Consílio dos deuses

27.818 visualizações

Publicada em

3 comentários
5 gostaram
Estatísticas
Notas
Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
27.818
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2.411
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
388
Comentários
3
Gostaram
5
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Consílio dos deuses

  1. 1. ANÁLISE DO CONSÍLIO DOS DEUSES NO OLIMPO
  2. 2. NARRAÇÃO 19 Já no largo Oceano (Oceano Índico) navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteu (filho do Oceano e de Tétis) são cortadas (Próteu guardava os peixes, previa o futuro e tomava várias formas com facilidade.)
  3. 3. <ul><li>20 </li></ul><ul><li>Quando os Deuses no Olimpo (lugar onde viviam os deuses) luminoso, (cadeia de montanhas situada entre a Macedónia e a Tessália, que segundo a lenda era a morada dos deuses) Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em consílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, (Júpiter) Pelo neto gentil (Mercúrio) do velho Atlante. (Gigante que suportava o céu nos ombros e que, por castigo, foi transformado no monte Atlas.) </li></ul>
  4. 4. <ul><li>21 </li></ul><ul><li>Deixam dos sete Céus (as sete órbitas dos planetas) o regimento, (o governo, a direcção) Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo (estrela de uma constelação no Pólo Norte) congelado, E os que o Austro (Pólo Sul) tem, e as partes onde A Aurora (o Nascente) nasce, e o claro Sol se esconde. (o Poente) </li></ul>
  5. 5. <ul><li>22 </li></ul><ul><li>Estava o Padre (Júpiter, pai dos deuses) ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, (deus do fogo, filho de Júpiter e de Juno) Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com hua coroa e ceptro (símbolos da autoridade e do poder) rutilante, (brilhante) </li></ul><ul><li>De outra pedra mais clara que diamante. </li></ul>
  6. 6. <ul><li>23 </li></ul><ul><li>Em luzentes assentos, marchetados (esmaltados, adornados) De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a Razão e a Ordem concertavam: (determinavam) (Precedem os antigos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam); Quando Júpiter alto, assim dizendo, Cum tom de voz começa, grave e horrendo: </li></ul>
  7. 7. Consílio dos deuses
  8. 8. Palavras de Júpiter <ul><li>24 </li></ul><ul><li>&quot;Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, (céu com estrelas) e claro Assento, (morada iluminada) Se do grande valor da forte gente (os Portugueses) De Luso (povo descendente de Luso, lusitanos) não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos Fados (destinos) grandes certo intento, Que por ela (a forte gente de Luso) se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. (quatro impérios que tinham governado o mundo.) </li></ul>
  9. 9. <ul><li>25 &quot;Já lhe foi (bem o vistes) concedido Cum poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro (Mouros) forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano (Castelhanos) tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. (os despojos da batalha em que se alcançara vitória ficam pendentes dos ramos das árvores) </li></ul>
  10. 10. <ul><li>26 &quot;Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que co a gente de Rómulo (romanos) alcançaram, Quando com Viriato (chefe lusitano) , na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino (estrangeiro) Fingiu na cerva espírito divino. </li></ul>
  11. 11. <ul><li>27 &quot;Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, (pequena embarcação) Por vias nunca usadas, não temendo De Áfrico (vento de sudoeste) e Noto (vento sul) a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, (a costa africana ao sul do Equador) Inclinam seu propósito e perfia (determinação) A ver os berços onde nasce o dia. (Oriente) </li></ul>
  12. 12. <ul><li>28 &quot;Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. (Oriente) Nas águas tem passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. </li></ul>
  13. 13. <ul><li>29 &quot;E porque, como vistes, tem passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus exprimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, (cansada) Tornarão a seguir sua longa rota.&quot; </li></ul>
  14. 14. Em suma: <ul><li>Iam os navegadores de Vasco da Gama tranquilamente navegando ali na zona do canal de Moçambique, quando os deuses decidiram juntar-se, no monte Olimpo, a pedido de Júpiter , seu chefe, que mandara o seu veloz mensageiro Mercúrio convocá-los. É que Júpiter tinha algo muito importante a decidir : se devia ou não ajudar os portugueses a chegar à Índia, seu objectivo. Era de opinião de que devia ajudá-los, mas gostava de consultar os restantes deuses sobre o assunto, juntando-os em reunião geral, ou consílio. </li></ul>
  15. 15. <ul><li>Os deuses acorreram ao chamamento de Júpiter, deslocando-se pela Via Láctea, até ao Olimpo, onde se sentavam de acordo com as regras protocolares, que mandavam ficar nas filas da frente os mais antigos e poderosos e atrás os mais novos. </li></ul><ul><li>Iniciado o Consílio, falou, em primeiro lugar, Júpiter, que estava num trono de diamante. Foi breve no seu discurso, dizendo: </li></ul>
  16. 16. <ul><li>- Como provavelmente já sabereis, é intenção dos Fados, entidades mais poderosas ainda do que nós, deuses, que os portugueses venham a alcançar a Índia e lá construir um grande império. Ora a frota de Vasco da Gama está já bastante fatigada e necessita de ajuda. Por isso, talvez seja bom prestar-lhe tal ajuda, facilitando-lhe a viagem. </li></ul><ul><li>in Os Lusíadas em prosa (adaptação) de Amélia Pinto Pais </li></ul>
  17. 17. <ul><li>30 Estas palavras Júpiter dezia, Quando os Deuses, por ordem respondendo, Na sentença (opinião) um do outro difiria, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco (deus do vinho) ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. </li></ul>
  18. 18. <ul><li>31 Ouvido tinha aos Fados que viria Hua gente fortíssima de Espanha (Península Ibérica) Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da Índia tudo quanto Dóris (o mar) banha, (Dóris era filha do Oceano e de Tétis, mulher de Nereu, e mãe das 50 nereidas) E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa (cidade fundada por Baco) celebra inda a memória. </li></ul>
  19. 19. <ul><li>32 Vê que já teve o Indo (a Índia) sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. (monte onde as fontes inspiravam poesia) Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso De água do esquecimento (rio Letes) , se lá chegam </li></ul><ul><li>( o rio Letes, situado no Inferno, tinha umas águas que levavam ao esquecimento.) Os fortes Portugueses, que navegam. </li></ul>
  20. 20. <ul><li>33 Sustentava contra ele Vénus (deusa da beleza e do amor) bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, (no Norte de África) E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. </li></ul>
  21. 21. <ul><li>34 Estas causas moviam Citereia, (Vénus) E mais, porque das Parcas claro entende (Parcas - três divindades que presidiam ao destino do homem) Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera (guerreira) se estende. Assim que, um (Baco) pela infâmia, (que não tem fama) que arreceia, E o outro (Vénus) pelas honras, que pretende, Debatem, e na perfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. </li></ul>
  22. 22. <ul><li>35 Qual Austro (vento sul) fero, ou Bóreas (vento norte ou nordeste) na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. (A assembleia dos deuses com o tumulto parecia uma floresta na montanha batida de ventos furiosos.) </li></ul>
  23. 23. <ul><li>36 Mas Marte (deus da Guerra) , que da Deusa (Vénus) sustentava Entre todos as partes em perfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: (Merencório (aborrecido) no gesto (aspecto) parecia), O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, </li></ul>
  24. 24. <ul><li>37 A viseira do elmo de diamante (ergueu a viseira do elmo) Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro : (pôs-se diante de Júpiter como um guerreiro duro). E dando uma pancada penetrante, Com o conto (extremidade) do bastão no sólio (trono) puro, O Céu tremeu, e Apolo (deus do Sol) , de torvado, (perturbado) Um pouco a luz perdeu, como enfiado. (pálido) </li></ul>
  25. 25. <ul><li>38 E disse assim: &quot;Ó Padre, (Júpiter) a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro Hemisfério, (Oriente) Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, (afronta) Como há já tanto tempo que ordenaste, Não ouças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. </li></ul>
  26. 26. <ul><li>39 &quot;Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; (próximo) Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; (coração, entranhas) (Ele não procedia segundo a razão, porque estava dominado pelo medo.) Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece e o Céu deseja. (A inveja pouco pode contra o mérito e a protecção do céu.) </li></ul>
  27. 27. <ul><li>40 &quot;E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.“ (se recomponha) (Que mande Mercúrio, mais rápido do que o vento e a seta, mostrar aos Portugueses a terra onde se restaurem e tenham notícias da Índia.) </li></ul>
  28. 28. <ul><li>41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, (Marte) E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, (reverências) Para os determinados apousentos. (Cada um dos deuses, fazendo as cortesias da despedida seguiu, pela Via Láctea, para a respectiva morada.) </li></ul>
  29. 29. <ul><li>42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo omnipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; (Madagáscar) e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu (gigante que, ao aparecer, repentinamente, no rio Eufrates, onde Vénus e Cupido se banhavam, tão grande pavor neles despertou que os transformou em peixes.) Co o temor grande em peixes converteu. </li></ul>
  30. 30. <ul><li>43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso (uma das pontas da costa africana, perto da ilha Moçambique. Cabo Delgado) já passavam, Na costa de Etiópia (partes distintas de África/ Continente negro africano) , nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. </li></ul>
  31. 31. <ul><li>44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. </li></ul><ul><li>Os Lusíadas (I, 19-44) </li></ul>
  32. 32. Em suma: <ul><li>Esta opinião de Júpiter não foi bem recebida por todos e de imediato se formaram dois partidos: um, comandado por Baco, deus dos baixos instintos e do vinho, que temia que os Portugueses viessem a ultrapassá-lo em fama na Índia, e entendia, por isso mesmo, que não se devia ajudar de nenhum modo os Portugueses. Um outro partido era liderado pela mais bela das deusas, Vénus, deusa do amor, que gostava dos Portugueses porque os achava parecidos com os romanos, descendentes de Eneias, seu filho e fundador de Roma. </li></ul>
  33. 33. <ul><li>Os Portugueses eram, de facto, parecidos com os Romanos, na coragem, na língua que falavam, semelhante ao latim, e nas vitórias que, como eles, tinham tido no Norte de África. [Ela não o dizia, mas, no fundo, tinha esperança de que, se ajudasse os portugueses, viesse a ser estimada e celebrada por eles e o seu culto levado ao Oriente.] </li></ul>
  34. 34. <ul><li>Perante tão diferentes opiniões, gerou-se enorme discussão e tumulto no Olimpo, já que ninguém se entendia. Foi então que Marte, deus da guerra, muito temido pelos restantes, e antigo apaixonado de Vénus, teve uma intervenção decisiva. Bateu com o bastão no chão, exigindo silêncio, e com ar furioso, disse que Baco tinha mau carácter, pois era movido pela inveja, e que, se assim não fosse, até devia era defender os Portugueses, já que eles eram descendentes de Luso, companheiro de Baco e, segundo algumas opiniões, seu filho. </li></ul>
  35. 35. <ul><li>Afinal o que Júpiter tinha a fazer era não voltar atrás com a decisão que pensava dever tomar e ajudar os Portugueses, que bem o mereciam. Além do mais seria fraqueza desistir-se da coisa começada e, como se costuma dizer, palavra de rei não volta atrás. </li></ul><ul><li>Perante estas palavras, Júpiter deu por findo o Consílio e, depois de mandar servir um belíssimo banquete, despediu os deuses, que voltaram às suas moradas habituais. O Consílio terminava de modo favorável aos Portugueses, como tinha desejado Júpiter. </li></ul><ul><li>in Os Lusíadas em prosa (adaptação) de Amélia Pinto Pais </li></ul><ul><li>Lurdes Martins </li></ul>

×