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Para Judy Guhrke.
Você me ajudou, além do que seria de se esperar e de
muitas formas, enquanto este livro estava sendo esc...
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Prólogo
L ucia sempre tinha sido uma ótima mentirosa. Se isso era bom ou
ruim, dependia do ponto de vista de cada pessoa. ...
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pelos cômodos escuros, dirigindo-se até as portas que levavam ao
terraço. Esperou o guarda que estava de patrulha passar e...
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antes, e eles não esperam nada de bom de mim. Mas com você é
diferente. Você não pode vir.
- Por favor. Antonio pode sair ...
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contente de tê-la trazido consigo. Quando Elena voltasse para a prisão
do palácio, a lembrança daquela noite sempre a fari...
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- Se você nunca fumou, não vai gostar - disse Lucia, con-
cordando com o pedido da garota. - Inale apenas um pouquinho
— a...
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pegar o dinheiro com que Cesare o subornara e se casar com a filha de
um comerciante, deixando-a de coração partido. E Luc...
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Elena retribuiu o sorriso.
- Temo que não.
- Recuso-me a ser controlada como uma marionete. - Virando-se
na cadeira, ela j...
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seus admiradores e deu com os dois homens olhando, assustados,
para ela e para Elena, totalmente pasmados. De repente, per...
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ninguém ficou surpreso quando Sir Ian foi enviado para a Anatólia.
Mas todos ficaram surpresos quando, cerca de uma quinze...
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- Não vejo como isso seria possível. A questão italiana está re-
solvida. O Tratado de Bolgheri foi assinado, o Congresso ...
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te, ele pressionou dois dedos sobre a testa até recuperar a compostura.
Não era do seu feitio ser assim tão irritável. Tal...
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- De que adianta manter a moça em segredo? Até que ponto essa
descrição do incidente é precisa?
- Os fatos estão corretos,...
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- Eu fui tirado de uma importante missão diplomática na Ana-
tólia para bancar o casamenteiro de uma mocinha levada?
- Ela...
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- A mãe dela é Francesca.
- Meu Deus! Você está me dizendo que a mãe dessa moça, a ex-
amante do príncipe Cesare, é a mais...
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da sua vida, sentia que ela e a mamma eram finalmente uma família de
verdade.
Francesca era uma anfitriã encantadora e tin...
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- O cavalheiro afirma que está aqui devido a uma questão de
grande importância - retrucou a criada. - Disse que a senhora ...
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Francesca suspirou, tirou o chapéu e o jogou, por cima da cabeça
de Annabel, em uma cadeira.
- Eu não queria que você soub...
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que o vestido decotado e de corpo justo ostentava muito favoravel-
mente - sem dúvida, influência da mãe.
De olhos escuros...
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que admitir que ele era bem bonito para um inglês, e o seu ardente
coração italiano não podia deixar de aprovar aquela esp...
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Ele ficou tenso, e os ombros largos se curvaram quase imper-
ceptivelmente.
- Espero que a senhorita ache a minha sugestão...
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- A senhorita é filha de um príncipe. Ilegítima e, portanto, sem o
título, mas, não obstante, de sangue real. O seu pai a ...
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- Dada a sua situação, o tempo é essencial. Os desejos do seu pai
são claros. Além disso, tenho deveres em outros lugares,...
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o que puder para conter o dano e evitar que a sua reputação seja
maculada aqui na Grã-Bretanha. Entretanto, de agora em di...
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- Eu não me casarei com um homem que não aceite a minha
mãe - disse ela através dos dentes cerrados. - Eu não poderia nun
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Francesca riu.
- Oh, minha querida! Estou certa que ele não pretendia sugerir
nada assim.
- Ah, pretendia sim. Cesare cheg...
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tiva possível da mãe. - É sim, mamma. E sabe por quê? A senhora é a
única pessoa que me ama e me aceita do jeito que eu so...
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- Só vou me casar se estiver apaixonada por meu futuro marido, e
ele por mim.
- Entendo.
- E é melhor ele estar apaixonado...
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- A maioria das jovens não se importa nem um pouco com a
política internacional. Desconcertante, eu sei, mas é assim que é...
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meter em alguma encrenca, a chaperon dela também será alvo de
críticas.
- Você vai encontrar alguém, tenho certeza.
- Supo...
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Ian. Esquecer que ela era uma mulher? Ele virou o resto do vinho do
Porto. Nem um pouco provável.
Na manhã seguinte, Lucia...
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Laura lee ghurke   muito mais que uma princesa
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Laura lee ghurke muito mais que uma princesa

  1. 1. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232
  2. 2. Para Judy Guhrke. Você me ajudou, além do que seria de se esperar e de muitas formas, enquanto este livro estava sendo escrito. Eu amo você, mamãe.
  3. 3. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 Agradecimentos Meus mais sinceros agradecimentos à minha colega, a escritora Eloisa James, e ao seu marido, Alessandro Bettori. A assistência deles com o italiano me foi inestimável durante a composição deste livro.
  4. 4. Prólogo L ucia sempre tinha sido uma ótima mentirosa. Se isso era bom ou ruim, dependia do ponto de vista de cada pessoa. Ela achava ótimo enfrentar um guarda palaciano à meia-noite, com cigarro e dinheiro no bolso e planos de dar uma escapada na cabeça. Nessa noite, era exatamente isso que tentava fazer. - Eu não conseguia dormir e queria alguma coisa para ler - dis- se ela, mostrando ao guarda do palácio o livro que tinha na mão. Lucia aprendera havia muito tempo, quando estava nas escolas para moças de bom trato da França, que um livro sempre era uma explicação conveniente para suas perambulações noturnas. E o pai dela, o príncipe Cesare de Bolgheri, tinha uma das maiores bibliotecas de toda a Europa. - Estava voltando para os meus aposentos. - Os seus aposentos ficam daquele lado - explicou o guarda, apontando na direção oposta àquela para a qual ela se dirigia. Ela deu uma olhada para trás, por cima do ombro, e voltou a olhar inocentemente para o guarda.
  5. 5. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - É mesmo? - perguntou, fingindo espanto. - Eu poderia jurar que ficavam do outro lado. - Fez um gesto abrangendo o longo corredor em que eles estavam, um corredor de mármore de Siena com adornos folheados a ouro, espelhos resplandecentes e dezenas de saídas. - É tão fácil se perder aqui, eu sempre me confundo. Tantos corredores... - explicou, baixando o tom de voz, o próprio retrato do desamparo, e então sorriu. Ela tinha um sorriso de der reter um homem de pedra; sabia disso e usava esse recurso sempre que necessário. O guarda, que não era feito de pedra, amoleceu imediatamente. - Muito compreensível - disse ele, correspondendo ao sorriso dela. - Mas a senhora sabe que temos ordens de Sua Alteza, o prín- cipe Cesare, de que não pode perambular pelo palácio à noite. O pai de Lucia lhe era um estranho, e a Piazza di Bolgheri era uma prisão, mas ela não tinha a menor intenção de permanecer esquecida, trancada em algum canto remoto do palácio. Era uma mulher adulta e faria o que bem entendesse. Não manifestou esses sentimentos em voz alta, porém. - Eu não tive intenção de perambular - disse ela, toda mansa e contrita. - Como eu disse, não consegui dormir. - Eu escolto de boa vontade a senhora de volta aos seus aposentos. Não era feito de pedra, mas também não era tolo. Com um suspiro de resignação, Lucia permitiu que ele a levasse de volta à sua suíte, consciente de que isso não passava de um adiamento temporário dos seus planos. Aquela era a última noite de carnaval em Bolgheri - e, com ou sem guardas, ela não ia perder as festividades. De volta aos quarto, viu que sua criada ainda não tinha voltado. A mágica do carnaval atraía a todos, e ela tinha dispensado Margherita, para que a menina pudesse aproveitar. Lucia passou
  6. 6. pelos cômodos escuros, dirigindo-se até as portas que levavam ao terraço. Esperou o guarda que estava de patrulha passar e fazer meia- volta na extremidade do palácio, e então saiu sorrateiramente e pegou um caminho diferente para o destino pretendido. A luz da lua e os fogos de artifício iluminavam o céu. Os sons da música e a folia a atraíam, e as comemorações durariam apenas mais algumas poucas horas. Ela vivia no palácio do pai havia alguns meses, mas havia aprendido a se movimentar pela propriedade em menos de uma semana. Já tinha determinado quais eram os pontos mais fáceis por onde escapar, e dirigiu-se diretamente para um deles. O barulho da folia aumentava à medida que ela se aproximava dos limites do terreno do palácio, mas ela mal tinha puxado a escada de jardineiro que havia escondido debaixo dos arbustos naquele dia, apoiando-a contra o muro de pedra do pomar do palácio, quando sua noite de aventura foi interrompida mais uma vez. Levou um susto ao sentir que alguém lhe agarrava o braço, mas ao se voltar, esperando dar de cara com mais um guarda do palácio, ela viu, pelo contrário, a última pessoa que poderia imaginar. - Elena? - Ela olhou pasmada para a sua meia-irmã. - O que você está fazendo aqui fora? - Eu estava olhando pela minha janela - respondeu Elena, sem fôlego. - Vi você cruzar o jardim à luz da lua e corri para baixo atrás de você. - Mais jovem do que a irmã, Elena apertou o roupão ao redor do corpo e olhou para a escada. Em seguida, voltou a olhar para Lucia. - Você está fugindo? - Volte para a cama. - Não fuja! - implorou a garota de dezessete anos, apertando o braço de Lucia. - As coisas estão tão divertidas desde que você chegou! Oh, Lucia, eu não agüentaria se você fosse embora.
  7. 7. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - Não seja boba - disse ela, soltando o braço com um puxão. - Eu não vou fugir. Na verdade, vou sim, mas só quando conseguir dinheiro suficiente. Hoje, só vou sair para o carnaval. - Sozinha? Com um risinho irônico, Lucia abriu os braços, em um gesto amplo. - Você vê mais alguém comigo? - Papai ficaria furioso se descobrisse. Lucia olhou firme para Elena. - Ele não vai descobrir, a não ser que você conte para ele. - Eu não vou contar, prometo. - Elena examinou novamente a escada e voltou a olhar para Lucia. - Você está sempre fazendo isso, não é? Fugir de mansinho não fazia parte dos hábitos de Elena, mas Lucia sabia tudo sobre isso muito antes de ter conhecido a meia-irmã. Elena era a boa menina, a filha legítima, a princesa de verdade. Lucia era a tempestuosa filha bastarda do príncipe Cesare - um segredo vergonhoso. Não tinha nada de princesa, e ninguém realmente esperava que agisse direito. Mas não trocaria de lugar com Elena por nada. - Volte para a cama - ordenou, virando-se para o muro. - Pelo amor de Deus, você está aqui de roupão! - Você também. - Eu estou vestida por baixo. - Você está usando fantasia? Antes de Lucia poder responder, a mão de Elena se fechou novamente ao redor do seu braço. - Me leve com você. - O quê?! - Lucia parou e sacudiu a cabeça. - Oh, não. Cesare me mataria. Eu fugir e me meter em encrenca não é nada. Já fiz isso
  8. 8. antes, e eles não esperam nada de bom de mim. Mas com você é diferente. Você não pode vir. - Por favor. Antonio pode sair e fazer o que quer, mas eu tenho que assistir ao carnaval da sacada. Quero me fantasiar e sair pelas ruas como todo mundo. - Não, não quer. Você ficaria chocada. É de mau gosto e baru- lhento. Você detestaria. Você ficaria horrorizada. - Não ficaria! Por favor, me leve com você! Elena ficou olhando fixamente para ela à luz da lua. Parecia um cãozinho adorável a quem o passeio fora cruelmente negado. - Eles nunca me deixam ir a lugar algum - sussurrou ela, com um tom tão desamparado que o coração de Lucia se apertou de afeição e piedade. Pobre menina. Seu irmão mais velho, Antonio, sempre tivera toda a liberdade que o filho de um príncipe poderia ter, mas Elena fora destinada a uma vida de prisão real do berço ao túmulo, protegida e mimada. Dentro de alguns anos, ela seria dada em casamento no interesse de uma aliança política, sem nunca conhecer a riqueza da vida fora dos portões do palácio e das carruagens douradas. - Vamos então - disse Lucia num impulso. - Mas fique grudada em mim - acrescentou, fazendo um gesto para que a irmã subisse a escada à sua frente. - A última coisa que eu preciso é que você se perca. - Vou ficar grudada em você como se fosse a sua sombra - prometeu Elena, parando no alto com uma perna de cada lado do muro. - Como é que eu desço? - Fique aí sentada um minuto. Lucia levantou a escada, apoiando-a contra o muro meio metro adiante, e subiu, segurando as saias acima dos joelhos, como Elena tinha feito. Puxou então a escada para cima do muro e a
  9. 9. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 abaixou do outro lado. Depois de descer para a ruela que ficava em- baixo, ela acenou para que Elena a seguisse e tirou o seu roupão de veludo, revelando as roupas de camponesa que usava por baixo. - A primeira coisa que temos que fazer é conseguir uma fantasia para você - disse ela enquanto desmanchava a longa trança, deixando o cabelo escuro lhe cair nas costas. - E uma máscara - acrescentou, puxando uma máscara de cetim negro do bolso e pondo-a sobre os olhos. Ela amarrou os cordões atrás da cabeça, pôs um lenço vermelho sobre o cabelo e saiu pela ruela. - Espere aqui. Com uma parte do dinheiro que vinha juntando, Lucia conseguiu comprar para Elena uma fantasia e uma máscara semelhante à que usava em um dos muitos ambulantes que forneciam esse material para aqueles que não tinham se preparado com antecedência para o carnaval. Cumprindo a palavra, Elena ficou bem perto de Lucia quando elas saíram sorrateiramente da ruela e começaram a andar pelas ruas tortuosas e barulhentas de Bolgheri. O carnaval era sempre um espetáculo impressionante. As sacadas e janelas estavam enfeitadas com faixas coloridas de pano, as carruagens e carroças estavam cheias de arlequins, dominós e bobos da corte, turbas barulhentas perambulavam pelas ruas e música, fogos de artifício e confete enchiam o ar. Lucia e Elena passaram algumas horas assistindo aos espetáculos apresentados por mímicos, acrobatas, menestréis e ilusionistas. Ambulantes tentaram atraí-las para jogos de azar, mas Lucia recusou, sorrindo. Não era tola de arriscar as suas poucas e preciosas moedas em jogos nos quais não poderia ganhar. Elena não dizia nada. De olhos arregalados, olhava maravilhada o movimento incessante, as fantasias, as máscaras, e o sorriso de deleite no seu rosto dizia tudo. A alegria dela de estar livre, ainda que apenas por uma noite, era óbvia e sincera, e Lucia estava muito
  10. 10. contente de tê-la trazido consigo. Quando Elena voltasse para a prisão do palácio, a lembrança daquela noite sempre a faria sorrir. Elas pararam para assistir a um espetáculo teatral de commedia dell'arte no centro de uma praça, e Lucia notou uma carreta puxada por bois que parou ao lado delas. Atrás havia dois jovens vestidos como camponeses napolitanos. O carroceiro brecou a carreta e os dois acenaram para elas, tentando lhes chamar a atenção. - Veja, Elena, temos um par de admiradores. A garota seguiu o olhar da irmã, sorriu timidamente para os homens e desviou o olhar. - Eles olham diretamente para nós de um jeito muito atrevido. - Eles são altos e fortes - disse Lucia, em tom de aprovação. - E uma pena que não possamos ver o rosto deles atrás daquelas máscaras para saber se são bonitos. Lucia sorriu para os dois homens e lhes soprou um beijo. O mais alto fez um gesto para que ela arrancasse a máscara e o lenço. Ainda sorrindo, ela fez que não com a cabeça e o observou pôr uma mão sobre o coração, como se estivesse arrasado. Rindo, ela lhe acenou um adeus e voltou-se para Elena. - Vamos, quero tomar café. Elena seguiu Lucia, que se dirigiu para o meio de uma piazza cheia de gente, abrindo caminho para os cafés e padarias do outro lado. Com sorte, conseguiram uma mesa em um café ao ar livre e fizeram o pedido. Enquanto esperavam, Lucia tirou do bolso tabaco e papel, e começou a enrolar um cigarro com a facilidade da longa prática. Elena ficou olhando para ela, estarrecida. - Você vai fumar? - Não me olhe com esse rostinho tão horrorizado - respondeu Lucia, divertindo-se. - Pelo menos não é haxixe. Quer um? - As mulheres não devem fumar.
  11. 11. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 Lucia pegou a vela sobre a mesa. - Exatamente - disse ela. Acendeu o cigarro e se encostou na cadeira, sorrindo do rosto chocado de Elena. Na coloração, elas não eram diferentes - as duas tinham os olhos escuros e o cabelo crespo e escuro do pai, mas aí terminava toda a se- melhança. Elena era delicada, doce e exageradamente idealista, tudo o que Lucia não era. Talvez fosse por isso que ela tinha gostado tanto da menina nos três meses que vivia ali. Elena participava de todas as funções reais, e Lucia era mantida fora da vista, na extremidade oposta do palácio. Apesar disso, as duas tinham conseguido se encontrar. Sozinhas e isoladas dos outros, tinham-se tornado amigas secretas. - Eu não queria gostar de você, sabe? - Lucia deixou escapar, soprando a fumaça para o alto. - Não queria? - Não. Eu vim para cá totalmente disposta a odiar você. Para sua surpresa, Elena começou a rir. - Eu também não queria gostar de você - confessou. - Quan- do nos conhecemos e você me disse que era a bastarda de papai, odiei você. Eu não sabia que ele tinha outra filha além de mim. Lucia deu uma risadinha de escárnio. - Isso não é nenhuma surpresa. Ninguém sabe que sou filha dele. - Eu falei sério. Estou me divertindo muito desde que você chegou. Ouvir as suas histórias, saber de todas as coisas exorbitantes que você fez, coisas que eu nunca ousaria fazer... - Ouvir outras pessoas falarem sobre a vida não adianta, Elena - interrompeu Lucia. - A vida é rica, doce e muito curta. As pessoas têm que viver a vida e não observá-la da sacada de um palácio. Elena franziu as sobrancelhas, com expressão de dúvida, e es- tendeu a mão em direção ao cigarro. - Vamos experimentar isso.
  12. 12. - Se você nunca fumou, não vai gostar - disse Lucia, con- cordando com o pedido da garota. - Inale apenas um pouquinho — advertiu, mas já era tarde demais. Com um ataque de tosse, Elena abanou a fumaça com as mãos e devolveu o cigarro o mais rapidamente possível. - Essa é uma experiência que eu evito de boa vontade - disse ela com um estremecimento. - E horrível! - Realmente - concordou Lucia. - Por que você fuma, então? - Porque sou proibida de fumar, acho. - O que mais você já fez que é proibido? - Quase tudo - admitiu ela, sem saber ao certo se deveria ou não ter orgulho disso. - A sua mãe não se importa? - Mamma7 . - Lucia sorriu, lembrando-se das visitas que Fran- cesca lhe fazia no internato, pensando no jeito indeciso e animado da mãe, que cativava a todos. A própria Lucia não era imune a esse charme. Ela adorava a mãe. - È difícil saber o que mamma realmente pensa sobre qualquer coisa. - Me fale mais das coisas que você fez. - Sem esperar uma resposta, ela continuou: - Você já beijou um homem? - Claro. Os olhos de Elena se abriram com a curiosidade de toda garota de dezessete anos que não tem nenhuma experiência. - Como é? Lucia lhe disse a verdade: - Maravilhoso. Não sei explicar por quê, mas é. - Quem você beijou? - perguntou Elena. - Quem era ele? A mente de Lucia voltou num átimo ao verão de três anos antes, e ficou surpresa ao descobrir que já não doía pensar nisso.
  13. 13. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - O nome dele era Armand. Ele era o ferreiro da aldeia próxima à academia de Madame Tournay. Eu estava totalmente apaixonada por ele. - Um ferreiro? Como você o conheceu? - Um dia eu estava na aldeia fazendo compras e o vi. Ele estava de pé inclinado sobre a bigorna, martelando. Estava sem camisa, e o suor escorria pelo seu peito. Eu simplesmente parei e fiquei olhando para ele. Nunca tinha visto o peito desnudo de um homem antes. Ele levantou os olhos e me pegou olhando. Sorriu para mim e eu me apaixonei por ele. Foi simples assim. Comecei a fugir à noite para me encontrar com ele. Armand fazia eu me sentir linda e desejável pela primeira vez na vida. Foi a coisa mais incrível e maravilhosa que já aconteceu comigo. Suspirando, Elena apoiou o cotovelo na mesa e o queixo em uma das mãos. - O que aconteceu? - Cesare descobriu, Armand se casou com outra pessoa e eu fui mandada para um convento. - O quê? - Elena se empertigou na cadeira, indignada. - Eu pensei que você ia me contar alguma história trágica de que ele morrera de amor por você. - Que idéias românticas você tem, Elena! - Ele foi um grosseirão malcriado! Se ele a amava e... beijou você, deveria ter se casado com você e não com outra garota! Agora Lucia já conseguia ver o caso filosoficamente. - Essas coisas acontecem. - Mas acho que você não poderia se casar com um ferreiro, de qualquer forma. Papai nunca teria consentido. Lucia sabia que ela teria se casado com Armand se ele a tivesse amado o suficiente para desafiar o pai dela. Mas ele tinha preferido
  14. 14. pegar o dinheiro com que Cesare o subornara e se casar com a filha de um comerciante, deixando-a de coração partido. E Lucia jurou que aquilo nunca mais iria acontecer. - Quando eu me casar, será com um homem que me ame tão louca e apaixonadamente que nada mais importe a ele - disse ela a Elena. - De outra forma, o casamento é uma armadilha, e a mulher não passa de uma prisioneira. Para seu espanto, Elena concordou com a cabeça. - Eu ainda não me casei e já estou presa em uma armadilha. - Seu rosto bonito assumiu uma expressão infeliz. - Tenho que me casar com um duque austríaco. A mãe dele é inglesa. Tudo foi arranjado pelos embaixadores britânico e austríaco. - Eu sei. Já ouvi falar disso. - Eu não o amo. Eu nunca nem mesmo o vi, mas tenho que me casar com ele. Papai insiste nessa união. - Desafie Cesare. -Não posso! Está tudo arranjado. Os tratados foram assinados. O dote foi pago. O Congresso de Viena será preservado, nós teremos paz com a Áustria e Bolgheri terá uma aliança com a Inglaterra. Não há nada que eu possa fazer para deter tudo isso. E o meu dever. Lucia desejou poder dizer alguma coisa que confortasse a irmã, mas não havia nada de confortador no fato de ela ser forçada a se casar com um homem que não amava. Ela mudou de assunto. - Pelo menos quando você percebe que está presa em uma armadilha, não sai fazendo loucuras para deixar Cesare fora de si. - Não sei não - disse Elena com um sorriso triste. - Estou aqui com você, não estou? Mas acho que esta é a única vez que eu terei uma chance de fazer alguma loucura na vida. - Ela fez uma pausa, estudando Lucia com uma expressão pensativa no rosto. - Por que você sempre desafia papai fazendo coisas proibidas?
  15. 15. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 Lucia abriu a boca para responder e então percebeu que não sabia a resposta. Ficou em silêncio, pensando antes de falar. - Eu gosto de agitação, de excitação, e há uma certa excitação em desrespeitar as regras - disse ela depois de um momento. - Além disso, adoro um desafio. O fato de me proibirem de fazer alguma coisa me dá uma enorme vontade de fazer exatamente aquilo. - E quando você desrespeita as regras, papai tem que se lembrar que você existe. Lucia ficou tensa com as palavras da irmã. Para uma garota protegida e ingênua que não sabia muito sobre a vida, Elena percebia muita coisa. - Isso também - admitiu Lucia, dando uma tragada no cigarro. Soprando a fumaça, acrescentou: - Por que ele deveria poder fazer de conta que eu nunca nasci? - Não deveria não. Lucia olhou para o outro lado para não ver a compaixão no rosto da irmã. Era irônico, já que apenas alguns minutos antes ela é que tinha tido pena da jovem. - Não tem importância - disse ela em voz frágil. - Eu não ligo. - Liga sim. Mas, se isso for consolo para você, papai também se esquece que eu existo a maior parte do tempo. Antonio pode fazer o que bem entende, mas eu não posso ir a lugar nenhum nem fazer nada. Papai não me deixa nem mesmo ir a um baile antes de completar dezoito anos. Antes de você chegar, houve ocasiões em que eu pensei que fosse enlouquecer. - Só estou aqui porque Cesare não sabia o que mais fazer comigo. O plano dele era que os guardas do palácio me mantivessem sob controle. - Ela fez uma pausa e lançou um olhar significativo ao redor, e então sorriu maliciosa para Elena. - Você acha que está funcionando?
  16. 16. Elena retribuiu o sorriso. - Temo que não. - Recuso-me a ser controlada como uma marionete. - Virando-se na cadeira, ela jogou a ponta do cigarro nas pedras do pavimento. Enquanto esmagava a bituca com o salto do sapato, Lucia avistou a carreta de bois que elas tinham visto antes. Ela circundava a piazza com os dois homens de pé na parte de trás, esquadrinhando a multidão. - Não vire cabeça - ordenou ela -, estou vendo aqueles dois homens novamente. Acho que estão nos procurando. - Por que estariam? Eles nem nos conhecem... - O que importa isso? Os homens sempre querem mulheres, especialmente aquelas que sorriem, riem e flertam com eles. Ela observou o mais alto se voltar para a direção delas. Ao vê-la, ele lhe jogou um beijo, retribuindo o que ela lhe soprara antes. Ela riu, percebendo e gostando daquele tipo de atenção masculina. - Eles nos viram - disse ela a Elena, enquanto o seu admirador se virava para o companheiro e apontava na direção delas. - Estão vindo para cá. - Oh! - Os olhos de Elena se abriram, traindo a sua animação. - E se eles quiserem conversar conosco? - Talvez nós deixemos que conversem. - Lucia se recostou na cadeira com ar descuidado. - Ou talvez - acrescentou ela com um dar de ombros - não. A carreta parou ao lado do café em que elas estavam e um buquê voou pelo ar, pousando no colo de Lucia. Ela abaixou os olhos para as violetas e em seguida deu uma olhada no homem. Depois de um momento, pegou o buquê e sorriu para o seu admirador. - O que significam as flores? - perguntou Elena, olhando de relance para a carreta e novamente para Lucia.
  17. 17. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - Ele quer me conhecer. - Com o buquê na mão, ela empurrou a cadeira para trás e se levantou. - Vamos. Sem olhar para os homens, Lucia se virou e começou a andar na direção oposta. Elena correu para alcançá-la. - Não entendo. Você não quer conhecê-lo? - Ainda não decidi. - E se eles nos perderem na multidão? - Então eu não vou conhecê-lo, não é mesmo? - Ele vai achar que você não gostou dele e vai desistir. - Ele não vai fazer isso, pode ter certeza. Como que para provar as palavras dela, as vozes provocantes dos dois homens as chamaram, vindo de trás e não muito distante, indicando que tinham deixado a carreta e as estavam seguindo a pé. Dentro de momentos, eles passaram correndo por Lucia e Elena e se viraram, bloqueando o caminho delas. Sem fôlego e rindo, o admirador de Lucia caiu sobre um joelho diante dela. - Doce camponesa - disse ele -, imploro à senhora e à sua companheira que nos deixem acompanhá-las. - Se deixarmos, os senhores têm que primeiro tirar a máscara. Não podemos permitir que os homens que nos acompanham man- tenham o rosto escondido de nós - respondeu ela. Ele se levantou. - Se nós mostrarmos o rosto, as senhoras farão o mesmo? Essas máscaras só podem esconder grandes beldades. Ela pensou por um momento e então concordou com um aceno de cabeça. - Mas todos tiram as máscaras ao mesmo tempo. - Concordamos. Rindo, Lucia puxou o lenço e a máscara e sacudiu as longas madeixas encaracoladas. Ela olhou para o rosto sem máscara de
  18. 18. seus admiradores e deu com os dois homens olhando, assustados, para ela e para Elena, totalmente pasmados. De repente, percebeu quem eram, e seu riso desapareceu. - Deus do céu! - sussurrou ela, sentindo-se mal de repente. Estava diante de dois guardas do palácio.
  19. 19. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 Capítulo um E ra de conhecimento geral no corpo diplomático britânico que toda vez que Sua Majestade, o rei Guilherme IV, tinha nas mãos uma situação delicada, Sir Ian Moore era o escolhido para resolver a questão. Nenhum outro tinha a menor chance. Era verdade que Sir Ian, de trinta e cinco anos, tinha uma década de carreira bem-sucedida como diplomata. Era verdade que ele não era casado - estava livre, desimpedido e sempre disposto a ser um embaixador errante, a ir a qualquer lugar para onde uma obrigação para com o rei e a Inglaterra o mandasse. Não havia dúvida de que a lealdade e a honra dele eram inquestionáveis. Mas os tempos eram de paz na Europa, e eram raras as situações realmente delicadas em que um diplomata pudesse deixar a sua marca. Muitos colegas de Sir Ian desejavam que o embaixador favorito de Sua Majestade se recolhesse à sua propriedade rural no condado de Devonshire e desse ao resto deles uma chance de brilhar. Os turcos e gregos eram o exemplo perfeito. Punham à prova o ânimo de qualquer diplomata, de forma que quando uma escaramuça menor entre esses dois povos ameaçou desencadear uma guerra,
  20. 20. ninguém ficou surpreso quando Sir Ian foi enviado para a Anatólia. Mas todos ficaram surpresos quando, cerca de uma quinzena depois da sua chegada a Constantinopla, ele foi chamado de volta para a colônia de Gibraltar. Jovens diplomatas ambiciosos cruzaram os dedos, na esperança de que, de alguma forma, Ian Moore tivesse finalmente metido os pés pelas mãos. Ian estava tranqüilo quanto ao seu desempenho, que sem dúvida continuava satisfatório. Quanto ao motivo pelo qual fora chamado de volta do Levante, porém, até mesmo Ian tinha que confessar a sua perplexidade. - Por que me chamaram a Gibraltar? - perguntou-se ele em voz alta, sentado em sua cabina no Mary Eliza, um dos melhores e mais rápidos navios da marinha de guerra de Sua Majestade britânica. Enquanto o navio o levava pelo Mediterrâneo, Ian estudava o mapa da Europa aberto sobre a mesa à sua frente. - O que significa isso? Seu valete, Harper, levantou os olhos da camisa que consertava. - Deve ser algo realmente sério para eles mandarem buscar o senhor assim tão inesperadamente. Alguma coisa importante está acontecendo. - Não consigo imaginar o quê. A situação turca é a única coisa de peso nesta parte do mundo atualmente, e é muito estranho me substituírem bem no meio da questão. Com que objetivo? - Só sei que é uma pena. Estávamos nós em Constantinopla, recém-instalados para uma estada boa e longa, e num piscar de olhos há uma mudança de planos, e lá vamos nós navegar de novo. - Harper balançou a cabeça com um suspiro de pesar. - É uma pena - acrescentou. - Aquelas calças e aqueles véus que as damas turcas usam... fazem com que um homem fique pensando no que está por baixo. O sultão ia dar uma das escravas dele para o senhor, não é mesmo?
  21. 21. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - Harper, um verdadeiro gentleman britânico não possui escravas. É uma prática bárbara. - Talvez sim, meu senhor, mas uma daquelas garotas turcas teria sido como um tônico para o senhor. Sem falar que o senhor anda recentemente de pavio curto... - Isso é absurdo - Ian disparou, ofendido. - Eu não ando de pavio curto. - Se o senhor assim o diz... Mas o senhor vem trabalhando muito por meses a fio, e não teve tempo algum para as senhoras. - Ele fez uma pausa e depois acrescentou: - Um homem precisa daquilo de que precisa, o senhor sabe. Ian não queria pensar em quanto tempo fazia desde que as suas necessidades nessa área em particular tinham sido atendidas. Tempo demais. Ele deu uma olhada de advertência para o criado. - Harper, basta! Mais uma impertinência de sua parte e eu começo a procurar um novo valete. O criado, que trabalhava como valete dele desde os quinze anos, não ficou nem um pouco intimidado com a irritação do patrão. - Seria muito bom se o senhor desapertasse essa gravata de vez em quando, sir, se o senhor não se incomoda de eu dizer isso. - Eu me incomodo. - Ian tamborilou os dedos sobre a mesa, concentrando os pensamentos em questões importantes. - Por que me mandam para Gibraltar? - ele se perguntou mais uma vez, enquanto considerava e rejeitava várias possibilidades. - A situação do Marrocos é estável. As coisas andam calmas na Espanha. Quanto aos franceses, bem, as nossas relações não estão muito boas, mas isso não é nenhuma novidade. Não consigo imaginar qual seja o problema. - Alguma coisa a ver com aqueles italianos de novo, eu diria. Ian esperava que não.
  22. 22. - Não vejo como isso seria possível. A questão italiana está re- solvida. O Tratado de Bolgheri foi assinado, o Congresso de Viena permanece intacto, e a princesa Elena vai se casar com o duque de Ausberg quando chegar aos vinte e um anos de idade. - O que se diz é que ela não quer se casar com ele. - Ela cumprirá o seu dever. Não tem escolha. Harper deu de ombros. - Pode ser, mas não dá para confiar nem um pouco nas moças, senhor. Especialmente nas italianas - acrescentou ele com convic- ção. - É uma questão de temperamento. Se havia alguém que poderia compreender o temperamento italiano, esse alguém era Ian. Ele passara muito tempo naquela parte do mundo nos últimos anos, despejando as palavras conciliatórias da diplomacia sobre o príncipe de Bolgheri e os duques de Veneza, da Lombardia e da Toscana para preservar a paz na região e evitar que os nacionalistas italianos se rebelassem contra o Império Austríaco. Apesar de suas muitas viagens à região, porém, ele não entendia os italianos. Eles eram excessivamente dramáticos e apaixonados, e o seu humor, demasiado volátil para a controlada natureza dos britânicos. Ian desistiu de suas especulações, considerando-as um exercício fútil, e enrolou o mapa. Fosse para onde fosse que eles se propusessem a mandá-lo, ele cumpriria o seu dever. Era o que sempre fazia. Entretanto, quando o Mary Eliza chegou a Gibraltar e Ian se apresentou à Casa do Governo, sede do governo colonial britânico, Ian não pôde deixar de se surpreender com a missão que o aguardava. - O senhor está me mandando para Londres? - Eu não, Sir Ian - Lorde Stanton o corrigiu. - Essas ordens vêm do próprio primeiro-ministro. O senhor deve partir para o
  23. 23. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 nosso país imediatamente. Despachei Sir Gervase Humphrey para Constantinopla, para tomar o seu lugar e cuidar da questão turca. Sir Gervase não tinha experiência suficiente. Os turcos iam fazer picadinho dele. Ian, claro, se absteve de manifestar a sua opinião sobre o colega. - Qual é o objetivo de me enviar para Londres? - Não se trata de nenhum tipo de rebaixamento profissional ou reprimenda. Muito pelo contrário, na verdade. Considere essa missão um prêmio por todo o seu trabalho árduo. - Stanton lhe deu um tapinha no ombro, sorrindo. - O senhor vai para o nosso país, meu caro. Eu imaginava que o senhor ficaria exultante com essa perspectiva. Eu mesmo vou para lá dentro de dois meses, e estou encantado com isso. Ian não estava nada encantado. E estava muito mais preocupado com os motivos do que com o destino. - Que questão diplomática em Londres exige a minha atenção? A expressão de Stanton ficou séria. - Sir Ian, o senhor trabalhou por muito tempo e arduamente na questão italiana; depois houve toda a encrenca da Dalmácia, e então nós o enviamos diretamente para cuidar dos turcos. O senhor esteve em Londres apenas uma meia dúzia de vezes nos últimos quatro anos, e nunca por mais de algumas poucas semanas. Isso é pedir demais de qualquer homem, mesmo em se tratando do senhor. Por isso, o primeiro-ministro consultou Sua Majestade e eles decidiram enviá-lo de volta à Inglaterra por algum tempo. Junho se aproxima, o auge da temporada de verão londrina, como o senhor sabe. O senhor terá a chance de ter um pouco de companhia agradável e conviver com a boa sociedade. Pense nisso como umas férias. - Não preciso de férias. A resposta brusca saiu antes que Ian conseguisse fechar a boca. Lembrando-se das palavras do seu vale-
  24. 24. te, ele pressionou dois dedos sobre a testa até recuperar a compostura. Não era do seu feitio ser assim tão irritável. Talvez ele precisasse mesmo de um descanso, mas isso dificilmente seria o motivo de o estarem mandando para a Inglaterra. Ele levantou a cabeça. - William, nós nos conhecemos há muito tempo. Aqui entre nós, você poderia parar com o joguinho diplomático e ir direto ao assunto? Por que eles estão me mandando para Londres? - Não se trata de uma crise, de jeito nenhum. - Stanton puxou uma cadeira da mesa e se sentou. - Mas é importante. O príncipe Cesare de Bolgheri vai a Londres em agosto, para uma visita de estado de três meses, e eles querem que você cuide dos preparativos. Mas a questão é, na realidade, a filha de Cesare. Os italianos de novo. O maldito do Harper estava certo. - A princesa Elena está em Londres? - Ian se sentou de frente para Stanton. - Não, Elena não. A outra. - Que outra? - A filha ilegítima de Cesare. Ian levantou uma sobrancelha. - Eu não sabia que ele tinha uma filha ilegítima. - Tenho certeza de que ele tem uma dúzia, mas essa moça, Lucia, é um caso especial. A mãe dela foi a amante favorita de Cesare. Parece que ele realmente amava a mulher. Isso há anos, naturalmente. - Ele se apaixonou pela amante? Má sorte para um príncipe. - Ele era bem jovem na época - tempos em que dava vazão ao sangue quente, quando era solteiro e só pensava em aproveitar a vida. Alguns anos depois, ao se casar com Sophia da Toscana, ele deixou a amante e enviou a filha para viver com parentes da mãe
  25. 25. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 dela no campo. Ele a sustentou, mas nunca a reconheceu publicamente como filha. - Cesare, constrangido por ter uma filha bastarda? - Ian não acreditava nisso. - Com certeza não. - Cesare não. O duque da Toscana exigiu isso durante as nego- ciações do acordo de casamento da filha Sophia. Mais tarde, Lucia foi posta em uma daquelas academias para moças em alguma parte da Europa, usando o sobrenome da mãe. Ela já esteve em meia dúzia de escolas na Suíça e na França, mas é tempestuosa como uma cigana. Há três anos, houve um escândalo com um jovem - um ferreiro -, bem debaixo do nariz das governantas da escola de uma Madame Não-sei- quê, nas proximidades de Paris. - Quantos anos tem essa moça? - Vinte e dois. Ela tinha dezenove na época. De qualquer forma, nada de terrível aconteceu com ela, se é que você me entende. - Stanton, na verdade, corou. - O incidente foi todo abafado. Cesare casou o homem com alguém e trancou Lucia em um convento. - Para garantir que não haveria ferreiros no futuro. - Exatamente. O problema é que a moça estava sempre fugindo, sabe Deus fazendo o quê. Cesare decidiu que a única forma de controlá-la e evitar um escândalo público era mantê-la bem debaixo de seu nariz. Ele a levou com ele para Bolgheri há uns seis meses e a pôs em uma ala isolada do palácio, até resolver o que fazer com ela. - E então? Como resposta, Stanton puxou da sua pasta um jornal dobrado e o jogou até o outro lado da mesa. Não havia dúvida de que era uma publicação especializada em escândalos. Ian esquadrinhou o artigo, traduzindo rapidamente as palavras em italiano, e depois baixou o jornal com a expressão inalterada.
  26. 26. - De que adianta manter a moça em segredo? Até que ponto essa descrição do incidente é precisa? - Os fatos estão corretos, de um modo geral. - E Elena? - Não aconteceu nada com nenhuma das moças. Elas quiseram sair para ver o carnaval, foi só uma travessura. Os guardas, que estavam de folga, as escoltaram de volta ao palácio. - Elas não foram molestadas fisicamente? - Não. Elas foram examinadas por médicos, e as duas ainda são... - Constrangido, Stanton não completou a frase. - Virgo intacta? - completou Ian, usando o latim como a forma mais diplomática de se expressar. Stanton fez que sim com a cabeça. - Uma encrenca danada se não fossem. De qualquer forma, Cesare a tirou do palácio e a mandou viver com primos em Gênova, e decidiu que estava na hora de encontrar um marido para ela, o mais longe possível de Bolgheri. - Ele agiu bem. A moça sem dúvida é uma má influência para a irmã. - Ian passou o dedo pelo jornal de escândalos à sua frente, publicado três meses antes. - Mas não teve sucesso em abafar as indiscrições dela dessa vez. - Infelizmente não. Cesare tinha esperança de manter o incidente em segredo até conseguir casar a moça, mas, como você pode ver, a história vazou, assim como os rumores do seu comportamento destemperado. Como você, ninguém sabia da existência dessa moça, e agora não apenas essa notícia, mas também a da escapada no carnaval, estão se espalhando por toda a Itália. O príncipe Cesare finalmente reconheceu a moça como sua filha e lhe deu o seu sobrenome, Valenti. A mulher dele, a princesa Sophia, está furiosa com isso.
  27. 27. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - Talvez, mas Cesare não tinha escolha. O reconhecimento melhora a posição da moça como material para casamento. - Ian pôs o jornal de lado. - E o duque de Ausberg? Ele deseja recuar quanto ao casamento com Elena devido à participação dela nisso? - Não, não. Elena está sendo considerada a vítima da influência de sua meia-irmã. O casamento continua de pé, e todos os aspectos do tratado permanecem intactos. - Então, qual é o problema? - Não fazia nem um mês que Lucia estava em Gênova quando ela fugiu. Temos a informação de que conseguiu chegar a Londres e está vivendo com a mãe. - Apesar da imprensa marrom, se Elena não foi prejudicada com o incidente, o duque de Ausberg ainda quer se casar com ela, o tratado permanece intacto, Lucia está vivendo com a mãe e, afinal de contas, tudo terminou bem, onde é que eu entro nessa história? - Cesare tem uma grande admiração por suas habilidades diplo- máticas. Ele o considera a pessoa perfeita para resolver a situação. - Que situação? - Vai ser complicado. Ian se inclinou sobre a mesa, esforçando-se para manter a calma. - Que situação? - repetiu. - Enquanto estiver em Londres, você deve arranjar um casamento para Lucia. Ian imediatamente ficou tenso na cadeira. - Você só pode estar brincando. - Você sabe que eu nunca brinco com relações internacionais. Cesare quer casar a moça antes que ela possa causar mais cons- trangimento para a Casa de Bolgheri. Cabe a você encontrar um marido adequado para ela, fazer os arranjos diplomáticos e assistir a negociação dos termos do casamento.
  28. 28. - Eu fui tirado de uma importante missão diplomática na Ana- tólia para bancar o casamenteiro de uma mocinha levada? - Ela é filha de um príncipe - Stanton lhe lembrou. - E você bancou o casamenteiro da irmã dela. - Era muito diferente. Isso envolvia um tratado. O Congresso de Viena corria perigo. Que maldição, William! - Ian sentia sua irritação prestes a explodir, e sabia muito bem que isso nunca levava a nada. Ele engoliu as palavras de frustração que estavam na ponta da língua e respirou fundo. - Cesare não quer a moça de volta a Bolgheri por motivos óbvios - continuou Stanton. - Arranjar um casamento adequado para ela é a única alternativa. Dar a ela um marido de espírito forte e alguns filhos, para ela sossegar. - E se ela não sossegar, o problema é do marido? - Exatamente. O príncipe Cesare também deseja fortalecer a sua aliança conosco, e acha que um marido inglês seria a melhor solução. Mas, naturalmente, que seja católico. Nós concordamos em ajudar. Ela já está em Londres, de qualquer forma. Você deve apresentar a moça à sociedade inglesa e encontrar algum fidalgo católico adequado para se casar com ela. Cesare lhe dá carta branca. Você então dará assistência nas negociações entre o enviado do governo dele e a família do noivo sobre os termos do casamento. O príncipe está oferecendo um enorme dote, além de uma boa renda, para ficar livre dela. A expectativa de Cesare é que ela se case antes de ele voltar para a Itália, em outubro. Você vai fazer isso acontecer. Era inacreditável. Uma carreira longa e ilustre evitando guerras, negociando acordos comerciais vitais e preservando tratados resultava nisso. - Encontrar um marido para ela é uma missão que poderia ser realizada por qualquer pessoa do corpo diplomático. Ela é rebelde e
  29. 29. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 encrenqueira, admito. É ilegítima, e a reputação dela foi um pouco danificada, mas ela possui sangue real. A Casa de Medina não é o principado mais rico da Europa, mas também não é o mais pobre. Ela é pouco atraente? - Muito pelo contrário. Disseram-me que é muito bonita. - Então, veja a situação. A moça é bonita, o pai é um príncipe, há muito dinheiro de dote. Apesar das indiscrições dela, tenho certeza de que existem famílias católicas de destaque na Grã-Bretanha que estariam desejosas de se ligar à Casa de Bolgheri pelos laços do matrimônio. Especialmente com uma renda tão generosa da parte de Cesare. - Sim, mas o príncipe insiste que o marido da moça seja um nobre e possua um patrimônio substancial. Nada de golpe do baú. - Entendo, mas sem dúvida alguém do Ministério das Relações Exteriores poderia cuidar disso. Por que precisam de mim? - Cesare solicitou especificamente que fosse você. Ele o tem na mais alta estima e confia no seu julgamento. Você também é respeitado por todos os nobres da Grã-Bretanha e faria com que tudo corresse sem transtornos. Bolgheri é uma aliança que nos interessa, como você sabe muito bem, e esse casamento fortaleceria ainda mais a nossa influência na península Italiana. Concordamos em pôr as suas habilidades à disposição de Cesare. Você sem dúvida precisa de umas férias e estará em Londres, de qualquer forma. Tudo se encaixa perfeitamente. Para Ian, não havia nada de perfeito na situação. - Dez anos de serviços fiéis ao meu país e sou reduzido a isso. - E isso não é tudo. - Stanton deu uma tossidinha de cons- trangimento. - Você não vai gostar disso. - Agora sou um agente de casamentos de moças indóceis - res- mungou ele, dando um puxão na gravata. - Eu já não gosto disso.
  30. 30. - A mãe dela é Francesca. - Meu Deus! Você está me dizendo que a mãe dessa moça, a ex- amante do príncipe Cesare, é a mais mal-afamada cortesã da Inglaterra? - Não tão mal-afamada hoje em dia. Ela tem quase cinqüenta anos. - Ela foi uma das pessoas mais festejadas e populares de Londres durante anos. Foi para a cama com metade dos nobres da cidade e arruinou um número incontável de fortunas. Pelo que ouvi dizer, ela está levando Lorde Chesterfield à ruína atualmente. - Temo que tudo isso seja bem verdade. Ian tentou recuperar a reserva pela qual era tão conhecido e a finesse diplomática pela qual ele era tão valorizado pelo Império Britânico, mas naquele momento não conseguiu controlar-se. - Qual o gentleman que vai querer a mulher de reputação mais suspeita da Inglaterra para sogra, especialmente quando há chances de ele mesmo ter ido para a cama com ela? Quanto à filha, pela forma como viveu até agora, parece mais adequada para seguir os passos da mãe do que para se tornar esposa de um nobre britânico. Pelo menos é isso que qualquer gentleman de quem eu me aproximar em nome dela vai pensar. Com uma mãe como Francesca, onde eu vou encontrar para a filha um marido com título de nobreza e dinheiro, e ainda por cima católico? - As ordens de Cesare são de que a moça seja removida da casa da mãe e que não haja mais contato entre ela e a mulher. Parece que a mãe visitava Lucia com freqüência quando ela estava naquelas escolas francesas para moças, e Cesare acha que a influência dela é em parte responsável pelo fato de a moça ter se tornado tão indomável. - Sem dúvida, mas...
  31. 31. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - Lucia deve ser colocada com uma boa chaperon e apresentada à sociedade inglesa enquanto você procura um noivo adequado e facilita as apresentações. - E a moça? A opinião dela tem algum valor na escolha do noivo? - Não. O que importa é que ele tenha posição e esteja disposto a se casar com ela. Cesare confia que você vai encontrar o melhor partido. Ian não se sentiu nem um pouco lisonjeado. Stanton lhe estendeu um punhado de documentos. - Aqui estão as ordens oficiais do primeiro-ministro para você, junto com as especificações sobre o dote concedido por Cesare e um dossiê sobre a vida da moça. - Um grande golpe na minha carreira diplomática - resmungou ele com um toque de amargura, ao pegar os documentos. - Temos toda a confiança de que o senhor vai cumprir essa missão com a sua habilidade de sempre, Sir Ian. - Stanton se levantou com ar de fim de conversa. - Sabemos que o senhor cumprirá o seu dever. Essas palavras lhe serviram de um duro lembrete. Ian se levantou. Limpou a garganta, arrumou a gravata de volta ao seu nó perfeito original e, com um esforço, recuperou o equilíbrio. - Eu sempre cumpro o meu dever, Lorde Stanton. Com uma inclinação formal, ele partiu, mas o seu dever não o impediu de passar a viagem de Gibraltar a Londres amaldiçoando as moças italianas e a política internacional. Lucia adorava viver com Francesca. Elas faziam compras, con- versavam e passavam horas incontáveis juntas. Privada da mãe a não ser por algumas visitas breves por ano durante a maior parte
  32. 32. da sua vida, sentia que ela e a mamma eram finalmente uma família de verdade. Francesca era uma anfitriã encantadora e tinha um pequeno círculo de amigos íntimos. O atual amante dela, Lorde Chesterfield, um solteirão inveterado, foi aprovado por Lucia imediatamente porque era óbvio que ele babava pela mãe dela. Por viver à parte da sociedade, Francesca não dava muita atenção às convenções sociais. Também não havia nada que lhe agradasse mais do que escandalizar as senhoras de fino trato. De sua parte, Lucia estava se divertindo muito. Tudo o que quisesse fazer lhe era permitido, e podia ir aonde desejasse. Descobriu que a liberdade estava à altura de todas as suas expectativas. A mãe lhe dava uma mesada generosa e todo tipo de sugestão deliciosa sobre como gastá-la. Se havia alguém que sabia gastar dinheiro, esse alguém era Francesca. Uma tarde em que planejara fazer compras em Bond Street, Lucia entrou no quarto de Francesca para saber se a mãe desejava acompanhá-la, e descobriu que ela já estava ocupada. Sua modista estava lhe ajustando no próprio corpo um traje de montaria de veludo azul. - Temo não poder ir com você hoje, minha querida. Tenho muitos planos. Para começo de conversa, o meu novo traje de montaria acaba de chegar. - Estou vendo. - Lucia estudou a mãe par um momento. O azul- real da roupa casava bem com o cabelo castanho-avermelhado de Francesca. A modista não estava simplesmente ajustando o traje de montaria: na verdade, unia com costuras as partes da roupa diretamente no corpo ainda esbelto de Francesca, conseguindo assim uma roupa tão colante que sem duvida provocaria escândalo. - Você está usando alguma coisa por baixo disso?
  33. 33. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - Nadinha - respondeu Francesca, levantando o braço para que a modista pudesse fazer a costura de lado sobre a sua pele nua. - Sou terrível, não sou? Lucia foi até a cama e caiu sobre os travesseiros macios que guarneciam a cabeceira entalhada. - Terrível - concordou ela, divertida. - Mas isso não vai impedir que as damas inglesas saiam correndo para copiar sua roupa. Dentro de uma semana elas estarão todas sendo costuradas ponto a ponto dentro de seus trajes de montaria. - Exatamente. Mas quando elas começarem a usar essa moda, eu já estarei fazendo alguma outra coisa. Mesmo com quarenta e nove anos, tendo já deixado para trás o auge da beleza e com algumas luzes de prata no cabelo, o tino ousado - porém impecável - de Francesca para a moda ainda influenciava as damas respeitáveis da sociedade. Lucia sorriu. - Suponho que você já tenha alguma nova sensação em mente. - Claro - respondeu Francesca enquanto uma criada entrava no quarto de vestir com um cartão de visitas na mão. - Aquela carruagem que Chesterfield encomendou para mim chegará em menos de uma quinzena. Tem madrepérola incrustada nas portas, e o chassis... Oh, Lucia, Chesterfield me garantiu que o chassis é o mais macio que você possa imaginar. Eu vou usar a saia mais cheia que puder encontrar, de forma que ela faça ondas ao meu redor - uma saia branca, acho -, e vou deslizar pela Savile Row como um cisne desliza sobre a água. Ela se mirou no espelho. - Agora não, Parker - respondeu em inglês, quando a criada lhe estendeu o cartão de visitas. - Deus do céu, você não vê que estou apenas semivestida? Eu não poderia ver ninguém agora.
  34. 34. - O cavalheiro afirma que está aqui devido a uma questão de grande importância - retrucou a criada. - Disse que a senhora es tava esperando a chegada dele. Eu peço para Mr. Fraser dizer a ele que a senhora saiu? Francesca mudou de posição em sintonia com a modista, que se preparava para alinhavar o outro lado do corpete, e então deu uma olhada no cartão. - Ora, meu Deus, ele está lá embaixo agora? Eu confundi as coisas e pensei que viria amanhã... - Ela interrompeu o que ia dizendo e deu uma olhada furtiva para Lucia. - Diga a ele... humm... diga a ele que eu desço em alguns minutos. - Sim senhora. - Parker pôs o cartão de visita na penteadeira, fez uma mesura e saiu. - Quem é ele? - perguntou Lucia, curiosa devido à estranha olhadela que sua mãe lhe dera um momento antes. - Oh, não sei, minha querida - respondeu Francesca. - Vá para Bond Street e divirta-se. - Ela inclinou a cabeça, olhando para a modista, que, ajoelhada, fechava a costura debaixo do braço. - Annabel, você tem que se apressar. Não é bom deixar um homem esperando demais, especialmente quando é uma questão de negócios. Eles ficam tão impacientes, os pobrezinhos! - Sim senhora - murmurou Annabel com a boca cheia de alfinetes. - Uma questão de negócios? - Lucia repetiu, mais curiosa que nunca. - Você vai romper com Chesterfield? - Não esse tipo de negócio. - Francesca se virou na direção do espelho. - Ele quer falar comigo sobre uma questão legal. - Que questão legal? - Oh, não sei. Alguma coisa extremamente aborrecida, sem dúvida. - Ela fez um gesto em direção à porta. - Leve a carruagem
  35. 35. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 para Bond Street. Como eu vou cavalgar até o Hyde Park, não vou precisar dela. Vamos, agora. Lucia franziu as sobrancelhas, desconfiada. Os modos da mãe sem dúvida estavam estranhos. Parecia estar ansiosa para que a filha fosse embora. Ela se levantou e andou até a penteadeira, como quem não quer nada. Pegou o cartão antes que a mãe pudesse adivinhar sua intenção. - Sir Ian Moore - ela leu em voz alta. - Ian Moore. Já ouvi esse nome. - Franziu as sobrancelhas, tentando se lembrar de onde o conhecia. Olhou novamente para o cartão, leu o título e então entendeu. - Ele é o embaixador britânico que arranjou o casamento de Elena com um duque austríaco. O que ele está fazendo aqui? - Eu já disse, não sei. Chegou uma nota de alguém do Ministério das Relações Exteriores dizendo que ele viria me fazer uma visita breve e que eu deveria esperá-lo. - Ela fez um gesto em direção ao cartão. - Não posso me recusar a vê-lo. E um embaixador. - Elena nunca nem mesmo se encontrou com aquele duque, e está sendo forçada a se casar com ele para fortalecer alianças políticas. Ela está arrasada com a perspectiva. - E mesmo? - murmurou Francesca enquanto pegava um chapéu de veludo azul da penteadeira e o colocava na cabeça. - Não sei nada sobre isso. Você sabe como eu sou ruim em matéria de política. Lucia levantou os olhos e estudou o reflexo da mãe no espelho, observando Francesca ajeitar o chapéu em várias posições, em busca do ângulo mais favorável. Não lhe escapou que a mãe não a olhava nos olhos. Com uma súbita intuição, Lucia entendeu exatamente o que o embaixador britânico estava fazendo ali. - Eles estão tentando se livrar de mim com um casamento, não é isso? Do mesmo jeito que estão fazendo com Elena. - Ela via a verdade no rosto da mãe. - Ê isso?
  36. 36. Francesca suspirou, tirou o chapéu e o jogou, por cima da cabeça de Annabel, em uma cadeira. - Eu não queria que você soubesse de nada sobre isso até eu conversar pessoalmente com ele. - Mas é por isso que ele está aqui, não é? - O sangue de Lucia começou a ferver. - Ele está aqui para tratar da possibilidade de casar você, sim. Oh, minha querida - ela acrescentou com um suspiro enquanto estudava o rosto da filha -, você sempre quis um lar, casamento e bebês. Quando você era pequena, nem sei quantas vezes nós planejamos o seu casamento, e as bonecas eram os únicos brinquedos com que você queria brincar. Por favor, não me diga que aquele episódio com Armand fez você desistir do amor e que pretende ser uma solteirona, porque eu a conheço bem demais para acreditar nisso. Além disso, eu detestaria não ter netos. - É claro que eu quero me casar, mas não tenho nenhuma intenção de deixar que Cesare arranje casamento para mim! Eu pretendo escolher o meu próprio marido, e vou dizer isso a esse diplomatazinho melífluo e seboso, para que ele passe o recado adiante. - Com o cartão de visita apertado na mão, Lucia se virou e saiu em direção à porta. - Não faça nada precipitado - foi o apelo da mãe enquanto ela saía. - Moore é um embaixador poderoso. Ele tem uma influência enorme. Lembre-se do que eu sempre lhe disse. Com mel se pegam mais moscas que com vinagre. - Oh, serei doce como o mel - prometeu Lucia - quando eu o mandar para o inferno. - Ignorando o gemido irritado da mãe, Lucia desceu a escada em direção à sala de visitas.
  37. 37. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 Para Ian, seria de se esperar que Francesca, a mais notória das mulheres pouco respeitáveis da Inglaterra, tivesse uma casa digna da sua reputação extravagante. Nisso ele não poderia estar mais errado. A casa em que ela vivia era uma residência calma e discreta em Cavendish Square. O mordomo não poderia ser mais digno e impecável, e a sala de visita era elegante e completamente inglesa, decorada em azul-acinzentado e verde-salgueiro, com uma pastora de porcelana pintada sobre a cornija da lareira, uma paisagem de Turner na parede e um lindo tapete Axminster no chão. Tudo parecia ter como objetivo o conforto genuíno e não a ostentação. Naturalmente, era o toque de Chesterfield, atual protetor de Francesca e quem pagava as contas. Chesterfield era um sujeito muito convencional. A sala de visitas tinha uma bela coleção de livros, e Ian estava examinando os títulos quando o som de passos lhe chamou a atenção. Ele devolveu uma cópia da Ilíada de Homero ao seu lugar e se virou quando uma jovem parou à porta da sala. Ninguém a tomaria por uma moça inglesa, e Ian soube imedia- tamente que tinha diante de si Lucia Valenti. Como um lampejo, veio-lhe à mente a imagem da jovem correndo por um dos prados cobertos de papoulas da Itália, descalça e rindo, segurando as saias nas mãos e com o cabelo negro como a noite solto, esvoaçando como uma crina grossa e rebelde. Estranho, pensou ele, que a sua fantasia evocasse uma cena vivida como aquela, pois ele não era um homem dado a rasgos de imaginação. Mas havia ao redor dela uma aura de energia mal contida que a fazia parecer incrivelmente viva em contraste com a decoração britânica convencional que a rodeava. Ela era alta, cerca de dez centímetros apenas mais baixa que ele. Tinha pernas longas, cintura fina e curvas generosas - curvas
  38. 38. que o vestido decotado e de corpo justo ostentava muito favoravel- mente - sem dúvida, influência da mãe. De olhos escuros como chocolate e pele clara e macia como a espuma que recobre um cappuccino, não havia nada de beleza con- vencional nela. Não tinha aquela indefectível boquinha rosada em forma de botão de rosa que era então considerada um requisito in- dispensável numa mulher bonita. A boca era generosa, e os lábios, cheios e vermelhos como a polpa de uma cereja madura. Sem conseguir tirar os olhos daquela boca deliciosa, Ian pensava que nenhum homem que conhecesse aquela moça se importaria com os requisitos convencionais de beleza. As damas da sociedade iriam falar horrores a seu respeito, mas, para qualquer homem que não fosse cego, Lucia Valenti era o mais puro deleite. Ian respirou fundo. Dava para entender por que o pai a tinha trancado num convento.
  39. 39. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 Capítulo dois E le não era nem um pouco como ela havia imaginado. Enquanto descia a escada, Lucia pensou em Ian Moore como um sujeitinho melífluo com cara de doninha, do tipo que se derretia em charme e dizia frases meladas com o objetivo de acalmar o interlocutor, mas que não significavam nada. Ao ver o diplomata britânico de pé ao lado da estante, porém, ela parou abruptamente. Não era melífluo e não tinha nada de pequeno. Lucia era mais alta que muitos homens, mas não que aquele. Os ombros e o peito largos destacavam o caimento impecável do colete listrado e do paletó bege. Calças azul-escuras de talhe exato cobriam seus quadris magros e as longas pernas. A camisa de linho e o lenço de seda no pescoço eram de um branco impecável. Olhando para ele, Lucia teve um ímpeto quase irresistível de desarrumar o seu cabelo escuro perfeitamente penteado e desfazer o nó perfeito da gravata. Ele provavelmente não gostaria de nada disso, pensou ela ao entrar na sala. O traço duro no queixo sinalizava resolução e disciplina. Ele não teria paciência com esse tipo de brincadeira, o que tornava ainda mais tentador o impulso de desarrumá-lo. Ela teve
  40. 40. que admitir que ele era bem bonito para um inglês, e o seu ardente coração italiano não podia deixar de aprovar aquela esplêndida masculinidade. Mas ao olhar nos olhos dele, a aprovação feminina momentânea se evaporou imediatamente. Apesar de os cílios serem espessos e longos, os olhos em si eram uma tragédia. Olhos frios, de um cinza impessoal, que falavam de uma natureza frígida - olhos que a estudavam com uma impassibilidade que era quase um insulto. O que era ela, um espécime em um microscópio? Era uma grande pena que um homem assim tivesse olhos nos quais não se via um lampejo de paixão. - Sir Ian Moore - disse ele com o sotaque da elite inglesa. - Como tem passado, Miss Valenti? A menção ao nome dela - o nome que o pai finalmente fora forçado a lhe dar - era um lembrete do objetivo daquela visita. Ele se inclinou, e ela respondeu com uma mesura que não passava de um leve dobrar de joelhos. Lucia se dirigiu para um sofá de sarja azul e marfim, sentou-se e fez um gesto para que ele se sentasse na cadeira à sua frente. - Sei que o senhor veio ver minha mãe, mas ela não pode recebê- lo neste momento. O senhor terá que se contentar comigo. - Eu não descreveria a sua companhia como algo com que tenho que me contentar - disse ele, com a polidez do cargo. - Mas lamento que sua mãe não possa me receber. Tinham me informado que ela estaria aguardando a minha chegada. - Ela se esqueceu do senhor - Lucia teve o prazer de informá-lo. - A modista está ajustando ao corpo dela um novo traje de montaria, e qualquer pensamento sobre o senhor lhe fugiu da cabeça. - Perfeitamente compreensível quando uma mulher está com sua modista - disse ele com um sorriso encantador, mas que não chegou aos olhos frios. - Podemos esperar que ela se junte a nós?
  41. 41. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - Humm... - Lucia inclinou a cabeça, fazendo de conta que estava pensando no assunto. - Difícil saber. A modista está cos- turando as partes diretamente sobre o corpo dela. Essa é a única forma de fazer com que o traje fique suficientemente justo de forma a causar sensação, o senhor compreende. Um canto da boca dele se curvou para baixo só um pouquinho, em uma sugestão mínima da opinião que ele tinha sobre isso. - Entendo. Aquela censura à sua mamma, ainda que muito leve, deu a Lucia mais desejo ainda de alfinetá-lo. - Oh, meu Deus, creio que o cavalheiro desaprova - murmu- rou ela, afetando o sotaque britânico. Ela virou a cabeça para um lado, como se estivesse falando com uma terceira pessoa, e con- tinuou: - Totalmente inadequado que uma mulher use um traje desses em público. Ela tem corpo para isso, garanto-lhe, e isso faz com que fique ainda mais indecente. O senhor acha que ela está com roupa de baixo? Virando-se para o outro lado, ela continuou, como que res- pondendo: - Não é possível. Nua por baixo como no dia em que nas- ceu, aposto. Que combinação ou anágua caberia debaixo daquilo? - Diante da falta de reação de Sir Ian a essa zombaria, ela decidiu abandonar sua companhia imaginária e voltou a atenção para ele. - Por que o senhor desejava ver minha mãe? O motivo de praxe pelo qual os homens a visitam, suponho? - Eu vim ver as duas. - Nós duas? Ao mesmo tempo? - Ela deu o sorriso mais pro- vocante possível. - Nenhum homem jamais quis isso antes. Que homem mais pervertido é o senhor, Sir Ian, para fazer essa sugestão tão interessante...
  42. 42. Ele ficou tenso, e os ombros largos se curvaram quase imper- ceptivelmente. - Espero que a senhorita ache a minha sugestão interessante quando parar de fazer suposições e se inteirar sobre o assunto que me traz aqui. Lucia fez uma careta. - Julgando pelo seu semblante, duvido muito. Diga-me, o senhor é sempre assim tão arrogante? - E a senhorita é sempre assim tão impudente? - Temo que sim - disse ela sem se desculpar. - Especialmente com homens arrogantes. Como o senhor não vai me contar por que veio aqui, terei que adivinhar. - Ela pôs a mão no bolso da saia e tirou o cartão dele. - Sir Ian Moore - leu -, G. C. M. G. Embaixador de... - Ela parou e olhou para ele. - O que significam essas letras? - Sua Majestade, o rei, teve a benevolência de me conceder o títu- lo de cavaleiro, a Grande Cruz da Ordem de São Miguel e São Jorge. - Isso parece majestoso. Para justificar um visitante assim, devo ser mais importante para o meu pai do que eu pensava. - Ela levantou o cartão novamente e continuou: - Embaixador de Sua Majestade Britânica, o rei Guilherme IV Providenciador de alianças matrimoniais que não são da conta dele, destruidor da felicidade de princesas e pessoa que resolve os problemas inconvenientes dos príncipes. Ela piscou para ele e lhe deu um sorriso travesso. - Não tenho dúvida - continuou ela, enfiando o cartão dele entre os seios - de que eu sou o problema mais inconveniente do príncipe Cesare. Pelo menos, espero que sim. - Deixando apenas um cantinho de nada do cartão aparecendo, ela se recostou no sofá, observando a reação dele. Não houve nenhuma reação. A fisionomia impassível do di- plomata não mudou, mas a desaprovação pelas maneiras ousadas
  43. 43. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 MUITO MAIS QUE UMA PRINCESA dela em relação a ele estava bem clara. Ian Moore, concluiu ela, não tinha senso de humor. - Pelos títulos fictícios que a senhorita me conferiu, só posso concluir que a senhorita sabe que o propósito da minha visita aqui para a sua mãe não é o "motivo de praxe" - disse ele. Antes de ela poder responder, ele continuou: - Mas a senhorita está certa ao supor que vim aqui a pedido do seu pai, o príncipe Cesare. E tam- bém por ordem do meu governo. Tinham final chegado ao centro da questão. Estava na hora de falar a sério. - Ah, os ingleses também se intrometeram neste caso. - O seu pai ordenou que a senhorita se case e pediu a assistência do meu governo para encontrar um marido britânico para a senhorita. Fui designado para a tarefa de fazer isso e de negociar os termos do acordo do seu casamento. Lucia pensou em todas as vezes em que fora jogada de um lugar para outro. - Sì - disse ela com um gesto de cabeça. - Agora que eu não posso mais ser escondida em alguma escola, convento ou palácio, ele tem que se livrar de mim por meio de um casamento. - Lamento que a senhorita veja a questão sob uma luz tão desfavorável. - Mas de que outra forma eu poderia vê-la? - Antes que ele pudesse responder, ela continuou: - E incompreensível, eu sei, mas não vejo necessidade de me casar simplesmente para poupar meu pai de qualquer constrangimento. - A maior parte das jovens está ansiosa para se casar. - E verdade - concordou ela. - E a maioria de nós tem a estranha idéia de que deveríamos escolher os nossos próprios cônjuges e não aceitar que eles sejam selecionados para nós por diplomatas.
  44. 44. - A senhorita é filha de um príncipe. Ilegítima e, portanto, sem o título, mas, não obstante, de sangue real. O seu pai a reconheceu publicamente como filha... - Apenas porque, ao me dar o seu nome, ele pode me usar como um peão na política internacional. Agora, parece que eu sou suficientemente importante para ter o meu próprio casamenteiro. - E esse reconhecimento - continuou ele, como se ela não tivesse dito nada - implica que a senhorita tem determinados deveres. Um desses deveres é se casar bem e adequadamente. Lucia ficou de pelo em pé ao ouvir isso. - E os deveres do meu pai em relação a mim? Cesare me es- condeu como a um segredo sórdido, terminando por me pôr em um convento. As freiras me batiam. O meu quarto não tinha janelas. - Ela tremeu. - Havia ratos. - O seu pai lamenta profundamente essa ação. - Aposto que sim. Agora que eu estou fora do alcance dele. Alguma coisa se agitou naqueles olhos frios, talvez impaciência. - Minha jovem, a senhorita não estará nunca fora do alcance dele. O fato de eu estar aqui é prova disso. Se o príncipe Cesare pedisse que o meu governo entregasse a senhorita a ele, nós o faríamos imediatamente, e os homens da Guarda Escocesa estariam aqui para escoltá-la até o próximo navio. Mas seu pai decidiu que arranjar um casamento para a senhorita é o melhor caminho, e, no interesse da aliança, prefere um cavalheiro britânico. - E se eu não tiver a mesma preferência? - Lamento que as ordens que recebi de lhe encontrar um marido não incluam levar em consideração as suas preferências, Miss Valenti. Mas a senhorita tem a garantia de que será um católico.
  45. 45. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 A religião dele não a preocupava. Se o pai dela e esse diplomata achavam que ela ia se casar com um homem escolhido por eles e não por ela mesma, estavam redondamente enganados. Ela não era Elena, e não aceitava intimidação. - Que alívio saber que um homem está encarregado do meu futuro - murmurou ela, pressionando a mão contra a testa. - A pressão de escolher o meu próprio parceiro de casamento poderia se provar um esforço grande demais para a minha pobre e confusa mente feminina. Quem é o feliz noivo? - Não tenho em mente ninguém específico por enquanto, mas ele será um nobre, um cavalheiro de boa linhagem, com histórico e conexões impecáveis. Além disso... - E o amor? Ele nem piscou. - A minha mais sincera esperança é que a senhorita desenvol- va uma afeição por qualquer cavalheiro que seja escolhido para a senhorita. Era uma resposta tão absurda que ela sentiu vontade de rir, mas a conduta séria do homem que estava à sua frente deixou claro que não se tratava de uma piada. - Eu não perguntei sobre afeição - disse ela. - Eu perguntei sobre amor. - O amor de verdade leva tempo para se desenvolver, e nós não podemos nos dar a esse luxo. Já estamos em meados de junho, e o seu pai chegará a Londres para uma visita estatal em agosto. As minhas or- dens são para ter um parceiro para se casar com a senhorita até a chega- da dele, um parceiro adequado e que deseje se casar com a senhorita. Chocada, Lucia só conseguia olhar fixamente para ele. - Seis semanas? Como posso encontrar um homem e me com prometer a me casar com ele nas próximas seis semanas?
  46. 46. - Dada a sua situação, o tempo é essencial. Os desejos do seu pai são claros. Além disso, tenho deveres em outros lugares, e a senhorita... - Eu devo ser empurrada às pressas para o matrimônio de forma a não interferir com a programação do meu pai e os deveres do senhor? Ele a encarou com olhos frios e duros como o aço. - Não, a senhorita está sendo empurrada às pressas para o matrimônio devido ao seu próprio comportamento indiscreto, que poderia ter arruinado não apenas a senhorita, mas também a sua meia-irmã. Aquilo doeu, principalmente porque ela não poderia negar. Lucia apertou os lábios e não disse nada. - A notícia da sua façanha com a princesa Elena já apareceu em um jornal italiano especializado em escândalos - continuou ele. - É inevitável que a notícia acabe chegando aqui. Esperamos que as suas imprudências passadas, inclusive a sua ligação com um ferreiro francês, não venham à luz. Era inútil explicar para aquele homem que ela havia amado Armand. Ele não entenderia. Ela apostava que ele nunca tinha se apaixonado em toda a vida. - Aonde o senhor quer chegar? - Os rumores têm a infeliz tendência de crescer e se alimentar até não sobrar nem sombra de verdade. A única forma de isso não ter importância é a senhorita se casar o mais rapidamente possível, e se casar bem. Seu pai está oferecendo um generoso dote e uma renda anual para a senhorita e seus filhos, o que ajuda. Além disso, estamos em plena temporada de verão em Londres, o que quer dizer que há muitos cavalheiros convenientes na cidade que poderão ter a oportunidade de conhecê-la.
  47. 47. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 A cada palavra que ele dizia impassivelmente, Lucia sentia a sua ira crescer. - Não estou para ser exibida diante de uma platéia de homens enquanto o senhor escolhe um suficientemente desesperado e ga- nancioso o bastante para me tomar das mãos do meu pai pelo preço de um dote e uma renda! Eu... - Ela se interrompeu, sufocada pela raiva e pela humilhação. Engoliu com dificuldade, tentando recu- perar a compostura, mas era impossível. - Eu não estou para ser vendida, nem mesmo doada. Nenhum homem tem que ser pago para me levar embora. Não é de admirar que o senhor só precise de seis semanas. Nem um músculo se moveu no rosto do homem. Lucia concluiu que ele não era exatamente humano. Feito de mármore, talvez, mas, definitivamente, não era humano. - Percebo o seu ressentimento, e ele é compreensível - disse ele. - Entretanto, a senhorita será exibida em qualquer lugar. Antes de aceitar uma aliança, qualquer homem vai querer passar algum tempo com a senhora e conhecê-la. Não é raro que uma jovem leve um dote e uma renda para o casamento. E, quanto à questão do tempo, nós já discutimos isso. As exigências do seu pai são claras... - Cesare nunca se importou comigo. Vi meu pai umas seis vezes em toda a minha vida. Quem é ele para dizer que eu devo me casar? E quem é o senhor para ser o seu ministro da aliança? O que dá a qualquer um dos senhores o direito de me dar ordens ou de controlar a minha vida? Sir Ian olhou para ela com a expressão paciente de um adulto que tolera um acesso de raiva de uma criança petulante, o que só serviu para enfurecê-la ainda mais. - Enquanto a senhorita trava conhecimento com um cava- lheiro adequado - disse ele com uma calma enfurecedora -, eu farei
  48. 48. o que puder para conter o dano e evitar que a sua reputação seja maculada aqui na Grã-Bretanha. Entretanto, de agora em diante, a senhorita deve ter um comportamento impecável. Dada a sua ilegitimidade, a sua mãe e o seu passado, se a senhorita fizer mais alguma coisa para prejudicar ainda mais a sua reputação, talvez nem mesmo eu consiga salvá-la. - O que seria uma tragédia. Mais uma vez, um sinal de impaciência desfigurou a fisionomia macia e polida do diplomata. - Minha jovem, a senhorita não entende a gravidade das cir- cunstâncias? A sua reputação está à beira do colapso. A senhorita corre o perigo de que a vergonha caia sobre a sua pessoa, a casa do seu pai e o seu país. Eu a aconselho a se comportar. Isso está claro? Mãe de Deus, ali estava mais uma pessoa para lhe dar ordens, controlá-la, moldá-la, restringi-la. Ela não poderia simplesmente viver a sua própria vida? - Como poderia não estar claro? - disse ela, com um sorriso zombeteiro. - O senhor explica tudo tão diplomaticamente... O sarcasmo dela foi ignorado. - Ótimo. Então, ainda há a questão da sua mãe a ser discutida. O sorriso que Lucia havia colado no rosto desapareceu ime- diatamente. Ela teve um mau pressentimento, sabendo que estava prestes a ouvir declarações mais horríveis ainda sobre a sua vida e o seu futuro. Como se o que ela já ouvira não fosse suficientemente insultante. - O que tem a minha mãe? - A senhorita não pode continuar vivendo com ela. Tomarei as providências para que se hospede com pessoas adequadas... Ela se empertigou toda no sofá.
  49. 49. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - O quê? - A senhorita precisa perceber que não pode continuar debaixo do teto da sua mãe. Este é um ambiente inaceitável para qualquer jovem que está para ser apresentada à sociedade inglesa. Não tenho dúvida de que sua mãe concorda comigo. De qualquer forma, a senhorita vai romper todos os laços com a sua mãe... - Não farei uma coisa dessas! - A senhorita tem que fazê-lo. O seu marido vai exigir que a senhorita o faça, de qualquer forma. - Qualquer homem que se case comigo tem que aceitar a minha mãe. É simples assim. - Não, não é simples assim. A sua devoção à sua mãe é admirável - disse ele parecendo não estar nem um pouco admirado —, mas nenhum cavalheiro britânico vai tolerar isso. Só o fato de a senhorita estar vivendo com Francesca já é suficientemente ruim, mas cada momento que a senhorita continuar a residir com ela prejudica mais a sua reputação. Lucia se perguntou o que aconteceria com a reputação dela se ela esbofeteasse o rosto do mais famoso embaixador britânico. Ela cruzou os braços, apertou os dentes e não disse nada. Ele suspirou fundo, observando-a. - Miss Valenti - disse ele diante do silêncio de Lucia -, é extremamente inapropriado que eu, como um cavalheiro, fale dessas questões com a senhorita, mas temo ser obrigado a fazê- lo. A sua mãe está sob a proteção de Lorde Chesterfield, um homem com quem ela não é casada. É ele quem paga por esta casa. A sua mãe é uma mulher de má reputação, e não é aceita na sociedade. Nenhum cavalheiro vai se casar com uma jovem que mantém convivência com uma cortesã, mesmo que a cortesã seja sua mãe.
  50. 50. - Eu não me casarei com um homem que não aceite a minha mãe - disse ela através dos dentes cerrados. - Eu não poderia nun ca amar um homem assim. O sorriso de escárnio dele foi a última gota. Lucia ficou de pé de um salto. - Isso mesmo, amor. É uma coisa muito inconveniente para os pais e os diplomatas, não é? Mas é assim mesmo. Ele vai me amar o suficiente para aceitar a minha mãe, ou eu não vou me casar com ele. Ele também se levantou. - As minhas ordens são de retirar a senhorita desta casa tão logo consiga tomar as providências adequadas para que fique em outro lugar. Quanto ao amor, já discutimos isso. Casar por amor é um luxo a que as pessoas de linhagem real raramente podem se dar. A senhorita sem dúvida não pode. - O senhor está errado. Posso me dar ao luxo de me casar por amor. E também posso esperar quanto for preciso para encontrar esse amor. Nesse meio tempo, posso viver em conforto razoável. Minha mãe, a cortesã pecaminosa de quem o senhor fala com tanto menosprezo, é boa na sua profissão o suficiente para me sustentar muito bem. Não farei um casamento sem amor por causa do meu pai ou do senhor. E dane-se a minha reputação! - A senhorita não pode nem pensar em desafiar o seu pai. A senhorita tem que se casar. - Estou totalmente disposta a fazer isso. Escreva ao meu pai, Sir Ian, e lhe diga que eu me casarei quando encontrar um homem que eu ame e que me ame. E essa é uma tarefa que eu sou perfeitamente capaz de realizar sem qualquer ajuda do senhor! Com isso, ela se virou e saiu da sala, batendo com força a porta atrás de si. Ian Moore, um diplomata? Se esse homem odioso era um diplomata, o mundo corria grande perigo.
  51. 51. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 Ao chegar à plataforma entre os dois lances de escada, Lucia se virou e parou. Dali ela podia ver a entrada para a sala refletida no espelho da parede. Esperou até ver Ian Moore descer os degraus e sair. Satisfeita com o fato de aquele homem horrível finalmente ter ido embora, ela subiu para o segundo andar. Francesca saía do quarto dela, já totalmente costurada dentro do seu traje de montaria escandalosamente justo. - Não se dê ao trabalho de descer, mamma - disse Lucia ao passar. - Ele foi embora. - Sem esperar para falar comigo? - Francesca se virou e seguiu Lucia. - O que você disse a ele? - O que qualquer mulher de bom senso diria - disse ela sobre o ombro, entrando no seu próprio quarto. - Agradeço a sua oferta de me encontrar um marido, mas posso encontrá-lo sem a sua assistência, muito obrigada. Agora vá embora. - Oh, Lucia! - gemeu Francesca, fechando a porta do quarto atrás das duas. - Eu disse para você ser gentil. - Não me faça sermão, mamma. Isso em parte é culpa sua. A senhora deveria ter me dito que ele viria aqui e por quê. - Eu queria falar com ele primeiro e saber quais são exatamente os planos do seu pai para você. - Case-se o mais rapidamente possível. Isso é tudo. - E o seu pai tem em mente algum homem em particular? - Não. Esse Sir Ian é quem vai escolher. Um cavalheiro, claro, um homem rico e de bom berço, com um histórico e conexões impecáveis. Católico, claro. - Ainda fervendo, Lucia começou a andar de um lado para outro em frente à cama. - A senhora deveria tê-lo ouvido, mamma. Ele falava como se encontrar um marido fosse como escolher um cavalo. Humm... bons dentes, forte e sadio, excelente linhagem... sim, esse serve. Chame o padre.
  52. 52. Francesca riu. - Oh, minha querida! Estou certa que ele não pretendia sugerir nada assim. - Ah, pretendia sim. Cesare chega em agosto, e eu tenho que ficar noiva até lá com o cavalheiro adequado que Sir Ian conseguir encontrar, qualquer que seja ele. Eu tenho escolha? Os meus desejos são levados em consideração? Não! Um homem está sendo pago para me levar. Nunca me senti tão humilhada. Ela parou de andar de um lado para outro e se sentou na beira da cama. - Homem insuportável. Tão frio, tão arrogante! Tão inglês! - Ela virou a cabeça para a mãe, que se sentou ao seu lado. - Ele tem ordens de Cesare de me tirar desta casa, de forma que eu fique com pessoas adequadas. - Uma ação perfeitamente compreensível. E sensata. - Ah, não. A senhora também? Eu não vou, mamma. - Você não pode ficar aqui para sempre. - Francesca deu um pequeno sorriso, estendendo a mão e ajeitando para trás um cacho de cabelo que caía no rosto de Lucia. - Minha querida, desde que você chegou à minha porta, há um mês, eu me pergunto o que fazer com você. Quando Cesare se casou e me deixou de lado, eu o fiz prometer solenemente que ele iria tomar conta de você, porque eu não teria condições de fazê-lo. Você não podia viver comigo então, e não é bom que viva comigo agora. -Mas... - Preste atenção, Lucia. Eu senti muito a sua falta enquan- to você crescia, podendo ver você na escola na França apenas algumas vezes por ano. Lamento não ter podido ficar mais com você.
  53. 53. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - Não era sua culpa - Lucia disse, enfurecida. - Quando eu era criança, eu não podia viver com a senhora. Eu entendo isso. Sempre entendi. Mas agora... - Agora não é diferente. Está sendo uma grande alegria ter você aqui comigo e eu tenho sido egoísta, mas o embaixador tem razão. Viver aqui está prejudicando a sua reputação de moça. - Eu não me importo com isso. - Eu me importo. Você é uma mulher crescida, e a reputação de uma mulher é tudo. Eu sei disso por experiência própria. Minhas imprudências me tornaram socialmente inaceitável, os meus pais me repudiaram e eu tive que deixar a cidade em que vivia. Fui para Ná- poles e me tornei uma mulher mundana porque estava arruinada e nenhum homem se casaria comigo. - Ela fez uma pausa e então con- tinuou: - Fico angustiada de ver você indo pelo mesmo caminho. Havia um toque de censura na voz da mãe, e isso a feriu. Lucia mordeu o lábio e olhou para o outro lado. - Eu compreendo você muito bem, Lucia - continuou Fran- cesca. - Você se irrita com as regras, especialmente as regras do seu pai. Mas o que aconteceu em Bolgheri pode perseguir você para sempre, a não ser que Sir Ian consiga evitá-lo. Se ele conseguir que você fique com pessoas respeitáveis e lhe proporcionar ligações de valor, suas imprudências passadas não vão importar. Ela se voltou, desanimada, em busca do olhar da mãe. - A senhora está me mandando embora, então? - Eu não vou forçar você. - Ela deu um sorriso triste para Lu- cia. - Se eu fosse uma boa mãe, forçaria, mas eu não sou uma boa mãe, pois não sou severa, não penso seriamente e sem dúvida não sou um bom exemplo moral. - A senhora é a mãe mais maravilhosa do mundo. - Ela ficou observando Francesca balançar a cabeça e reprimiu qualquer nega-
  54. 54. tiva possível da mãe. - É sim, mamma. E sabe por quê? A senhora é a única pessoa que me ama e me aceita do jeito que eu sou. - É claro que eu amo você. É por isso que eu a aconselho a ir de boa vontade. Como eu disse, não vou forçar você, mas Cesare pode fazer isso quando bem entender. Eu lutaria por você, mas perderia. - Eles vão me forçar a casar, e eu não posso dizer nada, não tenho voz. Eu não quero que escolham o meu marido por mim! - Há formas de contornar isso. Uma mulher sempre pode escolher. Faça a sua escolha e faça com que Sir Ian e seu pai pensem que foi deles. - Mas eu quero um marido que me ame, mamma. Como eu vou encontrar um homem que me ame em apenas seis semanas? A mãe sorriu um pouco e acariciou o rosto dela. - Qualquer homem que não se apaixone por você à primeira vista, minha linda menina, é cego ou idiota. Os lábios de Lucia se contorceram em um sorriso. - A senhora é suspeita para dizer isso, mamma. - Talvez, mas eu conheço os homens. Eles vão fazer filas à sua porta. - Sir Ian diz que qualquer cavalheiro inglês que me ame ou não exigirá que eu rompa todas as relações com a senhora. Eu me recusei a isso. - Minha leal filha! Aconteça o que acontecer, eu nunca vou repudiar você, Lucia, mas acho que você deve me repudiar. Pelo menos por enquanto. Depois que você se casar, veremos. - E se eu não gostar das pessoas com quem tenho que ficar? - perguntou ela procurando um último argumento. - E se elas forem horríveis comigo? - Elas não podem ser piores que as freiras.
  55. 55. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 Lucia começou a argumentar mais, mas Francesca pôs um dedo nos lábios dela, detendo o fluxo de protestos. - Estou pedindo que você tire o máximo proveito dessa opor- tunidade - disse-lhe a mãe. - Vá aos bailes e festas, conheça jovens, faça amizades, aproveite o resto da estação com pessoas respeitá- veis e se divirta. Quem sabe o que vai acontecer? Lucia suspirou. - Detesto não ter poder sobre a minha própria vida. - Não ter poder? O que faz você pensar uma coisa dessas? Meu amor, você tem armas tremendas. Você tem beleza, tem cérebro e tem um coração doce e amoroso. Quando uma mulher tem tudo isso, são os homens que não têm poder. A primeira coisa que você deve fazer é conseguir que Sir Ian fique do seu lado. Você tem muito charme, Lucia, muito magnetismo. Use isso para persuadir Sir Ian a permitir que você escolha com quem vai se casar. A idéia de cativar Sir Ian era quase intolerável. Lucia gemeu. - Não há outro jeito? - Temo que não. Ela suspirou e apoiou a cabeça no ombro da mãe, resignando-se ao inevitável. - Está bem, mamma. Eu vou, se é o que a senhora quer. Ela levantou a cabeça e fez uma carranca, ainda tentando defender as suas convicções. - Mas não vou ficar com pessoas que sejam horríveis para mim ou me tratem com desprezo. - Estou certa de que Sir Ian vai concordar com isso. - E não vou me casar com um homem só para ser respeitável, aliviar a consciência de Cesare e cumprir o dever de Sir Ian. - Claro que não.
  56. 56. - Só vou me casar se estiver apaixonada por meu futuro marido, e ele por mim. - Entendo. - E é melhor ele estar apaixonado por mim o suficiente para aceitar e respeitar a minha mãe - acrescentou ela, concluindo. - Espero que sim. - Esperança não vem ao caso, mamma. E assim que vai ser. Eu só tenho que fazer Ian Moore ver as coisas do meu jeito. Francesca se levantou. - Mel e não vinagre, minha querida. Lembre-se disso. - Mamma, eu vou sufocar aquele homem de tanto mel. Com um pouco de sorte, ele se afoga.
  57. 57. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 Capítulo três - C asar por amor? - Ian balançou a cabeça, sem poder acreditar, andando de um lado para outro em frente à lareira da biblioteca do seu irmão. - Com toda a confusão em que ela se meteu e com apenas seis semanas para encontrar um marido, ela espera se casar por amor. Me diga: isso não é um absurdo? - Absurdo, realmente. - Dylan Moore se recostou na poltrona e deu um gole no seu conhaque. - Não é nem um pouco razoável que uma jovem tenha essa expectativa. O tom de ironia na voz do irmão não escapou a Ian, e ele olhou Dylan com impaciência, sem parar de andar de um lado para outro. - É pouco razoável. Ela é filha de um príncipe e não filha de um pequeno comerciante. E a reputação dela está gravemente prejudicada. Será que ela não entende isso? - Tenho certeza de que você explicou direitinho para ela. - Como se tivesse adiantado alguma coisa! - Ian virou-se e começou a cruzar o tapete em frente à lareira mais uma vez. - Ela realmente pensa que o príncipe Cesare vai colocar as noções românticas dela acima da política internacional?
  58. 58. - A maioria das jovens não se importa nem um pouco com a política internacional. Desconcertante, eu sei, mas é assim que é. - Levando em consideração o comportamento passado dela, suponho que eu não deveria ter esperado que ela considerasse essa questão com bom senso e juízo, mas ela está apenas prejudicando a si mesma ao ignorar sua posição e o seu lugar no mundo. Sendo ilegítima, ela não é uma princesa, mas ainda assim tem um dever para com a Casa de Bolgheri. O príncipe Cesare está determinado a casá-la. Ela não pode ter a menor esperança de desafiar os desejos do pai. Dylan riu. - Você fala como um homem que não tem filhas. Se a minha Isabel servir de referência, os desejos dos pais não importam muito. Ian não conseguia achar graça como o irmão. - Isso não vai ser fácil, meu caro. Nobres britânicos católicos são uma mercadoria rara. - Mas também são raras as mulheres católicas adequadas para se casar com eles - Dylan contrapôs, demonstrando despreocupação pelas dificuldades enfrentadas por Ian. - Aonde quer que essa moça vá, o escândalo vai atrás - continuou Ian. - E se a sua religião, a sua reputação maculada e a sua rebeldia não fossem causa suficiente para preocupação, existe ainda a questão da mãe dela. Com essas palavras, ele sentiu que precisava de um trago. Ca- minhou a passos largos até o armário de bebidas. - A Casa de Bolgheri é uma aliança de valor - disse ele, en- chendo um copo de vinho do Porto para si. - E existe o fato de que ela traz consigo uma enorme renda. Diante disso, posso convencer um nobre católico adequado e com riqueza própria a se casar com Miss Valenti, apesar das imprudências cometidas por ela, mas a
  59. 59. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 questão da mãe torna tudo muito mais difícil. Ela teria que romper todo contato com a mulher, algo que se recusa veementemente a fazer. Na verdade, ela exige que o seu futuro marido concorde em aceitar Francesca como parte da sua família. Aceitar uma notória cortesã na família? Meu Deus, que idéia! - Deixaria as coisas diabolicamente difíceis de manejar nas reuniões de família - concordou Dylan. - Você, que sabe tudo so- bre o protocolo correto, me responda: um lorde deve convidar a sua sogra de má reputação moral para os batizados dos seus filhos? Ian não estava nem um pouco inclinado a entrar no clima de gracinhas sarcásticas do irmão. - Com os diabos, Dylan, você não pode levar alguma coisa a sério uma vez na vida? - Ele voltou a se dirigir à lareira e recomeçou a andar de um lado para outro, pensando em voz alta. - Depois que ela estiver casada, o marido que cuide dela e da questão da mãe como achar melhor. Mas até lá, a relação dela com Francesca é problema meu. Eu não quero separar a moça da mãe pela força, mas parece que serei obrigado a fazê-lo. - Não é a coisa mais diplomática a fazer. - Não, mas diante da rebeldia dela, talvez eu não tenha opção. Cada momento que ela continua vivendo com a mãe a prejudica ainda mais e torna a minha tarefa mais difícil. Se eu quiser cumprir o meu dever, tenho primeiro que providenciar que ela seja aceita na sociedade, e isso significa que ela não pode ficar na casa de Francesca. - Então, o que você vai fazer com ela? - Esse é o ponto crucial. Assumir o encargo de tomar conta de uma jovem é uma responsabilidade enorme. Dadas as atividades passadas da moça, vai ser preciso muita persuasão para que alguma senhora assuma essa responsabilidade. Se a moça se
  60. 60. meter em alguma encrenca, a chaperon dela também será alvo de críticas. - Você vai encontrar alguém, tenho certeza. - Suponho que sim, mas não tenho muito tempo. E a moça não está com disposição de cooperar. - E você pode culpá-la por isso? - Eu esperava que ela enfrentasse os fatos e tivesse bom senso. Mas, pelo contrário, ela alternou impertinência, exigência e rebeldia. Não esperava nem um pouco que uma jovem de boa linhagem se comportasse daquele jeito. - Isso é realmente tão surpreendente, diante da forma autocrática com que você tentou impor tudo isso a ela? - Eu não sou autocrático. Nem tento impor nada. - Ian viu Dylan levantar uma sobrancelha, revelando suas dúvidas quanto a isso, mas prosseguiu: - Como eu lhe disse, o tempo é curto, e eu apresentei a ela sua verdadeira situação de maneira direta e franca. Em troca, não recebi nada que não fosse desaforo e ressentimento. Com vinte e dois anos, ela deveria ter desenvolvido um pouco de seriedade, mas nada disso. A moça sente um descaso inacreditável em relação à sua virtude, sua posição, seu dever e seu futuro. - Ele andou de um lado para outro do tapete mais uma vez. - Por quê? - perguntou-se ele, resmungando. - Por que os italianos sempre têm que ser tão problemáticos? - Não é porque ela é italiana - disse Dylan, e sua voz traía o seu divertimento com a situação. - É o fato de ela ser uma mulher que está irritando você. Essas palavras fizeram Ian parar abruptamente a sua caminhada pelo tapete. A imagem do seu cartão sendo enfiado na fenda do corpete de Miss Valenti lhe ocorreu como um relâmpago. Ele tomou mais um gole de vinho do Porto. - Não sei o que você quer dizer. Não sei do que você está falando.
  61. 61. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - Baseando-me no que você descreveu, você discutiu essa si- tuação com ela nos seus termos. Relações internacionais, ramificações políticas, dever, honra. - E daí? - O que tudo isso importa a ela? Do ponto de vista dela, eis que surge do nada um homem que ela nunca viu e que, em nome do pai dela, despeja regras sobre a vida e o futuro dela, conversando como se ela fosse um problema inconveniente de que ele quer se desobrigar o mais rapidamente possível. Não admira que ela tenha ficado ressentida. Qualquer mulher ficaria. Isso era a pura verdade, e Ian sabia disso. Ele olhou para o irmão mais novo, assumindo a sua postura mais digna. - Parece que eu fiz um pequeno erro de cálculo diplomático. - Para dizer o mínimo. O que você tinha na cabeça, o que estava pensando? Ele não tinha pensado em nada a não ser em ficar livre daquele problema menor. - Não vou repetir esse erro, garanto a você. Quando eu me encontrar novamente com a jovem, pretendo aplicar a primeira regra da diplomacia. - Qual é? - Conseguir o que você quer fazendo a pessoa pensar que está conseguindo o que ela quer. - Perfeito. Apenas se lembre de que você não está negociando um acordo comercial com Portugal. - Dylan tomou um trago de conhaque. - Se você quer o meu conselho... - Não quero. - Nunca se esqueça de que ela é uma mulher. A memória das curvas generosas de Lucia Valenti e de sua boca vermelha como cereja ainda estava bem viva na cabeça de
  62. 62. Ian. Esquecer que ela era uma mulher? Ele virou o resto do vinho do Porto. Nem um pouco provável. Na manhã seguinte, Lucia não se surpreendeu ao receber uma nota de Sir Ian, dizendo que ele lhe faria uma visita naquela tarde, que detestaria lhe causar qualquer inconveniência, mas manifestando a fervente esperança, nas suas palavras, de que ela estaria disponível para recebê-lo. Uma nota muito diplomática, mas, no meio de todas as frases delicadas, ele mencionava casualmente o relatório que estava escrevendo para o pai dela sobre a situação. Lucia ficou batendo a nota contra a palma da mão, pensando no quer iria fazer a seguir. Ela iria cooperar com os planos do pai, mas nos seus próprios termos, e isso significava encontrar um homem que a amasse. O amor não poderia ser forçado, de forma que a única opção dela era aceitar o conselho da mãe, ficar com pessoas respeitáveis, ir a festas, encontrar-se com homens jovens e se divertir. Nesse ínterim, talvez o amor a encontrasse. Uma coisa que não faria de jeito nenhum era parar de ver a mãe. Ela pretendia visitar mamma sempre que quisesse. Isso significava encontrar uma chaperon que ela pudesse driblar. Sir Ian simplesmente teria que ver a situação do jeito dela. Ele podia ser ditatorial, arrogante e de coração frio, mas con- tinuava a ser um homem. Doce como o mel, lembrou a si mesma naquela tarde, quando o nome dele foi anunciado e ele entrou na sala de visitas. - Excelência - disse ela, cumprimentando-o com uma mesura muito mais respeitosa do que na última vez. Ela se sentou e indicou o lugar à sua frente para que ele se sentasse. - Miss Valenti - disse ele ao se sentar na poltrona que lhe fora oferecida. - Temo que tenhamos tido um péssimo início ontem, e gostaria muito de remediar isso.
  63. 63. Trazido a você pela comunidade do Orkut: Digitalizações de livros http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232 - Eu também. - Um pouco de adulação, pensou ela. Se agisse como uma moça ligeiramente desorientada, porém arrependida, e sutilmente o fizesse sentir-se importante, ela controlaria a situação. Lucia sorriu para ele. - Sir Ian, eu também sinto isso. Não sei o que deu em mim ontem. Sem dúvida o senhor e eu podemos encontrar formas de fazer concessões e chegar a um acordo. - Estou certo de que sim. - Ele fez uma pausa e depois disse: - Talvez devamos começar com a discussão sobre onde a senhorita vai viver até o fim da temporada. A senhorita já pensou nisso? Perfeito, pensou ela. - Sim, sim. Refletindo melhor, sei que o senhor tinha razão em grande parte do que disse. Percebi que a casa da minha mãe não é o lugar apropriado para eu ficar. - Ela abriu as mãos em um gesto de quem pede por compreensão. - Eu amo a minha mãe, e tive pouca oportunidade de visitá-la nesses anos todos. Sinto uma forte resistência em deixá-la. Ele se inclinou para a frente, ansioso em aceitar o ponto de vista dela. - Certamente. A sua afeição pela sua mãe e a sua relutância em se separar dela são compreensíveis. A senhorita é uma mulher de coração amoroso. Lucia pôs a mão sobre aquele coração amoroso, bem consciente do que aquele gesto acentuava. Afinal de contas, para conseguir as coisas do seu jeito, uma mulher tinha que usar as armas de que dispunha da forma mais eficiente possível. Quando os cílios de Sir Ian abaixaram um pouquinho, ela se agarrou à esperança de que ele estivesse avaliando duas das suas melhores armas. - Para mim, é difícil deixar mamma e passar a morar com es- tranhos - continuou ela -, mas percebo que tenho que fazer isso. O primeiro passo, então, é determinar com quem eu posso ficar.

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