Aluga se um noivo - clara de assis

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Aluga se um noivo - clara de assis

  1. 1. Aluga-se um noivo.
  2. 2. 1. — Me diz por que estamos fazendo isso, mesmo? — Porque, meu irmão, vai se casar com a Luiza. — Tem certeza de que é a melhor alternativa? — Carol, você não é obrigada a me acompanhar. — Tá maluca?? E perder toda a diversão?? Atravessamos a Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro super apressadas, o sinal já piscava indicando que nosso tempo estava acabando. Entramos no prédio na rua do Ouvidor, conforme indicado pela agência, quinto andar, respirei fundo e toquei a campainha, arrumei a saia lápis preta e a blusa bege, a porta abriu, meu queixo foi no chão. — Ammm.... Desculpa, toquei por engano. Saímos do prédio rindo tanto que foi necessário que nos apoiássemos na parede para gargalharmos um pouco mais. — Meu Deus o que era aquilo, Débora?! Tem certeza de que era o lugar certo? — Tá aqui no e-mail, olha o endereço. — Carolina deu uma olhada no papel entre uma fungada e uma respirada profunda para se recompor. 1 — Tem razão, mas tipo, impossível! Realmente, impossível, o homem que nos atendeu usava uma cueca de elefantinho, com aquela “ tromba” pendurada, ele era estranho, com uma cara de sono, barba por fazer... Sem chance! — Vamos tomar um café antes de voltarmos para o trabalho. — Desiste dessa loucura amiga... — Nem pensar! Não posso dar esse gostinho ao João! Carolina, eu sou a irmã do noivo! — E o João seu ex namorado! — Correção, meu ex namorado e padrinho do meu irmão! Não acredito que o Junior fez isso comigo. — É.... chamar seu ex e a atual pra padrinhos foi mesmo... — Carol fechou
  3. 3. os dedos num círculo aberto, sim, foi um cu! — Vamos naquele café na rua do Carmo. — Ah não, muito longe! — odeio a preguiça dela! — Vamos aqui mesmo na livraria que dá no mesmo. Amo trabalhar no centro do Rio de Janeiro, existe tanta opção pra tudo! Que... sei lá, amo! Entramos na gigantesca livraria na rua do Ouvidor mesmo, havia uma fila de espera, nada muito grande, umas cinco pessoas na frente, Carol fez o que sempre faz, disfarçou e foi furar fila, parando no balcão, isso me mata de vergonha! Mas não serei hipócrita, finjo que não vejo e aceito os jeitinhos que ela dá pra tudo. Enquanto ela esperava pelo pedido, estava na cara que iria demorar um pouco, afinal às 13horas, num dia nublado, todos os trabalhadores de bom senso estavam em busca de um café, e bom, fui zanzar um pouco, estava vendo as novidades quando me interessei por um exemplar com um tigre azul na capa, parecia promissor... lembro que pensei em comprar, mas depois... hmmm a fila do 2 caixa estava enorme, coloquei-o de volta na prateleira e dei meia volta, alguém deu meia volta também e nos esbarramos feio! O cara pediu desculpas, eu pedi desculpas e nos olhamos, ele sorriu, fiquei meio sem graça, caralho que gato! Olhos castanhos, cabelos castanhos, nariz perfeito, eu amo nariz, afinal fica no meio da cara! Olhei para os lábios dele, foi tão rápido, mas ele me deixou ver seu sorriso, lindo. Depois disso se afastou com um livro. Não sei o que me deu, peguei o primeiro exemplar que minha mão alcançou
  4. 4. e fui o seguindo, disfarçando, Carol acenava pra mim, e fiz que não com a cabeça, ele entrou na fila que havia diminuído consideravelmente, estiquei os olhos, entortei o rosto, fingi que estava procurando uma revista na prateleira que segue até o caixa e finalmente ele mudou a posição do livro e pude ver que estava para comprar Grande Sertão Veredas. Primeiro pensamento “ hmmm... culto.” Nada de mais, ele pagou com cartão de crédito, segui dois caixas depois e paguei, ele foi embora eu voltei para o café. Carol me olhava com um baita sorriso e uma expressão de safada que eu conhecia muito bem. — Deixa eu ver. — ela puxou a sacola e tirou o livro — O quê?? "Meu primeiro livro de culinária"?? — não se furtou em cair na gargalhada, chamando a atenção de muitos. Fiquei com a cara no chão! — Débora, quem é esse homem que te fez gastar...R$39,90 num livro de culinária infantil? — Não sei. Ah Carol! Nem sei o que me deu, foi meio que um... — jogava meu corpo pra frente — ... um impulso, louco! — Você é louca. Gente, devia ser uma coisinha esse homem... — Gato. Muito. — E você nem puxou assunto com ele? Uma fila daquelas? — Ah! Nem lembrei, estava mais interessada em ver o livro que ele pegou. — Qual foi? 3 — Grandes Sertões Veredas. — Hmmm.... culto. — Porra!!! — agora fui eu quem fez vergonha falando um palavrão em alto e bom som — Foi isso que eu pensei! Exatamente isso! — praticamente sussurrei. Bebemos nosso café e fomos embora, ainda haviam muitos contratos para serem analisados e eu não tinha patrão, tinha chefe, o cara era um escroto, narcisista filho da puta, mas não vou mais falar dele, já gastei algumas
  5. 5. linhas só de lembrar dele e não vale a pena, sério, não vale. Aquela semana foi louca, procurei em vários anúncios, mas nenhum se enquadrou no meu perfil ideal, começava a achar que eu não tinha um perfil ideal. Fiquei repassando mentalmente a péssima quinta-feira. Carol estava comigo o tempo todo, e fazia cada careta... Entrevistamos cinco caras, no meu apartamento, o que fez minha melhor amiga ficar super nervosa, mas eu iria encontrar com eles aonde? Na lanchonete da esquina?? O primeiro era muito mais baixo que eu, até era legal, mas não ia rolar... O segundo só falava espanhol, então, não. O terceiro era lindo, charmoso e.... tinha um tique nervoso de ficar passando o dedo na língua, nem pensar! O quarto tinha pinta de viado. O quinto ficou mais interessado na Carol que em mim, ele mal me olhou! Suspirei fundo, isso não estava indo nada bem e o casamento era pra poucos meses. Merda! 4 Finalmente consegui dormir, mal, um frio da porra no meu apartamento. Acordei de mal humor, o chuveiro demorou pra esquentar, me atrasei com o café... sabe dia que começa estranho? Foi aquela sexta-feira. Começou e seguiu na estranheza. Meu chefe dando esporro em todo mundo, falando da porcaria do time de futebol dele, ah! Que inferno! Discussão acalorada com um fornecedor, almoço trocado, Meu Deus que dia!!! Pra completar, o desgraçado do Otílio, o chefe escroto, deixou uma pilha do tamanho do Everest de documentos de seguro de vida atrasados pra minha amiga resolver, então obviamente que dali ela não sairia tão cedo, e se não fosse um cara chamado Seth, com quem marquei pra conhecer, sem dúvida ficaria com ela,
  6. 6. ajudando. Ao menos Seth era pontual, e bonitão, com umas entradas no cabelo, mas no geral era legal e educado, usava um perfume barato, mas sabia falar de muita coisa. O nome dele na verdade era Setembrino, não consegui evitar a risada, ele não ligou muito de eu estar rindo, acabamos marcando para o sábado, assim a Carol poderia conhece-lo e validar. * Inacreditável! Sábado quase nove da noite e nada do cara aparecer, ligou dizendo que a mãe dele estava com apendicite! — E agora, Débora? — Sei lá, acho que vou procurar na internet. — Tá louca?? Pode aparecer um sequestrador, um estuprador, um assaltante! — Relaxa, Carol! Vamos olhar... sem compromisso... — Ainda acho que deveria ligar pra agência de acompanhantes... Puxei o notebook e digitei no site de busca garoto de programa, ficamos passando umas fotos, até que meu olho bateu num sem rosto, tirou a foto com o celular, pegando uma parte do queixo, o tronco super bem definido e uma parte de seu membro. 5 Carol e eu nos olhamos ao mesmo tempo. — Debby, olha isso, amiga! — Tô olhando mas não tô crendo, ah... isso deve ser photoshop. — Essa coisa tem a espessura de que? Uma lata de Coca-Cola? — E não adianta nada se tiver o tamanho da lata também... — mostrei a mão fazendo sinal de pequeno. — E que diferença faz? Você não vai transar com ele! — O que você acha? Na mesma hora Carol abriu um sorriso enorme e arregalou os olhos.
  7. 7. — Liga ué. Aqui, — ela me passou o celular dela — usa o meu que tem identificação bloqueada. Liguei para o número, não atendeu. Liguei mais duas vezes, nada. — Tenta mais uma vez, de repente ele tá em "atendimento". — Carol falou com tamanho deboche que começamos a rir. — Tá legal, última vez, senão a gente procura outro. — A gente, não querida, você. Não sou eu quem cismou em alugar um namorado só pra aparecer acompanhada na frente do ex. — Até parece que você não conhece o João... — Ah! Liga logo pro gostosão da foto. Liguei, ele atendeu no segundo toque. — Alô? 6 Gaguejei. — É... oi... é... eu.. é... — Quer marcar um programa. — ele perguntou ou afirmou? — É. — minha voz saiu quase que um pedido de desculpas! — Mulher ou homem? — Mu-mulher... mulher! Pude sentir que ele sorria do outro lado da linha, meu Deus que ódio de mim! — Tá, uma mulher... várias mulheres... só mulher... — Só eu. — São cento e vinte a hora, vaginal, a posição que você escolher, não faço chuva de cor nenhuma, dourada, negra, e não aceito isso também, nada com sangue, crianças, animais ou árvores... — Crianças?? Árvores?? Ele continuou com as condições e precisei interrompe-lo. — Moço. Moço! — ele se calou — Sou só eu, sem vaginal, oral ou anal. — ele ria do outro lado da linha, uma risada gostosa, Carolina segurava a boca, até então não havia tido nenhuma conversa assim, na agência era diferente, só precisei dizer que queria um acompanhante para um fim de semana
  8. 8. prolongado e pronto! — Isso é trote, moça? Se for, não ligue, não posso ficar ocupando essa linha com besteiras e... — É sério! Só preciso de um acompanhante. Ele ficou mudo. Será que estava pensando? — Certo... onde podemos nos encontrar? — Anota o endereço. 7 Passei meu endereço a ele enquanto Carol ficava gesticulando que era louca, pra não fazer isso. Mas eu fiz! E depois fiquei morrendo de medo! Foram mais de um século pra ele chegar, na eternidade de quarenta e cinco minutos, meu coração estava saindo pela boca! Carol resolveu manter um spray de inseticida à mão, afinal de contas, a gente não tinha spray de pimenta nem gás lacrimogênio! A campainha tocou, Carol se levantou num pulo e olhou pelo olho mágico, se virou pra mim, com uma cara insana, a boca se abrindo aos poucos até formar um O, estava eufórica, se abanava com uma das mãos e a outra no peito. Fui até a porta, ele tocou novamente a campainha, olhei pelo olho mágico, mas ele estava apoiado na porta, cabeça baixa, só vi seus cabelos repicados. Franzi o cenho, Carol foi para o sofá, do lado oposto ao que havia escondido o spray de inseticida. Respirei fundo e abri a porta. O cara levantou o rosto e eu congelei. Ao mesmo tempo que minhas pernas tremeram. Ele sorriu, fazendo que não com a cabeça, umedeceu os lábios com a língua e voltou a sorrir de lado. O cara da livraria. 8
  9. 9. 2. Fiquei tão sem ação que ele levantou as sobrancelhas, esperando que eu dissesse algo, como não disse, fiquei feito uma retardada na porta, Carol veio em meu socorro, me puxou de leve para um lado e o convidou pra entrar. Senti o ar sair dos meus pulmões. Eu estava prendendo a respiração???? Que ridícula!!! Espera! O cara culto da livraria era um garoto de programa??? Meu Deus! Esse mundo tá perdido! — Oi, me chamo Carol, essa é a Débora. Senta aí. — Carol indicou o sofá e ele sentou justamente onde ela havia escondido o spray. Ele se recostou e sentiu algo o incomodando, puxou a lata de inseticida e fez uma cara de “ eu hein”, deixou a lata no chão, ao lado dele e ficamos super sem graça. Estava tão bem vestido, uma calça social cinza matizada, sapato social preto, camisa polo da Lacoste preta, relógio de prata, quando passou por mim senti um cheiro bom, tinha quase certeza de que era um perfume Giorgio Armani, mas sei lá, estava tão desorientada de ver o cara ali que me perdi nos pensamentos. Me sentei na poltrona de frente pra ele, Carol no sofá, mas na outra ponta. Ele ficou com pena da gente e começou a falar, parecia que era ele quem estava nos contratando! — Podem me chamar de Théo. Então meninas, qual de vocês precisa dos meus serviços? Levantei a mão meio envergonhada, Deus!!!! Voltei pra sexta série! — Tá, é... Bárbara... — Débora. — corrigi. Que mania que as pessoas tinham de trocar meu nome por Bárbara, nada a ver! 9 — Tá legal, desculpe, Débora. Quando você disse sem vaginal, oral ou anal,
  10. 10. o que tinha em mente? Ir em algum evento com você? É isso? — Isso. — E, você não tem namorado? — ele parecia incrédulo, enquanto gesticulava, era tão desenvolto... — Nnnnão. — Eu já vi que essa conversa vai ser longa. Posso? — ele indicou o pequeno bar que tinha próximo a televisão. Fiz que sim com a cabeça e ele foi lá, se servir, como se estivesse em casa! Carol abriu a boca mais uma vez e abriu as mãos também, fazendo mímica, “ nota dez” mexeu os lábios. — Débora, toma alguma coisa comigo? — ele estava me oferendo minhas bebidas?? — Carol? — ela fez que não, ele me olhou esperando eu responder. — Uma tequila. — eu estava aceitando??!! Ai meu coração tinha que parar de pular daquele jeito! Ele se serviu de uma dose de Absolut e misturou com alguma outra coisa, voltou com os copos, me entregou um, agradeci e ele os bateu num brinde mudo. Voltou a se sentar, visivelmente mais relaxado, de pernas cruzadas. — Que tipo de evento é? — Meu namorado vai casar com o padrinho do meu ex irmão... Théo virou o rosto confuso e Carol deu uma gargalhada, só então percebi as asneiras que estava falando. Segurei a boca e arregalei os olhos, que desastre! — O irmão dela vai casar, e o ex namorado vai ser o padrinho, mas ele está namorando uma moça linda, que foi nossa amiga de faculdade. — Mas ela não se formou! — precisava dizer aquilo! — Tá bem... Por quanto tempo vai precisar de mim? 10 — O casamento vai ser no feriado em Setembro. — Carol continuou respondendo por mim. — Mas tem tempo daqui lá. Débora. — ele me chamou. — É que haverá uns eventos, ensaio de casamento, coquetéis, chá de panela e... e... seria estranho... — Se você aparecesse no dia casamento, do nada com um namorado. —
  11. 11. ele pega as coisas rápido. — É. Ele deu um sorriso aberto, lindo. — Gosto desse seu “ é”. Olhei pra Carol e ela envergava a boca pra baixo, um sinal de afirmativo surgia discretamente em sua mão direita, escondidinho dele. — Escuta, Débora, a gente não se esbarrou na livraria na terça-feira, acho? — É. — outra vez esse maldito “ é”, mais parece um pedido de desculpas! Droga! — Você é o cara da livraria? — Carol estava boquiaberta — Tá explicado! — O que? O que tá explicado? — ele olhava curioso pra ela, que me olhava e eu fazendo que não, ele me olhou e olhou de volta pra Carol, os olhos se apertando um pouco, a cabeça levemente inclinada... Espera aí! Ele estava seduzindo minha amiga? — Ela comprou um livro qualquer só pra ir pra fila atrás de você. — ela falou! Falou? Quase cuspiu a frase inteira! — Jura, Débora? — Senhor!!! Cadê um buraco pra eu me enfiar??!! — Pensei que só quisesse ver o meu livro. Agora minha boca abriu de vez. Ele percebeu! Que merda do caralho! — Eu... eu... — bebi a tequila de uma vez! 11 — Como não perceberia, você estava “ lendo” uma revista de ponta cabeça. — escondo meu rosto em uma das mãos — Por isso deixei você matar sua curiosidade, claro, depois de ficar brincando um pouco com seus contorcionismos. Ele ria livremente da minha cara, estava absolutamente à vontade, que homem é esse?? Ele mordeu o lábio antes de continuar falando. — Mas achei bonitinho. Eu ri um sorriso amarelo. Então ele olhou no relógio, suspendeu as sobrancelhas e se levantou, instintivamente me levantei também. Théo deixou o copo no bar e se dirigiu à porta. Pelo menos consegui ir até ele e abrir a porta.
  12. 12. — Carol, prazer em conhece-la. Débora, como no seu caso não tem sexo, são trezentos Reais por dia ou obviamente cento e cinquenta por meio período de evento, você tem meu telefone, se resolver alguma coisa. Se aproximou de mim, era bem mais alto que eu, cheiroso demais, segurou no meu queixo me olhando nos olhos, pensei que fosse me beijar, meu coração pulando feito louco no peito! Fechei os olhos. Théo se inclinou, deixou um beijo em minha bochecha pegando uma pontinha ínfima dos meus lábios, senti meu ventre contrair no mesmo instante. — Tchau. — Tchau. — ele se foi, fechei a porta. Carolina me olhava com as mãos tapando a boca aberta. Arrastei meu corpo até o sofá e me sentei. O cheiro dele ficou na almofada, fechei os olhos inalando. — Esse cara, não é de agência, não sabemos nada sobre ele, mas se você não ficar com ele, juro que fico! Dou meu salário inteiro na mão dele! — Nem sei o que dizer. 12 — Amiga! Pelo amor de Deus! Esse cara é tudo! Não só combina com você como põe o João no chinelo! E a Letícia, aquela ladra de namorados, vai se rasgar inteira! — Me comportei como uma maluca! Como uma colegial boba! — Tá muito explicado porque comprou aquele livro de culinária infantil. Gente que homem! Seguro, com atitude, liiiiindo, e se ele tiver aquilo que estava no site... — Para Carol! Não vou dormir com ele! Não vou! — Só se você for trouxa... — Me tira uma dúvida, na hora em que ele foi pegar a bebida, por acaso você estava mesmo manjando o pau dele ou foi impressão minha? Carol deu uma risada e se jogou pra trás no sofá. — Vamos sair?! Essa noite tá pedindo uma saída!
  13. 13. — Carol... — Vamos! Nós saímos, foi ótimo, dançamos, cantamos e bebemos, foda foi voltar pra casa sozinha. Fiquei um par de tempo olhando o teto, as sombras ocasionadas eventualmente pelo farol dos carros que passavam. Théo, seria só isso mesmo ou de repente Theodoro? Ou algum nome estranhíssimo? Théo. Adormeci com ele nos pensamentos. E não eram nem oito e meia da manhã de domingo quando resolvi ligar de uma vez. Uma voz pra lá de sonolenta atendeu, puta que pariu acordei o cara! Desliguei. 13 Ele retornou. Atendi. Fiquei muda. Senti que ele sorria, dá pra saber quando a pessoa está rindo! — É você, Débora? — É. Amm... Oi. 14
  14. 14. 3. Senti a cor sumir do meu rosto. Micão! Precisava achar um motivo por ligar no domingo cedo! Ouvi Théo bocejar e se espreguiçar, ele ainda estava rindo, que bom saber que meu constrangimento o divertia! — Desculpe ligar tão cedo no domingo, tenho certeza de que o acordei, desculpe. — pronto, agora me pus a matraquear... aff... — É que fiquei com uma dúvida, na verdade a gente não acertou nada, mas é que quanto sai... é... quanto custa você?... Digo... — ele estava rindo! Rindo e rindo de mim! — Quanto fica com beijos? — pronto falei! — Beijos. Que tipo de beijos? — Como assim que tipo de beijos? — minha mão estava tremendo, Jesus Cristo, que absurdo. — Ora, Débora, que tipo de beijos? Selinhos, beijos simples de boca aberta e sem língua, beijo de língua... ou... o meu beijo. — Como assim, seu beijo? Você por acaso tem um beijo?? — agora ele estava tirando uma com a minha cara. — Patenteado. — Tá de sacanagem comigo?! — Bem que gostaria de estar... Fiquei muda e gelada, senti um arrepio estranho, calma Débora, deixa de ser tão carente! Mas a verdade é que estava há quase um ano me contentando com um vibrador de clitóris que a essa altura não estava prestando pra porra nenhuma! — Théo, de quanto é o acréscimo por beijo seja lá qual for? — tentei ser o mais profissional possível, afinal era uma gestora contratual! Como assim que de repente desaprendi a falar com um fornecedor? Ele suspirou — Não vou cobrar pelos beijos, nenhum deles, entre a ponta dos fios de seu cabelos até o busto e da ponta dos seus pés até o alto de suas
  15. 15. coxas, tá bem assim? 15 — Tá bem assim, obrigada pela informação e desculpe mais uma vez pela hora. — Era só isso? — É. — Mais que merda, caralho!!! Novamente aquele "É" que mais parece uma desculpa! — Ai...ai... — ele se recuperava de uma boa risada — E quando vai precisar de mim? Tenho que fazer a agenda do mês. Agenda do mês? Meu Pai celeste, nunca imaginei que esse pessoal tinha agenda! Ah! Que ignorância! Claro que eles tem agenda, pra saber com quem e quando! — Semana que vem vou me encontrar com umas amigas na quinta-feira, pra um Chopp, elas são as madrinhas do casamento, a noiva também vai estar lá. — E o que quer que eu faça? — Eu... não sei. — Tá, já vi que é a primeira vez que contrata um serviço desses. Manda uma mensagem com o endereço de onde estiver que eu vejo o que posso fazer por você. Quinta que vem?!... — ouvi uns barulhinhos de gemido, os pelinhos da minha nuca se arrepiaram. Ele continuou com o barulhinho, era algo como hmmm... — O que... o que você tá fazendo? — Hmm’anotando. — será que ele pode por favor Senhor, ser menos sensual? — certo Dona Débora. Qualquer coisa me avise. Tchau. — Tchau. Ele desligou e corri para minha gaveta de calcinhas, isso estava me deixando fora da realidade, totalmente! Depois de aliviar a tensão daquele homem gostoso gemendo no meu ouvido pelo telefone, fui tomar um banho, frio pra ver se abaixava a temperatura. 16 A verdade é que não estava certa de que ele era o cara ideal pra essa
  16. 16. missão, Théo era muito homem, aonde por acaso ia dizer que o conheci? Não havia pensado nisso! Será que digo que foi na academia? Assim justifica aquele corpo maravilhoso que ele tem... Mas minhas amigas sabiam que eu mal pisava em uma academia. Que trabalha comigo também não, será que ele sabia falar sobre administração de empresas? Ah! Deveria sim, afinal ele administrava a empresa dele né?! Passei o domingo pensando no assunto, mas nada que me impedisse de viver. Carol e eu fomos ao cinema, adoro ir ao cinema em dia de domingo, infelizmente ou felizmente ela acabou encontrando uma “ ex amiga” da época da faculdade e fiquei meio que sobrando, de vela. A bissexualidade de Carol sempre foi o que mais me orgulho nela, nos conhecíamos desde... sei lá, desde sempre, morávamos no mesmo prédio, brincamos juntas, estudamos juntas, fizemos recuperação juntas, faculdade, muita coisa com aquela magricela maluca. Éramos muito amigas e muito parceiras também, fui uma das primeiras a saber que ela estava se interessando também por meninas, na mesma época que ela acobertava minhas saídas pra namorar escondido. Conhecemos Letícia na faculdade, passamos a ser três amigas, até que entrei no banheiro da boate em que estávamos e vi o João, meu ex comendo ela por trás, a saia dela parecia um cinto atado na cintura, ele com a calça jeans pela metade da coxa. Sabe qual foi a pior parte? Já havia bebido todas e mais um pouco, me virei no primeiro vaso que encontrei livre e menos sujo e comecei a vomitar, de cachaça nas ideias, de nojo deles, de raiva, de susto, e quem segurou meu cabelo foi ela, e
  17. 17. foi ele quem apoiou meu corpo pra eu não cair de cara no vaso, tamanha minha tontura alcoólica! Fiquei ouvindo os dois se explicarem na semana seguinte, imagina só, ter de ouvir do meu namorado de quase quatro anos que ele e minha amiga estavam apaixonados, ela dizendo que não foi por querer, ele que Letícia era a mulher de sua vida, e ambos me agradecendo por tê-los apresentado. 17 Deveria ter arrebentado os dois de porrada, deveria ter tocado fogo neles! Mas ouvi tudo calada, sufocando um bolo enorme na garganta, prendendo os lábios nos dentes enquanto meu corpo tremia inteiro de ódio. Fiquei sentada de braços cruzados enquanto eles acabavam comigo. Carol voltava de uma má sucedida campanha amorosa com essa ex dela que encontramos no cinema, e nos acabamos de tanto beber caipirinha. Mas isso tudo aconteceu há muito tempo... mentira, faria um ano naquele mês de junho. Inferno. Segunda-feira chata, terça-feira ótima, meu chefe resolveu nos presentear com sua ausência, quarta-feira tediosa e quinta-feira de quebra pau, sumiu um documento importante, procuramos em tudo quanto foi arquivo e nada, sobrou na pasta somente a cópia, que não tinha validade legal nenhuma! Daria uma enrabação geral, sem dúvida! Mas sabe quando respirei aliviada? Quando dei a primeira golada no meu Chopp. Tipo, amanhã a gente vê a merda que vai dar. Meu rosto paralisou no meio da segunda rodada quando vi aquela vadia da Leticia chegando com a Luiza, minha cunhada. E a cachorra estava linda, de calça de couro marrom e blusa vermelha. Ai que ódio que me deu por estar de calça social preta e blusa de um ombro só branca coberta por um terninho. Carol me olhou preocupada, mas fui super educada.
  18. 18. Geovana, Amélia e Sara também me olharam, mas sorri de volta e vi Amélia fazer mímica de “ fica calma”. Não pensei duas vezes em mandar o endereço do barzinho para o Théo. Não comi nada, não queria ter que mastigar, acho que não suportaria, fiquei bebendo e bebendo e bebendo até ficar entre aquele estágio de estou bêbada mas levemente consciente. 18 Minhas amigas riam muito com as coisas que dizia e estava falando sério e elas rindo, Letícia também ria e fazia a linha de “ não tem nada de errado aqui”, vadia. De repente, elas pararam, ficaram sérias. Carol abriu um sorriso desses que mostra todos os dentes, e eu lá falando merda atrás de merda. Foi quando senti um par de braços fortes em volta do meu corpo, o perfume Armani e me virei pra olhar, seu rosto já colado ao meu e me beijou, selou nossos lábios e praticamente forçou que abrisse a boca para que me invadisse com sua língua macia sabor hortelã. Não ouvi mais nada. Então me soltou, ainda mantendo a menor distância possível entre nossos rostos. — Oi, amor. — Oi. — não sei se respondi direito ou se sussurrei. Ele se afastou e se pôs ereto, estava de terno e gravata, e não era um desses de lojinha não, ele estava com um terno de marca, bem cortado e bem caro pelo visto, mas tinha alguma coisa de diferente, os cabelos estavam claros. — Oi Carol. — ele cumprimentou. — Oi Théo. As meninas olhavam pra ele com a boca entreaberta, Letícia piscava o olho sem parar, Carol sorrindo deu mais um longo gole de Chopp. — Amor, por que não me falou que viria pra cá? — sua voz era segura e suave ao mesmo tempo. Me segurou a mão me pondo de pé diante dele. Precisava embarcar na dele!
  19. 19. — Desculpa, pensei que ficaria no trabalho até tarde. — Não, sai ainda agora, por sorte passei por aqui e te vi. Théo se inclinou e me deu um selinho. — Deixa te apresentar minhas amigas! — ele me olhava com um estranho divertimento no olhar, deve ter pensado que agiria como das outras vezes, uma 19 pateta! — Luiza, a noiva do meu irmão, já te falei dela, Letícia, Amélia, Sara e Geovana, Carol você já conhece. — Boa noite, senhoritas. Elas só faltaram derreter! Até mesmo Luiza! Também... quem usa “ senhorita”, hoje em dia? O cumprimentaram e antes que começasse a chuva de perguntas nos afastamos delas. — Você veio! Você veio! — segurei em seu rosto, feliz da vida! — Claro que vim, você me mandou o endereço, lembra? — É, mas não achei que viria! Ah! Sei lá o que achei! — Você tá chapadinha né?! — Só um pouquinho — indiquei com o dedo. — Deixa ver se é só um pouquinho mesmo. Théo me puxou para um abraço apertado e não recuei, passei os braços em torno de seu pescoço e ele abaixou o rosto para me beijar mas não beijou, ficou brincando, me fazendo buscar pelos seus lábios enquanto ele recuava, sorrindo, e me dava acesso e quando avançava, me negava, minha vez de sorrir e ele tocou meu lábios com sua língua, senti um calafrio na espinha. Théo tomou minha boca, deslizando sua língua em meus dentes antes de encontrar a minha e puxa-la nos lábios, meu corpo inteiro entrou em combustão. Depois um beijo de língua normal e uma mordida no meu pescoço logo abaixo do lóbulo de minha orelha. Naquele instante pude ver que as meninas não
  20. 20. tiravam os olhos de nós e Letícia ainda estava boquiaberta. Théo continuou brincando com meu pescoço, me arrepiando inteira. — Agora é um bom momento pra sairmos daqui. — Também acho. — respondi revirando os olhos. — Me dá um minuto. 20 Théo arrumou os cabelos e se afastou para dentro do bar. Enquanto isso fui me arrastando das nuvens até a mesa. — Débora, quem é esse homem? — Luiza estava se roendo de curiosidade. — Hmmm... — fiquei fazendo charme. — Carol não quis contar! — agora era a vez de Geovana se morder de curiosidade. — É... meu... Théo me interrompeu puxando pela minha cintura, me fazendo girar em meu eixo e me beijou mais uma vez. — Meninas, as rodadas anteriores foram por minha conta. — Ah! Como assim? — Carol olhava espantada. — Como assim que agora vou levar a minha garota de vocês. Minha garota? Gente, quem fala isso? Minha garota? Me despedi rapidinho com um tchau bobo com a mão apressada e fui praticamente arrastada aos risos e gargalhadas, e como dois amantes apaixonados fomos embora. No estacionamento do Edifício garagem Théo se aproximou do Hyundai Sonata preto e as portas se destravaram. 21 — Esse carro é seu ou você alugou só pra me buscar? — É meu. Entra. — Pra onde a gente vai? — Para o seu apartamento. — Ah não... Você me tirou no melhor do Chopp... — Você já está bem chapadinha, Débora. Precisa se controlar ou pode acabar soltando a língua. — Você é um chato! Lindo de morrer, mas um chato! Ele riu mais uma vez de mim! Balançando a cabeça. Não me lembro de muita coisa depois disso, só uns momentos em flash,
  21. 21. lembro dele ter aberto minha bolsa, mais beijos, o rosto dele sobre o meu, como se estivesse olhando um anjo descendo do céu. E... e... não lembro. * Acordei com o despertador do celular, abri os olhos com uma preguiça horrível! E uma dor de cabeça de lascar! Aí me dei conta de que estava em casa, estava mesmo em casa, na minha cama, enrolada no lençol feito um casulo, e estava nua! Ai meu Deus! O que aconteceu? Minha roupa estava dobrada em cima da cômoda. Foi espontâneo, passei a mão entre minhas pernas e estava um pouco úmida. Mas que caralho eu fiz??? 22
  22. 22. 4. Primeira coisa depois do banho e foda-se que eram seis da manhã! Ligar para o Théo. Mas o filho da puta deixou o telefone desligado! Desgraçado! Ai, minha cabeça doía tanto! Acho que bebi muito além do que supunha. Encontrei com Carol no elevador do prédio em que trabalhávamos no Centro do Rio, estávamos ambas com um copo de café em punho e óculos escuros pra cobrir a vergonhosa ressaca. — E aí? Deu? — Bom dia pra você também, Carolina. — Bom dia é o caralho, ele te comeu ou não? — Não... sei. — Como é? Ouvi direito? — Não sei, tá legal? Não sei! — Tá me zuando né? — Ah antes estivesse... — passei a mão nos cabelos, estava aflita. — Que perigo, Débora! Descemos no nosso andar e andamos em silêncio até nossas mesas. — E você acha que eu não sei? Tô aqui em pânico!! — gritava em sussurro, tentando conter meus maiores medos. — Esse pessoal pode ter Aids! Gonorreia! Sifilis! HPV... — ela também gritava em um sussurro abafado — Já entendi Carol! — minha voz saiu um pouco mais alta que o planejado — Já entendi porra! — E a gente nem pensou em pedir um teste desses de DST! 23 — A gente? Eu, você quer dizer! Além do mais nenhuma de nós duas pensou em mais nada depois que ele entrou lá no meu apartamento! — Lembra que você disse que ele perguntou se era pra fazer com homem ou mulher? Então... Ai amiga, que merda! Que merda! — Que cu! Tô fudida! Pior que acordei nua! — Que merda! Que merda! — Com a xereca molhada — praticamente fiz mímica pra dizer aquilo.
  23. 23. — Que merda do caralho! E agora? Já tentou falar com ele? — Claro! E só escuto aquela vagabunda dizendo que minha chamada será encaminhada para a caixa de mensagens! — E estará sujeito a cobranças após o sinal... — Carol completou fazendo graça com a minha desgraça — E tá faltando alguma coisa na sua casa? — Não! Tudo ok. — respirei fundo, apavorada — Não sei o que fazer! — Liga agora pro laboratório e pede um exame completo de urgência! — Sem a prescrição médica? — Alooow! — Carol mostrou um papel de Atestado de Saúde Ocupacional. Foi exatamente o que fiz, politicamente incorreta, utilizei um dos contratos com um laboratório e fui fazer o exame, próximo ao primeiro local onde nos encontramos, na rua do Ouvidor, confesso que fiquei andando meio que procurando por ele, mas é óbvio que não o encontrei. Assim que pisei fora do laboratório meu celular tocou. Atendi de imediato. — Théo! — Nossa! Bom dia! Quanta saudade... — ele estava sendo sarcástico! — Théo, pelo amor de Deus o que aconteceu? — Como assim o que aconteceu? — ele parecia ofendido! 24 Ai que merda! Ele me comeu e o pior é que eu nem lembro! — O que aconteceu com.... a gente... Ele deu um tempo do outro lado, o que me deixou ainda mais nervosa. — Débora, você usa pílula? — O que??? — tenho plena consciência de que dei um grito no meio da Avenida Rio Branco — Perguntei se usa pílula, afinal você está no seu período fértil. — Como assim eu tô no meu período fértil? Seu maluco! Você... você... er... dentro? Mentalmente e no meio de toda aquela confusão de pensamentos, fiquei tentando lembrar de uma farmácia próxima! Pílula do dia seguinte! Finalmente ele teve dó e se pôs a rir com vontade! — Fica calma, é brincadeira. — Que parte? Foi fora pelo menos? Você usou camisinha? A gente... — Débora. Débora! Não aconteceu nada.
  24. 24. Me deu um alívio imediato, senti meu corpo flutuar e de repente bater com tudo no chão ilusório dos meus pensamentos. — Por que não aconteceu nada? Se acordei nua! Por acaso eu sou indesejável? — Não mesmo... Foi deveras um esforço sobre humano não enfiar a pica na sua boceta. — ui! Primeiro ele fala todo polido pra depois mandar esse linguajar chulo. — Então... por que... por que... — Nós temos um acordo comercial, senhorita, não um encontro romântico. — sabe balde de água fria? — Portanto, seria no mínimo ante ético da minha parte usufruir do seu maravilhoso corpo por puro prazer, meu prazer, já que a senhorita estava praticamente morta. 25 — Não aconteceu nada. — constatei num misto de surpresa, tranquilidade e contraditoriamente inquietação e frustração. — Não mesmo. Mas pensando muito sobre o assunto, lembrei-me de algo imprescindível, um exame de sangue, estou à caminho do laboratório resolver esta questão, espero que faça o mesmo. Para o caso da senhorita aditar nosso contrato com novas cláusulas. — Engraçado, o senhor, falar disso, pois foi exatamente o que acabei de fazer! — atravessei a rua quando o sinal fechou para os carros. — Excelente. — Excelente. — remedei o jeito dele falar. — Não se esqueça dos meus cento e cinquenta. Mandei um sms com a agência e conta em que deve depositar o valor, pelo que vi na sua carteira, é o mesmo banco. Faça a transferência ainda hoje, para que possamos prosseguir com nosso acordo. — Sem dúvida farei. Dá pra acreditar nisso? Esse cara é muito louco mesmo!
  25. 25. Me joguei na cadeira de rodízio e ouvi as rodinhas da cadeira de Carol deslizando pelo carpete. — Que cara é essa? — Théo ligou. — Ai meu Deus, vocês fizeram? Ele tem alguma doença? Você tá grávida! — Para de falar besteira! Não aconteceu nada. — É? Por que não? — Seria “ ante ético”. — Vixi! Amiga, esse cara é um profissional do sexo e leva isso muito a sério. — Percebi. 26 — Mas você não parece muito contente com isso. — Ah! Sei lá... — Débora você tá apaixonada pelo Théo? Apaixonada pelo Théo... apaixonada pelo... apaixo... — Não! Tá maluca! — Olha nos meus olhos! Nos encaramos, eu com cara de tédio, ela me examinando como se fosse um médico oftalmologista. — Que porra... Você tá apaixonada — de repente começou a sussurrar meio irritada — Você tá apaixonada por um garoto de programa! Sua louca! Não pode! Você tá cheirada?! — Eu não tô apaixonada por ele! — sussurrei de volta Nosso chefe apareceu e fomos deslizando suavemente para baixo da mesa, fingindo arrumar os fios do computador. — Débora! Admite! Você está sim a fim do Théo! — Não tô! Foi só um beijo! — Você tá sim e foi de antes do beijo! Muito antes! Aquilo foi estranho, meu coração martelando enquanto eu me sentia um nada perto da Carol. Me apaixonar por um garoto de programas? Isso não funciona! Saímos de debaixo da mesa pra parar debaixo dos pés do nosso chefe que nos fez de tapetinho por causa do documento desaparecido! Que ódio! A
  26. 26. culpa nem foi nossa! E nessas horas ninguém assume o feito, pelo contrário. Caraca, prioridade número um, arrumar um novo emprego, que aquele cara já estava dando no saco! 27 Théo mandou o sms com os dados bancários de uma empresa e eu depositei, fiz questão de mandar o comprovante por mensagem. Ele agradeceu. Passei a noite como de costume, sozinha olhando as sombras se formarem no vai e vem do farol dos carros. Desejando que ele estivesse comigo, minha mente só formava sua imagem, e não conseguia esquecer dos seus beijos, nenhum deles. “ Para o caso da senhorita aditar... ” Ele sabia exatamente do que estava falando, ninguém sai por aí falando em aditar cláusulas contratuais... Naquele instante dei um salto da cama e liguei o notebook, uma ideia absurda passou pela minha cabeça, mas sei lá! Como um prostituto iria comprar um carro daqueles? Do ano? Por que a agência e conta não eram pessoa física e sim jurídica? Alguns minutos depois estava no site da Junta Comercial do Rio de Janeiro pedindo a verificação dos dados da empresa, com o CNPJ que apareceu pela transferência. Galáctica S/A. Não apareceu o nome Théo, ou Theodoro ou nada similar, mas sem dúvida na segunda-feira teria minhas respostas. Passei o fim de semana em casa, estava fugindo das perguntas das meninas porque no fim das contas não combinamos nenhuma história pra contar sobre nosso amor. Inesperadamente, no domingo pela manhã, e era cedo, meu celular tocou, Théo, me acordou. — Hmm... — Bom dia, Débora. Acordei você pelo visto. — Uhumm...
  27. 27. — Estou ligando pra te convidar pra tomar café da manhã comigo. Você quer? — Tá falando sério? — respondi sonolenta. — Estou. Muito sério. Podemos nos ver em uma hora? 28 — Tá. — Coloque um traje de passeio. Traje de passeio, esse cara tinha trinta ou sessenta anos? Traje... Eu coloquei o bendito traje de passeio, do meu jeito, claro, que nem a pau passaria meu domingo toda embonecada. Fiz um rabo de cavalo, vesti um short jeans e uma camisa polo azul, tênis rasteiro e pronto. Théo pontualmente às oito da manhã, surgiu no seu carro pra lá de lindo e nos levou para o jardim botânico, imprevisível, mas legal. Ele estava de calça jeans e blusa também polo cinza chumbo, parecíamos ter combinado nos vestirmos daquele jeito. Ele pendurou os óculos na blusa e me levou pela mão, tocou nossas mãos e me senti estranhamente desconfortável. Nos sentamos e ele pediu o café completo. Então iniciou sobre o real motivo de seu convite. — Débora, a gente precisa definir algumas coisas, por exemplo, nos conhecemos na livraria, vamos continuar assim? — Acho bom... — Ótimo, qual sua cor preferida? — Azul. Preto. Às vezes rosa. — Qual seu time de futebol? — Time de futebol? Nenhum! Odeio futebol! — Ok, somos dois, mas se perguntarem insistindo muito, diga que é América. Alguma coisa que queira saber especificamente? — Você acha mesmo meu corpo bonito? — Maravilhoso. Ainda mais no período fértil. 29 — Como é isso? Como... sabe... — Não precisou muito pra você ficar toda molhada e eu sinto o cheiro do
  28. 28. seu hormônio. — Ai meu Deus eu não ouvi isso. — Relaxa, não estou falando nada demais, além disso, conheço bem as mulheres. Fiquei calada por um tempo, sem encará-lo. — Você está incomodada com isso né? — Com o que? — Débora, não sou estuprador, nem ladrão, nem nada do gênero. Tenha isso em mente. Obs.: Gente, o nariz dele é perfeito, o rosto dele é perfeito e estava ainda mais bonito com os cabelos mais claros. Será que ele vai mudando de estilo como um ator? Dependendo do personagem? Ah! Por mais que estivesse me roendo pra saber, não iria perguntar, sei lá, de repente ele me acha uma louca intrometida... 30
  29. 29. 5. Mal havíamos terminado o café da manhã e o celular dele tocou, como um toque de telefone antigo, ele franziu o cenho muito sutilmente ao olhar para o visor, pediu licença e se afastou da mesa, ainda que não pudesse ouvi-lo, fiquei observando, mão no bolso da calça, sério, ouvia mais do que falava, vez e outra me olhava e eu sorria de volta, um sorriso simples, seja lá o que estivesse acontecendo o fazia ter uma postura diferente da habitual descontração e desenvoltura. Voltou, sentou-se e sorriu ao mesmo tempo que suspirava. — Onde paramos? — Na sua índole imaculada. — isso o fez rir, e em seguida ele pegou um iphone do bolso. Nossa ele tinha dois celulares? Ele deve ser muito requisitado. — Azul... Preto... Rosa... — ele estava escrevendo as cores que havia dito? — Comida e bebida? — Feijoada e cerveja — ele sorriu e anotou. — Música? — Samba e Justin Timberlake. — Agora me olhou de lado, confuso, mas anotou. Théo estava mesmo me entrevistando? — Que tipo de samba? — Todos os que tocam em uma feijoada. — Quais são? — Como assim ele não sabia? — Arlindo Cruz, Revelação, Fundo de Quintal, meu preferido, Seu Jorge... — Você sabe sambar? — Fui passista da Mocidade Independente de Padre Miguel, isso responde sua pergunta? Théo estava de boca aberta, chocado e divertido. — Muito interessante. Então você gosta de uma diversão mais popular. 31 — Popular? Não, eu diria tradicional. — Do que mais você gosta? — agora era o Théo quem perguntava, não o namorado de aluguel que precisava decorar meus gostos.
  30. 30. — Gosto de cinema, mas só pra ver comédia, não me chame pra filme de terror que eu odeio levar susto, ficar tensa ou chorar pela morte de gente que nem é real. Também gosto dos vídeos da Porta dos Fundos e sou tipo, muito fã mesmo e viciada em Fábio Porchat! Ele é o máximo! — Melhor que o Adnet? — Infinitamente melhor! Nossa! Sou fã mesmo número um dele! Porra! E do Luis Lobianco que fez o vídeo... — não consegui concluir a frase porque me deu um ataque de riso só de lembrar, quando dei por mim, Théo estava com o cotovelo apoiado na mesa, e sua mão segurava um rosto sorridente, estava prestando atenção em mim, então tentei ser o mais normal possível e concluir o pensamento — Ai, desculpa, — limpei a lágrima que resolveu aparecer de tanto que eu ri — O vídeo é dos dez mandamentos, adoro esse e o do aniversário também! Ah! Você já viu o vídeo “ é pau é pedra”? — Ainda não. Como é? — Ah não vou contar não, você tem que ver! É muito bom. — Você é fã mesmo hein? — Ai desculpa. — sabe quando cai a ficha da tietagem? Então. — Que nada, é bom ver você mais solta, saber do que gosta, é importante pra eu ser o mais verdadeiro possível nesse namoro de faz de contas. — Théo, você já fez isso antes? Quero dizer, pagar de namorado? Ele negava com a cabeça lentamente enquanto sorria com malícia. — Mas isso é ruim pra você? Tipo, sem.... — Sem fuder? — É. 32 — Adoro esse seu “ é”. — de repente ele se pôs sentado corretamente e começou a digitar no iphone enquanto me respondia — Não, Débora, isso
  31. 31. não é ruim, pelo menos não com você. Hã? Estou entendendo certo? Ele disse que não era ruim por ser comigo? Ou eu é que queria interpretar dessa maneira? — Meus amigos me chamam por apelidos, raramente de Débora. — achei melhor informar. — Que apelido? — Apelidos. Debby, Debinha, Debrinha, Debrita, Dé... — Nossa, muitos apelidos. — Meu irmão me chama de Abelhinha. — Abelhinha? Por quê? — Meu nome significa abelha e meu pai e Junior sempre me chamaram assim. — E seus pais? Moram longe? — Aham. No céu. — ele ficou desconfortável e lamentou — Tá tudo bem. — amenizei — Faleceram tem um tempo. Eu tinha vinte e três anos. — Um tempo? Quantos anos tem? — Quantos acha que tenho? — Achava que vinte e cinco, mas como disse que tem um tempo, então sei lá uns vinte e sete?! — Trinta. — Impossível. 33 — Muito possível. E você? Tem o que? Trinta e dois? — Trinta e quatro. Não pude evitar sorrir com as coisas que estavam passando pela minha cabeça, então mandei mais um gole de suco de laranja pra dentro, a fim de abafar o sorriso tosco. Ele percebeu, obviamente, que estava pensando em alguma coisa, mas teve a delicadeza de não perguntar o que era. Continuamos a conversar, ele anotou as datas dos compromissos, reuniões, ensaios de casamento e aconteceu uma coisa estranha... Quando perguntou aonde seria o casamento, e respondi, ele ficou tenso. Estranhíssimo.
  32. 32. — Vai ser na pousada dos meus tios, em Penedo. — Foi nesse instante que ele meio que travou os músculos do ombro. — Que lugar de Penedo? Exatamente? — Parecia uma pergunta casual, mas sei lá... — Na última pousada, seguindo uma estradinha... Bem no pé da montanha, Pousada Lua de Mel. Théo deu uma relaxada de leve aquiescendo. — Quer dar uma volta? — Mudou de assunto de repente. Aceitei o passeio e apesar dele me convidar pra almoçar e eu querer realmente aceitar, precisava arrumar meu apartamento... colocar umas roupas pra lavar, aproveitar o tempo bom, pra ele era fácil passar as manhãs atoa... * 34 Adoro tirar o sapato pra ficar passando os pés com a meia calça lentamente no piso acarpetado do escritório, um prazer quase sexual. Estava nesse momento quando Carol chegou, atrasadíssima, se instalou na mesa ao lado da minha, estava pilhada. — Bom dia. — Bom dia, Carol. — ela já foi ligando o computador, tirando uns papéis da bolsa e o celular. — Que foi? — Ansiedade, fiz merda. Olha isso. Era uma mensagem da Luiza, Letícia estava em cólicas querendo saber quem era o homem do bar. Há! Sabia que ela estava se mordendo. Piranha, filha da puta! Carol foi me mostrando uma sequência de mensagens trocadas com minha cunhada Luiza, onde o ponto máximo parou na palavra “ noivos”. Voltei e li novamente: Mas como assim ela arrumou uma pessoa de repente? – L Amor à primeira vista! – C Letícia disse que deve ser mais um namoro passageiro... – L
  33. 33. Letícia é uma invejosa do caralho! Pode dizer a ela que é mais sério que ela imagina – C Sério quanto? (Roendo unhas de curiosidade) – L Estão noivos, morando junto e tudo. – C Choquei! Ela não contou pra ninguém! – L Pra Letícia não tentar roubar... – C 35 Naquele instante, parei um pouco de pensar, acho que parei até de respirar. Levei minha mão à boca, segurando minha incredulidade diante dos fatos. O plano era apresentar o Théo como namorado e “ desmanchar” logo depois do casamento, agora estava no status de noiva? Como sairia dessa merda? Terminar um namoro é uma coisa, mas um noivado é passar atestado real de incompetência matrimonial! Depois do meu histórico de inúmeros namorados após romper com João, isso seria a cereja do sundae! Que merda! — Que merda sua filha da puta! — nem sei se falei alto, mas falei. — Foi mal amiga! Só fiquei pensando em fazer você se sair bem, eu já estava com umas caipirinhas na ideia... Me perdoa. — Carol estava mais preocupada com ser desculpada do que em como eu resolveria a situação! — Preciso ligar pro Théo! Tentei. Telefone fora de área ou desligado, mais uma vez. Pra que ele me dá um número se não consigo falar com ele? Mandei uma mensagem explicando a situação. Só lá para as duas da tarde que recebi uma mensagem em resposta. Nossa, como esse cara dorme! “ O que você quer?”. Curto e grosso, ou melhor, curto e muito grosseiro! “ Precisamos rever valores. Preciso de um noivo”.
  34. 34. Respondi profissionalmente. “ Como é? Você quer alugar um noivo?”. Ele entendeu. Respondi que sim e a mensagem dele veio em seguida. “ Acréscimo de período?” 36 “ Sim, sem agendamento prévio, full time. Isso é possível ou vamos desfazer o negócio?”. Precisava saber logo de uma vez. Carol estava dependurada no meu ombro! Mais nervosa que eu! Claro, fez merda! — Carolina, quero deixar claro que se ele topar, você vai pagar metade do valor. — Muito justo! — ela que é tão mão de vaca nem pestanejou. Dessa vez a resposta dele demorou um pouco mais. Acho que uns dez minutos. Por fim chegou. “ Tá falando sério? São dois meses daqui até o casamento do seu irmão”. Se ele estava preocupado com o valor, eu muito mais! Já estava até me vendo acenando um largo adeus ao meu décimo terceiro. “ Sim. Preciso alugar um noivo, que finja viver comigo.”. Pronto, mandei de uma vez e seja lá o que Deus quiser. A resposta demorou muito mais dessa vez, acho que meia hora. Fui tomar um cafezinho e quando voltei estava lá o símbolo do envelope na tela. “ Você já fez as contas? Por alto?”. Na verdade não, e antes de responder puxei a calculadora do canto esquerdo na tela do computador. Ele disse trezentos por dia, vezes sessenta dias... Minha Nossa Senhora. Afundei na cadeira. Dona Carolina estava na sala do chefe, sendo pisoteada mais uma vez por nenhuma razão plausível. Não dava pra mostrar a ela a merda que ela me arrumou! “ Você aceita parcelar? Faz desconto por pagamento à vista? Ou crediário?”. Ele respondeu quase que instantaneamente “ Você me mata de rir, Débora! Eu tenho cara de Casas Bahia?”
  35. 35. Foi com essa resposta que me vi dando adeus a minha dignidade diante da família e amigos, porque eu não tinha dezoito mil Reais pra pagar a um garoto de programa! Carol desabou na cadeira ao meu lado. — Eu te odeio Carol! 37 — Ai meu Deus, ele recusou? — Olha aqui quanto sai trezentos reais por dia, por um mês! — Caralho! Nove mil por mês? Puta que pariu ele ganha muito mais que a gente! — Mas são dois meses sua idiota! — Dezoito... — ela deu uma engasgada — Dezoito mil reais?? — À vista! Carol parecia pensar seriamente no assunto. — Pode aceitar! — resolveu de repente, mas sem tirar os olhos da tela do seu computador. — Tá maluca?? — Tô baixando minha aplicação da poupança... — estiquei os olhos e vi o site do banco! Ela é muito mais louca que imaginei! — Me dá aqui o celular que eu mesma conserto essa merda. Pegou meu celular e digitou uma mensagem. Ouvi o aparelho apitar e quando tentei pegá-lo ela não deixou! Mandou outra mensagem sorrindo e então se levantou pra ir ao banheiro, mas levou meu aparelho! E devia estar com dor de barriga! Só voltou quarenta minutos depois. Com uma cara orgulhosa que me fez preocupar de imediato! Levantei com tanta vontade que senti vários pares de olhos em cima de mim. Depois desabei na cadeira quando comecei a ler as mensagens. — Carolina, era pra consertar, não pra esmerdar tudo de uma vez, sua puta! — Não precisa agradecer. Acho que está mesmo precisando, está tão... irritadinha com tudo. E que papo é esse de que você tem um vibrador e nem me contou?
  36. 36. E com isso ela se concentrou nos documentos que estava analisando. Voltei a reler as mensagens, ela não tem mesmo noção de nada nessa vida! 38 Casas Bahia? Kkk, você me mata de rir. Ok, pago sua mensalidade, uma parte em adiantamento, uma na virada do mês e o restante no dia seguinte ao casamento. - D Fechado. – T Só mais uma coisa, se eu quiser sexo, tem acréscimo de valor? Afinal já está bem caro! – D Você tá falando sério? – T Sim. Tenho pensado muito em você. – D Pensando? No que exatamente? – T Em você dentro de mim, pra ser bem exata. – D Uau, Dona Débora, que evolução! Me pergunto no que mais andou pensando... – T Tenho certeza de que anda se perguntando. Agora me responda, dezoito mil e sexo de vez em quando? Ou ... de vez em sempre... – D Dezoito mil e o sexo que você quiser quantas vezes quiser. – T Acho que muito. – D O que houve com aquele vibrador na sua gaveta? Quebrou? Você está muito diferente da garota de ontem. – T Você andou mexendo nas minhas coisas? Que xereta! – D Queria vesti-la, mas quando vi o vibrador, achei melhor não, para não constrange-la. – T 39 Juro que não me lembro de nada daquela noite! – D Peguei suas chaves na bolsa, entramos, te coloquei no chuveiro, depois na cama, nos beijamos e fui embora. – T Gosto de beijar você, gosto da sua língua na minha boca, acho que vou gostar do seu pau dentro dela também, quero fuder com você. – D Seu desejo é uma ordem. Farei o possível para fodê-la tão gostoso que
  37. 37. queira me pagar mais dezoito mil pra isso. – T Kkkkk, assim espero! Esse noivado tá saindo quase o preço de um casamento! – D Não chora. Façamos assim: sua satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. – T Agora sim tá com cara de Casas Bahia :) Preciso ir. Te ligo amanhã pra acertarmos, ok? – D Ok. Tchau, minha noiva – T Tchau, noivo – D. 40
  38. 38. 6. Ainda que quisesse matar a Carol, a quem estava tentando enganar?! Estava louca de vontade de transar com ele! E por dezoito mil Reais eu merecia tudo a que tinha direito! Ah caralho! A quem estava tentando enganar?! Não sei se teria coragem! Sempre saberia que foi por dinheiro, que fui comida por que paguei por isso. Eu sei lá... isso era... estranho. No dia seguinte foi o Théo quem ligou. — Oi, Débora. — Oi, Théo... Sobre ontem... — Fique tranquila, não vou cobrar tudo de uma vez. — Então... você topa mesmo?! — Sim, mas não posso me mudar de verdade pro seu apartamento. — Eu compreendo isso, nem pensei que o faria, mas é que as meninas estão marcando um chá de calcinha e... — Chá de calcinha? — Um chá de lingerie pra Luiza, e vai ser no meu apartamento. — Quando vai ser isso? — No sábado agora. — Sábado agora?? — ele pareceu surpreso. — Você não pode né? Já havia feito sua agenda... — Espera. Pare de falar um pouquinho, me deixe pensar. — puxa — Amm... Façamos o seguinte, vou deixar umas roupas e umas coisas minhas no seu apartamento e se der apareço antes delas irem embora, caso contrário te mando um sms avisando. Pode ser assim? — Assim tá perfeito. — Ok. Tenho compromisso a partir de amanhã, então, passo lá mais tarde, tudo bem? 41 — Tudo bem.
  39. 39. Ah meu Deus, depois daquelas mensagens que a inconsequente da Carol mandou, teria que encarar o Théo, assim.... tão depressa! Hoje?! Assim que cheguei em casa fui direto para o chuveiro, precisava pensar e não havia lugar no mundo melhor pra criar diálogos imaginários quanto o chuveiro. Já ganhei inúmeras discussões e até mesmo uma briga! Sem sair do chuveiro. E foi pensando e pensando que o Théo chegou e eu ainda lá, debaixo d’água. Corri pra atender a porta de toalha mesmo, que hipocrisia me vestir às pressas se o cara já tinha me visto nua em pelo. — Oi, eu... estava no banho. — Percebi. Boa noite, querida, como foi seu dia? — ele estava me zuando? Sério isso? — Foi trabalhoso. Entra. Théo passou pela sala sem cerimônias com uma mala pequena, uma sacola grande e uma mochila. Deixou a mala no meu quarto e entrou no banheiro já abrindo a mochila, mas voltou no mesmo pé, deixando a porta aberta. — Estava tomando banho ou fazendo sauna? — Pensando na vida. — Gastando a água do Planeta. — Olha só! Um garoto de programa ecológico! Ele voltou para o banheiro e fui atrás pra saber o que estava fazendo. — O que tem aí? 42 — Coisas de homem. Théo empurrou sem a menor sutileza meus hidratantes, máscaras faciais e sabonetinhos para um canto da pia e do outro lado deixou uma loção pós barba da Ralph Lauren, um vidro de perfume Paco Rabanne, ahh não era Armani, mas Paco Rabanne... também um cortador de unhas grande e metálico, pente, escova
  40. 40. de dentes e um barbeador elétrico no armário debaixo da pia. Se esticou todo pra não entrar no box e deixou na prateleira de vidro um shampoo para homens da Dolce & Gabbana. Nossa. Ele só usa coisa cara. Passou quase roçando o corpo no meu e saiu do banheiro. Tirou da mala que trouxe, um par de chinelos e um par de tênis Nike meio encardidos e deixou num canto atrás da porta. — Não tire ele daqui. — Tá. Caraca, a mala dele era toda arrumadinha, com roupas enroladinhas e apesar de pequena cabia muita coisa! Théo me disse que não se mudaria de verdade mas estava parecendo que estava se mudando em definitivo! Era tanta roupa que ele tirou de lá! Calça, blusa, blusão, meia, cueca, tinha de tudo! Desembrulhou um terno e colocou tudo sobre a cama. — Onde é minha gaveta? — Eu não tinha pensado ainda. — Bom, eu sou mais alto que você, acho justo ficar com a gaveta de cima. — Eu não ligo pra essas coisas. — claro que eu estava ligando! O cara é muito cheio de marra! Puxei minha gaveta de baixo que tinha poucas blusas e troquei pela gaveta de cima, que tinha calcinhas e remanejei as outras coisas, de modo que as duas gavetas de cima ficaram livres e as três de baixo ocupadas por mim. 43 Ele ia arrumando as coisas rapidamente, enquanto eu dava espaço no guarda roupas. Achei inusitado que ele não estivesse constrangido, mas parecia se divertir imensamente com tudo aquilo. Por último, foi até a área de serviço e despejou as roupas sujas dele no cesto misturando com as minhas. — Pronto, Debby, agora moramos juntos. — Você pensou em tudo.
  41. 41. — Quase tudo, você precisa comprar coisas de homem, para a geladeira. — O que seriam coisas de homem pra geladeira? — Salaminhos, queijos, molhos apimentados, essas coisas. E não se esqueça do meu pão integral, eu só como pão integral. — Tá falando sério? — Estou, mas abro uma exceção para a pizza, topa? — Pizza, tá legal e já que está dando uma de homem da casa, pede você. Minha metade é de calabresa. Enquanto isso vou colocar uma roupa. A entrega não demorou a chegar, esse era o bom de pedir pizza na terça- feira. Calabresa e Portuguesa. Ele pediu bem. Também não ficou de frescura com o vinho, pelo contrário, até elogiou. Esse cara deve pegar só essas mulheres cheias da grana, porque o bichinho sabia o que era coisa boa! Derrubamos (garganta abaixo) a garrafa de vinho italiano, disse ele que era um dos seus preferidos, e concordamos muito sobre o tipo do vinho: seco, nunca o suave! 44 Até que tínhamos muitas coisas em comum! Ele era fã de Sheldon Cooper, eu também, ele gostava de muitas músicas que eu também gostava, não é porque disse a ele que curtia samba que só curtia samba! Ele disse que sabia cozinhar e fiquei curiosa em saber como ele vivia. Será que morava num lugar pé de chinelo? Não que o meu apartamento no Largo do Machado fosse alguma coisa extraordinária, mas era um dos antigos e era bem amplo. Quando dei por mim estava analisando o cabelo dele e não resisti em perguntar, porque havia pintado. — Você é curiosa... Bem, na verdade estava pintado antes, de castanho escuro, essa é a cor natural dos meus cabelos. — Dourado. Seu cabelo é lindo. — Obrigado, o seu também é, gosto do jeito como fica quando seca ao natural.
  42. 42. Ele estava me sacaneando com certeza, meu cabelo, castanho escuro em camadas, só ficava legal com uma boa escova! — E você... faz o que durante o dia? — Durante o dia? Como assim? O que imagina que eu faça? — Sinceramente, não consigo definir uma imaginação fixa, até de professor já te imaginei. Théo deu uma risada dessas que vira a cabeça pra trás. — Professor? Puxa vida, eles são muito mal remunerados, pra você pensar desse jeito... — Não foi por eles ganharem mal, foi pela forma como se expressa. — Hmm, entendi. Você faz uma ideia bem preconceituosa dos acompanhantes, não é Débora? — Claro que não! Ou acha que estaria aqui? — Não sei... Acho que acima do seu preconceito, está seu orgulho ferido. — Pode acreditar, é só o orgulho ferido mesmo. 45 De repente ele ficou quieto, pensativo. — Débora, vou precisar da cópia da chave. Tudo bem? A cópia da chave do meu apartamento??? Ai Jesus, estou mesmo certa disso? Dei uma última golada no vinho e sorri, balançando a cabeça em afirmativo. Estava confiando cegamente num garoto de programa! Um cara que mal conhecia! Quanta estupidez! * Foi estranhíssimo olhar todos os dias daquela semana para os objetos do Théo, parecia mesmo que havia um homem morando comigo! E que homem cheiroso! Depois que ele saiu lá de casa na terça-feira, fui fuxicar as coisas dele, cheiro gostoso, perfume, loção, shampoo... Até as roupas dele, foi quando vi meu reflexo no espelho acima da cômoda. Deus. Estava com a roupa dele nas mãos, inalando seu perfume. Apertando-a entre os dedos.
  43. 43. Coloquei de volta, imediatamente! Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Eu estava mesmo apaixonada por ele! Ele não deu sinal de vida desde o momento que saiu do meu apartamento. Passei a semana praticamente em prantos! Carol, ficou comigo no banheiro do escritório, a maior parte do tempo. Estava com tanta raiva de mim! Mais uma vez estava fadada a sofrer por um amor mal resolvido, mal escolhido, mal intencionado, mal tudo! E foi quando resolvi que ele jamais poderia saber o que estava sentindo por ele! Com certeza iria se aproveitar pra tirar todas as minhas economias! Como fui burra! Como fui estúpida! Estava mesmo a fim de um homem que transa com outras mulheres e outros homens também, e por dinheiro!! Tipo, naquele instante, o que estaria ele fazendo? Comendo quem? Alguma bunda? Alguma boceta? Que desgraçado! Como ele pode ser tão lindo e tão sensual e a imagem da foto dele na internet não saia da minha cabeça, aquele abdome bem marcado pelos músculos, aquela pélvis depilada com aquela rola grossa e.... Jesus!!! No que estou pensando?? Para agora!!! 46 Não foi nada fácil pra mim, perceber e cair na real que estava me envolvendo com o Théo, e pra mim era por sentimento, ele, por dinheiro. E voltei correndo para o banheiro, segurando as lágrimas, e o nó na garganta. 47
  44. 44. 7. Sábado chegou, as meninas chegaram, meu apartamento ficou lotado e graças ao meu bom Deus, a vagabunda da Letícia não resolveu aparecer. Em compensação meu irmão, que estava ao telefone com Luiza, quis falar comigo. — Alô, oi Junior. — Oi é o caralho! Eu ouvi uma coisa da Luiza que não tenho certeza se estava com muita maconha na ideia... ou se ouvi direito. Você está morando com uma cara? — É, mais ou menos... — Mais ou menos? Como assim mais ou menos? — Ele passa a maior parte do tempo aqui, mas ainda não nos juntamos, se é essa sua preocupação. E outra coisa! — caiu a ficha que ele não tinha o direito de falar assim comigo — Além de ser dona do meu nariz, me respeita! Sou sua irmã mais velha! Luiza levantou os olhos e fiz sinal que iria a estrangular! Passei o telefone e ela ficou toda sem graça. Junior estava muito enganado pensando que poderia se meter desse jeito na minha vida! Ele tinha vinte e oito anos e desde que assumiu a gerência da pousada dos nossos tios, estava se achando a última ruffles do pacote! Nossos tios estavam morrendo de orgulho dele, o que só fazia aumentar-lhe o ego. Também... meu primo Sandro resolveu se assumir e se mandou para viver com seu bofe magia em Macaé! Vida louca... Ainda me lembro, no Ano Novo o sem noção resolveu presentear os pais, levando o Gui pra conhecer a família, ficamos de cara! Tipo, uma coisa é “ será que ele é?” outra coisa bem diferente é ele aparecer com o boy lá em pleno Ano Novo! 48
  45. 45. Carol estava mais animada que nunca, chegou primeiro que todas e já foi logo se enfiando apartamento adentro, fuxicando nas coisas do Théo, cheirando, analisando, fazendo várias caretas! — Menina, mas esse homem é muito chique... Olha só essa gravata lilás! Débora você já viu a marca dessa gravata? É Chanel! Que tipo de garoto de programa usa gravatas Chanel? Débora! Você reparou nisso? — Lógico que eu reparei! E também me liguei que boa parte desses luxos, somos nós quem vamos bancar nos próximos meses! Sua piranha! — Ah deixa de ser escrota e aproveita então, otária! — Aproveitar o que exatamente, sua quenga? — O homem! Sua burra! Um homem desses, com uma piroca dessas a gente não encontra por aí não, eu mesma já andei conferindo essa semana umas coisas que... Deus me livre... cara, ontem fui lá na boate que te falei na Barra, com a Michele, garota... acabei me rolando num canto com um gato! Mas quando botei a mão dentro da cueca dele.... Puta que pariu... — O quê? Era pequeno? — Pior. — Pior como? — O cara tinha piru de bengala. — Como é piru de bengala? — a essa altura já estava rindo. — Ué, bengala! Não sabe como é uma bengala? Fina e torta na ponta. — O quê? — cai na gargalhada — Você tá zuando... — Não tô não! Tirei foto e tudo! — Mentira! 49 Foi quando ela puxou o celular do bolso e me mostrou, não sabia se continuava tendo uma crise de riso ou se me lamentava. Caralho! O cara tinha mesmo a piroca mais torta da face da Terra! Era grosso na base, perto da pélvis e ia afinando e na ponta entortava pro lado esquerdo de uma tal maneira!
  46. 46. Nunca vi algo assim antes! — Amiga que roubada! — Pior é que ele queria que eu chupasse, vê se eu tenho cara de quem fica chupando caramelo natalino? Tentava parar de rir, mas a Carol é mestra em falar coisas sérias como se fosse uma piada! — Fuder, nem pensar! Como é que isso aí entraria em mim, nem que ficasse brincando de bambolê! — ele ficava virando o quadril num semicírculo e eu me acabando de rir! Nesse momento, as meninas começaram a chegar, trazendo cada uma o combinado. Eu daria as bebidas, elas os aperitivos. Estava tudo tão animado que até me esqueci por um momento do Théo. Carol estava inspirada na bobeira! Luiza radiante com as roupas intimas que estava ganhando. Só mesmo um conjunto que a Geovana deu que não daria nela de jeito nenhum, Luiza é muito magrinha e muito pequenininha, o conjunto rendado extremamente sexual de cinta liga, meia, sutiã meia taça e calcinha fio dental ficou parecendo uma fantasia de carnaval! Rimos à beça dela! — Experimenta você, Débora. Com seu tom de pele moreno vai ficar melhor que em mim! — Luiza era bem branquinha de cabelos curtos castanho escuro, parecia uma sósia da Branca de Neve. — Tá! Vou experimentar! — já estava muito chapada a essa hora, de tanta caipirinha de vodca misturada com cuba libre. O conjunto caiu perfeitamente em mim! 50 Apareci na sala, vestindo a lingerie, e coloquei um sapato de salto vermelho de vinil só pra zuar mesmo. Comecei a dançar conforme elas ficavam cantarolando música de streap tease. Não é pra me gabar não, mas meus cento e dez de quadril fazem a diferença numa dança dessas em que a gente vai rebolando até o chão e isso pra mim,
  47. 47. sobre um salto agulha não é nada! Quem aguenta ensaio da Mocidade meses à fio, uma reboladinha sensual até o chão é fichinha! E estava eu, rebolando quase encostando a bunda no chão, de costas para as meninas e resolvi subir como uma dançarina de poli dance, empinado a bunda exposta com um fiapo microscópico que desaparecia por baixo da cinta liga, me sentindo a Beyonce do Largo do Machado! Joguei minha cabeça para trás, levando meu cabelo junto, que bateu feito um chicote no meio das minhas costas e me virei toda sensual pra olhar as meninas. Elas estavam gritando horrores, e dei de cara com Théo, parado na porta da sala. Ninguém o viu chegar! Aquela cara de safado dele, me deixou com uma leve contração no baixo ventre. Que nervoso! Ele estava segurando o lábio inferior nos dentes, de olhos semicerrados e fazendo que sim com a cabeça. Gelei. Parei toda sem graça. E foi minha reação totalmente inesperada que fez com que as meninas se virassem para ver o que havia me feito paralisar. Théo. De calça social grafite e blusão social branco, com um paletó pendurado no braço cruzado, me encarando. — Oi Théo! — Carol estava muito mais embriagada que eu! — Meninas esse é o noivo, namorado marido da Débora! Éramos dez no total, uma zona do cacete, todas pra lá de Bagdá! Cerveja, Vodca, caipirinha, rum e muita tequila foram o combustível alcoólico para nos manter no brilho! Elas começaram a rir e a gritar “ Hmmm, Debinha", "arrasou meu bem!” entre outras coisas... 51 Théo cumprimentou a todas meio por alto e veio até mim. Me deu um
  48. 48. selinho atoa com a mão na minha cintura. — E aí Théo? Tá aprovada? — Será que a Carol não sabia calar a boca?? E eu morri! Quando ele me apertou a cintura e deslizou a mão até minha bunda apertando de leve e me puxando pra ele. Depois se virou pra Carol e respondeu... — Essa já é a roupa da nossa Lua de mel? As meninas gritando e rindo ainda mais! E eu com a cara no chão! Mas aí me deu um calor absurdo, ainda com a mão na minha bunda, colou seus lábios na minha orelha, sussurrando... — Muito gostosa. Tô de pau duro querendo meter fundo nessa bocetinha melada. Senti latejar lá em baixo e um arrepio percorreu minha nuca. — Deixa de ser safado. — Não tem como. Vou tomar um banho e tocar uma punheta pensando na recepção que tive. Théo acenou para as meninas como se estivesse encabulado e seguiu pra dentro do quarto. As meninas ficaram eufóricas com a chegada do Théo. E tenho certeza de que ele ouviu os gritinhos agudos que elas dispensaram quando ele fechou a porta do quarto atrás de si. Não demorou nada pra que fossem embora! Luiza levou os presentes e Carol decidiu que a festa continuaria no apartamento dela, mas foi a última a descer. Claro! Precisava me dar instruções! — Se você não der pra ele, nossa amizade acaba hoje! 52 — Você tá louca?! — Você que tá de não aproveitar! São dezoito mil Reais! Acorda sua retardada! — então gritou bem alto — Tchau Théo! Estamos indo! E saiu do apartamento empurrando a língua na bochecha, me dizendo “ paga um boquete!” De repente me vi no apartamento, sozinha, na maior bagunça de papel de presente rasgado, copos espalhados pra todo lado, restos de salgadinhos em bandejas e um garoto de programa possivelmente se masturbando no meu
  49. 49. banheiro. Fui trocar de roupa, aquilo estava tudo muito insano. Já estava sem o sutiã, indo o mais rápido possível pra que... não adiantou porra nenhuma, Théo abriu a porta do banheiro e deu de cara comigo, de cinta liga branca, meia calça oito oitavos branca, sapato vinilico vermelho de salto alto e de seios de fora. Primeira reação, impulsiva - cobrir os seios com as mãos. Primeira reação dele, sorrir de lado com a maior cara de safado que eu já vi na vida! Segunda reação, involuntária – sentir meu sexo se apertar, umedecer e latejar ao mesmo tempo. Segunda reação dele, tirar do tronco a toalha que lhe cobria a nudez, revelando sua ereção. Ficou se tocando, puxando seu pau na mão, alisando do tronco a cabeça exposta, sem deixar de me encarar. Não era uma dessas picas gigantescas, do tipo tripé vinte e cinco centímetros... que a gente costuma ver nos filmes pornô, mas devia ter uns vinte centímetros com certeza! E era grosso, muito grosso, era de fato como na foto da internet. Foi inevitável não encarar aquela coisa com as veias saltando, ele continuou se tocando e eu encarando boquiaberta, paralisada, sentindo mil coisas ao mesmo tempo. As comparações são inevitáveis, João era muito menor que o Théo! Na grossura então, nem se fala! 53 — Você quer que eu te fôda, tá morrendo de vontade de ter uma pica de verdade te penetrando, não é? Eu não conseguia falar nada só fiquei parada, feito uma idiota. Théo deu o primeiro passo, me senti empurrada por uma força estranha, e dei um passo também em direção a ele. Ele se sentiu mais confiante e deu os três últimos passos que faltavam para
  50. 50. estarmos tão próximos que era possível sentir seu hálito mentolado. Théo esticou as mãos e tocou meu ombros de leve, descendo para meus braços, os descruzando da frente dos meus seios. Me expondo a ele, numa lentidão ao mesmo tempo sensual e angustiante. Meu coração batia na garganta, então ele diminuiu ainda mais a distância entre nós, me olhando nos olhos, maxilar tensionado, as narinas sutilmente dilatadas, mas a respiração dele era controlada, enquanto a minha era exaltada, exasperada. Engoli em seco. Théo molhou os lábios na língua e tocou minha boca suavemente, meu corpo inteiro estremeceu quando senti seu membro em meu umbigo, duro, excitado, faminto. E foi por estremecer e suspirar que ele descolou nossas bocas bruscamente. Me olhou com os olhos semicerrados, de um para o outro, acho que na minha cara estava estampado um pavor absurdo! Senti o membro dele relaxar um pouco e Théo se afastou. Respirou muito fundo mesmo, soltando o ar pela boca de uma só vez, pegou uma muda de roupas quase que correndo e saiu do quarto, sem dizer uma só palavra. E foi estranho porque assim que ouvi a porta da sala bater, uma música do Leny Kravitz começou a tocar, não me lembro de tê-la colocado na playlist. E também não combinava em nada com o momento do chá de lingerie! Calling all angel. http://www.kboing.com.br/lenny-kravitz/1-50152/ Sabe quando dá vontade de chorar? Me senti assim e não pude evitar as lágrimas, aquela música malditamente romântica tocando e eu me esvaindo em 54 lágrimas e coriza, tomei um banho rápido e vesti uma camisola de algodão e me deitei.
  51. 51. Foda, a música ficou repassando na minha cabeça! “ Toda minha vida, Eu tenho esperado alguém para amar” aquela voz triste cantava, eu realmente não me lembro de deixar essa música pra tocar. Não consegui pregar o olho, fiquei rolando de um lado a outro horas e horas e quando ouvi o barulho da porta fiquei nervosa. Olhei no celular, quatro da madrugada. Me virei de lado, fingindo dormir, ele voltou! Mas só entrou no quarto muito tempo depois, ficou com a porta aberta, eu fingi estar dormindo, mas abri os olhos bem pouquinho e pude vê-lo escorado no portal, cabeça reclinada também encostando no portal de madeira, me olhando um bom tempo, pensando em alguma coisa, então esfregou o rosto e andou até o outro lado da cama, se deitou ao meu lado sem fazer muito barulho. — Débora. — não respondi, fiz que estava no décimo sono! Então ele entrou para baixo do lençol que me cobria e se aconchegou a mim. Meu coração disparou, o corpo dele estava quente e podia sentir cheiro de whisky, ele passou o dedo de leve no meu cabelo, tirando-o do meu rosto, tentei manter a respiração controlada, mas tudo o que consegui foi prendê-la. Morri quando senti seus lábios tocando meu pescoço ao mesmo tempo que seus braços me puxavam pra ele, me colocou recostada em seu bíceps, minhas costas em seu peito e seu braço direito enlaçando minha cintura. Suspirou e voltou a respirar normalmente e seu braço relaxou, deixando o peso em meu corpo. E foi aquela respiração que me acalentou a alma e adormeci. 55
  52. 52. 8. Abri os olhos por culpa da claridade e.... bem, por causa de uma coisa me cutucando a bunda. Olhei de esguelha e era real, Théo estava ali comigo, ressonando bem baixinho, e eu com um sorrisinho bobo no meio da cara. Não dava pra ser perfeito né? Mas até aquele ronquinho baixinho o deixava sexy. O cabelo caia um pouco sobre o olho fechado e os lábios dele estavam entreabertos, tentei não fazer movimentos bruscos para descer da cama mas assim que me afastei um tantinho atoa ele me puxou com tudo me agarrando forte e aquela coisa dura logo de manhã roçando na minha bunda. Ele continuava dormindo, mas havia parado de ressonar, tentei me afastar novamente, estava estranho aquilo ali, minha camisola mais parecia uma blusa, toda embolada acima da cintura e a mão dele sobre meu abdome. Os dedos dele começaram a deslizar para cima, eu paralisei, meus olhos estavam pra lá de arregalados e então senti seus dedos em meu mamilo, acariciando tão delicadamente quanto se estivesse passando uma pluma. Meus olhos de arregalados começaram a se fechar aos poucos, revirando e revirando, minha respiração presa se esvaindo de meus pulmões lentamente, a mão que outrora era delicada se fecha de uma só vez em meu seio, de repente a voz rouca me alcança os ouvidos e todos os pelos do meu corpo se arrepiam! — Aonde você pensa que vai? — Fazer xixi. — Fazer xixi? Eu disse isso mesmo? Senhor eu disse sim! Foi mico, mas ele me soltou na mesma hora. E eu como sou muito inteligente saí correndo para o banheiro. Como um leão enjaulado (no banheiro de quatro metros quadrados), andando de um lado a outro, o que fazer? O que fazer? Não tinha nem como ligar pra Carol! Ah! O que estou pensando? A primeira coisa que aquela maluca me diria é: dá pra ele!
  53. 53. Será que devo? Não que eu não possa, afinal de contas como diria a Lady Kate, eu tô pagando. Meu coração a mil migrou do peito pra minha garganta, começava a suar. Banho! Um banho frio vai resolver a situação! 56 E foi isso mesmo o que fiz me enfiei por inteiro debaixo do chuveiro e quando saí... estava morrendo de frio e de vontade de transar com ele. Escovei os dentes, fiz o máximo de hora possível! Mas em algum momento precisaria sair e foi isso que fiz, saí! Disposta a me jogar naquela cama e me jogar naqueles braços musculosos e cheguei cheia de atitude no quarto, praticamente jogando os cabelos, toda sexy, enrolada na toalha e.... Ué, cadê o cara? Meu narizinho foi agraciado pelo aroma do café que invadia o quarto. Ouvi os passos dele e me virei, estávamos ambos de toalha, ele também tomou banho. Ele tomou banho? No banheirinho de empregada? Mas lá só tem água fria! — Quer? — O quê?? — cara! mais é um mico atrás do outro, fiz uma cara de espanto achando que ele estava se oferecendo, mas estou tão paranoica com isso de sexo que nem me dei conta da xícara que ele esticava na minha direção. E foi aquele sorrisinho dele que me fez despencar do mundo da lua. — Café. — Ah! É, é.. er.. am... é ... — dei uma risadinha do tipo hi hi hi, balançando a cabeça em negativa, Meu Deus abra um portal para outra dimensão e me suma daqui! Responde alguma coisa sua maluca! É, não saiu nada da minha boca, eu só estiquei a mão e peguei a xícara fumegante, bebi um pouquinho, bem devagarinho, afinal, estava pelando! E ele tomou o dele. — Hmm, gostoso. — elogiei, estava mesmo.
  54. 54. — Eu sei. — ele passou a mão livre no abdome. Eu não acredito que estava se referindo a ele próprio! Segurei a dignidade e fui me vestir, ele saiu do quarto ainda de toalha e entrou no banheiro. Coloquei um conjunto simples de calcinha e sutiã, um short jeans e uma camiseta branca. Théo surgiu ainda de toalha, barba feita, muito cheiroso. Passou por mim e ficou nu, sem o menor constrangimento e só então foi vestir uma cueca. Fiz de 57 conta que aquilo tudo era muito natural e fui saindo de fininho pra arrumar a bagu... Cadê aquela bagunça absurda? Ele arrumou o apartamento? Mas em que momento ele fez isso? Fiquei bege! Fui até a cozinha e estava tudo lavado, tudo organizado, que loucura! — Preciso fazer uma observação, Débora. — se escorou no portal da cozinha. — Tá, mas espera um segundinho. Você arrumou tudo? — ele fez que sim e colocou mais um pouco de café na xícara, contou mentalmente as gotas de adoçante enquanto seus lábios se mexiam sutilmente. — Obrigada, puxa, isso foi muito gentil da sua parte! — O que? Lavar uns copos? — Amm... por tudo! Lavar, arrumar e bancar o noivo tesudo... E qual a observação quer fazer? Olha se for pelo dinheiro já está na sua conta desde sexta! — É sobre você. — O que... o que... eu? O que tem eu? — Apenas uma observação. — Théo deu uma golada no café e me olhou nos olhos — Você está a fim de mim? Ai Jesus Cristo. Senti meu queixo bater de nervoso, então me virei pra pegar... pegar... er... a manteiga! Na geladeira. — Que bobagem é essa? De onde tirou isso? — Do beijo de ontem, da sua reação hoje quando acordamos, do quanto demorou no banheiro, deixa ver o que mais... e da maneira como gagueja quando
  55. 55. fala comigo. — Cara, seu ego é mesmo muito inflado né? — Meu ego? Vai querer me convencer que não tá ficando maluquinha comigo?! — Não estou nem um pouco, eu sou lésbica se quer mesmo saber. Desde que meu namorado terminou comigo. — bati a porta da geladeira, irritada! 58 — Então tomou banho frio só de onda né?! — Agora ele estava rindo novamente e na minha cara. Se aproximou normalmente me imprensando contra a geladeira, colocou a xícara dele sobre a pia e voltou seu olhar pra mim. Minha respiração novamente me deixando na mão! Meu coração é um traidor miserável! Pulando como se tivesse corrido a maratona da São Silvestre! Aquele corpo todo em cima de mim, me inebriando com seu perfume, com seu peito desnudo, com aquele abdome definido, com aquele cabelo úmido e as mãos, ai, as mãos segurando firme meu quadril e os olhos castanhos esquadrinhando minha alma. Seja forte, seja forte! Não me movi um milímetro e ele sorriu. Mas que merda! O que será que ele estava pensando? O que? Pior ainda foi quando mordeu o lábio enquanto enterrava ainda mais os dedos na minha pele e foi até minha orelha mordiscar o lóbulo, me deixar sem fôlego, sem ação, sem lembrar nem mesmo o nome da minha mãe! — Lésbica né?! Sabe Deus de onde tirei forças, mas me desvencilhei dele e fui para o corredor, soltando de uma vez o ar. Droga! Parece que voltei aos meus quinze anos! O mesmo aperto na barriga, as tremedeiras na perna, tudo, tudo! Por um homem que vende sexo! Fui o mais rápido possível para o quarto que havia feito de escritório,
  56. 56. precisava trabalhar, ou fingir pelo menos! O vi passar e voltou já vestindo uma camisa. — Vou sair, querida. — debochado, desgraçado — Não precisa me esperar para o almoço, na verdade, devo voltar só na quarta-feira. — Quarta-feira? — Quarta-feira. Tente não se matar com aquele vibrador, e não estou falando do bullet na gaveta de calcinhas não, mas daquele disfarçado de soldadinho inglês. 59 Acho que abri uma boca tão grande que era possível encaçapar uma bola de basquete dentro dela! Como ele sabia do...? Aff... Como não saberia? Esses brinquedinhos ele devia conhecer todos... Fiquei tão passada com o que ele disse que além de não responder nada, fiz questão de não ligar, nem mandar nenhuma mensagem! Assim que pisei no escritório no dia seguinte, Carolina veio com um mega sorriso. — E aí? — E aí que ele é um grosso! — Ah disso a gente já sabia né?! Quero saber se foi gostoso?! Fiz uma tromba gigantesca e Carol envergou a boca num bico de lado. — Ah fala sério, Dé. — Nenhuma palavra quanto a isso! — O cara tava lá disponibilíssimo, gostosíssimo, mercadoria paga e você de babaquice! — Tem coisa muito mais importante que fuder com um prostituto. — Como o que por exemplo? — Você por acaso se deu conta que não sabemos nada desse cara? Nem onde mora, qual a rotina dele, o nome dele! — eu enumerava nos dedos. — Pelo menos sabemos que ele não tem Aids. — Aff... não dá pra conversar com você. — Tá e você pretende investigar o Théo... Ela falou de brincadeira, mas a sobrancelha esquerda que levantei a fez revirar os olhos. Estava tão preocupada com meus sentimentos (a fatídica constatação de estar apaixonada pelo Théo), que me esqueci completamente na análise que
  57. 57. solicitei na Junta Comercial. 60 Abri meu e-mail e descobri o nome do dono da Galáctica S/A, Paulo Couto do Nascimento. Peguei o endereço e não quis saber de porra nenhuma. — Aonde você vai ô maluca? Tem reunião de coordenação às duas! — Ainda são dez da manhã, relaxa, volto em tempo, qualquer coisa, tranca o banheiro dos deficientes e diz que estou lá com diarreia! — Ah! Capaz! — Fui. Saí discretamente e alcancei o primeiro taxi que passava, muita sorte, seguimos para o endereço da Galáctica S/A. — É aqui, moça. — Ah obrigada. — Paguei ao motorista e desci do taxi um tanto quanto chocada. Estava em um bairro decadente da zona norte do Rio, perto da linha do metrô, tudo tão estranho, conferi novamente e era lá mesmo, apertei o interfone do 302 e uma voz masculina atendeu. Disse que era do senso e ele abriu a porta quase que de imediato. Cara, ninguém é visitado pelo senso! E se alguém diz “ sou do senso”, as pessoas correm pra participar da pesquisa! Agora eu peguei aquele filho da mãe arrogante! Subi os lances da escada quase colocando os bofes pra fora! Dei uma respirada e toquei a campainha, a porta nem olho mágico tinha, ele abriu a porta de uma só vez e nos encaramos. 61
  58. 58. 9. Estava vestido com uma roupa simples, jeans e camisa de um deputado estadual, baixinho, careca e com uma baita barrigona! — Por favor senhor, bom dia, antes de mais nada, gostaria de falar com Paulo Nascimento. — Sou eu. — Você? Não é não! — Sou sim! — Não é não! Claro que não é! — Ô moça, a senhora tá doida? Ah! Já sei... — ele colocou a cabeça pra fora do apartamento olhando o corredor — é pegadinha! — Não. — fiquei confusa — Desculpe, mas o Paulo que conheço tem quase 1,90 de altura, é forte, atlético, meio loirinho, olhos castanhos amendoados e tem um sinalzinho discreto no canto direito do lábio superior, braços musculosos, peitoral largo, seguido por um abdome definido e bem marcado, as coxas são grossas e torneadas e... O homem me olhava espantado, Deus eu estava toda derretida pra descrever o Théo, ou Paulo, ou seja lá quem ele for. — Senhorita, não tem ninguém aqui com essa descrição não, eu que moro aqui. — ele bateu na pança de Sancho, é, tá na cara que esse homem não era nem de longe o Théo. Então inesperadamente ele puxou a identidade da carteira em cima da mesa, é... era Paulo Couto do Nascimento, o baixinho gorduchinho. Me desculpei e fui embora. Que absurdo! Ele usava um endereço fantasma e um laranja! Ou... esse cara estava escondendo o Théo de mim! Agora isso virou questão de honra! Na terça-feira pedi pra uma colega do trabalho ligar pro celular dele e perguntar se ele estava disponível. Expliquei que se tratava de uma brincadeira
  59. 59. 62 com um amigo antigo de faculdade, um trote bobo. Carol ficou indignada, ela achava que eu deveria estar fazendo outra coisa, ao invés de procurar, como foi que disse... ah sim, chifre em cabeça de cavalo. Quando a Fatinha ligou ele disse que não estaria disponível por um longo período. Pelo menos me deu exclusividade. Isso foi uma coisa que gostei de saber. Quarta-feira, dia muito chato, cheio de problemas no trabalho, me aborreci como nunca antes com um colega, isso é tão desgastante, odeio essas discussões sem fundamento nem finalidade. Cheguei ao meu apartamento um pouco mais tarde que de costume, o dia foi mesmo complicado. Joguei a bolsa sobre a cadeira e percebi que não estava sozinha, a sala toda cheirava a comida, ai que fome, que cheiro bom... — Théo? — Oi, já chegou? — perguntou ainda na cozinha, e então surgiu na sala. Sei que abri a boca, porque isso foi muito mais forte que eu! Mas também, puta merda! Ele apareceu de calça jeans preta, sem camisa e com o meu avental xadrez, que ficou lindo nele, e extremamente sensual. — Oi, boa noite. — tirei os sapatos, Théo veio em minha direção e os tirou da minha mão, me dando um selinho com gosto de vinho, um não, foram dois, minto foi um selinho e um outro beijo mais demorado e mais úmido, que obviamente correspondi. Tomei um banho rápido, não queria deixa-lo esperando pra jantar, além do mais meu irmão e a Luiza estavam à caminho. Théo me serviu de uma taça de vinho tinto seco, nem acreditei quando vi a mesa, linda! Tinha até um vaso com flores do campo. O jantar que ele preparou também surpreendeu demais! Medalhão de mignon ao tornedor, arroz de brócolis e batatas souté.
  60. 60. Posso definir agora a refeição? Incrível! — Jura que foi você quem fez? 63 — Claro que fui eu. Gostou? — Tá sensacional! Delicioso! — Seu dia foi estressante? Está parecendo. — Muita coisa. — Quer me contar? — Quero. — respondi com sinceridade, queria mesmo dividir — Tudo começou quando me deram um contrato pra analisar de uma empresa de prestação de serviços, mas então descobri que eles não entregaram os documentos de seguro de vida do pessoal, e como uma das cláusulas é o cumprimento do seguro de vida, mandei parar a medição, medição é o pagamento... — expliquei — só que o coordenador tem algum tipo de ligação com esse gerente... Enquanto eu contava tudinho o que aconteceu detalhadamente, Théo continuava comendo, mas prestando a maior atenção! E vez e outra balançava a cabeça confirmando, ou assentindo pra que eu continuasse. — ...Então foi isso que aconteceu, mas o que me deu mais raiva, foi a cara de pau dele de dizer que poderia ir medindo enquanto eles acertavam os documentos! — E o valor do seguro foi pago inicialmente? Estava previsto no DFP? — Pior que estava, já foi até pago essa porra! Isso me tira do sério... — Se tem algum esquema por trás, você não pode fazer muita coisa, mas fica esperta, e mande seus e-mails sempre com cópia oculta para o seu particular, se eles liberarem a medição ainda que tenha feito a análise desfavorável o ideal é que tenha isso registrado. Sabe quando de repente a gente se liga numa coisa? Foi esse o momento. Ele percebeu que eu percebi. Porque pousei o garfo no prato ainda olhando para a comida, cabeça baixa e um silêncio insuportável.
  61. 61. — Com que tipo de pessoa você anda fudendo, Théo? — a pergunta saiu baixinha, mas ele ouviu, e eu ainda não o conseguia encarar, como não me 64 respondeu, eu continuei — Falar de Demonstrações Financeiras Padronizadas pela sigla... — levantei meus olhos, ele apenas sorriu um sorriso sem graça. — Conheço muitas pessoas, já estou nessa vida há muito tempo, muito mais do que gostaria. — Você não gosta do que faz, não é? — Sim e não. — Resposta ambígua, como devo entender? — Do jeito que é, ambígua, por que tudo tem de ser preto no branco, certo ou errado, sim ou não? — Eu não sei. — Mudando de assunto, seu irmão vem a que horas? — Devem chegar lá pelas nove, ele vem de Penedo. — Tá, e tem alguma coisa que queira que eu faça... Ou que não faça? — Sinceramente?... Não quero que seja o Théo, o cara que faz programas, quero que seja você mesmo. Minha resposta o fez sorrir um sorriso aberto, feliz. Terminamos o jantar ainda conversando sobre contratos e administração e foi quando o Théo deixou escapar que “ na faculdade houve um estudo de caso...” Caralho! Ele tem nível superior! Por isso tanta desenvoltura pra conversar sobre tantas coisas, deixei com que falasse bem à vontade, nada de pressionar por respostas, aceitei o que ele quis me dar. Lavei a louça e ele foi enxugando e guardando, as vezes ficava olhando ele falar e mexer o nariz tipo A Feiticeira fazendo suas bruxarias, ele tem uma mania bonitinha. A forma que seus lábios se mexiam ao falar a letra erre, diferente, acho que ele fala outra língua que não seja o português, e a forma sutil com que levantava as sobrancelhas surpreso com alguma coisa que tenha dito.
  62. 62. 65 Ele explicava seu ponto de vista sobre o direito trabalhista, mas tudo o que podia ver era um homem lindo, mexendo os lábios em câmera lenta, com aquele erre diferente e aquele sorriso de dentes alinhados, a pintinha acima do lábio, pequenininha, estava lá, dando um charme a mais em sua boca, a essa altura absolutamente desejável por mim. Meu irmão estava demorando, como de costume, ele não entendia bem o conceito de pontualidade e foda-se o Mundo esperando pelo príncipe. E naqueles quinze minutos em que ficamos esperando o Junior, Théo colocou meu cd (já quase furado do Justin T.) e quando Mirrors começou a tocar ele me tirou pra dançar. Me pegou pela mão delicadamente me levantando do sofá e colou nossos corpos, nossos rostos, apoiando sua mão esquerda em minha escápula, forçando meu braço a ficar em posição de dança de salão. Dançando comigo, descalços, no meio da sala, desviando perfeitamente dos móveis. Me rodopiando em meu eixo e me puxando firme pra junto do seu corpo, seus olhos nos meus, e me abaixou para um beijo que não veio, a campainha tocou. Sério, se não estivesse de fato apaixonada por esse cara, teria ficado naquele instante, pior que tenho a leve impressão de que está tentando me seduzir pra isso, e o resto de consciência que tenho me diz pra fugir dele como o Diabo foge da cruz, porque provavelmente ele só quer me deixar pobre de uma vez. 66
  63. 63. 10. Meu irmão chegou, finalmente, os apresentei e começamos a conversar sobre vários assuntos, Junior não gostou do Théo ou está se mordendo de ciúmes... acho de uma graça, o João me sacaneou até o último fio de cabelo e esse traíra o chama pra padrinho de casamento! Por serem amigos desde a infância é que ele deveria ficar ainda mais indignado pela traição do João comigo! Por isso penso que os homens são mesmo todos iguais e se defendem mutuamente. Momento chato: Junior perguntou na maior o que Théo fazia da vida e ele me olhou sorrindo, antes de responder... — No momento, a única coisa que faço da vida é cuidar para que sua irmã seja a mulher mais feliz desse Mundo. — E isso dá dinheiro? — perguntou Junior irônico. — Sim dá. — sabe quando o queixo da gente cai e o tempo para em algum ponto e não sabemos mais que dia da semana é? Pois então. — Não tanto quanto gostaria, mas dá sim. Luiza caiu na gargalhada e Junior ficou de cenho franzido e puto por Luiza estar rindo. — Desculpe amor, mas você mereceu essa resposta! Deixa de ser ridículo! Deixe o Théo em paz, não viemos pra entrevistar o noivo da sua irmã, viemos pra acertar os detalhes do nosso casamento! — Tá tudo bem, Luiza, — Théo começou a falar novamente, Deus faça-o se calar! — apesar de ser filho único, entendo perfeitamente o que deve estar se passando pela cabeça do Junior. Mas fique tranquilo, não vou fugir com a herança de vocês. Meu maior interesse nessa história é fazer a Débora feliz, cada segundo em que estivermos juntos, nem que seja só pra ficar olhando um pra cara do outro sem falar nada.
  64. 64. Théo me olhava de um jeito ou era eu que estava o olhando de um jeito, ou querendo que ele estivesse me olhando daquele jeito? ... tô ferrada. Ele ainda segurou minha mão e beijou o nó de meus dedos, sabe cara de besta? A minha. Aí veio o Junior pra tipo acabar de vez com a minha alegria. 67 Para tudo!!! Imagine: tá rolando um assalto e a gente faz o que? Fica quietinho e até esconde o Tablet na bunda, certo? Pois o Junior praticamente se levantou e disse: Aqui! Olha minha carteira! Voltando: — Vocês vão se casar com separação de bens né? Não, porque seria um absurdo se a Débora dividisse a parte dela nos bens que nossos pais deixaram depois de anos de sacrifício pra uma pessoa que ninguém conhece, que a família nunca ouviu falar e que de repente se enfiou no apartamento dela. —Théo me olhou estranho, com um sorriso torto, e o Junior não calava a boca, e a Luiza tentando fazê-lo parar e ele prosseguia em me expor completamente! — A Débora, pode não usufruir da parte dela na pousada, nem do restaurante ou mesmo ficar desfilando por aí de carro do ano, mas ela merece um homem que lhe dê coisas, que complemente o que ela tem. — Junior, cala a boca, você está me constrangendo. — Eu? É bom eu ser sincero e colocar logo as cartas na mesa! — Você é estúpido. Se veio aqui pra ficar destratando o Théo não precisa prolongar a visita não, pode ir. Meu irmão surpreso, jogou o rosto pra trás, piscando seguidamente, ele não esperava que eu tomasse pulso, e a verdade é que nunca fui de enfrentar nada, de ficar batendo o pé, pra mim sempre foi “ tá tudo bem”. Mas aquela não era uma
  65. 65. situação comum e o Théo não era um homem comum, era um garoto de programas. — Gente que clima tosco, desnecessário, desculpa Debby, desculpa Théo, o Junior está se roendo de ciúmes da irmã, só isso. — Como eu disse anteriormente, compreendo e não estou nem um pouco chateado com suas palavras, Junior, pelo contrário, isso só me faz admira-lo. — que sacana esperto! Filho da mãe! — Um homem que zela pela família, é assim que estou te vendo e realmente te respeito e admiro, pra dizer a verdade... — Théo olhou pra mim, para meus olhos — se tivesse uma irmã tão incrível e perfeita como a Déb, também estaria me preocupando, afinal um cara surge do nada e já vai morar com ela... — Pois é, como foi isso? Porque ela não me contou. 68 — Nos conhecemos na livraria do Ouvidor, começamos a conversar e acho que uma semana depois... uma semana não é amor? — fiz que sim com a cabeça — nos encontramos novamente, casualmente, e tomamos um drinque e então começamos a nos encontrar e cá estamos. — Nossa, rápido! Em o que? Quinze dias? Surpreendente! — Junior, o amor é surpreendente, a gente tá muito bem levando nossa vida e de repente dá de cara com um sentimento desses que não se pode medir ou explicar, a gente só sente e começa a rever tudo na vida, tudo. Eu tô surtando ou ele está se declarando? Eu tô surtando! Ele tá se declarando pra minha herança! Só pode! Junior seu idiota! — Isso foi lindo, Théo! Junior e eu nos conhecemos desde o segundo grau! Fiquei arrasada quando ele se mudou para Penedo, mas então ele me pediu em casamento e cá estamos! — E como é que foi esse pedido de casamento de vocês? — Junior estava bem mais tranquilo depois que Théo ficou “ amaciando a carne”,
  66. 66. alimentando seu ego. — Foi ela quem me pediu. Junior e Luiza abriram a boca! — Debby! — Luiza caiu na gargalhada. — Isso foi inesperado. — Junior deu uma repensada em tudo o que disse, bem não poderia ser o Théo o interesseiro se fui eu quem o “ pediu em casamento”. — Que loucura, amiga! Mas quer saber? Parabéns! Você tá certa, e tá na cara que vocês serão muito felizes! Dá pra ver que tem um amor muito grande entre vocês! — Como assim dá pra ver? — tô dando tanta bandeira assim? — Ah! Dá pra ver, vocês são lindos juntos, e ficam sempre se olhando com essa carinha de “ ownnn”. — a romântica incurável da Luiza já estava com as mãozinhas juntas abaixo do queixo, será que ela pode parar de bancar a Branca de Neve? 69 — Nesse caso, parabéns Abelhinha, e parabéns Théo... — meu irmão se levantou, e Théo fez o mesmo e se abraçaram! — Seja bem-vindo à família. — Fui aprovado então?! — Théo estava todo felizinho, devia estar somando mentalmente o tanto de grana que iria tirar de mim! Sorri, mas com uma dorzinha no peito. 70

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