Post-mortem

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Capítulo presente no Episódio I: Prelúdio do livro Assembleia dos Lobos Triskelion
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Post-mortem

  1. 1. 1 Post-mortem Seus olhos estavam fechados, mas ele estava acordado. Seu olfato sentia o aroma refrescante da natureza que permeava o lugar onde estava. Seu corpo esta- va deitado no chão forrado com restos úmidos de folhas mortas que sugavam o calor do seu corpo com o frescor da terra molhada. Quando ele abriu os olhos, a visão que teve era, no mínimo e a seu próprio modo, paradisíaca. O bosque estava coberto por brumas que, douradas pela pouca luz do sol que conseguia ultrapassar as copas das árvores, limitavam o alcance de sua visão. Ele se levantou e balançou seu corpo, retirando parte da terra e dos restos de folha que ficaram grudados em seus pelos cinzentos. Suas orelhas se projetaram para frente quando ouviram o som de uma criatu- ra se arrastando pelas folhagens atrás de uma das árvores do bosque. De pronti- dão, o lobo cinzento saltou na direção de onde veio o barulho, deixando por pouco de pegar um pequeno esquilo que, carregando duas nozes em suas bochechas, es- calou a árvore com destreza, escapando de seu predador. O lobo decidiu se con- centrar ainda mais em sua audição, ouvindo ainda mais presas, cobertas pelas brumas douradas, esperando para serem atacadas em todas as direções do bosque. Não importava para que direção seguisse, conseguir uma presa dependia somente dele mesmo e de mais nada. Com esse instinto em mente, o lobo espreitou à frente e encontrou outro esquilo que, dessa vez, não se alertou sobre a presença de seu predador. Como um caçador nato, o lobo cinzento saltou sobre sua presa que, in- defesa, não teve resposta alguma a não ser ficar imóvel e esperar pela morte que viria com rapidez. O lobo então mordeu o pescoço do pobre animal e arrancou sua cabeça, desossou a carne e a pele dos ossos que restaram e se banqueteou da pe- quena criatura. A saciedade veio em seguida, o lobo não precisava mais caçar. Depois de seu banquete, a audição ainda aguçada do lobo ouviu um murmú- rio vindo das profundezas do bosque. A voz feminina que veio para seus ouvidos como um gemido era doce e melódica. O lobo cinzento se sentiu inquieto, curioso e, sem saber do que se tratava aquilo, decidiu seguir a direção de onde ouviu o som singular. As brumas não o deixavam enxergar além de poucos metros à sua frente, o que eram alguns troncos e raízes que poderiam reduzir sua marcha pelo solo acidentado. O lobo ouviu, ao longe, mais um murmúrio da mesma voz doce, o que o fez acelerar seus passos que escalavam montes de raízes e fossos de fo- lhas macias. Após alguns minutos de marcha, o lobo diminuiu seus passos, não por cansa- ço, mas pelo aroma distinto que sentiu no ar ao seu redor. Um aroma suave de ro- sas tomou conta de seus pulmões, fazendo com que ele cessasse sua corrida no mesmo momento. O aroma carregava uma sensação de alívio, de dever cumprido, algo que o lobo, com toda a experiência que tinha, conhecia por outro termo. O
  2. 2. 2 doce aroma que o lobo sentia, era o cheiro da morte, que ele chamava de post- mortem, nome das fotografias que os familiares faziam com seus entes queridos após a morte. Todas as sensações e sentimentos que os seres vivos sentem, libe- ram aromas à sua volta, algo que o lobo sabia bem como identificar. Entre os vá- rios aromas que variavam desde simples sensações como a fome ou a dor, a outras mais complexas como o amor e a saudade, a mais curiosa delas era o post- mortem. Todo ser que morria liberava, em seu último suspiro, um aroma doce e leve que se assemelhava ao perfume de rosas delicadas. Esse aroma carregava o alivio do sofrimento que a vida carregava, o desprendimento dos grilhões da mor- te em si. Mas o aroma naquele local não parecia ter explicação, não haviam cor- pos onde ele estava e, pela intensidade que o perfume tomava conta de seu olfato, ele deveria, no mínimo, estar com seu focinho enterrado nas entranhas da alma de um cadáver recém morto, o que não era uma realidade naquele momento. O lobo decidiu que, naquele local, havia um mistério a ser desvendado, e por isso continuou a caminhar em uma direção aleatória, já que não conseguia intuir uma direção de onde partia o aroma da morte. Poucos passos depois, o lobo trope- çou em um cadáver, o que fez disparar seu coração. O corpo se encontrava em de- composição, o que substituiu o cheiro de rosas em seus pulmões pelo cheiro podre de carne putrefata. O lobo bem sabia que era impossível que o post-mortem viesse daquele cadáver, ele deveria ser passageiro, mas o cadáver estava morto há muito tempo. O lobo rodeou o corpo e tentou identifica-lo, mas ele estava irreconhecí- vel. Mais um gemido ecoou em seus ouvidos, tirando sua atenção dos restos do corpo no chão e fazendo-o continuar sua jornada pelas brumas douradas. Depois de mais alguns passos, o post-mortem continuava ao seu redor e outro corpo foi encontrado. Seu estado era o mesmo do corpo anterior, totalmente deteriorado pe- lo tempo da decomposição. O mistério que havia naquele local ainda estava longe de ser desvendado pelo lobo cinzento. Ele novamente rodeou o corpo sem conse- guir identifica-lo e outro murmúrio se repetiu e o fez continuar. Em sua jornada, muitos outros corpos apareceram, e muitos outros gemidos o fizeram continuar seu caminho, todos eles estavam cada vez mais frequentes. Os corpos estavam ca- da vez mais próximos uns dos outros e os gemidos estavam cada vez mais inten- sos e repetitivos. Depois de uma longa caminhada, a cena na qual o lobo branco se encontrava era grotesca, os corpos eram tantos que formavam uma massa pegajosa e enegre- cida que forrava o chão. O odor era insuportável, o cheiro azedo da podridão e o doce post-mortem se misturavam em uma fragrância que penetrava fundo no olfa- to do lobo cinzento e o deixava tão nauseado a ponto de perder o equilíbrio de su- as pernas. Enquanto o lobo praticamente nadava no mar de corpos e seguia os murmúrios que ficavam cada vez mais próximos e intensos, as brumas douradas
  3. 3. 3 se tornavam cada vez mais acinzentadas. O brilho do sol ainda existia, mas ele não conseguia mais tingir com sua cor áurea a névoa que cobria aquele local. O lobo nadou pela massa de carne e ossos quando percebeu que os murmú- rios estavam a alguns metros de distância, tão perto que ele conseguia ouvir uma respiração ofegante que se intercalava com os gemidos. Próximo ao local, no en- tanto, o lobo percebeu que os sons que a voz feminina fazia não eram lamúrias de sofrimento, elas estavam mais próximas de gemidos de deleite e prazer. A massa de corpos que cobria o chão se tornou ainda mais espessa, tanto que o lobo cin- zento não conseguia mais tocar a terra e as folhas mortas no chão com suas patas. A cena que o lobo cinzento viu quando ultrapassou a névoa e alcançou a fon- te dos murmúrios era inexplicável. Sobre a massa de corpos que, naquele local, formava um amontoado de massa negra, havia uma mulher nua, que possuía a pe- le tão branca quando as nuvens e os cabelos tão negros que se misturavam à po- dridão. Ela mantinha as pernas abertas na direção do lobo cinzento e se tocava com prazer, um ritual grotesco e devasso que deixou o lobo cinzento estático, com o coração acelerado e, em sua mente, uma atração inexplicável para fazer parte do ritual macabro. O corpo da dama se movia em uma dança sensual e os corpos sob ela, mesmo mortos e em decomposição, se mexiam de acordo com seus movimen- tos. A mulher respirava ofegante e gemia enquanto seus dedos tocavam seus seios e sua vulva avermelhada pela excitação. Mesmo estando entre os corpos, a pele branca da dama estava pura e não possuía uma só mancha de toda a sujeira que a rodeava. O lobo tentou se aproximar da cena grotesca, atraído por um instinto inexpli- cável que o deixava com tanto desejo quando a mulher que se tocava. A poucos metros da mulher, o lobo projetou seu focinho para cima e uivou com toda a força que conseguiria ter em seus pulmões, soltando por sua boca o ar enevoado que o frio do bosque fazia aparecer. Quando o lobo voltou seus olhos que estavam fe- chados para a cena em sua frente, seu coração parou por um décimo de segundo quando viu que o rosto da mulher o encarava. A mulher que o encarava era linda, seus seios e sua barriga eram firmes, suas pernas eram desenhadas, nenhum pelo cobria região alguma de seu corpo, seus olhos eram de um azul claro e profundo que se assemelhava ao céu do meio-dia. Seus lábios eram rosados como os outros que sua mão tocava e eles estavam abertos para que os sons de seus gemidos pu- dessem sair de seus pulmões. O lobo cinzento conhecia bem a dama que se mas- turbava sobre a pilha de corpos e isso o deixou estático a observá-la. Ele não sabia dizer se estava surpreso, enojado ou se aquela cena também o deixava com o de- sejo carnal à flor da pele. Na verdade, todas essas sensações estavam unidas em uma só, um sentimento transcendental que se aliava ao perfume de rosas que exa- lava com intensidade da dama que se tocava.
  4. 4. 4 Enquanto o lobo observava a cena com intensidade, do outro lado da pilha de corpos surgiram outros dois lobos que o deixaram surpreso. Um deles tinha os pe- los todos castanhos, assim como seus olhos, e era menor que o outro ao seu lado, um lobo negro bem maior, que tinha os olhos da mesma cor e, sem uma parte se- quer em seu corpo que não fosse sombria, ele se camuflava sobre a pilha de cor- pos com maestria. Os dois outros lobos se aproximaram da mulher e morderam suas duas coxas com força. O lobo cinzento esperou que a mulher cessasse seu ritual macabro, mas, contrariando suas esperanças, a dança devassa da mulher continuou e ficou ainda mais intensa, enquanto o sangue escorria das feridas das suas pernas. Os dois lobos se enfureceram e balançavam suas cabeças, abrindo ainda mais as feridas que fizeram com suas mandíbulas. A dama encarava o lobo cinzento com seus olhos azuis e tinha em seu semblante um pequeno sorriso de- pravado que aumentava ainda mais seus desejos. Com a mesma mão que se toca- va, a mulher tocou o veio de sangue que escorria de suas feridas e levou sua mão lambuzada de prazer e sangue na direção de sua boca, onde a lambeu e colocou seus dedos, um por um, sobre sua língua. Depois, a mulher sorriu para o lobo que encarava e continuou a se masturbar. O sangue escorria em uma torrente por suas coxas, sujando os focinhos dos outros dois lobos e deixando seu corpo cada vez mais pálido. Mesmo assim a mulher não cessava seu ato libidinoso. Alguns minutos se passaram até que as feridas esgotassem seu corpo e fizes- sem o sopro de vida deixá-lo enquanto ela ainda mantinha seu sorriso e encarava o lobo cinzento com seus olhos azuis e mortos. Seu corpo parou de se mexer em sua dança macabra, assim como a massa morta que também se movia sob ela. Os lábios de sua boca e os lábios que tocava com suas mãos se tornaram tão brancos quanto o resto de sua pele, exceto pelo sangue de suas feridas que os tingiram por suas mãos sujas. Os dois lobos se soltaram de suas mordidas violentas e se afasta- ram do corpo inerte da mulher e o lobo cinzento finalmente conseguiu se mover em sua direção. O cheiro doce e róseo da morte, no entanto, não deixou o local, o que deixou o lobo cinzento ainda intrigado. O corpo deitado em sua frente estava morto, seu coração não se movia e não existia respiração. Seus olhos estavam imóveis e ela estava pálida. Um dos ossos sob os pés do lobo cinzento se moveu sozinho, e logo todos os outros começaram a de mover da mesma maneira. Os outros dois lobos estavam distanciados do corpo inerte da mulher, mas o lobo cinzento estava a poucos cen- tímetros dela. Em um espasmo de existência, os dedos sobre a vulva da dama pá- lida voltaram a se mexer e a pressioná-la novamente. A outra mão voltou a apertar seu seio e sua cabeça se mexeu, encarando de volta o lobo cinzento com seus olhos ainda azuis com seus dentes mordiscando seus lábios esbranquiçados. O lo- bo cinzento voltou a ficar imóvel, observando a mulher que, ainda morta, se delei- tava em um prazer ritualístico e bizarro. Os outros dois lobos não tomaram atitude
  5. 5. 5 alguma, talvez por não saber o que fazer em seguida, ou talvez por estarem sob o mesmo efeito que atraia e imobilizava o lobo cinzento. Os pelos do lobo se arrepiaram quando ele sentiu uma dor aguda atravessar seu tórax de um lado a outro. O som de um choro inconsolado e fraco saiu de sua garganta com o pouco ar que seus pulmões feridos conseguiram expelir. Suas pernas se tornaram fracas e sua visão se tornou embaçada. Logo seu corpo caiu inerte no chão, o que o libertou de suas amarras mágicas e o deixou de mover de novo, mas agora era tarde, não o restavam forças para se mover. Ele não conse- guia mais respirar e seu coração que antes batia rápido agora começava a falhar. Suas vistas começaram a se escurecer, desde as extremidades indo em direção ao centro. Quando ele sentia a vida se esvair de seu corpo, e o alívio da morte toma- va conta de sua alma, sua visão embaçada ficou repleta de fios acobreados que a cortavam de cima a baixo. O lobo não conseguia explicar o que estava vendo, tal- vez fosse alguma alucinação que a morte o causava, mas não, ele viu linhas aco- breadas cortando suas visões como fios de um cabelo ruivo, enquanto sentiu que dois braços o seguravam e o suspendiam no ar. Foram essas as últimas sensações que o lobo cinzento teve antes que seu corpo adormecesse na escuridão da morte.

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