A QUEM SE PROPONHA LER A ARCA DE NOÉ, III CLASSE ─ Aquilino Ribeiro
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O TERMO PLEBEU E O NEOLOGISMO
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Aquilino Ribeiro: "A quem se proponha ler a Arca de Noé, III classe"

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Posfácio de AR
Arca de Noé - III Classe
- 1ª ed. (Lisboa: Sá da Costa); 1936; 2ª ed. (Venda Nova: Bertand, 1976) ; 3ª ed. (Venda Nova: Bertand, 1989) -livro esgotado na editora

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Aquilino Ribeiro: "A quem se proponha ler a Arca de Noé, III classe"

  1. 1. A QUEM SE PROPONHA LER A ARCA DE NOÉ, III CLASSE ─ Aquilino Ribeiro 1 «A QUEM SE PROPONHA LER A ARCA DE NOÉ, III CLASSE - AQUILINO RIBEIRO LEITURAS PARA PEQUENOS E GRANDES As narrativas de que compõe a Arca de Noé III Classe foram escritas─ especialmente para as crianças. Mas também as podem ler as pessoas crescidas. Foi preocupação do autor não enjeitar nenhum dos seus leitores, prendendo-os pelo pitoresco, a linguagem simples mas portuguesa de lei, a interpretação lírica e dramática da vida animal. Da mesma maneira que o Romance da Raposa, esta obrinha pretende divertir uns e interessar outros. E o objectivo não nos pareceu impossível de atingir. Há planos em que, a despeito das distâncias grandes e pequenos se encontram. E um deles é este dum mundo primitivo e descuidado em que cada bicho representa o papel que lhe está no carácter ou é próprio, fala a nossa língua, reveste a figuração que lhe empresta o espírito de acordo com os hábitos e tendências que observamos neles. É guinhol, sim, mas com boa lógica humana. Os actores, sejam eles quais forem, não se movem por arbitrários cordéis. Nisto nos apartamos de mestre Esopo, de veneranda memória, e dos contistas da velha escola. Por exemplo: se um rato se representasse no nosso palco seria no sentido que mais lhe é peculiar: a sevandijice. Se fosse mosca, seria igualmente no que para nós, homens, a mosca tem de mais sensível, a sua imunda e importuna vivacidade. Em correspondência, um cão desempenhará papéis consentâneos com a sua índole, amigo, fiel, bravo, abnegado e perspicaz; o macaco desentranhar-se-á em momices e partes gagas. DIFERENCIAÇÃO IMPOSSÍVEL Como estes contos se destinam especialmente às crianças, poderá perguntar-se para que idade. Para todas – respondemos nós. Em verdade, nada mais extenso, psicologicamente mais extenso, nem mais variável do que a idade infantil. É tudo a multiplicar. Do mesmo modo que as casinhas de areia se transformam em castelos de mágica, os dias são longos sonhos e os anos séculos. Começa quando essa manhã de rosas? Aos quatro, cinco anos, e quando acaba? À roda dos onze, doze anos, e não acaba nunca no que a alma guarda em si do paraíso antes da queda dos nossos primeiros pais. Por isso mesmo as narrativas da Arca de Noé- III classe foram escritas não apenas para as crianças lerem, mas para lhes serem lidas. Da tarefa se hão-de encarregar os seus e é a eles, por consequência, que se dirigem as explicações seguintes: ao compor esta obrinha não era possível fazê-la tendo em vista uma escala literária em harmonia com o grau de desenvolvimento mental ou factor cronológico da criança. Seria agarrar sombras. O seguro, único seguro, foi estabelecer dentro desta obra uma ordem crescente de dificuldades. Assim, o primeiro episódio é incomparavelmente mais fácil de ler que o derradeiro, sem que por isso seja menos empolgante. Lêem-no sem dificuldade os nossos homenzinhos a partir dos oito anos, com leves emperros os de sete. Para menor idade, quem os houver de lhos ler parafraseie aqui e além; elimine uma vez ou outra certas palavras ou até frases. A tarefa nada tem de complicado. Suponhamos este período, o primeiro do episódio MESTRE GRILO CANTAVA E A GIGANTE DORMIA: “Era uma abóbora menina, muito redondinha, que saíra duma flor tão grande e tão linda que de longe parecia pela forma um cálice de oiro, o cálice por onde os senhores bispos costumam dizer missa, e pelo brilho
  2. 2. A QUEM SE PROPONHA LER A ARCA DE NOÉ, III CLASSE ─ Aquilino Ribeiro 2 estrela caída do céu.” Poderá simplifica-se assim: “Era uma vez uma abóbora, das que chamam meninas porque são redondas, redondinhas, quase umas bolas. Essa abóbora nasceu, como sucede a todos os frutos, da flor que deitou a aboboreira, flor amarela, a puxar para laranja, qua luzia ao longe como o oiro.” E ainda seria possível aproximar mais da imagem: “flor que parecia de longe estrelinha ou vaso de oiro.” SUBSTITUIÇÃO DE PALAVRAS MENOS COMUNS POR OUTRAS DO USO CORRENTE O leitor da cidade não é o mesmo da aldeia. O da cidade é mias sabido no que diz respeito à “vida civilizada”; o da aldeia no que diz respeito “à vida natural”. Aquele nunca viu uma giesta, ou se viu, não fez reparo. Provavelmente não sabe o que é a lura de um coelho. Este nunca viu um esquilo, a não ser pintado e deve fazer uma ideia muito imperfeita do que seja um orgão da Sé, um contador de água, para não ir mais longe. O escritor não pode atender a estas assimetrias, chamemos-lhes mentais. Quem for ler estes contos às crianças terá de fazer uma pequena operação, sempre que ao meio local não corresponda o vocabulário empregado: em Lisboa, onde encontrar lura do coelho leia casa do coelho, onde encontrar dançar o sarambeque leia dançar uma valsa ou simplesmente dançar, que para o efeito dá o mesmo; onde lande, bolota. Não custa nada, mas se quiserem poderão aproveitar para dar aos pequenos uma breve lição de linguagem. É preciso não levar longe a guerra contra o termo menos vulgar. Este pode converter-se em tema de curiosidade; pode penetrar-se a sua significação nada mais que pelo sentido; acabará, uma vez percebido, por fazer parte do cabedal de conhecimentos. Desta forma, pela literatura recreativa, se vai ilustrando o espírito da criança. Numa espécie de introdução ao primeiro episódio fez-se zoologia antediluviana. Zoologia da má, à margem da Bíblia, pretexto, mormente, para os pais contarem aos filhos a grande e extraordinária aventura do homem à superfície da Terra. Mas os meninos deixem essa página e sigam o grilo musiquinho, o coelho que perdeu o rabo, Joli, cão francês, o filho da Felícia, o homem como não havia segundo no mundo com mais sorte, o jumento ao qual por incompreensível mistério da mãe-natureza cresceu rabo tão grande que poderia servir para espanejar uma cidade como Tui; e o que é preciso é acharem-lhe graça. A EXPRESSÃO VERBAL OU FRASE MENOS INTELIGÍVEL Para a idade em que a expressão verbal é fraquinha e o léxico restrito, não admira que a leitura tenha os seus escolhos. Na Arca de Noé – III classe encontram-se formas vocabulares menos corriqueiras, como estas: sinal de ponderação, em amena filosofia, etc. O circunlóquio levaria longe. Não há dúvida que em vez de sinal de ponderação poderíamos ter escrito: prova de que pensa com acerto, ou espremendo mais o coalho: deu mostras de que pensa no que faz. Valeria a pena? Entre locução consagrada, embora com o seu complexo, e a definição, vamos por aquela. Um ou outro dos leitores poderá tropeçar em semelhantes saltos. Mas se não os vencer por impulso próprio, lá estão os pais para lhes dar a mão e não é necessário que tenham frequentado universidades.
  3. 3. A QUEM SE PROPONHA LER A ARCA DE NOÉ, III CLASSE ─ Aquilino Ribeiro 3 O TERMO PLEBEU E O NEOLOGISMO Também nesta obra surge, posto que de raro em raro, uma daquelas palavras que esperam à porta das academias para que as deixem entrar, quando não vão para o lazareto da língua. Uma linguagem viril e colorida, em aparência espontânea, como as ervas daninhas, vai inçando os idiomas europeus. Entra nas escolas pelo ginásio e pelo recreio e invade a classe. Na chamada boa sociedade é escalracho contra a voga do qual ninguém pretende lutar. Não é cómodo fugir-lhe e também nestes contos, em que sob o ar de fábula se intentou vincar certos aspectos da vida, não os evitámos de todo para não faltar ao respeito à realidade no que tem de mais actual e corrente. O macaco trocista diz para o elefante que não era para graças: estende a mangueira… Ouvimo-lo a um menino no Jardim Zoológico. Na narrativa do coelhinho pardo, os caçapos sem rabo eram muito giros. A palavra, qua anda nos lábios dos miúdos, descerra uma graça buliçosa que lhe há-de valer pergaminhos de lei. O cão que guarda a horta é pató de todo. Sendo bom, simplório, resmungão e forte, que outra coisa podia ser senão pató? MORALIZAR, SIM, MAS COM ARTE Além da censura ao léxico, há que aplicá-la neste género de literatura ao espírito do que se escreve. Impôs-se acima de tudo ser humano, lógico, formador de consciência sem o dar a perceber. A liçãozinha de moral tem sempre cabimento, mas com discreta parcimónia. Conta António Sérgio que numa nursery certa pintura representava os cristãos comidos pelas feras. ─ Coitado daquele leãozinho, que não tem um cristão para comer – exclamou um petiz ao notar que uma das feras se mostrava alheia ao banquete. NARRATIVAS DE QUE SE COMPÕE A ARCA DE NOÉ –III CLASSE São as seguintes as narrativas deste livro, dispostas segundo uma ordem de dificuldade crescente: 1º Mestre grilo cantava e a giganta dormia. 2º História do macaco trocista e do elefante que não era para graças. 3º História do colho pardinho que ficou sem rabo. 4º História de "Joli", cão francês, que boa caçada fez. 5º O filho da Felícia ou a inocência recompensada. 6º História do burro com rabo de légua e meia. AQUILINO RIBEIRO in ARCA DE NOÉ III CLASSE (Bertrand, 1989)

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