Texto Criativo 2

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Texto Criativo 2

  1. 1. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------LUÍS TIAGO CARVALHOO HOMEM QUE VIA LUGARES 1
  2. 2. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ---------------------- O Homem Que Via LugaresConsideremos antes de mais que existe uma peculiar sensação que é um tanto ou quantomais imprecisa que as demais, sôfrega mas agradável q.b., de uma voracidade estéril,um certo gosto a estorvo que apetece. É uma inquietação peganhenta que remanesce deuma espécie de rebelião sonhada.Frutífera apenas enquanto a pupila não destapa a íris, fértil quando o sono pesa sobre osolhos, a rebelião onírica implode no instante em que o mundo corpóreo nos atinge eenvolve em toda a sua extensão com o primeiro sinal de vida.Rendamo-nos à descrição possível e esquivemo-nos de outras que temo não lograr deengenho para dar: a sensação remanescente encobre-se nas margens, perdura nassombras do mundo desperto – vivido em consciência –, mas ainda assim mantém-sesuficientemente presente para suster consequências transversais a toda a nossaexistência. Ensaia apenas o abrir de uma brecha, manter o enigma, murmurar.Agora sim. 12 de Dezembro, 2010Fez um gracejo e fixou a cara dela como se fosse uma coisa, o sorriso de mármore,deliberadamente distraído, hesitante em abandonar totalmente o ecrã do computador;fez um gracejo e fixou a cara dela e levou-a consigo pelo corredor afora. Abriu a portada casa de banho das senhoras e trancou-se; depois destrancou a porta. 2Em 10 anos de serviço aquela foi a segunda vez que Abel arriscou tanto; ou talvezsempre o fizesse, se comungarmos da reflexão comum de que o medo é um animalpeculiar que nos doma. Não por acaso, sobre ele – o medo –, diz-se amiúde que quemvive cego morre sempre depois.Abel reconhecia a ironia. Enquanto criança assimilou o conceito de medo junto com oconceito de mudança. Como resultado acostumou-se a desenvolver uma percepçãomeramente fotográfica de espaço e tempo, vacilando ao enquadrar o passado emqualquer outro contexto. Mais do que ingrato, torna-se deveras difícil estabelecer comoe quando começou: definir uma data, um lugar, um agente causal. Talvez o dia em que 2
  3. 3. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------Abel desfaleceu na escola, intoxicado pelos comprimidos cor-de-rosa da avó quedeglutiu debaixo da cama; talvez a desgostosa tarde da primeira comunhão, quando pordescuido arruinou na braseira os ténis caros comprados para a ocasião; talvez o dia emque os pais regressaram de uma viagem de que nunca soube o destino, quando lhe foiexplicado que o pai iria sair de casa mas tudo ficaria bem. São vários os momentos quelhe ocorrem, rolos e mais rolos de fotografias sem real contexto.Agora, com 32 anos, e por temperamento avesso a riscos, havia circunstâncias em queAbel ansiava pelo regaço do medo. Culpava o TOC por esses desvios, as suas manias erituais para impedir a “coisa má” de acontecer. O TOC incentivava façanhas peregrinas,o TOC sujeitava Abel à perpetuação de repetições, o TOC era promessa e castigo.Convivia com o T.C.O. Sempre que Abel se convencia do módico risco que afinalcorria ousava ir mais longe, recuperar o mais importante agente em jogo: o acaso.Naquele dia escutou alguém a bater à porta, de seguida ouviu um click e o deslizar daporta; mas os seus olhos cerrados não reagiram e quando finalmente se abriram nosilêncio, com a vista ainda embrumada, vislumbrou apenas um vulto retroceder empassos atrapalhados, urgentes. Teve a vaga sensação de ver o vulto primeiro atropelar opé com a porta e de imediato bater com o cotovelo na esquina. A porta ficou encostada. 3A manhã tinha os sons e aromas de mais uma manhã de Primavera, balsâmica, o ar comseu quê de corpóreo, tangível. Fazia bastante vento. O sol estava alto – ostensivo -,derramava uma luz amarela e cálida por todo o escritório, como se fosse um imensoirrigador de luz e calor debruçado sobre um pequeno canteiro.Abel voltou nervoso da casa de banho. Ao relancear a vista pelos seus quatro colegas deescritório (havia mais dois escritórios no mesmo edifício, ocupados por 5 técnicos cada,e ainda o gabinete do advogado, contabilista, e secretário-geral da Associação), estespareceram-lhe indiferentes ao seu retorno; apenas um arredou o rosto do expediente maslogo regressou ao trabalho. Abel sentiu-se aliviado. Só quando regressou aos afazeresque o aguardavam – e Deus sabe como eles nunca iam a qualquer lado – deu-se conta dacorda bamba em que caminhou no regresso ao seu lugar. E se algum daqueles quatrocolegas o confrontasse, como reagiria? Saberia defender-se? A corda que calcouanimou-se então como algo concreto: um novelo que desenrodilhava a partir da casa debanho e cessava na cadeira onde o seu corpo assentava, uma cauda presa na porta. Facto 3
  4. 4. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------provado de que a maioria das pessoas que envelhece só presta pouca atenção apormenores. 4«O meu computador. Abel. Podes-me ajudar?»«Claro. Diz, Rita.»«O Word não detecta erros.»Abel dirigiu-se à secretária da colega.«Andaste a mexer nas configurações?»«Não. Não que me lembre. Não que o tenha feito sabendo que o estava a fazer.»Abel pegou no rato do computador e verificou as opções de correcção automática doWord.«Bem, Rita, não sei porque se desconfigurou, mas não está accionada a opção paraverificar erros. Agora deve estar bem.»Palavras surgiram sublinhadas a vermelho a assinalar erros de ortografia; frasessublinhadas a verde indicaram incorrecções gramaticais; num parágrafo inteiro, umpequeno erro de sintaxe foi suficiente para que a totalidade do bloco de texto assentassesobre pequenas ondas a verde: riscos finos como fios, fulgentes como sol, ostensivos.Abel sentiu as pernas bambas, uma tremura em ondas. Não, algo não estava bem. 5Antes o mundo cansado mas seguro na palma de uma mão fechada, antes o enfado queo risco. Mil vezes o enfado ao risco. Manter as coisas como estão. As coisas como elassão. Nada muda, tudo se repete ad aeternum; nada falha, quebra ou estoura; nadarenasce porque nada morre.Aquela manhã, Abel perdeu-a em rituais. 6Há 10 anos, no final do primeiro de dia de trabalho na Associação, um dia de Setembroinvulgarmente gélido, Abel, ensimesmado, estranhou a apatia com que chegou a casa,amorfo e alheado de qualquer metamorfose na sua vida. Achava-se, sem que fizesse porisso, avesso ao fulgor de uma nova etapa, quebra de rotina, renovação. O dia todo –embora bombardeado por novos rostos, tarefas, informações – foi incapaz de deixar-se 4
  5. 5. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------arrebatar pelo extraordinário, sentira-se não em transformação, não a renascer, mas emtrânsito.À luz âmbar do pôr-do-sol recostou-se no sofá cor-de-vinho, duas pedras de gelo a girarnum copo de whiskey, e ficou a ver escurecer os lugares mais recônditos da sala:bugigangas e vasos de louça no topo da estante de carvalho, lombadas de livros,quadros antigos com motivos de coutadas e montarias reais. Quando finalmente o sol sepôs, restou a Abel olhar para baixo. Estendeu o corpo no sofá, copo pousado sobre opeito, e girando o pescoço serpenteou os olhos pelos padrões orientais da carpete comose os desenrolasse; ingeriu golos subitâneos de whiskey até pousar por fim o copo nochão e adormecer. 7Apresentemo-lo de uma vez: Abel, 32 anos, solteiro, funcionário desde os 22 de umaAssociação que optamos por conservar no anonimato, filho único com pais divorciadosdesde os tempos de adolescência. A mãe voltou a casar, mas separou-se há quatro anos.Vive com o filho.Na ressaca do segundo divórcio, a mãe de Abel regressou para viver com o filho.Quando decidira a casar pela segunda vez mudara-se para casa do noivo, um viúvo de58 anos – dois anos mais velho –, ficando Abel como único ocupante da casa. Naprática, a presença da mãe continuou a ser uma constante na vida de Abel, um apêndicena vida do filho. Cozinhava para Abel, passava a ferro, fazia a lida da casa. Assim,quando o casamento terminou, voltou para aquela casa, que considerava tão sua quantode Abel. É verdade que notou desde logo a insatisfação do filho. Mas o tempo passa euma pessoa habitua-se a tudo.A mãe via Abel apenas durante minutos breves e mudos ao jantar, depois dava o dia porterminado e adormecia no seu quarto em frente à televisão. Abel regressava entrentantoao conforto do computador, à sua música, às suas leituras. Uma pessoa habitua-serealmente a tudo. Mesmo a viver com um estranho e a amar um filho. Tudo numapromessa só. 8Soavam no escritório as canções cansadas de sempre, «clássicos por insistência»chamava-lhes Abel, equiparava a rádio a um pântano, um lugar morto. 5
  6. 6. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------Ao fim de alguns anos naquele escritório, Abel percebeu que mesmo ouvindo quase oitohoras diárias de música, perguntando-se-lhe no final do dia «que canções passaram narádio?» ele não saberia responder. «As mesmas de sempre» diria, contraindo os ombros.Escapes como a música ou a literatura eram alicerces do mundo de Abel. À noite, aocomputador, ouvia a música de que gostava. Lia sobretudo nas manhãs de fim-de-semana, entre os lençóis. Saboreava melhor a leitura enquanto ainda não estavacompletamente desperto.A medida certa de sonolência na leitura permitia esbater as fronteiras do sonho, torná-lonão num lugar encerrado por pálpebras, mas numa curiosa fabricação onírica queconsiste num arremedo de ninho ou toca que nos acomoda quando necessitamos. Comsorte era possível conservar essa sensação toda a semana, adormecer a inquietação. 9Ao longo da sua vida, Abel aprendeu a exercer em determinados momentos o controlosobre o que pensar e como pensá-lo. No decurso do dia-a-dia, quando em trânsito, essecontrolo era quase inexistente. Abel capitulava face às miríades de pensamentos quebrotavam dispersas e sem rumo, a reboque de solicitações correntes, pura resposta aimpulsos e impressões. Contudo, o pensamento convertia-se num caudal, e fluíadeliberado, em momentos de enorme vertigem laboral – apenas algum stress não erasuficiente –, ou então quando --Setembro, 2005«O que estás a fazer, Abel?».«Nada.»«Amor, porque fazes essa dança ao entrar no quarto?»«Não faças caso.»«E há também aquela coisa das luzes. Acendes e apagas.»«Esquece isso.»«Amor, explica-me.»«Ok.» 6
  7. 7. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ---------------------- 10Rita era a responsável técnica pela divisão de trabalho que Abel integrava. Ligeiramentemais velha que Abel, mas pouco dada a rugas, era casada e mãe de um rapaz de 6 anos,tida por Abel como inteligente e boa colega.Abel gostava de facto de Rita. Mas atrevia-se apenas a fantasiar com ela dentro docampo de acção banal dos seus corriqueiros devaneios eróticos. Enredar por fantasiasque admitissem sentimentos era cevar uma quimera. Tornava-se desrespeitoso porarrogar uma inclinação sentimental da parte fantasiada – era uma apropriação queparecia mais obscena a Abel –, e era perigoso ao exigir investimento emocional porparte de Abel. Ficções pornográficas não iludem, são caprichos que se esvaecem por si,não frustam nem doem. São meros cismas sensuais lascivos com desígnios amorais; uminício e um fim, uma função clara. Há que interditar a presença às nuancesassombreadas do amor, que essas, plangentes, amiseram sempre com uma espéciequérula de tristeza vã. 11Foi ao final da manhã que começou. Rita foi chamada ao gabinete do Eng.º PauloRamos, secretário-geral da Associação. Abel sentiu uma repentina ebulição do sangue,um susto agudo mas desdito de imediato pelo bom senso: «É certamente outro assuntoqualquer.» Ainda assim, pendência. Inspira; não expira.Olhos no ecrã. Foco para além do ponto em que é possível ler a informação. Durante aausência de Rita, Abel acudiu a cada distracção com que se deparava, abstraiu-se.Corrigiu erros em documentos de word, descarregou o servidor da conta de correioelectrónico vezes sem conta, abriu antigas apresentações de power point, recordoubrochuras e cartazes em pdf e voltou a fechá-los. Todas aquelas notas de imprensaredigidas ao longo de anos, as dezenas de circulares enviadas aos associados.Rita tornou ao escritório aparentemente alheia a Abel. Porém distintamente contida,com passos que pareciam digladiar-se para avançar, dubitativos. Olhos em contendacom o chão. Abel podia jurar que digladiar-se era exactamente o que Rita fazia. 7
  8. 8. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ---------------------- 12Quando regressou do almoço, Abel surpreendeu-se a inventariar o material dispersopela sua secretária. Um computador pessoal, dois montes caóticos de papel no seu ladoesquerdo: um mais próximo com documentos de utilização corrente e outro mais antigoe anárquico com papéis e rascunhos que Abel preferia ter à mão a arrumar em dossiers.Ainda: uma das duas impressoras afectas ao escritório, post-its amarelos e laranjasestrategicamente colados ao monitor do computador, canetas e lápis e borracha, furadore agrafador, um telefone sem fios e o respectivo berço. Nas duas gavetas encaixadas porbaixo do tampo acondicionava-se material diverso, como gravadores, microfones,cabos, agendas antigas, cartões de apresentação personalizados (Abel Nunes Alves,técnico de comunicação), uma folha de papel com contactos, mais papéis antigos e clipse agrafos.A atenção de Abel voltou-se em seguida para a informação no computador. Haveria láalgum documento seu? Um embaraço em potência, se de hoje para amanhã o afastassemdo escritório? Abel correu com o ponteiro do rato dezenas de pastas e subpastas. Nãoencontrou nada que fosse seu, qualquer vestígio, uma pegada na lama. Seria até umdesafio comprovar que aquele ser humano em particular utilizou aquele computadordurante 10 anos – sempre que mudava de computador, o que acontecera por três vezes,Abel transferia todo o conteúdo para o novo disco –, nenhuma originalidade ínfima,nenhuma extravagância, nenhuma singularidade.Fosse despedido e este computador e documentos de trabalho representariam de certaforma a sua continuidade na Associação. Impessoais, poderiam ser encaminhados paraum outro funcionário, que mesmo inicialmente se perdendo entre as pastas e osficheiros, paulatinamente compreenderia a mente de Abel, o trabalhador. «Talvez issonão seja algo mau», pensou Abel. 13Abril, 2008«Eu sou uma pessoa com bom humor.»«Eu sei, Abel…»«Então que raio de conversa vem a ser essa?» 8
  9. 9. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------«Apenas quis dizer-- Ouve… Abel, não me vou repetir.»«Porra, Laura. Tu não me explicaste a ponta de um corno.»«Abel… tu sabes que isso--»«Certo. Tudo bem. Seja.» 14Abel tinha dificuldade em defini-la. Reduzi-la a um receio irracional de perder quemnos é querido não explica a certeza sempre presente de que nem a pior tragédia nosliberta do encantamento da “coisa má”. Nada é definitivo. Quem alimenta a “coisa má”somos nós. Esconde-se no seio de um lugar obscuro e esquivo que não conseguimosalcançar. Não há como nos rebelarmos. 15É certo que Abel nunca foi o que se pode chamar de homem religioso, mas tal nãoimpediu que toda a vida se sentisse acossado por uma indistinta suspeita de culpa –ubíqua, a bambolear-se por entre toda a sorte de pensamentos triviais, antevendo equestionando e julgando. Abstracta ao ponto de ser mais intuição do que consciência,um tipo de culpa ambígua e inata, pressentida.Esta culpa deambuladora, ao conspurcar com dubiedade o infinito caudal de informaçãopor processar, criou no espírito de Abel uma desordem que nunca foi resolvida. Nosdias bons era como um espanador que se limita a espalhar o pó. Nos dias maus eracomo se o espanador nunca concedesse tréguas ao pó, jamais permitisse-lhe assentarsobre outro lugar. Sem um guia moral, incapaz de sentir paz na bênção, Abeldesenvolveu uma concepção mágica de culpa.É delicado definir quando começou. Pouco mais simples se torna explicar o que fezAbel criar a penitência. Entre os seus 12 e 14 anos – e isto é certo para Abel - viu-se deum dia para o outro fisicamente incapaz de resistir ao cumprimento de rituais.Inicialmente antes de se deitar; de seguida antes de se permitir adormecer; em brevetambém ao acordar. Os rituais cresceram gulosos e em pouco anos todo o decurso dos 9
  10. 10. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------dias era susceptível de envolver compulsões. Abel aceitou viver com elas. Consideravaas obsessões estavam sob controlo porque só em casa as compulsões assumiamcontornos extravagantes.No fundo, Abel criou um deus de que era discípulo único, intuiu ritos, formou a suaprópria concepção de Graça; criou uma doutrina igual a tantas outras, é certo, osmesmos desígnios vagos e os mesmos pressupostos dúbios, mas ainda assimreconfortante, uma origem para a culpa com expiação a condizer.A sua magia tornou-se na única crença que Abel aceitava como imperfeita. Uma magiaque nos carrega sempre consigo, faz de nós seus bastardos, torna-nos seus. O TOCsurgiu do nada, mas logo se fez imenso e converteu Abel num recém-nascido ao seucolo; permitiu a Abel crescer também, mas nunca fora do seu alcance. A seu tempo,Abel atreveu-se a questioná-lo, desafiá-lo, até a advogar-se dono e senhor do TOC. Emdesespero contestou a sua própria existência. Um dia rebelou-se apenas para se provarinsuficiente. 16Junho, 2008«Como anda a tua mãe?»«Bem, pai. Normal.»«E a Laura?»«Não sei.»«Passou-se alguma coisa?»«Diga o que pretende, pai.»«É possível que eu tenha de sair da cidade.»«Onde vai?»«Só estou a dizer que é possível que eu venha a sair da cidade. Não é certo.»«Para onde pensa ir?»«Eu…»«Pai… está aí?»«Só estou a dizer que é possível.»«E a loja?» 10
  11. 11. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------«Só estou--»«Ok, pai.» 17Ao início da tarde o telefone de Rita tocou. Abel ouviu-a retribuir ao que lhe diziamcom uma parafernália de assentimentos. O seu coração dobrou de velocidade quandoRita indagou o interlocutor – que entretanto Abel percebera ser o Eng.º Paulo – sobre anecessidade de levar determinados documentos para a reunião com o Dr. Ribeiro Lopes.A presença do presidente da direcção da Associação no escritório era rara.Esporadicamente, em dias de reuniões da direcção, cumpria um périplo pelos escritóriosda Associação para observar a labuta; em conversas com funcionários aparentavatentear o encalço de algo escondido da vista, algo omisso. Mas regra geral só sedeslocava à Associação para resolver assuntos pendentes, assinar cheques e documentosimportantes, tomar decisões urgentes.Rita levantou-se, pegou em dois dossiers e apressou-se a sair do escritório. Com o focoda visão imediatamente distanciado para a porta, avançou ligeira. 18Janeiro, 2009«Desculpa, Abel. Fala. Diz o que tens a dizer.»«Eu não sei o que tenho a dizer, Laura. Sei o que quero que resulte daquilo que eudiga.»«Abel, por favor, não--»«Não adianta. Bem sei.»«Não voltemos a discutir tudo de novo. É desgastante, circular, um deserto. Não somosdois garotos.»«O meu pai telefonou-me a dizer que vai pôr-se a andar daqui para fora.»«Para onde vai?» 11
  12. 12. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------«Talvez eu também devesse fazer o mesmo.»«Mas não o vais fazer.»«Eu podia. Lisboa, talvez. Ainda sou novo.»«Não o vais fazer.» 19Um braço de luz cobria em tons saturados de amarelo-torrado o cinzento da mesa deAbel quando foi acesa a iluminação do escritório. Os candeeiros suspensos no tectodispararam luz com um espasmo, uma breve convulsão de luz amarela e límpida, quequando assentou reduziu as sombras a nada, nenhum contraste, tudo iluminado porigual.A tarde ia a meio quando Rita regressou ao escritório e pediu a Abel que não se fosseembora sem falar com o secretário-geral. Fez por disfarçar o esforço. Aproximou-secom aparente tranquilidade da secretária, pareceu a Abel até um pouco absorta – comose estivesse ausente daquele momento e apenas Abel o estivesse a viver – e entregou-lheo recado. Abel deveria aguardar o telefonema a convocá-lo para se dirigir ao gabinetedo secretário-geral.«Passa-se alguma coisa, Rita?»«Não sei dizer. O engenheiro pediu-me que esperasses pelo seu telefonema.»«O Dr. Ribeiro Lopes já se foi?»Ainda que expectante na cadeira, Abel não insistira, mas Rita contornou a secretáriapara se debruçar sobre si; os dois corpos flectiram como uma concha que abertamente sefecha sobre um segredo. 20As janelas do escritório de Abel davam para um pequeno quintal nas traseiras doedifício, um exíguo espaço habitado por um pomar de laranjeiras, com ramos extensos e 12
  13. 13. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------esguios, folhagem basta e muito verde, mas laranjas escassas. Ao cair da tarde, as bolascor-de-laranja redondas e acanhadas pareciam assomar entre o verde como aparições.Dias de vento como aquele exigiam dos funcionários uma certa habituação para ignoraro ruído do revolver dos ramos das laranjeiras, um apego extra às tarefas em mão paranão aquiescer ao encantamento proporcionado pelo motim das árvores. Abel, mais doque pelo estrépito no quintal, apercebia-se do tumulto através do recorte de janela queinvadia o canto do seu olho esquerdo, insurgindo-se no seu ângulo de visão; nessasocasiões afastava o olhar do ecrã do computador e esticava a vista através da janela.Raramente demorava os olhos mais do que cinco segundos na cadência inebriada daslaranjeiras, nunca chegava a contemplá-la. Era-lhe suficiente comprazer-se com odistinto conforto que resultava de descobrir pontos laranja na copa verde.Naquela tarde, porém, Abel concedeu mais de dois minutos ao embriagado conturbardas laranjeiras. Assistiu impávido, absorto. Perguntou-se até que ponto os vislumbresdiários do pomar – a ramagem soava o ar ao ritmo do vento – influiriam para o seutemperamento quotidiano. Esta presença incessante de uma convulsão apercebida masjamais observada. Seriam dias de vento os dias em que mais periclitante se sentia? Odia era de vento e Abel tremia. 21É quando se entende o TOC que principiam os compromissos. Uma espécie dematuridade na relação com a magia. Consentimos que as compulsões nos aliviem daansiedade atiçada pelas obsessões – seja por instantes, dias ou semanas –, que suprimamo desconforto de resistir.Subsiste sempre o apego à lógica, uma demanda por coerência, mas esvazia-se comoquaisquer outros princípios e valores. Perpetuam-se algumas compulsões, outrasextinguem-se à primeira lacuna. Não se criam mártires nos braços assoberbantes doTOC.Quanto mais Abel reflectia sobre o TOC, mais se convencia de que não lhe cabia aculpa do “incidente”. Fora mero soldado numa missão, um funcionário no labor. Masafligia-o a evidente impossibilidade de tentar sequer fazer-se entender. Pela primeiravez em muitos anos ofendia-o a ponto de choro que o mundo inteiro fosse alheio às suas 13
  14. 14. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------regras. O seu fardo, tão cáustico, colava-se-lhe ao corpo como uma iniquidade quefrustrava à partida qualquer intento de a combater. Se alguém o denunciara, restava aAbel receber a culpa como sua, amaldiçoar-se por receber a culpa como sua, fazer-se àestrada e procurar outros lugares. 22Maio, 2009«Abel.»«Pai? De onde está a ligar?»«Eu só te queria dizer que estou bem.»«Pai, que número é este? Brasil?»«Alguém falou contigo?»«Sobre o quê? Pai…»«Abel. A polícia falou contigo?»«Onde está pai?»«Não interessa onde estou, Abel. Eu estou bem.»«Não, pai. Ninguém falou comigo.»«Tudo o que te contarem é verdade.»«A loja. Já declarou falência?»«Filho, ouve, eles provavelmente vão apresentar queixa.»«Quem vai apresentar queixa? Pai… o que aconteceu? Este indicativo é do Brasil?»«Os funcionários vão apresentar queixa. Depois digo-te onde estou.»«Quando? Tem dinheiro consigo?»«Eu estou bem. Não tentes ligar para este número, não é meu.» 23As mãos absortas sobre o teclado; o olhar bem para lá do ecrã do monitor; doisrectângulos de papelada perfeitamente alinhados. No quintal, o negro cerrado, recortadoapenas por um farrapo sujo azul-escuro no céu. Mas ainda assim chegou como umavertigem. Abel ensaiara o susto, o bramir do alarme, mas jamais o furor da urgência: o 14
  15. 15. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ----------------------assombro. É escusado subjugar o susto sem domar o assombro, domesticar o coraçãosem lhe prestar satisfações. 242 de Dezembro de 2010«Também são coisas destas que nos fazem mexer, Abel, pôr pé na estrada, descobrir oque nos aguarda mais à frente, crescer. Não é um drama, tu sabes que não é o fim domundo, caramba. Cartas sobre a mesa, Abel. Creio que tu próprio não estás certo dequerer estar aqui – andas à deriva, pá, sem rota, aos soluços –, as pessoas notam Abel.Pessoalmente acredito que vês neste emprego, no teu escritório, tua secretária, umcantinho que existe e que está sempre aqui para ti. E tem sido sempre assim até agora.Mas a Associação está com problemas, temos de mudar de rumo, procurar --Ouve, Abel, empresas que sobrevivem a tempos difíceis não se prendem a lugares. Nãosão como nós: como eu, tu… sei lá. O certo é que empresas que sobrevivem vêemsempre novos caminhos. Digo empresas, associações, o que quiseres chamar. Todas têmresponsabilidades maiores.»«Entendo.»«Entendes mesmo, Abel?»«Posso levantar-me?»«Por curiosidade, Abel, tu sabes há quantos anos estás empregado na Associação?»«Não.»«Há 10 anos. Como vês, isto também não é fácil para nós, amigo Abel. Repito que nadatem a ver com o teu desempenho profissional, a tua competên --»«O Eng.º precisa de mais alguma coisa?»«Assina só esta cópia do ofício em como recebeste o original.» 15
  16. 16. ---------------------- O Homem Que Via Lugares ---------------------- 25Nesse mesmo dia três outros funcionários da Associação receberam cartas dedespedimento, nenhum do escritório de Abel. À noite, já em casa, Abel ainda hesitou,mas decidiu-se por aceitar o convite de Rita. Telefonou-lhe conforme combinado e osdois encontraram-se num café e falaram largos minutos sobre pequenos nadas, lugares-comuns, confortos e tempos melhores.Abel gostava realmente de Rita. O seu comportamento arrebatado, benigno ensejo deempatia por o lugar do outro, lembrava a Abel tardes de Verão em que uma só nuvem,desgarrada e distante, peregrinava pelos céus, o branco anódino no azul imenso,vestígios de vida em movimento.Abel manteve-se na Associação durante várias semanas, aguardando a saída efectiva.Semanas em que o apego ao escritório, à sua secretária e aos documentos docomputador se reduziram a nada. Semanas em que o TOC deu tréguas momentâneas,permitiu o desleixo, não contestou a incúria. Quando Abel finalmente saiu, sentia-se jádeslocado, fora do lugar. Na Associação moveu-se durante anos como um carrossel numgiro eterno em rodo de um eixo, desenhando anéis ora maiores ora menores, massempre alheios aos lugares que ocupam ou vazam. Circular parecia-lhe subitamenteterapêutico. Divagar tornou-se essencial. Um homem em trânsito nunca se conclui a sipróprio enquanto divaga.O escritório estava vazio quando Abel desligou pela última vez o computador. A suasecretária, despida de papéis e post-its, declarava-se enfim inteiramente anónima.Encerrava uma espécie de leveza de espectro à espera de ser reencarnado. Abel pousoupor uma última vez a vista no seu antigo espaço e o mesmo fio de olhar resvalou para asecretária de Rita e deslizou pelas secretárias dos outros três colegas; pareciam emrepouso, num sono ligeiro, um olho fechado e o outro aberto. Nesse final de tarde, semqualquer esforço, Abel viu uma continuidade de lugares. Não eram ninhos ou tocas.Não eram fotografias. Toda aquela sucessão de lugares formava claramente umcaminho. Um a seguir ao outro a seguir--Abel bocejou. FIM 16

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