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  1. 1. Equinócio A Primavera Lu Piras 23:09A s nuvens se dissipam e a Lua Cheia volta a reinar em meio às súditas estrelas que cintilam em seu redor. Estou sentada na posição de Lótus. De olhos fechados, permaneço apenas um minuto até me dar conta do papelridículo que estou fazendo. O que Buda tem a ver com essa história? Só falta agoraachar que devo entoar mantras! Procuro uma posição confortável que me permitarelaxar. Ajeito o travesseiro de modo a deixá-lo mais alto e deito a cabeça. Tentoesvaziar meus pensamentos. Então, repito alto e em bom som: ― Nath-Aniel! Nath-Aniel! Nath-Aniel! Abro os olhos depressa. Ele não está aqui. Posso estar pronunciando o nome demodo errado. Será que minha fé não é forte o suficiente? Concentro-me mais uma vez. ― Nath-Aniel! Nath-Aniel! Nath-Aniel! Depois de mais algumas tentativas já penso que talvez eu devesse mesmo entoar ummantra. Só que eu não conheço nenhum. De pé, debruçada na janela, repito o nome delenuma última tentativa, desta vez com toda a minha vontade. E estou tão concentrada,que não me preocupo em acordar toda a vizinhança com o meu chamado. Viro-menovamente para o quarto e, de costas para a Lua Cheia, vejo uma sombra na cama. ― É ele! Página 1
  2. 2. Equinócio A Primavera Lu Piras Meu coração começa a pulsar acelerado, meu corpo estremece. Fico encarando asombra, estática. Passo a mão pelo cabelo para ajeitá-lo. É quando me dou conta de queé a minha própria sombra. Anjos não têm sombra, ora. O relógio marca 23:08 e meus olhos começam a arder de cansaço. Viro de lado paraa mesinha de cabeceira onde o terço está pousado. Estico o braço para pegá-lo e, comele nas mãos, adormeço instantaneamente. *** Está escuro. ― Depressa! Falta um minuto! ― uma voz melodiosa exclama com ansiedade. Não vejo minhas pernas, nem meus braços, nem nada a minha volta. Só sei queestou correndo e que não estou sozinha. ― Um minuto para o quê? ― arfo, assustada. ― O espetáculo do equinócio vernal. A brisa fresca traz cheiro de maresia. Está úmido. Abro meus olhos. Estou no altode um penhasco. Giro meu corpo devagar. Eu conheço este lugar: é o Arpoador! Hápoucas luzes acesas nos bairros que se estendem à beira-mar. Aquela voz eu reconheço.Mas onde ele está? Uma chuva luminosa cruza o céu. Feixes brilhantes cortam a escuridão comolâminas de prata. São centenas de meteoros que penetram na atmosfera terrestre. Página 2
  3. 3. Equinócio A Primavera Lu Piras ― Faz um pedido. Eu já fiz o meu. Como que envolvidos numa espécie de campo magnético, uma força incontrolávelnos atrai para os braços um do outro. Quando a chuva de estrelas termina, continuamosabraçados. Ele me afasta um pouco para ver minhas lágrimas. Reparo em seus olhosesmeralda, um brilho incandescente muito superior ao brilho da chuva que acabou deacontecer. É impossível desviar-me deste fenômeno. Ele vai saber de tudo o que estousentindo; vai saber que não estou emocionada por causa das estrelas cadentes, mas porcausa dele. Enquanto me preocupo em disfarçar meus sentimentos, ele pega em minhamão. ― Não queria que você perdesse um dos acontecimentos mais lindos do Universo.Tinha que partilhar este momento com você. ― diz ele tocando suavemente o meu rostoe apagando minhas lágrimas com os dedos. ― A probabilidade de estarmos no lugarcerto e na hora certa para ver este espetáculo é ínfima. E como coincidências nãoexistem... Minha feição se espreme. ― Então, você sabia? ― pergunto. ― Costumo calcular os ângulos horários siderais e seguir os rastros dos cometas... éum dos meus entretenimentos nas horas vagas. Minha reação surpresa diante da revelação o constrange. Para a minha sorte, ele nãoperde a desmotivação, pois com um leve rubor na face, prossegue entusiasmado. Página 3
  4. 4. Equinócio A Primavera Lu Piras ― Por alguma razão, hoje, no horário exato do equinócio, o cálculo entre o ÂnguloHorário de Greenwich e o ângulo de declinação do astro resultou numa coordenadacoincidente com a posição do Ponto Vernal e a sua localização meridional exataapontou para o Rio de Janeiro! ― o fulgor em seus olhos é inédito. ― Isso é... bizarro, Nate. ― para não dizer que é totalmente grego para mim ―deixa ver se eu entendi: você calculou os ângulos longitudinais e meridionais dasestrelas e... depois o ponto vernal... coincidiu com... equinócio... ai... eu não entendonada disso! Ele prende um sorriso quase infantil no canto do lábio. ― Clara, não importa. Aconteceu! Talvez sejam só os meus sentidos embaralhados pela atmosfera sideral, mas elecontinua falando e eu procurando admirá-lo e ouvi-lo ao mesmo tempo. ― Em toda a minha existência só houve uma vez em que isso aconteceu. Eu estavano lugar certo, mas era o momento errado. ― sua expressão enublece por um breveinstante, mas os olhos ainda brilham. Ele continua: ― Acabamos de presenciar o exatoinstante em que o Sol cruzou o equador celeste e a Terra atravessava uma nuvem defragmentos cósmicos. Tudo no Universo está em sintonia, em equilíbrio. ― Inclusive eu e você. ― acrescento baixinho. Como se ele precisasse ouvir. ― Hoje a luz e a escuridão têm a mesma duração aqui na Terra. ― sua atenção seretém no horizonte. Página 4
  5. 5. Equinócio A Primavera Lu Piras ― Não haveria luz, se não fosse a escuridão... ― reflito lembrando a melodiamusical ― Uma coisa define e completa a outra. ― Tudo é um ciclo, Clara. ― conclui ele. Silêncio entre nós e espuma nas rochas. Só se ouve o som do mar e as batidas domeu coração, pulsando acelerado. ― Disse que esta foi a segunda vez que acontece a conjugação desses fenômenos.Quando foi a primeira? ― pergunto, curiosa. Ele demorou a responder, deu um suspiro praticamente imperceptível. ― Foi em 1492. ― Nossa... haja memória... ― Desta vez foi mais importante. Seu rosto está a poucos centímetros do meu. A névoa parece dispersar-se em seuolhar. Esta é a minha oportunidade: ele me abriu uma janela no escuro. Esse é umcaminho desconhecido, mas estou decidida: quero seguir em frente. Ele está diante demim e é como se fosse real. Posso tocar a textura de algodão do seu blaser. Posso sentiro hálito de sua respiração forte e o calor que emana de seu corpo. Não é uma visão; elenão é intocável e não está aqui porque o chamei. Nate provocou o meu sonho paraencontrar-se aqui comigo. ― Por que foi mais importante desta vez? ― pergunto ansiosa, quase atropelando aspalavras. Página 5
  6. 6. Equinócio A Primavera Lu Piras Ele aconchega minhas mãos entre as dele. ― Porque tenho você comigo. Meu coração bate descompassado no peito, fico ofegante e não consigo dizer nada.Ele me abraça pela cintura e de repente já não tenho os pés no chão. Avisto do alto apedra do Arpoador, enquanto flutuo em seus braços, como uma pena bailando ao sabordo vento. Nossos corações se pacificam. Quando nossos pés tocam de novo o solo,sobre nós faz-se escuridão. Não a escuridão da noite lá fora. Uma noite aqui dentro,debaixo das asas dele. Foi às 23:09. Quando o Sol cruzou a linha do equador celeste. Página 6

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