Eu, Daniel, engraxador de sapatos
Introdução
No dia 24 de outubro de 1929, quinta-feira, a Bolsa de Nova Iorque ruiu. Não houve
vidros estilhaçados, soalhos...
1
Terça-feira, 18 de outubro de 1932
Não pretendo ser um anjo. Aborrecimentos, já tive muitos; mas, até agora, nada
de gra...
Eu ria à socapa: pelos meus cálculos científicos, tinha a certeza de que ia ganhar.
Disse-lhes que estavam longe da quanti...
aquele velho caranguejo (tem no mínimo trinta anos). Ergueu-me pela gola do casaco,
fiquei de pés a abanar como um espanta...
“Na tua idade, fazia isto. Na tua idade, não fazia aquilo.”
E, além disso, põe o nosso nome nos píncaros.
Garvey é um nome...
deeiros já estavam acesos. Nas ruas, havia homens reunidos a discutir e a fumar,
como todas as tardes. Crianças brincavam ...
A certa altura, levantou os olhos. O meu coração deu um pulo. Era mesmo o Sr.
Smey.
Pois é! Sabia que muitos professores f...
passou mesmo ao meu lado e até me assustei ao ouvir os cascos dos cavalos a bater
no chão. Viraram para o túnel da Rua 107...
Depois da queda da bolsa, toda a gente ficou como louca. As pessoas suicidavam-
-se. Todos os dias havia quem se atirasse ...
Os acordes de jazz ouviam-se da rua. Agora, a minha mãe já não quer que se vá
passear para Harlem. Diz que é muito perigos...
White. — Dão-vos abrigo por um ou dois dias, o tempo de procurarem qualquer coisa.
O pai de Luther disse que sim com ar mu...
correm o risco de serem despejados: a mãe é a porteira do prédio e, como tal, não
têm renda a pagar.
Ao verem-me chegar so...
palha. E Marion, é claro: só tem dezoito meses. Ao passarmos pelo hall, dei uma
olhadela à caixa do correio: a correspondê...
A minha mãe está sempre a cantar quando passa a ferro. Diz que ajuda a passar
o tempo. E Deus sabe quanto tempo ela passa ...
corajosamente com o cheiro do Lysol que vinha do rés-do-chão. Mas nem o barulho
nem o cheiro desviaram a atenção do sargen...
Pus-me a olhar em volta. As imagens, os crucifixos, os quadros de Jesus e de
Maria fixavam-me todos com ar desolado, olhos...
Cada vez que se levanta é uma aventura, porque foi há muito pouco tempo que
aprendeu a andar sozinha. Começa por se apoiar...
desculpa pela desordem que reinava na casa. Qual desordem? Claro que ela estava
morta de curiosidade para saber que asneir...
e comida… Mas não temos meios. Mesmo nós, só Deus sabe até quando...
Uma olhadela rápida na minha direção e calou-se. Poré...
Mas gostava mais de me parecer com ele, juro…
Oh, a minha mãe é muito linda, mas sardas e cabelos ruivos ficam melhor numa...
Depois de jantar, acendia o cachimbo e punha-se a ler o jornal. Quando veio da
Irlanda, o meu pai não sabia ler. Frequento...
Desta vez, ao subir as escadas, os seus passos não se tornaram leves ao chegar
ao terceiro andar. E quando abriu a porta n...
as pupilas tornam-se frias como gelo e as narinas tremem como as de um cavalo
selvagem.
Durante o discurso de Finnegan, a ...
O meu pai pegou-me pelo queixo e obrigou-me a fixá-lo nos olhos.
— Diz-me lá de quem se trata, Danny.
Aguentei o seu olhar...
do assunto, acredita.
— Não duvido.
Finnegan pegou no chapéu, despediu-se da minha mãe e foi-se embora.
Num silêncio de mo...
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Pelo caminho o meu pai não abriu a boca. Dava grandes passadas e eu ia atrás.
Sentia uma vontade terrível de lhe falar m...
meu pai. Segui-o assim, sempre calado, até à Rua 102, onde parou diante de um
prédio semelhante ao nosso (o que não é muit...
procura de um telhado para dormir…
Nas escadas, pequenas lâmpadas elétricas emitiam, em cada patamar, uma luz
amarelada, o...
-nos… A porta entreabriu-se a ranger e uma senhora baixinha de cabelos brancos
deitou a cabeça de fora.
— Quem é? — pergun...
A coxear nas suas pantufas desadequadas, o velho Weissman achava-se sentado
à mesa, com um pulôver remendado, e tendo na c...
Então decidi falar.
— Sr. Weissman — disse eu, muito corado — sei que fiz uma coisa muito má,
mas não sou nenhum vadio. Os...
— É o que eu disse — insistiu o Sr. Weissman. — És um vadio!
— Eu não sou nenhum ladrão nem nenhum vadio!
— Isso é o que t...
côdeas de pão e alguns frutos numa taça que não tinham aspeto de frescos.
A Sr.ª Weissman trouxe-nos dois copos de chá fum...
— Estou a ver… com uma menina, não é?
— Exatamente.
— E… têm para comer, senhor Garvey?
Perante estas palavras, e pela pri...
bastava. E a minha mãe precisava daquele dinheiro. Então propus a última hipótese
que me restava:
— Posso ir trabalhar par...
E estendeu-lhe a mão. O meu pai apertou-a com força.
O negócio estava concluído.
Então o velhote virou-se para a mulher a ...
acompanhado, mas como ainda tinha deveres por fazer, ele não me deixou: considera
os deveres escolares como uma espécie de...
Senti uma mão pousar no meu ombro. Sobressaltado, virei-me e empurrei com
quanta força tinha aquele corpo enorme que me am...
batida fechados por uma barreira de madeira. Mas, à noite, nunca ninguém lá vai e é
o lugar ideal para meditar em paz.
Alg...
longo da fachada. Pensei em quem lá vivia há muito tempo, quem ainda não tinha
sido expulso… Havia também os que tinham pa...
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Ao entrar no prédio, com a obscuridade densa a envolver-me, senti medo. Acendi
a fraca luz amarela e subi as escadas qua...
possível. Apertei as calças, esperei um pouco antes de abrir a porta, não estivesse
alguém à espera para me matar, e desat...
— Assim espero, meu querido — respondeu, apertando-me muito e beijando-me.
— Mas agora, tens de jantar. Senta-te.
Tinha de...
nem Kitty estavam lá. Não tinha vontade nenhuma de lhes falar. Os pequenitos
olharam para mim a arder de curiosidade, mas ...
morrerem de frio durante a noite. Às vezes, a brincar, Maggie diz que acorda exausta
com o peso de tanta roupa.
Como já di...
pelo pecado? E se até lá eu morresse? De certeza que ia para o inferno… Foi então que
resolvi tentar um truque que Luther ...
— Sabes o que quero dizer. Não há trabalho para mim em Nova Iorque, e não
haverá durante muito tempo. Não posso ficar sem ...
— Mas é precisamente por eles que tenho de partir. Bem vês, Molly: o Danny
nem sabe distinguir o bem do mal, e como é que ...
escorressem pela cara até às orelhas. Acabaram por secar e suportei os traços frios e
salgados delas no meu rosto.
Mesmo c...
Esfreguei os olhos, tão admirado como ele, ainda tonto de sono… e depois
lembrei-me de tudo. Olhei para o meu pai que esta...
— Tem de ser, meu filho. Aqui, não consigo arranjar trabalho.
Num relance, revi todas aquelas noites em que, sendo eu pequ...
sair de casa de estômago vazio. Não há pressa.
Tempo, na verdade, não tinha lá muito.
Antes das aulas ainda tinha de ganha...
Entreguei Maureen à minha mãe e peguei na caixa.
— Não chegues tarde à escola, muita atenção — recomendou a minha mãe.
— P...
Àquela hora, a cidade ainda dormia. Apenas um polícia se debatia para expulsar os
vagabundos que dormiam nas entradas de p...
vais manter-te sempre afastado desses gémeos Sullivan.
— O que queres dizer com isso? Não estou a entender…
— Não penses m...
— Não faço ideia, Danny. Irei sempre em frente, a ver se arranjo trabalho. Talvez
apanhe o comboio.
— Tem cuidado, pai.
— ...
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Normalmente o meu trabalho de engraxador não me aborrece. Gosto de sair de
manhã com a caixa e ver o despertar da cidade...
— Quanto custa, rapaz?
— Cinco cêntimos, senhor.
Com um aceno de cabeça, afastou-se. Apressei-me a rever o meu preço.
— Tr...
até a mim me surpreendeu: impossível notar a diferença, a não ser que se olhasse
para os pés a menos de cinco centímetros....
— Eh! Ó miúdo!
Um indivíduo espadaúdo, de ar grosseiro, com mais de trinta anos, a oscilar os
ombros, vinha na minha direç...
Enquanto falava com ela, tentava convencer-me a mim próprio, o que não era
fácil.
Deu-me um beijo na testa.
— Não duvido, ...
tantos anos! É uma velha amiga…
Interrompeu-nos um enorme alarido. Era a tribo Riley que descia as escadas, um
lindo ranch...
— Vá lá, não te zangues.
Sabia que não me ia deixar em paz, enquanto não soubesse tintim por tintim o
que se tinha passado...
Puxou Kitty pelo braço e lá foram as duas. Mickey e eu seguimo-las da soleira da
porta.
Maggie dava ordens aos mais pequen...
revolvidas pelo vento, voavam-lhes à volta dos joelhos.
Mickey deu-me uma cotovelada.
— A tua velha amiga Maggie e a irmã ...
— Hein? Responde! — insistiu Frank, agarrando-me pelo colarinho.
— Está quieto, palerma, não te metas — ordenou-lhe o irmã...
mais astuto do que os teus adversários.
A primeira vez que assim me falou, senti-me um miserável, como se fosse um
pecado ...
— Tu hás de pagar-mas, Garvey.
— Vamos, vamos — interrompeu o Sr. Whitelaw. — Parem imediatamente.
E mandou-nos para as au...
realidade, não lhe interessa para nada a nossa opinião. A única coisa que conta é o
seu ponto de vista. É por isso que não...
— Olá, Dan!
Era a voz de Mickey, que interrompia as minhas reflexões.
— O que é?
— O Luther falta, já reparaste?
Dei um su...
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Fui obrigado a ficar depois das aulas para conjugar em todos os tempos e modos
a expressão: «estar atento na aula». Cla...
— Sim, sim. Eu sei que és um anjinho. Bem, finges que és. Veremos.
E, enquanto falava, sacudia o bolso do casaco.
Mostrou-...
— Bom. Agora abre este caixote e arruma as latas de conserva naquela
prateleira, lá em cima.
— Posso utilizar a escada?
De...
— Sr. Weissman!— vociferou ela numa voz autoritária e aguda. — Há um verme
na sua farinha. Um verme!
— Bom dia, menina Per...
— Sr. Weissman, não se ponha a troçar de mim.
— Longe de mim tal ideia, menina Perkins.
— Exijo um saco de farinha novo — ...
— Toma — disse-me ele entregando-me o saco. — Tira o bicharoco e deita a
farinha na arca.
— Na arca?
— Claro! Não vais dei...
a porta tilintou. A Sr.ª White entrou e ficou muito embaraçada por me encontrar ali.
— Olha o Danny… Mas o que fazes aí at...
— Com certeza. Obrigada.
Tinha aberto o livro na folha do “W” e ia dizer a quantia, quando chegou o Sr.
Weissman, vindo do...
Também a Sr.ª White estava admirada.
— Deve haver aí algum engano. Eu… Bem, acho que deve ser mais do que isso,
Sr. Weissm...
Acompanhou-a gentilmente até à porta, e ali pegou num punhado de gomas de
alcaçuz e entregou-lhas:
— É para as crianças!
A...
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Hoje jurei que nunca mais voltava a roubar.
Morria de fome ao fim da tarde, e então surripiei um punhado de amendoins,
...
ela podia intervir na minha história.
— Quem? — perguntei.
— Ele — respondeu o Sr. Weissman, apontando outra vez para o te...
que está na caixa registadora…
— Ponha isso na minha conta — dizem todos, e os algarismos sobem no registo
das compras a c...
— Ajuda o seu querido velho Weissman, hein? Que lindo! Não achas, Frank?
— Sim — disse Frank.
— Que querem? — perguntei nu...
Eu nem acreditava. Era mesmo o momento ideal para me deixar sozinho! No
entanto, ele bem sabia que os Sullivan queriam sar...
-lo, Frank?
— Vamos a isso.
Agarraram-me, cada um por seu braço, e levantaram-me como uma pluma. Mas
eu, rápido como um ra...
Não respondeu. Limitou-se a cofiar a barba, sem parar de sorrir. Então de
repente, percebi.
— Fez isto para me experimenta...
Dobrei-me sufocado e a tossir. Frank (era ele, sem dúvida) soltou-me os pulsos e
arrastaram-me para uma ruela escura, apro...
— Desculpa!
Gritei tão alto como ele, com raiva. Continuava a torcer-me o braço.
— Tem mesmo ar de quem não está a pensar ...
— Olá, Mickey. Folgo em ver-te.
Harry e Frank não se mostraram intimidados.
— Não tens nada a ver com o assunto, Crowley —...
começou a choramingar, mas o irmão fê-lo calar com um murro no estômago:
— Cala a boca ou apanhas.
De repente senti pena d...
— Foi o meu pai que a confiscou a um tipo ontem à noite.
— Foste maluco ao teres trazido isto! Se sabe, esfola-te vivo.
— ...
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No dia 24 de outubro de 1929, quinta-feira, a Bolsa de Nova Iorque ruiu. Não houve vidros estilhaçados, soalhos a voar em pedaços, nem paredes destruídas; porque não era o prédio que se desmoronava, mas os algarismos que sustentavam toda a estabilidade económica dos Estados Unidos.
Nos escombros desta catástrofe sem precedente, muitas vidas humanas se perderam. Em 1932, perto de quarenta por cento da população branca ativa americana encontrava-se sem trabalho e sem rendimentos, bem como cinquenta e seis por cento da população negra.
As crianças que cresceram durante a década da Grande Recessão ficariam marcadas para sempre pela pobreza, pelo desespero e pela humilhação que assolaram a nossa sociedade.
A minha mãe foi uma dessas crianças. Abandonada pelo pai em pleno coração da crise, com um irmão e sete irmãs, foi educada pela minha avó, uma pequena irlandesa corajosa que, para manter viver a sua família, pouco mais tinha do que a força do seu amor. Durante toda a minha infância, aquando das reuniões de família, ouvi contar incansavelmente as peripécias destes tempos difíceis Mas nesses relatos não havia amargura. Transparecia o entusiasmo e as gargalhadas de uma família a quem a adversidade tornara mais forte e mais unida.
Foi esse espírito indomável que inspirou este livro.

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Eu, Daniel, engraxador de sapatos - Jackie French Koller

  1. 1. Eu, Daniel, engraxador de sapatos
  2. 2. Introdução No dia 24 de outubro de 1929, quinta-feira, a Bolsa de Nova Iorque ruiu. Não houve vidros estilhaçados, soalhos a voar em pedaços, nem paredes destruídas; porque não era o prédio que se desmoronava, mas os algarismos que sustentavam toda a estabilidade económica dos Estados Unidos. Nos escombros desta catástrofe sem precedente, muitas vidas humanas se perderam. Em 1932, perto de quarenta por cento da população branca ativa americana encontrava-se sem trabalho e sem rendimentos, bem como cinquenta e seis por cento da população negra. As crianças que cresceram durante a década da Grande Recessão ficariam marcadas para sempre pela pobreza, pelo desespero e pela humilhação que assolaram a nossa sociedade. A minha mãe foi uma dessas crianças. Abandonada pelo pai em pleno coração da crise, com um irmão e sete irmãs, foi educada pela minha avó, uma pequena irlandesa corajosa que, para manter viver a sua família, pouco mais tinha do que a força do seu amor. Durante toda a minha infância, aquando das reuniões de família, ouvi contar incansavelmente as peripécias destes tempos difíceis Mas nesses relatos não havia amargura. Transparecia o entusiasmo e as gargalhadas de uma família a quem a adversidade tornara mais forte e mais unida. Foi esse espírito indomável que inspirou este livro.
  3. 3. 1 Terça-feira, 18 de outubro de 1932 Não pretendo ser um anjo. Aborrecimentos, já tive muitos; mas, até agora, nada de grave. Coisas pequenas, como roubar maçãs dos expositores na rua 105, ou apanhar o autocarro na Avenida Lexington sem pagar bilhete. Ninharias. E daquela vez em que, com a Maggie Riley, atirámos pela janela uma boneca embrulhada nos vestidos da sua irmã mais nova. Ui! Recordo ainda a tareia que levei por causa disso. Éramos miúdos, não o fazíamos por mal. Quer dizer: nunca teríamos feito uma coisa daquelas se soubéssemos que a mãe de Maggie estava sentada nas escadas da rua e iria ver a boneca cair. Senti-me mesmo mal, depois disso. Maggie disse-me que era a primeira vez que via a mãe desmaiar, embora, com nove anos, ela já as devesse ter feito boas. Bem, mas isto não foi nada comparado com o que se passou esta manhã na loja do velho Weissman. Estava eu diante da montra, a olhar para o boião do dinheiro e a pensar no que poderia comprar se ganhasse o concurso, quando chegaram os gémeos Sullivan a discutir sobre quanto dinheiro estaria no boião.
  4. 4. Eu ria à socapa: pelos meus cálculos científicos, tinha a certeza de que ia ganhar. Disse-lhes que estavam longe da quantia exata, mas não me deram ouvidos. E depois, Harry, que é o mais velho (dois minutos, creio eu) resolveu roubar algumas gomas de alcaçuz. Desafiou-me a que fosse entreter o velho Weissman, enquanto ele e Frank surripiavam o alcaçuz. Eu estava cheio de fome. Disse para mim que o velhote devia ter à mão dois ou três rebuçados, e aceitei o desafio. Que palerma! Ainda não o tinha conseguido levar para o armazém quando se ouviu um grande estardalhaço! Harry tinha atirado um tijolo contra a montra. Corremos. O boião do dinheiro tinha desaparecido, e os gémeos também, evidentemente. Restava apenas a Sr.ª Ruiz, especada diante do escaparate da sopas Campbell, a gritar como se lhe tivessem batido. E eu, feito palerma, em vez de ficar calmo e fazer de conta que não sabia de nada, entrei em pânico. Aqueles gritos, o vidro partido, subiu-me tudo à cabeça. Cheio de medo, desatei a correr como um louco. Para cúmulo do azar, em frente da loja tinha-se formado um círculo de mirones e, mesmo no centro, estava o sargento Finnegan, vestido à paisana. Não sei como fez para me apanhar, pois estava a dois ou três metros de mim, o certo é que me agarrou pelo pescoço. É mesmo o que se diz “ter o braço comprido”… Segurava-me com força,
  5. 5. aquele velho caranguejo (tem no mínimo trinta anos). Ergueu-me pela gola do casaco, fiquei de pés a abanar como um espantalho, e depois com os olhos muito abertos junto dos meus, perguntou-me: — Olha lá, Danny, a procederes assim, aonde queres ir parar? Vi que estava em maus lençóis. Comecei a ter medo, com as tripas às voltas e toda aquela barulheira. Procurava por todos os meios uma forma de escapar, mas o sargento Finnegan segurava-me com força. E depois, mesmo que conseguisse escapar, onde iria esconder-me? Na estação, com os empregados do caminho-de- ferro? Mais cedo ou mais tarde, teria de voltar para casa e então… De qualquer modo, o sargento Finnegan não me dava hipótese. — Devia levar-te à esquadra, só para te meter medo. Era o que faria, se não fosse amigo do teu pai. Mas conhecendo eu o Daniel Garvey como conheço, não vale a pena: levo-te a casa e ele trata do assunto. Tinha vontade de lhe replicar com alguma coisa do género “Há de ganhar muito com isso”, mas pensei que era melhor fechar a boca. É que vocês não conhecem o meu pai. É um irlandês genuíno. Um imigrante. Com ideias próprias do Bem e do Mal firmemente enraizadas na cabeça. Quem o ouvir, até pensa que devia ter sido um santinho quando era novo, porque está sempre a dizer
  6. 6. “Na tua idade, fazia isto. Na tua idade, não fazia aquilo.” E, além disso, põe o nosso nome nos píncaros. Garvey é um nome bonito, concordo. Um nome como qualquer outro… Mas, ao ouvir o meu pai, dir-se-ia que é banhado a ouro fino. Juro que é verdade. — O teu nome é Daniel Thomas Garvey — repete ele vezes sem conta. — É o meu nome, era o do meu pai e já foi o do meu avô. Tens um nome de respeito, meu filho. Isto é uma coisa que nunca ninguém te poderá tirar. Repete-mo tantas vezes que até me dá vontade de vomitar. Não é que o meu pai seja um mau tipo. A maior parte do tempo não o trocaria por outro pai. Mas quando acha que o nosso nome anda pela lama, cuidado! Claro que não tenho gosto nenhum em sujar o nome dos Garvey. Não faço de propósito. Como desta vez, por exemplo. — Vamos, Danny — disse o sargento, empurrando-me. Quando vi que se dirigia para Madison Avenue, comecei a ficar preocupado. — Ó Sr. Sargento, eu vivo na Park Avenue. — Eu sei, meu palerma, mas tenho de acabar a ronda. Um passeiozinho vai fazer- -te bem. Não achas que está bom, esta tarde? Oh, aquele sorriso sarcástico! Eu, com ar encolhido, segui-o sem dizer nada. Virámos na Rua 110, precisamente no momento em que o sol se punha. Os can-
  7. 7. deeiros já estavam acesos. Nas ruas, havia homens reunidos a discutir e a fumar, como todas as tardes. Crianças brincavam às escondidas, a saltar a corda ou a dar pontapés numa velha lata de conserva. À passagem do elétrico, afastavam-se um pouco para, logo de seguida, retomarem o jogo. Dois ou três deles, que tinham patins, agarravam-se ao elétrico para andarem alguns metros, a gritar de alegria até o condutor vir expulsá-los. Pelas janelas abertas, por cima da minha cabeça, ouvia as mulheres a chamar a família para o jantar. Eu dava o que fosse preciso para estar no lugar de um daqueles garotos e poder ir comer calmamente a minha casa, como todas as tardes. O sargento Finnegan não tinha pressa. Parou diante de um vendedor clandestino a comprar uma maçã. — Como estás, Joe? — Já se viu melhor… Já se viu pior… O vendedor de maçãs falava com uma voz branca e desesperada, de olhos fixos no passeio. Observei-o com mais atenção. Tinha os cabelos desgrenhados, uma barba de três dias, um casaco velho que lhe dava pela anca e saltitava ora sobre um pé ora sobre o outro. Havia qualquer coisa nele que me fazia lembrar o Sr. Smey, o subdiretor da minha antiga escola.
  8. 8. A certa altura, levantou os olhos. O meu coração deu um pulo. Era mesmo o Sr. Smey. Pois é! Sabia que muitos professores ficaram sem trabalho desde o início da crise, mas nunca imaginei que também acontecesse aos subdiretores. O Sr. Smey não me conheceu e ainda bem, pois não devia gostar que eu o reconhecesse. Desviei o olhar. Trazia um letreiro pendurado ao pescoço: Estou desempregado Compre-me uma maçã Só 5 cêntimos O sargento Finnegan meteu a maçã ao bolso e fomos embora. Ao chegarmos à esquina de Park Avenue, ouvi o barulho do comboio aéreo quando passava à altura do terceiro andar, mesmo diante das nossas janelas. Desde pequeno que o vejo passar várias vezes ao dia. Então, por hábito, levantei a mão para o saudar. O sargento Finnegan pôs-se a rir. — Gostavas mais de estar no comboio do que aqui, não, Danny? Encolhi os ombros. Fora de questão deixá-lo adivinhar no que eu pensava. Estávamos a aproximar-nos da nossa casa. Cheio de vergonha, caminhava de cabeça baixa, na esperança de não ser reconhecido pelos vizinhos. Uma carroça
  9. 9. passou mesmo ao meu lado e até me assustei ao ouvir os cascos dos cavalos a bater no chão. Viraram para o túnel da Rua 107: recolhiam à cavalariça. Estaria o meu pai à porta? Esta ideia não me largava. Mas diante do nº 1446, o edifício vizinho do nosso, uma multidão especada à entrada tapava a vista do 1444. Senti um arrepio gelado. Outro despejo, o terceiro num mês. Pouco a pouco, todos os nossos vizinhos vão para a rua. Desta vez, era a família White. Luther White, o filho, anda comigo no 4º ano na escola Patrick Henry. Todos fazem troça dele por o pai ser negro e a mãe branca. E ainda por cima ele chama-se White! Daí a nossa brincadeira favorita: “Pobre Luther” — dizemos nós — “já sabes de que cor és?” Nunca se zanga. Chama-nos idiotas ou burros albardados e, de vez em quando, dá um empurrão a um ou outro de nós, mas não vai além disso. É isto que eu aprecio no Luther: tem sentido de humor. O pai também se chama Luther, e está desempregado há mais tempo do que os outros. Antes da crise, era porteiro num daqueles hotéis chiques de um bairro fino. Mas puseram-no na rua logo a seguir à queda da bolsa, mal os empregos começaram a faltar. Deram o lugar dele a um branco. Passou-se o mesmo com muitos negros que eu conheço.
  10. 10. Depois da queda da bolsa, toda a gente ficou como louca. As pessoas suicidavam- -se. Todos os dias havia quem se atirasse pela janela, ou de um telhado, ou se lançasse à água. Quando perguntei ao meu pai o que é que tinham todos para se matarem daquela maneira, respondeu-me que o dinheiro não fazia a felicidade e que podia perverter os espíritos. Deve ter razão. No meu caso, por exemplo, o boião do Sr. Weissman foi a minha desgraça! O sargento Finnegan obrigou-me a parar para ver o que se passava no nº 1446. Por fim lá me largou e disse: — Vais esperar aqui por mim, Danny, e nada de asneiras, hein? O olhar que me lançou bastava para paralisar um bando de assassinos a soldo. Dirigiu-se ao pai do White. — Bom dia, Luther. — B’dia, sargento Finnegan — respondeu Luther num sotaque arrastado. Adoro ouvi-lo falar. Tem o sotaque do Sul, como muitos negros do bairro, porque viveram lá antes de virem para Nova Iorque. Quando chegaram, havia muito trabalho para eles, e a cidade vibrava de risos e música. Ainda me lembro dos belos serões de verão em que o meu pai e a minha mãe me levavam a Harlem, para os lados da Rua 125, a ver os ricos a entrar no Cotton Club.
  11. 11. Os acordes de jazz ouviam-se da rua. Agora, a minha mãe já não quer que se vá passear para Harlem. Diz que é muito perigoso, que o desespero semeou a violência e o ódio. — Então, Luther! — perguntava o sargento Finnegan. — O que é que se passa? — É o que está a ver, sargento. Estão a pôr-nos na rua. Demoraram-se a falar durante uns instantes. A multidão olhava com inveja para os haveres dos White, móveis e caixotes espalhados em cima do passeio. A mãe de Luther estava sentada no meio daquela tralha, na sua velha cadeira de cozinha, com Rhetta, a filha mais pequena, ao colo, e as duas irmãs de Luther agarradas à saia. Parecia uma rainha com a cabeça inclinada para trás e olhar altivo. Algumas pessoas, como abutres, atreviam-se a remexer nos seus bens, mas ela não lhes prestava atenção. Eu, só de a ver, tinha orgulho nela. O sargento Finnegan bateu com o cassetete na armação de uma cama de ferro e gritou: — Toca a andar. Embora daqui, não há nada para ver. Os abutres afastaram-se apenas alguns metros, prontos a regressar na primeira oportunidade. — Vocês deviam ir para o hospital de Santa Cecília — aconselhou o polícia ao Sr.
  12. 12. White. — Dão-vos abrigo por um ou dois dias, o tempo de procurarem qualquer coisa. O pai de Luther disse que sim com ar muito triste e Finnegan apertou-lhe a mão. Depois tirou a maçã do bolso e deu-a à pequena Rhetta. Eu disse para mim: “Afinal, este tipo não é assim tão mau… Bem, mas não deixa de ser polícia.” Até parece que me adivinhou o pensamento. Virou-se para mim e disse: — Ala, Danny! Pensas que me esqueci de ti? No momento em que começámos a andar, Luther (o filho, meu colega) veio à porta. Trazia debaixo do braço uma pasta velha de couro a desfazer-se. Os nossos olhos cruzaram-se por um segundo, depois desviámos o olhar. Não sei qual dos dois sentia mais vergonha. ♦♦♦♦♦♦ 2 Felizmente que o meu pai não estava à porta. Em compensação, o bando dos miúdos Riley tinha saído para ver o espetáculo que havia cá fora. Eles é que não
  13. 13. correm o risco de serem despejados: a mãe é a porteira do prédio e, como tal, não têm renda a pagar. Ao verem-me chegar sob a guarda do sargento Finnegan, ficaram de olhos arregalados. A pequena Dotty tirou a boneca da caixa dos sapatos que lhe serve de cama e apertou-a contra si, com medo que Finnegan a levasse para a cadeia. Gritei-lhe: — Buh! — e ela deu um salto de pelo menos um metro. A pressão do sargento sobre o meu pescoço redobrou. — Julgas-te esperto por meteres medo às meninas? Hein? — Eeh… Nnn… Não. Gaguejava tanto que até tive vergonha de mim. — Então não repitas isso. Não vale a pena agravares o teu caso. A entrada do edifício cheirava terrivelmente a desinfetante. A Sr.ª Riley passa o tempo a espalhar Lysol por todo o lado, mas não me queixo. Nem queiram saber como cheiram mal a maior parte dos edifícios! O nosso prédio não é lá muito bonito, mas pelo menos é limpo. Os Riley trabalham na limpeza como um exército bem organizado. Um esfrega o chão, outro encera as madeiras, um terceiro lava os vidros… Dos onze membros da família, o pai é o único que não mexe uma
  14. 14. palha. E Marion, é claro: só tem dezoito meses. Ao passarmos pelo hall, dei uma olhadela à caixa do correio: a correspondência ainda lá estava, sinal de que o meu pai ainda não tinha entrado. O meu coração saltou de alegria. Talvez o sargento não tivesse tempo de esperar por ele… Ele quis tocar à campainha, mas não o deixei. — Não vale a pena. A fechadura está partida. Empurrei a porta. Nas escadas, mesmo acima de nós, Maggie Riley e a irmã Kitty desciam a bater com os pés. Carregavam ambas um balde de carvão. Ao verem-nos, pararam de repente. Maggie encostou-se à parede e ficou a olhar para mim, com olhos de pescada frita, e Kitty, mal virámos costas, pôs-se a cacarejar. Ah, as raparigas, que praga! Atrás da porta do nosso apartamento, a minha mãe cantava. Ouvia-se do primeiro andar. Como canta bem, a minha mãe… Um dia li um conto em que um passarinho maravilhoso fazia chorar o imperador da China. O pássaro que assim cantava era um rouxinol. A minha mãe canta como um rouxinol, tenho a certeza, mesmo sem nunca ter ouvido nenhum. O meu pai diz que, quando ela canta, revê as suas colinas verdejantes, as famosas colinas da Irlanda... Também diz que, quando formos ricos, há de comprar-lhe um piano.
  15. 15. A minha mãe está sempre a cantar quando passa a ferro. Diz que ajuda a passar o tempo. E Deus sabe quanto tempo ela passa a engomar! Trabalha para um hotel chique da Rua 89, um hotel não muito católico, sabem o que quero dizer, em que os pensionistas são só mulheres. Fazia lá a limpeza antes de nascer a minha irmãzinha Maureen e, desde que é obrigada a ficar em casa, entregaram-lhe o tratamento da roupa. O meu pai brinca com ela por causa do trabalho e diz-lhe: — Molly, sabes o que vamos escrever sobre a tua pedra tumular? Aqui jaz Molly Garvey com o seu ferro de passar. Não pudemos arrancar-lho das mãos. Os meus pais não têm o mesmo sotaque que eu: cresceram na Irlanda, enquanto eu fui educado em Nova Iorque. Foi na escola que aprendi a falar como toda a gente, mas neles nota-se bem o sotaque irlandês. Ao chegar à porta, o sargento tirou o chapéu e obrigou-me a fazer o mesmo, como quando vamos à igreja, por respeito à minha mãe. Ela causa sempre este efeito nas pessoas. Do outro lado do corredor, no apartamento dos Riley, ouvia-se um alarido estranho, uma zaragata. O pai devia estar outra vez bêbedo. No quinto andar, alguém estava a cozer couves, e o mau cheiro chegava ao nosso patamar, lutando
  16. 16. corajosamente com o cheiro do Lysol que vinha do rés-do-chão. Mas nem o barulho nem o cheiro desviaram a atenção do sargento Finnegan. Aproximou-se da porta e bateu com firmeza. A minha mãe parou de cantar para perguntar quem era. — Sou eu, Mike Finnegan, Sr.ª Garvey. Trago-lhe o Daniel. Ouviu-se lá dentro um grande reboliço. A minha mãe abriu a porta de olhos arregalados, esperando já ver-me ferido ou algo pior. O seu alívio não durou mais do que um instante. Quando me viu de pé, percebeu que eu deveria ter feito algum disparate e olhou para mim, consternada, como se tivesse sido atingida de morte. — Danny, meu filho, o que fizeste tu desta vez? Eu, sem responder, revolvia os rebordos do chapéu. Finnegan mandou-me entrar para a cozinha. — O seu Daniel ainda não veio, Sr.ª Garvey? — Não. Mas não demora. Quer sentar-se um bocadinho, Michael? O sargento não se fez rogado. Puxou de uma cadeira e sentou-se com uma perna dobrada e a outra esticada, como se fosse de pau. Estava decidido a esperar até o meu pai voltar, o que não me agradava nada.
  17. 17. Pus-me a olhar em volta. As imagens, os crucifixos, os quadros de Jesus e de Maria fixavam-me todos com ar desolado, olhos cheios de tristeza, como se lhes houvesse destroçado o coração. De repente, tive um acesso de calor. Pousei o chapéu em cima do frigorífico e o casaco no cabide. A tábua de passar a ferro estava armada perto do fogão, com uma toalha ainda amarrotada que esperava pelo ferro. Na banheira, um pouco atrás, um monte de roupa branca mergulhava na água azulada, e fora, estendidos numa corda por cima das escadas exteriores, lençóis brancos abanavam ao vento. No meio de toda aquela roupa, sobressaía Maureen, a minha irmãzinha, sentada numa manta no centro da sala, tão ocupada a desmontar a cafeteira que ainda nem tinha olhado para nós. Respirava aos sacões e um fio de baba, sinal da sua intensa concentração, escorria-lhe do lábio inferior. Fiz-lhe sinal: — Ei! Olá, Mo… Ergueu a cabeça toda sorridente, e respondeu-me — Da — batendo palmas. Chama-me assim porque ainda não sabe dizer “Dan” e, muito menos, “Danny”. Depois, resolveu levantar-se.
  18. 18. Cada vez que se levanta é uma aventura, porque foi há muito pouco tempo que aprendeu a andar sozinha. Começa por se apoiar nas mãos, depois junta os pés debaixo dela e levanta o rabinho. Endireita-se por fim num equilíbrio instável, muito admirada por ter conseguido. Às vezes volta a cair para trás, o que a obriga a recomeçar. Mas desta vez conseguiu. Pôs-se a caminhar na minha direção, a palrar: — Da… Da… — com os braços estendidos para mim. Eu, a falar verdade, fiquei contente por ter algo com que me ocupar. Peguei nela com um ímpeto de ternura. É mesmo querida a minha irmãzinha! Adoro-a. Até ela nascer, sempre pensei que não ia ter mais irmãos. A minha mãe tem dificuldade em ter bebés, perdeu alguns entre mim e Maureen. Mas, quando a minha irmã estava para nascer, tínhamos dinheiro suficiente para pagar o hospital. Foi assim que a minha mãe conseguiu: esteve muito mal, mas acabou tudo bem. Segurava a minha irmã contra mim e meti o nariz no pescoço dela. Cheirava ao creme de barbear do meu pai, que se compra em Coney Island. Pôs-se a rir e meteu o dedo polegar na minha boca. Durante todo este tempo, a minha mãe girava como um pássaro na gaiola, a apanhar a manta e a cafeteira, a arrumar a tábua de passar no quarto de hóspedes, e o ferro em cima do fogão. Por fim pôs água a ferver, pedindo
  19. 19. desculpa pela desordem que reinava na casa. Qual desordem? Claro que ela estava morta de curiosidade para saber que asneira é que eu tinha feito, mas não se atrevia a perguntar… Quanto ao sargento, esse não parava de puxar pelo colarinho, como alguém que tem muito calor, e fazia um esforço enorme por manter a conversa. Acabou por contar a expulsão dos White. Quando a minha mãe soube, ficou parada. Deixou-se cair para uma cadeira a torcer nervosamente um lenço entre as mãos. — Oh, Michael, o que vai ser agora daqueles infelizes? — Não faço ideia. Têm família? — Do lado da Ana, não. Desde que casou com o Luther, os pais nunca mais quiseram vê-la. Mas talvez pudessem ir para o Sul. Foi de lá que o Luther veio … — Se forem espertos, não vão para o Sul. Li hoje no jornal que um grupo de brancos atirou um empregado negro pela janela do comboio e depois, com um tiro, acabaram com ele, só para ficarem com o seu posto de trabalho! E não é a primeira vez que isto acontece. Agora veja: se o Luther chegasse ao Sul à procura de emprego, corria sério risco de ser linchado. Ao ouvir estas palavras a minha mãe ficou pálida. — Sinto-me tão culpada…— murmurou ela. — Devia ter-lhes oferecido alojamento
  20. 20. e comida… Mas não temos meios. Mesmo nós, só Deus sabe até quando... Uma olhadela rápida na minha direção e calou-se. Porém, eu sabia como a frase devia acabar: só Deus sabe até quando teremos dinheiro para pagar o aluguer. Com o meu pai desempregado e as nossas economias esgotadas, quanto tempo mais poderemos viver de passar a ferro e do meu trabalhito de engraxador de sapatos? O fervedor pôs-se a assobiar e a minha mãe levantou-se para preparar o chá. A porta da rua do edifício bateu. Reconheci o passo do meu pai a subir as escadas e a barriga começou a doer-me. Que podia eu fazer? Apertei Maureen nos braços e fiquei à espera. ♦♦♦♦♦♦ 3 Era mesmo o meu pai que chegava. Só de ouvir os passos, via-o subir pesadamente as escadas, com o sobretudo a bater-lhe nas pernas e os olhos tristes como céu em dia de chuva. O meu pai não é parecido connosco, com a sua farta cabeleira preta e os olhos da mesma cor. Maureen e eu saímos ao lado da minha mãe.
  21. 21. Mas gostava mais de me parecer com ele, juro… Oh, a minha mãe é muito linda, mas sardas e cabelos ruivos ficam melhor numa mulher do que num homem. Por exemplo, vejam Maureen: é linda como um anjo, aquele cor-de-rosa! Mas eu… Tenho a certeza de que as mulheres nunca vão olhar para mim como olham para o meu pai. É lindo como tudo! É o que dizem dele. Normalmente, as passadas do meu pai tornam-se mais leves e aceleradas à medida que se aproxima da porta. Para um momento antes de bater, o tempo suficiente para pôr um lindo sorriso. Sei, porque um dia apanhei-o de surpresa. Encontrava-me no patamar do quarto andar e ele não podia ver-me, mas eu via-o. Depois, bate à porta e entra com o seu ar jubiloso como se tudo estivesse bem. A mãe e eu recebemo-lo da mesma forma, com grandes sorrisos feitos e ar feliz. Porém, as coisas não vão lá muito bem desde que ficou desempregado. É carpinteiro, e até ao mês de março passado trabalhava na construção do Empire State Building. Naquela altura, subia as escadas quatro a quatro a assobiar jigas irlandesas, e quando entrava na cozinha punha-se a contar histórias incríveis, levantava a minha mãe nos braços e fazia-a rir. E depois sentávamo-nos todos à mesa, a jantar. — Construímos mais um andar! — dizia ele cheio de orgulho. — Estão a ver, um andar por dia? E três mil empregados num estaleiro? Ah, dá gosto ver…
  22. 22. Depois de jantar, acendia o cachimbo e punha-se a ler o jornal. Quando veio da Irlanda, o meu pai não sabia ler. Frequentou a escola à noite depois do trabalho, para aprender a ler e a escrever e, depois disso, considera a leitura do jornal um dever sagrado. — Meu filho, o teu pai não passava de um pobre criado de lavoura irlandês, um camponês iletrado! — repetia-me, brandindo o estojo do cachimbo. — E agora o teu pai constrói o edifício mais alto do mundo. Ah, a América… É de facto o país da sorte! Agora, depois da Crise, o meu pai já não diz nada disso. Aliás, já quase nem fala. Levanta-se todas as manhãs, lava-se, faz a barba com cuidado e sai à procura de trabalho pelos quatro cantos da cidade. Às vezes vai ao Centro de Emprego de Nova Iorque e põe-se na fila de espera para disputar com cinco mil outros desempregados os poucos postos de trabalho que aparecem diariamente. De vez em quando, pega na minha caixa de engraxador e vai trabalhar. Não quer que eu saiba, mas vi-o uma vez ajoelhado no chão a engraxar sapatos. O meu pai, o meu grande e orgulhoso pai que sabe ler o jornal, que construiu o edifício mais alto do mundo, de joelhos na lama a engraxar sapatos… Nunca irá saber que o vi.
  23. 23. Desta vez, ao subir as escadas, os seus passos não se tornaram leves ao chegar ao terceiro andar. E quando abriu a porta não trazia nenhum sorriso no rosto. Olhei para ele: as mãos a tremer, o coração agitado aos saltos como peixe fora de água. — Olá, pai. A minha voz saiu como grito de rato. Segurava Maureen diante de mim como um escudo e ela estendia as mãozitas para ele com gritos de alegria. Esboçou um sorriso forçado e tomou-a nos braços. Mas, pelo olhar que me lançou, percebi que os colegas, na rua, o tinham informado da minha desventura. Aproximou-se da minha mãe e deu-lhe um beijo, entregando-lhe Maureen. Depois, virou-se para o sargento Finnegan e estendeu-lhe a mão. — Boa noite, Mike. Não vieste aqui para conversar, pois não? — Pois não, Daniel, receio bem que… E Mike Finnegan contou-lhe tudo. O meu pai, imóvel, escutava-o sem dizer palavra. Mas eu podia avaliar a sua cólera por um sinal que nunca engana: o tremer impercetível das narinas. Quando a minha mãe se irrita, fica tão vermelha que não se distinguem as sardas, e os seus olhos verdes faíscam. Quando o meu pai se irrita, o olhar endurece,
  24. 24. as pupilas tornam-se frias como gelo e as narinas tremem como as de um cavalo selvagem. Durante o discurso de Finnegan, a minha mãe já me lançava uns olhares de preocupação, mas quando se referiu à montra partida e ao boião das moedas, ela benzeu-se dizendo “Santo Deus!” como se eu fosse o diabo em pessoa. Depois de ouvir tudo, o meu pai virou-se para mim. Fiquei petrificado. — Daniel! — Sim, pai? — Anda cá. Avancei a custo, como se os sapatos fossem de chumbo. — És culpado, meu filho? Quero saber a verdade. Como dizer “não” diante daquele olhar que me penetrava até à alma? Impossível mentir. — Eles tinham-me dito que só tiravam uma ou duas gomas de alcaçuz. Não sabia que iam partir a montra, juro. — Eles? Eles quem? Fixei os olhos no linóleo. Isso é que ninguém no mundo me obrigaria a revelar. Não sou um traidor.
  25. 25. O meu pai pegou-me pelo queixo e obrigou-me a fixá-lo nos olhos. — Diz-me lá de quem se trata, Danny. Aguentei o seu olhar, com um aperto na garganta. Nem pensar. Eu não iria abrir a boca. O meu pai aproximou o seu rosto do meu e gritou-me na cara: — Sabes quanto custa uma montra, hã? — Não, pai. — Muito mais dinheiro do que o nosso, e até mais do que o do pobre Weissman. Então vi uma escapatória. — O pobre Weissman? Estás a brincar! Toda a gente sabe que aquele velho caranguejo está cheio de dinheiro. Teria feito melhor se ficasse calado. Se há coisa que o meu pai não suporta é que lhe respondam com impertinência e se falte ao respeito às pessoas de idade. Eu tinha acertado no alvo e com uma só frase! Os olhos saltaram-lhe das órbitas e, por momentos, julguei que me ia deixar estendido. Mas não. Limitou-se a respirar fundo e a olhar-me nos olhos por um instante que me pareceu durar séculos. Depois, com um grande suspiro, afastou-me com a mão e virou-se para o sargento Finnegan. — Obrigado, Mike, por te teres dado ao trabalho de mo vires trazer. Eu vou tratar
  26. 26. do assunto, acredita. — Não duvido. Finnegan pegou no chapéu, despediu-se da minha mãe e foi-se embora. Num silêncio de morte ouvimos os seus passos a afastar-se e, por fim, o bater da porta da rua. O meu pai virou-se então para mim. — Veste o casaco. Vamos sair. — Para onde? — perguntou com angústia a minha mãe. — A casa do Weissman. Janta sossegada e dá de comer à Maureen. Não sei quanto demoraremos e, para te dizer a verdade, já nem tenho fome. Numa tristeza de morte, a minha mãe acenou que sim com a cabeça. O meu pai passou-me o chapéu. A minha mãe viu-o abrir a porta e notei que tinha os olhos húmidos, brilhantes como quem vai chorar. Pus o chapéu na cabeça, vesti o casaco que estava pendurado no cabide e desci as escadas atrás dele.
  27. 27. 4 Pelo caminho o meu pai não abriu a boca. Dava grandes passadas e eu ia atrás. Sentia uma vontade terrível de lhe falar mas, ao vê-lo de costas, quadradas como uma parede, não me atrevi. Quando chegámos à loja, já o Sr. Weissman tinha saído. Na porta via-se um letreiro que dizia «FECHADO» e tábuas velhas a tapar o buraco da montra. Para evitar que, mesmo assim, alguém fosse tentado a roubar, rondava por ali um polícia no passeio em frente. O vidro partido pareceu-me feio como uma ferida aberta. Ainda olhei para o chão a ver se havia sangue. O meu pai atravessou a rua para ir falar com o polícia. Trocadas algumas palavras, olhou para mim por cima do ombro e eu fiquei vermelho como uma papoila. Será que o meu pai foi dizer-lhe para me levar para a esquadra? O polícia rosnou qualquer coisa e apontou na direção de Madison Avenue. O pai agradeceu e pôs-se a andar sem dizer palavra. — Que vamos fazer, pai? — perguntei eu. Não obtive resposta. Como o polícia nada fizesse para me prender, fui atrás do
  28. 28. meu pai. Segui-o assim, sempre calado, até à Rua 102, onde parou diante de um prédio semelhante ao nosso (o que não é muito original, uma vez que neste quarteirão os prédios são todos parecidos. A única coisa que os distingue é que uns têm as escadas na parte da frente e os outros na parte de trás). Em resumo, perguntava-me porque é que o meu pai se interessava de repente por aquele prédio. — O que vamos fazer? — perguntei novamente. Sempre sem resposta, empurrou a porta do prédio que me bateu na cara e fiquei sozinho na rua. Olhei à minha volta. Também ali nada havia de especial. Nos passeios vagueavam desempregados e, à luz dos candeeiros, havia indivíduos a fumar e a conversar. Dois deles puseram-se a rir e eu tive a impressão de que se riam de mim, que sabiam tudo o que se tinha passado. Isso assustou-me. Empurrei a porta e entrei. O hall estava vazio. Fiquei ali um minuto a pensar no que fazer. A entrada era exatamente como a nossa, com o chão em mosaico e, nas paredes, painéis de madeira escura. Sem luz, apenas a que vinha da porta vidrada que dava para o exterior. O meu pai devia estar nas escadas. Empurrei a porta, não estranhando que a fechadura, tal como a da nossa casa, estivesse partida. Certamente, com o frio que faz e todos estes sem-abrigo à
  29. 29. procura de um telhado para dormir… Nas escadas, pequenas lâmpadas elétricas emitiam, em cada patamar, uma luz amarelada, o que tornava a obscuridade ainda mais assustadora. Também neste aspeto era como em nossa casa: parecia haver em cada recanto seres fantasmagóricos, prontos a atacar-nos. Felizmente ouvi os passos do meu pai por cima da minha cabeça. Desatei a correr e apanhei-o no quarto andar. Também os patamares estavam dispostos como em nossa casa: um apartamento à direita, outro à esquerda, e o quarto de banho, que era comum, em frente das escadas. Tinha muita vontade de ir ao quarto de banho mas, ao empurrar a porta, dei-me conta de que estava terrivelmente escuro. Como em nossa casa, também aqui as pessoas roubam as lâmpadas elétricas dos quartos de banho, porque estão baixas. Considerando ser preferível ter medo em nossa casa, resolvi deixar para mais tarde as minhas necessidades. O meu pai estava a bater à porta 4B. Fez-me sinal para me aproximar e tirou-me o chapéu da cabeça como já tinha feito o sargento Finnegan. Comecei a ficar nervoso cá por dentro. Porque é que todos acham que não sou capaz de ser eu a tirar o chapéu? Não sou nenhum palerma! Um barulho abafado, dentro do apartamento, indicou-nos que alguém ia receber-
  30. 30. -nos… A porta entreabriu-se a ranger e uma senhora baixinha de cabelos brancos deitou a cabeça de fora. — Quem é? — perguntou ela numa voz trémula. — É a Sr.ª Weissman? — perguntou o meu pai. — Sim, sim… Eu nem acreditava no que via. A Sr.ª Weissman? Com tanto dinheiro e a viver num prédio daqueles, horrível, sem água quente? O meu pai retomou a palavra. — Podemos entrar um bocadinho, minha senhora? — Não sei — replicou ela, franzindo o sobrolho. — A comida já é pouca para nós, os mendigos… — Está enganada, não somos mendigos. Chamo-me Daniel Garvey e este é o meu filho Danny. Trouxe-o cá para pedir desculpa ao seu marido. A montra partida, sabe… A Sr.ª Weissman olhou para o meu pai de olhos arregalados. Por uns momentos via-se que ficou hesitante. Depois, como juiz que decide, meneou a cabeça e escancarou a porta. — Entrem.
  31. 31. A coxear nas suas pantufas desadequadas, o velho Weissman achava-se sentado à mesa, com um pulôver remendado, e tendo na cabeça um chapeuzinho em forma de semicírculo. Não aparentava ser rico. O apartamento era muito parecido com o nosso, só não tinha crucifixo nem imagens piedosas pregadas nas paredes. O fogão a carvão, o frigorífico em madeira e o mobiliário reduzido era tudo tal e qual como na nossa casa. O linóleo do chão estava desgastado e com buracos de onde em onde; os reposteiros puídos pelo uso… A toalha de plástico da mesa onde comiam as refeições estava gasta até ao sisal. Perguntei-me o que fariam os Weissman ao dinheiro… Durante aquele tempo, o velho Weissman continuava a comer sem nos prestar a menor atenção, de olhos escondidos debaixo de fartas sobrancelhas brancas. — Ouve, — disse a Sr.ª Weissman — temos visitas. — Visitas? Que saiba, não convidei ninguém. — Mas vieram para te pedir desculpa. — Não tenho tempo a perder com esse maroto — disse entredentes. — Saiam daqui e deixem-me comer em paz. Olhei para o meu pai. Não dizia nada, mas pelo seu olhar vi que tratarem o seu filho de vadio era como matá-lo a ele.
  32. 32. Então decidi falar. — Sr. Weissman — disse eu, muito corado — sei que fiz uma coisa muito má, mas não sou nenhum vadio. Os tipos que o fizeram tinham-me dito que só queriam tirar umas gomas de alcaçuz. Pensei que fosse apenas uma partida, não tinha intenção de fazer mal a ninguém. O Sr. Weissman levantou a cabeça, olhou para mim e cofiou a barba. Não parecia muito convencido. — Então diz lá o nome dos teus companheiros. — Preguei os olhos no chão. O Sr. Weissman continuou com um horrível ar de troça: — Sentido da honra… A honra dos malandros, isso sim! Que graça! — Eu não sou nenhum malandro! Ao ouvir este grito, as sobrancelhas do velho juntaram-se num ímpeto de fúria. Levantou-se da cadeira e deu um murro na mesa, dizendo: — Roubo é roubo! Hoje uma goma de alcaçuz, amanhã uma maçã…E a seguir? Um brinquedo que não podes comprar, hein? Depois, a carteira de uma idosa! — Não! Nunca farei tal coisa. — Então porque proteges quem o fez? De novo pus os olhos no chão.
  33. 33. — É o que eu disse — insistiu o Sr. Weissman. — És um vadio! — Eu não sou nenhum ladrão nem nenhum vadio! — Isso é o que tu dizes, rapaz! De repente, a fúria voltou a assaltá-lo. Apontou-me o dedo acusador e gritou: — Não importa! Eu sei quem fez aquilo, e mais cedo ou mais tarde, vou deitar a mão a esses patifes! — Ouve! — exclamou a Sr.ª Weissman. — Cuidado com o que dizes. Estás a falar com uma criança. O Sr. Weissman, com um espirro de desdém, virou-se para o prato a resmungar. Não me sentia orgulhoso por ser tratado de «criança», mas era preferível a «malandro» ou «bandido». A Sr.ª Weissman virou-se para o meu pai. — Sentem-se. O meu marido não é tão mau como parece, vão ver. — Muito obrigado, minha senhora, mas… — Sentem-se — insistiu, — e o pequeno também. Vamos beber um chá e resolver este assunto. Ao ouvir este argumento, o meu pai sentou-se, e fez-me sinal para eu fazer o mesmo. Deixei-me escorregar para uma cadeira no outro lado da mesa. Entretanto, o velhote continuava a sua refeição: uma sopa demasiado aguada, um caldo, umas
  34. 34. côdeas de pão e alguns frutos numa taça que não tinham aspeto de frescos. A Sr.ª Weissman trouxe-nos dois copos de chá fumegante e sugeriu, apontando para a taça: — Tira uma peça de fruta, meu filho. Tinha uma vontade louca de comer uma laranja mas, de repente, o Sr. Weissman ergueu os braços e pôs-se a falar para o alto. — Que mulher me deste Tu? — gritava ele. — Convida ladrões a entrar em casa e ainda por cima lhes dá de comer! Os meus olhos cruzaram-se com os do meu pai e desisti da fruta. — Muito obrigado, basta o chá. A Sr.ª Weissman lançou um ar acusador ao marido, mas não disse mais nada. Foi então que o meu pai tomou a palavra. — Sr. Weissman, eu queria indemnizá-lo pela montra. Eu…não tenho dinheiro neste momento, mas posso procurá-lo daqui até sábado. O Sr. Weissman olhou para ele com atenção, cofiando a barba branca. — Diga-me, Sr. Garvey. O senhor é casado, não é? — Sim. Acho que conhece a minha mulher, pois vai muitas vezes à sua loja. Chama-se Molly Garvey.
  35. 35. — Estou a ver… com uma menina, não é? — Exatamente. — E… têm para comer, senhor Garvey? Perante estas palavras, e pela primeira vez na vida, vi o meu pai corar. Perguntou: — Onde quer chegar, Weissman? — Não é difícil, meu amigo. Guarde o seu dinheiro. Só quero que vigie o seu filho para não se aproximar da minha loja. Não é a primeira vez que tal desgraça me acontece, e nem será a última. Eu cá me arranjo sozinho. De maxilares cerrados, o meu pai pousou o copo do chá na mesa. — Assim, não — disse ele entredentes. — Os Garvey sempre pagaram as suas dívidas. Eu estava a ficar doido. Sentia-me a morrer por ver o Sr. Weissman a humilhar o meu pai. Resolvi intervir. — A dívida é minha, pai. Quem tem de a pagar sou eu! — O quê? Mas como? O que tencionas fazer? Vi que esta decisão me tinha em parte reabilitado a seus olhos, o que me deu coragem para pensar num projeto sério. O fruto do meu trabalho de engraxador não
  36. 36. bastava. E a minha mãe precisava daquele dinheiro. Então propus a última hipótese que me restava: — Posso ir trabalhar para o Sr. Weissman todas as tardes, depois da escola. Desta vez, o velhote desatou a rir. — Está bem! — exclamou ele. — Que grande espertalhão. Vir trabalhar para minha casa! Estás a ouvir esta, Golda? A raposa quer a chave do galinheiro. O meu pai começava a ferver. Pela primeira vez, naquela tarde, tomava o meu partido. — O meu filho é um rapaz corajoso. Concordo que fez uma asneira, mas só está a pedir para a reparar. Não é, Danny? — Sim — respondi com vigor. O meu pai tirou qualquer coisa do bolso e, com determinação, pousou-a em cima da mesa. Era o relógio de ouro do avô Garvey, o seu bem mais precioso. — Tome — disse. — Deixo este relógio como penhor. Se o Danny não cumprir a palavra, será seu. O Sr. Weissman pegou no relógio e examinou-o minuciosamente. Abriu-o, leu a inscrição que tinha no interior, e acenou a cabeça em sinal de aprovação. — De acordo, Sr. Garvey — respondeu, deixando-o cair para o fundo do bolso.
  37. 37. E estendeu-lhe a mão. O meu pai apertou-a com força. O negócio estava concluído. Então o velhote virou-se para a mulher a rir com malícia. — Golda, — disse — esqueceste as boas maneiras? De que estás à espera? Oferece fruta aos nossos convidados… ♦♦♦♦♦♦ 5 O meu pai prometeu ao Sr. Weissman que eu iria trabalhar para a loja todos os dias depois da escola até ao Natal, para pagar a montra partida e o dinheiro que estava no boião: doze dólares e vinte e três cêntimos. Eu estava verde de raiva. Mesmo antes do roubo, os meus cálculos tinham-se ficado pelos doze dólares e trinta e cinco cêntimos. Isto se eu tivesse a sorte de ganhar! Os gémeos Sullivan não foram capazes de esperar… Em conversa, o meu pai ficou a saber que o Sr. Weissman tinha um vidro suplente no armazém, e insistiu em colocá-lo nessa mesma noite. Eu bem queria tê-lo
  38. 38. acompanhado, mas como ainda tinha deveres por fazer, ele não me deixou: considera os deveres escolares como uma espécie de missão sagrada, e por nada deste mundo me deixaria protelá-los. Portanto, voltei para casa, sozinho. Para vos dizer a verdade, tal não me agradava nada. Já não gosto de andar à noite na cidade; as ruas estão cheias de mendigos e de vagabundos. É claro que muitos deles são uns pobres infelizes, pais de família que, como o meu, perderam o trabalho e simplesmente procuram um local onde dormir. Mas, esta noite, tinham todos no fundo dos olhos um clarão preocupante. Um clarão que eu conheço bem. Há uns anos, um homem que tinha o mesmo olhar agrediu-me numa rua estreita e quis arrastar-me para uma cave não longe dali. Consegui escapar mordendo-lhe a mão, mas tive tanto medo e também tanta vergonha que não contei a ninguém. Alguns dias depois, descobriram uma criança degolada nessa cave. E nunca apanharam o assassino. Por isso eu andava sempre com medo, de mão no bolso, agarrada ao cabo de um martelo que trago sempre comigo, depois daquela aventura. De repente, ao virar de uma esquina, alguém me chamou. — Ó miúdo!
  39. 39. Senti uma mão pousar no meu ombro. Sobressaltado, virei-me e empurrei com quanta força tinha aquele corpo enorme que me ameaçava. O homem cambaleou, bateu no edifício mais próximo e caiu de costas contra a parede. Puxei do martelo com um ar ameaçador. — Não, por favor — murmurou ele com uma voz roufenha. De olhos aterrados, levantou os braços para proteger a cara. Foi então que vi como era magro, pálido e fraco. Um esqueleto ambulante. — Tem pena de mim, miúdo — repetiu ele. — Só queria pedir-te lume. Tinha na mão uma ponta de cigarro que devia ter apanhado do chão. Senti-me idiota. Guardei o martelo, dei-lhe a mão e pedi desculpa. — Não tem mal —murmurou.— Mas olha lá, tens lume? Procurei nos bolsos. — Lamento — disse, e mostrei as mãos vazias. — E dez cêntimos, ao menos, não tens? Abanei a cabeça. Olhou para mim com um ar de desânimo e arrepiou caminho. Quando cheguei a casa não me sentia com coragem de enfrentar a minha mãe. Por isso, em vez de entrar diretamente em casa, esgueirei-me pela porta das traseiras e fui para o pátio. Não é muito bonito este pátio: alguns metros quadrados de terra
  40. 40. batida fechados por uma barreira de madeira. Mas, à noite, nunca ninguém lá vai e é o lugar ideal para meditar em paz. Alguém tinha deixado um balde do carvão vazio diante da cancela. Voltei-o e sentei-me nele. Por cima de mim, entre os prédios, via-se um quadrado de céu escuro iluminado pela lua. As cordas da roupa ressoavam ao vento, recortando o céu num desenho absurdo, como se uma aranha louca tivesse tecido a sua teia gigante entre as paredes. Uma estrela cadente deslocou-se, mas tão rápido que não tenho a certeza de a ter visto. Na dúvida, formulei um desejo. O meu desejo era que, quando eu fosse grande, houvesse naves espaciais como no livro de Júlio Verne Da terra à lua, e que pudesse subir numa para ver as estrelas de mais perto. Pensar que o céu e as estrelas são infinitas deixa-me maluco… Não consigo imaginar alguma coisa que não tenha limite. Parece-me que tem de haver algures um ângulo, uma fronteira. A janela da nossa cozinha recortava-se como um retângulo amarelo no escuro, atravessado de vez em quando por uma sombra rápida: a minha mãe. Sentia náuseas por tê-la feito sofrer. Jurei que nunca mais iria magoá-la. Não era a primeira vez que prometia tal coisa, mas desta vez era do fundo do coração, e a sério. Havia muitas outras janelas iluminadas, muitos outros retângulos amarelos ao
  41. 41. longo da fachada. Pensei em quem lá vivia há muito tempo, quem ainda não tinha sido expulso… Havia também os que tinham partido, e os recém-chegados, os que vieram ocupar os lugares deixados vazios. Nas noites de verão, quando as janelas estão abertas, ouve-se a vida toda das pessoas: os bebés que choram, as crianças que brincam, a rádio, as mães que gritam como doidas, os casais que discutem. O curioso é que o barulho é sempre o mesmo. As pessoas vão e vêm, mas sejam quem forem, as suas vidas produzem sempre o mesmo barulho. É estranho, mas para mim é agradável: dá-me a impressão de fazer parte de um todo, de um conjunto infinito, como as estrelas. Esta noite não havia o menor ruído no pátio. Apenas o assobiar do vento nas ruas. Em outubro, quando os ruídos do verão já desapareceram e o inverno se faz anunciar, sinto-me um pouco triste. Dei uma olhadela às janelas dos White. Estavam escuras e vazias, aquelas janelas que até ontem se enchiam de luz e de barulho… Senti arrepios. O frio insinuava-se cada vez mais sob o meu casaco, e o rebordo do balde do carvão magoava-me as nádegas. Há muito que ali estava. Eram horas de ir para casa.
  42. 42. 6 Ao entrar no prédio, com a obscuridade densa a envolver-me, senti medo. Acendi a fraca luz amarela e subi as escadas quatro a quatro, parando nos patamares para escrutinar os cantos mais sombrios. Só quando cheguei ao nosso andar, é que me lembrei que tinha muita vontade de ir ao quarto de banho. A porta estava à minha frente, entreaberta, deixando entrever aquele cubículo escuro. Hesitei pelo menos cinco minutos, na esperança de que algum miúdo dos Riley saísse de casa. Têm sorte, os Riley: quando um deles precisa de ir ao quarto de banho, pode sempre pedir a algum dos oito irmãos e irmãs que venha vigiar. Já eu não posso pedir o mesmo a Maureen! E agora, que tenho treze anos, não quero dar a entender aos meus pais que sinto medo do escuro… Esperei tanto que já não aguentava mais. Enchi a boca de ar e enfiei-me no quartinho escuro. Urinei à pressa, com os olhos sempre fixos no ventilador da conduta do ar. Ouve-se falar de pessoas que se metem nas condutas do ar e assassinam quem está lá dentro… Claro que à luz do dia todas estas histórias parecem absurdas. O cano da ventilação é tão estreito que mal lá cabe um braço. Mas de noite tudo parece
  43. 43. possível. Apertei as calças, esperei um pouco antes de abrir a porta, não estivesse alguém à espera para me matar, e desatei a correr até à nossa casa. Maureen já estava a dormir e a minha mãe passava a ferro. Mas, desta vez, não cantava. Nem sequer tinha ligado o rádio. Olhou para mim com uma expressão de dor. Apeteceu-me apagar-lha como quem limpa um rasto de pó. — O teu pai, onde ficou? — perguntou ela. — Está a reparar a montra do Sr. Weissman. Com um aceno de cabeça, continuou a passar a ferro. E eu sempre de pé, ao lado dela, como um pateta. Impossível mover-me. Olhou para mim e senti então as lágrimas virem-me aos olhos. Não, sou demasiado grande para chorar. — Não fiz por mal, juro. De repente, os olhos da minha mãe iluminaram-se com uma expressão nova: o perdão.Com um sorriso muito meigo, ergueu a cabeça e estendeu-me os braços. Lancei-me neles como uma criança. — Oh, Danny, — murmurava ela — que vamos fazer de ti? — Não te preocupes, mãe. Não precisas de fazer nada. Prometo-te que nunca mais volto a fazer asneiras. Vais ver.
  44. 44. — Assim espero, meu querido — respondeu, apertando-me muito e beijando-me. — Mas agora, tens de jantar. Senta-te. Tinha deixado para mim uma tigela de sopa quente e uma fatia de pão. — Não há manteiga? — perguntei. — Não. Hoje, não. — Não tem importância. Até nem me apetece muito. Estava a mentir, é claro. Vendo que a minha mãe não se sentava, perguntei-lhe: — Já comeste? — Não. Espero pelo teu pai. Comi os legumes da sopa e depois juntei-lhe migas de pão. Estava delicioso, mas ainda comia um pouco mais…Ultimamente, ando sempre com fome. O meu estômago é uma grande caverna aberta, impossível de encher. Às vezes dói-me. Mas antes queria morrer do que pedir mais comida à minha mãe. Era bem capaz de me dar a sua parte, fingindo não ter fome! Uma hora depois, já tinha feito os deveres e o meu pai ainda sem regressar. Não era que me desagradasse: cansado como estava, preferia ir para a cama sem voltar a falar do que se passou. Abri a porta para dar uma olhadela à entrada. Alguns miúdos Riley esperavam a vez de irem ao quarto de banho, mas ainda bem que nem Maggie
  45. 45. nem Kitty estavam lá. Não tinha vontade nenhuma de lhes falar. Os pequenitos olharam para mim a arder de curiosidade, mas retribuí-lhes com um olhar tão feroz que não se atreveram a abrir a boca. É tão fácil meter medo a miúdos… Depois dei um beijo à minha mãe e disse-lhe que ia deitar-me. Recomendou-me que tivesse cuidado para não acordar Maureen. É que o nosso apartamento parece um comboio, mas um comboio que morde a cauda, com todas as divisões seguidas, separadas por reposteiros: é preciso passar pelo quarto dos meus pais para entrar no meu, e assim por diante. Junto à cama deles, na sua caminha de grades, Maureen dormia o sono dos justos. Fiz-lhe uma festinha na cara através das grades e ela mexeu-se um pouco, emitindo um pequeno ruído com a boca, como se estivesse a chupar. Que linda, deitada de barriga para baixo e o rabito para o ar! Aconcheguei-lhe a roupa sobre os ombros, embora não estivesse frio. O quarto da minha mãe, mesmo ao lado da cozinha, está sempre quente; no meu, já faz mais frio. Segue-se o quarto de hóspedes e depois a sala, que já tem porta. Se todos os bebés tivessem vingado, eu dormiria agora no quarto de hóspedes ou mesmo na sala, como Maggie e Kitty Riley que são as mais velhas da família. Vêem-se obrigadas a empilhar todos os casacos de casa em cima da cama, para não
  46. 46. morrerem de frio durante a noite. Às vezes, a brincar, Maggie diz que acorda exausta com o peso de tanta roupa. Como já disse, a porta da sala dá para o patamar da escada. Em miúdo, divertia- -me a correr atrás das meninas Riley desde a cozinha até aos quartos e à sala, depois para o patamar e outra vez para a cozinha, sempre em círculo. Outras vezes, abríamos as duas portas do apartamento Riley, e continuávamos a brincadeira pela casa delas fora. As nossas mães nunca nos diziam nada, mas quando os homens chegavam, alto lá! Ao fim de duas ou três voltas, mandavam-nos ir lá para fora. Enfiei o pijama e fui à sala espreitar pela janela que dá para a rua. E o meu pai sem chegar. A porta da sala dos Riley abriu-se e ouvi a voz de Kitty e Maggie, do outro lado do patamar. Apaguei a luz à pressa e voltei para o meu quarto sem fazer barulho. Se soubessem que estava acordado, eram bem capazes de empurrar a porta e entrar por ali dentro, assim, sem mais. Os Riley têm a mania de aterrar em nossa casa a qualquer hora do dia ou da noite. A mãe delas tem uma chave-mestra que abre todas as portas do prédio. Mesmo fechados à chave, nunca estamos a salvo. Saltei para a cama e apercebi-me que o sábado, dia de confissão, ainda vinha longe. Três dias. Como havia eu de fazer para aguentar três dias com a alma negra
  47. 47. pelo pecado? E se até lá eu morresse? De certeza que ia para o inferno… Foi então que resolvi tentar um truque que Luther White me aconselhara. Luther é batista; explicou-me que os batistas se confessam diretamente a Deus sem passar por um padre. Segundo ele diz, funciona muito bem. Pensei que mal não me haveria de fazer, e então apliquei o método. Perdoai-me, meu Pai, porque pequei. Os meus pecados são estes… Ia mais ou menos a meio da lista, quando ouvi o meu pai chegar. Desbobinei o resto a toda a pressa e fiquei à escuta. Primeiro, só ouvia o barulho das colheres nos pratos e do partir do pão. Depois, foram deitar-se e começaram logo a cochichar. Falavam tão baixinho para não acordarem Maureen, que eu não distinguia as palavras. Levantei-me furtivamente, e ajoelhei-me junto do reposteiro que separa os dois quartos. Então ouvi a voz da minha mãe que dizia: — Mas quando? — Amanhã — respondeu o meu pai. Ela respirava com dificuldade como alguém que se sente oprimido. — Tão cedo? Meu Deus! — Quanto mais cedo, melhor. Não passo de um fardo, de uma boca inútil. — Não fales assim, Daniel. Sabes bem que não é verdade.
  48. 48. — Sabes o que quero dizer. Não há trabalho para mim em Nova Iorque, e não haverá durante muito tempo. Não posso ficar sem fazer nada. — Mas as eleições estão próximas — insistia a minha mãe. — Roosevelt vai certamente ganhar, e aí as coisas irão mudar. — Com certeza, minha querida. Espero bem. Mas vai demorar muito e o tempo joga contra nós. Toda esta cidade está doente, as pessoas morrem de fome, as crianças roubam… Àquela alusão, a minha mãe nada respondeu. — Voltarei, mal tenha encontrado alguma coisa — continuou o meu pai. — E depois levo-vos a todos comigo. Verás, Molly, vai ser maravilhoso. Teremos uma casa no campo, e os meninos vão crescer numa atmosfera sadia… — Mas aqui é que é a nossa casa! Os nossos amigos vivem cá todos, neste bairro. Nunca conhecemos outro, Daniel. O meu pai pôs-se a rir. — Esqueces-te de onde vens, minha Molly! Atravessámos o oceano juntos, lembras-te? Olha lá, onde está a tua coragem de outros tempos, Irlandesa? — Isso era antes de ter as crianças, Daniel. Ser mãe tornou-me mais prudente.
  49. 49. — Mas é precisamente por eles que tenho de partir. Bem vês, Molly: o Danny nem sabe distinguir o bem do mal, e como é que hei de zangar-me por isso? Anda sempre de barriga a dar horas, e eu nada faço para lhe dar de comer. Cruza-se todo o dia com traficantes e vigaristas que engordam com a miséria alheia, enquanto o pai, por muito honesto que seja, fica de braços a abanar, a ver a família morrer de fome! Nesta última parte, um pouco exaltado, a voz do meu pai subiu de tom. A minha mãe, transtornada, interrompeu-o: — Chiu! Vais acordar as crianças. Depois não ouvi mais nada: a minha mãe falou baixinho por uns momentos, com a sua voz tranquilizadora e a respiração do pai foi acalmando, gradualmente. E adormeceu. Deitado de bruços, fiquei uns momentos com o rosto no chão frio. Nunca tinha sido tão infeliz. O meu pai ia embora e o culpado era eu. Um pequeno ruído vinha do quarto vizinho. A minha mãe chorava. Agora que sou grande, há muito que tal não me acontece. Mas há uma coisa que me faz sempre chorar: é ver a minha mãe chorar. Só de a ouvir, de a imaginar, basta! Apertou-se-me a garganta e torrentes de lágrimas inundaram-me o rosto. Virei-me e fiquei a olhar para o teto. Para evitar fazer barulho ao fungar, deixei que as lágrimas
  50. 50. escorressem pela cara até às orelhas. Acabaram por secar e suportei os traços frios e salgados delas no meu rosto. Mesmo com o pijama vestido, o chão frio e húmido gelava-me as costas até aos ossos. Nesse dia a mãe tinha lavado tudo. Depressa os meus pés ficaram gelados, e a garganta começou-me a doer como se tivesse engolido lâminas de barbear. Mas não me preocupei. Era um verme, um excremento de terra e não merecia outra coisa. ♦♦♦♦♦♦ 7 Quarta-feira, 19 de outubro de 1932 Não sei como foi, mas adormeci naquela posição. No dia seguinte de manhã, o meu pai é que me acordou ao tropeçar em mim. — Danny, meu filho, que fazes aqui deitado no chão? — perguntou ele, estupefacto.
  51. 51. Esfreguei os olhos, tão admirado como ele, ainda tonto de sono… e depois lembrei-me de tudo. Olhei para o meu pai que estava de pé, por cima de mim, com o casaco vestido, o chapéu de lã e o cachecol que a minha mãe lhe tinha tricotado no Natal passado. — Vais-te embora. Tinha tentado dizer aquilo em tom de pergunta, mas ele percebeu. Era uma constatação e uma constatação sem esperança. Acenou que sim com a cabeça e estendeu-me a mão. — Estiveste a escutar-nos ontem à noite. Fiz que sim com a cabeça. O meu pai puxou-me pela mão e eu levantei-me tolhido de cansaço. Sentia-me tão velho e partido como a Sra.ª Mahoney, do andar de cima, que está sempre a queixar-se do reumatismo. O meu pai empurrou-me suavemente para a cama e pôs-me um cobertor pelas costas. — Estás a tremer de frio, Danny! Não podes dormir no chão, qualquer dia ainda morres… — Pai, vais-te embora… — repeti eu. Deu um grande suspiro.
  52. 52. — Tem de ser, meu filho. Aqui, não consigo arranjar trabalho. Num relance, revi todas aquelas noites em que, sendo eu pequeno, acordava a chorar com pesadelos. Imediatamente o meu pai voava para a minha cama e reconfortava-me, dizendo Está tudo bem, Danny, estou aqui. De facto, estando ele ali, tudo estava bem. E se fosse embora? — Não quero que vás. — Também eu não quero, filho. Mas tem de ser. Deu-me uma palmadinha no joelho. — Vamos, veste-te depressa. Vais-me acompanhar durante um bocado? — Está bem — murmurei. E depois Maureen acordou a gritar e o meu pai foi vê-la. Vesti-me a toda a pressa e fui ter com eles à cozinha. A minha mãe estava muito calma, mas com os olhos inchados. — O Danny vai acompanhar-me durante uma parte do caminho, Molly — disse o pai. — Não vai sem tomar o pequeno-almoço. — Oh, mãe!... — A tua mãe tem razão — continuou o meu pai — Um rapaz como tu não deve
  53. 53. sair de casa de estômago vazio. Não há pressa. Tempo, na verdade, não tinha lá muito. Antes das aulas ainda tinha de ganhar algum dinheiro a engraxar sapatos. Engoli os flocos de aveia em quatro goladas e corri para a porta enquanto vestia o casaco. De boca cheia anunciei que estava pronto. O meu pai virou-se para a minha mãe. — Pronto… — Pronto — repetiu ele. Abraçou Maureen, pô-la nos meus braços e virou-se para a minha mãe. Agarrou- -a com toda a força e deu-lhe um beijo na boca. Isto durou um longo momento. Depois olharam-se tristemente, olhos nos olhos. — Dá-me um sorriso — disse o meu pai. O queixo dela tremia, tinha os olhos cheios de lágrimas, mas mesmo assim esboçou um sorriso. O meu pai soergueu-lhe o queixo como se estivesse a brincar. — Agora sim, a minha Molly voltou! Continua a sorrir assim e o tempo entretanto passa sem dares conta. E eu depressa estarei de volta. Pegou no saquito das provisões que ela preparara e virou-se para mim. — Não te esqueças da caixa das graxas, Danny. A tua mãe conta com esse dinheiro.
  54. 54. Entreguei Maureen à minha mãe e peguei na caixa. — Não chegues tarde à escola, muita atenção — recomendou a minha mãe. — Prometo que não. No momento em que o meu pai abriu a porta para sair, vi-a empalidecer. Lançou um suspiro abafado. — Daniel… — Sim, diz. Virou-se bruscamente. Vacilava, os lábios entreabertos, como se quisesse dizer alguma coisa. Finalmente, sacudiu a cabeça. — Nada… Sim. Que Deus te guarde! — Que Deus te guarde a ti, também, minha querida — respondeu ele com uma piscadela de olhos. Atirou-lhe um último beijo com a mão e foi embora. Lá fora estava frio e cinzento. Não tardaria a chover. Antes do virar da esquina, voltámo-nos. Dois rostos encaixilhados na janela da sala, um grande e um pequeno. O meu pai levantou a mão para lhes mandar mais um beijo e depois entrámos na rua 107.
  55. 55. Àquela hora, a cidade ainda dormia. Apenas um polícia se debatia para expulsar os vagabundos que dormiam nas entradas de prédios e de bancos. Ao passar diante da loja do Sr. Weissman, vi a nova montra a brilhar com todo o seu esplendor, como se nada tivesse acontecido. O meu pai nem sequer virou a cabeça para a ver. Eu já tinha pedido desculpa à minha mãe…. O mais difícil estava por fazer. Não sei porquê, mas com o meu pai tais palavras ficam-me presas na garganta. No entanto, os acontecimentos da véspera ainda não estavam resolvidos, e eu não tinha o direito de o deixar ir embora sem nada dizer. Pigarreei e, com uma vozinha surda, murmurei: — Ó… pai? Caminhava um metro à minha frente, no seu passo ágil e rápido. Não me respondeu. — Pai? — disse eu um pouco mais alto. — Hein? Ah, sim… O que é, filho? — Queria dizer-te…. Lamento o que se passou ontem à tarde. Desculpa. Virou a cabeça para mim, com um ar ao mesmo tempo terno e severo. — Desculpo-te, Danny, mas tens de me prometer uma coisa. Daqui em diante
  56. 56. vais manter-te sempre afastado desses gémeos Sullivan. — O que queres dizer com isso? Não estou a entender… — Não penses muito. Sabes bem o que quero dizer, Danny. Conto contigo para cuidares da Maureen e da tua mãe na minha ausência. Já és um homem. Confio em ti. Senti o peito inchar de orgulho. — Não te preocupes, pai. Tratarei de tudo. Quando regressares vais ter orgulho em mim, prometo. — Nem duvido disso, meu filho! — exclamou ele com um grande sorriso. Quando chegámos à 5ª Avenida, o meu pai parou. — Vamos separar-nos aqui — disse-me ele. — Ainda tens de trabalhar antes de ires para a escola. A tua mãe precisa do dinheiro que vás ganhando, bem sabes. — Sim, pai — respondi, com uma voz um pouco insegura. De repente, pareceu-me que o céu ficava escuro. O meu pai ia mesmo partir. — Vais ficar ausente por muito tempo? — perguntei, de olhos no chão. — O tempo que for necessário. Não voltarei sem ter encontrado trabalho. — Mas pelo menos no Dia da Ação de Graças vais estar cá? — Farei os possíveis. — E… para onde vais?
  57. 57. — Não faço ideia, Danny. Irei sempre em frente, a ver se arranjo trabalho. Talvez apanhe o comboio. — Tem cuidado, pai. — Não te preocupes comigo, meu filho. Vai correr tudo bem. Depois destas palavras, pegou em mim e apertou-me com muita força. Eu, reprimindo as lágrimas que me vinham aos olhos, agarrei-me a ele como um louco. Tinha vontade de chorar, de lhe pedir que ficasse, mas uma voz interior dizia-me para não o fazer. Quando deixou de me abraçar, olhei-o nos olhos, sem uma lágrima, de cabeça erguida. — Toma bem conta das nossas mulheres, Danny. — Prometo. — Adeus, meu filho. — Adeus, pai. Rodou os calcanhares e seguiu pela 5ª Avenida. Fiquei a vê-lo afastar-se até virar para a Rua 110. Uma forte gota de chuva espalhou-se aos meus pés, deixando uma marca redonda e negra no passeio. Depois outra e mais outra. E o meu pobre pai que não levara guarda-chuva…
  58. 58. 8 Normalmente o meu trabalho de engraxador não me aborrece. Gosto de sair de manhã com a caixa e ver o despertar da cidade. O carro do vendedor de leite faz o seu giro, os comerciantes abrem as persianas das lojas e varrem diante da porta. E os cavalos saídos das cavalariças passam pelos túneis do caminho-de-ferro, com carroças carregadas de frutos e de legumes. O ano passado, entrei numa peça de teatro na escola, e as manhãs de Nova Iorque lembram-me o momento que precede o levantar do pano. No entanto, hoje tudo parecia sombrio e triste. As gotas de chuva caíam-me na cara como agulhas geladas, avivadas pela nortada. Chovia demasiado para poder ficar no meu lugar habitual, perto do quiosque de jornais do Ike. Refugiei-me então no abrigo do metro. — Engraxar sapatos! Engraxar sapatos! Lançava a minha frase habitual a cada pessoa que entrasse na estação. A maior parte passava sem olhar para mim, de cabeça enterrada nos ombros. Finalmente, um de entre todos parou.
  59. 59. — Quanto custa, rapaz? — Cinco cêntimos, senhor. Com um aceno de cabeça, afastou-se. Apressei-me a rever o meu preço. — Três cêntimos, para si. Parou com ar de quem pesa uma decisão da mais alta importância. — E se te oferecesse dois cêntimos? — Está bem. Pousou o pé direito em cima da caixa e eu fiz o melhor que pude para dar um ar de elegância ao sapato, já gasto e estalado como um velho tronco de árvore. Mas, quando pousou o esquerdo, quase me engasguei de surpresa. — Ó senhor…. Não sei se sabe, mas os sapatos não são os dois da mesma cor! — Chiu! — exclamou, olhando à volta com ar preocupado, como se alguém me tivesse ouvido. Depois, inclinou-se para mim e disse num tom confidencial: — Claro que sei. Só tens de pôr graxa preta neste, e fica igual ao outro. Tenho uma entrevista importante, para um emprego. — Bem… Besuntei o sapato de cera preta e esfreguei com quanta força tinha. O resultado
  60. 60. até a mim me surpreendeu: impossível notar a diferença, a não ser que se olhasse para os pés a menos de cinco centímetros. Na verdade, depois daquele impacto, e vendo bem, aquela situação não tinha nada de especial. Nestes últimos tempos, as pessoas ficaram tão pobres que se vestem como podem. Vê-se cada vez mais fatos desemparelhados, demasiado grandes, ou demasiado pequenos, ou remendados. O certo é que o meu cliente ficou contente. — Obrigado, pequeno — disse ele, ao entregar-me os dois cêntimos. — Boa sorte para a entrevista — respondi-lhe eu. — Obrigado. Preciso mesmo de sorte: vai haver uma centena de candidatos. — Ui! Mas de que trabalho se trata? — Vendedor de sapatos, precisamente. — Só tem de dizer que vai ser o primeiro cliente — sugeri-lhe eu a brincar. — Bem pensado, miúdo. Vou-me lembrar dessa. Desceu para o metro e ali fiquei à espera do cliente seguinte. Dois ricaços acabavam de entrar, de casacos de pele e chapéu de coco. — Engraxar sapatos! — apregoei eu. — Cinco cêntimos o par, é barato… Esboçaram um sorriso e já estavam a aproximar-se de mim quando ouvi gritar:
  61. 61. — Eh! Ó miúdo! Um indivíduo espadaúdo, de ar grosseiro, com mais de trinta anos, a oscilar os ombros, vinha na minha direção. — Que estás aqui a fazer? Esta zona é minha. Fora daqui! Não ia bater-me com alguém que era o dobro de mim, em altura e largura. E estava na hora de ir para a escola… Peguei nas minhas coisas e fugi, enquanto ouvia os berros do tipo que vociferava: — Se volto a encontrar-te por cá, apanhas! Pois é… Até a profissão de engraxador se torna perigosa. Que tempos estes! Ao chegar a casa, já a minha mãe me tinha preparado a pasta. Reparou no meu casaco molhado e franziu o sobrolho. — Está a chover muito! — Bastante. E há vento. Eu não devia ter dito aquilo. Ficou à beira das lágrimas. — Não te preocupes, mãe. Não é de açúcar, não derrete. Um pequeno sorriso iluminou-lhe então o rosto. — Tens razão, Danny. — E ele há de voltar depressa, vais ver.
  62. 62. Enquanto falava com ela, tentava convencer-me a mim próprio, o que não era fácil. Deu-me um beijo na testa. — Não duvido, meu filho. Agora despacha-te. Não podes chegar atrasado à escola. Galguei as escadas e dei com Mickey Crowley, que me esperava no átrio do prédio. Tem catorze anos e é muito mais alto do que eu, mas estamos na mesma classe porque começou com um ano de atraso. — Olá, Danny! — exclamou ele ao ver-me. Mas reparei que estava a olhar por sobre os meus ombros, para a escada. Eu bem sabia por quem é que ele esperava. — Ainda não chegou? — Quem? —inquiriu Mikey, corado como uma rapariga. — A Kitty Riley, malandro. É por ela que esperas, não? — Que estás para aí a inventar? Dizes isso porque estás apaixonado pela Maggie, aposto. Desatei a rir com aquela saída. — O amor põe-te tolo. Eu, apaixonado pela Maggie? Não vês que já a conheço há
  63. 63. tantos anos! É uma velha amiga… Interrompeu-nos um enorme alarido. Era a tribo Riley que descia as escadas, um lindo rancho; só faltavam Dotty e Marion, muito pequenas para irem à escola. Johnny, Alice, Winnie, Florence e Inês ainda andam na escola primária, mas Kitty e Maggie, as gémeas que são da minha idade, frequentam o colégio das raparigas na Rua 111. Kitty e Maggie são gémeas verdadeiras, quer dizer que são muito parecidas; o mesmo não se passa com os irmãos Sullivan. Quando era pequeno, eu confundia-as a todo o instante, mas agora parecem-se menos. Maggie é um pouco mais alta e, na minha opinião, mais bonita. Quanto a Johnny, coitado, é o único rapaz da família. Rodeado de oito irmãs, corre o risco de ficar maricas… (como elas) Quando nos viu, Kitty teve um leve sobressalto e olhou para Mickey com um sorriso tímido. Maggie, como sempre, trazia os socos grandes. — Então, Danny, o que fizeste ontem à tarde? — Ontem à tarde? De que estás a falar? — O Finnegan trouxe-te algemado, não? — Olha, mete-te na tua vida — retorqui com ar de poucos amigos.
  64. 64. — Vá lá, não te zangues. Sabia que não me ia deixar em paz, enquanto não soubesse tintim por tintim o que se tinha passado. E então resolvi contar tudo. — A culpa não foi minha. Alguém partiu a montra do Sr. Weissman e o boião do dinheiro desapareceu. — Bolas! E eu que tinha a certeza de ter adivinhado a quantia exata. És mesmo um palerma, Danny. — Mas já te disse que não tive culpa! Eu também tinha adivinhado a quantia exata. Só com uma diferença de poucos cêntimos. Mas Maggie olhava para mim com desconfiança. — E como é que o teu pai reagiu? — Reparou a montra. — Mas tu foste bem castigado, não? — Não. Desta feita, ficou desiludida. — Isso era o que tu querias… Não te bateu nem sequer um bocadinho? — Não. — Estranho… Bem. Tenho de ir.
  65. 65. Puxou Kitty pelo braço e lá foram as duas. Mickey e eu seguimo-las da soleira da porta. Maggie dava ordens aos mais pequenos. — Tomem o guarda-chuva. Inês, tu é que o levas. És a mais alta. Inês, com dez anos, abriu o guarda-chuva por cima da cabeça. Os outros apertaram-se contra ela como pintainhos à volta da mãe. — Olhem lá, rapazes — disse Maggie. — Acompanham-nos até ao túnel? Sabem como é, quando chove… É preciso ir pelo túnel da Rua 106 para se chegar à escola primária. E todos os túneis que passam por baixo do caminho-de-ferro na Park Avenue, nos dias de mau tempo, estão cheios de mendigos e vagabundos que ali se abrigam. Mas, passar pelo túnel, obrigava-nos a fazer um desvio, a Mickey e a mim. Eu ia recusar, quando Mickey, de rosto sorridente, avançou para as gémeas, a cantarolar: — Com todo o prazer! Como se lhe tivessem oferecido um bombom ou qualquer coisa do género. Não haja dúvida, estes últimos tempos Mickey anda muito estranho… Maggie agradeceu-lhe com um sorriso rasgado e lá fomos escoltar o rancho Riley ao longo da avenida. As gémeas abrigavam-se da chuva com jornais velhos. As saias,
  66. 66. revolvidas pelo vento, voavam-lhes à volta dos joelhos. Mickey deu-me uma cotovelada. — A tua velha amiga Maggie e a irmã têm lindas pernas, não achas? Ainda não tinha acabado a frase, já eu lhe tirara o chapéu, passei-lhe a mão pela cara e zás! caiu na valeta. Meio aturdido, o pobre Mickey viu o boné aterrar numa poça enquanto eu fugia para a escola, a dizer: — Despacha-te, que as miúdas estão à tua espera para atravessar o túnel. ♦♦♦♦♦♦ 9 Não demorou que encontrasse os irmãos Sullivan. Na verdade, foram eles que vieram ao meu encontro. Ao chegar à escola, estavam diante da porta da entrada. À minha espera. Ainda antes de perceber o que estava a acontecer-me, vi-me encostado à parede. — Piaste, hein? – murmurou Harry com uma voz roufenha.
  67. 67. — Hein? Responde! — insistiu Frank, agarrando-me pelo colarinho. — Está quieto, palerma, não te metas — ordenou-lhe o irmão. — Eu encarrego- -me deste denunciante. Depois virou-se para mim e disse-me: — Então, seu estúpido, piaste? — Adivinha, seu estúpido. Achas que ainda estavas aqui se eu tivesse aberto a boca? — Que é que queres dizer com isso? — perguntou Harry com ar espantado. Tenho de explicar que os irmãos Sullivan não são nada inteligentes… — Quero dizer que se eu tivesse aberto a boca, a polícia já vos tinha vindo buscar. Perante tais palavras, os falsos gémeos entreolharam-se em silêncio por uns instantes, mantendo-me sempre preso contra a parede. Entretanto, Mickey chegou e, em vez de vir ajudar-me, passou por ali com cara de parvo. Por fim, Harry lá percebeu o que eu queria dizer. Fez sinal ao irmão com a cabeça e libertaram-me. Vi que era a minha vez de brincar… Agarrei-lhe o polegar esquerdo e torci-lho atrás das costas. Foi um truque que o meu pai me ensinou. Dizia sempre: — Nunca virás a ser um colosso, Danny, por isso aprende a ser mais rápido e
  68. 68. mais astuto do que os teus adversários. A primeira vez que assim me falou, senti-me um miserável, como se fosse um pecado parecer-me com a minha mãe e não com ele. Mas, depois de refletir, decidi que iria tornar-me tão astuto e tão rápido que, um dia, o meu pai iria ter orgulho no filho. Harry, a contorcer-se de dores, caiu de joelhos pedindo perdão, mas eu continuei a torcer-lhe cada vez mais o polegar. — Eu apanhei o castigo mas tu vais pagar-mas, estás a ouvir? E, além disso, o boião era praticamente meu, então... — Vamos lá ver! O que se passa aqui? Era o Sr. Whitelaw, o subdiretor. Tem o condão de chegar sempre no pior momento. Tive de largar o Harry, que se levantou a massajar o polegar dorido. O Frank nem se tinha mexido. O irmão deu-lhe um pontapé na perna a resmungar: — Porque é que não me ajudaste, seu palerma? — Tinhas-me dito para não me meter no assunto! — respondeu Frank recuando um passo. — Oh, cala a boca! — exclamou Harry num tom cansado. Depois virou-se para mim, com os olhos a brilhar de ódio.
  69. 69. — Tu hás de pagar-mas, Garvey. — Vamos, vamos — interrompeu o Sr. Whitelaw. — Parem imediatamente. E mandou-nos para as aulas. Cheguei atrasado à aula de inglês. Havia um lugar vago ao lado de Mickey; sentei-me e disse-lhe baixinho: — Obrigado pela ajuda. Felizmente que podemos contar sempre com os amigos, não é verdade? — Tinhas ar de te desenvencilhares bem sozinho. — Heim… bem… Faço-te o mesmo quando te vir em apuros! O Sr. Proctor, o professor, mandou-nos abrir Tom Sawyer no oitavo capítulo e pediu a Tony Maretti para ler em voz alta. Esforçava-me por ouvi-lo, mas não conseguia concentrar-me. De qualquer modo eu já tinha lido Tom Sawyer três dias depois de no-lo ter indicado. É sempre a mesma coisa: depois de ler o livro queria passar a outro, mas somos obrigados a lê-lo na aula, capítulo por capítulo, decompô-lo em partes e, o que é pior, fazer comentários. É tão aborrecido! E depois, quando um professor nos pergunta o que pensamos de um romance, na
  70. 70. realidade, não lhe interessa para nada a nossa opinião. A única coisa que conta é o seu ponto de vista. É por isso que não gosto de dar a minha opinião. Vejamos por exemplo Black Beauty. De todos os livros que li, é o meu preferido e não é, como o Sr. Proctor quis convencer-nos, por causa do tema da injustiça social. Se gostei tanto de Black Beauty, foi por causa do Ned. Ned é o cavalo que puxa a carroça do gelo. Há anos que somos amigos. Quando eu era pequeno, sempre que o dono vinha entregar gelo no nosso prédio, as outras crianças precipitavam-se para a carroça, subiam e desciam, e pilhavam pedaços de gelo…Mas eu, enquanto isso, ficava a falar com Ned. Acariciava-lhe a espinha curvada pelos trabalhos e pela velhice, e interrogava-me como teria sido quando era jovem e possante. Com os dedos penteava-lhe as crinas emaranhadas e, por vezes, se a minha mãe me autorizava, dava-lhe uma cenoura ou uma maçã. E Ned olhava sempre para mim com aqueles olhos grandes e tristes. Sentia que tinha qualquer coisa para me dizer, mas nunca consegui perceber o que seria. Até ao dia em que li Black Beauty. Nesse dia percebi o que Ned tinha para me contar. Pois bem, tudo o que acabo de vos dizer, escrevi-o na minha redação e nem sequer tive suficiente!
  71. 71. — Olá, Dan! Era a voz de Mickey, que interrompia as minhas reflexões. — O que é? — O Luther falta, já reparaste? Dei um suspiro ao ver a cadeira vazia de Luther, do outro lado da sala. — Desalojaram a família, ontem. — A sério? — replicou Mickey no seu ar endomingado. — Estou em melhor posição do que tu para o saber, porque moro no número 1446. Mas… A voz do professor soou naquele preciso momento. — Garvey? — Hã… Sim, senhor professor? — Queres explicar-nos, por palavras tuas, o que Mark Twain quis mostrar nesta passagem? Pois é. Fui apanhado. Tossiquei um pouco para aclarar a voz e murmurei: — Hum… ♦♦♦♦♦♦
  72. 72. 10 Fui obrigado a ficar depois das aulas para conjugar em todos os tempos e modos a expressão: «estar atento na aula». Claro que isto me fez chegar atrasado ao trabalho na loja do Sr. Weissman. Quando cheguei, não me disse nada. Limitou-se a tirar do bolso o relógio do meu pai e a olhá-lo com ar enamorado. — Desculpe, Sr. Weissman. Atrasei-me porque… hum, um dever suplementar. Nunca mais voltará a acontecer. — Diz-me lá, rapaz. Já sabias hoje que terias de chegar atrasado? — Não. — Então não podes prometer que isso não volta a acontecer. Ficas um quarto de hora a mais no fim. Pega, põe este avental. — Obrigado, senhor. — Este é o livro das contas. Não é novidade, mas tens de aprender a fazer ao contrário: meter o dinheiro na caixa, em vez de o tirares. — Sr. Weissman, já lhe expliquei que não sou nenhum ladrão.
  73. 73. — Sim, sim. Eu sei que és um anjinho. Bem, finges que és. Veremos. E, enquanto falava, sacudia o bolso do casaco. Mostrou-me como se fazem as contas. Até achei engraçado. — Cuidado! — disse ele. — Sei exatamente quanto há na caixa, portanto, nada de histórias. — Sim, senhor — respondi, cansado de protestar. O Sr. Weissman mostrou-me o grande pote de leite atrás do balcão. — Quando os clientes vêm com a garrafa, tu enche-la até à base do gargalo, nem mais nem menos. O mesmo em relação à farinha: colocas o saco na balança e pesas exatamente o que pediram, nem mais nem menos. Quanto aos bombons… — Eu sei — respondi. — Dar exatamente a quantidade pedida, nem mais nem menos. — Pronto, agora vamos passar a este registo: é aqui que anoto as contas dos clientes habituais, aqueles a quem concedo crédito. Se alguém te pedir fiado, primeiro vens ver a este livro. Se o nome não constar aqui, não há fiado!!! Falara num tom ameaçador, como se eu tivesse pedido crédito para mim. — Percebido? — Sim, Sr. Weissman.
  74. 74. — Bom. Agora abre este caixote e arruma as latas de conserva naquela prateleira, lá em cima. — Posso utilizar a escada? Desde sempre me encantaram as escadas de mercearia, mas nunca me atrevi a pensar que ainda viria a usá-las. — Que te parece? — respondeu o Sr. Weissman em tom ríspido. — Vais atirá-las lá para cima? Claro que tens de servir-te da escada. — Espantoso! — respondi eu. O meu novo patrão levantou os olhos ao céu, meneando a cabeça, mas não disse nada. Estava eu empoleirado na escada, quando entrou uma senhora na loja. Notei logo que vestia melhor do que as mulheres do bairro, com um casaco de gola de pele e um chapéu de veludo preto muito elegante. Mas havia qualquer coisa de azedo na sua expressão, e a boca contraída não me agradava nada. Dir-se-ia que estava a comer algo amargo. De braço estendido, segurava na ponta dos dedos um saco de papel, com um ar tão enojado como se ali estivesse um rato morto.
  75. 75. — Sr. Weissman!— vociferou ela numa voz autoritária e aguda. — Há um verme na sua farinha. Um verme! — Bom dia, menina Perkins — respondeu o senhor Weissman num tom de voz o mais amável possível. — Que prazer vê-la por aqui! O nome desta mulher dizia-me qualquer coisa, mas não conseguia reconhecer aquele rosto. Porém, os cumprimentos do merceeiro não produziam nela qualquer efeito. Com uma fungadela de desprezo, pousou o saco da farinha no balcão. O Sr. Weissman inclinou-se para espreitar o interior. — Tem razão — declarou doutamente. — Há de facto um verme aqui dentro e bem gordinho! Foi muito simpático da sua parte ter vindo mostrar-mo! Levantou os olhos para a menina Perkins, e, de sobrolho franzido, pôs-se a afagar a sua barba branca. — A senhora é uma boa cliente. Por isso não lhe vou cobrar nenhum extra. Pode guardar a farinha e o bichinho também pelo mesmo preço. A boca da menina Perkins abriu-se de orelha a orelha, como para protestar, e eu, de tanto reter o riso, quase caía. Mas o caso era grave. Os olhos da senhora faiscavam.
  76. 76. — Sr. Weissman, não se ponha a troçar de mim. — Longe de mim tal ideia, menina Perkins. — Exijo um saco de farinha novo — disse ela num ar feroz, com os braços cruzados sobre o peito. O Sr. Weissman virou-se para mim a suspirar. — A satisfação do cliente acima de tudo, é este o meu lema. Danny, pesa uma libra de farinha à menina Perkins. — Sim, senhor. Pesei exatamente uma libra de farinha, nem mais, nem menos, e entreguei-a àquela impertinente senhora. De súbito fez-se luz na minha cabeça e lembrei-me onde tinha ouvido aquele nome. A menina Perkins era a antiga professora de Maggie quando esta andava na escola primária. Pobre Maggie! A professora arrancou-me literalmente o saco das mãos sem um «obrigada» e saiu porta fora. — Agora percebo porque lhe chamavam “o coronel” — disse eu. — Como? — quis saber o Sr. Weissman. — As raparigas, na escola onde ela ensinava, chamavam-lhe “coronel”. Por um instante pareceu-me ver um esboço de sorriso nos lábios do Sr. Weissman.
  77. 77. — Toma — disse-me ele entregando-me o saco. — Tira o bicharoco e deita a farinha na arca. — Na arca? — Claro! Não vais deitá-la fora, pois não? De olhos fixos no alto, fez do Céu testemunha. — Tanta confusão por causa de um bichinho de nada! Dir-se-ia tratar-se de um acontecimento histórico… Entretanto, apesar da minha repugnância, lá tirei o verme do saco e deitei a farinha na arca. Não sabia o que fazer daquele animal repugnante. O Sr. Weissman olhava para mim com ar de gozo. — Come-o. É carne barata, não? — exclamou ele. Respondi com uma eloquente careta. — O que é que tens, Danny, não gostas de carne crua? Nesse caso, leva-o para casa e pede à tua mãe que faça um guisado com ele. Bem, basta de brincadeira, vou- -me lá para o armazém. Não faças asneiras nas minhas costas, olha que te arrependes. Fiquei especado no meio da loja, com o bicho nas mãos, sem saber o que fazer dele, um pouco agoniado com aquelas brincadeiras. Mal o Sr. Weissman desapareceu,
  78. 78. a porta tilintou. A Sr.ª White entrou e ficou muito embaraçada por me encontrar ali. — Olha o Danny… Mas o que fazes aí atrás do balcão? — Eu… Vim ajudar o Sr. Weissman por algum tempo. — Olha que bem! És um rapaz valente, Danny. Tenho a certeza de que a tua mãe tem orgulho em ti. — Eu… sei — respondi com ar incomodado. — Mas… o que tens na mão? — Nada. Inclinou-se para ver e, rapidamente, meti o verme no bolso do meu avental. — O que deseja? — perguntei com ar de profissional. A Sr.ª White baixou a cabeça, muito corada e puxou do porta-moedas. — Sabes que fomos… quer dizer, mudámos de casa. Como juntámos algum dinheiro ao vendermos algumas bugigangas, vim pagar o que devo. — Muito bem — disse eu, enquanto pegava no livro de registo de contas. — Já sabe onde vai morar? — Não temos… ainda não decidimos — respondeu a Sr.ª White cada vez mais corada. — Então diga ao Luther que me escreva quando estiverem instalados, por favor.
  79. 79. — Com certeza. Obrigada. Tinha aberto o livro na folha do “W” e ia dizer a quantia, quando chegou o Sr. Weissman, vindo do armazém, e me tirou o livro das mãos. — Eu trato da senhora, Danny. Acaba de arrumar as latas de conserva. Um pouco atarantado, voltei a subir para a escada. O Sr. Weissman olhava para a Sr.ª White a sorrir. — Como está, minha querida senhora? — Bem, obrigada — respondeu ela com um sorriso tímido. — E os filhos? — Estão bem. — Ótimo, ótimo… soube que nos ia deixar, tenho pena… — Também nós, Sr. Weissman. Mas… em relação à minha dívida… — Sim, com certeza. Espere que eu faço as contas… Enquanto falava, seguia com o dedo o registo. Empoleirado no alto da escada, eu via o que ele fazia. — Sete dólares e vinte e dois cêntimos — disse ele por fim. Pouco faltou para cair da escada. Tinha lido com os meus olhos, instantes antes, a quantia registada no livro das contas. Trinta e três dólares e oitenta e sete cêntimos.
  80. 80. Também a Sr.ª White estava admirada. — Deve haver aí algum engano. Eu… Bem, acho que deve ser mais do que isso, Sr. Weissman. — Não — replicou o merceeiro a olhar atentamente para o rol. — Está aqui escrito em letras garrafais. — Garanto-lhe… — Então, acha que não sei fazer contas? — Ai, não. Longe de mim tal ideia. — Portanto deve-me, minha querida senhora, sete dólares e vinte e dois cêntimos. Tem dinheiro que chegue? — Sim, sim — respondeu a Sr.ª White enquanto procurava no porta-moedas. — E depois… ainda precisava de algumas coisas… O Sr. Weissman deu-lhe tudo o que ela lhe ia pedindo, mas, no momento de pagar, recusou o dinheiro. — É a minha prenda de despedida — explicou ele. — Impossível, não posso aceitar… — Sou eu que quero oferecer! Tenho por hábito dar um presente aos meus clientes quando deixam o bairro. É a base do ofício de comerciante.
  81. 81. Acompanhou-a gentilmente até à porta, e ali pegou num punhado de gomas de alcaçuz e entregou-lhas: — É para as crianças! A Sr.ª White já não corava. Disse simplesmente: — Que Deus o abençoe, Sr. Weissman! — Obrigado — respondeu ele. — Aqui está uma bênção que me será bem útil. Mal a porta se fechou, saltei da escada. — Diga-me lá, Sr. Weissman, eu tinha aberto o livro e pareceu-me que vi lá escrito… Um ruído de papel amarrotado interrompeu-me. O Sr. Weissman acabava de deitar para o lixo a folha dos White. — Não estás aqui para falar — disse ele. — Mandei-te arrumar as latas de conserva. Vai fazer mas é o teu trabalho! ♦♦♦♦
  82. 82. 11 Hoje jurei que nunca mais voltava a roubar. Morria de fome ao fim da tarde, e então surripiei um punhado de amendoins, julgando que o Sr. Weissman não dava conta. Tinha-os metido no bolso do avental e, de cada vez que ele virava costas, comia um à socapa. Até ao momento em que trinquei um amendoim estranho, que não estalou como os outros. Qualquer coisa pegajosa e amarga se espalhou na minha boca e eu cuspi aquele alimento imundo na mão com uma expressão de asco: — Que nojo! — O que foi? — perguntou o Sr. Weissman. — Acabo de comer o verme da menina Perkins — respondi eu com uma careta. O Sr. Weissman pôs-se a rir, depois tomou um ar grave e apontou com o dedo para o teto: — Apanhou-te. Perplexo, olhei para cima. Apenas uma borboleta noturna, adormecida ao canto da trave, podia representar aquele misterioso “ele”, mas não estava a ver como é que
  83. 83. ela podia intervir na minha história. — Quem? — perguntei. — Ele — respondeu o Sr. Weissman, apontando outra vez para o teto. De repente fez-se luz no meu espírito. Queria dizer Ele, com «E» maiúsculo. Deus, pois. — Castigou-te por me teres roubado amendoins — prosseguiu o Sr. Weissman. As minhas faces ficaram rubras. — Então tinha visto? — Claro. Tenho dois olhos atrás da cabeça. Não se veem, mas estão lá. Indispensável na minha profissão. — Desculpe, Sr. Weissman. Disponho-me a trabalhar mais tempo para lhos pagar. — A questão não é essa, menino. Mas da próxima vez, pede. Não roubes. Censurei-me muito, não só porque tinha faltado à palavra para com o meu pai, mas também porque gostava deste velho rabugento, com as suas maneiras severas e o seu coração de ouro. Queria que tivesse de mim uma boa opinião. Não demorei a perceber porque é que os Weissman viviam tão pobremente. Não é por falta de clientes, pois a campainha da porta não para de tilintar durante todo o dia. Mas pelo
  84. 84. que está na caixa registadora… — Ponha isso na minha conta — dizem todos, e os algarismos sobem no registo das compras a crédito. Mas o porta-moedas do Sr. Weissman emagrece dia após dia. A mim, o facto de trabalhar na mercearia, criou-me problemas inesperados. Desde que correu a notícia de que eu trabalhava ali, todos os meus colegas desfilaram, convencidos de que os deixaria levar tudo o que queriam, sem pagar. Era difícil, sobretudo no início, antes de descobrir a verdadeira personalidade do Sr. Weissman. Como era tido por um velho cheio de dinheiro, todos os meus colegas esfomeados me pediam com que encher a barriga e não compreendiam por que motivo eu recusava. Se aceitasse, passaria por ladrão aos olhos do meu patrão e do meu pai. Ao recusar, passava por traidor aos olhos dos meus amigos. Foi assim que passei a traidor. E há pior. Esta tarde, quem vi eu entrar na loja? Os irmãos Sullivan em pessoa! Que desplante!... Enfim, são tão atrevidos como tontos, isto diz tudo. O Sr. Weissman estava ocupado com um cliente, e tinha de ser eu a atendê-los. — Olha, olha — disse Harry a troçar — mas é o nosso querido Danny. Que fazes aqui, Garvey? — Sabes bem, Sullivan — murmurei entre dentes.
  85. 85. — Ajuda o seu querido velho Weissman, hein? Que lindo! Não achas, Frank? — Sim — disse Frank. — Que querem? — perguntei num ar ameaçador. — Mas que simpático que tu és! — comentou Harry. — Não tardas a ser aumentado, já que fazes tão bem o teu trabalho. Que achas, Frank? Interrompi-o. — Cala a boca. — Mas ele está a enervar-se! Não é assim que se fala aos clientes, Danny. — Tu não és cliente, Harry. — Sou, sou — protestou, exibindo uma moeda de dez cêntimos. — Olha, tenho com que pagar. Entretanto, o Sr. Weissman, que tinha terminado de atender alguém, observava- nos sem dizer nada. — Então, o que é que queres? — prossegui eu. — A minha mãe quer um bocado de pão e três cêntimos de açúcar. Foi então que o Sr. Weissman interveio… Mas não da forma que eu esperava. — Trata tu destes senhores, Danny. Tenho coisas a fazer no armazém — disse ele.
  86. 86. Eu nem acreditava. Era mesmo o momento ideal para me deixar sozinho! No entanto, ele bem sabia que os Sullivan queriam sarilhos… Embrulhei o pão, pesei o açúcar e meti tudo num saco de papel. — Aqui está, Harry. São dez cêntimos. — Vai-te lixar, cretino! — replicou, metendo o dinheiro no bolso. Deitei uma olhadela na direção do armazém. — Então, Dannizinho, vais chamar a mamã? Olha, Frank, o bebé da mamã quer pedir ajuda! — Oh… — resmungou Frank. Comecei a enervar-me. — Dá cá o dinheiro, Harry. — Aponta aí na minha folha. Anda, Frank, vamos pôr-nos a andar. — Tu não tens cá conta, Sullivan — respondi eu. — Dá-me os dez cêntimos. Sacudiu os ombros e dirigiu-se para a porta. Eu tinha de fazer qualquer coisa e rápido. Não queria que o Sr. Weissman julgasse que eu era cúmplice dos Sullivan. Num piscar de olhos, saltei o balcão e cortei-lhes a saída. — O dinheiro, Harry. E depressa. — Olha, olha, — notou ele — há qualquer coisa a bloquear a porta. Vamos atacá-
  87. 87. -lo, Frank? — Vamos a isso. Agarraram-me, cada um por seu braço, e levantaram-me como uma pluma. Mas eu, rápido como um raio, enrolei a minha perna direita na de Frank e a esquerda na de Harry. Com esta dupla rasteira, caímos os três com grande estrondo. — Que se passa aqui? — perguntou o Sr. Weissman a sair do armazém. — Nada, sor — respondi eu, levantando-me tranquilamente. — Harry e Frank preparavam-se para me pagar as compras, dez cêntimos certos. Não é verdade, amigos? Harry olhava para mim com olhos de pescada frita. Sem dizer nada, tirou a moeda de dez cêntimos e entregou-ma. Apanhei o saco todo amarrotado pela queda. — Lamento pela fatia do pão. Podem fazer pão ralado. Harry, a resmungar um palavrão entre dentes, tirou-me o saco das mãos. E saíram os dois porta fora sem dizer palavra. — Obrigado! — gritei eu desde a porta — Até à próxima. O Sr. Weissman estava à minha espera dentro da loja, com um grande sorriso. — Porque me deixou sozinho? — perguntei eu. — Bem viu que vinham para fazer zaragata. Sabe bem como eles são!
  88. 88. Não respondeu. Limitou-se a cofiar a barba, sem parar de sorrir. Então de repente, percebi. — Fez isto para me experimentar, hein, diga lá? Mas no momento em que ia responder-me, a campainha da porta tilintou. Entrou uma cliente e, sem dizer mais nada, avançou para ela. — Bom dia, Sr.ª Salinas. Que vai ser hoje? ♦♦♦♦♦♦ 12 Já era noite quando voltei para casa. Normalmente, faço este trajeto com muita cautela, mas naquela noite era sexta-feira, e eu ia a pensar no que ia fazer no dia seguinte. Algo que me desse o maior prazer possível! Não devia ter descurado a atenção. Estava quase perto da minha rua quando, de repente, alguém me agarrou por trás como uma tenaz e me torceu os braços. Logo vi surgir à minha frente Harry Sullivan, e recebi em cheio no estômago um golpe magistral que me cortou a respiração.
  89. 89. Dobrei-me sufocado e a tossir. Frank (era ele, sem dúvida) soltou-me os pulsos e arrastaram-me para uma ruela escura, aproveitando o facto de estar atordoado demais para poder defender-me. Vi-me de novo encostado contra uma parede, mas desta vez esmagavam-me a cara contra os tijolos. — Olhem para isto! — chiava Harry. — O bufo, o traidor, com um ar tão fino! Ao falar, batia o meu rosto contra a parede. Apesar das dores, recuperei fôlego e perguntei: — Afinal, o que é que vocês querem? — O que queremos? Pois bem, um pedido de desculpas. Virou-me, sempre a torcer-me os braços, com um sorriso odioso. Num relance, lembrei-me do conselho que o meu pai me dera. Quando o caso se torna sério, começa por refletir. Se não és o mais forte, sê o mais astuto. Ali, diante daqueles dois brutamontes, eu tinha de ser o mais astuto. Não era o momento de brincar aos heróis. — Então, essas desculpas saem ou não? — gritou Harry, a torcer-me cada vez mais o braço. — Desculpa! — murmurei. — Mais alto!
  90. 90. — Desculpa! Gritei tão alto como ele, com raiva. Continuava a torcer-me o braço. — Tem mesmo ar de quem não está a pensar no que diz, não te parece, Frank? — Acho que sim. — Vamos dar-lhe uma lição. De joelhos, seu filho da mãe. De uma estocada empurrou-me, e fiquei de joelhos, de cara contra a parede. Tinha o rosto ferido e senti um líquido morno a escorrer dos lábios. Era sangue. Harry e Frank estavam de novo atrás de mim, um imobilizava-me e o outro…o que estaria ele a fazer? O meu coração começava a falhar-me. De repente, ouvi o ruído de uma faca de mola a abrir. Gelou-se-me o sangue nas veias. Quis abrir a boca para gritar, mas não saiu qualquer som. Mas, para minha surpresa, o garrote que segurava o meu braço abrandou de repente. Com cuidado, virei a cabeça, temendo uma nova surpresa, e o que vi fez-me soltar um suspiro de alívio. Não fora Harry quem puxara da navalha. Era Mickey Crowley, que aparecia à entrada da ruela e os ameaçava a ambos com ar feroz. Num tom de voz o mais decidido de que fui capaz, disse:
  91. 91. — Olá, Mickey. Folgo em ver-te. Harry e Frank não se mostraram intimidados. — Não tens nada a ver com o assunto, Crowley — resmungou Harry. — Sai daqui. — Esborracha-o, Sullivan — ripostou Mickey. — Tu não deves saber o que significa esta palavra, mas olha que o Danny é meu amigo e estou aqui para o defender. Avançou, de navalha na mão, e os irmãos Sullivan recuaram um passo. Mickey deu-me umas palmadas nos ombros. — Estás bem? Não te fizeram mal? — Estou bem — respondi eu ao levantar-me. Mas as pernas tremiam-me contra a minha vontade. Mickey levou-me para junto de um candeeiro para observar a minha cara ensanguentada. — Filhos da mãe…— murmurou cheio de raiva. — Hão de pagar pelo que fizeram. Virou-se para os gémeos e exclamou num ar feroz: — Está ferido. O meu amigo está ferido. Para o vingar, tenho de fazer correr sangue, Sullivan! Os gémeos, mais mortos do que vivos, encostaram-se contra a parede. Frank
  92. 92. começou a choramingar, mas o irmão fê-lo calar com um murro no estômago: — Cala a boca ou apanhas. De repente senti pena de Frank. Nascera alguns minutos depois do irmão e, embora não sejam parecidos, é obrigado a viver à sombra dele. — Deixa-os lá — disse eu a Mickey. — Nem pensar. Vou sangrá-los como se faz aos porcos. — Não, Mick. Deixa-os ir embora. Lançou-me um olhar de desilusão. — Não tens graça nenhuma, meu. Mas pronto, já que me pedes… Guardou a navalha e, com um gesto, indicou que podiam ir. — Ponham-se a andar. No vosso lugar, daqui em diante, não me metia noutra. Os gémeos não o fizeram dizer duas vezes. Frank desatou a correr como uma lebre, enquanto o irmão caminhava devagar, com toda a calma. É preciso reconhecer uma coisa neste brutamontes, é que ele tem uma certa coragem. Do fundo da ruela, virou-se para trás e disse: — Ninguém dá ordens a Harry Sullivan. Hei de voltar. Mickey e eu desatámos a rir. Peguei na navalha para a observar de perto. — Onde é que foste arranjar uma coisa destas? — perguntei eu.
  93. 93. — Foi o meu pai que a confiscou a um tipo ontem à noite. — Foste maluco ao teres trazido isto! Se sabe, esfola-te vivo. — Não, ele nem dá conta. Quando chegar a casa, vou logo pô-la na gaveta e pronto. Ora diz lá se não foi bem útil! — Isso sim — disse eu a rir — e tu no papel de sanguinário. Para o vingar tenho de fazer correr sangue, Sullivan… Onde foste arranjar esta réplica? Nalgum filme? — Não, fui eu que a inventei. — Pobre Frank! Por pouco não se urinava todo, tal era o medo. — Bem feito — retorquiu Mickey. — Não, ele não é mau. O outro é que o arrasta e manda nele. O Frank nunca aprendeu a decidir por si. Desde que nasceram, o Harry é que dita as leis. Imagino-o muito bem, mal saiu da barriga da mãe, a dar um pontapé no rabo ao irmão e a dizer- lhe chora, palerma! Mickey desatou a rir. — Deves ter razão. Meteu a navalha no bolso e fomos para Park Avenue. Quando passámos debaixo de um lampadário, examinou de novo a minha cara. — Não é assim tão grave — constatou ele. — Alguns arranhões. Vai deixar-te

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