Um baile de província

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Um baile de província

  1. 1. Um baile de província Um baile de província, aí pelos anos 60. Um pequeno armazém, uma espécie de celeiro, alumiado por um candeeiro a petróleo, vulgarmente conhecido como ‘petromax’. A um lado, sentadas nos bancos trazidos de casa, as mães das raparigas, vigilantes enquanto conversam entre si em voz baixa. Algumas das moças, mais sossegadas, sentadas no colo das progenitoras. Outras, em grupinhos, contorcendo-se em risinhos e olhares furtivos dirigidos ao grupo dos rapazes, que riem a gargalhadas, do outro lado da sala. Alguns destes deambulam isolados, mãos nos bolsos e olhar furtivo. Puxam por um cigarrito e deitam baforadas para o tecto, tentando fazer anéis. Empoleirado em cima da arca do milho, o acordeonista, rodeado de garrafas de cerveja que lhe vão trazendo, e que ele não rejeita. - Ó Ramiro, vai mais uma fresquinha?
  2. 2. -Eh pá, traz lá, mas olha que daqui a bocado já não acerto com a música… - Lá ‘tás tu… Vá, toma! E vê lá se a seguir ao corridinho tocas uma mais sossegada. Ali a Amelita tá a pedir mel. Não me estragues a coisa… - Um cabrão é que tu és. Daqui a bocado ao velho dá-lhe na cornadura e aparece por aí. Ainda te vai às trombas… Já viste as mãozorras que o gajo tem? - He! He! Vai-te f***r! Toca mas é essa m***a, anda! Já vi que a cerveja te faz mal… Um dos moços, o Alberto, anda furtivamente pelos cantos, como se quisesse esconder-se, ou passar despercebido, sempre virado para as paredes. É um rapaz tímido, com fama de ser um bocadito ‘atrasado’, mas lá vai fazendo a sua vidita. Ao passar por um amigo, o Biscas, alcunha que lhe vem do jogo das cartas, pára e diz-lhe em voz baixa: - Ó Biscas, olha lá! Ainda agora andei a bailar com a Maria Mamalhuda e comecei a ficar com isto inchado. E não passa… ‘Tá cada vez pior. O que é que tu dizes? Achas que ‘tou doente? E o outro, disfarçando a vontade de rir: - Eh pá, não sei. Mas se calhar é melhor ires ao médico amanhã. Se tens vergonha, eu vou lá contigo e falo com ele antes. - Obrigado, ó Biscas. ‘Tá bem. Mas não contes por aí ao pessoal. - Não conto nada, fica descansado.
  3. 3. No dia seguinte, no consultório do médico, na vila, conforme combinado, o Biscas, aliás José António, entrou à frente, para apresentar o ‘caso’, já que o amigo não se sentia à vontade. Antes de sair, diz-lhe o doutor.: - Bem, eu vou fazer isso, porque vocês os dois são bons rapazes. Mas olha que eu estou aqui para cuidar da saúde das pessoas, e não para outras coisas… Bom, vai lá! Adeus! Ele que entre! - Obrigado, doutor. Vamos a uma partidinha mais logo? A gente gosta de o ver lá pela aldeia. -Logo se vê, Zé... Logo se vê… - Então, meu rapaz, entra, entra… O teu amigo já me disse mais ou menos do que te queixas. Mas diz lá tu, não é caso para ter vergonha, pá! -… - Bom, já vi que não te sentes à vontade. Não faz mal. Olha, nem é preciso examinar nada. Eu sei do que se trata. Vou-te receitar aqui uma pomada, para aplicares uma vez por dia. Além disso, quando te aparecerem os sintomas, deves aplicar um pouco de gelo. Sei que é difícil de conseguir lá na aldeia, mas… - Eu arranjo, senhor doutor. A senhora Laurinda da taberna tem frigorífico. Funciona a petróleo. - Óptimo, óptimo! Vai lá, então. Voltas cá mais duas ou três vezes, uma vez por semana, para eu acompanhar a situação. Não te esqueças! - Obrigado, muito obrigado, senhor doutor! Quanto é a consulta?
  4. 4. - Não pagas nada rapaz, não pagas nada. Fica para outra vez. - Obrigadinho, senhor doutor. Na semana seguinte, de novo em casa do médico, é a esposa deste quem abre a porta ao Alberto. - Muito bom dia, Dona Eugénia. Vinha para uma consulta com o senhor doutor… - Mas ele não está! Saiu para uma caçada, no Alentejo... Só te pode atender para a semana. Mas deixa cá ver… Ora tu, um rapaz com tão bom aspecto, não podes estar doente! Não pode ser! De que te queixas, se não te importas que eu pergunte? E o pobre Alberto, de olhos baixos, lá contou o seu caso à senhora, que o escutou, primeiro com surpresa, e depois bastante divertida. -Olha, Alberto! É assim que te chamas, não é?! Acho que podias vir cá na mesma. Se quiseres, eu posso ajudar-te no tratamento. E podes vir todos os dias, para o tratamento ser ainda melhor. - Muito obrigado, Dona Eugénia. Nem sabe como lhe agradeço. -Então vem comigo… Passa mais uma semana, e o Alberto, já parecendo outro, quase liberto da timidez que desde sempre o tolhia, apresenta-se no consultório do médico. - Muito bons dias, senhor doutor! Na semana passada o senhor doutor não estava, tinha ido à caça…
  5. 5. - É verdade, é verdade, esqueci-me de te avisar. Então e como te encontras. - Bastante bem, bastante bem, senhor doutor. Mas olhe que não tenho seguido o seu tratamento. - Não?! Conta-me lá… - Como o senhor doutor não estava, quem me recebeu foi a Senhora Dona Eugénia. Estivemos a conversar e ela achou que podia ajudar-me no tratamento. De maneira que esta semana temos feito tratamento todos os dias - O quê?! Conta-me lá isso. E o Alberto, um pouco encavacado, lá foi contando, á medida que o clínico ia mudando de cor…

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