Trabalho hu completo

417 visualizações

Publicada em

Trabalho apresentado e publicado nos anais do: I Colóquio Científico do Hospital Universitário Lauro Wanderley. João Pessoa- PB/ 2010. ISBN: 908857745

Publicada em: Saúde e medicina
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
417
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
1
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
5
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Trabalho hu completo

  1. 1. 1O MITO COMO POSSIBILIDADE TERAPÊUTICA NA ASSISTÊNCIA EMSAÚDE MENTAL Andréa Graupen andreagraupen@yahoo.com.brMestranda do Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões - PPGCR/ UFPB. Cínthia Jaqueline Rodrigues Bezerra Galiza Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões - PPGCR/ UFPB. Flawbert Farias Guedes Pinheiro Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões - PPGCR/ UFPB. Hélio Eloi de Galiza Junior UNIPE - Centro Universitário de João Pessoa - PB.RESUMOA partir da Reforma Psiquiátrica Brasileira, abriu-se um espaço para a inovação denovos dispositivos de cuidado para com as pessoas com sofrimento mental (SCHWEIG,et al, 2010). Serviços substitutivos como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS),possibilitam construir novas práticas de intervenção na assistência em saúde mental,mais humanizadas e que trabalhem numa perspectiva de cuidado integral da pessoa emsofrimento psíquico. Neste contexto foi criada então, em um CAPS, no Recife/PE, aOficina Terapêutica de Mitos. Tal oficina funciona como um espaço de escuta interna eprodução de saúde visto que os mitos são, acima de tudo, fenômenos psíquicos erevelam a natureza da psique. A escuta das narrativas mitológicas ajuda a superar, sejapela identificação com os personagens míticos seja pela natureza religiosa das própriasnarrativas os conflitos internos e abre um espaço de re-significação da própriaexperiência. Tal pesquisa foi realizada no CAPS se mostrou de grande importância paraum trabalho em saúde mental que inclua a religiosidade como promotora de saúde, vistoque ela é de acordo com Dalgalarrondo (2008) uma das experiências mais marcantes daexperiência humana e da subjetividade.As narrativas míticas são histórias que acompanham os homens desde temposimemoriais e, independente de terem certa cronologia e localização geográfica, falam devivências que são atemporais, arquetípicas. Adentrar o universo mítico é umapossibilidade de se reconectar com o sagrado e com as infinitas possibilidades daexistência. As narrativas míticas, com seu manancial simbólico e religioso, sãoutilizadas como instrumento terapêutico e se revelam como um poderoso instrumento depromoção da saúde. O presente trabalho se propõe a apresentar um relato deexperiência onde se observa que entrar em contato com tais narrativas, plenas deobstáculos, tarefas e transformações, ativa nos indivíduos pontos pessoais de saúde. Aoelaborarem os conteúdos mobilizados a partir da escuta, estão os indivíduosparticipando ativamente do seu processo de construção e reconstrução de significados,tornando-se assim sujeitos do seu processo de saúde.Palavras-chave: Mitologia. Saúde mental. Oficina terapêutica.
  2. 2. 2ABSTRACTFrom the Brazilian Psychiatric Reform, opened up a space for innovation of newdevices to care for people with mental distress (Schweiger et al, 2010). Alternativeservices such as the Centers for Psychosocial Care (CAPS), allow building newpractices of intervention in mental health care, and more humane working from aperspective of comprehensive care of the person in distress. In this context it wascreated then, in CAPS in Recife / PE, a work that uses myths in a therapeutic context.This workshop serves as a listening space domestic production and health since themyths are, above all, psychic phenomena and reveal the nature of the psyche. Listeningto the mythological narratives helps overcome either by identification with the mythicalcharacters is the religious nature of the conflicts within their own narratives and open aspace for redefining the experience itself. This research was conducted at CAPS provedof great importance for work in mental health that includes religion as a promoter ofhealth, as it is according to Dalgalarrondo (2008) one of the most remarkableexperiences of human experience and subjectivity.The narratives are mythical stories that accompany the men since time immemorial,whether they were right timing and geographical location; speak of experiences that aretimeless, archetypal. Entering the mythical universe is a chance to reconnect with thesacred and the infinite possibilities of existence. The mythical narratives, with theirstock symbols and religious, are used as a therapeutic tool and reveal themselves as apowerful tool for health promotion. The present work is to present an experience reportobserving that come into contact with such narratives, full of obstacles, tasks andtransformations, active points in individuals personal health. In developing the contentmobilized from hearing, individuals are actively participating in the process ofconstruction and reconstruction of meanings, thus becoming the subjects of their healthprocess.KEY WORDS: Mythology. Mental health. Therapeutic workshop.INTRODUÇÃOA partir da Reforma Psiquiátrica Brasileira, abriu-se um espaço para a inovação denovos dispositivos de cuidado para com as pessoas com sofrimento mental (SCHWEIG,et al, 2010). Serviços substitutivos como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS),possibilitam construir novas práticas de intervenção na assistência em saúde mental,mais humanizadas e que trabalhem numa perspectiva de cuidado integral da pessoa emsofrimento psíquico. Neste contexto foi criada então, em um CAPS, no Recife/PE, aOficina Terapêutica de Mitos.De acordo com Campbell (1990) somos capturados pelos mitos que são “pistas para aspotencialidades espirituais da vida humana” (CAMPBELL, 1990, p. 6). Para o autor taispistas auxiliam na busca de uma experiência de estar vivo, não numa busca de sentido eafirma que [...] o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. (CAMPBELL, 1990, p. 5).
  3. 3. 3Já de acordo com Armstrong (2009b) os mitos nascem, ou são criados a partir da buscahumana por sentido e “desde a origem mais remota inventamos histórias que permitemsituar nossas vidas num cenário mais amplo e nos dão a sensação de que a vida, apesarde todas as provas caóticas e arrasadoras em contrário, possui valor e significado.”(ARMSTRONG, 2009b, p. 8).Os mitos e os contos de fada, sob a luz da psicologia analítica de C. G. Jung, são aexpressão e representação de acontecimentos psíquicos, assim como os sonhos. Osmitos se expressam em linguagem simbólica e dizem respeito às verdades maisprofundas do ser humano.Para a compreensão da mitologia na perspectiva analítica o conceito de arquétipo éfundamental tendo em vista que atrelado a ele, encontra-se o conceito do inconscientecoletivo; tais fundamentos teóricos são pontos principais que diferenciam a psicologiaanalítica de outras teorias psicológicas. Dei o nome de arquétipos a esses padrões, valendo-me de uma expressão de Santo Agostinho: Arquétipo significa um “Typos” (impressão, marca- impressão), um agrupamento definido de caracteres arcaicos, que, em forma e significado, encerra motivos mitológicos, os quais surgem em forma pura nos contos de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore. (JUNG, 1985, p. 33).Jung, ao examinar exaustivamente séries de sonhos observou seqüências completas deimagens inconscientes que continham um motivo que era recorrente. Denominou-osmotivos mitológicos, que são os temas arquetípicos que habitam as camadas maisprofundas (ou mitológicas) da psique. Tais conteúdos possuem um poder enorme deatração e fascínio, influenciando diretamente a humanidade. É que as representações míticas, com seu simbolismo característico, atingem as profundezas da alma humana, os subterrâneos da história, aonde a razão, a vontade e a boa intenção nunca chegam. Isso porque elas também provêm daquelas profundezas e falam uma linguagem, que, na verdade, a razão contemporânea não entende, mas mobilizam e põem a vibrar o mais íntimo dos homens. (JUNG, 2004, p.13)Como os mitos, ou narrativas mitológicas, dizem respeito e nos conduzem aos aspectosestruturais dos indivíduos, tanto no nível coletivo quanto individual o seu estudo é deextrema importância para uma compreensão integral do ser humano.
  4. 4. 4Partindo então da perspectiva junguiana, onde a narrativa mitológica tem um papelimportante para a compreensão dos indivíduos nos seus aspectos singulares e coletivosjá que trazem em si temas que são atemporais (morte, nascimento, perdas,transformações, casamento, separações) surge a possibilidade de trabalhar com taisnarrativas como instrumento de promoção de saúde.Campbell (1990) afirma que todos os mitos são verdadeiros em diferentes sentidos, pois“toda mitologia tem a ver com a sabedoria da vida, relacionada a uma cultura específica.Integra o indivíduo na sociedade e a sociedade no campo da natureza. Une o campo danatureza à minha natureza. É uma força harmonizadora.” (CAMPBELL, 1990, p. 58).O trabalho terapêutico com o mito pode ligar o indivíduo a si - mesmo e à sociedade,criando uma dupla ponte entre o dentro e o fora de cada um.O trabalho expressivo dentro desta oficina surge com a noção junguiana de que a psiquese exprime basicamente por imagens. A imagem é a linguagem, a priori, do inconscientee antecede a comunicação verbal, a palavra. O recurso plástico auxilia a dar contornos ecorporalidade ao que é indizível de outra forma a não ser pela própria imagem. Osímbolo, ou imagem simbólica, aponta para algo além da compreensão imediata,impulsiona na direção de um sentido. O símbolo é uma forma extremamente complexa. Nela se reúnem opostos numa síntese que vai além das capacidades de compreensão disponíveis no presente e que ainda não pode ser formulada dentro de conceitos. Inconsciente e consciente aproximam-se. Assim, o símbolo não é racional, porém as duas coisas ao mesmo tempo. Se é de uma parte acessível à razão, de outra parte lhe escapa para vir fazer vibrar as cordas ocultas no inconsciente. (SILVEIRA, 2001, p. 71).Ao plasmar imagens o indivíduo sai de sua atitude passiva, infantil, de mero espectadore assume um papel ativo frente ao seu processo. Não apenas fala sobre coisas, mastambém as executa com as próprias mãos, envolve-se por completo. (JUNG, 2004).Através do trabalho expressivo é possível dar forma a conteúdos inconscientes,despotencializando-os de sua carga afetiva que muitas vezes ameaça a integridadepsíquica (JUNG, 2000). A proposta não apenas despotencializar, mas, através dotrabalho ativo de construção da imagem, criar um diálogo que envolva consciente einconsciente.Os pontos pessoais de saúde, em pessoas com determinados transtornos mentais(depressão, transtorno bipolar do humor, transtorno obsessivo-compulsivo) podem serativados a partir da escuta e elaboração expressiva das narrativas mitológicas já queatravés da identificação com as personagens/divindades os indivíduos podem
  5. 5. 5resignificar suas próprias histórias, pensar em estratégias de enfrentamento do própriotranstorno, sendo sujeitos ativos tanto no seu tratamento, como na sua vida.De acordo com Armstrong (2009) “a mitologia é uma forma de arte que aponta para oque é intemporal na existência humana, e nos ajuda a superar o fluxo caótico de eventosaleatórios, vislumbrando o âmago da realidade.” (ARMSTRONG, 2009b, p.12).MÉTODOAs oficinas ocorreram ao longo do ano de 2005, sendo no total 40 oficinas, realizadassemanalmente, com duração de 2 horas cada, no CAPS-Casa Forte, serviço privado deatenção em saúde mental. O grupo era composto por adultos, com idades entre 25 e 63anos, de ambos os sexos, com diagnósticos de depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno bipolar do humor. A oficina ocorria em um salão grande, comalmofadas e uma área externa com jardim e mesas amplas para a realização dostrabalhos expressivos. Participaram em média 10 usuários a cada encontro, sendo que osmesmos variavam a cada semana. Os encontros seguiam a seguinte estrutura: narrativado mito previamente selecionado pela facilitadora, trabalho expressivo a partir dosconteúdos mobilizados (pintura, colagem, modelagem, desenho, teatro, poesia, escritalivre) e compartilhamento da experiência. Foram eleitos apenas os mitos greco-romanospela familiaridade dos mesmos. A escolha dos mitos era feita a partir dos conteúdosmobilizados a cada encontro.RESULTADOS E DISCUSSÃOAtravés da análise do discurso e das imagens produzidas, pode-se dizer que a oficinafacilitou aos usuários/as do serviço o contar e resignificar sua própria história. Aidentificação homem/divindade propiciou um fortalecimento do ego, mais capaz desuportar as vicissitudes da vida criando espaços de transformação do si - mesmo econseqüentemente do mundo que o cerca. Através da escuta dos mitos, abriu-se aosusuários do serviço um momento de “escuta interna”, onde puderam ser ampliadas aspossibilidades de ação e confronto com diversas questões da vida e da própria história.Todos/as usuários no momento de compartilhar, referiram uma sensação de auto-estimaelevada ao terem suas experiências pessoais afinadas com a trajetória mítica dos/asdivindades, podendo desta forma lidar de maneira mais positiva com sua mitologiapessoal. Como produto coletivo de uma das atividades, os usuários criaram um poemaque evidencia o potencial positivo das narrativas míticas no trabalho em saúde mental:
  6. 6. 6 A cada mito que escuto A cada história contada Eu fico a meditar E me encontro fascinada. Se pudesse eu voaria Assim como fez Ícaro Tomando o devido cuidado Para não cair no abismo. Apesar de ser um mito Guardo todas as histórias Aqui no pensamento Pois sabemos que essas histórias são de grande ensinamento. Escutamos com entusiasmo Guardamos no coração Levamos conosco a lembrança Dessa grande lição. Oh! Mito que exalta os deuses Aqui estamos nós, homens de bem Almejando prosperidade, Paz e amor. Amem.Observamos então que ao se ampliarem as possibilidades de atuação em saúde mentalpodemos nos debruçar sobre estratégias de enfrentamento que incluem todas asdimensões da vida, pois o logos sem o mito empobrece. Aqui, mythos e logos, apesar dedistintos se complementam e ao logos não cabe aliviar a dor ou o sofrimento.(ARMSTRONG, 2009a). O logos não sabe responder perguntas sobre o valor da vida humana. O cientista pode tornar as coisas mais eficientes e descobrir fatos maravilhosos acerca do universo físico, porém não consegue decifrar o sentido da vida. Isso compete ao mito e ao culto (ARMSTRONG, 2009a, p. 17).Então ao trabalharmos com o mito estamos incluindo uma parte que apenas atualmentepassa a encontrar espaço no trabalho em saúde, o mythos que durante muito tempo foirenegado como sendo menor e fantasioso. Neste trabalho devolvemos o mito para olugar de onde nunca saiu verdadeiramente, a mente humana.CONCLUSÕESOs mitos são histórias que nos acompanham há muito tempo, independente de teremcerta cronologia e localização geográfica, falam de vivências que são atemporais,
  7. 7. 7arquetípicas. O homem necessita ouvir histórias para alimentar a sua capacidade dereorganizar e recontar a sua própria história, as narrativas mitológicas ajudam aorganizar a experiência de estar no mundo e a dar contornos ao próprio mundo.Adentrar o universo mítico é uma possibilidade de se reconectar com o sagrado e comas infinitas possibilidades de cada indivíduo. As narrativas míticas, com seu manancialsimbólico e religioso, são um poderoso instrumento de promoção da saúde mental.Entrar em contato com as narrativas míticas, plenas de obstáculos, tarefas,transformações e possibilidades faz ressoar nos indivíduos pontos pessoais de saúde. Aoelaborarem expressivamente os conteúdos mobilizados a partir da escuta, estão osindivíduos participando ativamente do seu processo de construção e reconstrução designificados, tornando-se assim sujeitos do seu processo de saúde.REFERÊNCIASARMSTRONG, K. Em nome de Deus. O fundamentalismo no judaísmo, nocristianismo e no islamismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009a.ARMSTRONG, K. Breve história do mito. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras,2009b.CAMPBELL, J. O Poder do Mito. 13. ed. São Paulo: Palas Athena, 1990.JUNG, C.G. Fundamentos de Psicologia Analítica. 3. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1985.JUNG, C. G. A Prática da Psicoterapia. 9. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2004.SCHWEIG, Graziele Ramos et. al. Cuidado e saúde mental: desafios à formaçãoprofissional na perspectiva da reforma psiquiátrica. Asociación Madres de Plaza deMayo. Memorias 7º Congresso. Disponível em:<http://www.madres.org/asp/contenido.asp?clave=3519>. Acesso em: 11 de Janeiro de2010.SILVEIRA, N. Jung, Vida & Obra. 18. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

×