Ficha memorial-saramago

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Ficha de avaliação formativa sobre o Memorial do Convento de Saramago- com proposta de correção.

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Ficha memorial-saramago

  1. 1. FICHA DE AVALIAÇÃO FORMATIVA- Memorial do Convento
  2. 2. 1 (…) E então D. João V disse, A sagração da basílica de Mafra será feita no dia vinte e dois de Outubro de mil setecentos e trinta, tanto faz que o tempo sobre como falte, venha sol ou venha chuva, caia a neve ou sopre o vento, nem que se alague 5 o mundo ou lhe dê o tranglomango1. (…) Ordeno que a todos os corregedores do reino se mande que reúnam e enviem para Mafra quantos operários se encontrarem nas suas jurisdições, sejam eles carpinteiros, pedreiros ou braçais, retirando-os, ainda que por violência, dos 10 seus mesteres, e que sob nenhum pretexto os deixem ficar, não lhes valendo considerações de família, dependência ou anterior obrigação, porque nada está acima da vontade real, salvo a vontade divina, e a esta ninguém poderá invocar, que o fará em vão, porque precisamente para serviço dela se ordena esta 15 providência, tenho dito. Ludovice acenou a cabeça gravemente, como quem acabasse de verificar a regularidade duma reacção química, os secretários escrituraram velocíssimas notas, os camaristas entreolharam-se e sorriram, isto é que é um rei, o doutor Leandro de Melo estava a salvo desta nova obrigação 20 porque na sua comarca já não havia quem trabalhasse em ofícios que não servissem o convento, por via directa ou indirecta. Foram as ordens, vieram os homens. De sua própria vontade alguns, aliciados pela promessa de bom salário, por gosto de aventura outros, por desprendimento de afectos também, à força quase todos. Deitava-se o pregão nas praças, e, sendo escasso o número de voluntários, ia o 25 corregedor pelas ruas, acompanhado dos quadrilheiros, entrava nas casas, empurrava os cancelos dos quintais, saía ao campo a ver onde se escondiam os relapsos, ao fim do dia juntava dez, vinte, trinta homens, e quando eram mais que os carcereiros atavam-nos com cordas, variando o modo, ora presos pela cintura uns aos outros, ora com improvisada pescoceira, ora ligados pelos tornozelos, como galés ou escravos. Em todos os lugares se repetia a cena, Por ordem de sua 30 majestade, vais trabalhar na obra do convento de Mafra, e se o corregedor era zeloso, tanto fazia que estivesse o requisitado na força da vida como já lhe escorregasse o rabo da tripeça, ou pouco mais fosse que menino. Recusava-se um homem primeiro, fazia menção de escapar, apresentava pretextos, a mulher no fim do tempo, a mãe velha, um rancho de filhos, a parede em meio, a arca por confortar, o alqueive necessário, e se começava a dizer as suas razões não as acabava, 35 deitavam-lhe a mão os quadrilheiros, batiam-lhe se resistia, muitos eram metidos ao caminho a sangrar. Corriam as mulheres, choravam, e as crianças acresciam o alarido, era como se andassem os corregedores a prender para a tropa ou para a Índia. Reunidos na praça de Celorico da Beira, ou de Tomar, ou em Leiria, em Vila Pouca ou Vila Muita na aldeia sem mais nome que saberem-no 40 os moradores de lá, nas terras da raia ou da borda do mar, ao redor dos pelourinhos, no adro das igrejas, em Santarém e Beja, em Faro e Portimão, em Portalegre e Setúbal, em Évora e Montemor, nas montanhas e na planície, e em Viseu e Guarda, em Bragança e Vila Real, em Miranda, Chaves e Amarante, em Vianas e Póvoas, em todos os lugares aonde pôde chegar a justiça de sua majestade, os homens, atados como reses, folgados apenas quanto bastasse para não se 45 atropelarem, viam as mulheres e os filhos implorando o corregedor, procurando subornar os quadrilheiros com alguns ovos, uma galinha, míseros expedientes que de nada serviam, pois a moeda com que el-rei de Portugal cobra os seus tributos é o ouro, é a esmeralda, é o diamante, é a pimenta e a canela, é o marfim e o tabaco, é o açúcar e a sucupira, lágrimas não correm na alfândega. (…) Já vai andando a récua dos homens de Arganil, acompanham-nos até fora da vila 50 as infelizes, que vão clamando, qual em cabelo, ó doce e amado esposo, e outra protestando, ó filho, a quem eu tinha só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice minha, não se acabavam as lamentações, tanto que os montes de mais perto respondiam, quase movidos de alta piedade, enfim já os levados se afastam, vão sumir-se na volta do caminho, rasos de lágrimas os olhos, em bagadas caindo aos mais sensíveis e então uma grande voz se levanta, é um labrego de 55 tanta idade já que o não quiseram, e grita subido a um valado que é púlpito de rústicos, Ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame, ó pátria sem justiça, e tendo assim clamado, veio dar-lhe o quadrilheiro uma cacetada na cabeça, que ali mesmo o deixou por morto. Quanto pode um rei. (…) (págs. 293-295)1 Sortilégio, bruxedo, doença atribuída a malefício.
  3. 3. http://teresamarques2010.wordpress.com/jose-saramago/leitura-de-memorial-xxi-xxv/. Questões e proposta de correção retiradas do manual Entre Margens da PortoEditora, pp. 233-4 (com adap.). 1. Recorda a leitura que fizeste de Memorial do Convento e explica: a) por que razão decidiu D. João V mandar construir um convento em Mafra; b) qual o local escolhido pelo monarca para a edificação do convento; c) quem é Ludovice; d) que razões estão por trás da decisão anunciada pelo rei no primeiro parágrafo? 2. Indica os traços de personalidade de D. João V que se podem deduzir pela forma como dá as suas ordens. 3. Interpreta a reação de Ludovice à ordem do rei. 4. Encontra, no segundo parágrafo, uma passagem marcada pela ironia. 5. No terceiro e quarto parágrafos, evidencia quatro recursos estilísticos que acentuam a violência e a pressa com que os homens foram arrebanhados. 6. Sinaliza, no quarto parágrafo, o momento em que o narrador critica a corrupção instalada no país. 7. Relê a passagem que vai da linha 49 à linha 57. 7.1. Identifica os episódios de Os Lusíadas que são aí invocados. 7.2. Levanta hipóteses sobre a intencionalidade do narrador ao fazer esta aproximação intertextual. 8. Explicita o sentido da última frase do texto, referindo o tom em que ela deverá ser pronunciada. 9. Partindo da análise deste excerto e relembrando outros momentos em que esta mesma temática é abordada (nomeadamente os capítulos XVIII e XIX – páginas 229 a 266 da obra), explica a simbologia do convento no contexto da obra.BOM TRABALHO!!! A DOCENTE: Lucinda CunhaProposta de correção: 1. a) D. João V prometeu construir o convento se a rainha lhe desse descendência. b) Para a construção do convento, o rei escolhe, em Mafra, o Alto da Vela. c) Ludovice é o arquiteto alemão que se encontrava em Lisboa ao serviço dos Jesuítas, a quem el-rei entregou a construção do convento. d) O sonho do rei, alimentado pela sua enorme vaidade, é mandar construir em Lisboa uma obra grandiosa, comparável à igreja de S. Pedro em Roma. Porém, Ludovice consegue, habilmente, demovê-lo dessa loucura, o que faz com que faz com que o rei transfira esse desejo de grandiosidade para o convento de Mafra, cuja capacidade, inicialmente prevista para 80 frades, foi ampliada para 300. Assim, para proceder à cerimónia num domingo, como mandava o “Ritual”, e desejando fazê-lo no dia do seu aniversário, seria o dia 22 de outubro de 1730 que lhe conviria, pois só daí a dez anos se voltariam a conjugar domingo e aniversário real e o rei teria então 51 anos ou poderia até já ter morrido. 2. O rei não olha a meios para atingir o seu objetivo. Revela-se prepotente, vaidoso e desumano.
  4. 4. 3. O movimento de cabeça de Ludovice manifesta o seu assentimento em relação à atitude tomada pelo rei, o que não é de estranhar pois foi ele quem, no fundo, induziu o rei a tomá- la. Ludovice “lançou a semente” e ficou à eespra que ela frutificasse. 4. “isto é que é um rei” (l. 18). 5. O paralelismo anafórico (ll. 28-29); a comparação (l. 29 e 44); a enumeração (ll. 39-43); o assíndeto (ll. 32-4). 6. Referimo-nos ao trecho “… viam as mulheres e os filhos (…) lágrimas não correm na alfândega” (ll. 45-9) onde se evidencia a riqueza de alguns e a pobreza de outros. 7.1. O episódio das Despedidas em Belém e o do Velho do Restelo. 7.2. O autor faz esta aproximação intertextual como modo de manifestar o seu apreço e elogio pelo texto de origem.8. O tom da última frase do texto é notoriamente irónico, uma vez que um Rei terá como dever proteger o povo e não massacrá-lo e tiranizá-lo.9. O convento simboliza, no contexto da obra, o esforço hercúleo dos trabalhadores que o construíram, a exploração de que foi alvo um povo humilde e ignorante perpetrada pelo poder dominante (o rei e a Igreja). Esta simbologia ganha particular relevo no episódio chamado “A epopeia da pedra”.

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