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RELENDO MACAHÉ - UMA MACAENSE NAS GARRAS DA INQUISIÇÃO

  1. 1. ABELARDA LÓPEZ:UMA MACAENSEPERSEGUIDA PELA INQUISIÇÃO (1570 - ?) Coordenadoria de Ensino Coordenação de História Secretaria Municipal de Educação Prefeitura Municipal de Macaé 2011
  2. 2. RELENDO MACAHÉ Glossário:1. RELENDO MACAHÉ2. Artigos sobre a Inquisição3. Abelarda López: Uma Macaense perseguida pela Inquisição4. Bibliografia www.coordenacaodehistoria.blospot.com 2
  3. 3. RELENDO MACAHÉ 1. RELENDO MACAHÉ Neste terceiro RELENDO MACAHÉ ainda viajaremos pelas citaçõesfeitas ao município no século XVI. Neste caso especificamente não nosprendemos a um livro ou autor de livro, nem as descrições típicas daLiteratura de Informação. Conheceremos o caso de uma macaense,Abelarda López, “nascida na Foz do Miquié”, residente em Portugal evítima da Inquisição naquele país. O caso nos foi revelado no livro Macaé: Nossas Mulheres, NossasHistórias, lançado pela Secretaria de Acervo e Patrimônio Histórico daPrefeitura Municipal de Macaé em 2006, organizado pelos renomadospesquisadores Vilcson Gavinho e Larissa Frossard. Recomendamos principalmente ao leitor/professor não inserido nomomento histórico que leia a contextualização feita no RELENDO MACAHÉnúmero um (VIAGEM À TERRA DO BRASIL), complementando-a com asegunda parte deste trabalho, onde dois textos sobre a Inquisição foramacrescentados. Esperamos que o professor não só se informe, não só saiba que umamacaense foi vítima dos conturbados tempos em que agia a Inquisição,como também, utilize tal material no combate a todo tipo de intolerância. Marcelo Abreu Gomes Coordenação www.coordenacaodehistoria.blospot.com 3
  4. 4. RELENDO MACAHÉ 2. A Inquisição Com o intuito de embasar o professor/leitor sobre o tema Inquisição,principalmente o professor não formado em História, recomendamos a leitura dos doistextos abaixo, o primeiro, mais encorpado, tratando de mentalidades, mais rico emdetalhes sobre o processo e a tortura, do historiador Jan Duarte, músico, arranjador,mestre e doutorando em História Social e Cultural pela Universidade de Brasília. Osegundo, mais popular, publicado na revista Ciência Hoje, pelo jornalista Saulo Pereirade Guimarães, sobre o trabalho da historiadora Daniela Bruno Caladinho, da Faculdadede Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, estudou avida de prisioneiros nos cárceres do Tribunal do Santo Ofício português. 3.1 Bruxas, santas e inquisidoresPor Jan Duarte Quando nos debruçamos sobre a relação entre acusadas de feitiçaria e os inquisidoresque conduziram seus processos, muitas vezes nos deparamos com a seguinte pergunta: de queforma os julgamentos de pessoas evidentemente inocentes dos crimes a elas atribuídospuderam produzir relatos e confissões, que não apenas lhes imputavam a culpa, masigualmente confirmavam o imaginário (teológico e popular) a respeito da bruxaria? Um dos argumentos constantemente utilizados para responder essa pergunta vemsendo o da tortura. Segundo esse argumento, uma vez que uma grande parte das confissõesfoi obtida sob tortura – e com requintes de crueldade – as acusadas confessavam qualquercoisa que as livrasse de novos suplícios, sendo que a execução – quase inevitável após aconfissão – seria considerada por elas como um alívio para os seus sofrimentos. Esse componente não pode ser desprezado, em especial em julgamentos ocorridos naAlemanha, França, Itália, Portugal e Espanha, onde o uso da tortura era disseminado, mas doiscontra-argumentos precisam ser levados em consideração: em processos ingleses e norte-americanos (como no caso de Salem, Massachussets, em 1692), nos quais não se recorriaostensivamente à tortura para a obtenção de confissões, surge o mesmo tipo de depoimentodas acusadas, que não apenas confirma a acusação, mas igualmente se enquadra no discursoteológico dos inquisidores. Além disso, existe uma característica comum nos processos debruxaria: confissões extraídas após uma sessão de tortura eram, posteriormente, negadaspelas acusadas, que obstinavam-se em dizer que falaram tais coisas pelo temor de novossuplícios. Entre o “confessar sob tortura”, pura e simplesmente, e a assimilação de uma culpadentro de moldes precisos, ajustados ao dizer dos teólogos, existia, portanto um lapsotemporal no qual afirmações e negativas se sucediam. Depreende-se dessa maneira aexistência de um processo pelo qual as negativas gradualmente eram anuladas. Outro argumento normalmente utilizado – e que não difere grandemente do anterior –é que as acusadas de feitiçaria, em suas confissões, apenas repetiam o discurso teológico 4
  5. 5. RELENDO MACAHÉcorrente, uma vez que a confissão espontânea, algumas vezes, evitava a pena de morte. Ouseja: a bruxa confessava aquilo que o inquisidor queria ouvir na esperança de, com isso,poupar a própria vida. Esse argumento, embora me pareça mais próximo daquilo que se podeefetivamente apurar, falha por estabelecer uma relação causal demasiado simplista. Sem dúvida, muitas acusadas confessavam por saber que a confissão poderia evitar apena capital. Essas confissões, indubitavelmente, acabavam por enquadrar-se, em umdeterminado momento, no discurso teológico. Mas existe nos processos, quase sem exceção,um intervalo de tempo entre as primeiras confissões (mesmo naquelas obtidas sob tortura) eaquelas que, finalmente, registravam coerência com aquilo que os compêndioscontemporâneos sobre bruxaria pontificavam. Era nesse intervalo que a mudança do discursose processava e que a suposta bruxa deixava de falar a “sua língua”, passando a falar a “línguado inquisidor”. Para deixar mais claro essa mudança de discurso, consideremos o seguinte: a grandemaioria dos processos de bruxaria tem uma dinâmica característica. Suas diferenças, por maisprofundas que sejam sob o aspecto regional, não tornam impossível traçar linhas gerais quetipifiquem o “processo de bruxaria” por excelência. Pude vislumbrar essas característicaspersistentes ao examinar os julgamentos de Salem, Massachussets, em 1692, e Carlo Ginzburgnos dá um exemplo modelar ao referir-se ao julgamento de Chiara Signorini, em Modena, emprincípios do século XVI2. A acusação de bruxaria surgia, sempre, a partir de um suposto malefício: este podia sera doença repentina de uma pessoa ou de animais domésticos ou, em casos menos comuns,problemas causados à plantação ou ainda ao próprio clima. Denúncias relativas às “provasespectrais” três ou à participação da acusada em sabás, etc., costumavam ser sempreposteriores e em corroboração às denúncias iniciais: em Salem, as denúncias surgiram a partirda doença inexplicável das meninas “aflitas”, iniciando-se pela família Parris. Em Modena, apartir da doença de Margherita Pazzani. Em Boston, em 1688, são as filhas de John Goodwinque adoecem e levam a julgamento Mary Glover. A acusada era tipicamente alguém do convívio daquele que foi afligido ouprejudicado. De uma forma geral, um subordinado direto, alguém em posição social inferiorou, ainda, alguém que, mesmo em posição de destaque na comunidade, tinha incorrido na iraou em situação de disputa com o acusador. Chiara Signorini era ex-colona de MargheritaPazzani. Tituba, a grande catalisadora dos eventos de Salem, era escrava dos Parris. A própriafamília Parris, embora influente, tinha disputas importantes com outras famílias da região.Quando as acusações chegavam ao ponto de generalizar-se, ocasionando um verdadeiroepisódio de caça às bruxas, os alvos preferenciais eram pessoas que não se enquadravam aoquadro social vigente: beberrões, solteirões ou viúvas amargas e maledicentes, curandeiras eblasfemos. Foi o caso, em Salem, de Sarah Good, mendiga semi-louca que se transformou emalvo preferencial por seu comportamento anti-social. Foi também o caso de inúmeros judeus ecristãos-novos – desprezando-se, obviamente causas e interesses escusos diversos – queforam entregues pelos seus vizinhos à Inquisição. A acusação, obviamente, era sempre a mesma: tais pessoas seriam as causadoras dosinfortúnios, graças às suas artes mágicas. E é justamente aqui que começa a se estabelecer adiferença: a acusação inicial baseia-se na crença popular de que determinadas pessoas, porserem como são, ou por terem aprendido de “outras como elas” determinadas artes, podemcausar o malefício. Já a acusação formal sempre atribui essa capacidade ao pacto demoníaco enão a um poder pessoal inato ou aprendido de forma tradicional. A distância entre o universomental do acusador e do acusado e aquele universo mental específico dos inquisidores, se 5
  6. 6. RELENDO MACAHÉevidencia justamente nessa fase inicial. A partir daí, inicia-se um processo em que osinquisidores, à revelia de acusadores e acusados, buscarão de todas as formas enquadrar estesúltimos num esquema de pensamento pré-estabelecido – marcado pela figura do pacto, dosabá, da anti-religião – que é estranho, via de regra, tanto aos acusados quanto a seusacusadores. Ginzburg afirma que a resignificação das confissões das acusadas de feitiçaria porparte do inquisidor, fazendo com que elas se adequassem ao discurso teológico e, dessaforma, se enquadrassem às exigências legais que permitiriam a condenação, somente erapossível devido à peculiaridade das crenças das acusadas4. Quando Chiara Signorini admitiuter causado o malefício contra Margherita Pazzani, ela inicialmente alegou tê-lo feito porintermédio de Nossa Senhora, para depois, sob influência do inquisidor, dizer que fora o diaboo seu auxiliar. Para Ginzburg, Nossa Senhora e o diabo são simplesmente representaçõesdistintas de uma mesma divindade popular: uma divindade que vem em auxílio dos excluídos,para vingá-los ou propiciá-los, e justamente por isso é possível com alguma facilidadetransformar uma imagem (N. Senhora) na outra (o diabo). Creio estar sobejamente demonstrada essa particularidade da religiosidade popular,em especial no Medievo e princípios da Idade Moderna, que mistura figuras “sagradas” afiguras “demoníacas” com propósitos práticos. Isto não apenas na obra do próprio Ginzburg,como em diversos outros estudos sobre bruxaria. Laura de Mello e Souza, por exemplo, aodiscorrer sobre as visitações do Santo Ofício ao Brasil, nos dá diversos exemplos de orações econjuros onde os nomes de Cristo, da Virgem Maria e de santos misturam-se, numa mesmafrase, aos de Satanás, Lúcifer e outras potestades infernais5. Porém, julgo que essacaracterística dúbia e decididamente pragmática da religiosidade popular (especialmentecamponesa), não basta para explicar toda e qualquer apropriação do discurso da feiticeira porparte do inquisidor e seu ajustamento ao discurso teológico. Existem inúmeros registros de curas miraculosas ou sobrenaturais, ou mesmo devinganças sobrenaturais – aparições da Virgem, “conversas” com santos, visões e vozesespectrais que se fazem ouvir, êxtase e prostração – que não resultaram em acusações defeitiçaria. Muito pelo contrário, foram exatamente esses elementos e alegações, feitaspublicamente e com a corroboração de diversas testemunhas, que levaram à canonização deinúmeros santos! Qual era, então, a diferença entre a santa e a bruxa? Por que o discurso,igualmente baseado nas crendices e na religiosidade popular da primeira, não era demonizadopela Igreja, ao passo que o da segunda era? Ou melhor: por que o discurso da santa, ao serresignificado – pois ele obviamente também o era – transformava-se na prova do seu contatodireto com a graça divina, ao passo que o da bruxa atestava seu contato direto com odemônio? Arrisco aqui uma hipótese que, embora já tenha sido aventada – mesmo que emoutros moldes – por autores como Michelet e Palou (para citar apenas dois), merece maiorestudo e atenção: a diferença entre a bruxa e a santa residia na condição prévia de exclusãosocial da primeira. Em princípio, tanto a “santa” quanto a “bruxa” eram de alguma forma, acusadas: umado milagre e a outra do malefício. Ambas, cada qual à sua maneira confessavam diante doinquisidor ou de seus iguais aquilo que supunham ter vivenciado, visto ou praticado, usando oseu próprio conjunto de símbolos, conjunto este inserido plenamente na cultura daquela queconfessava. Ou seja: descreviam, perante seus pares ou perante o inquisidor, a experiênciapela qual supunham ter passado, usando a sua própria linguagem, reflexo do extrato social naqual estavam inseridas. O material que se apresentava frente ao inquisidor, para ser avaliado e 6
  7. 7. RELENDO MACAHÉtraduzido em termos da cultura teológica, era em ambos os casos o acontecimento defenômenos “extraordinários” ou o contato com seres “sobrenaturais”, descrito em termos dacultura comum, ou “popular”. Essa tradução, no entanto, ao ser feita não o era de formainocente: ela carregava o peso da condição social da visionária, que determinava seuencaminhamento à beatitude ou ao cadafalso. Como exemplo, vejamos o caso de Vincenza Pasini, esposa de mestre Francesco deGiovanni de Montemezzo, idosos proprietários de terras no século XV, na cidade de Vicenza,norte da Itália, não muito distante da Modena de Chiara Signorini, citada por Ginzburg.Segundo registros da época, a Sra. Vincenza levava uma vida simples e honesta, devotada aoSenhor e a Sua Mãe Santíssima, pela qual alimentava uma devoção excepcional: seus diaseram ritmados por muita oração e boas obras; sua freqüência à igreja e às celebraçõeslitúrgicas, e em especial sua caridade para com todos, faziam dela uma verdadeira cristã. Em duas ocasiões, 1426 e 1428, com a cidade assolada há anos pela peste, DonaVicenza teve visões da Virgem Maria, que ameaçava com a continuidade da doença a não serque se providenciasse a construção de uma igreja em sua homenagem. No mesmo ano de1428, a construção foi iniciada e, até hoje, o Santuário de Nossa Senhora do Monte Bericorecebe, todo primeiro domingo do mês, mais de 30 mil peregrinos. Quais as diferenças existentes entre as visões da Virgem de Vincenza Pasini, quelevaram à construção de uma monumental basílica, e aquelas de Chiara Signorini, que aenviaram para a prisão perpétua? Ambas se encaixam no protótipo da “divindade popular”,que ameaça, pune e agracia, conforme a vontade, necessidade ou súplica de sua interlocutora. No entanto, longe de serem reconhecidamente uma devota e dedicada esposa de umvelho proprietário de terras, a exemplo de Vicenza e Mestre Francesco, Chiara e seu maridosão “dois camponeses malvistos, temidos pelos patrões, constantemente despedidos, que sevingam das injustiças de que são vítimas”. Sendo ambas levadas frente à Inquisição, suascondições sociais e a imagem que delas se fazia as precediam. No caso da pia Vicenza, pouco importava que sua aparição impusesse a construção deuma basílica em sua homenagem, com todo o sofrimento e privações que isso pudesseacarretar, sob a pena da desgraça de toda a comunidade. Aquela que impunha que seprostrassem aos seus pés e a adorassem havia de ser a Virgem Maria. Para a malvista Chiara,entretanto, o ser que exigia a sua adoração por algo muito pequeno (doença e desconfortopara a patroa injusta), não poderia ser a Virgem, mas única e exclusivamente o diabo.Não era, portanto, a qualidade ou a abrangência do fato sobrenatural que o levava a serreinterpretado pelos inquisidores de acordo com os manuais demonológicos da época. Era,sim, a necessidade dessa reinterpretação, conforme os fatores sociais preexistentes ao fato.Qualquer bruxa que fosse levada diante os tribunais eclesiásticos já era, irremediavelmente,bruxa. Da mesma forma, qualquer santa que fosse obrigada a prestar depoimento diantedesses tribunais já era, de antemão, santa. O processo inquisitorial apenas sancionava aquiloque a condição social da acusada já havia definido. Vistos por esse ângulo, os métodos inquisitoriais – ameaças, privação, tortura – nãopodem ser considerados (como foram alhures) formas de adequar a um discurso teológicocorrente as palavras de “inocentes” pagãos, curandeiros, supersticiosos ou belas mulheres queprovocavam ciúmes. Seriam, sim, a resposta teológica a um discurso popular, que precisavacondenar aqueles que já estavam previamente condenados pelos seus pares. -----x----- www.coordenacaodehistoria.blospot.com 7
  8. 8. RELENDO MACAHÉ 3.2 Memórias da inquisiçãoPor Saulo Pereira Guimarães Os descaminhos da fé levaram às trevas da inquisição. A instituição criada pela IgrejaCatólica condenou milhares de pessoas durante séculos em nome da intolerância religiosa.Desse período, restaram vestígios importantes para aqueles que desejam compreendermelhor o tema. Foi com base em alguns desses resquícios, mais precisamente em cartas, processos erelatórios, que a historiadora Daniela Buono Calainho, da Faculdade de Formação deProfessores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), estudou a vida de prisioneirosnos cárceres do Tribunal do Santo Ofício português. A partir de uma análise detalhada do material, consultando principalmente o ArquivoNacional da Torre do Tombo em Lisboa – que recentemente disponibilizou parte de seu acervoem formato digital – Calainho vem analisando o cotidiano dos presos – marcado por tortura,espionagem e más condições. Alguns relatos encontrados dão conta, por exemplo, do mau estado das cadeias.“Inquisidores se reportavam ao inquisidor-geral reclamando de problemas como vazamentode água e pedindo verbas para manutenção das prisões”, afirma a pesquisadora. Nesses ambientes deteriorados, a espionagem era constante. Os processos da épocaincluem descrições detalhadas do dia a dia dos presos feitas pelos chamados ‘familiares’,funcionários cujas responsabilidades incluíam buscar incorreções na rotina da prisão. “Existiam orifícios nas celas pelos quais eles vigiavam a vida dos encarcerados”, contaCalainho. Além disso, acrescenta, havia vigilância por parte dos próprios colegas presos.Segundo a historiadora, era comum que eles revelassem condutas inadequadas de seuscompanheiros, os quais eram por vezes torturados em sessões de inquirição. De rezas à morte na fogueira A tortura não era totalmente desmedida, lembra Calainho, sendo sempreacompanhada por médicos. “Eles eram responsáveis por resguardar a vida do torturado,medindo sua resistência”, afirma. Os médicos também cuidavam da liberação dos condenados a trabalhos forçados que,por razões físicas, ficavam incapacitados de seguir cumprindo a pena. Àqueles que não tinhama mesma sorte, restavam os veredictos implacáveis. Absolvições eram raras. “As condenações iam de penas espirituais, como orações, até amorte na fogueira”, afirma a historiadora, destacando que o segundo castigo era reservadoapenas aos hereges mais graves. A pena capital – a morte na fogueira – era executada ao final das procissões nas quaisos condenados desfilavam. Em Lisboa, os Autos da Fé, como eram chamados essas cerimônias,aconteciam na atual Praça do Comércio. No entanto, penas espirituais, cárcere perpétuo etrabalhos forçados eram sentenças mais comuns. Geralmente associada à Idade Média, a Inquisição foi criada em Roma em 1231 edepois controlada pelos frades dominicanos. Sua versão ibérica – objeto de pesquisa deCalainho – data do século 15. “Os tribunais ibéricos focavam na perseguição aos cristãos-novos, judeus convertidos ao cristianismo suspeitos de manterem suas antigas crenças”,descreve. 8
  9. 9. RELENDO MACAHÉ A historiadora pesquisa o tema desde o início da década de 1990, quando estava nomestrado, defendido na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na época, debruçou-se sobrea figura do ‘familiar’ na inquisição portuguesa. Já no doutorado, optou por outro enfoque: aperseguição à religiosidade africana pelos Tribunais do Santo Ofício lusitanos. Os trabalhos resultaram na publicação de dois livros: Os agentes da fé: Familiares daInquisição portuguesa no Brasil colonial (Edusp, 2006) e Metrópole das mandingas:religiosidade negra e Inquisição portuguesa no Antigo Regime (Garamond, 2008). Os próximosplanos incluem a publicação de outro livro com o material analisado sobre os cárceresinquisitoriais. www.coordenacaodehistoria.blospot.com 9
  10. 10. RELENDO MACAHÉ 3. Abelarda López: Uma Macaense perseguida pela Inquisição Abelarda Lopez nasceu por volta de 1570 na Foz do Miquié (Macaé),pertencente à Povoação de Santa Elena (Cabo Frio), em as terras do Brasil, filha deFulana de Tal – talvez uma nativa – e do reinol Lopo Ega Lopez. Desde os treze anos deidade, residia em Lisboa, reino de Portugal, com o rico mercador espanhol Juan daMesquita, esposo escolhido por seu pai. Viveu em um tempo de trevas onde oterrorismo imposto pela Inquisição, comandada pela Igreja Católica Romana,espalhava o medo como forma de doutrinar e controlar todos os passos dos cidadãos.Estabelecido em Portugal em 1536 durante o reinando de Dom João III por Bula doPapa Paulo III, o tribunal do santo Oficio reservava para mulheres que cometiam onefando crime de sodomia penas que iam desde penitências ocultas até açoites eDegredo para são Tomé e Angola. Abelarda foi denunciada ao tribunal por uma vizinhade nome Felipa Varella, parenta próxima do primeiro Inquisidor geral Dom Diogo daSilva. A delatora a acusava de praticar atos desonestos com a cunhada UrracaCarneira, desprezando o amor de homem. Relatou que testemunhara de corpo oculto(escondida) as acusadas unindo seus vasos dianteiros (vaginas); que contara oitodeleites (orgasmos) e que as duas trocavam muitas palavras de amores (carícias). Aacusação chegou a ser questionada por um integrante da mesa, baseado no conceitode que por não praticarem penetração, mulheres eram consideradas incapacitadaspara cometer Sodomia. Contudo as acusações podem ter sido, além de inverídicasmotivadas por interesses econômicos. Existem muitos indícios de irregularidades. Naocasião em que foi denunciada, seu esposo empreendia longa viagem de negócios,provavelmente ao Brasil. Feita uma devassa em seu domicílio e confiscadas muitaspeças de valor. Apesar de se declarar leiga das letras (analfabeta) a prova mestra doInquérito foi um livro de 1559, escrito pelo espanhol Jorge de monte Mayor, intituladoDiana. Esta obra que trata do romance entre duas mulheres, foi censurada pelo Índex– lista de obras proibidas pela Reforma Católica – sendo das mais citadas em autosinquisitórios da época. Foi, por exemplo, peça na acusação de Paula de Sequeira,residente em Salvador (BA). Para o professor Ronaldo Vainfas, titular do Departamentode História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor de textos importantessobre homoerotismo: “Falar dos amores femininos é, pois, falar também e muito daprópria Inquisição. É através dela que se pode rastrear a lesbos brasílica.” Atualmenteos Autos, ora em questão, encontram-se recolhidos na biblioteca do Vaticano einfelizmente teve muitas de suas folhas perdidas e algumas das restantes encontram-se bem dilaceradas. Foi instaurado no final do século XVI, sendo citado Dom Pedro de 10
  11. 11. RELENDO MACAHÉCastilho que ocupou os cargos de Inquisidor Geral, Presidente da Mesa doDesembargo do Paço e Vice Rei de Portugal. O Processo durou cerca de cinco anos, eAbelarda foi interrogada, torturada e admoestada com severidade em no mínimo oitoocasiões. O estado de conservação a fonte primária que documenta a triste existênciade Abelardo Lopez impede que se conheça o desfecho da história pessoal dessamacaense cujo nome junta-se ao outras “brasileiras” igualmente injustiçadas como:Felipa de Souza, Isabel Rodrigues, Luísa da Silva Soares, Margarida da Costa, Mariade Lucena, Marta Fernandes, Madalena Pimentel, Maria Lourenço, Mícia de Lemos eRosa Egipcíana da Vera Cruz. Foi preciso transcorrer quase meio milênio para que oPapa João Paulo II assinasse, em 2002, um documento com o pedido formal de perdãopelos erros cometidos a serviço da verdade por meio do uso de métodos que não têmrelação com a palavra do Senhor. Quantos crimes, fomentados por preconceitos eintolerâncias, ainda serão cometidos em nome de Deus? Pater nofter, qui es in coelis;fanctificeutar nomem tuum. [...] Sed libera nos à malo. Amen. (Vilcson Gavinho) www.coordenacaodehistoria.blospot.com 11
  12. 12. RELENDO MACAHÉ 6. BibliografiaCODICE [número ocultado], Auto 22. Acervo:L’Archivo Segreto Vaticano – Biblioteca Apostólicado Vaticano. Microfilme cedido pelo Cardeal Dom Eugênio Salles – Arcebispo Emérito do Riode Janeiro. Arquivo pessoal da doutora Heloísa Belloto, São Paulo, SP.CONSELHO Nacional de Combate à Discriminação. Brasil sem homofobia: Programa decombate à violência e à discriminação contra GLTB e promoção da cidadania homossexual.Brasília: Ministério da Saúde, 2004.FOUCAULT, M. Vigiar e punir. 7ª Ed. Petrópolis: Vozes, 1987.GINZBURG, Carlo. Feitiçaria e piedade popular in Mitos, Emblemas, Sinais. São Paulo: Cia. DasLetras, 1989.GINZBURG, Carlo. Feitiçaria e piedade popular in Mitos, Emblemas, Sinais. São Paulo: Cia. DasLetras, 1989.http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=1008MICHELET, Jules. A Feiticeira. São Paulo: Aquariana, 2003, e PALOU, Jean. A Feitiçaria. Rio deJaneiro: Jorge Zahar, 1988.MOTT, Luiz. O sexo proibido: virgens, gays e lésbicas nas garras da Inquisição. Campinas:Papirus, 1988.NOVINSKY, Anita. A Inquisição. São Paulo:Brasiliense, 2ª Ed. 2002.SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras,1986.SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras,1986.VAINFAS, Ronaldo. Moralidades brasílicas. In: Novais, F. A . (coord.). História da vida privada noBrasil. São Paulo: Companhia da Letras, 1997a, v. I, p. 221 – 273.VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio deJaneiro: Nova Fronteira, 1997b. www.coordenacaodehistoria.blospot.com 12
  13. 13. RELENDO MACAHÉ 13

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