter sido igualada - ou mesmo ultrapassada em alguns aspectos - pela índia e pela China, mas estas ficaram limitadas essencialmente a uma região e a um grupo étnico, e o seu impacte no resto do mundo foi proporcionalmente reduzido. A civilização do Islão, pelo contrário, tinha uma visão ecuménica do mundo e era-o explicitamente nas suas aspirações. Uma das tarefas básicas deixadas em testamento aos muçulmanos pelo Profeta foi âjihad. Esta palavra vem da raiz árabe j-h-d, que basicamente significa «empenho» ou «esforço». Em textos clássicos é frequentemente usada com um significado muito próximo de «luta», e a partir daí também de «combate». E citada com frequência na frase do Corão: «lutando na senda de Deus» (p. ex.: IX, 24; LX, 1; etc.), e tem sido variamente interpretada como significando luta moral ou luta armada. Normalmente é muito fácil compreender pelo contexto qual destes cambiantes de significado se pretendeu dar-lhe. No Corão a palavra ocorre muitas vezes, com estes dois sentidos distintos mas relacionados. Nos primeiros capítulos, que datam do período de Meca, quando o Profeta ainda era o líder de um grupo minoritário que lutava contra a oligarquia pagã dominante, a palavra tem frequentemente 48 o significado, apoiado pelos exegetas modernistas, de luta moral. Nos últimos capítulos, publicados em Medina, onde o Profeta era chefe de Estado e comandava o exército, habitualmente tem uma conotação explicitamente mais prática. Em muitos, o sentido militar é inequívoco. Encontra-se um bom exemplo em IV, 95: «Aqueles de entre os crentes que ficarem em casa, para além dos incapacitados, não são iguais àqueles que lutam na senda de Deus com os seus bens e as suas pessoas. Deus colocou aqueles que lutam com os seus bens e as suas pessoas num nível mais elevado do que aqueles que ficam em casa. Deus prometeu recompensa a todos os que crêem, mas Ele distingue aqueles que combatem, acima daqueles que ficam em casa, com uma recompensa grandiosa». Conceitos semelhantes encontram-se em: VIII, 72; IX, 41, 81, 88; LXVI, 9; etc. Alguns muçulmanos modernos, sobretudo quando se dirigem ao mundo exterior, explicam o dever da jihad em sentido espiritual e moral. A esmagadora maioria das autoridades do passado, citando as passagens relevantes do Corão, os comentários e as tradições do Profeta, discutem a jihad em termos militares. De acordo com a lei islâmica, é legítimo fazer guerra contra quatro tipos de inimigos: infiéis, apóstatas, rebeldes e bandidos. Embora esses quatro tipos de guerra sejam legítimos, só os dois primeiros contam como jihad. A jihad é, pois, uma obrigação religiosa. Discutindo acerca da obrigação da guerra santa, os juristas muçulmanos clássicos fazem distinção entre guerra ofensiva e defensiva. Na ofensiva, a jihad é uma obrigação da comunidade muçulmana como um todo, e portanto pode ser executada por voluntários e profissionais. Numa guerra defensiva, ela torna-se
  23. 23. uma obrigação de todo o indivíduo fisicamente apto. Foi este princípio que Osama bin Laden invocou na sua declaração de guerra contra os Estados Unidos. Durante a maior parte dos catorze séculos de história muçulmana registada, a jihad foi geralmente interpretada como luta armada para a defesa ou o avanço do poder muçulmano. Na tradição muçulmana, o mundo está dividido em duas casas: a Casa do Islão {Dar al- Islâm), onde os governantes muçulmanos governam e a lei muçulmana impera, e a Casa da Guerra (Dâr al-Harb), que é o resto do mundo ainda habitado e, mais importante ainda, governado pelos infiéis. O que se presume é que o dever da jihad continuará a ser exercido, interrompido apenas por tréguas temporárias, até que 49 todo o mundo adopte a religião muçulmana ou se submeta ao domínio muçulmano. Aqueles que lutam na jihad habilitam-se a recompensas nos dois mundos - o saque neste, e o paraíso no outro. Nesta questão, como em tantas outras, a orientação do Corão é ampliada e elaborada nas hadiths, ou seja, nas tradições relativas às acções e elocuções do Profeta. Muitas delas têm a ver com a guerra santa. Seguem-se alguns exemplos. A jihad é o vosso dever sob qualquer governante, seja ele piedoso ou iníquo. Um dia e uma noite de combate na fronteira é melhor do que um mês de jejum e oração. A ferroada de uma formiga magoa mais um mártir do que a estocada de uma arma, pois estas são mais agradáveis para ele do que a água doce e fresca num dia quente de Verão. Aquele que morre sem ter tomado parte numa campanha morre como se fosse um descrente. Deus admira-se com as pessoas [aqueles a quem o Islão, é imposto pela conquista] que são arrastadas para o paraíso acorrentadas. Aprendam a disparar, pois o espaço entre o alvo e o archeiro é um dos jardins do paraíso. O paraíso está na sombra das espadas. As tradições também estabelecem algumas regras de guerra para o desempenho da jihad: Tenham o cuidado de tratar bem os prisioneiros. O saque não é mais legítimo que o cadáver. Deus proibiu que se matem mulheres e crianças. Os muçulmanos estão vinculados aos seus acordos, desde que estes sejam legítimos. Os tratados jurídicos clássicos sobre a shari’a contêm normalmente um capítulo acerca da jihad, entendida no sentido militar, como uma guerra regular contra infiéis e apóstatas. Mas esses tratados preceituam o comportamento correcto e o respeito pelas regras de guerra, em questões como a abertura e o encerramento das hostilidades e a forma de tratar os não combatentes e os prisioneiros, para não falar nos representantes diplomáticos. 50 Na maior parte da história escrita do Islão, desde o tempo de vida do profeta Maomé em diante, a palavra jihâd foi usada num sentido basicamente militar. Maomé iniciou a sua missão profética em Meca, lugar onde nasceu, mas devido à perseguição que ele e os seus seguidores sofreram às mãos da oligarquia pagã que governava aquela cidade, mudaram-se para a cidade de Medina, onde foram bem-recebidos pelas tribos locais, que deram ao Profeta o cargo de arbitrador e depois de governador. Em árabe, esta mudança é conhecida por Hijra, por vezes escrita na forma ortograficamente errada «Hegira», e erradamente traduzida por «fuga». A era muçulmana começa no início do ano árabe em que teve lugar a
  24. 24. Hijra. A primeira jihad foi empreendida pelo Profeta contra os governantes da sua cidade natal e terminou com a conquista de Meca no mês do Ramadão do ano 8 da Hijra, que corresponde a Janeiro de 630 da era cristã. Os líderes de Meca renderam-se quase sem luta, e aos habitantes da cidade, excluindo aqueles que eram acusados de ofensas específicas contra o Profeta ou contra algum muçulmano, foi concedida imunidade para as suas vidas e bens, desde que se comportassem de harmonia com o acordo. A tarefa seguinte foi o alargamento do domínio muçulmano ao resto da Arábia e, sob a autoridade dos califas, sucessores do Profeta, ao resto do mundo. Nos primeiros séculos da era islâmica isso pareceu ser um resultado possível ou mesmo provável. Dentro de um espaço de tempo bastante curto os exércitos muçulmanos triunfantes tinham derrubado o antigo império da Pérsia e anexado todos os seus territórios aos domínios do califado, abrindo caminho à invasão da Ásia Central e da índia. Para ocidente, o Império Bizantino ainda não tinha sido derrubado, mas já fora despojado de grande parte dos seus territórios. As então províncias cristãs da Síria, Palestina, Egipto e Norte de África foram absorvidas e em devido tempo islamizadas e arabizadas, e serviram de bases para a sequente invasão da Europa e conquista da Espanha e de Portugal, e de grande parte do sul de Itália. Em inícios do século VIII, os exércitos árabes vitoriosos atravessavam os Pirenéus, penetrando em França. Após vários séculos de vitórias quase ininterruptas, a jihad foi finalmente detida e repelida pela Europa cristã. No Oriente, os Bizantinos resistiram na grande cidade cristã de Constantinopla, repelindo uma série de ataques árabes. No Ocidente teve início o longo 51 e moroso processo conhecido na história de Espanha como «a Reconquista», que por fim levou à expulsão dos muçulmanos dos territórios que tinham conquistado em Itália e na Península Ibérica. Foi igualmente empreendida uma tentativa de levar a Reconquista até ao Médio Oriente, a fim de recuperar a terra onde Cristo nasceu, conquistada pelos muçulmanos no século VII. Essa tentativa, conhecida por Cruzadas, falhou completamente, e os cruzados foram repelidos em fuga desordenada. Mas a jihad não tinha terminado. Uma nova fase foi iniciada, desta vez não por Árabes mas por mais recentes convertidos ao Islão, os Turcos e os Tártaros. Estes conseguiram conquistar a Anatólia, até ali terra cristã, e em Maio de 1453 tomaram Constantinopla, que a partir de então passou a ser a capital dos sultães otomanos, sucessores do antigo califado na liderança da jihad islâmica. Os Otomanos nos Balcãs e os Tártaros islamizados na Rússia renovaram a tentativa de conquistar a Europa, desta vez a partir do Leste, e durante um certo tempo pareceu que o sucesso estava à vista. Mas uma vez mais a Europa cristã conseguiu expulsar os invasores, e de novo, desta vez com mais sucesso, contra-atacou os domínios do Islão. Por esta altura a jihad tinha-se tornado quase unicamente defensiva - resistindo à Reconquista em Espanha e na Rússia e aos movimentos de libertação nacional dos súbditos cristãos do Império Otomano, e por fim, segundo o ponto de vista dos muçulmanos, defendendo o coração das terras do Islão do ataque dos infiéis. Esta fase veio a ser conhecida por imperialismo. Mesmo neste período de retirada, a jihad ofensiva não foi de modo nenhum abandonada. Já em 1896, os Afegãos invadiram a região montanhosa do Hindukush, que fica actualmente no Nordeste do Afeganistão. Até essa altura os seus habitantes não eram muçulmanos e por isso a região era conhecida pelos muçulmanos como «Kafiristão» - «Terra dos Infiéis».
  25. 25. Depois da conquista afegã passou a ser chamada «Nuristão» - «Terra da Luz». Durante o mesmo período, diversos géneros de jihads foram levados a cabo em África, contra populações não-muçulmanas. Mas na sua maioria, o conceito, a prática e a experiência da jihad no mundo islâmico moderno têm sido esmagadoramente defensivos. O uso predominantemente militar do vocábulo manteve-se até tempos relativamente recentes. No Império Otomano a cidade de 52 Belgrado, base avançada da guerra contra os Austríacos, recebeu o título condizente de Dar al-Jihâd (Casa da Jihad). No início do século XIX, quando o líder modernizador do Egipto, Muhammad ’Ali Pasha, reformou as forças armadas e a respectiva administração segundo os modelos francês e inglês, criou um «departamento da guerra» para as administrar. Em árabe era conhecido por Conselho de Estado dos Assuntos da Jihad (Diwân al-Jihâdiyya), e o seu chefe por supervisor dos assuntos da jihad (Nâzir al-Jihâdiyya). Poderíamos citar outros exemplos em que a palavra jihad perdeu o sentido sagrado e conservou apenas a conotação militar. Nos tempos actuais tanto o uso militar do vocábulo como o uso moral foram recuperados, e são entendidos e aplicados de modos diferentes por grupos diferentes de pessoas. Organizações que nos nossos dias reclamam o nome de jihad na Caxemira, na Tchetchénia, na Palestina e por toda a parte, é evidente que não usam a palavra para designar luta moral. A jihad é por vezes apresentada pelos muçulmanos como o equivalente à Cruzada, e as duas são vistas como sendo mais ou menos equivalentes. Num certo sentido isto é verdade: ambas foram proclamadas e empreendidas como guerras santas, em nome da fé verdadeira contra um inimigo infiel. Mas há uma diferença. A Cruzada é um desenvolvimento tardio na história cristã e, de certo modo, marca um afastamento radical dos valores cristãos básicos conforme expressos nos Evangelhos. A cristandade estivera sujeita a ataques desde o século VII e tinha perdido vastos territórios para o domínio muçulmano; o conceito de guerra santa ou, mais comummente, guerra justa, era familiar desde a Antiguidade. Mas na longa guerra entre o Islão e a cristandade, a Cruzada foi tardia, limitada, e de duração relativamente curta. A jihad está presente desde o início da história islâmica - nas escrituras, na vida do Profeta, e nas acções dos seus companheiros e sucessores imediatos. Continuou ao longo da história do Islão e conserva o seu fascínio até aos nossos dias. A palavra «cruzada» deriva como é evidente da cruz e, originalmente, designava uma guerra santa para o cristianismo. Mas no mundo cristão há muito tempo que ela perdeu esse significado, e é usada com o sentido genérico de uma campanha moralmente impulsionada por uma boa causa. Pode-se empreender uma cruzada pelo ambiente, pela água pura, por melhores serviços sociais, pelos direitos da mulher, 53 e por uma série interminável de outras causas. O único contexto em que a palavra «cruzada» hoje em dia não é usada é precisamente o contexto religioso original. A palavra «jihad» também é usada numa diversidade de sentidos, mas ao contrário de «cruzada» conservou o seu significado original e primário. Aqueles que perdem a vida na. jihad chamam-se mártires, shahid em árabe e noutras línguas muçulmanas. A palavra portuguesa «mártir» vem do grego mártyr, «testemunha»,
  26. 26. pelo latim eclesiástico mãrtyre, e no uso judaico-cristão designa aquele que está pronto a sofrer a tortura e a morte para não renegar a sua fé. O seu martírio é pois um testemunho ou prova dessa fé, e da sua prontidão para sofrer e morrer por ela. O vocábulo árabe shahid também significa «testemunha» e é normalmente traduzido por «mártir», mas tem uma conotação bastante diferente. No uso islâmico o vocábulo «martírio» é normalmente interpretado como significando a morte numa jihad, e a sua recompensa é a felicidade eterna, descrita com algum pormenor em textos religiosos antigos. O suicídio, pelo contrário, é um pecado mortal e merece a condenação eterna, mesmo para aqueles que sem ele teriam um lugar assegurado no paraíso. Os juristas clássicos distinguem claramente entre enfrentar a morte certa às mãos do inimigo e pôr fim à vida com as próprias mãos. A primeira conduz ao céu, a segunda ao inferno. Alguns juristas fundamentalistas recentes, e alguns outros, esbateram ou descartaram mesmo essa distinção, mas o seu critério está longe de ser unanimemente aceite. O bombista suicida corre, pois, um risco considerável devido a uma subtileza teológica. Como a guerra santa é uma obrigação religiosa, encontra-se cuidadosamente regulamentada na shari’a. Os combatentes de uma. jihad estão proibidos de matar mulheres, crianças e idosos, excepto se eles atacarem primeiro, de torturar ou mutilar prisioneiros, e são obrigados a dar aviso claro do recomeço das hostilidades a seguir a uma trégua e a honrar os acordos. Os juristas e teólogos medievais discutem até certo ponto as regras da guerra, incluindo questões como quais as armas que são permitidas e quais as que o não são. Há mesmo um certo debate nos textos medievais acerca da legalidade dos mísseis e da guerra química, no primeiro caso referindo-se a manganelas e catapultas, e no segundo a flechas com as pontas envenenadas e ao envenenamento das reservas de água do inimigo. 54 Sobre estas questões há uma considerável variação. Alguns juristas permitem, outros colocam restrições e outros desaprovam o uso dessas armas. A razão apontada para a sua preocupação é o número indiscriminado de vítimas que elas provocam. Em nenhum ponto os textos básicos do Islão prescrevem o terrorismo e o assassínio. Em nenhum ponto - que eu saiba - ponderam sequer a matança indiscriminada de espectadores não implicados. Os juristas insistem em que os despojos de guerra devem ser um benefício acidental e não um objectivo principal. Alguns vão ao ponto de dizer que se eles se tornarem o objectivo principal, isso invalida a jihad e anula os seus benefícios, se não neste mundo, no outro. Ajihad, para ter alguma validade, deve ser empreendida «na senda de Deus», e não pelo interesse no ganho material. Contudo, há queixas frequentes acerca do mau uso que é feito do nome honroso da jihad para fins desonrosos. Principalmente os juristas africanos lamentam o uso que é feito do termo jihad por captores de escravos para justificar as suas pilhagens e afirmar a posse legal das suas vítimas. A Lei Santa ordena que seja dado bom tratamento aos não-combatentes, mas confere aos vencedores amplos direitos sobre os bens e também sobre as pessoas e os familiares dos vencidos. De acordo com o costume universal da Antiguidade, os inimigos capturados na guerra eram escravizados juntamente com as suas famílias, e podiam ser vendidos ou conservados pelos seus captores para uso pessoal. O Islão trouxe uma alteração a esta regra, limitando o direito de escravizar àqueles que eram capturados numa Jihad, mas não em qualquer outra forma de guerra. As regras para a guerra contra os apóstatas são um tanto diferentes e bastante mais rigorosas do que as da guerra contra os não-crentes. O apóstata ou renegado, aos olhos dos
  27. 27. muçulmanos, é de longe pior do que o não-crente. O não-crente ainda não viu a luz, e há sempre a esperança de que eventualmente venha a vê-la. Entretanto, desde que preencha as condições necessárias poderá beneficiar da tolerância do estado muçulmano e ser autorizado a continuar a praticar a sua religião, e até a cumprir as leis da sua própria religião. O renegado é alguém que conheceu a verdadeira fé, ainda que por breve tempo, e a abandonou. Para esta ofensa não existe perdão humano e, de acordo com a esmagadora maioria dos juristas, o renegado deve ser condenado à morte - isto é, se for homem. Para 55 as mulheres, uma pena mais leve de açoitamento e prisão pode bastar. Deus, na sua misericórdia, pode perdoar ao renegado no outro mundo, se assim decidir. Mas nenhum humano tem autoridade para o fazer. Esta distinção é de certa importância hoje em dia, em que os líderes militantes proclamaram uma jihad dupla: contra os infiéis estrangeiros e contra os apóstatas domésticos. A maioria, se não a totalidade, dos líderes muçulmanos que nós, no Ocidente, consideramos com prazer nossos amigos e aliados, são vistos como traidores ou, pior ainda, como apóstatas pela maioria ou a quase totalidade do seu próprio povo. Desde tempos remotos, foi feita uma distinção legal entre os territórios adquiridos pela força (’anwatan em árabe, equivalente à expressão jurídica romana vi et armis) e os adquiridos por sulhan, isto é, por qualquer tipo de tréguas ou de rendição pacífica. As regras relativas ao saque e, de modo mais geral, ao tratamento a dar à população dos territórios acabados de obter, diferiam em alguns aspectos importantes. Segundo a tradição, a diferença era simbolizada na mesquita todas as sextas-feiras. Nos territórios tomados por ’anwatan, o pregador levava uma espada; nos que tinham sido tomados por sulhan, um cajado de madeira. A simbologia da espada continua a ser importante. Até aos dias de hoje, a bandeira saudita tem duas divisas sobre um campo verde. Uma delas é o texto árabe do credo muçulmano: «Não há nenhum Deus a não ser Deus, Maomé é o profeta de Deus». A outra é a representação inequívoca de uma espada. Em certas alturas, os juristas reconheceram uma categoria intermédia - a Casa das Tréguas {Dâr al-Sulh) ou Casa da Aliança {Dâr ai- ’Ahd) - entre as Casas da Guerra e do Islão. Era constituída por países não-muçulmanos, habitualmente cristãos, cujos líderes estabeleciam qualquer espécie de acordo com os líderes do Islão, mediante o qual pagavam um género de imposto ou tributo, visto como o equivalente ao jizya, ou imposto por cabeça, e conservavam uma grande capacidade de autonomia nos seus assuntos internos. Um dos primeiros exemplos foi o acordo feito pelos califas omíadas no século VII com os príncipes cristãos da Arménia. O exemplo clássico da Dâr al-Sulh, ou Casa das Tréguas, foi o pacto acordado em 652 d.C. com os líderes cristãos da Núbia, segundo o qual estes não pagavam o imposto por cabeça mas prestavam um tributo anual 56 constituído por um número específico de escravos. Ao decidirem ver as ofertas como tributo, os líderes muçulmanos e os seus conselheiros legais podiam adaptar a lei de modo a cobrir uma grande variedade de relações políticas, militares e comerciais com governos não-muçulmanos. Esta abordagem não desapareceu por completo.
  28. 28. Os muçulmanos souberam, desde muito cedo, que havia certas diferenças entre os povos da Casa da Guerra. Na sua maioria eram simplesmente politeístas e idólatras que não representavam uma ameaça séria para o Islão e eram prováveis candidatos à conversão. Encontravam-se essencialmente na Ásia e em África. A principal excepção eram os cristãos, que os muçulmanos reconheciam que tinham uma religião do mesmo género da sua, e eram portanto os seus maiores rivais na luta pelo domínio do mundo - ou, como eles o diriam, pela iluminação do mundo. O cristianismo e o Islão são duas civilizações definidas pela religião, que entraram em conflito não devido às suas diferenças mas sim às suas semelhanças. O mais antigo edifício religioso muçulmano existente fora da Arábia, a Cúpula da Rocha, em Jerusalém, foi terminado em 691 ou 692 d.C. A construção deste monumento no lugar do antigo templo judaico, e no mesmo estilo e na proximidade de monumentos cristãos como o Santo Sepulcro e a Igreja da Ascensão, enviou uma mensagem clara aos judeus, e, mais importante ainda, aos cristãos. As suas revelações, apesar de autênticas em tempos passados, tinham sido corrompidas pelos seus indignos guardiães e eram por isso substituídas pela revelação final e perfeita contida no Islão. Tal como os judeus tinham sido derrotados e substituídos pelos cristãos, também a ordem do mundo cristão passava agora a ser substituída pela fé muçulmana e pelo califado islâmico. Para realçar esse ponto de vista, as inscrições corânicas feitas na Cúpula da Rocha denunciam aquilo que os muçulmanos consideram os erros principais dos cristãos: «Louvado seja Deus, que não gerou nenhum filho e não tem qualquer parceiro» e «Ele é Deus, uno e eterno. Não gera, não foi gerado, e não tem par» (Corão, CXII). Isto era claramente um desafio aos seguidores de Cristo no seu lugar de nascimento. 57 Um milénio depois, o estacionamento de tropas americanas na Arábia foi visto por muitos muçulmanos e em especial por Osama bin Laden como um desafio semelhante, desta vez feito pelos cristãos ao Islão. Para realçar este primeiro desafio à cristandade, o califa, pela primeira vez, cunhou moedas de ouro, prerrogativa sua e da Roma imperial. É significativo que o nome da primeira moeda de ouro islâmica, o dinâr, seja copiado do denarius romano. Algumas dessas moedas ostentam o nome do califa, o seu título de «Comandante dos Fiéis», e os mesmos versículos polémicos. A mensagem era clara. No entendimento dos muçulmanos, os judeus e mais tarde os cristãos tinham-se extraviado e seguido falsas doutrinas. Por conseguinte, ambas as religiões foram invalidadas e substituídas pelo Islão, a revelação final e perfeita na sequência estabelecida por Deus. Os versículos corânicos citados na Cúpula e nas moedas de ouro condenam aquilo que para os muçulmanos é a pior das corrupções da verdadeira fé. É evidente que há ainda uma mensagem adicional do califa para o imperador: «A tua fé é corrupta, o teu tempo acabou. Eu agora sou o líder do império de Deus na terra». A mensagem foi bem entendida, e a cunhagem das moedas de ouro foi vista pelo imperador como um casus belli. Durante mais de mil anos os califas do Islão empreenderam a sua luta desde as sucessivas capitais, Medina, Damasco, Bagdad, Cairo e Istambul, contra os imperadores cristãos em Constantinopla, Viena, e mais tarde, usando outros títulos, em países mais distantes e mais para ocidente. Cada um deles, a seu tempo, foi o alvo principal da jihad. É claro que na prática a aplicação da doutrina da jihad nem sempre foi rigorosa ou violenta.
  29. 29. O estado de guerra canonicamente obrigatório podia ser interrompido por aquilo que era legalmente designado por tréguas, mas que pouco diferia dos chamados tratados de paz que as potências europeias em guerra assinavam umas com as outras. Tais tréguas eram feitas pelo Profeta com os seus inimigos pagãos, e tornaram-se a base daquilo a que poderíamos chamar lei internacional islâmica. De acordo com a shari’a, a tolerância em relação às religiões com base em revelações divinas prévias não era um mérito mas sim um dever (Corão, II, 245: «Em religião não há coacção»). Nas terras sob domínio muçulmano, a lei islâmica exigia que judeus e cristãos fossem autorizados a praticar as suas religiões 58 e a administrar os seus negócios, ficando sujeitos a alguns inconvenientes, o mais importante dos quais era um imposto por cabeça a que eram obrigados todos os adultos do sexo masculino. Esse imposto, chamado jizya, está especificado no Corão em IX, 29: «Lutai contra aqueles que não acreditam em Deus ou no dia final, que não proíbem aquilo que Deus e o Seu apóstolo declararam ser proibido, que não praticam a religião da verdade, mesmo que sejam os povos do Livro [isto é, judeus e cristãos], enquanto eles não pagarem a jizya, directa e humildemente». As últimas palavras têm sido interpretadas de várias maneiras, tanto em literatura como na prática. Outros inconvenientes incluíam o uso de trajes ou distintivos que os diferenciassem, e a proibição de usar armas, montar a cavalo, possuir escravos muçulmanos ou exceder a altura dos edifícios muçulmanos. Com excepção dos dois últimos e da jizya, nunca foram rigorosamente cumpridos. Em compensação, os súbditos não-muçulmanos tolerados no estado muçulmano gozavam de uma larga margem de autonomia na administração dos assuntos internos da comunidade, incluindo educação, impostos, e o cumprimento das suas próprias leis de direitos individuais, nomeadamente o casamento, o divórcio e a herança. O pacto ou contrato entre o estado muçulmano e uma comunidade de súbditos não- muçulmanos chamava-se dhimma, e aos membros dessas comunidades toleradas chamava- se dhimmis. Em linguagem moderna, os judeus e os cristãos no estado islâmico clássico eram aquilo a que poderíamos chamar cidadãos de segunda classe, mas a cidadania de segunda classe, estabelecida de acordo com a lei e a revelação, e reconhecida pela opinião pública, era de longe melhor do que a ausência total de cidadania que era o destino dos não- cristãos e até de alguns cristãos com comportamentos anómalos no Ocidente. A jihad também não impediu os governos muçulmanos de procurarem ocasionalmente aliados cristãos contra os seus adversários muçulmanos, mesmo durante as Cruzadas. III Dos Cruzados aos Imperialistas As Cruzadas ocupam lugar de grande destaque na consciência e no discurso do moderno Médio Oriente, tanto da parte dos nacionalistas árabes como dos fundamentalistas islâmicos, especialmente de Osama bin Laden. Não foi sempre assim. A tomada de Jerusalém pelos cruzados em 1099 d.C. foi um triunfo para a cristandade e um desastre para os muçulmanos e também para os judeus da cidade. A julgar pela historiografia árabe dessa época, despertou pouco interesse na região. Os pedidos de ajuda dos muçulmanos locais a Damasco e Bagdad ficaram sem resposta, e os principados recém- criados pelos cruzados desde Antióquia a Jerusalém depressa se inseriram no jogo político

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