Memorial do convento

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Trabalho da disciplina de "Inquisição e Cultura", feito há mais de 10 anos. Por isso, não está segundo o novo acordo ortográfico e as referências bibliográficas também estão ultrapassadas. Mas o que importa mesmo é o conteúdo. Resultou numa das notas mais altas que tive durante o Mestrado.

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  • Olá Lucinda Cunha,

    Ainda não tive oportunidade de ler o seu trabalho que disponibilizou aqui, certamente que será uma mais valia para quem trabalhar estes conteúdos...aproveito para lhe desejar boa disposição e saúde,
    daqui do Centro, um grande abraço,
    Teresa Almeida
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Memorial do convento

  1. 1. UNIVERSIDADE DE TRÁS- OS- MONTES E ALTO DOUROMESTRADO EM CULTURA PORTUGUESAMEMORIAL DO CONVENTO DE JOSÉ SARAMAGO(RETRATO DO PORTUGAL SETECENTISTA)Lucinda Cunha1
  2. 2. ÍNDICEI- Introdução..............................................................................................................4II- Vida privada de D. João V: devoção e escândalo...................................................6III- Convento de Mafra: majestade e decadência......................................................11IV- Fausto da corte vs Mendicidade..........................................................................16V- A festa dos autos- de –fé....................................................................................23VI- Padre Bartolomeu de Gusmão, um génio perseguido.........................................28(religião vs ciência.)VII- Conclusão..........................................................................................................33VIII- Referências bibliográficas................................................................................352
  3. 3. “Há, porém, limites materiais e temporaispara a ambição, nem que ela seja a do senhordas Índias e dos Brasis , que por vontadelevantaria no seu reino outra basílica de S.Pedro de Roma. E assim, talhado o plano àmedida do orçamento e dos recursos humanosdisponíveis, vai nascer na planura de Mafra oconvento erguido pelo labor e sacrifício dasgentes anónimas de Portugal, mantidas napureza política e religiosa das suasfidelidades, já que uma e outra são a mesmacoisa, pelo zelo e pela eficácia do SantoOfício. Sob o fulgor das pompas régias florejauma miséria colorida, que nenhum esplendorlogra esconder ou disfarçar.”1.1REBELO, Luis de Sousa, “Os rumos da ficção de José Saramago”, In SARAMAGO, José, Manual dePintura e Caligrafia, 4ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1983, p. 15.3
  4. 4. I- INTRODUÇÃOObra de referência na Literatura Portuguesa do século XX, o Memorial doConvento de José Saramago reflecte toda uma lista de contrastes existentes na sociedadelisboeta setecentista.Tendo governado o reino durante a primeira metade do século XVIII, D. João Vnão seguiu a melhor política, esbanjando o dinheiro do Estado em ornamentos, jóias,vestes, manifestações religiosas, sumptuosos palácios e magníficos monumentos com oobjectivo de impressionar os restantes dirigentes da Europa e formar uma cortesumptuosa e deslumbrante. Como diz Eça de Queiroz num texto intitulado“Francesismo”, em Portugal desde sempre se venerou a França, chegando a ironizarafirmando que “Portugal é um país traduzido do francês em calão.”2Ora, o domínio deD. João V coincidiu, sensivelmente, com o de Luís XIV, cujo país era o mais admiradoda Europa por toda a pompa e sumptuosidade que o caracterizavam.Retratando o ambiente que se vivia na Lisboa de setecentos, Saramago traça ascores de um quadro onde nem tudo é cor-de-rosa. O negro predomina nas aguarelas querepresentam os mendigos, as crianças abandonadas, os criminosos, os soldados, osprisioneiros, os escravos, os acusados pela Inquisição, os trabalhadores rurais e osoperários, enquanto o vermelho e a cor púrpura predominam no palácio real, nosconventos, mosteiros e casas nobres.Sendo o Memorial do Convento um romance histórico, o Autor recorre a váriasfontes para criar uma história onde nem tudo nasce da sua imaginação. São várias asfiguras a desfilar durante a obra e que, de facto, ocupam um lugar importante na nossaHistória. Desde o Padre Bartolomeu de Gusmão a D. Maria Ana, desde DomenicoScarlatti a D. João V e mesmo aos filhos e irmãos do soberano, todos eles apresentam2QUEIROZ, Eça, Últimas Páginas, Lisboa, Publicações Europa- América, s. d., p. 194.4
  5. 5. características psicológicas comprovadas pelos inúmeros estudos que se têm feito doreinado do Magnânimo.Também Blimunda, personagem fictícia que possui o dom de ver para lá doimediatamente perceptível3, possui um lado real, pois já na “Descrição da Cidade deLisboa” se faz referência a uma mulher de capacidades extraordinárias que “... possuidesde a mais tenra idade o dom de ver o interior do corpo humano bem como asentranhas da terra.”4. Este dom apenas se concretiza quando está em jejum, excepto“Nas mudanças de lua (em que) a sua visão é perturbada.”5.Em suma, “Do exposto se deduz que a História é, neste universo saramaguiano,submetida a um particular tratamento. Não se trata, com efeito, de reproduzir fielmenteos factos inabaláveis da História, mas pelo contrário, de aproveitar acontecimentos efiguras reais que, mesclados com a imaginação (re)criadora do autor, viabilizam aconstrução de uma História marginal à versão oficial.”6.3No capítulo VIII Blimunda desfaz o mistério que envolve a sua relação com Baltasar, já que este insisteem saber qual o motivo que leva a companheira a não abrir os olhos ao acordar antes de comer umabocado de pão: “...vejo o que está dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra, vejo oque está por baixo da pele, e às vezes mesmo por baixo das roupas, mas só vejo quando estou em jejum,perco o dom quando muda o quarto da lua...”.SARAMAGO, José, Memorial do Convento, Lisboa, RBAEditores, 1994, p. 74.4CHAVES, Castelo-Branco (trad., pref. e notas), O Portugal de D. João V visto por três forasteiros,Lisboa, Biblioteca Nacional, 1989, p. 47.5Idem, Ibidem, p. 47.6ARNAUT,Ana Paula, Memorial do Convento. História, ficção e ideologia, Coimbra, Fora do texto,1996, p. 58.5
  6. 6. II- VIDA PRIVADA DE D. JOÃO V“Enfim, el-rei abriu os olhos, escapou, não foi desta, masfica com as pernas frouxas, as mãos trémulas, o rosto pálido,nem parece aquele galante homem que derruba freiras comum gesto, e quem diz freiras diz as que o não são, ainda oano passado teve uma francesa um filho da sua lavra, seagora o vissem as amantes reclusas e libertas nãoreconheceriam neste murcho e apagado homenzinho o real einfatigável cobridor.”7Filho de D. Pedro II e de Maria Sofia de Neubourg, D. João V nasceu a 22 deOutubro de 1689.Declarado herdeiro do trono em 1698, ano em que “...as cortes reuniram pelaúltima vez...”8, tomou posse da coroa com 17 anos. Era um jovem rei que, consideradobonito pelos seus contemporâneos, não se privou em casado da “...vida de galã e deestúrdia nocturna...”9.O retrato físico que César de Saussure pintou deste monarca contrasta com ointelectual, como podemos constatar pela apreciação que aquele faz do rei10ao afirmarque “...tem boa figura , rosto comprido e é moreno (...) Usa grande cabeleira negra,7SARAMAGO, José, op. cit., p. 108.8SARAIVA, José Hermano, História Concisa de Portugal, 20ª ed., Lisboa, Publicações Europa- América,1999, p. 227.9DOMINGUES, Mário, D. João V, o homem e a sua época, Lisboa, Livraria Romano Torres, 1964,p.161.10César de Saussure tece estes comentários em “Cartas escritas de Lisboa no ano de 1730”.6
  7. 7. empoada, e veste habitualmente com grande magnificência. (...) O Rei é tido por pessoaespirituosa e de engenho, mas é completamente destituído de cultura.(...)Amaexcessivamente a magnificência e a ostentação.”11. O rei é apresentado, de formaidêntica na “Descrição da Cidade de Lisboa”: “Este príncipe é de estatura acima dovulgar e de muito boa presença, rosto agradável ainda que moreno, majestoso,trajando à francesa, recebendo todo o seu guarda- roupa, que é esplêndido, deParis.”12.Nesta última frase ressaltam três palavras- “excessivamente”, “magnificência” e“ostentação”. De facto, o nosso rei, adepto fervoroso de Luis XIV, o “Rei- Sol” queofuscava os restantes governantes da Europa com o seu esplendor, tudo fez para“afrancesar” a sua corte13. Uma das medidas que tomou foi a de ter acabado com aseparação, pelo menos no seu palácio, entre os sexos e permitindo o contacto maispróximo entre homens e mulheres14.11CHAVES, Castelo- Branco, op. cit.,p.267.12Idem, Ibidem, p. 50.13Sobre o gosto dos portugueses pelo vestuário francês e os efeitos desta preferência na economianacional, diz José Hermano Saraiva: “ O apreço pela moda estrangeira tinha- se entretanto difundido emPortugal, o que aumentava a importação. Tudo quanto exigisse uma técnica mais evoluída tinha de seimportar, porque não se fabricava em Portugal. Os economistas da época viam nesse progressivodesequilíbrio da balança comercial portuguesa uma causa (e não um efeito) da pobreza nacional: parapagar a importação saía ouro, e isso deixava o País mais pobre.Nos primeiros anos do século XVIII chegou- se a importar roupa velha (casacas, lençóis,camisas, cabeleiras), com indignação da câmara de Lisboa, que dizia que era roupa que podia terpertencido a tísicos e leprosos e representava portanto um perigo para a saúde.” In SARAIVA, JoséHermano, op. cit., p. 233.14Cf. DANTAS, Júlio, O amor em Portugal no séc. XVIII, 3ª ed., Lisboa, Portugal- Brasil, SociedadeEditora, 1915,pp 67 a 73.7
  8. 8. Muito religioso, D. João V passava os seus dias nas igrejas e conventos dacidade, mas cedo transpareceu para fora da corte a predilecção do rei em confraternizarcom madres, monjas e freiras, daí resultando filhos ilegítimos por todos os conventos deLisboa. Mas as preferências do monarca estendiam- se igualmente a elementos do povoe da nobreza. Foram vários os filhos ilegítimos do “Magnânimo”: com a madre Teresada Silva teve D. José, Inquisidor- Mor; de D. Madalena Máxima da Silva MirandaHenriques nasceria o arcebispo de Braga (D. Manuel de Baptismo, D. Gaspar doCrisma); D. Luísa Inês Antónia Machado Monteiro deu-lhe D. António- a estes o povochamou “Meninos de Palhavã”, que William Beckford refere por várias vezes no seudiário e apelida de “...suas Altezas Bastardas.” 15. D. Luísa Clara de Portugal, casadacom D. Jorge de Meneses , deu outra filha ao rei, D. Luísa.O facto de serem filhos ilegítimos não os impedia de exercerem altos cargos nacorte, já que estes procedimentos imorais eram vistos com a maior naturalidade portodos e até legitimados pelos séculos16.No Memorial do Convento, sobre a leviandade das famílias reais diz- nos o autorque “... a história das famílias reais está cheia destas acções.”17.Relato curioso e divertido sobre as aventuras amorosas do monarca português éo que Júlio Dantas faz no capítulo “As dobras de duas caras”18onde, de um modomordaz e humorístico, ao falar dos amores do rei salienta que “...o dinheiro dasfêmeas...” não era igual ao restante que circulava pela cidade pois “Tinham, de ambos15BECKFORD, William, Diário de William Beckford em Portugal e Espanha, 3ª ed., Lisboa, ClássicaEditora, 1989, p. 43.16Charles Frédéric de Merveilleux nas suas « Memórias Instrutivas sobre Portugal », onde residiu de1723 a 1726, a certa altura fala numa jovem, filha do Papa Inocêncio XIII, enclausurada num convento deLisboa. In CHAVES, Castelo- Branco, O Portugal de D: João V visto por três forasteiros, op. cit., p. 210.17SARAMAGO, José, op. cit., p. 186.18DANTAS, Júlio, op. cit., pp 77 a 83.8
  9. 9. os lados, em ambos os cunhos, a efígie coroada, a efígie cesárea de D. João V. Eramdobras de duas caras.”19.Apesar de diferente e de representar as relações pecaminosas do soberanoninguém o recusava. Das mãos do rei para as das amantes, do bolso destas para os dos“...adelos e mercadores, ourives e algibesbes, genoveses e capelistas, bruxas epasteleiros, mestres de cravo e de solfa, de francês e de dança.”20, o dinheiro que o reicunhava especialmente para presentear as suas conquistas corria todas as bolsas dacidade e eram o espelho perfeito da imoralidade e escândalo em que caíra, não só acorte, mas a sociedade em geral21. A este propósito afirma Oliveira Marques:“Como em tantas cortes do século XVIII, a depravação moral ocupou lugarpreponderante. O rei- e com ele muitos nobres- gerou diversos filhos em freiras dediversos conventos, muitos dos quais se converteram em centros de prazer e numaespécie de lupanares reservados à aristocracia.”22.Na época a entrada para os conventos não se fazia , normalmente, por vocação,mas por imposição. Nas famílias nobres os filhos primogénitos herdavam cargos efortunas, restando aos segundos enveredar pela vida religiosa. No entanto, a vida nosmosteiros não significava o fim da liberdade a que vinham habituados, como, pelocontrário, permitia uma verdadeira devassidão de costumes nada adequada a umaexistência supostamente celibatária23.19Idem, p. 80.20Idem, p. 82.21“...os costumes relaxaram- se até ao ponto que, não só a moralidade pública, mas também a familiar eprivada deixassem bastante a desejar.” In CRESPO, Ángel, Lisboa Mítica e Literária, Lisboa, LivrosHorizonte, 1987, p. 83.22MARQUES, Oliveira, História de Portugal, Do Renascimento às Revoluções Liberais, vol II, 13ª ed.,Lisboa, Editorial Presença, 1990, p. 366.9
  10. 10. No Memorial o narrador inicia o seu relato referindo-se à preocupação que osreis_ D. João V e D. Maria Ana- sentiam pelo facto de, apesar de casados há quase trêsanos, ainda não possuírem um herdeiro. Posta a hipótese de esterilidade, esta nuncapoderia ser do rei já que “...abundam no reino bastardos da real semente e ainda agoraa procissão vai na praça.”24.Saramago, no mesmo tom acutilante que caracteriza todo o romance, ironizadizendo que “... tão moço ainda gosta de brinquedos,(...) por isso se diverte tanto comas freiras nos mosteiros e as vai emprenhando, uma após outra, ou várias ao mesmotempo, que quando acabar a sua história se hão- de contar por dezenas os filhos assimarranjados...”25. Algumas páginas adiante, e no seguimento de uma sumptuosaprocissão, D. João V surge- nos como representante de Cristo na Terra e, durante umhipotético discurso mental afirma: “E eu, vosso rei, de Portugal, Algarves e resto, quedevotamente vai segurando uma destas sobredouradas varas, (...) ajoelhai lá, porquevai passando a custódia e eu vou passando, Cristo vai dentro dela, dentro de mim agraça de ser rei na terra (...) bem sabeis como as monjas são esposas do Senhor, é umaverdae santa, pois a mim como senhor me recebem nas suas camas...”26.Nestas passagens realça- se novamente a predilecção do rei por freiras, apesar deele não excluir nenhuma classe social. Beato fervoroso, D. João V perseguiu ferozmenteo freirático, o adorador de freiras, tipo no qual o próprio se incluía , dando razão aovelho ditado popular “Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”. Assim,23“No início de século XVIII acentua- se a degradação da vida conventual, por razões que mergulhamna quebra do ideal religioso ou numa visão diferente da mensagem cristã que fora duramente sujeita àcrítica filosófica.” In SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, 2ª ed., Lisboa, Editorial Verbo,1982, vol. V, p. 360.24SARAMAGO, José, op. cit., p. 2.25Idem, p. 87.26Idem, p. 152.10
  11. 11. em decreto de 16 de Março de 1725, mostra- se profundamente descontente com oconvívio entre as reclusas e as pessoas de fora, aplicando pesadas penas a quem ousassedesobedecer- lhe e obrigando o freirático a assinar um documento onde se comprometiaa nunca mais visitar nenhum convento, nem dirigir a palavra a uma freira.Verdadeira enciclopédia social, política, económica e cultural do Portugal desetecentos , O Memorial do Convento não esquece esta fase da vida lisboeta referindo-se à revolta das reclusas quando vêem ser- lhe retirado tal prazer legitimado pelosséculos: “Agora sairão as freiras de Santa Mónica em extrema indignação,insubordinando- se contra as ordens de el- rei de que só pudessem falar nos conventosa seus pais, irmãos e parentes até segundo grau...”27.Como se viu, este “...pio monarca...”28não primava pela fidelidade à esposa.Apesar de não se esquecer das suas orações, também não dispensava as aventurasamorosas que eram o seu pão- nosso de cada dia. Como representante supremo do reino,D. João V personificava igualmente a imoralidade exposta sem reservas de umasociedade piedosamente hipócrita.27Idem, p. 89.28BECKFORD, William, op. cit., p. 44.11
  12. 12. III-CONVENTO DE MAFRA: MAJESTADE E DECADÊNCIA12
  13. 13. “Corriam as mulheres, choravam, e as criançasacresciam o alarido, era como se andassem os corregedoresa prender para a tropa ou para a Índia.(...)os homens,atados como reses, folgados apenas quanto bastasse paranão se atropelarem, viam as mulheres subornar osquadrilheiros com alguns ovos, uma galinha, míserosexpedientes que de nada serviam, pois a moeda com que el-rei de Portugal cobra os seus tributos é o ouro, é aesmeralda, é o diamante, é a pimenta e a canela, é o marfime o tabaco, é o açúcar e a sucupira, lágrimas não correm naalfândega.”29Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa “memorial” é “um livrinho delembranças; memória particular que serve para esclarecer uma questão; escrito querelata factos memoráveis...”. Assim, a obra em estudo concorda em tudo com adefinição dada, já que nela se relatam feitos magníficos da nossa História, sendo omotivo central a edificação do Convento de Mafra.A obra inicia- se com a contextualização espaço- temporal, no Palácio de D.João V , em que o rei se mostra deveras preocupado com o facto de, apesar de estarcasado há quase dois anos, ainda não possuir um herdeiro do seu esplendorosoposto. Contudo, surge na trama um frade leigo da Província da Arrábida, freiAntónio de S. José30, a prometer ao rei descendentes se ele mandar erigir um29Idem, p. 287/8.30“Perguntou el- rei, É verdade o que acaba de dizer- me sua eminência, que se eu prometer levantar umconvento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, verdade é, senhor, porém só se o convento for13
  14. 14. convento em Mafra. Ninguém sabe se foi obra divina ou mera casualidade, mas ocerto é que a rainha engravidou, deixando o soberano ainda mais convencido da suacomunhão com Deus.Logo em 1711 ordenou que se iniciassem os planos, devendo a obra ser deextrema grandeza e magnificência. Para se elevar o dito palácio, os caminhospercorridos foram sinuosos e escorregadios. “...muitos viram as suas terrasexpropriadas para a abertura de caminhos e não tiveram a indemnização devida.Por tudo isso correu um escrito a criticar o monarca pelos gastos excessivos deMafra, que se traduziam em vexação dos povos.”31.Como o país não dispunha de técnica nem de pessoal habilitado, foi precisorecorrer à importação maciça de artistas estrangeiros e de obras de arte inteiramenteproduzidas fora de Portugal: o plano seguido foi o de Ludwig, arquitecto alemão; amaior parte das estátuas foram trazidas de Itália; “...paramentos, alfaias de culto,tocheiros, carrilhões, foram encomendados em Roma, Veneza, Milão, na França,na Holanda, em Génova e em Liège. Mesmo a madeira de pinho para andaimes ebarracos dos trabalhadores veio do Norte da Europa.”32.Apenas a pedra era nacional e os mármores de Pêro Pinheiro ficaram famososdesde então. O transporte da pedra destinada à varanda que ficaria sobre o pórticoda entrada relata- se ao longo do capítulo XIX33. Este revela- se dos mais longos daobra, como longa e penosa foi a tarefa de carregar o referido colosso.franciscano...”, Idem, p. 10.31SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal (1640- 1750), vol V, 2ª ed., Lisboa, EditorialVerbo, 1982, p. 262.32SARAIVA, José Hermano, op. cit.,p. 242.33SARAMAGO, José, op. cit., pp 234 a 259.14
  15. 15. Segundo reza a História, partiram para Pêro Pinheiro, com o objectivo detransportar a pedra, quatrocentos bois, muitos dos quais morreram exaustos, parapuxarem o carro e ainda vinte carros “...que levam os petrechos para a condução,convém saber, cordas e calabres, cunhas, alavancas, rodas sobresselentes feitaspela medida das outras, eixos para o caso de se partirem alguns dos primitivos,escoras de vário tamanho, martelos, torqueses, chapas de ferro, gadanhas paraquando for preciso cortar o feno dos animais...”34.Mas a construção do convento mostrava- se demorada (só a abertura dosalicerces levou quatro anos) e nem mesmo os 600 homens que aí trabalhavamconseguiam adiantar a construção. Como tal, o rei decidiu fazer uma sumptuosacelebração para se lançar a primeira pedra. O dia escolhido foi o dia 19 de Outubrode 1717, mas a cerimónia foi adiada para o dia 17 de Novembro35visto escassear otempo para revestir a festa de toda a solenidade pretendida pelo monarca36.Estemandou erguer no local uma igreja em madeira ricamente ornada para que acerimónia se celebrasse com a grandiosidade devida e que seria posteriormentedestruída.Só para esta celebração gastaram- se níveis ridiculamente estrondosos dedinheiro. Parecia mesmo que a obra já estava concluída. “Mas em Lisboa, dirá oguarda- livros a el- rei, saiba vossa real majestade que na inauguração doconvento se gastaram, números redondos, duzentos mil cruzados, e el- reirespondeu, Põe na conta, disse-o porque ainda estamos no princípio da obra, um34Idem, p. 236.35“ ...dezassete de Novembro deste ano da graça de mil setecentos e dezassete, aí se multiplicaram aspompas e as cerimónias no terreiro, logo às sete da manhã...”, Idem, p. 130.36Dados recolhidos em DOMINGUES, Mário, op. cit., pp 109 a 115 no capítulo “Dispendiosas festas sópara benzer a primeira pedra do convento de Mafra”.15
  16. 16. dia virá em que quereremos saber, Afinal, quanto terá custado aquilo, e ninguémdará satisfação dos dinheiros gastos, nem facturas, nem recibos, nem boletins deregisto de importação, sem falar de motes e sacrifícios, que esses são baratos.”37.Não satisfeito com a benção da primeira pedra, o soberano ordenou que seestudasse o calendário de forma a saber quando o seu aniversário seria numdomingo, descobrindo- se que tal aconteceria em 1730, no seu quadragésimoprimeiro aniversário. Novamente se despenderam quantias absurdas durante asagração da obra, ainda inacabada38.Além do grave prejuízo económico para o país, desta construção resultarammuitos mortos, por queda de andaime ou esmagamento sob pedras gigantescas, egraves deficiências físicas.Como a necessidade de mão- de- obra não se satisfazia com os homens dasredondezas, D. João V ordenou que buscassem todos aqueles com força suficientepara trabalhar. Como muitos não queriam participar em tal tarefa, era vê- losamarrados, como escravos, e trazidos à força, de todo o reino, para Mafra.A este êxodo de trabalhadores forçados assiste a família real, no Memorial, quandose procede a viagem à fronteira espanhola39com o objectivo de se efectuar a trocadas princesas, futuras rainhas de ambos os países da Península Ibérica. Em oposiçãoa toda a magnificência que rodeou o dito cortejo, composto por uma comitiva demais de 2000 participantes distribuídos por 229 carruagens, dezenas de homensamarrados caminhavam com os rostos sofridos porque um rei caprichosos queria37SARAMAGO, José, op. cit., p. 132/3.38Idem, pp. 344 a 346.39“ O casamento tem lugar na fronteira do Caia, entre Elvas e Badajoz.”, In MONIZ, António, Para umaleitura do Memorial do Convento de José Saramago. Uma proposta de leitura crítico- didáctica, Lisboa,Editorial Presença, 1995, p. 41.16
  17. 17. impressionar o mundo. Este contraste entre os forçados e a comitiva surge bemexemplificado no seguinte excerto retirado do capítulo XXII:“Ai as culpas de Maria Bárbara, o mal que já fez, só porque nasceu, nem é precisoir muito longe, bastam aqueles quinze homens que além vão, enquanto passam asseges com os frades, as berlindas com os fidalgos, as galeras com os guarda-roupas, as estufas com as damas, e destas as arcas com as jóias, e todo o maisrecheio...”40.De facto, a construção do Convento de Mafra, elevado inicialmente para 80 frades,número depois aumentado para 300, é o símbolo perfeito do que foi a políticaegocêntrica de D. João V, um rei deslumbrado e deslumbrante, que nuncaprescindia, em qualquer situação, de toda a pompa e luminosidade.E como era visto o Convento pelos estrangeiros? Relatos interessantes sobperspectivas diferentes chegam até nós.Beckford compara- o a um gigante que devorou tudo em redor e deixou Mafraabsolutamente desolada41. O que mais o deslumbrou naquela obra foi a Biblioteca,com cerca de 60 000 volumes, e os mármores brancos que revestiam o pavimento.No entanto, não é muito simpático nos seus comentários acerca do estilo doedifício42.Charles de Merveilleux conta uma história acerca da edificação da Basílica quenada tem a ver com o verdadeiro motivo. Diz ele que, estando à beira da morte, D.João V prometeu fundar um convento para ajudar a comunidade mais pobre daEuropa. Depois de muito averiguar descobriu que o convento mais necessitado do40Idem, p. 308.41BECKFORD, William, op. cit., p. 88.42Idem, p.115.17
  18. 18. seu reino era o de Mafra. Assim, decidiu melhorar as condições daquele paraalbergar os mais miseráveis43.Também César de Saussure ficou impressionado com o edifício, ainda emconstrução: “Presentemente (D. João V) está construindo numa alta e áridamontanha chamada Mafra um palácio, uma igreja e um convento que ficarãosoberbos e custarão quantias fabulosas.”44.Carl Ruders visitou o monumento em 6 de Outubro de 1801 e, pelo caminho,assiste “...a gente privada quase por completo das mais vulgares comodidades.”45.Assim, no Memorial do Convento assistimos à elevação de um edifício magníficoque, tal como a Inquisição, condenou homens à miséria e à morte das quais nemDeus, em nome de quem trabalharam, os salvou.IV-FAUSTO DA CORTE VERSUS MISÉRIA DO POVO43CHAVES, Castelo –Branco, O Portugal de D. João V visto por três forasteiros, Lisboa, BibliotecaNacional, 1989, p.187.44Idem, Ibidem, p. 267.45RUDERS, Carl Israel, Viagem em Portugal (1798- 1802), Lisboa, Biblioteca Nacional, 1981, p. 217.18
  19. 19. “Mas esta cidade, mais que todas , é uma boca que mastigade sobejo para um lado e de escasso para outro, nãohavendo portanto mediano termo entre a papada pletórica eo pescoço engelhado, entre o nariz rubicundo e o outrohéctico, entre a nádega dançarina e a escorrida, entre apança repleta e a barriga agarrada às costas.”46A época em que D. João V reinou (1706/ 1750) coincidiu, aproximadamente,com o período de maior fluxo, primeiro de ouro, depois de diamantes, vindos do Brasil.Segundo José Hermano Saraiva, “Foi em 1699 que chegou a Lisboa o primeirocarregamento de ouro: 500 Kg. A quantidade foi subindo nos anos seguintes e em 1720atingiu- se a marca mais alta: 25 000 Kg. (...) A partir de 1730 descobriram- se eforam exploradas minas de diamantes, que até ao fim do século produziram mais dedois milhões de quilates.”.47A ostentação e riqueza da corte portuguesa e do seu rei foram um verdadeiroatractivo para viajantes que esperavam, em Portugal, instalar- se, manter relaçõescomerciais e, quem sabe, até casar e constituir família. Foi o caso de Giuseppe Gorani,um italiano que esteve em Portugal durante cerca de dois anos, quando o governo dePombal estava no auge do seu despotismo: “Foi em 25 de Outubro de 1765 que chegueia Castro Marim, em Portugal, na intenção de ir fixar residência em Lisboa.(...) estavaainda fresca a minha admiração por um país que, apesar da sua pouca gente, haviarealizado as coisas mais espantosas e dilatado o seu domínio por todas as partes deMundo graças ao seu engenho, virtudes, valor e a uma plêiade de heróis que46SARAMAGO, José, op. cit., p. 23.47SARAIVA, José Hermano, op. cit., p. 238.19
  20. 20. sucessivamente o serviram.”48. Note- se a admiração que Gorani sentia pelas obras,descobrimentos e conquistas empreedidas pelos portugueses, apesar de o tempo demaior glória já pertencer ao passado.Logo, não será de admirar o facto de Lisboa ter sido, no século XVIII, uma dascidades mais populosas da Europa, sendo ultrapassada apenas por Londres, Paris eNápoles49.Para este crescimento demográfico contribuiu a grande expansão do comérciocom países dos quatro cantos do mundo.No Memorial do Convento esta profusão de trocas comerciais surge explicitadano início do capítulo XVIII durante uma conversa entre o rei e o seu guarda-livros emque o leitor quase perde o fôlego, tão longa é a lista de produtos e lucros apresentada,lista essa que passamos a transcrever:“...D. João, quinto já se sabe de seu nome na tabela dos reis, sentado numacadeira de braços de pau-santo, para mais comodamente estar e assim com outrosossego atender ao guarda-livros que vai escriturando no rol os bens e as riquezas, deMacau as sedas, os estofos, as porcelanas, os lacados, o chá, a pimenta, o cobre, oâmbar cinzento, o ouro, de Goa os diamantes brutos, os rubis, as pérolas, a canela,mais pimenta, os panos de algodão, o salitre, de Diu os tapetes, os móveis tauxiados, ascolchas bordadas, de Melinde o marfim, de Moçambique os negros, o ouro, de Angolaoutros negros, mas estes menos bons, o marfim, que esse sim, é o melhor do ladoocidental da África, de São Tomé a madeira, a farinha de mandioca, as bananas, os48GORANI, Giuseppe, Portugal (A corte e o país nos anos de 1765 a 1767), Lisboa, Lisóptima Edições,1989, p.36.49“Nesse tempo, as dez maiores cidades europeias eram Londres, com uma população que oscilava entre900 000 e um milhão de habitantes; Paris (550 000- 600 000), Nápoles (400 000), Lisboa (350 000),Constantinopla (mais de 300 000), Moscovo (300 000), São Petersburgo (270 000), Viena (230 000),Amsterdão (220 000) e Berlim (170 000); a estas seguiam-se Roma, Dublin e Madrid.” RUDÉ, Georges,A Europa no século XVIII, 1ª ed., Lisboa, Gradiva, 1988, p.87.20
  21. 21. inhames, as galinhas, os carneiros, os cabritos, o indigo, o açúcar, de Cabo Verdealguns negros, a cera, o marfim, os couros, ficando explicitado que nem todo o marfimé de elefante, dos Açores e Madeira os panos, o trigo, os licores, os vinhos secos, asaguardentes, as cascas de limão cristalizadas, os frutos, e dos lugares que hão-de vir aser Brasil o açúcar, o tabaco, o copal, o indigo, a madeira, os couros, o algodão, ocacau, os diamantes, as esmeraldas, a prata, o ouro, que só deste vem ao reino, anopor ano, o valor de doze a quinze milhões de cruzados, em pó e amoedado, fora o resto,e fora também o que vai ao fundo ou levam os piratas, claro está que este todo não é orendimento da coroa, rica sim, mas não tanto, porém, tudo somado, de dentro e defora, entram nas burras de el-rei para cima de dezasseis milhões de cruzados, só odireito de passagem dos rios por onde se vai às Minas Gerais rende trinta milcruzados...”50.Onde o monarca gastou mais dinheiro foi em obras de cariz religioso51. Nocapítulo atrás citado, deparamo-nos com a preocupação do rei em distribuirsensatamente a riqueza acumulada pela coroa portuguesa. Assim, não esquecendo asalvação da sua alma, decide “Vá pois ao frade e à freira o necessário, vá também osupérfluo, porque o frade me põe em primeiro lugar nas suas orações, porque a freirame aconchega a dobra do lençol...”52.50SARAMAGO, José, op. cit., p. 222/3.51CRESPO, Ángel, Lisboa Mítica e Literária, Lisboa, Livros Horizonte, 1987,p. 84: “Entre asrestaurações e melhoramentos de igrejas ordenadas por ele, figuram as obras efectuadas na de D.Domingos e a instalação na de S. Roque da capela de S. João- Baptista, trazida de Itália.” . Sobre osgastos de D. João V comenta Mário Domingues: “Nem têm conta as despesas enormes que D. João Vfazia com objectos de devoção, o que ele pagava para dotes de freiras, para missas pelas almas doPurgatório, para reedificação, construções, consertos e paramentos de igrejas, tanto no reino como noestrangeiro.” In D. João V, o homem e a sua época, op. cit., p.305.52SARAMAGO, José, op. cit., p. 223.21
  22. 22. Não será, pois, de estranhar toda a magnificência que revestia o Patriarcaquando este saía dos seus aposentos. Relatos de vários estrangeiros que estiveram emPortugal no século XVIII provam a ostentação excessiva daqueles que exerciam altoscargos na igreja e que contrastava escandalosamente com a miséria em que o povomiúdo vivia e com a lição de humildade divulgada por Cristo (em nome de quem tantasatrocidades se cometiam). Charles Frédéric de Merveilleux53chega a indignar- e com aopulência do Patriarca de Lisboa que “...ultrapassa a do Papa nos dias de maiorsolenidade”54.Para este francês “Os paramentos preciosos e a prata destinados aoserviço da igreja patriarcal absorveram as riquezas de muitas frotas do Brasil.”55.Sobre o Patriarca realçamos os comentários tecidos no capítulo XII do Memorialonde surge enfeitado“...com preciosos paramentos e mitra do maior custo, adornada depedras56do Brasil...”57. Esta riqueza manifestava- se igualmente à mesa “... doinquisidor-mor, soberbíssima de tigelas de caldo de galinha, de perdigões, de peitos devitela, de pastelões, de pastéis de carneiro com açúcar e canela, de cozido à castelhanacom tudo quanto lhe compete...”58, enquanto nas ruas sobejavam miseráveis pedintes.Costigan realça que o clero e a nobreza portugueses “...fazem gemer o povo.”59ironizando com o nome dado a uma igreja do Porto- A Igreja do Clero Pobre60- já que oclero pode ser tudo em Portugal, menos pobre,53Num texto intitulado “Memórias instrutivas sobre Portugal- 1723-1726”.54CHAVES, Castelo- Branco (trad., pref. e notas), O Portugal de D. João V visto por três forasteiros,Lisboa, Biblioteca Nacional, 1989,p. 222.55Idem, Ibidem, p.222.56Os sublinhados são nossos.57SARAMAGO, José, op. cit., p. 130.58Idem, p. 47.59COSTIGAN, Arthur William, Cartas sobre a Sociedade e os Costumes de Portugal (1778- 1779), Trad.,pref. e notas de Augusto Reis Machado, volumes I e II, Lisboa, Lisóptima Edições, 1989,volume I, p.194.60Idem, p. 200.22
  23. 23. Vimos, pois, que Portugal era um país privilegiado no que concerne à riquezados cofres do Estado61. No Memorial do Convento de José Saramago, D. João V afirmamesmo que “...somos a nação mais rica da Europa, não devemos nada a ninguém epagamos a todos...”62.Por oposição a toda a ostentação dos monarcas, seus familiares, corte e clero,Lisboa formigava de pedintes de todas as idades e de ambos os sexos. Em LisboaSetecentista vista por estrangeiros, as autoras realçam a total ausência de asilos parapobres, apesar da opulência da capital. No entanto, tal não significava que os pedinteslisboetas passassem privações alimentares, pois a caridade, nem sempre generosa, era asuficiente para os pobres sobreviverem sem grandes dificuldades63. Assim, amendicidade tornou- se legítima com o passar dos séculos e perfeitamente aceite pelasociedade. Hans Christian Andersen, que no século XIX esteve no nosso país, ao ver aquantidade de mendigos que existiam na cidade de Lisboa não se surpreendeu erelembrou mesmo que o nosso grande poeta, Camões, tinha um escravo que pedia parao seu amo, dado o estado de absoluta miséria em que aquele se encontrava64.Um estrangeiro que passou pela capital e que se mostrou bastante crítico quantoà quantidade de pobres que deambulavam por Lisboa foi o já referido Ruders que não61“Construindo palácios para aí alojar a sua corte, os seus ministros e as suas amantes, largas avenidaspara aí fazer desfilar os seus coches e os seus vistosos guardas, teatros para neles se divertir e se dar aver, igrejas para nelas se encomendar a Deus ou mais perfeitamente sacralizar a sua função, o monarcados séculos XVII e XVIII comporta- se como uma pessoa de desejos e de meios ilimitados.” In,BEBIANO, Rui, D. João V, poder e espectáculo, Aveiro, Livraria Estante, 1987,p. 100.62SARAMAGO, José, op. cit., p.280.63SANTOS , Piedade Braga et alii , Lisboa Setecentista vista por estrangeiros, Lisboa, Livros Horizonte,1987, p. 49.64ANDERSEN, Hans Christian, Uma visita em Portugal em 1866, 2ª ed., Lisboa, Instituto de Cultura eLíngua Portuguesa, 1984.23
  24. 24. compreende o facto de um país que recebe inúmeras riquezas do Brasil poder ostentartamanha miséria. Este viajante faz- nos um relato bastante completo sobre ofuncionamento da caridade na Lisboa de finais do século XVIII. Diz- nos ele que “Todaessa profusão de ouro e riquezas forma um contraste muito saliente com a miséria queem muitos outros pontos da cidade não é raro fazer- se notar.(...) As ruas sãoformigueiros de mendigos, e muitos deles estropiados, arrastando- se sem pernas.Alguns deles são cegos, mas andam sós, munidos de uma grande bengala com que vãotacteando o terreno. (...) Os estrangeiros dizem que os portugueses são duros para ospobres (...) mas isto não é exacto; a grande multidão de pobres que, sem trabalho deespécie alguma, vive exclusivamente da mendicidade basta para mostrar o contrário.Existem aqui casas muito ricas, que, em certos dias de semana, à semelhança doque se faz nos conventos, distribuem comida quente a numerosos pobres. E esseespectáculo de cinquenta ou cem esfarrapados, mulheres e crianças na frente de umacasa, devorando com sofreguidão uma tigela de caldo ou um prato de toucinho, é naverdade comovedor.De tarde, apenas escurece, certas pessoas percorrem a cidade cantando Avé-Marias e recolhendo por caridade esmolas para os chamados “pobres honteux”65.Como vemos, o erário público não destinava parte do seu orçamento a casasdestinadas à caridade, cabendo essa tarefa aos conventos, mosteiros e às casas maisricas.A mendicidade é igualmente explorada com um elevado teor crítico na obra emestudo neste trabalho, não fosse ela o espelho perfeito dos maus vícios e costumes daépoca. O herói da obra, Baltasar Sete- Sóis, uma personagem fictícia que bem podiarepresentar toda uma classe de homens amargurados com os sonhos não alcançados,surge na trama, inicialmente, como um ex-soldado que perdeu a mão esquerda na guerra65RUDERS, Carl Israel, op. cit., p.105.24
  25. 25. e, posteriormente, como consequência desta deficiência física, como pedinte. “Por serpouco o que pudera guardar do soldo, pedia esmola em Évora para juntar as moedasque teria de pagar ao ferreiro e ao seleiro se queria ter o gancho de ferro que lhe haviade fazer as vezes da mão.”66.No entanto, quando já possuía o dito gancho usava-o para incentivar agenerosidade renitente dos transeuntes que contribuíam, com pouco agrado, para o seusustento67.A caridade tornou- se, assim, um verdadeiro culto, fomentada pelos própriosgovernantes. Esta realidade surge no capítulo XXII quando o cortejo real se dirige aElvas para se efectuar a “troca” das princesas, futuras rainhas de Portugal e Espanha. “Àestrada saía o povo miúdo daquelas terras e de joelhos implorava a piedade real,parece que adivinhavam os míseros, porque a seus pés levava D. João V um baú cheiode moedas de cobre, que ia lançando, às mãos cheias...”68.Também Beckford faz uma antipática referência ao estímulo à mendicância pelarainha, D. Maria I, quando esta estava de visita a Sintra. “Cardumes de mendigosvinham ali desaguar de todos os quarteirões da cidade, na esperança de arranjaremlugar junto dos portões do palácio para verem sair a Rainha. Sua majestade é umagrande mãe indulgente para estes rudes filhos da ociosidade e raramente sobe para asua carruagem sem antes ter distribuído consideráveis esmolas.”69.Este inglês associa sempre a mendicidade à ociosidade o que, até certo ponto,seria verdade. No entanto existiam verdadeiros seres decadentes que sobreviviam àfome graças à caridade de gente mais rica, não conhecendo o significado de palavrascomo abrigo, conforto ou higiene.66SARAMAGO, José, op. cit., p. 32.67Idem, p. 33.68Idem, p. 310.69BECKFORD, William, Diário de William Beckford em Portugal e Espanha....175/625
  26. 26. Os próprios presos, no século XVIII, não recebiam qualquer tipo de alimento,tendo de pedir esmola para sobreviver. Há a realçar o relato de Charles Dellon, umfrancês condenado pela Inquisição de Goa por heresia, que permaneceu na prisão emLisboa durante algum tempo, em 1677, antes de ser libertado e considerado inocente dassuas acusações. Este ex- “forçado” afirma que “Além da alimentação que lhes é dadapelo príncipe, os forçados recebem frequentes esmolas, pelo que não passam fome.”70No entanto, com o passar do tempo, a situação dos prisioneiros foi- se agravando.Ruders, um século após a passagem de Dellon pelo nosso país, é, talvez, o autor que nosdá um retrato mais pormenorizado sobre a Lisboa de finais de setecentos. Ao longo dassuas cartas mostra- se verdadeiramente indignado com a situação precária em que ospresos vivem. Para este, “...o pior de tudo é que aos presos se não fornece alimento deespécie alguma se eles não têm dinheiro para o comprar.”71.Estes recorriam, por isso, ao peditório aos transeuntes que, por sua vez, se nãocontribuíssem, arriscavam- se a ser oralmente muito maltratados.Urge fazer a distinção entre aqueles que pedem por necessidade e os quemendigam por preguiça. Como esta é considerada a mãe de todos os vícios, não é difícilver- se nesta Lisboa de outrora, “...pessoas bem vestidas, cavaleiros e frades, tantobrancos como pretos, pedindo esmola.”72.Uma classe que, não sendo de mendigos, pois encontrava- se ao serviço dacoroa, mas vivia miseravelmente, era a dos soldados, na qual se inserira o já citadoBaltasar. “A tropa andava descalça e rota, roubava os lavradores, recusava- se a ir à70CHAVES, Castelo- Branco (apres., trad. e notas), Portugal nos séculos XVII e XVIII , QuatroTestemunhos, Lisboa, Lisóptima Edições, 1989, p. 40.71RUDERS, Carl Israel, op. cit., p.107.72Idem, p. 106.26
  27. 27. batalha...”73.Neste relato temos a miséria tristemente associada a crimes como roubos,violações e mesmo homicídios, pois o país era abundante em Baltasares resultantes deuma má governação em que o monarca apenas tinha em conta o luxo, a ostentação e avaidade.Tal como os mendigos, igualmente abundante era o grupo dos bandidos que, acada esquina, fazia perigar a vida de cidadãos já suficientemente maltratados, numasociedade em que o crime raramente era punido.Em suma, e tal como afirma Beckford, “...não há povo que mais estime oaparato;”74e esta insensatez do governante contribuiu para a propagação da miséria eda imundice pelas ruas de Lisboa. Num país de exageros ridículos, o povo inocentesofre as consequências da má gestão dos dinheiros públicos.73SARAMAGO, José, op. cit., p. 32.74BECKFORD, William, op. cit., p. 163.27
  28. 28. V- A FESTA DOS AUTOS- DE- FÉ“Porém, hoje é dia de alegria geral, porventura a palavraserá imprópria, porque o gosto vem de mais fundo, talvez da28
  29. 29. alma, olhar esta cidade saindo de suas casas, despejando-se pelas ruas e praças, descendo dos altos, juntando- se noRossio para ver justiçar a judeus e cristãos- novos, a heregese feiticeiros, fora aqueles casos de menos correntementequalificáveis, como os de sodomia, molinismo, reptizarmulheres e solicitá-las, e outras miuçalhas passíveis dedegredo ou fogueira.”75O dia 23 de Maio de 1536 ficou fatalmente marcado, na História de Portugal,pela concessão de uma bula pontifícia em que Paulo III reconhecia a independência daInquisição portuguesa em relação à espanhola, iniciando- se assim quase três séculos dehorrores76.Em 1522, mal subiu ao trono, D. João III pediu ao papa Adriano VI a concessãoda Inquisição a Portugal, tentando obter o “privilégio” que Espanha detinha há 44anos77. No entanto, sendo já papa Clemente VII, a primeira bula foi recebida apenas a21 de Dezembro de 1531, tendo sido seguida de uma outra dois anos mais tarde. Masapenas em 1536 se concederam a Portugal os direitos a instituir tão ignóbil e repugnanteinstituição que inúmeras vítimas viria a amedrontar, torturar, roubar e assassinar.“No princípio procedia a Inquisição, no crime da heresia e apostasia, como node homicídio e furto, publicando os nomes das testemunhas aos réus, sem haverconfiscação de bens e conservando os presos em cárceres públicos. (...)Como, porém,esta não era a melhor forma para se executarem livremente os preceitos inquisitoriais,75Idem, p. 46.76A extinção da Inquisição estabelece- se em 31 de Março de 1821.77Cf. MENDONÇA, José e MOREIRA, António, História dos Principais Actos e procedimentos daInquisição em Portugal, Lisboa, INCM, 1980, pp 115 a 129.29
  30. 30. recorreu- se ao papa para haver confiscação de bens e ser o processo dos réus todo emsegredo, e tanto em segredo se fazia que grande parte deles ignorava o porque erampresos e mesmo porque iam morrer.”78.A tarefa de espiar e prender os suspeitos de heresia estava entregue aosFamiliares do Santo Ofício, cargo desprezível a que muitos aspiravam, desde Condes aDuques. O próprio Marquês do Pombal desempenhou, antes de pertencer ao governo deD. José, tal honroso posto. Muitos nobres, orgulhosos da sua condição de esbirros,espiões malévolos que vigiavam tudo e todos79, chegavam a referir tal função na suaárvore genealógica, tamanha era a falta de sensatez do português de então.Contrariamente a todo o mistério que envolvia o processo de investigação, ojulgamento e a condenação dos réus, opunha- se a execução daqueles que era feitadurante um auto- de- fé, manifestação pública que pretendia dar a conhecer a toda asociedade os acusados de heresia.Como se processava um auto- de- fé? A esta questão reponde Monsenhor IsaíasRosa Pereira num artigo intitulado “Para a História da inquisição em Portugal: o que eraum auto- de- fé”: “Auto- de- fé era uma cerimónia que tinha por fim manifestar aopúblico a autenticidade da fé católica e de apresentar e exemplo de pessoas que tinhamerrado na fé mas que se tinham convertido e eram, por isso, publicamentereconciliadas e reintegradas na perfeita comunhão eclesial.”80.78Idem, p. 121/2.79Gorani, já referido neste trabalho, apesar de ser próximo do Marquês do Pombal foi preso pelaInquisição por ter sido visto a conversar com um suspeito. Cf. GORANI, Giuseppe, op. cit., pp 201 a 206:“...por então, em Portugal, já o irmão se não fiava no irmão, que o podia denunciar e fazer prender; ofilho denunciava o pai e o pai delatava o filho; o que recebera benefícios traía o benfeitor e o criadodenunciava o patrão.”.80PEREIRA, Isaías Rosa, “Para a História da Inquisição em Portugal: o que era um auto- de- fé”, OsPortugueses e o Mundo, Conferência Internacional (Volume II, História, Filosofia e Direito), Porto,30
  31. 31. Na sociedade lisboeta de setecentos, época que nos propomos estudar, os autos-de- fé eram verdadeiros entretenimentos em que os pobres penitentes desfilavam diantede uma assembleia que vibrava com a celebração da cerimónia. “No verso e reverso damedalha, o auto- de- fé é festa para o povo e angústia para os condenados e suasfamílias.”81.Enormes tribunas, os cadafalsos, com capacidade para três mil pessoas eramerguidas no Rossio. Entre gritos e insultos, cada condenado que se havia declaradoarrependido era acompanhado por dois frades que rezavam por ele. Quanto aoscondenados à fogueira, os relaxados, levavam consigo um irmão de caridade queprocurava chamá- lo à razão. Se se declarassem arrependidos dos seus “crimes”, cujoteor muitas vezes desconheciam, eram poupados ao lume, mas eram presos oudegredados. Em ambos os casos era inevitável a confiscação dos seus bens querevertiam a favor da coroa82. Charles de Merveilleux, no seguimento de um auto- de- fécomenta que “ O que se apura líquido entre dois autos- de- fé entra realmente noscofres do rei, a menos que Sua Majestade entenda que deva premiar com qualquer dosbens confiscados algum velho oficial que o tenha servido bem, um favorito, um ministroou pessoa de qualidade desamparada da fortuna.”83.Assim, a desgraça de uns era a sorte de outros que lucravam com a condenaçãode gente que, quanto mais rica era, mais afortunados (em ambos os sentidos da palavra)os fazia84.Fundação Eng. António de Almeida, 1985 pp. 173 a 180.81MONIZ, António, op. cit., p. 47.82“... a actividade inquisitorial proporcionou aos monarcas portugueses lucros fabulosos.”, InGRIGULÉVITCH, p. 314.83O Portugal de D. João V visto por três forasteiros, op. cit. p. 181.84“Pelo facto de a Inquisição obter os seus proventos quase exclusivamente das confiscações, tinha ocuidado de seleccionar as vítimas sobretudo nas classes médias de mercadores, artífices e membros dasprofissões liberais pelas quais muitos dos judeus conversos e seus descendentes haviam sido31
  32. 32. Ora, durante a cerimónia os relaxados vestiam o hábito penitencial, o sambenito,onde figurava o seu retrato entre umas insígnias de fogo viradas para cima. Seeventualmente o condenado à fogueira fosse considerado menos culpado e a sua penafosse alterada, as chamas eram voltadas para baixo. Aos que o solicitavam, eraconcedida uma benevolência: eram garrotados, estrangulados, antes de serem ateadas aschamas. Nem os desgraçados que já haviam perecido se livravam de tal ritual, comoconta François de Tours, frade capucinho que assistiu a um auto- de- fé que se realizouem Coimbra: “Na manhã de 14 de Junho de 1699, pelas 6 horas, vimos sair daInquisição a cruz dos reverendos padres dominicanos e logo após 86 prisioneiros e aestátua de um outro que morrera na prisão impenitente ,acompanhada de uma caixaonde estavam pintadas as chamas do inferno.(...) Os irmãos da misericórdia emnúmero de mais de 40, tinham na mão uma grande tocha de cera branca acesa e assim(...) metiam- nos um em cada uma delas (barracas) de madeira que eu já tinha ido verde dia, metiam- nos um em cada uma delas, ficando sentados num pequeno banco. Ocofre onde estavam os ossos daquele homem que morreu impenitente na prisão, foicolocado numa dessas barracas para também ser queimado.”85.Tão ridículo era este protocolo como o facto de a multidão rejubilar com esteespectáculo vergonhoso. Contudo, não podemos esquecer a mentalidade da época,intensamente ligada aos valores católicos que, por outro lado, não seguiampropriamente a doutrina de tolerância e modéstia divulgada por Jesus. Como tal, “O diade publicação do auto era festivo no palácio do Santo Ofício, a julgarmos pelaquantidade de compotas e especialidades variadas de confeitaria(...). Segundo o rolabsolvidos.” In CAMELO, José António e PECANTE, Maria Helena, O Judeu de Bernardo Santareno,Porto, Porto editora, 1988, p. 59.85CHAVES, Castelo- Branco, Portugal nos séculos XVII e XVIII, Quatro testemunhos, op. cit., pp. 68 a72.32
  33. 33. das despesas do auto de 1646 em Lisboa, gastaram- se nesses acepipes 64 820réis...”86.No texto atrás referido, François de Tours faz uma referência digna de nota. Dizele que “...os inquisidores somente condenam os criminosos a penas temporais, porquesão padres e a igreja tem horror ao sangue87; mas como a justiça secular está namesma sala em que eles julgam aqueles que não pedem misericórdia e não confessamos seus crimes, eles entregam- nos à justiça secular que (...) os condena ao fogo.”88.Abstemo- nos de comentar esta passagem , tão grande é a nossa incredulidade peranteeste pacto sórdido entre a justiça secular e a inquisitorial.Tal como o dito frade capuchinho que foi presenciar o auto- de- fé porque lhe“...afiançaram que era coisa digna de ser vista.”89, vários estrangeiros que passarampor Portugal no tempo de D. João V assistiram, atónitos, às celebrações. CharlesFréderic de Merveilleux, estando em Portugal há pouco tempo foi informado de emLisboa se estar a preparar um auto- de- fé: “Voltei a Lisboa para poder assistir à festa.Chamo festa a essa horrível cerimónia por ela constituir para os portugueses umverdadeiro divertimento.”90.Mais adiante continua: “...os portugueses, nesses dias,estão tão excitados com a glória da Inquisição como noutros tempos estavam asbacantes com a glória do deus pagão.91”. De facto, “A população estava na ruadurante horas e dias para não perder um espectáculo incomparável.”92.86SARAIVA, António José, Inquisição e Cristão- Novos, 5ª ed., Lisboa, Editorial Estampa, 1985, p. 104.87O sublinhado é nosso.88CHAVES, Castelo- Branco, op. cit., p. 71.89Idem, Ibidem, p. 68.90Idem, O Portugal de D. João V visto por três forasteiros, op. cit., p. 168.91Idem, Ibidem, p. 178.92SARAIVA, António José, op. cit., p. 108.33
  34. 34. Também no Memorial se explora esta face obscura da História de Portugal. Onarrador não esquece a alegria dos espectadores que dramaticamente contrasta com osrostos dolorosos daqueles que estão sob o dedo acusador da Inquisição. Os réus sãoinsultados, maltratados e agredidos fisicamente com paus e pedras, enquanto dezenas demulheres se colocam às janelas, ricamente vestidas e adornadas, para assistirem àcelebração: “...está o Rossio cheio de povo, duas vezes em festa por ser domingo ehaver auto- de- fé, nunca se chegará a saber de que mais gostam os moradores, sedisto, se das touradas (...). Nas janelas que dão para a praça estão as mulheres,vestidas e toucadas a primor, à alemoa, por graça da rainha .(...) diante das fogueirasarmou- se um baile, dançam os homens e as mulheres, el- rei retirou- se, viu, comeu eandou...”93.Esta insensibilidade sádica e cruel dos observadores que assistiam à queima doscondenados surge novamente no final da obra. O Memorial do Convento termina com acremação dos sentenciados onde se incluía Baltasar que Blimunda procurara, em vão,durante nove anos, e António José da Silva, o Judeu94. O primeiro possuía sobre si aacusação de feitiçaria e de pacto com o demónio. O segundo era suspeito de heresia95.93SARAMAGO, José, op. cit., pp. 46 a 50.94Idem, p. 351.95“A 19 de Outubro de 1739, por sentença da Inquisição de Lisboa, foi garrotado com a idade de 34anos e queimado depois António José da Silva, célebre autor de comédias(...). (António José)permaneceu preso durante 2 anos e acabou por perecer na fogueira. A sua mulher deu à luz na cela. Elae a mãe do executado foram condenadas a longos períodos de prisão.” In GRIGULÉVITCH, Iossif, op.cit., p. 319/ 320. Para perceber o mistério que envolveu o processo inquisitorial de António José da Silvaver SARAIVA, António José, Inquisição e Cristãos- Novos, op. cit., pp 85 a 90.34
  35. 35. “Assim, se obras há que tentam desculpabilizar a Inquisição e o seu “OfícioSanto”, o que se faz no memorial é, bem pelo contrário, viabilizar uma outradimensão- a da linha ideológica anti- inquisitorial.”96.VI-PADRE BARTOLOMEU DE GUSMÃO, UM GÉNIOPERSEGUIDO(RELIGIÃO VS CIÊNCIA)96ARNAUT, Ana Paula, op. cit., p. 50.35
  36. 36. “... faz dois anos que voei, primeiro fiz um balão queardeu, depois construí outro que subiu até ao tecto dumasala do paço, enfim outro que saiu por uma janela da Casada Índia e ninguém tornou a ver, Mas voou em pessoa, ou sóvoaram os balões, Voaram os balões, foi o mesmo que tervoado eu, Voar balão não é voar homem, O homem primeirotropeça, depois anda, depois corre, um dia voará, respondeuBartolomeu Lourenço , mas logo se pôs de joelhos porqueestava passando o Corpo de Nosso Senhor para algumdoente de qualidade...”97O grande percursor da conquista do ar foi o português Bartolomeu Lourenço deGusmão que em 1709 conseguiu fazer com que uma máquina , a “Passarola” se elevassecheia de ar quente perante uma corte estupefacta.Pouco se sabe acerca do “Voador”, como ficou conhecido o padre inventor. NoMemorial do Convento o Padre Bartolomeu desempenha um importante papel nodesenrolar da trama, principalmente porque ele representa a inovação, o desejo deexperimentar e de contestar dogmas. Em suma, ele representa a Ciência que se viu, noséculo XVIII, incrementada e fortalecida98.97SARAMAGO, José, op. cit.,p. 189.98No século XVIII “Esta predilecção pela experiência e pelo método indutivo seduz então os espíritoscultos. Há tertúlias literárias onde se fazem experiências de física; é a época da instalação dos primeirospára- raios; o invento da passarola do Padre Bartolomeu de Gusmão é um dos muitos episódios dessemovimento de curiosidade científica.” In SARAIVA, José Hermano, op. cit., p. 245.36
  37. 37. Desde sempre a Igreja se mostrou pouco receptiva a novidades que pudessemcontestar as suas crenças e vários foram os sábios que sofreram as suas represálias, poiseram vistos pelo Santo Ofício como hereges.“O primeiro a formular o conceito “amplo” sobre a história da Inquisição foiLuís Paramo inquisidor, siciliano de origem espanhola.(...) Em sua opinião , Deus foi oprimeiro inquisidor, e Adão e Eva os primeiros hereges: Deus expulsou do paraíso osprimeiros seres humanos depois de os submeter a um interrogatório e um julgamentosecretos.”99.Além do episódio da expulsão de Adão e Eva do Paraíso, o Antigo Testamento100é rico em situações apocalípticas em que o Homem foi castigado por desobedecer aDeus. È o caso da passagem da Arca de Noé101, da Torre de Babel102, da destruição dascidades Sodoma e Gomorra103, etc.Ainda “Segundo Paramo, Jesus Cristo foi o primeiro inquisidor do NovoTestamento.”104.Assim, os representantes da Igreja julgavam- se no direito de julgar todosaqueles que se desviassem dos dogmas bíblicos e pusessem em causa os ensinamentospor ela emitidos.Segundo a doutrina eclesiástica, a Terra era o Centro do Universo, andando oSol à sua volta. No entanto, vários foram os astrónomos, desde Aristarco de Samos aGalileu Galilei, a contestar tal afirmação.99GRIGULÉVITCH, Iossif, História da Inquisição, Lisboa, Editorial Caminho, 1990, p. 29/ 30.100Bíblia Sagrada, 16ª ed., Lisboa, Difusora Bíblica, 1992.101Idem, Gn, cap. 6.102Idem, Gn, cap. 11.103Idem, Gn, cap. 19.104Idem, p. 31.37
  38. 38. Na obra De revolutionibus orbis planetarum , publicada em 1543, NicolauCopérnico apresenta uma teoria heliocêntrica ,mas “Estava- se muito longe de preverentão a influência decisiva que esta obra viria a ter na reforma da ciência, de modoque ela não suscitou logo qualquer alarme nas fileiras da física tradicional.”105.No entanto, este astrónomo inibiu- se de apresentar provas científicas do queafirmava e, por isso, não foi levado muito a sério106.A Igreja Católica ,que ao longo de toda a Idade Média e durante grande parte doRenascimento fora a única autoridade intelectual da Europa, pois os eruditos erammembros do clero e as Universidades eram dirigidas pela Igreja, vê a sua influência emperigo quando Galileu Galilei surge a provar a teoria de Copérnico. Este astrónomo,nascido a 15 de Julho de 1567, faleceu em 1642 após permanecer durante cinco anosencarcerado, pois teve coragem para divulgar o que Copérnico escondera por temerrepresálias.Foram vários os eruditos a sofrer contestação por parte da Igreja Católica. “ABruno le quemaron, a Galileo le encarcelaron y le obrigaron a repudiar susdescobrimientos ,Copérnico no se atrevió, mientras vivía, a comunicar al mundo lo queveía, a Descartes le aterrorizaram y a Newton le opusieron amarga resistencia.”107.Também Charles Darwin, já no séc. XIX, viu a Igreja opor- se severamente à suaobra A Origem das Espécies por meio da Selecção Natural ou a Preservação de RaçasFavorecidas na Luta pela Vida onde, entre outras ideias, se explorava o facto de ohomem e o macaco terem um antepassado comum e de aquele ter evoluído ao longo de105ALBUQUERQUE, Luís de, Para a História da Ciência em Portugal, Lisboa, Livros Horizonte, 1973, p.222 e ss.106Para um maior conhecimento sobre este assunto, ver KUHN, Thomas S. , A revolução Copernicana,Lisboa, Edições 70, 1957.107MANN, Edward, La Inquisición (lo que fue y lo que hizo), 1ª ed., Barcelona, Editorial Humanitas,1991, p. 347.38
  39. 39. milhões de anos refutando a teoria que Deus teria criado os primeiros Homem e Mulherno mesmo dia. Seguiram- se inúmeras discussões entre os criacionistas, partidários daIgreja Católica, e os evolucionistas, os seguidores de Darwin.No Memorial do Convento o representante da inovação e da ousadia é o PadreBartolomeu que se atreve a acreditar que o homem pode voar, ainda que indirectamente.Mas a Passarola não foi o seu único invento108. Em 1704 ou antes, quando aindafrequentava o Seminário no Brasil, inventou uma máquina que, mecanicamente, elevavaa água até ao dito estabelecimento quando esta ficava a cem metros de distância e a umnível inferior ao do edifício.Chegou a Portugal em 1708, matriculando- se em Coimbra na Faculdade deCânones. Nesse ano terá reprovado porque, segundo parece, andaria pensativo com uminvento apaixonante: uma máquina de voar. Nesse tempo voar era vedado aos homenspor decisão divina e por imposição física. Não esqueçamos que Ícaro, figura mitológica,foi castigado pelos deuses por ter fabricado umas asas de cera que se derreteram aochegar perto do sol, precipitando consigo o infeliz aventureiro.“Transgredir o que até então se julgava uma lei imposta pela Providência econfirmada pela própria natureza, afigurava- se um sacrilégio aos olhos dos maisdoutos teólogos, que já lançavam olhares carregados de suspeição às estranhasactividades do arrojado cientista.”109Por ser considerado herege, o Padre Bartolomeu era olhado com grandedesconfiança por todos, chegando a comentar- se se ele não teria um pacto com odemónio.108SARAMAGO, José, op. cit., p. 187: “... é certo que lhe não faltam ideias de invenção, o carvão feitode lama e mato, um novo modo de moer para os engenhos do açúcar, mas a passarola é que é a supremainvenção...”109DOMINGUES, Mário, op. cit., p. 51.39
  40. 40. “Bartolomeu Lourenço que tem diante dos próprios olhos um maior pecado seu,aquele de orgulho e ambição de fazer levantar um dia aos ares, aonde até hoje apenassubiram Cristo, a Virgem e alguns escolhidos santos...”110foi intimidado pelo SantoOfício que o acusava de feitiçaria. Valeu- lhe a protecção do rei que sentia admiraçãopelo cientista e não se deixou influenciar pelos membros do Clero. Não podemosesquecer o importante contributo de D. João V para o desenvolvimento da Ciência emPortugal, apesar de o seu interesse por esta ser artificial111.Foi em 8 de Agosto de 1709 que se deu o acontecimento mais fantástico emPortugal no séc. XVIII- um engenho elevou- se no ar no pátio da Casa da Índia. Apesaro inventor não ter voado foi apelidado de “Voador” e acusado de acções demoníacas,vendo- se obrigado, para bem da sua integridade física ,a abandonar os trabalhos deaperfeiçoamento da máquina.Contudo, e como a Literatura é um meio de transformação do real112, noMemorial o cientista vai mais longe, chegando a viajar na Passarola para fugir aosfamiliares do Santo Ofício:110SARAMAGO, José, op. cit., p. 84.111“O interesse pelas observações astronómicas inicia- se, entre nós, exactamente com D. João V, egraças à sua protecção, não porque o monarca tivesse inclinação particular para tais assuntos, mas porsaber que lá fora, na França ou na Inglaterra, os reis protegiam os investigadores científicos...” InCARVALHO, Rómulo de, A Astronomia em Portugal no século XVIII, Lisboa, Livraria Bertrand, 1985,p. 40.112No Dicionário de Narratologia , acerca da ficcionalidade, diz- se que “...a constituição de um universoficcional não inibe o autor de utilizar figuras e acontecimentos históricos.”, REIS, Carlos & LOPES, AnaCristina M., Dicionário de Narratologia, 2ª ed., Coimbra, Livraria Almedina, 1990, p.155.40
  41. 41. “O padre Bartolomeu Lourenço entrou violentamente na abegoaria, vinhapálido, lívido, cor de cinza, como um ressuscitado que já fosse apodrecendo, temos defugir, o Santo Ofício anda à minha procura, querem prender- me...”113.Arthur William Costigan, apesar de ter estado em Portugal já no final do séculoXVIII, depara- se com a mesma mentalidade obtusa que caracterizou o reinado doMagnânimo na primeira metade do mesmo. Numa das cartas que enviou para Inglaterraao seu irmão, a propósito do cônsul do Porto e acerca do seu gosto pela astronomia e doconhecimento em geral, indigna- se com o facto de a Inquisição o ter visitado poiscorria o boato “... que o cônsul era um mágico que, pela sua arte e auxílio do diabo,atraía os raios das nuvens para o seu jardim. Parece que tinha sobre a casa dele umabarra de ferro horizontal, numa extremidade da qual estava suspensa uma cadeia deferro114(...) e, quando havia uma tempestade, o relâmpago, correndo ao longo dacadeia, fizera algumas vezes buracos na terra mole (...) e este caso levantou granderumor na cidade ...”115.Uma ano mais tarde, em 1779, um jovem estudante, discípulo e admirador docônsul, sobre os estudos que empreendera, escrevia a um padre de quem se tornaragrande amigo: “... aconteceu-me nos estudos teológicos o contrário do queexperimentei em muitos anos116, em especial nos de exame sintético e analítico (...).Mas113SARAMAGO, José, op. cit., p. 189.114O pára- raios foi inventado por Franklin em 1752.115COSTIGAN, Arthur William, op. cit., vol. I, p. 158.116Sobre as diversas interpretações da Bíblia ver MANACORDA, Mario Alighiero, Leitura Laica daBíblia, Lisboa, Editorial Caminho, 1993, p. 52: “Foi a fidelidade à letra que deu origem a todas asdúvidas de interpretação, à moderna filologia bíblica e, em última instância, ao repúdio da sacralidadedas escrituras.”.41
  42. 42. encontrei todas estas circunstâncias tristemente reprovadas nas minhas elucubraçõesteológicas...”117.A intolerância e a ignorância da Inquisição em impedir o progresso científicomanifestam- se, no Memorial do Convento, através da figura do Padre Bartolomeu quese vê obrigado a fugir no seu engenho para que uma fogueira não seja a sua últimamorada.VIII- CONCLUSÃO117COSTIGAN Arthur William, op. cit., vol. II, pp 45 a 55.42
  43. 43. No Dicionário de Narratologia do Prof. Dr. Carlos Reis acentua- se que “...oromance histórico exige não só a colocação da diegese em épocas históricas remotas,como uma estratégia narrativa capaz de reconstituir com minúcia os componentessociais, axiológicos, jurídicos e culturais que caracterizam essas épocas;”118.De facto, o Memorial retrata o século XVIII com uma minúcia quasejornalística. Nele surge- nos um rei obcecado pelo luxo e pelos floreados a esbanjar umafortuna que, supostamente, deveria servir para melhorar as condições económicas esociais de milhares de portugueses. Tal como Narciso que caiu a um poço ao ficarextasiado com a sua beleza e perfeição, também D. João V, ofuscado pelo brilho dascerâmicas, pratas e jóias que o rodeavam, mergulhou o país numa grave criseeconómica de onde nunca mais viria a sair.O ponto culminante do espectáculo que foi o governo joanino coincidiu com aconstrução de um convento magnífico “...em Mafra, para trezentos preguiçosos.”119.Nesta obra gastaram- se fortunas incontáveis, como já vimos, para realização pessoal domonarca, já que não poderia elevar no seu reino uma Basílica como a de S. Pedro deRoma.No Memorial do Convento temos personagens- tipo120que caracterizam todauma classe, uma colectividade, que vive e morre nas mesmas circunstâncias. Assim,surge- nos Baltasar121, o deficiente de guerra que se vê obrigado a pedir esmola para118REIS, Carlos, op. cit., p. 353.119BECKFORD, William, op. cit., p. 129.120“Constituindo uma subcategoria da personagem, o tipo pode ser entendido como personagem- sínteseentre o individual e o colectivo, entre o concreto e o abstracto, tendo em vista o intuito de ilustrar deuma forma representativa certas dominantes (profissionais, psicológicas, culturais, económicas, etc)...”.In, REIS, Carlos Lopes & LOPES, Ana Cristina, op. cit., p. 391.121Apesar de ser um dos protagonistas, tal como Bliminda, Baltasar representa todo um grupo de homense mulheres que sofreram as mesmas consequências de um regime injusto e, por isso, acreditamos poder43
  44. 44. sobreviver; Blimunda é a visionária que, dolorosamente, vê a sua mãe ser degredadapela Inquisição, sem sequer lhe poder dar um beijo de despedida; Padre Bartolomeu é ohomem que, apesar de pertencer ao clero, não pode voar mais alto porque a ideologiaretrógrada e fanática da Igreja não lhe permite aspirar a feitos que só beneficiariam opaís; D. Maria Ana, a rainha beata, representa a mulher conformada com a vidasubmissa que leva e que tem um único objectivo na vida- procriar; Álvaro Diogo,cunhado de Baltasar, assim com muitos outros, é um homem trabalhador castigado pelavida e que vê os seus esforços recompensados com a morte em serviço122.São muitas mais as personagens- tipo que retratam a mentalidade de umasociedade habituada a contrastes flagrantes.A este propósito realçamos um comentário a propósito dos cavalos que seguemna procissão do Corpo de Deus: “...condene-me Deus se não declarar que melhorvestem as bestas do que os homens que as vêem passar, e isto é sendo o Corpo de Deus,trouxe cada um no seu próprio corpo o que se melhor tinha em casa...”123.Neste país, “...terra de pobreza e de ignorância.”124onde há animais a vestirem-se melhor que as pessoas, em que a ignorância predomina sobre a sensatez e atolerância, onde o despotismo de um rei fanático obriga milhares de homens a trabalharcomo se de escravos se tratassem, onde se queimam pessoas em nome de Deus, o fulgordo ouro transforma- se no crepúsculo e a aurora tarda a reaparecer.apelidar estas personagens de personagens- tipo.122“...Deve- se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesseum filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto,que se lixam, com perdão da anacrónica voz.” In SARAMAGO, José, op. cit., p. 252.123Idem, p. 146.124BECKFORD, William, op. cit., p. 138.44
  45. 45. VIII- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE, Luís de, Para a História da Ciência em Portugal, Lisboa,Livros Horizonte, 1973. ANDERSEN, Hans Christian, Uma visita em Portugal em 1866, 2ª ed., Lisboa,Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1984. ARNAUT, Ana Paula, Memorial do Convento. História, Ficção e Ideologia,Coimbra, Fora do texto, 1996. BEBIANO, Rui, D. João V, poder e espectáculo, Aveiro, Livraria Estante,1987.45
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