CulturaCulturaJornal Angolano de Artes e Letras
14 de Maio a 3 de Junho de 2012 | Nº 4 | Ano 1 Director: José Luís Mendonç...
14deMaioa3deJunho2012 | Cultura2|ARTE POÉTICA
ÁfricaSurgeetAmbula
António RUI DE NORONHA, poeta mo-
çambicano,nascidoa28de...
ECODEANGOLA|3Cultura | 14de Maioa3deJunhode2012
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Todososdias,aopôr-do-sol,voamgaivotasatéaomar,eofenomenal
círculodesangu...
4|RENASCIMENTOAFRICANO| 14deMaioa3deJunho de2012| Cultura
BERÇODAHUMANIDADE
Asdescobertasrecentesfeitasnodomíniodaar-
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RENASCIMENTOAFRICANO|5Cultura |14deMaio a3deJunho de2012
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CheikhAntaDiopAestratégia
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Como elaborar uma verdadeira estratégia de desenvolvi-
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rótulos étnicos.” C. A. Diop, “L'unité
d'originedel'espècehumaine”,Coló-
quio "Racisme, Science et Pseudo-
Science", organ...
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pós a II Guerra Mundial,
com as lutas pela indepen-
dência em África, surgiu,
nas décadas de 50 e 60, o
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12|LETRAS 14deMaioa3deJunho de2012| Cultura
AngolacriaprimeiroCentroNacionaldeLeitura
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Detantasfalas&algumaescrita
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sucedida, estadia na Covi-
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14|LETRAS 14deMaioa3deJunho de2012 | Cultura
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mentos epistemológicos
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breasideologiasdosescritoresAfrica-
nos.Du...
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A
pós a publicação da obra «
As origens do Reino do
Kongo », Patrício Batsika...
LETRAS|17Cultura | 14deMaioa3deJunho de2012
APoesiadasúplicasatírica
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“MarcasdaGuerra,Per...
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Assim, o poeta, porta/portador quali icado da
mensagem, traz das entranhas da...
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Terça Feira 22 de Maio
Terça Feira 15 de Maio
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Nagrelha
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Aos 24 anos de idade, Nagrelha é
dos kuduristas mais polémicos. De-
pois de ter passado pela Comarca de
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Umacriatividadeplásticaendógena
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mdosprincipaisfactosque
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  1. 1. CulturaCulturaJornal Angolano de Artes e Letras 14 de Maio a 3 de Junho de 2012 | Nº 4 | Ano 1 Director: José Luís Mendonça •Kz 50,00 África Surge etAmbulaPPOOEEMMAADDEE RRUUII DDEENNOORROONNHHAA PPAAGG.. 22 Nagrelha Oestadomaiordo kuduro continuano Baião,pág.20a22 CheikhAntaDiop eaestratégiade desenvolvimento docontinente africano,pág.6 Ndalatando Angolacria primeiroCentro Nacional deLeitura,pág.12
  2. 2. 14deMaioa3deJunho2012 | Cultura2|ARTE POÉTICA ÁfricaSurgeetAmbula António RUI DE NORONHA, poeta mo- çambicano,nascidoa28deOutubrode1909,em Lourenço Marques (hoje, Maputo), e falecido a 24/25deDezembrode1943.OBradoAfricano, OMundoPortuguês,ÁfricaMagazine,Miragem, Moçambique e Notícias do Bloqueio estampa- ram os seus textos de crítica literária e os seus poemas,partedosquaisforamreunidossobotí- tulo Sonetos, no ano da sua morte, em edição póstuma, icandoinéditososseuscontos.Incluí- do em inúmeras antologias estrangeiras – na Rússia,naRepúblicaCheca,naHolanda,naItá- lia,nosEUA,naFrança,naArgélia,naSuécia,no BrasileemPortugal–RuideNoronhacelebri- zou-sepelopoema“Quenguelequezée…” –cujotítuloéumgritocaracterístico doritodepassagemdocuiandla, noqualsemostraàluanovaa criançarecém-nascida,pa- ra que ela se transfor- meempessoa(…). Dormes!eomundomarcha,ópátriadomistério. Dormes!eomundorola,omundovaiseguindo... Oprogressocaminhaaoaltodeumhemisfério Etudormesnooutroosonoteuin inito... Aselvafazdetisinistroeremitério Ondesozinhaànoite,aferaandarugindo... Lança-teoTempoaorostoestranhovitupério Etu,aoTempoalheia,óÁfrica,dormindo... Desperta!Jánoaltoadejamnegroscorvos Ansiososdecairedebeberaossorvos Teusangueaindaquenteemcarnedesonâmbula. Desperta!Oteudormirjáfoimaisqueterreno OuveavozdoProgresso,esteoutronazareno Queamãoteestendeediz:África,surge etambula! RUIdeNORONHA Surgeetambula-Levanta-teeanda
  3. 3. ECODEANGOLA|3Cultura | 14de Maioa3deJunhode2012 1 Todososdias,aopôr-do-sol,voamgaivotasatéaomar,eofenomenal círculodesanguecaindonalinhadohorizonte,entrecortadopelaté- nue brancura das asas, consolida o nosso amor pela grandeza desta África.Áfricanossaquecelebramostodososdias,comaproduçãodasnossas mãos e das nossas almas, África nossa, mãe da Humanidade que, este 25 de Maio, repensa o legado cultural pan-africanista da Organização de Unidade Africana (OUA),expressonasuaCartaCulturaladoptadaemJulhode1976em Port-Louis,nasilhasMaurícias. Naverdade,aCartaCulturaldeÁfricatemcomoobjectivospreservarepro- moveropatrimónioculturalafricano,reforçaropapeldesteúltimonapromo- çãodapazeboagovernação,egarantirorespeitopelasidentidadesnacionais eregionaisnosdomíniosdaculturaedosdireitosculturaisdasminoriasbem comodastrocasedifusõesdeexperiênciasentrepaísesafricanos.ACartaCul- turalretomou,pois,daOUA(hojeUniãoAfricana),aslinhasfundantesdoPan- Africanismo, que surgiu, ainda em inais do século XIX, e que, a partir da Se- gundaGuerraMundial,seapresentariacomoumaideologiadedefesadosva- loresculturaisdeÁfrica. 2 Oquesigni ica,hoje,nestatábuarasadaGlobalização,serintelectual, ser escritor, ser artista africano? Haverá, como na época do Renasci- mentoEuropeu,umleitmotivcomuminspirador,umaclaraorientação ilosó icaquenosunanao icinadopensamentoedacriatividade? RepartidospeloscamposnuncaestanquesdasArtesedasLetras,algunsin- telectuais angolanos da geração mais madura e da jovem geração trazem aportesaestefórumdaCultura,comdiversasre lexõeseestudossobreumas- suntoquenosémuitocaroenãomenosguardadonagavetadoolvido:oRe- nascimentoAfricano. AinstalaçãoemNdalatando,doprimeiroCentroNacionaldeLeitura,dotado de novas tecnologias, é um passo decisivo na edi icação social da cidadania cultural,preconizadapeloidealdaCartaCulturaldeÁfrica. SimãoSouindoulapartedopassadoparaprognosticarumfuturopromissor paraoContinente.FilipeZaufala-nosdeumaÁfricaqueseriapolítica,cultural e economicamente livre. “Contudo, o sonho da Grande África durou pouco”. QueefeitosteveestadecadênciadosonhosobreosectordaCultura?Opensa- mentodeCheikhAntaDiop,orefundadordahistóriadeÁfrica,éaquiretoma- do.Estepensadordisseque“aÁfricadeveoptarporumapolíticadedesenvol- vimentocientí icoeintelectualepagaropreçoquefornecessário.Odesenvol- vimentointelectualéomeiomaissegurodeacabarcomachantagem,aintimi- dação e a humilhação.” Na linha deste grande pensador africano, Nguimba Ngolapreconizaumatomadadeconsciênciadequenós,africanos,contribui- mosdeverasparaoprogressodaHumanidade.RasKilunjifazumasingelaho- menagemàprimeiragrandeestreladoTerceiroMundo,BobMarley. 3 “Cultura” transporta, assim, para o Jornalismo Cultural o élan do Re- nascimento Africano, criando para si, caro leitor, a cada número, um manancialdeconhecimentotransformadordasconsciênciaseilumi- nado pelas mais belas cores do nosso Continente. Como bem o demonstra a objectivavisionáriadeFredericoNingi. Editorial Renascimento Africano ARTE POÉTICA África Surge etAmbula | Rui Noronha ECO DEANGOLA EDITORIAL-RenascimentoAfricano | José Luís Mendonça RENASCIMENTOAFRICANO África Um passado glorioso um futuro pro- missor |Simão Souindoula CheikhAnta Diop e a estratégia de desenvolvimento do continente afri- cano Da autonomização política à dependência económica | Filipe Zau África e o “evangelho de um novo caminho” | Nguimba Ngola Bob Marley a primeira grande estrela doTerceiro Mundo | Ras Kilunji LETRAS Angola cria primeiro Centro Nacional de Leitura Jean Hebrard, historiador francês: “Um escravo tem só um primeiro no- me” | José Luís Mendonça De tantas falas e alguma escrita | J.A.S. Lopito Feijóo K. Institucionalização de uma disciplina: Literaturas africanas ou Literatu- raAfricana? |Luís Kandjimbo “O reino do Kongo e a sua origem meridional” | Simão Souindoula “Marcas da Guerra, Percepção Íntima e outros Fonemas Doutrinários” de Lopito Feijóo | Matadi Makola ARTES Nagrelha o estado maior do kuduro continua no Baião | Cristina da Silva Arte angolana contemporânea - Uma criatividade plástica endógena | Johnny Kapela Bienal “ENSARTE”, Dinâmica expressiva e campo temático significati- vo | Simão Souindoula Entre nós, Info-Poesia ou Poesia Digital |Frederico Ningi DIALOGO INTERCULTURAL SemanaAfricana na UNESCO homenageia Wangari Maathai “Rabelados” filme de Benvindo Cabral |Nuno Rebocho Um Guia de Cabo Verde | Nuno Rebocho BARRADO KWANZA Estranhos pássaros de asas abertas | Pepetela MEMÓRIAS Kudilonga - O exame de admissão ao liceu, Laços lacinhos e laçarotes IXiminya JOSÉLUÍSMENDONÇA Sumário Conselho deAdministração António José Ribeiro | presidente Administradores Executivos | Catarina Vieira Dias Cunha Eduardo Minvu Filomeno Manaças Sara Fialho Mateus Francisco João dos Santos Júnior JoséAlberto Domingos Administradores Não Executivos | Victor Silva Mateus Morais de Brito Júnior Sede: Rua Rainha Ginga, 12-26 | Caixa Postal 1312 - Luanda Redacção 333 33 69 |Telefone geral (PBX): 222 333 343 Fax: 222 336 073 | Telegramas: Proangola E-mail: ednovembro.dg@nexus.ao cultura.angolana@gmail.com CONSELHO EDITORIAL Director e Editor-chefe | José Luís Mendonça Editor de Letras | Isaquiel Cori Editor de Artes | Francisco Pedro Assistente Editorial | Berenice Garcia Fotografia | Paulino Damião (Cinquenta) e Arquivo do Jornal de Angola Edição de Arte e Paginação | Albino Camana e Tomás Cruz COLABORAM NESTE NÚMERO Angola - Cristina da Silva, Filipe Zau, Frederico Ningi, J.A.S. Lopito Feijóo K., Luís Kandjimbo, Matadi Makola, Nguimba Ngola, Ras Kilunji, Simão Souindoula, Ximinya Cabo Verde - Nuno Rebocho International Networking Bantulink - Johnny Kapela FONTES DE INFORMAÇÃO: AGULHA, revista de cultura, São Paulo, Brasil Correio da UNESCO, Paris, França AFRICULTURES, Portal e revista de referência das culturas africanas, Les Pilles, França Publicidade: (+244) 222 337 690 | 222 333 466 CulturaJornalAngolano deArtes e Letras Propriedade Nº 4 | Ano 1 |14 de Maio a 3 de Junho de 2012
  4. 4. 4|RENASCIMENTOAFRICANO| 14deMaioa3deJunho de2012| Cultura BERÇODAHUMANIDADE Asdescobertasrecentesfeitasnodomíniodaar- queologiapré-histórica,sobretudonaÁfricaorien- tal e central, con irmam que é no nosso continente que se registaram, há cerca de 3 500 000 anos, os primeirosprocessosdehominização. Estaevoluçãohominídeaseráfeitaparalelamen- teàinvençãodediversosmoldeslíticos,epartirdo LaterStoneAge,hácercade10000anos,doexercí- ciodavegeculturaedacriação. Estafaseprogredirá,extraordinariamente,nova- le do Nilo, no IV milénio antes da nossa era, com a brilhantecivilizaçãoegípcia. Éumestádiofundamentaldahistóriadahumani- dadecomagrandecaracterísticadoEgiptoterman- tidorelaçõescomaNúbiaeaEtiópiaantiga. São5000anosdehistóriaqueseestendemaolon- godos6700kmdoNilo,desdeoLagoVitória,naÁfri- ca oriental, até ao delta, no Mediterrâneo, e que se inscreveunumabaciadecercade3milhõesdekm2. Asprovasdaexistênciadesteblocohistóricosãoos melano-africanosquetiveramumpapeldeterminan- te no Egipto faraónico e as línguas negro-africanas apresentamlaçosgenéticoscomoegípcioantigo. Eumdosnumerososfactosareteréo“Misr”anti- go,quesesituaentre1580e1085,umadasgrandes potênciasdoOriente. Ao sul da “doação do Nilo”, vão prosperar no de- cursodoprimeiromilénioantesdanossaeraatéao primeiroséculodanossaera,váriasformaçõeshis- tóricastaiscomooReinodeMéroé,queserásubsti- tuído,maistarde,pelooReinodeAksoum. Nestemesmoperíodo,regista-seaemergênciade Nok, na actual Nigéria. É próximo desta região que partirá uma das grandes dinâmicas civilizacionais dahistóriaafricanacomascontínuasmigraçõesea extraordináriaexpansãodaspopulaçõesbantu. Essaspopulaçõesmetalurgistas,vãoocuparoter- çodeÁfricaousejamaisde11milhõesdekm2eor- ganizar,naÁfricacentral,orientaleaustral,emépo- casdiversas,dezenasdeentidadespolíticastaisco- mooKongoeosseusterritóriosaliados,oTéké,oKu- ba,oLuba,oLunda,oLozi,oZimbabwé,oMwanaMu- tapa,oZulu,oSwazi,oRuanda,oRundi,oGanda,etc. AÁfricaocidental,ligadaàzonabantuatravésda classi icação“Níger–Congo“,conheceuigualmente asurgimentoeaorganizaçãodeváriosreinoseim- périos, tais o São, o Ifé, o Benim, o Gana, o Mali, o Songhai,oBornoueoMossi. AÁfricadeontem,vastoblocosemoSaaradeser- ti icado e mesmo depois desta mudança climática maior, era sinónima de contactos e trocas de vária ordemassimcomodefusõesdepopulações. Umadasconsequênciasdestaevoluçãohistóricaé queascivilizaçõesafricanasapresentam,hoje,umvas- toquadrodesimilitudeslinguísticaseantropológicas. EstaÁfricaé,globalmente,umuniversopós-neo- lítico e proto-histórico. É nesta etapa de evolução que ela entrará em contacto, a partir do século XV, comaEuropadapós-idademédia,comassuasvan- tagenstecnológicas,sobretudonosdomíniosdana- vegação marítima e, mais tarde, do uso da força ex- plosivadapólvora. Esta realidade, associada ã descoberta do conti- nente americano e do conjunto insular caribenho, mudarárápidaede initivamenteanaturezadaspri- meirasrelaçõesentreosdoiscontinentes. Com efeito, no encalço da cristalização das pri- meirasformasdeproduçãocapitalistaedapreemi- nência das convicções mercantilistas na Europa, Áfricavaisubirumadaspunçõesdemográ icasmais severasdahistóriadahumanidade,aprovocadape- lotrá icodeescravostransatlântico. Serãomaisde15milhõesdeafricanosquechega- rãovivosnasimensasAméricasenaarmadilhacari- benha,e,cativos,aproximadamente,namesmaor- demdeimportância,perderãoavidadurantetodas asetapasdaimplacávelredeorganizativadestene- góciodesereshumanos. Esta “ shoah” que durou mais de quatro séculos terá graves consequências no desenvolvimento do continenteafricano. Comefeito,nãoeraotrabalhoprodutivoquepri- mavaduranteesteinadmissívellongoprocessohis- tórico, mas sim, a organização de violentas acções decapturadeescravos,oencaminhamentodoscati- vosemdirecçãoaolitoral,aconcentraçãodaspeças deÍndiaseoseuembarque. Peranteocaráctereconómicocontra-produtivoe aincontrolabilidadesocialepolíticadasdiferentes formações esclavagistas, as potências europeias, comaindustrialInglaterraparticularmenteinteres- sada, não tiveram outra solução senão proibir esta formabrutaldeexploraçãodohomempelohomem. Mas, a nova Europa, a da Revolução industrial – metamorfoseada tal como na mitologia grega – e, mais do que nunca, convicta da justeza da teoria mercantilista, segundo a qual os metais preciosos constituem a riqueza essencial dos Estados, as po- tências, ilhasdeMinos,organizarãoumanovafor- ma de explorar o continente, alargando desta vez a sua ocupação e assegurando a sua partilha, entre elas, mais ou menos ordenada, num contexto de neo-escravatura. Seráentãoinstaladoumsistemacapitalistacolo- nialcaracterizado,invariavelmente: -pelaexploraçãodasestratégicasminas; - pelo fomento, em prioridade, das culturas comerciais,asdeexportação; -pelaumaindustrializaçãobastantelimitada; -epelarealizaçãodefabulososlucros. Essassociedades,particularmentedesiguais,se- rãominadas,naturalmente,porcrescentestensões sociaisepolíticas,sobretudoapósasduasGrandes Guerras, na sequência de mais de 60 anos de lutas políticas,sociaisouarmadaspersistentesedinâmi- cas que desembocarão na independência de todos os países africanos, do Egipto, em 1936, até ao im doapartheid,naÁfricadoSul,em1994. Três anos após o ano das previsíveis rupturas, a África independente, consciente da configuração fragmentada das suas diferentes componentes, cristalizou os seus projectos de coordenação polí- tica, integração económica, desenvolvimento so- cial e renascimento cultural numa organização pa- nafricana, a OUA. Osoprodo“ventosinérgicodeAddis”revelou-se útil,apesardasinevitáveisdi iculdadesdetodaor- dem,queenfrentouaOrganização. Comefeito,elafoioespaço,porexcelência,parao diálogo,aconcertaçãoeoconsenso.Emsuma,privi- legiou-se,nestequadro,oessencialdosobjectivos. Operíodopós-independênciafoi,quaseinvaria- velmente,caracterizado,nosdiferentespaísesafri- canos, pela instauração de dinâmicas políticas in- ternasunitáriasepelaexperimentaçãodaestatiza- çãodaeconomia. UMPRESENTEDIFÍCIL MASSUPORTÁVEL Um dos passos políticos animadores dados no iníciodesteséculofoiainstauraçãodaUniãoAfrica- naemsubstituiçãodaOUA. Acinquentenadepaísesafricanostraçoucomes- taescolhaaviaparaumpotencialtecidofederalcu- jos instrumentos de facilitação e aceleração são a quinzena de mercados integrados actualmente existentes.Noplanodaorganizaçãopolíticainterna, A bordareiaminhaanalise,numaevolu- ção tríptica, que realçará os grandes factos atestados ao nosso continente, duranteoperíodopré-histórico,afase detransiçãoproto-histórica,ocalamitosoepisó- dio do trá ico de escravos, as seculares e multi- secularesocupaçãoeadministraçãocoloniais,a con iguraçãogeraldasituaçãoactualealgumas linhasprospectivas. SSIIMMÃÃOO SSOOUUIINNDDOOUULLAA Pintura mural do Egipto Antigo ÁfricaUmpassado gloriosoumfuturopromissor HHIISSTTOORRIIAADDOORR,, CCOONNSSUULLTTOORR DDAA UUNNIIÃÃOOAAFFRRIICCAANNAA
  5. 5. RENASCIMENTOAFRICANO|5Cultura |14deMaio a3deJunho de2012 quasetodosospaísesdocontinenteoptarampor uma democracia multipartidária, original, que tenta salvaguardar as sinergias federativas esta- belecidasapósasindependências. As mudanças económicas que foram decididas nos últimos anos, ou que ocorrem actualmente, visam corrigir as insuficiências constatadas nas performances económicas, num diagnóstico de realismo e numa clara estratégia de compromis- so histórico. Assiste-se, entre outras acções, à extensão da economiademercado,visivelmentesocializante, àreformulaçãoconstitutivaoudesnacionalização de grandes empresas, ao incentivo a investimen- tosestrangeiros,aoapoioaosurgimento declas- sesempresariaisnacionaisdinâmicas,e icientese competitivas. UMFUTUROPROMISSOR Oconjuntodemedidasglobaistomadasaugura, paraosdiversosprazosprospectivos ixados,tais como o estabelecimento, em 2035, do Mercado ComumAfricano,boasperspectivasparaoconti- nenteafricano. Com efeito, o mercado africano que apresenta actualmente um total de mais de 950 milhões de consumidores teránoano2015,1200000000 decompradores. Num outro ângulo de leitura deste dado, esta população conti- nuará a ostentar uma metade de indiví- duoscommenosde15anos,constituindoassima perpetuação de uma força de trabalho absoluta- mentedecisiva. Deve-se acrescentar a este dado, outros ele- mentos de potencialidade espacial, agrícola, mi- neiraeindustrial. Assim,ocontinentepossui: - 30 milhões de km2, e que constituem 20,3 % dasterras irmesdoplaneta; -efabulosasreservasdosvitaispetróleoecobre, doestratégicourânio,dosessenciaisferro,manga- nês,zinco,ouroecobalto,titânio,vanádio,croma, bauxita,assimcomodosrentáveisdiamantes. Essas possibilidades de riquezas são capazes de corrigir decisivamente os actuais fracos indi- cadores sociais do continente tais como a taxa de mortalidade infantil, a esperança de vida, a educação feminina, a ocupação da população ac- tiva, uma má distribuição do emprego, a fraca cobertura dos serviços de saúde, a sub-nutrição, a baixa taxa de escolaridade, um analfabetismo ainda elevado, etc. CONCLUSÃO A breve análise que acabamos de apresentar prova que a África soube, a todos tempos da sua longa evolução histórica, explorar as suas vanta- gens civilizacionais, enfrentar com coragem as barreiras postas contra ela e ultrapassar os seus passosincertos. Apôs mais ou quase meio século de indepen- dência, os Estados da “ Ifriqiya”, os Comissários, peritoseconsultoresdaUniãodoplanaltoetíope, sabem que uma das condições sine qua non para umfuturomelhorparaonossocontinenteéama- nutençãoda estabilidade nos seio dos diferentes tecidosterritoriaisnacionaiseregionais. Emsuma,asalvaçãodocontinentedoOsagyefo, asuaRenascença,passará,pelaestaestabilidade, quedeve,emprimeirolugar,serobradospróprios africanos, porque como os Bakongos a irmam: Mbakulukubonguakoenlumbunzenza(oenten- dimentonãoeumfrutoquesecolhenoquintaldo vizinho).
  6. 6. CheikhAntaDiopAestratégia dedesenvolvimentodocontinenteafricano Como elaborar uma verdadeira estratégia de desenvolvi- mentodocontinenteafricano:educação,saúde,defesa,ener- gia, investigação, indústria, instituições políticas, desporto, culturaetc.? C heikhAntaDiopdemonstra queparaseobterasrespos- taspertinentesaestainter- rogação fundamental é ne- cessárioumconhecimentodahistória omaisobjectivopossível,recuandono tempotãolongequantopossível. É nesta primeira grandetarefa que Cheikh Anta Diop se concentra: a de restituirahistóriadocontinenteafri- cano, a partirda pré-história,através de uma investigação cientí ica pluri- disciplinar. É, por isso, o refundador dahistóriadeÁfrica. Alémdoconhecimentodopassado realdeÁfricaedahumanidadeemge- ral, Cheikh Anta Diop atribui aos tra- balhosquedesenvolveasquatro ina- lidadesqueseindicamdeseguida. 1. A recuperação da consciência histórica africana, ou seja, da cons- ciênciadeterumahistória.Arecupera- çãodestaconsciênciahistóricaimplica queaegiptologiasejadesenvolvidana Áfricanegraequeacivilizaçãoegípcio- núbiasejareanalisadaemtodososdo- míniospelosprópriosafricanos. “Só o enraizamento de uma disci- plinacientí icadestanatureza(aegip- tologia) na África negra permitirá compreender um dia a singularidade eariquezadaconsciênciaculturalque pretendemos suscitar, bem como a qualidade,aamplitudeeopodercria- tivodamesma.” “Na medida em que o Egipto é a mãelongínquadaciênciaedacultura ocidentais,comosepodededuzirpela leitura deste livro, grande parte das ideias que baptizamos estrangeiras não são muitas vezes mais do que as imagens deturpadas, invertidas, mo- di icadas,aperfeiçoadasdascriações dos nossos antepassados: judaísmo, cristianismo, islamismo, dialéctica, teoriadoser,ciênciasexactas,aritmé- tica, geometria, mecânica, astrono- mia, medicina, literatura (romance, poesia, drama), arquitectura, artes etc.[...]Talcomoatecnologiaeaciên- cia moderna vêm da Europa, na Anti- guidade,osaberuniversal luíadova- le do Nilo para o resto do mundo e es- pecialmenteemdirecçãoàGrécia,que servia de elo intermediário. Conse- quentemente,nenhumpensamentoé, na sua essência, estrangeiro em Áfri- ca,terraemquefoicriado.Époisnum contexto de total liberdade que os africanos devem usufruir da herança intelectual comum da humanidade e nãose deixar guiarunicamentepelas noçõesdeutilidadeedee iciência.” “O homem africano que nos com- preendeuéaqueleque,apósterlidoas nossasobras,terásentidonasceremsi um homem diferente, com uma cons- ciência histórica, um verdadeiro cria- dor,umPrometeuportadordeumano- va civilização e perfeitamente cons- cientedoqueaterrainteiradeveaoseu génioancestralemtodososdomínios da ciência, da cultura e da religião” (C. A.Diop,CivilisationetBarbarie). 2. O restabelecimento da conti- nuidadehistórica,ouseja,arestitui- ção,noespaçoenotempo,daevolução das sociedades e dos Estados africa- nos,especialmentedesdeapré-histó- riaatéaoséculoXVI,operíodomenos conhecido. Cheikh Anta Diop insiste, nosseusescritos,nofactodeainvesti- gaçãosócio-históricaestarlongedeser concebidacomoumaretiradaoucomo umameradeleitaçãodopassado. “A função da sociologia africana é fazer o balanço do passado para aju- dara África a enfrentarmelhoropre- senteeofuturo.”(C.A.Diop,Antériori- té des civilisationsnègres– Mythe ou véritéhistorique?) “Arelatividadedasnossasestrutu- ras, assim evidenciadas, poderia aju- dar-nosaidenti icarasbasesteóricas da evolução das nossas sociedades porclasses,evoluçãoquesóseráirre- versível se for alicerçada no conheci- mentodoporquêdascoisas.Nãoéisto umdosaspectosmaisimportantesda revolução social dos nossos países?” (C.A.Diop,CivilisationouBarbarie) O estudo sócio-históricodas civili- zações africanas permite identi icar osvaloresque izeramasuagrandeza eosfactoresqueprovocaramoseude- clínio, e elaborar estratégias para o desenvolvimentodocontinente. 3.Aconstruçãodeumacivilização planetária.CheikhAntaDioppretende contribuir“[…]paraoprogressoemge- ral da humanidade e para a eclosão de umaeradeacordouniversal[…]”e“To- dos aspiramos ao triunfo da noção de espécie humana nos espíritos e nas consciências, de forma que a história particulardestaoudaquelaraçaseapa- gue diante da do indivíduo. Teremos entãodedescrever,apenasemtermos gerais, pois as singularidades aciden- tais deixam de ter interesse, as etapas signi icativas da conquista da civiliza- çãopelohomem,pelaespéciehumana comoumtodo.Aidadedapedralasca- daeaconquistadofogo,oneolíticoea descobertadaagricultura,aidadedos metais, a descoberta da escrita etc. etc. deixarão de ser descritos como instantes comoventes das relações dialécticasentreohomemeanature- za, a série dos “desa ios” da Natureza vitoriosamente ultrapassados pelo homem”. (C. A. Diop, Antériorité des civilisationsnègres–Mytheouvérité historique?) “O clima, para a criação da aparên- cia ísica das raças, traçou fronteiras étnicas que recaem sobre o sentido, captam a imaginação e determinam os comportamentos instintivos que tantomalprovocaramnahistória.To- dos os povos que desapareceram ao longodahistória,desdeaAntiguidade até aos nossos dias, foram condena- dos, não por uma inferioridade origi- nal qualquer,maspela aparência ísi- caepelasdiferençasculturais.[…]Por isso, a questão está em reeducar a nossapercepçãodoserhumano,para queelasedescoledaaparênciaracial esepolarizenumserhumanolivrede 14deMaioa3deJunho de2012| Cultura6|RENASCIMENTOAFRICANO
  7. 7. rótulos étnicos.” C. A. Diop, “L'unité d'originedel'espècehumaine”,Coló- quio "Racisme, Science et Pseudo- Science", organizadoemAtenaspela UNESCO,em1982). Oacessoaestefuturodesejadoexi- ge, por isso, o rompimento com o ra- cismo.Rompercoma“mentiracultu- ral”queconsistiuemnegarahumani- dade dos Negros, emnegara história deÁfrica.Esta“mentiracultural”ain- da hoje reside na negação de que o Egipto faraónico pertence ao mundo negro-africano, assim comona mini- mização do papel civilizador deste EgiptonaAntiguidade.Exigetambém queseultrapassemosobstáculosque impedemodesenvolvimentodocon- tinenteafricano,ameaçamaseguran- çaehipotecamasobrevivência.Épre- ciso“garantirqueocontinenteafrica- nonãopagapeloprogressohumano”, “friamente esmagado pela roda da história”, e, por isso, “não podemos escaparàsnecessidadesdomomento histórico a que pertencemos”. (C. A. Diop,Antérioritédescivilisationsnè- gres – Mythe ou vérité historique ?) Hoje, este momento histórico é o do renascimentoafricano. 4. O renascimento africano. CheikhAntaDioptinha25anosquan- do, enquanto estudante em Paris, em 1984, de iniu o conteúdo e as condi- ções do renascimento africano num artigointitulado“Quandopoderemos falardeumrenascimentoafricano?”. Nestaperspectiva,aevoluçãopara um estado federal torna-se numa ur- gênciacontinental,poisumaconjun- tura geopolítica desta natureza seria capazdegarantir,estruturareoptimi- zarodesenvolvimentodocontinente africano: “É necessário fazer pender de initivamenteaÁfricanegrapara osentidododestinofederal[...]só um Estado federal continental ousubcontinentalofereceum espaço político e económi- co, em segurança, su i- cientementeestabiliza- do para que se possa implementarumafór- mularacionaldedesen- volvimento económico dosnossospaísesdepotencialidades tão diversas.” (C. A. Diop, prefácio do livrodeMahtarDiouf,Intégrationéco- nomique, perspectives africaines, 1984). CheikhAntaDiopterminaasuaobra Lesfondementséconomiquesetcultu- rels d'un État fédéral d'Afrique noire com catorze propostas de acções con- cretas que vão desde a educação à in- dustrialização.Destacam-seasduasne- cessidadesvitaisdeseguidaindicadas. - A necessidade de de inir uma po- lítica de investigação cientí ica e i- ciente: “A África deve optar por uma políticadedesenvolvimentocientí i- co e intelectual e pagar o preço que fornecessário;aexcessivavulnerabi- lidadedestecontinenteduranteosúl- timoscincoséculoséaconsequência de uma de iciência técnica. O desen- volvimento intelectual é o meio mais segurodeacabarcomachantagem,a intimidação e a humilhação. A África podetornar-senum centrodeinicia- tivasededecisõescientí icas,emvez decontinuaraacreditarqueestácon- denada a ser o apêndice, o campo de expansão económica dos países de- senvolvidos.” - A necessidade de de inir uma doutrinaenergéticaafricanaedeuma verdadeira industrialização: “Trata- se de propor um esquema de desen- volvimento energético continental quetenhaemcontasimultaneamente asfontesdeenergiarenováveisenão- renováveis,aecologiaeosprogressos técnicos das próximas décadas…. A Áfricanegradeveráencontraruma fórmula de pluralismo energético que associe harmoniosamente as seguintes fontes de energia: 1. energia hidroeléctrica (barra- gens); 2. energia solar; 3. energia geotérmica; 4. energia nuclear; 5. os hidrocarbonetos (petróleo); 6. energia termonuclear”. Pode-se acrescentaraestasfontesovector energéticohidrogénio. RENASCIMENTOAFRICANO|7Cultura | 14deMaio a3deJunho de2012 Estatua do Renascimento Africano no Senegal
  8. 8. A pós a II Guerra Mundial, com as lutas pela indepen- dência em África, surgiu, nas décadas de 50 e 60, o sonhodeliberdadeedeprosperidade. PatriceLumumba,olíderdaindepen- dência congolesa, a irmava, naquele período, que nunca iriam esquecer que a independência tinha sido con- quistadacomlágrimas,fogoesangue eque,apósoitentaanosdecolonialis- mo, iriam demonstrar “o que o ho- mem negro é capaz de fazer quando trabalha pela liberdade”[MUNARI: 31]. Era ideia comum que as nações recém-formadas em África estariam determinadasaosucesso.Áfricaseria política,culturaleeconomicamenteli- vre a partir de processos de recons- trução a serem implementados em novosmoldes. ParaLeopoldSedarSenghor,doSe- negal,aoladodareconstruçãoeconó- mica tornar-se-ia necessário “desco- brirnovosvaloresculturais,próprios dacivilizaçãonegro-africana:emoção e simpatia, ritmo e forma, imagens e mitos, espírito comunitário e demo- crático”[Ibidem]. Contudo, o sonho da Grande África duroupouco.Umfracassotambémas- sociadoàsdisputasinternasentrefac- ções rivais, às guerras pelo controlo do Estado, ou ainda às experiências políticas frustradas. Os chamados “pais da pátria”, entre outros homens da envergadura de Touré, Kenyatta e Nyerere, “(...) viram mitos de um pas- sadoremotoqueserviuparalançarno cenário internacional uma turma de líderes tristemente famosos pela in- competência,corrupção e falta de es- crúpulos”[Idem]. Mas,tambémécerto,queoslíderes dosnovospaísesafricanospensavam que, inalmente,poderiamentrarnum processo de trocas justas e equilibra- das com os países do Norte, pautadas pelo reconhecimento integral das suassoberanias,respeitomútuoenão ingerência nos seus assuntos inter- nos. Um intercâmbio onde os países doSulexportassemassuasmatérias- primas, de acordo com as necessida- des industriais dos países do Norte, recebendo em troca bens industriali- zados, essenciais para o arranque do crescimentoeconómicodequeneces- sitavam, para o desenvolvimento dos seusrespectivospovos. Porém,talnãoaconteceu,porqueas matérias-primas exportadas foram valendo cada vez menos nas relações procura/oferta e custo/bene ício. Eramnecessáriascadavezmaismaté- rias-primasparaumnúmerocadavez menor de produtos manufacturados dos países do Norte. Tal facto provo- couumclarodesequilíbrionabalança comercial,oquelevouoseconomistas dos países em desenvolvimento a re- conheceremadeterioraçãocrescente nostermosdetroca. O relatório Cuidar o Futuro, con ir- ma esta a irmação ao referir que, de facto, houve investimentos ruinosos assimcomopráticascorruptas.Contu- do, também explicita que foi assusta- dorodeclínionospreçosdasmatérias- primas, o que resultou numa forte de- terioraçãodostermosdocomércioin- ternacional e afectou gravemente os paísesemdesenvolvimento:“em1993, eram 32 % mais baixos do que em 1980,emrelaçãoaopreçodebensma- nufacturados eram 55% mais baixos doqueem1960”[WORLDBANK,citin, COMISÃO INDEPENDENTE POPULA- ÇÃOEQUALIDADEDEVIDA:52-53]. Oanode1980representouaacele- raçãodeumaviolentacriseeconómi- caparaospaísesnãoindustrializados, masosprimeirossinaisdessacrise,de acordocomoBancoMundial,começa- ram a sentir-se um pouco mais cedo emÁfrica;i.e.,nosúltimosanosdadé- cada de 70. Neste continente, a agri- cultura,querepresentaamaiorparte daprodução(cercadeumterçodoto- tal), foi primeiro atingida pela seca, que assolou inúmeros locais entre 1968 e 1973. Posteriormente, ainda noiníciodosanos80,seguiu-seasubi- da dos preços de energia, que coinci- diucomodecréscimodospreçosagrí- colasecom“umadesastrosagestãoda economia, em particular no sector agrícola” [EMMERI : 111]. Paralela- mente,ataxadeinvestimentonaÁfri- ca subsahariana desceu de tal forma que, em1983, osmaisde18%deren- dimentosdosanos70,passarampara menosde15%.Em1990, Áfricatinha jáorendimentomaisbaixodetodasas regiões em vias de desenvolvimento. A esta estagnação económica asso- ciou-seumrápidocrescimentodemo- grá ico que, no seu todo, levou a uma progressiva deterioração dos níveis devidadaspopulações[BANCOMUN- DIAL(1990):20]. O rendimento per capita no conti- nenteafricanodesceucerca de4%ao ano, entre 1980 e 1984. Em 1990, já erainferioraorendimento percapita de1970.Adívidapúblicaexternacon- traída aumentou onze vezes entre 1970 e 1984 e os pagamentos do ser- viçodadívidapraticamentequadripli- caram; i.e. passaram de 1,2% para 4,4% do PNB. As despesas com a ad- ministraçãocentralaumentarameas receitas foram-se mantendo mais ou menosestacionárias.Osdé icesorça- mentais passaram a atingir cerca de 10%doPNB[Idem]. Para cobrirem os seus dé ices, os paísesemdesenvolvimentoviram-se forçadosarecorrersistematicamente aempréstimosdospaísesindustriali- zadosedeinstituições inanceirasin- ternacionais,comooBancoMundiale o FMI. Desta forma endividaram-se ainda mais e tornaram-se ainda mais pobres.Ofosso,quejáosseparavados paísesindustrializados,foiprogressi- vamentealargandoerestou-lhesape- nas manifestar o desejo de uma nova ordem económica mundial [SANTOS BENEDITO:19-20]. Na verdade, o desejo de uma nova ordemeconómicainternacionalvinha já sendo reclamado nos anos 70 e 80, ainda antes da implementação dos ProgramasdeAjustamentoEstrutural das instituições de “Bretton Woods”. Actualmente, não há nenhum país africano ao sul do Sahara que, para tentarsobreviveràconjunturaeconó- mica imposta pela globalização, não seja dependente de Programas de Ajustamento Estrutural. Mas, o que, naprática,severi icaéoinvestimento para o desenvolvimento dos países africanosbene iciar,apenasecadavez mais, os países já desenvolvidos [CO- MISSÃO INDEPENDENTE POPULA- ÇÃOEQUALIDADEDEVIDA:53]. O Relatório sobre o Desenvolvi- mentoMundial 2000/2001doBanco Mundial apresenta também um con- junto de dados que justi icam esta a irmação. É um facto que, desde 1960, a esperança média de vida nos países em desenvolvimento aumen- tou,emmédia,20anos;Ataxademor- talidade infantil, desde 1960, dimi- nuiu em mais de metade; O ingresso escolar entre 1990 e 1998 aumentou 13%; o número de pessoas em situa- ção de extrema pobreza baixou para 78milhões.Mas,emcontrapartida,já neste início do século XXI, veri ica-se que a pobreza continua a ser um pro- blemaglobaldeenormesproporções: - Dos 6 mil milhões de habitantes hojeexistentes, 2,8milmilhões(qua- semetade)vivemcommenosde2dó- lares/dia e 1,2 mil milhões (um quin- to)commenosde1dólar/dia; - Nos países mais ricos, menos de uma em 100 crianças não completa os cinco anos. Porém, nos países em desenvolvimento, um quinto das crianças morre antes de atingir essa mesma idade; -Enquantonospaísesindustrializa- dosmenosde5%detodasascrianças, commenosdecincoanossãodesnutri- das,nospaísespobresaproporçãoche- gaa50%(i.e.,metadedascrianças); -Acomparaçãoderendimentosin- dividuais levada a cabo pelo PNUD concluiu que 1% das pessoas mais ri- casdomundo,recebeomesmorendi- mentoque37%dasmaispobres; - O rendimento dos 5% mais ricos domundoé114vezessuperioraodos 5%maispobres; -Os10%doshabitantesmaisricos Daautonomizaçãopolítica àdependênciaeconómica FFIILLIIPPEE ZZAAUU 8|RENASCIMENTOAFRICANO 14deMaioa3deJunho de2012 | Cultura
  9. 9. Cultura | 14deMaioa3deJunho de2012 RENASCIMENTOAFRICANO |9 Áfricaeo“evangelhodeumnovocaminho” É comNokNogueiraqueabro o “tempo africano” tempo de canção, tempo de “hino vinte e cinco de Maio pela reinvençãodocaminho”,eisamelodia “ó África ó alma ó muxima como rein- ventarafestadakixima”?Reinventan- doopensamentodanegritude?Dopa- nafricanismo? Provavelmente, pois assim como Nok, subscreveremos “a memóriadeumaÁfricaenvoltaemte- lasdeamor”. Na verdade, Aimé Césaire pensava a negritude numa dimensão tridi- mensional:ohomemnegrotemdeas- sumir-se negro com orgulho, isto é, identidade, a ligação permanente comaMãe-áfrica,istoé,a idelidade,e o sentimento de união e identidade comumentretodososnegros,istoé,a solidariedade.Éassimqueinspirados por esse ideal, cantamos em Mátria “oh minha África/anelo teus doces beijos/ no dúlcido amplexo da unida- defraternal...” Umprotestointelectual,umatoma- da de consciência de que nós, africa- nos,contribuimosdeverasparaopro- gressodaHumanidadedevepersistir para desmisti icar os mitos e precon- ceitosqueocultaramaomundoaver- dadehistóricasobreÁfrica.Juntemo- nosespiritualmenteaossábiosCheikh Anta Diop, Joseph Ki-Zerbo, Téophile Obenga e outros para escrever “ale- griasnorostonegro”,pensar“Senghor Neto Lumumba Cabral Mandela/ele- fantesdaliberdade” eanular“aanore- xiaquegraçanaplanície...ondeabru- tres almejam o SOL”. “Ó negro de Áfri- ca/negrosdetodoomundo”eisocha- mado África, para avançar o tempo e arregaçar“nocalendárioaessência/a eloquência” vencendo assim com o grito do hungo e subscrevendo sem- preairmandade. O “evangelho africano” deve evi- denciar a educação pois no pensa- mento de Du Bois, ela é instrumento de luta e de ascensão do homem ne- gro. A cultura, a história, a literatura, as tradições africanas devem constar do projecto político-pedagógico das sociedades africanas. Deve-se ainda reivindicar permanentemente os di- reitosinalienáveisàvida,àliberdade, àfelicidade,assimcomoagarantiados direitos de cidadania mantendo o so- nhodeLutherKing. Estou com o professor Jorge Mace- do, ilósofo, etnomusicologo e escri- tor, ao escrever que a frente cultural africana não deve se “deixar embru- lhar pelos traidores africanos colo- candoÁfricacontraÁfrica,osseusde- tratores prolongando neocolonialis- mos de toda a espécie em epaços dé- beis do período africano pós-inde- pendência, feridos de guerras civís, carências, contradições, má governa- ção,fomesletais...”eoutrosmales.De- vemosainda olharpara África sobum novo olhar, com os negros na diáspo- ra, de modo a desmisti icar preconceitos e a domina- çãocultural eurocêntri- ca. Como angolanos, jáéhoradevislum- brarmosa dimen- são africana da nossa cultura e não aceitarmos rótulos colonizadores de “povo sem cultura e a civiilizar”. Acertaram no recanto dos nossos valoresoqueafectouanossacaracte- rísticasolidadriedade,hospitalidade. Émisterpoisoresgatedosnossosva- loresangolanoslogo,africanosbantu e o dever de pensar e fazer por nós mesmos. Já é hora de emancipar as nossasmentesdaescravidãocultural, pensandoBobMarley. E com o Nok fecho chamando-te “ó bantucordãoumbilicalretratodepu- radevoção”“tuésbelezatranscenden- tal das lores com que enterrámos/ nossos heróis// o Maio anuncia o re- gresso da bonança na noçãodaspala- vras...”assimdeverásernesse“tempo africano”odesbravarnocaminhoum novoevangelho,umevangelhodePAZ. VIVAAÁFRICA. MulembawaxaNgola, 08deMaiode2012.01h49´ NNGGUUIIMMBBAA NNGGOOLLAA dos EUA têm um rendimento igual ao dos 43% mais pobres do Mundo; i.e., 25 milhões de americanos têm um rendimento igual a 2 mil milhões de pessoas.[FERREIRA:30]. *Extractodolivro“EducaçãoemAngola;No- vos Trilhos para o Desenvolvimento” de Filipe Zau,editadopelaMoviLivros,em2009. **PhDemCiênciasdaEducaçãoeMestreem RelaçõesInterculturais BIBLIOGRAFIA - MUNARI, João (s/d), A Igreja no Brasil aberta ao mundo; Especial Daniel Comboni, RevistaSemFronteiras,SãoPaulo; -COMISSÃOINDEPENDENTEPOPULAÇÃO EQUALIDADEDEVIDA(1998),CuidaroFutu- ro,TrinovaEditora,Lisboa; - EMMERIJ, Louis (1993), Norte-Sul: A gra- nadadescavilhada,BertrandEditora,Lisboa; - BANCO MUNDIAL (1990), A Educação na ÁfricaSubsahariana:medidasdepolíticapara ajustamento, revitalização e expansão, Was- hington,D.C.; -SANTOSBENEDITO,N.D.(1999),Agloba- lizaçãoeosDesa iosàEducação,Coimbra(co- municaçãonãopublicada); -FERREIRA,EduardoPaz,(2004),Valorese Interesses.DesenvolvimentoEconómicoePo- líticaComunitáriadeCooperação,LivrariaAl- medina,Coimbra SUPORTESDAINTERNET - Público – pt, Dossiers, In, http://dos- siers.publico.pt/euro/html/glossario.html, em28/12/03; -BANCOMUNDIAL(2000/2001),Relatório sobre o desenvolvimento mundial; cit. in, http://www.ugt.pt/comunicado_17_10_2002.h tm,em06/02/04;17deOutubro–DiaInterna- cionalparaaErradicaçãodaPobreza; - http://br.invertia.com/canales/noticia.asp?Id Canal=238&iddoc=809869,em09/09/03; -SILVA;JoséInácioda“Lula”(24deJaneiro de2003),Intervenção,FórumMundialSocial, Porto Alegre, In, http://www.radiohc.cu/es- panol/forunsindicalmundial/portugues/fo- ro25b.htm,09/09/2003
  10. 10. 14deMaioa3deJunho de2012 | Cultura BBoobb MMaarrlleeyy aa pprriimmeeiirraa ggrraannddee eessttrreellaa ddoo TTeerrcceeiirroo MMuunnddoo T alvez poucos saibam, mas Robert Nesta Marley, ou simplesmente Bob Marley, nasceu a 6 de Fevereiro de 1945,naParóquiadeSaintAnn,Jamai- ca.O11deMaiotemsidoodiaemque maisgenteseidenti icacomBobMar- ley.Talcomooex-beattleJohnLennon queéreverenciadonodia8deDezem- bro,odiaemquefoiassassinadoenão a9deOutubro,dianoseunascimento, assimcomonodia16deAgostoosfans deElvisPresleyprestamtributoaoRei doRockenãoa8deJaneiro.Seiquees- tapolémicaentreacelebraçãodadata do nascimento e da morte é algo que fazcorrermuitatinta,noentanto,para nósRASTAFARIANOS,adatadonasci- mentoéamaisimportanteporquees- te é o dia em que iniciámos a nossa a obra.EisarazãoporqueosRastasrele- vam mais o 6 de Fevereiro, em detri- mentodo11deMaio. Efeméridesaparte,aívãoumasdicas sobreestemestiço,BobMarley, ilhode NorvalMarley,o icialdamarinhabritâ- nicacom45anosdeidadeedeCedella Booker,umaadolescentenegraJamai- cana, que vivia em Rodhen Hall. Bob Marley teve vários ilhos, dos quais destacamosoprimogénitoZiggyMar- ley,paraalémdeCedellaMarley,Steven Marley,todos ilhosdeRitaMarley,Da- myan Marley ilho, Cindy Breakspear MissMundoeJulianMarley, ilhodeLu- cy.Pounder, Ky-mani Marley, de Anita Belnavis, e Rohan Marley de Janet na Inglaterra,depoisadotadopelamãede Bob. Como podem notar Marley teve váriasmulheres. Bob falava dos problemas dos po- bres, oprimidos, África, amor e ques- tõesespirituais.Foioprincipaldivul- gadordosideaisdareligiãoRastafary. Rastaman Marley começou tocando ska, pas- sou pelo Rock steady, até chegar ao reggae.Eleétalvezmaisconhecidope- loseutrabalhocomogrupodereggae The Wailers, que incluía outros dois grandes nomes, Bunny Wailer e Peter Tosh. Bunny e Tosh posteriormente deixariamogrupoparainiciaremuma bem-sucedidacarreiraasolo. No início, foi produzida por Coxso- ne Dodd no Studio One. O trabalho de Bob Marley foi responsável pela acei- tação cultural da música reggae fora da Jamaica. Ele assinou com o selo Is- land Records, de Chris Blackwell, em 1971, na época uma gravadora bem in luente e inovadora. Foi ali, com No Woman, No Cry em 1975, que ele ga- nhoufamainternacional. Bob Marley era adepto da religião Rastafári. Ele foi in luenciado pela es- posaRita,epassouareceberosensina- mentos de Mortimer Planno (um dos primeirosanciãosdomovimentoRAS- TA) . Ele servia de facto como um mis- sionário rasta (suas acções e músicas demonstram que isso talvez fosse in- tencional),fazendocomqueareligião fosse conhecida internacionalmente. Em suas cançõe,s Marley pregava ir- mandadeepazparatodaahumanida- de. Antes de morre,r ele foi inclusive baptizado na Igreja Ortodoxa da Etió- piacomonomeBerhaneSelassié. Marley também tinha conexões comacorrenterastafári"DozeTribos de Israel", e expressou isso com uma frase bíblica sobre José, ilho de Jacó, nacapadoálbumRastamanVibration. EamúsicadeMARLEYtambémba- teuemAngola,quemnãoselembrado No Womam No Cry, One Love, ou Could You Be Loved, músicas que não apenas os amantes do reggae têm o prazerdeouvir. Da grande discogra ia de Bob Mar- ley temos as seguintes obras: Judge Not (1961) (compacto), Simmer Down (1964) (compacto) , Keep On Skanking(1967),SoulRebels(1970), Satisfy My Soul (1972), Catch a Fire (1973),RocktotheRock(1973),Afri- can Herbsman (1973), Live Jam' (1973) ,Burnin' (1973), Natty Dread (1974), Live! (1975) - gravado no Ly- ceumTheatre,Londres,RastamanVi- bration (1976), Exodus (1977), Kaya (1978),OneLoveConcert(1978),Ba- bylonbyBus(1978),Survival(1979), Uprising (1980), Live At Rockpalast (1980),ChancesAre(1981),Confron- tation(1983),Legend(1984),TheFi- nal Concert (1985), Talking Blues (1991),NaturalMystic(1995),Chant Down Babylon (1999), One Love-The AssimfalouMarley: “Oshomenspensamquepossuemumamente, maséamentequeospossui.” RRAASS KKIILLUUNNJJII 10|RENASCIMENTOAFRICANO
  11. 11. RENASCIMENTOAFRICANO|11Cultura | 14deMaioa3deJunho de2012 VeryBestofBobMarley&theWailers (2002).Brevementesairáumagrava- çãodeBobcomCarlosSantana. Destes álbuns, o meu preferido é o Rastaman Vibration, mas o pessoal aqui curte muito o Legend que é uma colectânea das melhores músicas de Marley, segundo a editora, outro ál- bumbemapreciadoaquiéoSurvival. Os seus ilhos têm feitos regrava- ções das suas músicas. Muitos músi- cos tambémtrabalhama suaobra.Na línguaportuguesa,GilbertoGil,coma versãodeMulhernãoChoresMaisdeu opontapédesaídaeposteriormenteo mesmo fez um álbum apenas com te- mas de Marley aclamado Kaya nan Kandaya. Um mês antes de sua morte, Bob Marley foi premiado com a Ordem ao MéritoJamaicana. Omito A música e a lenda de Bob Marley ganharammaisemaisforçadesdesua morte, e continuam a render grandes lucros para seus herdeiros. Também deu a ele um status mítico, similar ao deElvisPresleyeJohnLennon.Marley é enormemente popular e bastante conhecido ao redor do mundo, parti- cularmentenaÁfricaenaAméricaLa- tina.Éconsideradopormuitoscomoo primeiropopstardoTerceiroMundo. Marley foi agraciado com vários prémios.Destacoosseguintes: • 1976 - Banda do Ano (Rolling Stone) • Junho de 1978 - Premiado com a "Medalha de Paz do Terceiro Mundo"pelasNaçõesUnidas • Fevereirode1981-Premiado com a mais alta condecoração jamai- cana,a"OrdemaoMérito" • 1999 - Álbum do Século (Re- vistaTime)porExodus • Fevereiro de 2001 - Uma es- trela na Calçada da Fama de Holly- wood • Fevereirode2001-Premiado com um Grammy pelo "Conjunto da Obra" • 2004:RollingStoneMagazine classi icou-o número 11 em sua lista dos"100MaioresArtistasdeTodosos Tempos"[4] • "One Love" chamada canção domilêniopelaBBC • Votado como um dos maiores letristas de todos os tempos por uma sondagemdaBBC OlegadodeMarleycontinuamuito forte.AfamíliaMarley,em2005,reali- zouaprimeiraediçãodofestivalÁfri- ca Unite na Etiópia, que não é apenas músicamasincluioutrasactividades, comodebatessobretemasrelaciona- dos com a juventude e outros proble- masqueaÁfricaeosafricanosenfren- tam. No anos seguintes os mesmos festivaisrealizaram-senoGana,África do Sul e Jamaica. África Unite, porque um dos grande sonhos deste afro-ja- maicanoeraveraÁfricaunida. Os ilhos de Marley estão também bem lançados. Os premiados das três últimas edições dos Grammys, na ca- tegoriade Reggae,tinhamo sobreno- me Marley. Damiam Marley, Ziggy Marley e Steven Marley. Ziggy e Da- miamjáhaviamconquistadorotroféu emediçõespassadas. A obra de Marley continua actual, in luenciandocantoresdeváriosesti- los e conquistando sempre novos ad- miradores.AmúsicadeBobnãoéape- nas uma música Rasta é uma música paraoMundo,semserdomundo.
  12. 12. 12|LETRAS 14deMaioa3deJunho de2012| Cultura AngolacriaprimeiroCentroNacionaldeLeitura criarnohomem criarnamassa (…) Criarcriar criaramorcomosolhossecos. AgostinhoNeto A ministra da Comunicação Social, Carolina Cerqueira. inaugurou,nopassadodia8 de Maio, o primeiro Centro NacionaldeLeitura,projectadoecons- truídopelasEdiçõesNovembronacida- dedeNdalatando,tendo-oclassi icado comoumpreciosobene íciodapaz. “Os Centros Nacionais de Leitura são instrumentos fundamentais para promover a Cultura Angolana e, ao mesmo tempo, mobilizar a juventude para o conhecimento. Neste caso, do- támos esta estrutura de novas tecno- logias que vão permitir aos estudan- tes do Kwanza-Norte aprender mais, investigar, estarem ligados ao mundo através da Internet e todas as suas ferramentas”, explicou o PCA das Edições Novembro, José Ribeiro, no acto inaugural. Segundo José Ribeiro, o primeiro CentroNacionaldeLeituranasceuem Ndalatando por razões históricas, já quefoinaquelacidadeque,naprimei- ra década do século XX, nasceu um movimentonacionalistalideradopor intelectuaisdaestirpedeAssisJúnior, quemaistardeparticipounosaconte- cimentos de Ndalatando e Lucala, aliandoaculturaàsededejustiçaeao sonhodaIndependênciaNacional. “A Empresa Edições Novembro, ao projectareconstruiresteedi ício,quis colaborarcomospoderespúblicosno projecto exaltante de levar a Cultura Nacional a todos os cidadãos”, acres- centouRibeiro. ObispodadiocesedoKwanza-Nor- te,AlmeidaKanda,quebenzeuoedi í- cio, ladeado pelo vice-governador da província, Manuel Pereira da Silva, e pelovice-ministrodasTecnologiasde Informação, Pedro Teta, considerou queocentro,“emprimeirolugarajuda os nossos jovens a cultivar a sua vida académica,intelectual”,porissoespe- ra que “possam desfrutar deste meio para o enriquecimento da sua vida” e esperaque“estacasaestejaaoserviço da verdade e da justiça, infundindo uma mensagem reconciliadora que possaunirasnossaspopulações.” João Cristóvão, aluno da 12ª classe na escola Complexo Comandante Be- nedito,foiumdosprimeirosjovensde Ndalatandoaensaiarumcomputador no centro: Para ele, “a vantagem que euvejonoaproveitamentodestasno- vas tecnologias de informação é aju- dar os jovens na sua vida académica, com as nossas pesquisas, investiga- ções, temos aqui muitos jornais, te- mosaquiumasaladeinformáticabem equipadaquenospermitecontactaro restodopaíseomundo.” C onheci Jean Hébrard no Ar- quivoHistóricoNacional.Di- rector do CRBC - Centro de Pesquisas Bretão e Céltico daEscoladeAltosEstudosemCiências Económicas da França, este homem cordial,depeletisnadapelosol,come- çoupordizer:“Aminhaespecialidade éahistóriadeCabinda.Souprincipal- menteumespecialistadoBrasil.Quan- dovocêfaladahistóriadoBrasil,você temdefalarinfalivelmentesobreahis- tóriadeÁfrica,ehádoislugaresmuito importantes,ogolfodoBenin,quetem umarelaçãomuitoprofundacomSal- vadordaBahia,eaqui,Angola,quetem uma relação muito importante com o Rio de Janeiro. Aqui vamos pesquisar osfactosdopassado,principalmentea partida dosescravos.O que acontecia aqui, no momento da captura, da ins- crição,darelaçãocomasmercadorias detroca,etc.” Comooleitorjáseapercebeu,estive a conversar com um pesquisador das rotasdaescravatura,que,aliás,temjá um ítulo publicado nos Estados Uni- dos, que se chama “Freedom Papers” (DocumentosdaLiberdade).“Éumli- vro sobre a história de Rosalie, da na- ção Poulard, uma escrava capturada no Senegal, deslocada para Santo Do- mingo,ilhafrancesa.Elachegouaesta parte,algunsanosantesdarevolução haitiana.Foitestemunhadirectadare- volução haitiana. Mais tarde, foi para Cuba e aí conseguiu criar uma família totalmentenova,quecontinuaatého- je, tem seis gerações, ela era a grande matriarca. Família essa toda ela des- cendente de escravos. Antes de partir deFrança,encontreiumadescendente dessafamílianoSuldaFrança.Éincrí- vel! O nome dessa família é Tinchant. Como é um nome pouco usado, pouco comum,torna-semuitofácilpesquisar oseupassado,asuaárvoregenealógi- ca”,medisseHébrard,comaquelapai- xãohistóricaqueoenvolve. O nosso interlocutor prossegue: “AquinoArquivo,omaterialéfantásti- co, a minha pesquisa fundamental agora é procurar entender melhor a questão do nome do escravo. Porque, aprimeiracoisaqueacontece,quando vocêécapturado,éperderoseunome. Você é imediatamente baptizado e temdeengolironovonomeeumano- va identidade, que é uma identidade cristã.Eumacoisaqueconstateiclara- mente é que um escravo tem só um primeiro nome. Jamais um nome de família.Afamílianãotemvalor,vocêé João, ilho de Joana, ou Maria, ilha de Ana, mas você não é nunca João Silva, vocêéapenasJoão.” Uma outra questão que muito o in- teressa,édesaberoqueacontececom osescravosalforriados.Comoelesre- construiamumaidentidadenova,du- ranteaescravidão,depoisdaescravi- dão nas Américas e também aqui, no continente africano. “Porque aqui também houve muitos escravos que foramalforriadosetiveramderecons- truirumavidanova.Aquestãocentral da minha pesquisa é a questão da identidade. Ser capturado, com um novoestatuto,umanovacondição,es- tou muito interessado em conhecer a situação da escravidão do ponto de vistadomercado”,concluiuHébrard. Jean Hebrard realizou ainda uma palestraemBenguela,comoapoiodo historiadorSimãoSouindoula,sobreo temadarotadaescravatura. JeanHebrardhistoriadorfrancês “Umescravotemsóumprimeironome” JJOOSSÉÉ LLUUÍÍSS MMEENNDDOONNÇÇAA João Cristovão confiante no futuro
  13. 13. LETRAS|13Cultura |14deMaioa3deJunho de2012 Detantasfalas&algumaescrita N umacurta,masmuitobem- sucedida, estadia na Covi- lhã – onde reencontrámos oJoséCarlosVenâncio,que hámaisdeduasdécadasaliseestabe- leceuleccionandoedivulgandolitera- turasafricanasnaUniversidadedaBei- ra-Interior–,tivemosogratoprazerde, uma vez mais, conviver com o mestre Luandino.Falámosdetudomais,algu- ma coisa dentre tantas coisas do hoje da vida política, cultural (principal- menteliterária,claro!),danossaterra, nossaamadasemprepresente. Inevitavalmente, falámos da nossa História e dos movimentos literários geracionaisdesdeosidosdadécadade quarenta do passado século. Falámos dosmovimentoseditoriaisemAngola e das actuais editoras do burgo. Falá- mosdosautoresnacionaiseestrangei- ros, tal como Tomás Vieira da Cruz e seu ilhoTomásJorge,cujaobrapoética foirecentementerecolhidaepublicada exemplarmente pela ‘’Kilombelombe Editora’’ doLapin. Falámos de Geraldo Bessa Victor e dealgunsdosseuspecados.Dofolclore angolano:ÓscarRibasdaCasaMuseue do ‘’Missosso’’. De Manuel dos Santos Limade‘’OBuraco’’.DeA.Neto,Viriato, MárioPinto,deJacinto–poetado‘’Kia- posse’’, e do Mário António dos ”100 Poemas’’.Poetadere inadapenaeapu- radasensibilidade.Opróprioensaísta do‘’RelerÁfrica’’.Falámosdocaráctere dapersonalidadeliteráriadecadaum deles, bem como do papel por eles de- sempenhadonomovimentodeliberta- ção nacional. Falámos de Rui Nogar, Craveirinha, Noémia de Sousa, da tia Alda do Espírito Santo e de Amílcar e VascoCabral,todosjáfalecidos. Falámos, como não podia deixar de ser, da nossa geração de 80 e do nosso contributoparaaconsolidaçãoeode- senvolvimentodocorpusedaossatura damodernaliteraturaangolana.Falá- mos do Ruy Duarte, do David Mestre, do Arlindo Barbeitos e naturalmente dain luênciadestesnassubsequentes propostasdetextoestéticoeliterarie- dadeconteudística.Falámosdosuple- mento «Vida & Cultura», do Jornal de Angola e do ‘’general’’ do jornalismo cultural dos anos 80 em Angola, refe- rindo-nos ao Américo Gonçalves ou Ocirema,comotambémsubscrevia. FalámosdoLuísKandjimboenquan- todedicadoensaístaafricano,dassuas polémicas e contradições espirituais. FalámosdaPaulaTavares,quechegou mesmo a ser apelidada e taxada (por algumasfemeninasmentalidadespuri- tanasdeentão...),depoetapornográ i- caemrazãodoseuprofundoeintenso erotismopoético.DoZéLuísMendon- ça, que desprecisou de ser brigadista da literatura para se a irmar no nosso contexto geracional como um dos maiores senão mesmo o maior, com a sua ‘’Chuva Novembrina’’, seguida da ‘’Gíria de Cacimbo’’ e de tantos outros títuloscujadiversidadetemáticaeiró- nica podemos agora certi icar com a suamaisrecenterecolhapoéticaedita- da em Portugal pela NÓSSOMOS, uma editora de poesia com propósitos es- sencialmente de divulgação cultural além-fronteiras. Re iro-me, em suposta primeira mão, ao ‘’Africalema’’. Livro com 102 poemasescolhidos‘’naquindautilitá- ria‘’de9doscercade20 publicadospe- loautor,sobosdesígniosda«existência popular generalizada», em função da incompleta glória de ser HOMEM e ci- dadão do mundo, que se alimenta só e somentedofrutodaspalavrassempre rentes à metáfora dos corpos desnu- dos. No meio de tantas falas faladas, no carro, no departamento de sociologia da Universidade da Beira-Interior, na bibliotecadaCâmaraMunicipaldaCo- vilhã, e até mesmo nos restaurantes corredores e elevadores do hotel cujo nomenãoéaquichamado,algoquenos chamou devidamente a atenção e to- couprofundamenteocoraçãofoiofac- todequeopúblicoleitoreamantedali- teratura em Portugal já entendeu que Angola, e os demais países africanos colonizados por Portugal, não têm só umametadedemeiadúziadeescrito- resquelhessãoinsistentementeapre- sentados em razão do circuito do co- mércioeditorial. Ficouclara–apreto-e-brancoeaco- res! –, a necessidade e e avidez de co- nhecerem também os outros. Os não euro-descendentes,comodiriaoRicar- do Riso. Os outros ainda não editados em Portugal. Os outros que só editam localmente.Osoutros,osoutros,osou- tros....pois,osleitoresestafados...mui- tocansadosmesmocomosmesmos,os mesmos,ecomosmesmos. ...E falámos que isso acontece tam- bémporculpadadebilidadedaspolíti- cas culturais no mundo da cultural- mente‘’inexistente’’Comunidadedos PaísesdoscidadãosfalantesdaLíngua que«supostamente»Camõesimortali- zou. Por isso e por exemplo, os livros editadosentrenósnãocirculamemla- do nenhum nem mesmo no interior dos nossos países africanos. Assim sendo,julgamosestarmaisquenaho- ra,jácomtamanhoatraso,dequemde direito pensar e repensar sobre esta suave polémica em questão. Os bens culturais devem circular, mas não de qualquermaneira. Na Covilhã e em boa companhia, passamosmomentosregradosemuito bem regados. Falámos, falámos, falá- mos mas, em abono da verdade e para vossogoverno,interessa-medizer-vos, inalmente, que nós ouvimos mais do que falámos, pois assim reza a regra primeira segundo Ruy Duarte de Car- valhonoseulegado:HUMILDADE! Odivelas,Maiode2012 JJ..AA..SS..LLOOPPIITTOO FFEEIIJJÓÓOO KK.. NNOOTTAASS && NNÓÓTTUULLAASS Escritores angolanos na Covilhã A audiência
  14. 14. 14|LETRAS 14deMaioa3deJunho de2012 | Cultura P ara compreender os funda- mentos epistemológicos dos Estudos Africanos nos quais se inscrevem os Estu- dos Literários Africanos, importa in- terrogar-nos sobre o momento a par- tirdoqualseconstituemcomocampo disciplinar dando lugar ao processo deproduçãodoconhecimentosobreo continenteafricano. Numa abordagem histórica e comparadadosEstudosAfricanos,en- quantoinvestigaçãoespecializadaso- breassociedadeseculturasafricanas, a que também se designa por «africa- nismo», observa-se que eles são uma emanação das políticas coloniais da Alemanha, Grã-Bretanha, França e Bélgica, potências que disputavam a ocupaçãoefectivadeÁfrica,procuran- doconferiràsuapresençaumalegiti- maçãocientí icamaisintensa,durante as duas primeiras décadas do século XX. Foi na Alemanha onde, em 1910, ocorreuaprimeiraexperiênciadeins- titucionalizaçãoacadémicadosEstu- dosAfricanos,porocasião danomea- ção de Diedrich Westermann como professor do Departamento de Lín- guas Orientais na Universidade de Berlim.Seguiu-seaGrã-Bretanhacon- sagrandoessedomíniodosabercoma criação do International Institute of African Languages and Cultures, em 1926, que passou a publicar a revista África. O surgimento da School of OrientalandAfricanStudiesnaUniver- sidade de Londres, em 1939, substi- tuindoaSchoolofOrientalStudies,tes- temunhaaexistênciadeumacomuni- dadedeinvestigadores,antropólogos e sociólogos, que realizavam já pes- quisasemÁfrica.EmFrança,ainvesti- gação neste domínio adquire uma di- mensão institucional alguns anos maistarde,apósafundaçãodaSociétè desAfricanistesem1930. Ora, é legítimo levantar questões acercadocarácterafricanodosEstudos Africanosedaunidadedassuasdiscipli- nas,talcomofazPaulinHountondji.Ao esboçarassuasrespostas,partindodo pressupostodequeaactividadecientí i- caemÁfricapodeserquali icadacomo «extravertida» e «destinada a ir ao en- contro das necessidades teóricas dos nossos parceiros ocidentais e respon- deràsperguntasporelescolocadas»,o ilósofobeninenseescreve: Os chamados estudos africanos não só se baseiam em metodologias e teo- rias que se consolidaram em vários campos […] muito antes de terem sido aplicadasaÁfricaenquantonovocam- po de estudo, como é, de resto, comum, em instituições académicas e de inves- tigação, encontrar esta matéria asso- ciadaaoutrasdisciplinas[…]. Portanto,éperfeitamenteadmissí- vel discernir perspectivas radical- mentediferentesdefendidasporAfri- canosenão-Africanos,noquedizres- peitoàsemânticadosEstudosLiterá- riosAfricanosesuasdisciplinas. Na organização institucional das universidades, os Estudos Literários Africanos constituem-se após a Se- gunda Guerra Mundial. Foi nas déca- dasde40e50quesurgiramasprimei- rasuniversidadesafricanasdoséculo XX.MasaformaçãodosEstadosinde- pendentes ocorre a partir da década de60,obedecendoaomodeloociden- taleherdandoasfronteiraseasinsti- tuiçõespolíticasdasantigaspotências coloniais.Aedi icaçãodesistemasde ensinoquepudessemincorporarcon- teúdos programáticos sem qualquer in luênciaexternafoiimediata.Emal- guns países africanos as mudanças curricularesdematériasrespeitantes àsLiteraturasAfricanasocorreramlo- go a seguir à independência. É o que sucedeucomoSenegal,ondesereali- zou o primeiro colóquio consagrado ao ensino das Literaturas Africanas, em 1962. Na Universidade de Dakar assim como na maior parte das uni- versidadesafricanas,aestadisciplina foraconferidoumestatutosemelhan- teaoutrasdisciplinasleccionadas,no âmbito da organização de departamentos autóno- mos (Kane, 1994:27-39). Quantoaoensinosecundá- rio, as Literaturas Africa- nas, sustenta Kane, foi in- troduzida de modo anár- quico, sem métodos, sem programas.Numa perspec- tiva comparada, verifica- se que nos países africanos de língua francesa, o ensi- no das Literaturas Africanas nas universidades e nas escolas se- cundárias se consolida em princípios da década de 70. Por exemplo, a in- trodução de textos literários africa- nos (incluindo a literatura oral tradi- cional) ocorre apenas em 1972, após a Conferência de Ministros da Educa- ção, realizada em Madagáscar. Nos países africanos de língua in- glesa, o mais expressivo sinal de mu- dançaproduz-secomumtextodatado de 1968, subscrito por três autores origináriosdaÁfricaOriental,através do qual defendem a abolição do De- partamentodeInglêsnaUniversidade deNairobieacriaçãodoDepartamen- to de Línguas e Literaturas Africanas (WaThiong’o,1982:145-150).Talco- mo diz Biodun Jeyifo, «the constitu- tionofAfricanliterarystudyasalegi- timateacademicdisciplinewithcerti- ieddegreesandprofessionalspeciali- zation began in Africa, not in Europe orAmerica». Podedizer-sequeocen- troinauguraldegravidadedeumensi- nosériodasLiteraturasAfricanasestá situadoemÁfrica. Ao apresentar as conclusões do um inquéritosobreoensinodasLiteraturas Africanasnasuniversidadesdospaíses africanosdelínguainglesa,BernthLind- fors,observaqueadescolonizaçãodos estudos literários emÁfricaestavaemcursoeemestado bastante avançado. Nota que dos 194 cursosseleccionadosem30universida- desdouniversode14países,aamostra representavacercade60%donúmero total de cursos em que se inscrevem 226autores.Aconclusãoaquechegao referido investigador permite susten- taraideiadequeasLiteraturasAfrica- nas ocupavam um lugar signi icativo nosprogramasdosDepartamentosde Inglês, Departamentos de Literaturas Africanas ou Departamentos de Lín- guasEuropeias.Estesindicadoresesta- tísticos fornecem um quadro que re- lecte,provavelmente,deigualmodoa situaçãodospaísesdelínguafrancesa. Efectivamente,ainvestigaçãoeoensi- nodasLiteraturasAfricanastinhamal- cançadoníveissemprecedentes,espe- cialmentenoquedizrespeitoàsuains- titucionalizaçãoacadémica.Ignora-se, noentanto,ecomalgumarazãooquese passa nos países africanos de língua portuguesa. Oprocessodeautonomizaçãodisci- plinar das Literaturas Africanas foi dando origem ao abandono das deno- minações generalistas elaboradas na basedecritériosraciais.Ahistoriogra- iaregistain luênciasprofundasqueo movimentopanafricanistaeposte- Literaturasafricanas ouLiteraturaAfricana LLUUIISS KKAANNDDJJIIMMBBOO Institucionalizaçãodeumadisciplina DR
  15. 15. LETRAS|15Cultura | 14deMaioa3deJunho de2012 riormente a Negritude exerceram so- breasideologiasdosescritoresAfrica- nos.DurantemuitotempoasLiteratu- ras Africanas eram adjectivadas com fundamentonocritériofalaciosodara- ça.Eracomumousodeexpressõesco- mo«literaturanegro-africana»,«litera- tura neo-africana» ou simplesmente «literaturanegra» Parajusti icartaisdesignações,Ly- lian Kesteloot, na sua Anthologie Né- gro-Africaine,argumenta: Consideramos a literatura negro- africanacomomanifestaçãoepartein- tegrantedacivilizaçãoafricana.Emes- moquandoéproduzidanum meio cul- turalmente diferente, anglo-saxónico nos Estados Unidos, Ibérico em Cuba e noBrasil[…]Oespaçodaliteraturane- gro-africanacobrenãoapenasaÁfrica ao sul do Sahara, mas todos os cantos do mundo onde se estabeleceram co- munidadesNegras,sobosauspíciosde umahistóriaturbulentaquearrancou ao Continente centenas de milhões de homenscomoescravos[…]. Otipodeargumentosaduzidospor autorescomoLilyanKesteloot(litera- tura negro-africana), Janheinz Jahn (literatura neo-africana) ou Jacques Chevrier(literaturanegra)nãoofere- cemqualquerconsistênciateóricapa- ra merecerem a dignidade que lhes é conferida. A partir da década de 70 e 80, a tendência dominante da crítica designa as Literaturas Africanas no plural,con inando-asaosespaçosna- cionais.Passamaserpublicadosestu- doseantologiasqueobedecemaocri- tériodanacionalidadeliterária.Deste modo,LiteraturasAfricanasouLitera- turaAfricanaéadenominaçãodeuma disciplinaquepelasuavocaçãogene- ralista contradiz a lógica do Estado- naçãodequeemanaoparadigma ilo- lógico nacional em que se funda o en- sino das LiteraturasEuropeias. Não é raro encontrar professores e investi- gadores europeus e americanos que, negando a existência de literaturas nacionais em África, defendem a de- nominação colectiva destas literatu- rasenquantodisciplinacujade inição depende do seu vínculo com as lín- guas europeias em que são escritas, sendo,porisso,leccionadasnoâmbito de Departamentos de Estudos Ingle- ses,FrancesesouPortugueses.Porau- sência deumarobustaepistemologia africana independente, observam-se repercussõesdeletériasdessahierar- quizaçãonasuniversidadesafricanas. Deste modo a investigação e o ensino das várias Literaturas Nacionais do continente africano em muitos casos ainda assentavam em duas hipóteses erradas.Emprimeirolugar,adenomi- nação generalista de Literatura Afri- canaouLiteraturasAfricanasqueeli- minaapossibilidadedepassaràcom- preensão das suas especi icidades. Emsegundolugar,abalcanizaçãolin- guística dos Estados que está na ori- gem da marginalização das Literatu- ras Africanas de Língua Portuguesa dosEstudosLiteráriosAfricanoscuja denominaçãodisciplinar(Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa) empaísescomoPortugalrevelaaper- vivênciadeumpaternalismocolonial que, segundo o investigador portu- guês Carlos Reis se manifesta através de uma «mal disfarçada resistência contraoreconhecimentodosigni ica- dopróprio[…]frutoempartederemi- niscênciasideológicasderaizcolonia- lista, essa resistência funda-se tam- bémnaleituradetaisliteraturasàluz docânoneliterárioportuguêseeuro- peu,leituradestepontedevista,éna- turalmentedesquali icadora». Apesar disso, o volume de tra- balhos de investigação consagrados às Literaturas Africanas de Língua Portuguesa deu lugar à sua discipli- narização em várias universidades do mundo, especialmente do Brasil, Portugal e Estados Unidos da Améri- ca. Se entendermos que o processo de disciplinarização comporta duas fa- ses, uma pré-disciplinar e outra disci- plinar, concluiremos que à primeira chega-se em finais da década de 70.Mas a fase disciplinar não alcan- çou a sua consolidação. Na fase disciplinar destacamos nomes de três professores universi- tários, os discipline-builders, no- meadamente Russell Hamilton dos Estados Unidos da América, Manuel Ferreira de Portugal e Maria Apareci- da Santili do Brasil. ManuelFerreiranotabiliza-secomoo responsávelpelaintroduçãodadiscipli- na de Literaturas Africanas de Expres- sãoPortuguesanaFaculdadedeLetras daUniversidadedeLisboa,em1974.Se- guiram-se as Faculdades de Letras da Universidade do Porto em 1975, pela mãodeSalvatoTrigoe,em1980,asFa- culdadesdeLetrasdaUniversidadede CoimbraedaUniversidadeNovadeLis- boa.Asuainstitucionalizaçãoocorreria em 1978, através dos Decreto-Lei nº 53/78de31deMaioedoDecreto-Leinº 75/84 de 27 de Novembro. Os primei- rosMestradoseDoutoramentosforam criadosnosanos80doséculoXXpelas universidades em que se leccionava a disciplinaaoníveldalicenciatura. No Brasil, em 1984 discutia-se ainda a legitimação do ensino das Li- teraturas Africanas nos cursos de Le- tras. Durante as duas décadas que se seguiram, ao que parece a situação não sofreu alterações signi icativas, apesar da «última proposta de refor- mulaçãocurricular»,talcomonosdiz a professora Laura Padilha (2010:4) que chega mesmo a defender, em ma- tériadeensinodasLiteraturasAfrica- nas de Língua Portuguesa, a necessi- dadedeuma«descolonizaçãocurricu- lar»paraoBrasil. Chamoaatençãoparaofactode incidirmosa re lexão sobre as Litera- turasAfricanasdeLínguaPortuguesa emgeral.Nãorigorosamentedaslite- raturas nacionais de cada um destes países. É de ensino das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa que setrata.Levanta-seaquiapossibilida- dedeestarmosperanteduasdiscipli- nas, Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e a Literatura de cada um dospaíses,istoé,LiteraturaAngolana, Literatura Moçambicana, Literatura Cabo-Verdiana, Literatura da Guiné- Bissau e Literatura de S.Tomé. Rela- tivamente à primeira podemos falar da necessidade de desenvolver um ensino interdisciplinar cruzando os Estudos Africanos e as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, es- tabelecendo as devidas linhas de diálogo com as Literaturas Africanas de Língua Inglesa e Língua Francesa. No dizer de Jean-Marie Grassin, a aludida perspectiva comparatista começaria por privilegiar a aborda- gem inter-africana : Trata-se de valorizar a sua especi i- cidade e o seu papel nos grandes con- juntos literários para os quais ela terá contribuído […] Um comparativismo intra-africanopermitiria situar, atra- vésdoestudodoscorrelatosexternos,a cultura africana no quadro das gran- des correntes artísticas, políticas e so- ciais do planeta. O que é indubitavel- mente melhor do que um olhar sobre a palavra africana no seio dos grandes conjuntos exófonos. (Grassin, 1984 :257-271). Portanto, é um imperativo para os Estudos Literários Africanos, proce- deràrevisãodasdenominaçõesdisci- plinares das Literaturas Africanas no pluraledasLiteraturasnacionaisdos países africanos no singular. É que a história da formação das disciplinas demonstraopapelqueonomedeuma disciplinaeasuaestabilidadedesem- penhamnasuaconsolidação,alémde outros factores como a existência de publicaçõescientí icas,nomenclatura pro issional, publicidade institucio- nal, comunidades cientí icas organi- zadasemassociações.Aonívelinstitu- cional,acriaçãodeunidadesdeinves- tigação e ensino nas universidades, taiscomoDepartamentodeLínguase LiteraturasAfricanas,Departamento de Estudos Literários Africanos, De- partamento de Literaturas da África Austral, Departamento de Estudos ComparadosAfricanos,cursosdepós- graduação,mestradoedoutoramento visandoaespecializaçãoemáreasco- mo Literatura Angolana, Literatura Moçambicana, Literatura Cabo-ver- diana,LiteraturaOralTradicionalAn- golanaouMoçambicana,etc.,podeas- sumirumaimportânciadecisiva. A cidade de Dakar no Senegal albergou no ano de 1962 o primeiro colóquio consagrado ao estudo e ensino das literaturas africanas
  16. 16. 16|LETRAS 14deMaioa3deJunho de2012 | Cultura A pós a publicação da obra « As origens do Reino do Kongo », Patrício Batsika- ma nos propõe, aqui, um estudo, na realidade, adicional ao primeiro que tive, igualmente, o prazer de apresentar, neste lugar, meses atrás. Estendendo-se por 328 páginas comumcomplementodeumadezena de páginas de um corajoso índice re- missivoepublicadosobachancelada Universidadeeditora,olivroarticula- se em sete capítulos, dois anexos e umarespeitávelbibliogra ia. A ilustração da capa é bastante sig- ni icativa.Trata-sedobustorealizado peloescultoritaliano,FranciscoCapo- rale,sobinstruçãodoPapaPauloV,do Embaixador acreditado no Vaticano pelo Rei do Kongo, Álvaro II, Dom An- tónioManuelNeNvunda,quefaleceu, nodia6deJaneirode1680,emRoma. Corpora Interessadoaagregar,omaispossí- vel, elementos orais e antropológicos doprovávelaportedoeixomeridional, fundadordoconjuntofederal,oautor engaja-se num exercício, paciente, de reexame,àluzdessastradiçõesdeca- rácter histórico, de princípios cons- trutoresdasestruturassociaisepolíti- casdoReinoedaconstanteconcepção edi icadora do tríptico. E não se priva de plantar novas propostas de leitura dageogra iapolíticada«União».Para não negligenciar nenhuma pista nas corpora, o neto de Raphael aprecia, prudentemente, - pântano homofó- nico e homográfico obrigue ! -, as « coincidências » linguísticas atesta- das no falar da velha população ! kung ou Khoi ; arrastadas, provavel- mente, desde mais de 2000 anos, nu- ma evolução de interações civiliza- cionais francamente desequilibradas com os migrantes, dominadores ou engolidores bantu. A apresentação desses traços justifica-se pela reco- lha de lendas supondo a presença de um substrato humano pré-kongo de tipo pigmeu. Ainevitávelpistaovimbunduéexa- minada, bastante substancialmente, nassuassimilitudesdenaturezatopo- nímica ou de conceção ligada às ori- genseà organizaçãodaslinhagensde poder; boa direção de investigação, sendo as populações dos Planaltos centrais, notoriamente, o resultado dasdiferentesvagasmigratórias,vin- dasdesetentriãoedooriente. O mesmo exercício de concordân- ciasbantu,con irmativo,entreosKon- go e os Herero, os Nyaneka-Humbe, e acessoriamente, os Kwanyama e os Cokwe,éproposto. O autor apresenta, em seguida, o essencial das provas arqueológicas que confirmam a cristalização da especificidade kongo à volta do fim do primeiro milénio da nossa era, estabelecendo laços de parentesco com a cultura material (cerâmica, vestígios metalúrgicas etc.) com os Bantu meridionais. A im de avaliar o aporte do “Sul”, a fundação do Kongo dia Ntotela, o au- tor não exclui as voláteis reconstru- çõesmíticas,contemporâneas, degé- nese, de base cosmogónica ou espá- cio-temporal. LigaçõesAustrinas Examina, inalmente,sempre,nesta linhadeinvestigação, asligaçõesaus- trinasdaformaçãodaarquiteturamo- nárquica instalada nos Planaltos de Pembacassi,apartirdasirrefragáveis fonteshistóricasdasprimeirasanota- çõesdeautoresportugueses,italianos e holandeses mas igualmente, as cor- respondências dos próprios sobera- nosdoKongo. Esta análise é, também, feita a par- tir das releituras de investigadores contemporâneos. Oméritodapresenteobra,querepre- sentaumestudodegrandevisão,éode ter posto em ili- grana,nabasedefontesorais,arqueoló- gicas e escritas, um povoamento ante- kongo,deestádiovisivelmenteneolíti- co, constituído de grupos pigmeus e strandlopers, comunidades bem ne- gróides mas não locutores de línguas bantu, como tínhamos suposto. Essas populações serão, gradualmente, ab- sortas, antes do início da nossa era, pelos poderosos Bantu, metalurgis- tas, uma franja dos quais ocupará a região do Baixo Rio, a partir da flo- resta equatorial, mas cujo essencial, contornará, com razão, essa temível e densa barreira vegetal. Avançarão através das linhas de florestas tropó- filas e savanas orientais e austrais. Um dos reflexos históricos desta hipótese de esquema de expansão é o posicionamento estratégico, avun- cular, do Ne Mbata, chefe do Estado oriental do conjunto federativo, fac- to atestado nas fontes escritas e ré- citas kongo. En im,aoutraevoluçãoindicativae o reconhecimento pelos próprios Kongo, da presença, no seu seio, de componentes mbundu, quer dizer de assimilados. Emsuma,apresenteanálisecon ir- ma a nossa asserção sobre o facto de queosintensosmovimentosmigrató- riosdosBantuteremconstituído«pe- ríodosdegrandedinâmicahistóricae antropológica»;e,nasorigens,opaís deNimiaLukeninãoescapouaisso. SSIIMMÃÃOOSSOOUUIINNDDOOUULLAA “OreinodoKongo easuaorigemmeridional” Momento em que o autor Patrício Batsikama fazia uso da palavra PAULINO DAMIÃO
  17. 17. LETRAS|17Cultura | 14deMaioa3deJunho de2012 APoesiadasúplicasatírica edeatalhosquedãoaocoraçãodaÁfrica “MarcasdaGuerra,PercepçãoÍntima eoutrosFonemasDoutrinários”deLopitoFeijóo P ercepçãoÍntimaéna“branquinha”e“vir- gem” pureza do simbolismo a lágrima e a gota de sangue africanas das “Marcas da Guerra”. É uma descida carregada dum cepticismoinofensivo,“angelicalmente,”semalie- nações ao âmago da África e sacudindo o leitor da prisão ideológica, “exílio”, por via da ideia de uma Áfricaparadoxalmentenovaouvirgemmasjácheia demácula. É, também, entre “ Outros Fonemas Doutriná- rios”,umasúplicasatíricadosujeitoaonovotipode “Kamikaze”quecaminhaminadoparaofuturoeum atalhoparaocoraçãodaÁfricaanteosnovoscami- nhose“voos”“propostos”pela“bailarinadesaiaas- sombrada”, tida como proposta metafórica da dis- persãodosnovostempos: MARCASDAGUERRA (…) 3 Dez troçosnostroços estaviagemqual virgemcontemplando se esfarrapada. 4 Dosolhos destacriançaescorre umbrilho sangrento umgritoinaudível umsonho porsuposto (…) Comtrintaecinco“visõesinterpretativas”dividi- das em “ Doutrina Sentida”, “Rebelde Doutrina” e “DoutrinaTelúrica”,ospoemasestãocolocadosnum sentidodegradaçãoprogressivadatesetecida.Esta arquitectura restringe qualquer possibilidade de desencontro,alternânciabruscaouinjusti icadade tomedetemáticanaobraedenunciaastrêspartes como fases de uma metamorfose homogénea do poeta cuja criação é antecedida pelo teste da apreensãodos sentidos, convulsãoe, inalmente, a acçãoanunciadoradoporvir. Maisdoqueumaferramentadapercepção,opor- vircrescegradualmenteemtodosospoemasoraem re lexoexplícitooraimplícitonadinâmicadapala- vracriandoumaespéciedea inidadeelectivaentre os poemas que conferem a obra a elevação de ma- crotexto.Sublimementerebelada,deacçãoafectadae semcon lituarcomorelativismo,poisprofessauma esperança subentendida e um débil hedonismo, o mais concreto desta poesia veri ica-se na negocia- ção/combateentreopoetaeaconsciênciacolectiva actualparaestaÁfricaqueépassivamenterefém,víti- maviciadadosdanoscolateraisdoocidenteequese desembaraçaanteodesbravardosnovosdesa ios. Opoetafotografaoseumedopelalinhaténuepor ondeseupovocaminhanaparadoxaltentativadeir buscar-seesofrecomaexistênciadapossibilidade de África ser, para a posterioridade, uma ideia fu- nesta,umaréstiaemmitodeumacontecimentoain- da moribundo nos dias de hoje e debate-se paro- diando com a dualidade de realidades actuantes desta África que é, simultaneamente, berço da hu- manidade mas da miséria e da fome e inferno do presentemas“suposto”paraísodofuturo: INFERNO (…) 3 Nascopas,loiçade/mais Sevaipartindo enós,defome,engolindocacos (…) Ospoemasnãonascemdovagoebradamsobrea sobriedade de uma consciência combativa. A pala- vrapoéticaéatiradaemtaquicardia,jápossuídade umaimprevisívelfeitiçarianacriaçãocoesadopoe- masuperioraunidadedecrivodamesma,umtanto contrária da técnica de criação modernista e que transformam os poemas em autênticos gestos da modernidadecomgravitaçõesdagravidadedodis- curso apurado pelas correntes de pensamento da retórica prisional. Do resultado deste palpitante processocriativonascemrecriações arquitextuais que atravessam as diversas formas do lírico e que propõemacomunhãocomaprosa: TESTEMUNHO (…) Testemunhoportodasasequinasmor- tosdesiguaisporsuaculpa.Todaelasua culpa.Venho.Façodasminhascarnesas espadas dos nossos ante/passados por ora num sítio a noroeste de Kush nas margensdoNobreNilocompartilhando ibundosdaqui.Seiquechegarãopelavia deUpembaacompanhadosdealgumga- do,-quehaviasidoemrazãododestino-, vítimadafomeaquandodaprimeiradas primeiras de todas as secas com que vi- mossendoagraciados. (…) A “carga de alma” é aqui expressa por via de um panteísmopraticadopelasculturasafricanaseque opoetasegueetomadecontextoedeelmo.Noder- ramamento poético, os rios, desertos, matas e bi- chos são evocados e restituídos na sua posição transcendental: NASEDEDOSRIOSAFRICANOS -NILO Percorre divinamente de cabeça es- branquiçada fertilizantedecheiasestivais (n)aquelatelavistaporFromentin -NIGER Umapontemetálicaperpassa oíntimocaudaldoseucoração comdestinoaBernue -CONGO A espessura do seu marulhar murmu- ra noreinadocoma lu vialidadedaságuasbenzidas -KWANZA Feitosímbolodere(s) posta nação aparece caudalosamente re ajustado entre norte e sul. Este ou aquele? -ZAMBEZE P´losditosdecantinadeleita-se Lungue-Bungopopular Incenerados seus antepassados levi- tampróximodo [Zumbo. -ORANGE Oh… Garieb. Corre, salta, estende-te, desdobra-te Autonomiza-te o sol ao Cabo das Agu- lhas tãobememrazãodaidentidade! . Aobraéumjangoondeosdeusesafricanosseen- contram.E,sobamúsicasimbolistadeLopitoFejóo, osdeusesdançamemcomunhãocomanatureza.A invocaçãoéconstantee,maisdoqueumaentidade identi icadora,anaturezaacordareunidanapoesia comopalcodareuniãodosdeuses,entidadesincor- ruptíveis,parteconcreta/secretadaÁfricaeabsolu- tamentedisponíveisachorarporela. MMAATTAADDII MMAAKKOOLLAA
  18. 18. 18|LETRAS 14deMaioa3deJunho de2012 | Cultura Assim, o poeta, porta/portador quali icado da mensagem, traz das entranhas da África um grito antecedidodechoro.Osdeusesdes ilamnacorren- tezadaab-reaçãodapoesiadeFeijóo: PURA&MADURA I Chamam-meÁfrica Paribastardosebastantes Quemesmosofrendoalém-mar Seuberçopodeesigni ica. II Nkundi ou Npangui são tão ilhos quantotu DoBurundiouRuanda Tenho-os tão bem em Luanda [no Kwandaouna Ganda]. III -Ohfeitiçodecarneeossos: Sincroniza-te emrazãodosnossos ecomosempreimenso,multiplica-te- me. IIII Soumulher/mãeentreYorubaseBan- baras Entrego-te-mepouca,loucaemadura PURA AFRICA PURA! PERCEPÇÃOÍNTIMA (…) -Uma cidade por aqui, é um autêntico mercado daserpentedoprazer todosvêmevão.Vemevão,vãoemvão II Estasinceramenteésimplescidade novevezesforaateciturasistemática invisivelmente equacionada à moda acidental comoventes estradas aéreas rasgam- lheatextura lorestal estampada no semblante do comum cidadão quaseemdesuso Tudoémodernoeoriginal sobresaindoempolgânciadosdeuses Háuças,Ybos,Yorubas,Peules,Fulanis, eetc. (…)
  19. 19. Cinema|ARTES|19Cultura | 14deMaioa3deJunho de2012 Terça Feira 22 de Maio Terça Feira 15 de Maio 19.00 Horas, entrada livre 19.00 Horas, entrada livre Sãoestesospróximosdois ilmesqueoCinemaNoTelhadoiráexibirterças-feiras,às19horas,noterraçodaUniversidadeLu- síada,naruado1ºCongressodoMPLA. OmêsdeMaioétotalmentededicadoácinematogra iaangolana. Nodia15deMaio,seráexibidoodocumentárioangolanoRITMOSURBANOS,MELODIASDEUMAIDENTIDADEdeIsilda Hurst.EmAngola,astradições,amúsicaeadançatêmdesempenhadoumimportantepapelnapreservaçãodamemóriacolec- tivaedaidentidadeculturaldeumanação.Entreosestilosurbanos,comoRebita,Kazukuta,Semba,Kizomba,podemosencon- trarumamisturadeelementosquetornarampossívelàspessoas reinventarassuasprópriastradições. Nodia22deMaio,oterraçodaUniversidadeLusíadaexibiráo ilmeAVIAGEMAOKUROKA.DirigidoporNguxidosSantos, trata-sedeumdocumentáriocolorido,emportuguês,semlegendasquenosmostraodesertodoNamibe,oshábitosecostumes dapopulaçãodomunicípiodoKuroka. Aexibiçãodestes ilmesestáincluídanoprojectoMABAXA-FestivaldeCulturaUrbana,doInstitutoGoethe.
  20. 20. C20|ARTES|Música 14deMaioa3deJunho de2012 | Cultura Nagrelha EEssttaaddoo mmaaiioorr ddoo kkuudduurroo ccoonnttiinnuuaa nnoo BBaaiiããoo
  21. 21. Cultura | 14deMaioa3deJunho de2012 É actualmenteumdosmaioresnomesdoesti- lo kuduro. Tem no registo o nome de Gelson CaioManuelMendese,nospalcos,Nagrelha. Integrantedogrupoos“Lambas”,muitasve- zesaparececomolíderdeste,emboranaen- trevista que nos concedeu em casa, sita na rua do Baião, distrito do Sambizanga, pre- tenderapenasfalardesi.Aletra“Comboio”, música do primeiro CD do grupo a que per- tence e escrito por ele é uma das suas maio- res motivações para num futuro breve retratar a sua vida numa obraliterária. Di ícil foi sentar com Nagrelha. Pois só através de Kanguimbo Ananás,aquemchamademãe,foientãopossívelaconversa.Foram precisasquatrohorasdeespera,numsolardenteentrerisadasso- brehistóriasdomundodoKuduro.“Nagrelhaéhumano”,diziaoku- duristaDaBeleza,amigodocantorquenaocasiãoseencontravano local.Otempopassavaeoutrosmúsicoschegavamàresidênciade Nagrelha:100Maneira,CháPreto,Trator,Mago,Weza(dasfuguen- tas)sóparacitarosquesãodaslidesdomúsico.“Estasemprefoia nossacasa”,disseumdosmúsicos. Depois de longa espera, surge Nagrelha, extrovertido e sério, convidando-nosacomermacaiabo,seupratopreferido.“Aconver- saéNagrelhaouosLambas?”,perguntouomúsicoaosrepórteres, tendodeseguidaadvertidoquesófalariasobreogruponapresença dosoutroselementos. “OsLambaséumgrupocompostoporbaila- rinoseoutrosvocalistas”,advertiuomúsico,quenomesmoinstan- tepediuparaumdospresenteschamarBrunoKing,outrovocalista dogrupo.Esteacaboupornãocomparecer,pornãoseencontrarno bairro. Nagrelha,paraalémdecantareencantar,tambémaprecialetras deoutrosartistas.EfoinamúsicadeDavidZé,reproduzidapeloir- mãoGabiMoi“Eutenhoumavizinha,masnãodigoonomedela.Eu tenhoumavizinha,masnãodigoonomedela.Saiudasuacasaefoi vivercomonamorado.Quandochegouemcasa,amãedelapergun- tou: minha ilha onde é que estavas e ela não soube responder. A mãefoitrabalhareelapôs-seachorar,amãefoitrabalharelapôs-se achorar”e“Meninaquandoqueresdemimémelhordizersim”de ManRé,queomúsicoseinspirou.“Naaltura,estasmúsicasinspira- vam-me e davam-me energia. Sentia que era um homem batalha- dor, eestascançõespunham-me a re lectirno futuro”,disse, aoin- terpretarasmúsicascombastantesatisfação. OiníciodacarreiradeNagrelhaassemelha-seaodeoutrosmúsi- cosdoestilokuduro.ComeçoutambémpeloRapp,istoem1997,no bairro do Sambizanga, onde nasceu e vive. Mais foi no kuduro que viuasuasortetornar-serealidade,logonasaídadoprimeirodisco do grupo, Os Lambas, com o título “Os demónios do Sambizanga”. Desdeentão,oseunomeésemprecitadoquandosefaladokuduro, anívelnacionalouinternacional.“Comorappereucantavasomen- te na rua e de brincadeira. Já o estilo kuduro foi pro issional e per- mitiuquemetornassenapessoaquesouhoje”,disse. Olookdecabeloloiroqueusa,acrescentadoàsuairreverênciana formadeestar,fezdeNagrelhaumareferêncianaslidesdoskudu- ristas,acrescentandoaissooprópriosacri ício,quepermitiuman- teronomeatéaosdiasdehoje,emboraporalgunsmomentostenha anunciado publicamente chamar-se Ngongoyove. “Este look veio apenasparalegalizaraminhaimagem.Ecomoqualquerartista,eu precisavafazeraminhadiferença,daíteroptadopelocabeloloiro”. CCRRIISSTTIINNAADDAASSIILLVVAA Música|ARTES|21
  22. 22. Vivêncianokuduro Aos 24 anos de idade, Nagrelha é dos kuduristas mais polémicos. De- pois de ter passado pela Comarca de Viana, acusado de furto e logo depois absolvidoporfaltadeprovas,procura a cada dia “emendar-se” do passado. “Nunca sonhei com o que sou hoje e todososdiasmeesforçonosentidode melhorar, porque a minha vida e sus- tento dependem integralmente da música”, conta o músico que garante sómudardeestiloseDeusassim per- mitir. Como ilho de peixe peixinho é, co- moele mesmodiz, tem no ilho Mirel- son, de cinco anos, um dos continua- dores do estilo. Ele considera o seu “candengue”comoirmãomenoreou- tros integrantes do grupo Os Lamba tambémotratampor ilho. Nagrelha considera os “biffs” (in- sultos) como luta pela sobrevivência. Paraele,estetipodeactospodeconti- nuar,masnasletras,semcontudoori- ginarlutas ísicascomoseveri ica.“Os músicosdeveriamestarunidoseapar epassoumdooutro.Procurarsabero que o outro precisa na carreira, reci- procamente”,disseNagrelhaquecon- sidera a sua relação com os outros cantores de saudável. “Tenho muitos amigos e um deles é o Da Beleza que é do Cazenga e hoje está aqui comigo, comopodemver”,assegurou. Kandengue A sua infância foi como a de qual- queroutracriança.Famíliahumildee com várias paixões. O desporto era umadasmuitasquetinha.Etemobas- quete que ainda pratica, na ruela do baião num campo improvisado, ape- nas com uma tabela, de quando em vez,comoasuamaioratraccãonodes- porto. Mas foi no futebol onde em- prestou o seu talento integral ainda criança.Oquelhepermitiupassarpe- lo Progresso, Flamenguinhos, Anate- nos,Ferrovia,BotaFogo,sóparacitar alguns clubes. Ele é de uma família bemligadaaodesporto.Ésobrinhodo falecido Praia, que foi um médio cen- traldoProgressoAssociaçãodoSam- bizangaedaselecçãonacional. Nagrelha despiu-se do barrismo e disse, sem gaguejar, que é adepto do Petro de Luanda. E nos tempos livres procura estar com os amigos do bair- ro. Pratica também artes marciais. “A arte é cultura e fui ensinado que não devo me expor lutando. Embora que treinamosparanosdefenderdepossí- veis ataques, procuramos não desen- volverestastécnicassemqualquerne- cessidade”,explicou. EstadoMaior A relação e a união que existe no grupo Os Lambas é uma marca regis- tada. Nagrelha revelou que o Estado Maiorvaicontinuaraté2030aimpul- sionaroutrosartistas.“Hojesomosjo- vensedaquia20anosestamoskotas. Não podemos dizer que somos eter- nos, mas com o nosso saber vamos procurarpassaranossaexperiência”, disseanunciandoparadentrodedois mesesolançamentodopróximodisco dosLambas. Fax Fax é o primeiro nome adaptado por Nagrelha em 1997, no início da suacarreiraartística.NaalturaNagre- lha cantava rapper com o irmão mais velho“Mago”.Contaquenestafaseera o irmão que fazia os bits e ele punha voznamúsica.“Naalturacantávamos na rua. Ele tocava e eu cantava e não era ainda sério, apesar de muito que- reraparecercomomúsico”,frisou. KanguimboAnanás Em 2010, Nagrelha enfrentava um processo justicial. Nesta altura, a sua falecida mãe, Maria Caio, recorreu à socióloga Kanguimbo Ananás para queajudassenasoluçãodocaso.Des- deentão,Kanguimbopassouaserma- drinhadeNagrelhaedogrupoempar- ticular.Apósamortedamãe,aatenção dasociólogaestendeu-setambémaos irmãos e outros músicos do bairro do Sambizanga.Aintenção,disseomúsi- co,équeasociólogapresteassistência atodososkuduristasdopaís,atépor- que“osbonsoumausjovensnãoresi- demapenasnoSambizanga”. ComavindadeKanguimboAnanás, apesar da tristeza que carrega pela perdada mãe, sente-secommais mo- tivação na vida. “A escritora não é só mãe do Nagrelha, quem resolvia os problemasdosgruposnoSambizanga eraaminhamãebiológicaefelizmen- tequeeladeixoualguémquecuidade nós”,dissealegre. Dentro Gelson Caio Manuel Mendes, mas conhecido por Nagrelha, nasceu em 24 de Março de 1988. Começou a can- tar em 1997, no bairro do Sambizan- ga, onde nasceu e reside até a data presente. Faz parte do movimento de explosão do estilo musical kuduro e pertence ao grupo com maior popu- laridade “Os Lambas”, fundado no mesmo bairro, por Amizade, já faleci- do. Participou em várias tournées na- cionais e internacionais. É solteiro e pai de um filho. Tem como sonho ser administrador do Sambizanga e aju- dar no seu desenvolvimento. Nunca pensou viver fora de Angola, embora tenha gostos em conhecer outras cul- turas e povos. “Nasci em Angola e é aqui que devo trabalhar para ajudar o meu país a desenvolver. Não é justo sair de Angola para ir fazer filho em Portugal”, rematou. 14deMaioa3deJunho de2012 | Cultura22|ARTES|Música
  23. 23. JJOOHHNNNNYYKKAAPPEELLAA Arteangolanacontemporânea Umacriatividadeplásticaendógena U mdosprincipaisfactosque se pode reter das actas re- sultantesdoúltimociclode palestras,organizadopela Empresa Nacional de Seguros de An- gola,sobotema“Aarte,oartistaeaso- ciedade”, no quadro do programa En- sarte,sãoasdezenas de intervenções feitas nesta ocasião. Foi, a justo título, editada, sob um design vanguardista, uma impressão em quadricromia e uma sólida sela- gem, que se estalou entre as cidades de Porto e Luanda, agrupada em 146 páginas. A colectânea reproduziu a inédita análise do historiador Simão Souin- doulaintitulada«Remanescênciaban- tu na arte angolana contemporânea. Umcontextoveri icativo,aEnsarte». A referida obra está articulada em quatro grandes capítulos, constituí- dos do preâmbulo do Presidente do Conselho de Administração da Em- presaNacionaldeSeguros deAngola, Manuel Gonçalves, uma introdução geral, breves apresentações dos dife- rentesoradores,nasquaisfoiacresci- doumrecapitulativodostemasabor- dados e a restituição dos textos pro- postosnoMuseuNacionaldeHistória NaturaldeLuanda. Nasuaintervenção,oPCAdasocie- dade anónima da avenida 4 de Feve- reiro,realçouofactodequeainiciati- vaculturaldeseugruposetornou,pe- laforcadotempo,umespaçodere le- xão e de diálogo intercultural mas, igualmente,dearticulaçãointerdisci- plinarsobreapráticadasartesvisuais emAngola. Os autores foram o pintor Jorge Gumbe, Comissário da Bienal da Res- seguradora da Marginal, o crítico de arte Adriano Mixinge, o antropólogo ManzambiVuvuFernando,omuseólo- go suíço Boris Wastiau, o arquitecto portuguêsJacintoRodrigues,acoreó- grafaangolanaAnaClaraGuerraMar- ques e a sua compatriota, psicóloga, EncarnaçãoPimenta. Reencortam-se, aí, com um grande interesse, os diferentes ângulos abor- dadosapartirdatemáticageraltaisco- mo,entreoutrosassuntos,aimportân- cia dos Prémios Ensarte na promoção da arte contemporânea do país de Vi- teix,nessesúltimosvinteanos,aapre- ciação da criatividade artística con- temporâneanoQuadrilátero,nassuas numerosas opções temáticas e prefe- rênciastécnicaseumaleituradasmar- cas pictográ icas sobre os «maquixi» (máscarasdedançacokwe). Épropos- ta uma revisão do contexto da origem doomnipresente«Pensador»oriental, o «kalamba kuku» ou o «sayichimo», quem convidou-se nas composições artísticas e artesanais contemporâ- neas assim que as funções antropoló- gicasdaesculturatradicionalafricana, esta retomada, igualmente, no « con- temporaneus». LINHAIDENTITARIA Colando bem ao tema do ciclo de conferenciaseaosintuitosda empre- sa de seguros, Simão Souindoula es- forçou-se a identi icar e explicar o apego dos artistas plásticos angola- nos, através a preciosa vitrina que constitui a « viginti » colecção da EN- SA, a por em evidencia os seus funda- mentosculturaisbantu. OantigoinvestigadordoCentroIn- ternacionaldasCivilizaçõesBantusu- blinhou, assim, uma dezena de esco- lhas de títulos de obras de pintura ou de escultura, decididos pelos criado- resparticipantesdoquadroemulativo doSegurador. Essasdenominaçõessão,principal- mente, em kikongo, kimbundu e um- bundu e entram, naturalmente, a um campo de inspiração bem milenária, dadezenadasculturasconvergentese maioritáriasdopais. Com efeito, o conferencista tomou, entreoutros,comoexemplos,adatela« Elogioaonkisikonde»deVan,Primeiro PremiodePinturadaEnsarte,em2004. Anoçãode«nkisi»fundamenta-se sobre o radical do ur bantu –kiti que Malcolm Guthrie traduz, em inglês, porfetishoucharm. A evolução dialectal deu, logica- mente,nkisi,emkikongo,emukixi,em kimbundu. Con irmando as sólidas crenças ao feitiçonassociedadesdaÁfricacentral, orientaleaustral,Souindoulasugere,a este respeito, o exemplo de um ditado ovambo, que aconselha, vivamente, o porte,empermanência,deumamule- to, «porqueatravessandoumarvore- do,pode-seencontrarumaperdizque nuncafoi vista». A imdeilustrarestefacto,operito da UNESCO sublinhou os conceitos – clavesdecorrentespelasobrasprodu- zidas, estabelecendo, concomitante- mente,assuasconexõesproto-bantue suaperpetuaçãopelastradiçõesorais. Para ele, esta linha identitária se- guea irmepoliticaderebantouizacao antroponímica, toponímica e numis- mática do pais, iniciada logo após a suaindependência. Pronunciando-se sobre a impor- tância da publicação dessas actas, Si- mãoSouindoula,bendisse,aesteres- peito,anotávele icáciadaENSA. Com efeito, para ele, esta compila- ção permitira de contribuir a um me- lhorconhecimento,aonívelnacionale internacional, de vários aspectos da arte angolana contemporânea cuja principal característica e o seu forte enraizamentobantu. E,eissoquecon- tribui a especi icidade das composi- ções picturais, das con igurações es- culturais e as montagens cerâmicas produzidasnoQuadrilátero. En im,paraoPresidentedoJúridos Prémios Ensarte, esta criatividade não e um conjunto de expressoes in- determinadas, totalmente globaliza- das.Eofrutodeartistasquepossuem uma carga linguística própria e uma herançaantropológicaespecí icaque foi de inida há meio século, como an- golanidade. “Carregadores de Sonhos II” de Ricardo Ângelo distinguida com o Prémio Especial de Pintura para as províncias Director da Alliance Française de Luanda entrega o Prémio ao pintor Maiomona Pereira Escritor Roderich Nehone na entrega dos prémios PAULINO DAMIÃO ARTES|Exposição|23Cultura | 14deMaioa3deJunho de2012 “Dikala Mu Disu” escultura de João Mayembea

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