A História de Jip
Katherine Paterson
Katherine Paterson mora numa pequena cidade do Estado do Vermont.
Conhece bem a história da região, que tem estudado infat...

A minha vida começou na tarde de 7 de Junho de 1947, quando caí de uma
carroça que passava na West Hill Road e ninguém...
em direção do velho George e de Sheldon Morse. — Mas não fazemos mal a ninguém,
não é? Tem algum cabimento trazer-se um lo...
lamacentos, sem parar de gritar impropérios à sua pobre égua, que chicoteava
encarniçadamente. Os habitantes da quinta, re...
um tom cheio de respeito, enquanto se perguntava a si próprio como é que aquele
homem tão gordo não percebia que com o pes...
— És muito forte, é verdade. Não és lá muito esperto, mas forte, sim. Sem ti, de
certeza que eu não podia fazer nada. Só s...
pareceu sequer aperceber-se da presença deles. Discutia acesamente com o
responsável pela quinta, que não parecia nada de ...
que passava a grande velocidade. “Uma velocidade anormal”, tinham precisado
aqueles que a viram passar. E foi numa curva q...
dele... Imaginemos um casal com seis filhos. À noite, se vissem que só estavam
cinco, e mesmo com pressa de partirem para ...
Naquele dia, o pastor Avery passava de carruagem pela West Hill Road. Tinha-se
apeado ao ver a criança e gritado: — Vá, xô...
Vários anos depois, era o primeiro a gabar-se de ter feito uma boa escolha.
Uma vez, tentara mandar Jip para a escola, mas...
nas pernas para lhe manifestar a sua simpatia. Felizmente, ao fim de um certo
tempo, Slaytor casou-se com uma robusta viúv...
hábeis, enquanto as tentativas desajeitadas da Sra. Lyman não obtinham quase
nada. E, naquele ano, em lugar do habitual be...
superintendente veio fazer-nos uma visita, não te vais apresentar diante dele com o
focinho tão sujo como o de uma porca. ...
— Estás a brincar, Jip?
— Claro. Agora também tenho de me lavar.
Quando acabaram, dirigiram-se à Sra. Lyman para uma rápid...
— O quê? E pagar-lhe? Já vai ser preciso comprar o material necessário, e não
será pouca coisa! — exclamou o caseiro.
— Be...
estrada.
No dia seguinte, de tarde, depois do Sr. Lyman reunir o número suficiente de
pranchas e de paus de madeira de áce...
que, durante tanto tempo, tinha tido de partilhar a cama com Sheldon, que se agitava
muito e falava durante o sono. Por ma...
pouco de privacidade, um espaço só dele, mesmo que fosse pequeno, onde ninguém,
nem mesmo o seu companheiro Sheldon ou alg...
Quando a carruagem parou no pátio, Jip viu um homem amarrado da cabeça aos
pés, com os joelhos contra o peito e as mãos e ...
empurrar o seu fardo, que não parava de se contorcer e de gemer.
A Sra. Lyman correu a abrir a porta da jaula onde meteram...
Enfim, todos exceto Jip, que, aproveitando o facto de não estarem a prestar-lhe
atenção, pegou numa faca e voltou ao recan...
faca ia e vinha, não parava de falar docemente:
— Assim, assim está melhor... isso, está quase. Mais um minuto ou dois e v...
contra o outro.
— E se eu fosse buscar-lhe um pouco de bálsamo para aplicar, hã? Tenho a
certeza de que ia fazer-lhe bem.
...
— Queria que me arranjasse um pouco de bálsamo. A corda esfolou-lhe tanto os
pulsos que ele está a sangrar.
Ela foi buscar...
Tinha sido assim que, pouco a pouco, o encarregaram de todos os animais da
quinta, aos quais chamavam os queridinhos dele....
tivesse posto a recitar-lhe versículos da Bíblia.
— Como é que vim parar a esta jaula?
A voz era clara, a entoação normal,...
Esforçava-se por falar no tom que se utiliza quando, com todo o respeito, se
dirige a palavra a uma pessoa mais velha para...
evitarem mandá-lo para o asilo.
O homem não fez qualquer comentário. Jip coibiu-se de acrescentar que aquela
maneira de se...
— Não sei. Não conheço grande coisa, à parte os hinos na igreja ao domingo,
que a maior parte das vezes são maçadores.
O h...
farmácia, por detrás da garrafa de álcool.
Mas, uma noite, sem que nada o tenha feito prever, toda a gente da casa foi
aco...
— Put, volte a si! — insistiu — Não deixe que os demónios o levem, sou eu, o
seu amigo. Sabe, aquele a quem costuma cantar...
— Anda! — intimou. — Tens muito que fazer, seu preguiçoso, vai para o estábulo
mungir a vaca!
E Jip teve de deixar aquele ...
Capítulo 3 : Novos pensionistas
Put voltou a si já a tarde ia avançada. Mas agora, toda a gente desconfiava ainda
mais del...
começavam a ficar mais longos. Cantava e tocava numa espécie de flauta, um
pequeno instrumento de madeira que Jip tinha fa...
seus olhares gelados. Só o rapazinho esboçou um sorriso.
— Leva os Wilkens para o quarto vazio ao lado do dos cavalheiros ...
Para que fazê-la sofrer ainda mais?
À noite, à hora de jantar, a viúva e os filhos sentaram-se, apertados uns contra
os ou...
disse que o pai lhes morreu em março, durante uma tempestade de neve.
— Há pessoas neste mundo-cão que são ainda mais infe...
Ia à vila! Dirigir-se lá por outro motivo que não o do ofício de domingo na igreja
congregacionista era sempre uma pequena...
— Oh...
Jip procurou adivinhar se ela gostaria de os acompanhar. Mas sabia que o Sr.
Lyman nunca havia de permitir. Nem de...
caldos cada vez mais transparentes, e toda a gente, de uma ponta a outra da mesa,
se lamentava.
Nos bons velhos tempos, co...
A esta altura do discurso, o Sr. Lyman dava sempre um fundo suspiro. Porque
era sobre os seus ombros que recaía o fardo de...
quando, quem é que costumava mungir as vacas, arar, semear, plantar, arrancar as
ervas daninhas e colher, antes daquele fa...
— Chiu — murmurou Jip. — Não te levamos para o matadouro. Não tenhas
medo. Alguém há de comprar-te. És tão bonita, hás de ...
terreiro comunitário. Que tipo de trabalho se faria num banco? Sabia que era alguma
coisa relacionada com dinheiro, mas o ...
A carroça passava precisamente junto da mercearia, mas não parou. Era
necessário primeiro depositar a bezerrinha no outro ...
comprar.
Por um instante, o olhar do estranho cruzou-se com o seu. O homem teve um
sobressalto, desceu depois os poucos de...
— Não tens necessidade de ser indelicado. Queria conversar contigo, só isso.
Tudo levava precisamente a crer que não era s...
— Sim, ele não tinha nada que saber se o senhor era meu pai. E não é, aliás.
— Nunca o vi. O que é que ele quererá de nós?...
— Anda, Sheldon — disse.
Jip saiu rapidamente da cozinha, levando Sheldon com ele. Não regressaram a
casa senão quando o d...
— Na sua opinião, porque é que ele queria saber se o Sr. Lyman era meu pai ou
meu tio? Toda a gente conhece o Sr. Lyman, s...
— Há muito tempo, quero eu dizer. Ele pode saber a quem pertencias antes de
caíres da carroça.
— Eu era tão pequeno nessa ...
traz, Sr. Lyman? E ele, entre duas garfadas, responde invariavelmente: — Não trago
grande coisa, Sra. Lyman. A seguir, ela...
Andou com muito medo durante alguns dias, julgou mesmo aperceber-se de uma
inquietante silhueta na estrada, mas ninguém vo...
— Upa, upa! — batendo na cabeça de Jip.
— Atenção! Segura-te bem! — disse-lhe este.
E, quando ia começar a correr, viu Luc...
medo a alguém. — Eu?
— Sim, tu. Não podes fazer mais barulho do que um coelho. Olha, ela quer
afastar-se um pouco e o filh...
Temos de andar sem fazer barulho para não os assustar. Este vai ficar à beira da
mãe, está em segurança.
Mas, naquela manh...
— Jip! Socorro!
— Francamente, olha o que fizeste!
— A Anabela não gosta de mim!
— Não, olha, não é isso. És tu que lhe fa...
— Sim, eu e tu, nós dois como de costume, prometo-te.
Lucy viera até à porta do galinheiro. Viram-na quando saíram, e esta...
antemão os Lyman. Sempre que havia algo de mais difícil ou desagradável a fazer,
ele pretextava uma pequena deslocação, e ...
Quando elas começaram, Jip foi o único que continuou ocupado de manhã à
noite. Dava milho às galinhas, ordenhava a vaca, t...
Afastou-se para deixar Jip passar. Depois, seguiu-o até ao celeiro, batendo a
porta atrás deles, não sem antes ter fechado...
Jip teve vontade de responder: — Sim, tanto como um abutre quer o bem de um
frango. — Mas conteve-se.
— Só que — continuou...
Calou-se de novo.
“Tudo isso é charlatanice”, pensou o rapazinho. “Parece um vendedor ambulante,
que tenta a todo o custo ...
qualquer.”
— Imagina o espanto do meu amigo. Será que ainda estaria vivo aquele filho que
ele chorava tanto? Como poderia ...
um mensageiro como aquele a abrir o caminho... Voltou a examinar a alta silhueta
que o dominava, a fronte estreita, os olh...
Esboçou um sorriso e não acabou a frase.
Jip levantou-se, pegou no balde e, num passo decidido, foi pendurar o banco no
pr...
desembaraçar-se tão facilmente daquela sombra sinistra. Enfim, um misto de alívio e
de angústia subjacente e tenaz. Ainda ...
que precisava de encontrar um meio de a fazer falar da visita do desconhecido
naquele dia em que ambos tinham tomado chá n...
— Olhem só para ele, nem capaz é de curvar aquele lombo enorme —
resmungou Berthie, que mal baixava o seu. Foi um dia em q...
receber os cumprimentos de toda gente.
Jip tinha vergonha de dizer para consigo — baixinho, é claro — que se sentia
quase ...
— As crises vão e vêm, sabes? Também eu já pensei isso por diversas vezes, e
afinal...
— Consegue aperceber-se de que estã...
Mal a acabava, o rapazinho gritava-lhe: — Outra vez! Outra vez! — E, sem se cansar,
mesmo depois de já ter cantado meia dú...
Nenhuma nuvem aparecerá
Para esconder Jesus da minha vista.
Em breve subirei aos céus,
Tudo ficará bem, tudo ficará bem!
P...
— É disto também que é feito o Reino dos Céus — disse docemente.
Jip, não muito certo do que aquelas palavras significavam...
Jip absteve-se de intervir. Sabia que esse alguém só podia ser ele. Os outros
eram muito jovens, ou muito velhos, ou muito...
E o Sr. Lyman, encantado com a sua piada, pôs-se a rir, dando pequenos toques
na cabeça. Jip estremeceu. Tinha uma noção d...
— E uma cabaça com água.
— Claro. Para quando tiveres sede.
— Vou ganhar dinheiro para todos vocês na quinta. Nunca ganhei...
— É um trabalho de homem.
— Sim. E um homem presta muita, muita atenção ao seu trabalho. Sobretudo na
pedreira. Ouves o qu...
— É porque tiveste um dia muito duro. Ouve, se for muito pesado para ti, diz-
-me, que eu falo com o Sr. Lyman. Talvez pos...
quando Sheldon regressava à noite, esgotado, mostrava-se sempre transbordante de
orgulho ao falar do “seu trabalho”. Bem, ...
vociferar.
— Venha ver o que fez!
— Fiz o quê, Sr. Avery?
— O seu idiota, veja o que restou dele! Foi um milagre que só se...
Oh, se ao menos conseguisse acreditar que o pobre Sheldon se libertara das
suas penas e sofrimentos... Mas não era fácil i...
duas voltas na sua jaula, era mais prudente. Da cozinha, a Sra. Lyman aguçaria o
ouvido para verificar se ele ficava tranq...
Por uma vez, os habitantes da quinta não tinham sido relegados para o fundo da
igreja, como acontecia habitualmente. Ocupa...
Tudo acabou depressa. Após a última bênção, seis homens, que o reverendo
mandara vir propositadamente, levantaram o caixão...
— Não sei cantar, Toddy. Pede ao Put.
— Não, tu! Canta A Alegria divina e o cordeiro!
Jip tinha ouvido tantas vezes aquele...
— Acreditas mesmo que o Sheldon está a cantar o Aleluia com os anjos? —
perguntou subitamente Lucy, que durante toda a man...
Não ficou muito admirado quando, naquela noite, ao entrar no estábulo, se
deparou com o forasteiro, que estava à espera de...
possibilidade nenhuma.
— Esperto, hein? — Outra vez o mesmo sorriso. — Mas não desejas ter a certeza
absoluta?
Jip pegou n...
— É mais complicado do que tu julgas, não sei se poderias compreender.
— Então é complicado demais para eu me preocupar.
O...
— Então é perigoso?
A situação estava a tornar-se divertida.
— Não…enfim, contanto que esteja fechado... Tivemos o cuidado...
esperas, reflete mais um pouco, meu rapaz.
Dirigindo-se para a porta, estremeceu por duas vezes. “Está verdadeiramente
apa...
melhor que podia. Os animais eram tão bons! De certeza que Deus haveria de os
querer no céu. Ser-lhe-iam de certeza mais ú...
numa raposa dentro de um galinheiro. Tenho a certeza de que não tem boas
intenções. E não sei o que pretende. Portanto, di...
— Não há muita razão para isso — respondeu. — Sei o que as pessoas dizem do
meu pai, ou seja, que era um bêbedo e um inúti...
A história de Jip  -  Katherine Paterson
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A história de Jip - Katherine Paterson

  1. 1. A História de Jip Katherine Paterson
  2. 2. Katherine Paterson mora numa pequena cidade do Estado do Vermont. Conhece bem a história da região, que tem estudado infatigavelmente e que serve de moldura a vários romances seus. As suas obras foram traduzidas em cerca de vinte línguas e distinguidas com numerosos prémios literários. Se Jip, cujas aventuras os leitores irão descobrir, é uma personagem de romance, Put Nelson existiu realmente. Com efeito, na segunda metade do século XIX, há notícia de um homem do Estado do Vermont que vivia numa jaula, na quinta dos pobres em Hartford. Gostava de cantar para as crianças e repetia indefinidamente a mesma ária. A sua história figura nos arquivos da Vermont Historical Society e da Vermont State Library, onde a autora a encontrou.
  3. 3.  A minha vida começou na tarde de 7 de Junho de 1947, quando caí de uma carroça que passava na West Hill Road e ninguém veio à minha procura. Bem, talvez não tenha razão ao dizer que ela começou naquele dia. Na realidade, começou oito anos mais tarde, quando o superintendente Flint levou o louco para a quinta dos pobres.  Capítulo 1 : O pequeno cigano A velha Berthie foi a primeira a falar dele a Jip. — Um louco, meu rapaz — disse ela, chegando-se tão perto que ele podia contar-lhe os pelos do nariz. — Um louco furioso. — Fungou antes de acrescentar: — Uns são pobres, como nós, e outros são atrasados mentais. — Virou os olhos
  4. 4. em direção do velho George e de Sheldon Morse. — Mas não fazemos mal a ninguém, não é? Tem algum cabimento trazer-se um louco para junto de pessoas de bem e tementes a Deus, só porque elas não tiveram sorte na vida? Jip meneou a cabeça com ar grave. Nunca contradizia Berthie. Tentara fazê-lo uma vez e isso tinha-se saldado por uma valente bofetada, que lhe tirara o desejo de repetir a proeza. Aliás, também ele se perguntava o que poderia significar a chegada daquele louco à quinta. — Deve ser uma questão de dinheiro — continuou Berthie. — Ficaria muito caro à cidade enviá-lo para o asilo. O superintendente dos pobres tinha vindo à quinta alguns dias antes. Sólido e imponente, o Sr. Flint olhava para quase toda a gente do alto da sua grandeza. Pela bela sobrecasaca e pelo chapéu alto, via-se de imediato que se tratava de uma pessoa importante. Dizia-se que tinha muito dinheiro. Era ele quem designava os pobres que iam trabalhar nos campos e, sempre que os visitava, esperava manifestamente que estes lhe expressassem a sua gratidão. Naquela manhã do início de abril, conduzira o atrelado ao longo dos caminhos
  5. 5. lamacentos, sem parar de gritar impropérios à sua pobre égua, que chicoteava encarniçadamente. Os habitantes da quinta, respeitosamente reunidos no pátio para o acolherem, tinham ouvido o rosário de insultos bem pouco cristãos com que ele mimoseara o pobre animal. Talvez o superintendente estivesse acima das leis a que o comum dos mortais deve obedecer... De repente, a roda esquerda traseira da carruagem afundou-se num sulco, tendo ficado atolada. — Jip, Sheldon, ide depressa ajudar o Sr. Flint — gritou Otis Lyman, o responsável pela quinta. Jip levantou-se de imediato e pegou na mão robusta de Sheldon. — Anda comigo — disse-lhe. — Vamos soltar a roda do Sr. Flint. Eu e tu, está bem? — Sim, Jip, está bem — concordou Sheldon, sempre disposto a ajudar, embora tivesse alguma dificuldade de compreender o que lhe pediam. O superintendente parou de praguejar quando ambos se aproximaram. — Bom dia, Sr. Flint. Se não se importa, faça o favor de descer — disse Jip com
  6. 6. um tom cheio de respeito, enquanto se perguntava a si próprio como é que aquele homem tão gordo não percebia que com o peso dele a roda estava a enterrar-se cada vez mais. O superintendente lançou a Jip um olhar de desconfiança e depois, com um trejeito de contrariedade dos lábios, saltou para terra, evitando a poça maior. Lançou as rédeas a Jip, que as agarrou, e dirigiu-se a grandes passadas para a quinta. — Bem — disse Jip, quando ele já estava demasiado longe para o ouvir. — Sheldon, vais primeiro ajudar-me a acalmar este pobre animal. O Sr. Flint deixou-o quase louco com os gritos e as chicotadas. Aproximou-se da égua e pôs-se a falar-lhe docemente. Em seguida, acariciou-lhe o pescoço e ela deixou-se acariciar, limitando-se a bater um pouco com os cascos no chão lamacento. — Assim está melhor — prosseguiu Jip em voz baixa. — Agora, Sheldon, apoias o teu ombro contra a roda e, quando eu te disser, vais fazer muita força. Sheldon, com um largo sorriso, abanou a cabeça com um ar entendido. — Sou muito forte — declarou com orgulho.
  7. 7. — És muito forte, é verdade. Não és lá muito esperto, mas forte, sim. Sem ti, de certeza que eu não podia fazer nada. Só sirvo para falar com este pobre animal, mas és tu que vais fazer o verdadeiro trabalho e desatolar a carruagem do superintendente. — Depois, tenho a certeza de que o Sr. Flint vai dizer-me: “Obrigado, Sheldon, és bom rapaz.” — Talvez sim, talvez não, sabes? De qualquer maneira, é preciso tirarmos a carruagem dali. Vamos lá. Agora que já não lhe batiam nem a injuriavam, a égua puxou um bom bocado, enquanto Sheldon empurrava, e ambos conseguiram, assim, desatolar a roda. — Bravo! — exclamou Jip, acariciando o pescoço da égua, húmido de suor. — Vocês foram formidáveis. Mas sabes, Sheldon, tenho de lhe fazer umas festas mais, porque ela estava cheia de medo. — Claro, Jip, eu compreendo. Conduziram o atrelado até ao pátio da quinta e Jip prendeu as rédeas a um dos toros da vedação. O Sr. Flint não lhes dirigiu a menor palavra de agradecimento. Nem
  8. 8. pareceu sequer aperceber-se da presença deles. Discutia acesamente com o responsável pela quinta, que não parecia nada de acordo com ele, e cujo nariz gordo e vermelho reluzia mais do que o habitual. A Sra. Lyman começou a afastar toda a gente: — Vá, entrem. Vocês também, Sheldon e Jip. O que estes senhores têm a dizer um ao outro não nos diz respeito. O Sr. Flint está a falar de negócios com o Sr. Lyman, não connosco. — Cacarejava como uma galinha, agitando os braços. — Entrem em casa, não incomodem estes senhores. O que fazer senão obedecer-lhe? Eram sete a tentarem sobreviver, tal como pintainhos à procura da menor migalha de alimento. Quatro tinham sido expedidos para a quinta porque eram velhos e não havia ninguém que tratasse deles: Berthie, Joe, Willis e Throsina, que quase não falava. Dois eram simples de espírito, Sheldon, que devia ter trinta anos, e George, de que pouco se sabia, porque também não dizia quase nada. E, finalmente, havia Jip. À sua chegada, depois de lhe ter examinado os dentes, o Sr. Lyman declarou que ele deveria ter uns dois ou três anos. Caíra de uma carroça
  9. 9. que passava a grande velocidade. “Uma velocidade anormal”, tinham precisado aqueles que a viram passar. E foi numa curva que o garoto caíra e ficara para trás. — Depois, ninguém se preocupou em vir à tua procura — repetia por vezes a Sra. Lyman com ar indiferente. — E eu não lhe disse, naquela altura, quem era? — voltava Jip a perguntar. Ele calculava que, com três anos ou quase, já devia ser capaz de dizer como se chamava. — Não se percebia nada do que tu dizias. E quando não falavas, davas gritos terríveis. Talvez fosses cigano. Ou então bateste com a cabeça quando caíste e ficaste sem saber o que dizias. Não penso que sejas pobre de espírito como o Sheldon, mas, enfim, se calhar não és lá muito escorreito. E depois deste belo discurso, muitas vezes repetido, a Sra. Lyman batia na fronte com um ar entendido. Mas, na realidade, Jip estava longe de ser tolo e punha-se várias questões. Trabalhava duro na quinta, onde ele e Sheldon eram os únicos capazes de se ocupar dos animais e dos campos. E, enquanto deitava milho aos pintos, por exemplo, continuava a perguntar-se como era possível que não tivessem vindo à procura
  10. 10. dele... Imaginemos um casal com seis filhos. À noite, se vissem que só estavam cinco, e mesmo com pressa de partirem para o Oeste, de cujas terras férteis tanto se falava, não sentiriam os pais curiosidade de saber o que teria acontecido ao sexto? Até um ganso é capaz de contar os filhotes e de perceber que uma raposa apanhou um durante a noite!... Será que mesmo um cigano sem coração, que rouba os filhos dos outros, poderá ser completamente indiferente a um dos seus? Claro que não. Jip tinha cabelos negros e encaracolados e orelhas grandes. Sheldon dizia-lhe que era bom assim, com orelhas como as dele podia-se ter a certeza de ouvir tudo. Jip, por sua vez, achava que elas se pareciam com as asas de um cântaro. No verão, a pele escurecia com o sol. No inverno tornava-se macilenta. Mas era talvez por não se lavar o suficiente. Tal como os gatos, detestava a água, e a vista de uma bacia fumegante dava-lhe vontade de fugir. Quando era pequeno, a Sra. Lyman tinha-o agarrado pelo cachaço para o esfregar da cabeça aos pés. Mas agora não fazia isso. Ele já estava muito crescido. Sim, no fim de contas talvez fosse um cigano. Ou uma criança roubada, cujos pais ainda choravam o seu desaparecimento.
  11. 11. Naquele dia, o pastor Avery passava de carruagem pela West Hill Road. Tinha-se apeado ao ver a criança e gritado: — Vá, xô, vai para casa! — como se falasse a um animal perdido do rebanho. Mas, ao perceber que não dava resultado, e depois de ter discutido o assunto com a mulher, agarrara no garoto em pranto como se fosse um embrulho e levara-o a casa do reverendo Goodrich — que era pai de treze filhos e se esforçava por sustentar a família com um salário de miséria. Que outra solução restava aos Goodrich senão dirigirem-se às autoridades, na ocorrência o Sr. Flint, o superintendente dos pobres, encarregado de livrar a cidade dos mendigos e dos vagabundos, assim como de expedir os marginais e os doentes mentais para uma quinta afastada? Assim, eles não perturbariam nem a vista nem o olfato dos bons cidadãos tementes a Deus e respeitadores das leis — e, além do mais, isso ficava-lhes quase de graça, o que não era de desprezar. De início, o Sr. Lyman protestou: a quinta não era nenhum orfanato, fez questão de sublinhar. O Sr. Flint propôs-lhe então descontar do aluguer que a cidade lhe cobrava o dinheiro de uma vaga num pensionato afastado ou de uma pensão numa família dos arredores. O Sr. Lyman aceitou o rapaz de imediato.
  12. 12. Vários anos depois, era o primeiro a gabar-se de ter feito uma boa escolha. Uma vez, tentara mandar Jip para a escola, mas os outros alunos queixaram-se de que ele cheirava mal e que não conseguia aprender a ler. Resolveu então colocá-lo — fazendo-se pagar, bem entendido — num outro caseiro do lugar, e, quando a mulher objetou timidamente que ele era ainda muito pequeno, retorquiu-lhe: — Sra. Lyman, quando se come tanto como ele, tem de se ganhar o pão. Nada havia a responder e o próprio Jip sabia-o bem. Devorava tudo o que lhe chegava à mão, embora isso não o impedisse de estar magro como um espeto. — Quem há de querê-lo? — insistiu, no entanto, a Sra. Lyman. — Slaytor, o nosso vizinho. Vai gritar com ele, bater-lhe como bate no cão, mas o que se pode fazer, hã? Precisamos de dinheiro. — O tom era sem apelo. É verdade que mesmo os animais tinham medo de Slaytor. A recordação mais marcante que Jip conservou de alguns meses passados em casa do patrão foi a de ser agarrado por uma orelha e apanhar uma série de pontapés, enquanto o homem berrava: — Cretino, qualquer idiota varria este celeiro melhor do que tu! — Depois da sova, e quando Jip, a chorar, voltava a pegar na vassoura, o cão vinha roçar-se-lhe
  13. 13. nas pernas para lhe manifestar a sua simpatia. Felizmente, ao fim de um certo tempo, Slaytor casou-se com uma robusta viúva da cidade vizinha e mandou para casa o seu bode expiatório. E, verdade seja dita, ao voltar para a quinta dos pobres, Jip teve a impressão de regressar a casa. No fim de contas, era o único lar que alguma vez conhecera. Amava as verdes pradarias que o rodeavam. Gostava de sentir o sopro da brisa primaveril e de olhar as colinas ao longe, onde se percebiam as manchas cinzentas das pedreiras de granito. Dizia para consigo que um dia, quando fosse adulto, iria trabalhar para lá. Partiria pedras e poria pólvora negra nas cavidades, para provocar a explosão dos enormes blocos de pedra. Quando regressou a casa dos Lyman, estes acharam-no mudado e perguntaram- se, sem o dizer, como é que Slaytor tinha podido deixá-lo. Jip, não se podia negar, tinha maneiras cativantes, tanto com os animais como com os outros pensionistas da quinta. Pouco mais alto era do que o trigo de verão, e já as ovelhas, quando o viam ao fundo do prado, corriam ao encontro dele, com os seus modos um pouco desajeitados. Ainda não tinha os dentes definitivos e já sabia ordenhar a velha Bonnie como ninguém até então. O leite corria abundante debaixo dos seus pequenos dedos
  14. 14. hábeis, enquanto as tentativas desajeitadas da Sra. Lyman não obtinham quase nada. E, naquele ano, em lugar do habitual bezerro nado-morto, a vaca teve um, bem vivo e tão robusto, que o caseiro conseguiu um bom preço por ele na feira, para comprar tabaco e uma garrafa de álcool, que se apressou a guardar na cave, junto da reserva de cidra caseira. Jip não se lamentava pela vida que tinha. O que podia ele adivinhar dos pensamentos secretos do patrão? É difícil de dizer. Era uma criança normal, com as curiosidades próprias da idade. E, naquele momento, bem gostaria de estar no lugar da Sra. Lyman, que colava o ouvido à porta para procurar ouvir o que o superintendente poderia estar a dizer a propósito do louco. — Jip! Teve um sobressalto. A Sra. Lyman fazia-lhe sinal com a cabeça para se aproximar. Afastou-se do grupo de pensionistas, encolhidos à volta do fogão, e dirigiu-se para ela, contornando a grande mesa da cozinha. — O Sr. Lyman vai precisar de ti — disse-lhe. — Mas primeiro, vai depressa à bomba e passa um lenço na cara. Aqui, temos de andar limpos, e hoje que o
  15. 15. superintendente veio fazer-nos uma visita, não te vais apresentar diante dele com o focinho tão sujo como o de uma porca. Vai, despacha-te! Jip recuou, para sair pela porta traseira. Ia abri-la quando a Sra. Lyman se apressou a acrescentar: — Leva o Sheldon contigo e lava-o também. Não te esqueças de lhe limpar as orelhas, ouviste? Jip foi buscar o rapaz pela mão, e ambos se dirigiram para a bomba. — Porque é que o Sr. Flint quer ver-me? — perguntou Sheldon. — Não me portei mal. — Baixa-te, preciso de te esfregar atrás das orelhas. — Não fiz nada de mal, pois não, Jip? — Não, não. Julgo apenas que vão dar-nos qualquer trabalho para fazer. — Aos dois? A nós dois juntos? — Parece que sim. Bem, agora põe-te direito. Estás bonito como uma vaca que enfeitaram para levar à feira. Sheldon inquietou-se:
  16. 16. — Estás a brincar, Jip? — Claro. Agora também tenho de me lavar. Quando acabaram, dirigiram-se à Sra. Lyman para uma rápida inspeção. Sheldon sorria abertamente, exibindo os seus dentes amarelos meio-partidos. Foram em seguida para o pátio grande. De imediato, os dois homens viraram-se para eles. — Uma jaula — disse o Sr. Lyman. — Vai ser preciso uma jaula, Jip. Este bem teria gostado de saber a razão, mas coibiu-se de perguntar. O superintendente inspirava-lhe um certo medo. — De que tamanho? — limitou-se a perguntar. — Oh! — respondeu o Sr. Flint. — Dois metros por dois, aproximadamente. Deve chegar. Sabes medir? — Sim, senhor. — Mas tem de ser sólida. Muito, muito sólida. Olhou com ar de dúvida para o rapazinho, como a avaliar a sua força. — Talvez fosse melhor confiar o trabalho a outra pessoa, Sr. Lyman — disse o superintendente.
  17. 17. — O quê? E pagar-lhe? Já vai ser preciso comprar o material necessário, e não será pouca coisa! — exclamou o caseiro. — Bem, bem, mas o senhor compreende, é preciso que seja à prova de tudo. Arranje dobradiças metálicas e uma fechadura. — Não disponho de verba suficiente para uma coisa tão dispendiosa e... — Se tivéssemos de mandar o seu novo pensionista para o asilo, Sr. Lyman, deixaria lá toda a sua subvenção. E esteja certo, depois da próxima reunião do conselho municipal, era o senhor quem ficaria desempregado. O caseiro baixou a cabeça, vencido. — Eu e o miúdo havemos de conseguir — disse. — O Sheldon vai ajudar, não é verdade, Jip? Eu vou ajudar. — Claro, Sheldon, nunca nos desenvencilhávamos sem ti — aquiesceu Jip docemente. — Hum... O superintendente foi desprender o cavalo e, com muita atenção para evitar as maiores poças de lama e não sujar as suas belas botas, levou o atrelado para a
  18. 18. estrada. No dia seguinte, de tarde, depois do Sr. Lyman reunir o número suficiente de pranchas e de paus de madeira de ácer e de comprar o que era preciso na loja de ferragens da cidade, Jip e Sheldon começaram a construir a jaula destinada ao louco.  Capítulo 2 : O louco Jip instalou a enxerga arranjada pelo Sr. Lyman, sentou-se nela e retirou a tábua que servia de porta. Queria saber o que se sentia quando se era condenado a viver prisioneiro. Num canto, havia um bacio. Tinha previsto uma pequena abertura por onde o retirar, sem ter de correr o grande ferrolho, e introduzir os alimentos. Olhou em volta, respirando o odor agradável da madeira cortada de fresco. Ele e Sheldon tinham feito um bom trabalho. A jaula estava limpa e, há que reconhecer, confortável. Começou a imaginar que não devia ser desagradável ter assim um canto, sobretudo durante a noite. Seria bom para ele, que dormia no meio dos outros, e
  19. 19. que, durante tanto tempo, tinha tido de partilhar a cama com Sheldon, que se agitava muito e falava durante o sono. Por mais de uma vez, dera por si deitado no chão, empurrado pelo seu irrequieto companheiro. Um dia, felizmente, conseguiu apoderar- -se do catre vizinho, porque o velho Rutherford, que o ocupava, tinha morrido. Atirou-se para cima dele, sem mesmo dar tempo à Sra. Lyman de lavar o cobertor remendado que lá estava. Jip estendeu-se. Através do tecido das calças, a palha fresca picava-lhe as coxas e a barriga das pernas, mas pelo menos não cheirava a mofo como a sua miserável enxerga. Examinou as tábuas que Sheldon tinha pregado na parte de cima da jaula, seguindo cuidadosamente as suas instruções — apesar dos resmungos do Sr. Lyman, que protestava que os pregos eram caros, no mínimo um penny cada. Mas o superintendente queria tudo sólido, muito sólido mesmo. Dos dois lados, havia também tábuas entrecruzadas, o que transmitia, por estranho que pareça, um sentimento de proteção. Uma impressão de isolamento não desagradável de todo. Jip não se lembrava de ter estado alguma vez verdadeiramente sozinho. Em casa de Slayton, tinha tido de dormir no mesmo quarto do caseiro. Não era capaz de exprimir claramente a necessidade que sentia de ter um
  20. 20. pouco de privacidade, um espaço só dele, mesmo que fosse pequeno, onde ninguém, nem mesmo o seu companheiro Sheldon ou alguns dos seus animais preferidos, tivesse o direito de penetrar. — Jip! Jip! Deu um suspiro e saiu da jaula contrariado, para responder ao apelo frenético da Sra. Lyman. Se pudessem existir paredes suficientemente espessas para abafarem os seus gritos estridentes... Trouxeram o louco durante a tarde. Uma vez mais, a tremer por causa do vento fresco daquele mês de abril, os habitantes da quinta juntaram-se para ver a carruagem que vinha pela estrada na direção deles. Não pediram ajuda a Jip ou a Sheldon. Não, já não se tratava de uma pequena carruagem puxada por uma pequena égua. Dois grandes cavalos compunham o atrelado e, para além do cocheiro e do superintendente, havia quatro homens robustos que vigiavam de perto uma silhueta prostrada, cujo rosto era visível e que soltava gritos espantosos. — Jesus! — exclamou o velho Joe, que, no entanto, era meio-surdo. Sheldon tapou os ouvidos com as duas mãos e fechou os olhos, apavorado com aquele alarido.
  21. 21. Quando a carruagem parou no pátio, Jip viu um homem amarrado da cabeça aos pés, com os joelhos contra o peito e as mãos e os pulsos tão apertados que a grossa corda lhe tinha cortado a pele. Enquanto gritava desesperado, o infeliz tentava morder o cânhamo rugoso com os seus dentes amarelos. Tinha cabelos incrivelmente longos, que faziam lembrar os de uma mulher, tão cinzentos como a barba e igualmente sujos de baba e escarros. Sheldon lançou-lhe um olhar e depois, transtornado com aquele espetáculo, agarrou-se a Jip, que procurou tranquilizá-lo, murmurando-lhe: — Não tenhas medo, eu não deixo que te façam mal. Se havia promessa impossível de cumprir, era bem aquela, porque o monstro parecia estar decidido a despedaçar as cordas e a lançar-se sobre todos eles. Os quatro guardas saltaram para terra, gritando ordens contraditórias. Mas o superintendente gritou mais do que eles, mais do que o louco: — Metam-no na jaula! — Tentaram então, dois de cada vez, dominar o infeliz, fazendo-o rolar nos braços dos outros dois. Como não foram capazes, pediram socorro a Jip, que teve de se libertar dos braços de Sheldon. Finalmente, conseguiram, ora levantar ora
  22. 22. empurrar o seu fardo, que não parava de se contorcer e de gemer. A Sra. Lyman correu a abrir a porta da jaula onde meteram o louco, não sem antes, no meio da confusão, o terem calcado. O Sr. Flint apressou-se a fechá-lo à chave e depois entregou-a ao Sr. Lyman, que só reparou nela ao fim de alguns segundos, porque conservava os olhos fixos no seu novo pensionista — olhos fixos e desvairados. — Estamos entendidos, hã? — disse-lhe o superintendente, sem se preocupar que o caseiro estivesse a tremer como varas verdes. — Vigie-o bem; considero-o responsável por tudo o que possa acontecer-lhe. Ninguém se demorou mais. Nem mesmo para beber cidra caseira, que a Sra. Lyman tinha preparado. Toda a escolta se apressou a subir para a carruagem, e os cavalos partiram a galope em direção à estrada lamacenta. — Se não querem, mais fica — acabou por articular a Sra. Lyman, engolindo um copo de cidra e, depois, um segundo. Estendeu outro ao marido, que engoliu quatro seguidos, enquanto todos os pensionistas olhavam para eles, contentando-se com passar a língua pelos lábios secos.
  23. 23. Enfim, todos exceto Jip, que, aproveitando o facto de não estarem a prestar-lhe atenção, pegou numa faca e voltou ao recanto, ao lado do celeiro, para onde tinham empurrado a jaula. O louco já não gritava, gemia agora sem cessar. — Chiu, chiu — disse-lhe Jip. — Chiu, meu pobre velho. Já ninguém vai fazer-lhe mal. Os gemidos pararam e o infeliz fixou os olhos injetados de sangue na silhueta do rapazinho ajoelhado contra as tábuas entrecruzadas. — Não se importa de se pôr de lado? — pediu Jip. — Ou de se aproximar mais de mim para eu poder cortar-lhe as cordas? Falava com o tom que sempre usava para tranquilizar Sheldon e George, ou para acalmar os animais que tinha de tratar. Milagrosamente, o louco pareceu compreender. À custa de um imenso esforço, conseguiu colocar-se muito perto do tabique. O importante era cortar as amarras sem dar ao idoso a menor possibilidade de se apoderar da faca. O suor corria pela fronte de Jip, à medida que este fazia deslizar a lâmina entre duas tábuas para atingir a parte mais espessa da corda. Enquanto a
  24. 24. faca ia e vinha, não parava de falar docemente: — Assim, assim está melhor... isso, está quase. Mais um minuto ou dois e vou libertar-lhe as pernas. Quando terminou, o prisioneiro deu um grito de dor, mexendo os membros entorpecidos. — Bem, agora precisa de se virar do outro lado, isso, assim, muito hem, e estender-me as mãos. Vou desprender-lhe os pulsos. E Jip mostrou o gesto que era preciso fazer. — Isso, tente passá-las entre as tábuas. Muito bem. E, enquanto começava a cortar a corda, acrescentou: — Cuidado, não se mexa. Por nada deste mundo queria magoá-lo. O infeliz gemeu um pouco, mas parecia compreender cada vez melhor o que se lhe dizia. Jip sorriu: — Olhe, está quase... Vai sentir-se melhor quando deixar de ter a corda a magoá-lo. Já está! O louco recolheu as mãos, examinou os ferimentos e esfregou os pulsos, um
  25. 25. contra o outro. — E se eu fosse buscar-lhe um pouco de bálsamo para aplicar, hã? Tenho a certeza de que ia fazer-lhe bem. Um aceno de cabeça serviu de resposta. Em seguida, Jip teve um sobressalto ao ver aparecer entre os lábios gretados duas fieiras de grandes dentes amarelos. Levou alguns segundos a compreender. O homem sorria! Retribuiu-lhe o sorriso, primeiro com timidez, depois mais abertamente. — Então estamos entendidos. Vou buscar o bálsamo. Mas, entretanto, prometa que vai ficar tranquilo. Não me demoro. — Olha lá, o que andas a fazer com a minha faca? — perguntou a Sra. Lyman desconfiada. Estava um pouco embriagada, depois dos seus dois copos de cidra bebidos de um trago, ela que não tinha o hábito de beber. — Bem, disse para comigo que o Sr. Lyman havia de gostar que eu soltasse o pobre. Estava amarelo como um porco que se leva para o matadouro. Não é humano tratar-se alguém assim. — Humano, humano... Não é tão humano assim, aquele doido.
  26. 26. — Queria que me arranjasse um pouco de bálsamo. A corda esfolou-lhe tanto os pulsos que ele está a sangrar. Ela foi buscar o que Jip lhe pedia à prateleira reservada aos medicamentos — onde se encontrava em grande destaque uma garrafa de álcool. De costas voltadas, perguntou: — E não tens medo de semelhante criatura? O miúdo encolheu os ombros. O que poderia responder? Talvez sim, na verdade, ou talvez não. Tudo o que sabia é que precisava de libertar das cordas o prisioneiro e de lhe cuidar das chagas. — Julgo que ele não vai querer-me mal por lhe tratar das feridas — limitou-se a responder. A Sra. Lyman virou-se bruscamente e encarou-o, antes de prosseguir num tom severo: — Não te esqueças de que tens trabalho, hã? Não julgues que ele vai aparecer feito, só porque arranjaste um novo queridinho. — Claro que não — suspirou.
  27. 27. Tinha sido assim que, pouco a pouco, o encarregaram de todos os animais da quinta, aos quais chamavam os queridinhos dele. Deste modo, o Sr. Lyman parecia muito bondoso quando o obrigava a tratar deles. Eram os seus queridinhos, não é verdade?... E, para aumentar o rol, em certas ocasiões, alguns pensionistas doentes também passavam a sê-lo. Quando empurrou a porta da pequena divisão onde se encontrava a jaula, ficou chocado pelo silêncio que ali reinava. Lamentou por um momento não ter limpo na véspera as paredes cobertas de fuligem, depois de ter deitado fora todas as velharias ali amontoadas há longos anos. Era tão sombria aquela miserável arrecadação... Uma minúscula janela virada a norte deixava entrar um fio de luz. A jaula ocupava metade do espaço. Não havia nenhum móvel. Que lugar sinistro para se viver... O louco tinha-se estendido na enxerga. Era muito pequena para ele e os pés ficavam-lhe de fora. Olhava para as tábuas fixadas na parte de cima da jaula. — Como é que vim aqui parar? — perguntou ele. — O quê? Jip teria ficado menos surpreendido se a velha Bonnie, entre dois mugidos, se
  28. 28. tivesse posto a recitar-lhe versículos da Bíblia. — Como é que vim parar a esta jaula? A voz era clara, a entoação normal, sem nada que fizesse lembrar os gritos de há pouco. — Trouxeram-no até aqui de carruagem, a carruagem do Sr. Flint. — O Sr. Flint, superintendente dos pobres? — Sim, senhor. — E o Sr. Flint faz tenções de me guardar aqui dentro como se eu fosse um animal feroz? Jip baixou a cabeça, envergonhado por ter sido um daqueles que ajudaram a meter ali o prisioneiro. — O senhor dava gritos terríveis. Julgo que o que quiseram foi protegê-lo. O homem suspirou profundamente e levantou-se para se sentar em frente dele. — Trouxe-lhe bálsamo para os pulsos. A corda esfolou-os de verdade. Se fizesse o favor de passar as mãos por entre as pranchas, eu podia friccioná-las. Não acha que lhe ia fazer bem?
  29. 29. Esforçava-se por falar no tom que se utiliza quando, com todo o respeito, se dirige a palavra a uma pessoa mais velha para lhe pedir a opinião. — És um bom rapaz. Como te chamas? — Jip, senhor. — Os meus amigos chamavam-me Put. É a abreviatura de Putnam. Mas, hoje, um nome de verdade já não condiz comigo, não achas? Jip sorriu. — Gosto de Put. — E Jip? É o diminutivo de quê? — De nada. Foi o Sr. Lyman que decidiu chamar-me assim. Não se sabe de onde venho. Caí de uma carroça que ia em direção ao Oeste. As pessoas dizem que talvez fosse uma carroça de ciganos. Estenda bem a mão direita para eu lhe pôr este bálsamo muito devagarinho. Depois fazemos o mesmo à mão esquerda. — Obrigado, meu rapaz. Então isto aqui é uma quinta? Uma quinta que pertence à cidade? — Sim, senhor. Na verdade, se o trouxeram para aqui foi, julgo eu, para
  30. 30. evitarem mandá-lo para o asilo. O homem não fez qualquer comentário. Jip coibiu-se de acrescentar que aquela maneira de se verem livres dele metendo-o numa jaula ficava, de facto, muito económica à comunidade... — Pergunto-me — retomou o prisioneiro — se não me deixariam tomar um banho. Acrescentou com um ligeiro sorriso: — E cortar o cabelo e fazer a barba. — Não creio, não — disse Jip, evitando olhá-lo nos olhos. — Estão todos ainda um tanto nervosos, mal fez uma hora que chegou. Talvez quando estiver mais ambientado. Assim está melhor? — Sim, sim. És mesmo um bom rapaz. Podes prestar-me outro serviço? Trazer- -me um lenço molhado para eu passar na cara? A semana não tinha ainda terminado e Jip tinha convencido o Sr. Lyman a pôr um recipiente cheio de água ao lado da jaula, para Put poder lavar-se. Sem se atrever a deixá-lo barbear-se, cortou-lhe os cabelos e uma parte da barba com uma tesoura. — Gostas de música, meu rapaz?
  31. 31. — Não sei. Não conheço grande coisa, à parte os hinos na igreja ao domingo, que a maior parte das vezes são maçadores. O homem pôs-se então a cantar, com uma voz sonora e vibrante, que ressoava como sinos de trenó num dia de neve. E aquela canção, Jip aprendeu-a de cor em poucos dias, porque Put entoava-a com frequência. Dir-se-ia que nunca se cansava da ária nem das palavras. O refrão acabava por Tudo ficará bem, tudo ficará bem, e o rapazinho procurava cantá-la, embora percebesse que desafinava imenso. Já quase não via Put como um louco. Uma vez lavado, de roupa limpa e cabelos penteados, era mesmo um homem bastante bem parecido. Já não tinha aqueles olhos desvairados, injetados de sangue, do primeiro dia. Dir-se-ia que a sua loucura o tinha abandonado, a ponto de, todas as noites, Jip sentir o desejo de já não fechar a jaula à chave, de tal modo sofria por ter de encerrar assim o seu novo amigo. Mas Put punha-o de sobreaviso: — Não, meu rapaz, não se arrisquem a deixar-me sair. A minha maldita cabeça pode trair-me, e depois não sei que males seria capaz de fazer. Assim, Jip, contrariado, dava a volta à chave e ia pendurá-la no armário da
  32. 32. farmácia, por detrás da garrafa de álcool. Mas, uma noite, sem que nada o tenha feito prever, toda a gente da casa foi acordada por gritos e pancadas. Jip apressou-se a enfiar as calças e precipitou-se pelas escadas abaixo, sem mesmo ter tempo de apertar os suspensórios. — Put! Put! — gritou, tentando fazer-se ouvir, apesar do estrépito. Mas o velho não lhe prestava nenhuma atenção e atirava-se com toda a força contra as paredes da jaula, como se quisesse arrancá-las. — Put! Put! — insistiu Jip. — Ninguém quer fazer-lhe mal. Calma, calma, se continuar, vai magoar-se. Como resposta, Put arranhou o rosto, a ponto de o sangue lhe escorrer para a camisa. Os Lyman e os pensionistas, todos de pijama ou de camisa de noite, tinham-se juntado na soleira da porta, demasiado assustados para darem mais um passo. Jip era o único que ousava aproximar-se da jaula, tendo ainda assim o cuidado de ficar a uma distância prudente, para não correr o perigo de ser agarrado por uma daquelas mãos enormes.
  33. 33. — Put, volte a si! — insistiu — Não deixe que os demónios o levem, sou eu, o seu amigo. Sabe, aquele a quem costuma cantar aquela bonita canção. E, sentado sobre o pavimento, com os braços em redor dos joelhos, murmurou: Em breve, do sofrimento e do mal estarei liberto. Tudo ficará bem, tudo ficará bem. Continuou durante muito tempo, até já não ter voz, talvez mais para se reconfortar a si próprio do que para acalmar o louco, que gritava cada vez mais, e na vã esperança de que ainda restasse algo do Put de quem gostava. Talvez este acabasse por compreender que o seu amigo Jip estava ali e não o abandonaria. Amanheceu. O velho e a criança, ambos esgotados, mergulharam num sono pesado. Foram os gritos da Sra. Lyman que acordaram Jip.
  34. 34. — Anda! — intimou. — Tens muito que fazer, seu preguiçoso, vai para o estábulo mungir a vaca! E Jip teve de deixar aquele grande corpo prostrado num canto da jaula, coberto de sangue, de saliva e pior ainda. A velha Bonnie acolheu-o, mugindo docemente. — Eu sei, eu sei, minha Hilda — disse-lhe tristemente. — Estou atrasado e tu não gostas muito. Mas não tinha vontade de o deixar, compreendes? E depois, deixei-me dormir. Puxou o pequeno banco para mais perto da vaca e apoiou a cabeça contra o seu flanco morno. Por baixo dos seus dedos ágeis, o leite começou a escorrer para o balde. Voltou a pensar na canção, no seu refrão Tudo ficará bem... e disse para consigo que era de cortar o coração ter diante de si aquele animal de caça, impossível de capturar. 
  35. 35. Capítulo 3 : Novos pensionistas Put voltou a si já a tarde ia avançada. Mas agora, toda a gente desconfiava ainda mais dele. Sheldon agarrava-se ao braço de Jip, suplicando-lhe que não se aproximasse da jaula. Chorou como uma criança quando este o fez. Não era, evidentemente, para afligir Sheldon, mas Put... bem, era Put, um amigo como Jip nunca tinha tido. Parecia impossível de prever quando iriam desencadear-se aquelas crises espantosas. E sempre que o idoso era autorizado a sair um pouco da jaula, o desvario dos Lyman estragava todo o prazer que ele poderia tirar daqueles momentos de liberdade. Jip era o único capaz de aguentar. Quando veio o bom tempo, levou Put até à pradaria, para que ele aproveitasse o sol e os primeiros dias da primavera. Na quinta, nasceram dois cordeiros e, como para acabar definitivamente com a sua reputação de má reprodutora, Bonnie teve outra cria saudável, desta vez uma bezerrinha. Findou abril, chegou o mês de maio, e Put continuava a comportar-se normalmente. Talvez o seu espírito perturbado se acalmasse à medida que os dias
  36. 36. começavam a ficar mais longos. Cantava e tocava numa espécie de flauta, um pequeno instrumento de madeira que Jip tinha fabricado, seguindo as suas indicações. Não confiavam a Put nada de mais cortante do que uma colher. Encontrava-se bem, no dia em que a viúva Wilkens apareceu, acompanhada pelos seus três filhos. Quando os viu chegar, Jip sentiu o coração pular de alegria, porque nunca antes tinha havido na quinta alguém da sua idade. A mais velha, uma menina, parecia ser do mesmo tamanho dele. O seguinte, um rapazinho, começava agora a falar. O terceiro, outra menina, ainda mamava. Berthie contou a toda a gente que o marido da Sra. Wilkens tinha sido o maior bêbedo da vila. Um dia, durante a última tempestade de neve do inverno, escorregara quando regressava a casa e morrera de frio. Foram encontrar ao lado dele uma garrafa de álcool vazia. Ninguém tinha considerado o seu desaparecimento uma grande perda — “exceto talvez a família”, disse Jip para consigo. E como só deixara dívidas, aquela ficou a cargo da comunidade, que acabou por enviá-la para a quinta dos pobres. Jip, encantado, correu ao encontro dos recém-chegados, mas estacou diante dos
  37. 37. seus olhares gelados. Só o rapazinho esboçou um sorriso. — Leva os Wilkens para o quarto vazio ao lado do dos cavalheiros — ordenou a Sra. Lyman, que não tinha por hábito empregar a palavra “cavalheiros” a respeito dos seus pensionistas. — Está bem, sigam-me — disse Jip, subindo as escadas. Chegado lá em cima, voltou-se para observar a lenta subida da família. Lucy, a mais velha, trazia um grande saco de pano, que batia em cada degrau, enquanto a mãe segurava o bebé de um lado e puxava o garoto do outro. — Levanta os pés, Toddy — repetia. — Anda lá, levanta os pés. Jip desceu um pouco para ajudar Lucy, que continuava a debater-se com o saco, mas mal pôs a mão na pega, ela desatou a gritar: — Não toques nisto, é nosso! — Só queria ajudar — disse surpreendido. — A tua cara está horrorosamente suja. Jip não lhe respondeu que a dela não estava melhor. De que teria servido? Ele sabia muito bem ver quando um animal sofria. Com os humanos não era diferente.
  38. 38. Para que fazê-la sofrer ainda mais? À noite, à hora de jantar, a viúva e os filhos sentaram-se, apertados uns contra os outros, junto da Sra. Lyman, na grande mesa da cozinha. O nariz do rapazinho chegava à beira da mesa. A Sra. Lyman enchia as tigelas de sopa e entregava-as a cada um deles. Lucy olhou para a sua e fez uma careta, como se estivesse enjoada. A mãe deu-lhe um ligeiro tabefe, assim como ao irmão e, rápida, murmurou-lhes qualquer coisa. De má vontade pegaram na colher. Jip não perdeu tempo a ver se comiam. Só esperou para receber a tigela de Put, que se apressou a levar até à jaula. — Tome — disse-lhe, passando-a pela pequena abertura. — Pelo menos está quente... O idoso cheirou aquela lavagem. — Ah! — disse. — Mais um dos triunfos culinários da Sra. Lyman. Quando sorria assim, os dentes não pareciam tão grandes nem tão ameaçadores. — Chegaram novas pessoas — começou Jip. Sabia que Put contava com ele para lhe dar as novidades do que se passava lá fora. — A viúva Wilkens e os filhos. Berthie
  39. 39. disse que o pai lhes morreu em março, durante uma tempestade de neve. — Há pessoas neste mundo-cão que são ainda mais infelizes do que nós — observou Put. — Suponho que sim. Mas esta ideia parecia nova a Jip. Ele nunca se perguntava se era feliz ou infeliz. Era Jip e pronto. É verdade que sentia compaixão pelo seu novo amigo, louco e tão pobre. Mas talvez fosse ainda pior ser órfão de um pai bêbedo. Quando veio sentar-se na cozinha, diante da sua péssima sopa, agora fria, decidiu fazer um esforço para ser delicado com a difícil Lucy. Mas ela apressou-se a cochichar à mãe: — Mamã, diz-lhe que pare de olhar para mim… Como resposta, a Sra. Wilkens inclinou-se e deu-lhe uma bofetada, por cima da cabeça do irmão. — Vê se tens maneiras! — ralhou. “Sim”, pensou Jip, “há pessoas mais infelizes do que nós.” Mas, alguns dias mais tarde, sentiu-se verdadeiramente feliz.
  40. 40. Ia à vila! Dirigir-se lá por outro motivo que não o do ofício de domingo na igreja congregacionista era sempre uma pequena aventura. Gostava muito de observar os cavalos e os movimentos da rua, de ouvir passar as carruagens e ver as pessoas a cumprimentar-se. Gostava tanto de ter um boné, para lhe tocar com o dedo e cumprimentar também aqueles que se cruzavam com ele! Desde o dia em que Lucy tinha feito aquele reparo a propósito da sujidade do seu rosto, lavava-o mais vezes com água fria e enxugava-o cuidadosamente com uma das abas da camisa. Desta vez, examinou de perto as mãos vermelhas e gretadas, e lavou-as também. Não havia nenhum espelho junto da bomba e não se atreveu a olhar-se no que estava pendurado por cerca da banca da cozinha. Limitou- -se a acamar com os dedos os caracóis despenteados. Isso. Assim já não devia estar tão mal. — Onde vais? Também Lucy tinha vindo buscar água. — Eu e o Sr. Lyman vamos levar a bezerrinha à cidade para a vender. Baixou a voz: — Preciso de lhe dar uma ajuda. Ele não tem jeito para lidar com os animais.
  41. 41. — Oh... Jip procurou adivinhar se ela gostaria de os acompanhar. Mas sabia que o Sr. Lyman nunca havia de permitir. Nem de Sheldon queria saber. — Não estou para aturar aquele idiota — dizia, quando Jip lhe suplicava que o levasse com eles, sabendo como Sheldon adorava sair da quinta. Mas é verdade que, se ele fosse, Jip ver-se-ia obrigado a ocupar-se dele constantemente, para além de cuidar dos animais. Na estrada, a lama tinha secado e, se o Sr. Lyman conduzisse bem o cavalo, o velho Jack, pelo meio dos sulcos mais fundos, o trajeto seria longo. Estava um tempo esplêndido. Jip sentou-se na parte de trás da carroça e acariciou o pescoço da bezerra. Falava com ela e, ao mesmo tempo, cantarolava-lhe pequenas canções para a manter calma. Por um lado, estava triste por a ver partir, mas, por outro, o dinheiro que ela renderia seria mais do que bem-vindo ao orçamento da quinta. Porque, agora, era preciso sustentar Put e toda a família Wilkens. Quando as finanças estavam em baixo, isso refletia-se imediatamente na qualidade das refeições. Sempre muito frugais, transformavam-se numa série de
  42. 42. caldos cada vez mais transparentes, e toda a gente, de uma ponta a outra da mesa, se lamentava. Nos bons velhos tempos, como o Sr. Lyman repetidas vezes lembrava aos seus pensionistas, os mais robustos de entre eles teriam sido alugados a quem desse mais, e o seu trabalho ter-se-ia tornado uma verdadeira fonte de renda, muito útil às finanças da vila. Agora, em contrapartida, eles ficavam caros aos habitantes. Algumas almas bem-intencionadas tinham-se de facto queixado de que semelhante sistema se parecia bastante com a escravatura que se praticava nos estados do Sul. Na sequência disso, decidira-se fazer o contrário e enviar os pobres para casa daqueles que se propusessem aceitá-los, em troca de uma pequena pensão que a vila lhes pagaria. Mas as almas piedosas também se compadeceram desta situação, porque eram referidos casos de maus tratos. E até de pensionistas mortos à fome. De modo que, por pura caridade cristã, a vila tinha comprado aquela magnífica quinta para exclusivo benefício dos seus pobres — “repito, para seu exclusivo benefício”, martelava o Sr. Lyman — e tinha-o encarregado a ele de a fazer funcionar e de olhar por todos os miseráveis cujo encargo a vila assumia.
  43. 43. A esta altura do discurso, o Sr. Lyman dava sempre um fundo suspiro. Porque era sobre os seus ombros que recaía o fardo de manter o orçamento em equilíbrio. O superintendente dos pobres, o Sr. Flint, só pretendia duas coisas: não dar mais um soldo do que o previsto e nunca provocar a cólera da boa gente da vila — os generosos benfeitores. “E será que podiam dizer-lhe”, retomava o Sr. Lyman, “se existia algum meio de fazer funcionar aquela quinta, quando só havia entre os seus pensionistas dois indivíduos do sexo masculino em estado de trabalhar: um garoto cuja idade desconhecia e um pobre de espírito?” Talvez Jip tivesse sentido alguma culpa, ou simpatia, se também o Sr. Lyman deitasse mãos ao trabalho. No fim de contas, estava de perfeita saúde, um pouco gordo, talvez, mas nem era demasiado jovem nem atrasado mental. Contudo, o rapazinho também dizia para consigo que nem sempre se pode compreender os problemas das pessoas adultas. O sol aquecia-lhe agradavelmente a cabeça e os ombros. O inverno parecia ter acabado, embora por vezes ainda se visse neve em maio. Mas, agora, tornava-se pouco provável. Jip nem sequer pensava que em junho teria de trabalhar do nascer ao pôr-do-sol. O esforço nunca o contrariava. Apenas se perguntava, de vez em
  44. 44. quando, quem é que costumava mungir as vacas, arar, semear, plantar, arrancar as ervas daninhas e colher, antes daquele famoso dia em que o Sr. Lyman tinha determinado que a Sheldon caberiam os trabalhos braçais e a Jip a organização geral... Bem, mas ali, na carripana, e com aquele tempo tão bom, Jip sentia-se em férias por um breve momento. Estendeu-se a todo o comprimento, com um forte desejo de dormir. Desde a chegada de Put que ele nunca mais tinha conhecido uma noite tranquila. Muitas vezes se deixava ficar perto da jaula, para o caso de o infeliz ser acometido de um acesso durante o sono. Berthie dizia que na lua cheia se ficava ainda mais transtornado. Jip perguntava-se se seria verdade. As crises de Put não pareciam ter a regularidade das fases da lua. Não se podia perceber o que as desencadeava. Era apenas evidente que o louco ficava menos agitado quando o sol brilhava. E como o verão, com as suas belas e longas tardes, se aproximava, havia uma certa esperança. A carroça foi de encontro a uma pedra na estrada. O Sr. Lyman praguejou e chicoteou o pobre Jack. A bezerrinha soltou um mugido de medo.
  45. 45. — Chiu — murmurou Jip. — Não te levamos para o matadouro. Não tenhas medo. Alguém há de comprar-te. És tão bonita, hás de ver, vão querer-te pelo teu leite e viverás até seres velhinha. A bezerrinha, de grandes olhos castanhos, olhava para ele com adoração. Jip gostava muito das pequenas crias. Quando Bonnie tinha um nado morto, sentia uma pena enorme, mesmo que isso significasse mais leite, manteiga e queijo para os pensionistas, porque já não tinha que dar de mamar. Estavam agora a chegar à pequena vila. Como sempre, Jip olhava, fascinado, para as grandes casas diante das quais passava. Algumas, com as suas cortinas nas janelas, pareciam adormecidas à sombra de belas árvores de folhagem luxuriante. O que fariam as pessoas que lá moravam? Nem todas podiam trabalhar na serração, na forja ou no estábulo. Não parecia que fizessem criação de galinhas, e algumas hortas nem sequer estavam cultivadas. Era difícil saber de que se alimentavam os ricos. O superintendente Flint, por exemplo, era aquilo a que se chama um banqueiro. Jip conhecia o banco, um grande edifício quadrado de um único andar, junto ao
  46. 46. terreiro comunitário. Que tipo de trabalho se faria num banco? Sabia que era alguma coisa relacionada com dinheiro, mas o quê exatamente? O dinheiro não cresce. Para que era preciso uma casa inteira para o guardar, quando se poderia muito mais facilmente metê-lo debaixo do colchão ou de um vaso de flores? Ou, mais simplesmente ainda, numa gaveta?... Alguns anos atrás, um visitante que um dia passara pela quinta dera um soldo a Jip. Como fora a única vez na vida que este recebera dinheiro, guardava-o num bolso das calcas. O generoso doador recomendara-lhe: — Põe isto de lado, rapaz. Um soldo poupado é um soldo ganho. O que fez com que ele evitasse gastá-lo, mas nem por isso ganhou outro. Como é que seria possível? Um soldo não era como uma galinha que tem pintainhos. Um dia, porém, no outono, quando se encontrava na cidade, quase se deixara tentar. Na mercearia, podia-se comprar por um soldo dez bombons de todas as cores. Dez bombons! Isso representaria cinco dias de prazer, ao menos para Sheldon e para ele. Mas a frase do visitante ressoava-lhe ainda na cabeça. Aquele soldo, convinha reservá-lo para algo mais importante do que doçarias.
  47. 47. A carroça passava precisamente junto da mercearia, mas não parou. Era necessário primeiro depositar a bezerrinha no outro extremo da vila e receber o dinheiro da venda. Depois, o Sr. Lyman havia certamente de querer ir comprar alguma coisa. Jip ficaria à espera. Gostava bastante de olhar para os bocais de bombons, alinhados como lindas rapariguinhas de vestido domingueiro. Pelo menos, isso era de graça. Ergueu a bezerra sozinho e colocou-a em terra, meio cambaleante com o peso dela. O Sr. Lyman vestia o seu fato de domingo e não se podia contar que desse uma ajuda. Nem pensar em sujar-se! Jip inclinou-se e abraçou docemente o pequeno animal, à laia de despedida, e depois voltou a saltar para a carroça. No regresso, o Sr. Lyman parou junto da loja, mas, infelizmente, deu ordem ao rapazinho para ficar à beira do cavalo enquanto ele fazia as compras. Desapontado, Jip instalou-se no assento e deixou cair as rédeas sobre a grossa crina de Jack. Seguiu com os olhos o Sr. Lyman, que entrou pela porta do armazém no momento em que um homem saía. Ambos se desviaram um pouco e trocaram um aceno de cabeça. Com uma expressão cheia de nostalgia, Jip observou a montra de cores vivas, sonhando com todos os bombons que a sua moeda lhe teria permitido
  48. 48. comprar. Por um instante, o olhar do estranho cruzou-se com o seu. O homem teve um sobressalto, desceu depois os poucos degraus do átrio de entrada e veio direito à carroça. — Estás a espera do teu pai? — perguntou. Algo de desagradável, de melífluo, de estranho no tom de voz deu a Jip o desejo de mentir. Mas uma mentira era muito pesada para a sua consciência, por isso abanou a cabeça. — Do teu tio, então? O que é que aquele indivíduo tinha com isso? Para que lhe interessava saber quem era o Sr. Lyman? Além disso, quase de certeza que ele o conhecia. Toda a vila conhecia o Sr. Lyman. Jip não respondeu nem sim nem não. Desviou a cabeça, para olhar para uma carroça que passava. O estranho estava a meter-se no que não lhe dizia respeito. Não tinha nada que fazer aquelas perguntas. Era melhor ignorá-lo. — Onde moras, pequeno? Como a resposta não vinha, o homem acrescentou com uma voz irritada:
  49. 49. — Não tens necessidade de ser indelicado. Queria conversar contigo, só isso. Tudo levava precisamente a crer que não era só isso. E nada se parecia menos com uma conversa amigável do que aquele interrogatório. Para enorme alívio de Jip, o Sr. Lyman saiu da loja, a encher o cachimbo com o tabaco que acabava de comprar. Rapidamente, estendeu-lhe as rédeas e passou para a parte de trás da carroça, procurando não fitar o estranho, que não se tinha mexido. — Desculpe, meu caro senhor... Mas o Sr. Lyman fez que não ouvia, deu um grito ao cavalo para se pôr em marcha e a carroça começou a andar. O desconhecido ficou no mesmo lugar, muito vermelho, de boca aberta. — Quem era aquele tipo com quem estavas a falar, garoto? — perguntou o caseiro, quando se afastaram um pouco. — Não estava a falar com ele. Foi ele quem me dirigiu a palavra. Queria saber se éramos da mesma família. Manifestamente, o facto desagradou muito ao Sr. Lyman. — Desconfia dos forasteiros, entendes?
  50. 50. — Sim, ele não tinha nada que saber se o senhor era meu pai. E não é, aliás. — Nunca o vi. O que é que ele quererá de nós? — Não sei. Em todo o caso, não lhe disse nada. Um resmungo serviu de resposta, e não trocaram mais palavra até chegarem a quinta. Mas, no dia seguinte de tarde, quando Jip e Sheldon regressaram do galinheiro, o forasteiro estava instalado na mesa da cozinha, a tomar chá e a comer biscoitos com a Sra. Lyman. Devia ter perguntado a alguém de onde vinha a carroça. De certeza que não passara pela quinta por acaso. Aliás, a estrada acabava ali. Ergueu os olhos quando Jip entrou e examinou-o rapidamente da cabeça aos pés. Depois, voltou-se para a Sra. Lyman e, como se fossem velhos amigos, retomou uma conversa sobre os malefícios do gelo da primavera. Jip lavou os ovos e colocou- -os cuidadosamente no cesto. Perguntava a si próprio se o Sr. Lyman sabia que o forasteiro estava ali, a meter o nariz na cozinha dele. Nem era recebido no salão, como as visitas habituais; não, tinha conseguido penetrar na cozinha, como se fosse uma pessoa da família, um hóspede particularmente bem-vindo. Qualquer coisa não estava a bater certo. O rapazinho sentiu um arrepio.
  51. 51. — Anda, Sheldon — disse. Jip saiu rapidamente da cozinha, levando Sheldon com ele. Não regressaram a casa senão quando o desconhecido se fez à estrada, na direção da cidade. Era quase tão alto como o Sr. Flint, vestido com roupas de cor escura, e não tinha o ar pesado de um caseiro nem a atitude arrogante de um banqueiro. Não, fazia lembrar uma doninha a rondar um galinheiro, à procura de um buraco por onde se meter para apanhar uma galinha. Era mais ou menos isso. O homem parou e voltou-se para olhar na direção da quinta. Com um salto, Jip escondeu-se atrás do barracão.  Capítulo 4 : Cuidado com o forasteiro! Naquela noite, Jip esperou que toda a gente tivesse acabado de jantar e de se levantar da mesa para levar o conduto a Put. Depois, sentou-se ao lado da jaula. Precisava do amigo para o ajudar a pôr as ideias um pouco em ordem.
  52. 52. — Na sua opinião, porque é que ele queria saber se o Sr. Lyman era meu pai ou meu tio? Toda a gente conhece o Sr. Lyman, sabe-se que ele não tem filhos e, de qualquer forma, não iam confundir um miúdo abandonado pelos ciganos com um filho dele. — És um bom rapaz, Jip, cigano ou não. — Sim, nós dois somos amigos e fico muito contente com isso, mas o que eu quero saber é por que razão este desconhecido apareceu subitamente na cidade e começou a fazer-nos perguntas esquisitas, ao Sr. Lyman e a mim. Nós fomos suficientemente espertos para não lhe dar conversa, mas, qual não é o meu espanto, vou encontrá-lo na cozinha a conversar com a Sra. Lyman como se se conhecessem há muito tempo. — Sim, é estranho — concordou Put. — Mais do que estranho, até. — Jip, já pensaste, por exemplo, que ele pode ter-te encontrado antes? Digo isto por dizer, é claro, não fui eu a cruzar-me com ele. — Não, nunca nos vimos.
  53. 53. — Há muito tempo, quero eu dizer. Ele pode saber a quem pertencias antes de caíres da carroça. — Eu era tão pequeno nessa época, mal tinha começado a andar. Como é que alguém seria capaz de me reconhecer ao fim de tantos anos? E se fosse o caso? Não mo teria dito? Em vez disso, anda a farejar à minha volta como um cão de caça atrás da presa. — Hum, sim, é estranho — murmurou Put. — Se julga saber quem eu sou — insistiu Jip — porque não o diz abertamente? — Sim, seria a única coisa honesta a fazer. — Ora bem, precisamente. Não é um tipo honesto, Put. Se calhar, estou a fazer mau juízo, mas este homem não me cai bem. Apanhei um susto enorme quando o vi sentado na nossa cozinha. E sabe o que mais? A Sra. Lyman não falou da visita dele ao marido. — De verdade? — Durante o jantar desta noite, não disse uma palavra a esse respeito, ela que costuma perguntar, todas as vezes que o marido vai à cidade: — Que novidade nos
  54. 54. traz, Sr. Lyman? E ele, entre duas garfadas, responde invariavelmente: — Não trago grande coisa, Sra. Lyman. A seguir, ela começa a contar o que se passou na quinta. Mas, sobre isto, nem uma palavra. Ora, entre nós, uma visita é um acontecimento. Quase nunca recebemos visitas. Então, sempre que há uma, quase merece um artigo no jornal. — Ela não disse mesmo nada? — Repito, nada, nem uma palavra. Como se fosse um segredo. No entanto, o desconhecido tomou chá e comeu biscoitos, e disso o Sr. Lyman vai aperceber-se, porque, em casa, ele conta tudo e volta a contar. — Sê prudente, Jip. Não creio que esse homem tenha vindo por causa dos biscoitos da Sra. Lyman. — Se fosse por isso, agora estaria meio-morto de fome. Ambos desataram a rir. Mesmo para quem nunca comera nada de melhor, ou já perdera a lembrança, os cozinhados da Sra. Lyman eram motivo de brincadeira. Mas, refletiu Jip, como ser prudente quando não se sabe de onde pode vir o perigo?
  55. 55. Andou com muito medo durante alguns dias, julgou mesmo aperceber-se de uma inquietante silhueta na estrada, mas ninguém voltou a aparecer na quinta e a vida retomou, a pouco e pouco, o seu curso normal. Enfim, não totalmente. Não se podia negar: a presença da viúva Wilkens e das crianças alterava bastantes coisas. Jip sentia-se responsável por Lucy e Toddy. O bebé podia ficar com a mãe, mas os outros dois precisavam dele. Lucy fingia ignorá-lo, enquanto o menino o seguia para todo o lado como um cachorrinho. Um dia em que Jip ia em direção do prado mais distante para verificar se os cordeiros tinham nascido durante a noite, ouviu de repente um choro por detrás dele. Surpreendido, virou-se e viu Toddy estendido na erva a gritar e a espernear. Precipitou-se para o erguer: — Muito depressa! — soluçava o garoto. — Vais muito depressa! — Desculpa, não vi que vinhas atrás de mim. Levantou-o, tirou-lhe com a mão um pouco de terra da camisa e depois pô-lo às cavalitas. — Agora estás melhor? Encantado, Toddy gritou:
  56. 56. — Upa, upa! — batendo na cabeça de Jip. — Atenção! Segura-te bem! — disse-lhe este. E, quando ia começar a correr, viu Lucy. Ela devia ter saído de casa precipitadamente, à procura do irmãozito, e tinha ficado imóvel no caminho, com uma expressão de desdém no rosto. — Anda, Lucy! — chamou Toddy. — Sim, anda — anuiu Jip. — Vamos ver se há novos cordeiros. Ela encolheu os ombros e fez menção de voltar para trás. — Anda, vem! Como ela não se mexia, partiu, imitando o galope do cavalo, no meio dos gritos de alegria do pequenito, que se lhe agarrava aos cabelos. Depressa encontraram um recém-nascido, de cabeça preta, que balia docemente e se encostava à mãe. Jip pôs Toddy no chão. — Chiu! — disse. — Não faças barulho. A ovelha não te conhece e tu metes-lhe medo porque, à beira do filhote, és muito grande. Ela receia que lhe faças mal. — Eu? — perguntou Toddy, manifestamente encantado com a ideia de causar
  57. 57. medo a alguém. — Eu? — Sim, tu. Não podes fazer mais barulho do que um coelho. Olha, ela quer afastar-se um pouco e o filhote vai tentar segui-la, embora mal se segure nas patas. Não, não, não corras atrás dele. — Está bem — murmurou Toddy. — Sabes, esta ovelha gosta tanto do seu filhote como a tua mãe gosta de ti. O miúdo fez uma careta. — Sim, está bem, a tua mãe teve outro bebé depois de ti, mas esta ovelha também há de ter outro cordeiro no ano que vem e, nessa altura, este, que hoje é tão pequenino, há de estar crescido para correr e brincar na erva, tal como tu. Alguém tossiu ligeiramente por detrás deles. Jip voltou-se e viu Lucy. Sempre se tinha decidido a segui-los. Devia fazer de conta que não a vira? Que rapariga estranha... Nunca sabia o que havia de lhe dizer sem correr o risco de a contrariar. — Conta comigo, Toddy, este é um novo cordeiro. Sabes contar? — Um — disse. — Muito bem. Vamos um pouco mais longe para ver se encontramos outros.
  58. 58. Temos de andar sem fazer barulho para não os assustar. Este vai ficar à beira da mãe, está em segurança. Mas, naquela manhã, não havia mais cordeiros. As ovelhas pareciam não ter pressa de dar à luz. Fazendo um grande desvio para não se aproximar demasiado de Lucy, Jip levou Toddy para a quinta. Era a hora de apanhar os ovos e não queria que Sheldon se sentisse posto de parte. Durante muito tempo, foram só os dois, Jip e Sheldon. Ora, Put e Toddy tinham chegado quase ao mesmo tempo, e Sheldon resmungava um pouco. Sentia ciúmes da atenção que Jip lhes concedia. Este levou Toddy até junto da mãe e pôs-se à procura de Sheldon. Mas não o encontrou em parte alguma. Deu a volta à casa, explorou todos os recantos do pátio e nada. Bruscamente, ouviram-se no galinheiro cacarejos e gritos. — Oh, não! — disse. — Bem sabes que não deves ir buscar os ovos sem mim! Precipitou-se, abriu a porta e descobriu um Sheldon aterrado, sentado no chão, com uma galinha de cor parda empoleirada na cabeça, a bater as asas e a dar-lhe bicadas no crânio. Tinha na mão um ovo esmagado, cuja gema lhe corria por entre os dedos e lhe manchava a camisa.
  59. 59. — Jip! Socorro! — Francamente, olha o que fizeste! — A Anabela não gosta de mim! — Não, olha, não é isso. És tu que lhe fazes medo, és muito brusco com ela. Deixa- -me pegar nela, assim... primeiro, vou acalmá-la um pouco, vá, vá… e pô-la com cuidado no ninho do costume. — Digo-te que ela não gosta de mim. É ela que me faz medo. — Bem, digamos que ambos fazem medo um ao outro. Agora, tudo vai correr bem, Sheldon. E Jip sorria para o seu companheiro que estava à beira das lágrimas. — Anda, ajuda-me a limpar-te a camisa, que está toda suja, e a apanhar os bocados da casca. Sheldon examinou as suas roupas com um ar inquieto e, depois, a mão cheia de gema. — Ficas comigo, Jip?
  60. 60. — Sim, eu e tu, nós dois como de costume, prometo-te. Lucy viera até à porta do galinheiro. Viram-na quando saíram, e esta fingiu de imediato estar a olhar na direção da estrada, o que fez com que Jip não lhe falasse.  Capítulo 5 : Uma hipótese em mil A última geada de maio tinha coberto os campos com um manto branco que fundiu logo de seguida. Às cinco horas da manhã, o sol já aparecia a este, por detrás das colinas, e os bosques que pertenciam ao pastor Avery — era proprietário da pedreira de granito — coloriam-se com todos os tons de verde. Aproximava-se o tempo das sementeiras. Naquele ano, Jip já estava suficientemente crescido e forte para segurar o arado. Foi portanto Sheldon que se encarregou de tomar as rédeas do cavalo e de o fazer avançar pelo solo húmido. Jip congeminava diferentes projetos. Queria repartir o trabalho por todas as pessoas válidas da quinta — o que, naturalmente, excluía de
  61. 61. antemão os Lyman. Sempre que havia algo de mais difícil ou desagradável a fazer, ele pretextava uma pequena deslocação, e ela desculpava-se com as tarefas domésticas. Jip e Sheldon tinham de tomar conta de tudo. Mas agora havia Put, que desde há várias semanas se comportava normalmente. Podia, pois, dar uma ajuda, tal como a Sra. Wilkens e Lucy, se conseguisse convencê-las a semear ou a plantar. Jip começou por ensinar Toddy a colocar nos buracos batatas greladas e, conforme esperava, Lucy, depois de ter observado, aproximou-se dizendo: — Posso fazer isso, não é difícil. — Mas é difícil para Sheldon — respondeu Jip. — Agradeço-te muito pela ajuda. Como estava um tempo magnífico e um belo céu azul, sugeriu à Sra. Wilkens que confiasse, por um momento, o bebé a Berthie e viesse semear feijão. O que ela fez. Put encarregou-se das abóboras e quando, um pouco mais tarde, Toddy já estava cheio de sono para continuar, foi dar uma ajuda a Lucy com as batatas. Jip e Sheldon — “nós dois, eu e tu, Jip” — semearam aveia. E quando tudo acabou, os trabalhadores, cansados mas contentes, apenas tiveram de esperar pelas primeiras chuvas.
  62. 62. Quando elas começaram, Jip foi o único que continuou ocupado de manhã à noite. Dava milho às galinhas, ordenhava a vaca, tratava das ovelhas. Uma tarde particularmente chuvosa, encontrou o último cordeiro deitado junto da mãe, que balia lamentosamente: estava morto. Rápido, foi buscar uma pá e enterrou-o, esperando que Toddy não se apercebesse de nada. Depois, com o coração pesado e as roupas encharcadas, pegou no balde e dirigiu-se para o estábulo, porque se aproximava a hora de ordenhar. — Boa tarde, Jip. Posso chamar-te Jip, não é? Ficou petrificado. O desconhecido estava ali, a impedir-lhe o caminho, abrigado debaixo de um grande guarda-chuva negro. — Não o conheço — respondeu, com a boca e os lábios subitamente secos. — Não, ainda não. O homem esboçou um sorriso que pôs à mostra um dente de ouro. — Mas talvez eu te conheça. — Tenho muito que fazer. — Claro, meu rapaz, não te prendas comigo.
  63. 63. Afastou-se para deixar Jip passar. Depois, seguiu-o até ao celeiro, batendo a porta atrás deles, não sem antes ter fechado cuidadosamente o guarda-chuva. Jip foi buscar o banco que estava pendurado num prego, e instalou-se, protegido pelo flanco de Bonnie. Tinha a impressão de sentir o olhar do homem, de pé por detrás dele, a trespassar-lhe as costas. Durante um longo momento, o silêncio só foi quebrado pelo ruído do leite a correr para o recipiente e pelo crepitar da chuva sobre o telhado de tela ondulada. Quando o desconhecido pigarreou, Jip contraiu-se, julgando que se preparava para falar. Mas acabou por não o fazer. O recipiente encheu-se sem ele ter dito uma única palavra. Foi então que Jip, enervado por causa daqueles olhos de fuinha cravados nele, perguntou bruscamente: — O que quer de mim, afinal? — O que quero de ti? Ora aí está uma boa pergunta. — Porque é que anda por aqui às voltas, a meter o nariz em tudo? Sabia que não estava a ser nada delicado, mas era-lhe indiferente. O homem esboçou um sorriso. — Julgas-me mal, meu rapaz. Só quero o teu bem.
  64. 64. Jip teve vontade de responder: — Sim, tanto como um abutre quer o bem de um frango. — Mas conteve-se. — Só que — continuou aquela voz detestável — para poder ajudar-te preciso de saber alguma coisa mais. — Saber alguma coisa mais sobre quê? É certo que a Sra. Lyman já lhe tinha contado tudo o que havia para saber. — Queria certificar-me de que és a pessoa que procuro, a bem dizer, há muito tempo. Com a respiração cortada, Jip esperou que ele continuasse. Tinha a sensação de que, se estivesse calado, o estranho diria mais do que contava dizer. Lembrou-se dos conselhos de Put, recomendando-lhe que fosse prudente. Era agora ou nunca o momento de os seguir. O homem continuou: — Um dos meus amigos, um dos meus melhores amigos, para ser mais preciso... — Fez uma pausa e Jip quase rangeu os dentes de impaciência. — Como estava a dizer, um grande amigo meu teve a infelicidade de perder o seu único filho.
  65. 65. Calou-se de novo. “Tudo isso é charlatanice”, pensou o rapazinho. “Parece um vendedor ambulante, que tenta a todo o custo vender uma coisa que não interessa e vigarizar as pessoas para conseguir o que quer.” — Disseram ao meu amigo que o filho tinha morrido, o que o fez sofrer muito. Mandou até erigir um monumento de mármore no cemitério, em memória desse filho. Jip tinha acabado, há muito tempo, de ordenhar Bonnie, mas não saía do lugar. Limitou-se a afastar um pouco o balde, para a vaca não o virar com a cauda ou com as patas. Subitamente, o desconhecido pôs-se mesmo diante de Jip, a menos de dois metros, com a mão pousada no cabo do guarda-chuva como se fosse uma bengala. Esboçou um sorriso que fez tremer a criança da cabeça aos pés. — Sim, meu rapaz, um belo monumento de mármore. Impressionante. Mas, recentemente, chegou aos ouvidos do meu amigo um rumor de que, afinal, talvez o filho não estivesse morto. “Um vendedor ambulante, não”, pensou então Jip, durante o novo silêncio que se seguiu, “antes um daqueles charlatães que tentam impingir um medicamento
  66. 66. qualquer.” — Imagina o espanto do meu amigo. Será que ainda estaria vivo aquele filho que ele chorava tanto? Como poderia ter a certeza? Talvez fosse uma daquelas partidas cruéis que o destino gosta por vezes de pregar. Dar-lhe uma esperança vã para o encorajar por um momento; e depois lançá- -lo num desespero ainda mais profundo. Quem sabe... Apesar das suas resoluções, Jip sentiu algo estremecer dentro dele. Tinha imaginado muitas vezes essa cena em que o pai o chorava... Contraiu-se quando o homem prosseguiu: — Portanto, antes de se dar a conhecer àquele que poderá ser seu filho, precisa de ter uma certeza absoluta. As hipóteses de o filho estar vivo são ínfimas, mas se restar uma possibilidade mínima, é preciso explorá-la até ao fim. E é por isso que aqui estou. Nesse momento, fez um grande movimento com o braço, brandindo o guarda- -chuva, e Bonnie, aterrorizada, deu um longo mugido. Jip não se mexia. A ideia de poder ter um pai algures, decidido a reencontrá-lo, a amá-lo, era um sonho há tanto tempo acarinhado. Mas que esse pai tenha enviado
  67. 67. um mensageiro como aquele a abrir o caminho... Voltou a examinar a alta silhueta que o dominava, a fronte estreita, os olhos de fuinha, os lábios finos, por entre os quais brilhava o dente de ouro, as longas mãos finas de unhas pontiagudas. Não, nada daquilo podia pertencer a um homem honesto. — Então, Jip? Sacudiu a cabeça: — Não — respondeu em voz baixa. — Não posso ajudá-lo, nem a quem o mandou cá. — Não compreendo. — Compreende muito bem. Não tenho nenhuma lembrança do que pode ter-me acontecido antes de vir viver para a quinta. Esta é a minha casa, agora e nos tempos mais próximos. O homem inclinou a cabeça para melhor perscrutar o rosto de Jip: — E agrada-te continuar a viver assim? Se existir uma possibilidade, uma em mil, é certo, mas, ainda assim, uma possibilidade de teres direito a uma vida diferente, bem melhor...
  68. 68. Esboçou um sorriso e não acabou a frase. Jip levantou-se, pegou no balde e, num passo decidido, foi pendurar o banco no prego. Depois, dirigiu-se para a porta. — Que remédio senão habituar-me à vida que tenho, não acha? — disse, por cima do ombro. Agarrou na pequena tábua que costumava servir de tampa, pousou-a para tapar o leite e, sem se virar, saiu e atravessou o pátio debaixo de chuva. Quando chegasse à cozinha já se sentiria mais seguro.  Capítulo 6 : Tudo ficará bem Os tosquiadores de ovelhas chegaram, e depois voltaram a partir. Começava o verão. Jip não tinha muito tempo para pensar na visita do desconhecido e, das raras vezes em que isso acontecia, sentia um certo alívio perante a ideia de ter conseguido
  69. 69. desembaraçar-se tão facilmente daquela sombra sinistra. Enfim, um misto de alívio e de angústia subjacente e tenaz. Ainda supondo que houvesse uma possibilidade — o desconhecido tinha sublinhado que talvez fosse uma em mil, o que para Jip era sinónimo de nenhuma — sim, uma possibilidade, mesmo que ínfima, de que o pai realmente o procurasse, será que tivera razão ao virar as costas ao forasteiro, só porque o seu aspeto não lhe agradava? Apesar de tudo, ele não era o seu pai. “E eu, Jip, tenho de ser o filho perdido de alguém”, repetia para si mesmo. “Não nasci ao longo da West Hill Road. Fui cair ali, caí de uma carroça. Que carroça? E porque é que ninguém veio procurar-me? Pais dignos desse nome não teriam tentado saber o que foi feito de mim? Não teriam explorado, como o bom pastor do Evangelho, todas as terras vizinhas, na esperança de encontrar a sua ovelha perdida? Se fosse eu, era o que teria feito e, no entanto, uma ovelha é um animal desprovido de fala, não uma criança formada à imagem e semelhança de Deus.” Devia ter perguntado sem rodeios àquele forasteiro por que razão o seu misterioso amigo achava que existia uma possibilidade, ainda que uma em mil, de ele ser o seu filho. Jip lembrava-se de ter tido o cuidado de não falar da carroça, mas a Sra. Lyman devia tê-lo feito. Ela adorava contar aquela história. Disse para si mesmo
  70. 70. que precisava de encontrar um meio de a fazer falar da visita do desconhecido naquele dia em que ambos tinham tomado chá na cozinha. Visita essa sobre a qual, ao que parece, ela não tinha dito uma só palavra ao marido. Teria alguma relação com o aparecimento do homem no celeiro? Sim, forçosamente. Talvez mais tarde ela tivesse contado ao Sr. Lyman. E talvez não quisesse que os outros habitantes da quinta ficassem ao corrente. Talvez. Com o verão, Put passava melhor. As longas horas de sol pareciam ser-lhe benéficas, assim como às plantas, aos animais e aos outros homens. Prestava uma ajuda valiosa em todos os trabalhos da quinta. A Sra. Wilkens e Lucy obedeciam-lhe mais depressa do que a Jip. Fiel a si próprio, o Sr. Lyman nunca esteve presente quando era preciso trabalhar. Só na altura da visita do superintendente, é que ele se apressava a vestir as roupas mais usadas, arregaçava as mangas e ia a correr para o campo, ordenando a toda a gente, mesmo a Berthie e aos outros, que o seguissem. Jip não tinha coragem de incomodar os idosos. Aliás, eles não faziam praticamente outra coisa senão resmungar. Mas o Sr. Lyman gostava muito de mostrar ao Sr. Flint que, em casa dele, toda a gente, homens, mulheres, crianças, simples de espírito e loucos, tinham as suas obrigações.
  71. 71. — Olhem só para ele, nem capaz é de curvar aquele lombo enorme — resmungou Berthie, que mal baixava o seu. Foi um dia em que o Sr. Flint tinha vindo fazer uma inspeção. A idosa esperou que ele e o Sr. Flint se eclipsassem para irem beber uma golada de cidra, e brandiu as seis cenouras que segurava na velha mão enrugada. Jip não pôde impedir-se de as contar, quando ela as entregou, protestando: — Jip, meu rapaz, é certo e sabido que vou acabar por desmaiar debaixo deste sol tão forte. Este trabalho de escrava não é para a minha idade. — Está bem, Berthie, leva o que colheste à Sra. Lyman e vai ajudá-la um pouco na cozinha. Podes também tratar da menina, senta-a um pouquinho no teu colo, por exemplo. Na verdade, a menina tinha cada vez menos vontade de ficar no colo de quem quer que fosse... Um a um, todos os idosos encontraram uma desculpa para deixar o campo. Só ficaram Put, a Sra. Wilkens, Lucy, Sheldon e, está claro, Jip. Mesmo Toddy continuou a correr de um lado para o outro, a mostrar a cenoura que acabava de colher, para
  72. 72. receber os cumprimentos de toda gente. Jip tinha vergonha de dizer para consigo — baixinho, é claro — que se sentia quase feliz pelo facto do Sr. Wilkens ter deixado a família sem um soldo, condenando- -a assim a ir viver para a quinta. Adorava o pequeno Toddy e, embora a Sra. Wilkens e Lucy não fossem mais sorridentes uma do que a outra, trabalhavam na horta com uma energia feroz, tornando-lhe a vida infinitamente mais fácil. Quando só havia a ajuda de Sheldon, nunca as colheitas se tinham anunciado tão boas. O resultado era que, naquele verão, toda a gente teria mais de comer. Sem esquecer Put. Ninguém se esforçava tanto como ele. No início, o Sr. Lyman tinha-se recusado a deixá-lo sair da jaula, mas Jip pôs todo o empenho em convencê-lo: “Serei responsável por ele”, prometera, sabendo perfeitamente que, se uma daquelas crises de fúria se apoderasse de Put, seriam precisos pelo menos quatro homens para o segurarem. Mas ele parecia sentir-se tão bem com aqueles dias de verão, em nada se assemelhando ao louco chegado à quinta há três meses, que Jip começou a sentir a esperança de que estivesse curado. Disse- -o, aliás, ao próprio Put. Mas este sacudiu a cabeça:
  73. 73. — As crises vão e vêm, sabes? Também eu já pensei isso por diversas vezes, e afinal... — Consegue aperceber-se de que estão a aproximar-se, ou aparecem de repente sem prevenir? — Não sei, Jip. Penso que sem prevenir. Mas talvez tu consigas aperceber-te antes de mim. — Como? — Bem, posso, por exemplo, começar a dizer algo que te pareça estranho, mesmo que o diga de um modo normal. Se começar a desfiar palavras sem nexo, então é preciso que me feches o mais depressa possível. Sem esperar, entendes? — Sim, sim, percebi. — Mas prometes que não ficas à espera a ver se passa? — Prometo. E Jip ficou responsável pela liberdade de Put. Toddy também gostava muito do idoso. Pedia-lhe que o levasse às cavalitas e que cantasse ou tocasse flauta. Put tinha de repetir indefinidamente a mesma canção.
  74. 74. Mal a acabava, o rapazinho gritava-lhe: — Outra vez! Outra vez! — E, sem se cansar, mesmo depois de já ter cantado meia dúzia de vezes, Put, enquanto acariciava a cabecita loura, repetia, com uma voz tão clara como a da cotovia: É a morte, é a morte que se aproxima? Se é ela, em breve serei liberto, Liberto da pena e do sofrimento. Verei o rei da glória. Tudo ficará bem, tudo ficará bem. Podia ser uma canção sobre a morte, mas não era triste. Pelo menos, não da maneira como Put a cantava. Inclinava a cabeça para trás e, com os olhos fixos no céu, parecia contemplar com prazer a chegada da morte. — Outra vez! — gritava-lhe Toddy. E sempre pronto para lhe fazer a vontade, Put voltava a cantar: Não chorem por mim, amigos, Tudo ficará bem, tudo ficará bem!
  75. 75. Nenhuma nuvem aparecerá Para esconder Jesus da minha vista. Em breve subirei aos céus, Tudo ficará bem, tudo ficará bem! Pensaria ele realmente que tudo ficaria bem? Pobre Put, a quem a loucura rondava, como um gato selvagem prestes a saltar... A certa altura, notou o ar pensativo de Jip. — Não gostas da canção preferida do Toddy? — perguntou. — Sim, é bonita. — Muito bonita, de facto. Sabes, eu compreendo que na tua idade se possa achar estas palavras um pouco estranhas. Mas pensa em mim, no modo como vou receber esse dia em que serei liberto das penas e dos sofrimentos. Percebes o que quero dizer? — Mas não sente vontade de ficar mais um pouco entre nós? Put estendeu a mão para a pousar sobre o ombro de Jip.
  76. 76. — É disto também que é feito o Reino dos Céus — disse docemente. Jip, não muito certo do que aquelas palavras significavam, ainda assim sorriu. Percebia confusamente que Put lhe explicava desse modo que, graças a ele, os seus sofrimentos se tinham tornado um pouco mais leves, e isso já era muito. “Poderá ser da minha imaginação”, pensava Jip muitas vezes, “mas parece que quando as coisas estão melhores, o Sr. Lyman arranja sempre um meio de estragar tudo.” E eis que, em meados de julho, de manhã cedo, este mandou chamar o jovem à sala habitualmente reservada aos visitantes: — Bem, é o seguinte: estou agora com muita mão-de-obra na quinta. Jip esperou que ele continuasse. Iriam reexpedi-lo para a quinta de Slaytor ou enviá-lo para algum lugar horrível no mesmo género? Pressentia que aquilo que iria seguir-se não seria boa notícia. — Estamos com muita falta de dinheiro. Trabalho como um louco, mas não é suficiente. Os pensionistas comem os produtos do campo mais depressa do que eles crescem. E o que se retirou da venda da lã mal chegou para pagar aos tosquiadores. Preciso de alguém que ganhe o seu pão e nos traga algum dinheiro.
  77. 77. Jip absteve-se de intervir. Sabia que esse alguém só podia ser ele. Os outros eram muito jovens, ou muito velhos, ou muito fracos, ou não suficientemente espertos. — Estou a pensar no Sheldon... Sheldon? Mas ele precisava constantemente que lhe dissessem o que devia fazer. Era incapaz de se desenvencilhar sozinho. — É forte como um touro. Capaz de levantar um carneiro de cinquenta quilos. — Sim, mas... — Já combinei tudo com Avery. Concordou em mandá-lo trabalhar na pedreira. No início não lhe vai pagar muito, mas, quando o rapaz começar a ter experiência, dá-lhe um aumento. Sheldon? Mas Sheldon não sabia dar um nó numa corda sem correr o risco de se enforcar com ela... — Sim, bem, eu sei que há quem não se habitue a esse género de trabalho. Dizem que o barulho lhes faz vibrar os miolos. Mas pelo menos isso não incomodará Sheldon, porque miolos, ele não tem lá muitos para poderem vibrar.
  78. 78. E o Sr. Lyman, encantado com a sua piada, pôs-se a rir, dando pequenos toques na cabeça. Jip estremeceu. Tinha uma noção dos enormes blocos de granito que era preciso deslocar, ouvia o estrondo das explosões e imaginava bem a nuvem de pedras e de poeira que se abatia em seguida. Era preciso saber proteger-se para trabalhar em semelhante local. — Quando tiveres acabado de mungir a vaca, vais levar Sheldon lá baixo, percebeste? — Ele sabe ir sozinho, não é isso que me inquieta — respondeu Jip, tentando que a voz não traísse a emoção que sentia. — Mas depois não vai ser capaz do perceber as ordens que lhe derem. — Oh, há de saber levantar pedras, isso basta. E, com um gesto da mão, o Sr. Lyman mandou-o embora. Sheldon ficou tão orgulhoso quando soube que tarefa lhe caberia de futuro, que Jip disse para consigo que talvez estivesse a inquietar-se demasiado pelo amigo. — Olha, vou levar o meu almoço para o trabalho. Pão e queijo. E uma maçã. — Muito bem, Sheldon.
  79. 79. — E uma cabaça com água. — Claro. Para quando tiveres sede. — Vou ganhar dinheiro para todos vocês na quinta. Nunca ganhei dinheiro antes. — Sabes, eu também não. — É verdade? — É. Ainda não sou suficientemente crescido. — És bom rapaz, Jip... — Sheldon... Como dizer-lhe certas coisas sem lhe causar medo? — Sheldon, é preciso que ouças com muita, muita atenção, o que te disserem para fazer na pedreira. — Prometido. Mas o certo é que ele não ouvia nada de nada. Estava muito ocupado com a partida, a meter num balde o pão, o queijo, a maçã e a cabaça. — Sheldon, por favor, é importante. Quando te disserem “faz isto” ou “não faças aquilo”, tens de obedecer. É perigoso, lá em baixo.
  80. 80. — É um trabalho de homem. — Sim. E um homem presta muita, muita atenção ao seu trabalho. Sobretudo na pedreira. Ouves o que te digo? — Sim. Vou fazer tudo o que me disserem. — Prometes, Sheldon? — Prometo, Jip. Do fundo da horta, Jip viu o sol poente tingir de ouro as árvores, os campos e, ao longe, a pedreira de granito. A hora do jantar tinha passado havia muito e Sheldon não regressava. Lucy e Toddy já tinham sido mandados para a cama. De repente, uma silhueta curvada que avançava lentamente apareceu no caminho. Jip precipitou- -se ao seu encontro. — Então como foi, Sheldon? — Um verdadeiro trabalho de homem, lá isso foi. — Estás muito cansado? — Dói-me o corpo todo.
  81. 81. — É porque tiveste um dia muito duro. Ouve, se for muito pesado para ti, diz- -me, que eu falo com o Sr. Lyman. Talvez possa... — Não, quero continuar a ir todos os dias. Precisam de mim. E o pobre inocente endireitou as costas com orgulho. Não era o único habitante da quinta a ganhar dinheiro para todos? Jip não insistiu. Não voltou a falar dos seus receios senão a Put. — Sinto um medo enorme por ele. Não creio que o Sheldon tenha o menor sentido do perigo. — Sim, é perigoso, na verdade. Mas gosto mais do que trabalhar no campo. — Não sabia que já tinha estado lá em baixo. — Não durante muito tempo. Tive uma crise. Então, acorrentaram-me e levaram-me para outro lado. Parece que havia o perigo de eu ferir alguém. — E o Sheldon, então? — Não fará mal a ninguém. Mas receio, tal como tu, que lhe aconteça alguma coisa. Jip tremeu da cabeça aos pés ao ouvir isto. Porém, vários dias passaram e,
  82. 82. quando Sheldon regressava à noite, esgotado, mostrava-se sempre transbordante de orgulho ao falar do “seu trabalho”. Bem, parecia que as coisas iam correndo, apesar de tudo, e Jip acabou por se convencer de que não tinha razão ao comportar-se como uma verdadeira mãe-galinha. Depois, nunca viria a saber se aquilo que tinha ouvido era real ou se teria sido fruto da sua imaginação. Mas, na mente dele, o barulho de uma carroça no caminho ficaria sempre associado à voz de Put a cantar para Toddy: Tudo ficará bem, tudo ficará bem. Tinha acabado de dar meio-dia. Uma hora pouco habitual para uma visita. Meu Deus! Jip lançou-se em direção à carroça que se aproximava da quinta. O pastor Avery estava sentado ao lado do cocheiro, com ar sombrio. Impossível de ver o que vinha atrás mas, no fundo do coração, Jip já o sabia. — Sr. Avery, Sr. Avery! — gritou. — O que é que traz aí? Como resposta, um estalar de chicote fez acelerar os cavalos e ele teve de voltar para trás, com as pernas pesadas como chumbo. Chegou ao pátio no momento em que o Sr. Lyman aparecia na soleira da porta. O pastor pôs-se de imediato a
  83. 83. vociferar. — Venha ver o que fez! — Fiz o quê, Sr. Avery? — O seu idiota, veja o que restou dele! Foi um milagre que só se tenha feito explodir a ele! — Foi o senhor que quis utilizá-lo na pedreira — berrou o Sr. Lyman. — Eu nunca o teria feito. Tinha necessidade dele aqui! Era um bom trabalhador! E agora, tudo o que vou tirar disto é a despesa de um enterro! Mas, tenha a certeza, é você quem vai pagar! — Tente obrigar-me e verá! Digo ao Sr. Flint que você me mandou um cretino, quando eu tinha necessidade de um bom operário! Os gritos de ambos zuniam à volta da cabeça de Jip como um enxame de vespas. Levantou os dois braços como para se proteger. Depois, aproveitando um instante em que ninguém estava a ver, saltou para a carroça, no intuito de olhar o que restava do seu amigo. É a morte? É a morte?
  84. 84. Oh, se ao menos conseguisse acreditar que o pobre Sheldon se libertara das suas penas e sofrimentos... Mas não era fácil imaginar os santos lá em cima, no Paraíso, a afinar as suas harpas no momento em que ele atravessava o portão de pérolas. Nem vê-lo com uma auréola a cantar o Aleluia. Jip lançou-se sobre o pedaço de tela grosseira que encobria os restos já frios do seu amigo e pôs-se a chorar como nunca tinha chorado na vida.  Capítulo 7 : As águas negras do Jordão O comité dos notáveis reuniu-se para decidir quem da vila, da quinta ou de Avery deveria pagar as despesas do funeral de Sheldon. Coube finalmente ao pastor, o que significava uma verdadeira cerimónia e não um enterro à pressa, como sempre acontecia com os pensionistas da quinta. Discutiu-se longamente para se saber se Put teria autorização de assistir. Por fim, o Sr. Lyman decidiu que não, não e não, que devia ficar fechado à chave com
  85. 85. duas voltas na sua jaula, era mais prudente. Da cozinha, a Sra. Lyman aguçaria o ouvido para verificar se ele ficava tranquilo. — Garanto-lhes que vai portar-se bem — protestou Jip. — Ele tem de estar connosco. — Toda a gente sabe que ele é doido. Ninguém se contentará com a tua garantia. — Não te preocupes, Jip, não tem importância — disse Put, quando o rapazinho veio dizer-lhe. — Tu e Toddy ides cantar muito alto no meu lugar. — Sabe que não sou capaz de cantar. — Não, pelo contrário, és perfeitamente capaz. Há música dentro de ti, Jip. Deves deixar que ela saia. Para grande pena de Jip, não cantaram Tudo ficará bem durante o ofício. Esforçara-se tanto por imaginar Sheldon no céu, rodeado de anjos a tocar harpa... No seu lugar, cantou-se um hino um tanto lúgubre, onde se falava das águas negras do Jordão que me rodeiam. Isto fê-lo estremecer. Não queria ver o pobre rosto do seu amigo, tão bom, tão sorridente, engolido pelas águas geladas...
  86. 86. Por uma vez, os habitantes da quinta não tinham sido relegados para o fundo da igreja, como acontecia habitualmente. Ocupavam os bancos das duas primeiras filas, Jip sentado ao lado de Toddy, apertando-lhe a mão pequenina. Reconfortava-o sentir o menino junto de si, porque, embora só tivesse quatro anos, parecia muito consciente da tristeza que ele estava a sentir. O Sr. Lyman devia ter autorizado Put a ir. Praticamente, nenhum habitante da cidade se deu à maçada de se deslocar. Ele não teria causado medo a ninguém. Aliás, excetuando os pobres da quinta, quem teria sentido necessidade de vir chorar a morte de um simples de espírito? Ah, que importa? Sheldon devia ter ficado orgulhoso de tão bonita cerimónia, com hinos e orações e até um pequeno discurso do reverendo Goodrich, que explicou que Jesus o amava. Deixai vir a Mim os pequeninos, dissera, e Sheldon, com a sua alma de criança, tinha certamente ido ao Seu encontro. Não se devia chorá-lo demasiado. O reverendo Goodrich falava bem, com os olhos fixos no grupo de fiéis, mas Jip disse para consigo que mais valia que Sheldon não o ouvisse. Ele sentia tanto orgulho por se ter tornado um verdadeiro trabalhador! E foi por isso que morrera. Aquele desejo tão ardente de já não ser uma criança, mas um adulto, tinha sido a sua morte.
  87. 87. Tudo acabou depressa. Após a última bênção, seis homens, que o reverendo mandara vir propositadamente, levantaram o caixão. Tirando Jip, não havia mais ninguém para o fazer. Arrastando um pouco os pés, os habitantes da quinta seguiram-nos até ao cemitério. Constituíam a única família que Sheldon alguma vez tivera. Toddy agarrava-se sempre à mão de Jip. Ninguém chorava, exceto a velha Berthie. Dava a impressão de que lhe tinham pago para isso, tanto soluçava para o seu enorme lenço, como se tivesse acabado de perder o seu filho único, ela que nunca se tinha preocupado com Sheldon quando ele era vivo. “Enfim, contanto que alguém chore...”, disse Jip para consigo. “O meu amigo Sheldon merece-o bem.” De regresso à quinta com os que estavam ainda em condições de fazer o trajeto a pé, e isso queria dizer os Wilkens, Jip deixou vaguear o pensamento. Tanto lembrava o amigo a apanhar os ovos ou a arrancar as ervas daninhas, como revia o seu corpo destroçado e o montículo de terra no cemitério. — Levas-me, Jip? Pegou no garoto e colocou-o sobre os ombros. — Agora canta!
  88. 88. — Não sei cantar, Toddy. Pede ao Put. — Não, tu! Canta A Alegria divina e o cordeiro! Jip tinha ouvido tantas vezes aquele hino que o sabia todo de cor. Mas falava sobretudo da morte, e ele preferia concentrar-se em algo de diferente. Toddy bateu- -lhe na cabeça com os seus pequenos punhos: — Canta o cordeiro, Jip! E Jip entoou: Venho ao vosso encontro Juntar-me aos vossos cânticos Salvo, salvo pela graça, Tudo é paz e alegria divina. A glória e os céus abrem-se para mim Aleluia! Cantemos o Cordeiro, Tudo ficará bem, tudo ficará bem! Com toda a força, Toddy repetiu: — Tudo ficará bem! Depois gritou: — Outra vez!
  89. 89. — Acreditas mesmo que o Sheldon está a cantar o Aleluia com os anjos? — perguntou subitamente Lucy, que durante toda a manhã não tinha dirigido a palavra a ninguém. Agora, olhava para Jip de frente e levantava a questão que o afligia também. — Julgo que sim — conseguiu este responder. Esperava em segredo que no céu houvesse realmente cordeiros. E não só o Cordeiro de Deus. Conhecia bem os carneiros, sabia-os teimosos e estúpidos, mas, apesar disso, gostava deles. Seria muito vazio lá em cima se não existissem, pelo menos, alguns a passear. Zelosamente, deu conta a Put de todos os pormenores do serviço religioso, e nem sequer omitiu a pergunta de Lucy. — Put, acredita que Sheldon está no céu? As harpas e o resto não me interessam muito. Queria ter a certeza de que, no sítio onde está, há alguém que cuida dele e o trata como homem. Ele queria tanto que o considerassem um homem. — Tudo ficará bem, Jip, é apenas o que sei. — Julgo que é quanto basta.
  90. 90. Não ficou muito admirado quando, naquela noite, ao entrar no estábulo, se deparou com o forasteiro, que estava à espera dele. — Não lhe disse que gosto da minha vida tal como é? Porque veio aborrecer-me outra vez? Jip sabia que não se deve falar aos adultos desta forma, mas aquele homem não se parecia com nenhum dos adultos que conhecia. — Não tem nada mais importante em que pensar? O desconhecido sorriu, esticando os lábios finos um pouco à maneira de uma serpente que se prepara para morder. — Oh, quando viajo é sempre por alguma coisa de importante. Mas, como passava por aqui, disse para comigo que já tinhas tido tempo de refletir naquilo que te contei. — Disse-me que talvez só houvesse uma possibilidade em mil. Até eu sou capaz de perceber o que isso significa. — Jip absteve-se de precisar que tinha consultado Put, para ter mesmo a certeza. — Isso significa que não há praticamente
  91. 91. possibilidade nenhuma. — Esperto, hein? — Outra vez o mesmo sorriso. — Mas não desejas ter a certeza absoluta? Jip pegou no banco e acariciou o flanco da nervosa Bonnie. Era preciso acalmá-la um pouco antes de começar a mungi-la. — Não tens mesmo vontade de saber? Jip agarrou nas tetas inchadas e fez como se não tivesse ouvido nada... — Não? Bom, há alguém que deseja saber. Alguém de muito importante. Apesar de todas as suas resoluções, Jip sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Mas conteve-se. Não ia deixar que aquele homem asqueroso lhe fizesse engolir qualquer patranha. — Pediu-me para te levar a um local onde pudesse ver-te, olhar bem para ti. Se não fores quem ele procura, nem te dirigirá a palavra. Mas se fores... — E porque é que ele não vem até cá? Se é alguém de tão importante assim, pode muito bem fazê-lo, não? Porque tem medo de se encontrar frente a frente comigo?
  92. 92. — É mais complicado do que tu julgas, não sei se poderias compreender. — Então é complicado demais para eu me preocupar. O homem nada respondeu. Ficou por um momento em silêncio, como se estivesse a ouvir os ruídos do estábulo — o arrulhar das pombas, o jato de leite a cair no balde. Ao longe, ouviu-se de repente Put elevar a voz. Toddy devia ter andado à volta da jaula e insistido que cantasse. — No que me diz respeito, pode ir embora e voltar a ocupar-se dos seus importantes negócios. Mas o desconhecido não estava a ouvir Jip. Com o olhar subitamente fixo, parecia inquieto: — O que é aquilo? — acabou por murmurar. — É a morte? É a morte? — clamava o cantor. — Oh, aquilo! — respondeu Jip com um ar propositadamente indiferente. — Não é nada. Apenas o nosso louco. Ele adora música. — O vosso louco? — Sim. A maior parte do tempo está fechado numa jaula.
  93. 93. — Então é perigoso? A situação estava a tornar-se divertida. — Não…enfim, contanto que esteja fechado... Tivemos o cuidado de lhe construir uma jaula bem sólida. Atá agora, ainda não foi capaz de a quebrar. — Tenho a impressão de que a tua vontade é ires embora daqui, hã? — Oh, não, contam muito comigo. Sou o único que consegue acalmar o nosso louco quando ele se excita. Pergunto-me o que se passaria se eu cá não estivesse. E de certeza que ele não havia de gostar que me aborreçam. Jip levantou a cabeça e obrigou-se a olhar o homem bem de frente, com um ar subitamente amável. — Sabe como são os loucos — acrescentou deliberadamente. O homem empalideceu. “Ele sabe”, compreendeu “Ele sabe e morre de medo. Não de Put, mas de outra pessoa qualquer. É por isso que já nem tem palavras.” — Bem — acabou por acrescentar o desconhecido, depois de ter enfiado o chapéu na cabeça. — Eu... eu hei de voltar, mas talvez não tão cedo. Tenho negócios a tratar aqui e ali, sabes, o que me obriga a andar de um lado para o outro. Enquanto
  94. 94. esperas, reflete mais um pouco, meu rapaz. Dirigindo-se para a porta, estremeceu por duas vezes. “Está verdadeiramente apavorado”, disse Jip para consigo e, se se tratasse de outra pessoa, teria sentido pena. Mas, naquele caso, não. Foi na verdade um pouco aborrecido ter falado assim de Put, mas de certeza que este último compreenderia. E a sua presença tornara-se uma espécie de proteção, o que não era de desdenhar. Jip observou o homem a afastar-se o mais depressa que podia, e pôs-se a cantarolar. Teria de facto música dentro dele, como pretendia Put? Ia acabar por acreditar. Uma melodia antiga, quase esquecida, subia à superfície, como pequena ondulação a afagar o rio quando se lança uma pedra à água. Que tarde estranha! As águas do Jordão que engoliam Sheldon. As águas do Jordão... Subitamente, Jip estremeceu da cabeça aos pés. Era mesmo isso, a pedra atirada à água, uma canção de que não conseguia lembrar-se e em que se falava do Jordão. Com um suspiro, foi pendurar o banco no prego e saiu do estábulo. O balde estava cheio. Apesar de tudo o que viera perturbar-lhe a calma, Bonnie tinha feito o
  95. 95. melhor que podia. Os animais eram tão bons! De certeza que Deus haveria de os querer no céu. Ser-lhe-iam de certeza mais úteis do que todos os anjos a tocar harpa. — Quem era aquele tipo? Jip teve um violento sobressalto. — Lucy! O que estás a fazer aqui? — Tenho o direito de andar por onde quero. Isto aqui é a quinta dos pobres, não uma prisão. — Assustaste-me, só isso. — Quem era aquele tipo que falava contigo no estábulo? — Não sei. — Como é que não sabes? Respondeste-lhe, que eu bem ouvi. — Não te julgava capaz de espiar. Bem, bem, não te zangues. É verdade, não sei. Ele acha que sabe alguma coisa do meu passado. — Oh! E não tens vontade de saber o que é? — Sim, claro. Mas tenho a impressão de que se pode confiar tanto nele como
  96. 96. numa raposa dentro de um galinheiro. Tenho a certeza de que não tem boas intenções. E não sei o que pretende. Portanto, disse-lhe que me deixasse em paz. Lucy pôs-se a andar ao lado dele, como se fossem velhos amigos habituados a discutirem os problemas um com o outro. Era uma sensação muito agradável. — De facto, foi Put que me ajudou a ver-me livre dele. — Put? Mas Put está dentro da jaula a cantar para Toddy. — Eu sei, mas foi precisamente quando o tipo ouviu a voz dele que ficou branco como a cal. Lucy encolheu os ombros: — Mas era precisamente a canção que Toddy passa o tempo a pedir. — Eu sei. Mas, de repente, senti vontade de inventar umas coisas, sobretudo ao ver que ele morria de medo. Disse-lhe que era o nosso louco, que o mantínhamos fechado numa jaula, da qual ele poderia muito bem sair um destes dias. Lucy deitou a cabeça para trás e desatou a rir. Jip achou aquilo maravilhoso. Olhou para ela e disse suavemente: — Gostei de te ouvir, sabes? Aqui é raro as pessoas rirem.
  97. 97. — Não há muita razão para isso — respondeu. — Sei o que as pessoas dizem do meu pai, ou seja, que era um bêbedo e um inútil. Mas sabia fazer-me rir. — Não se é inútil quando se é capaz de fazer alguém rir. — É verdade? Lucy abriu a porta da cozinha e segurou-a para deixar Jip entrar. — Não era inútil coisa nenhuma. — De certeza que não — disse — E por vezes não consigo compreender como é que as pessoas podem ser tão ignorantes. Tratavam Sheldon como um idiota e dizem que Put é louco. Mas nós sabemos que não é verdade e, no entanto, somos apenas crianças. Ela sorriu-lhe com um olhar reconhecido e, um pouco mais tarde, segurou o pedaço de pano que servia para filtrar o leite. Jip disse para consigo: “Vamos tornar- -nos amigos”, o que o aliviou um pouco do peso que sentia no coração devido à morte de Sheldon. 

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