DELTORA É UMA TERRA DE MONSTROS E MAGIA...As sete pedras preciosas foram recolocadas no Cinturão de Deltora. Agora,Lief, B...
ATÉ AGORA...Lief, Barda e Jasmine recuperaram as sete pedras perdidas do mágicoCinturão de Deltora. Agora precisam encontr...
toranos foram banidos para o Vale dos Perdidos e o paradeiro da família real éignorado.Perdição, o sombrio, misterioso líd...
O Cinturão de Deltora estava completo. Sete pedras preciosas brilhavamoutra vez nos reluzentes medalhões de aço. Ele era p...
Somente o Cinturão de Deltora, completo como quando foi fabricado porAdin e usado por um de seus legítimos herdeiros, tem ...
E, no entanto, tínhamos esperanças...Lief olhou rapidamente para o eremita.— Fardeep nada disse, Lief — Zeean informou. — ...
— A pedra de Tora? Como assim? — exclamou Jasmine.— Ora, os toranos faziam parte de uma das sete tribos que ofereceram oss...
para si mesmo o que sabia sobre este lugar?— Eu os alertei sobre o Vale dos Perdidos com todos os meus argumentos!— Perdiç...
expressão séria.— Não podemos nos dar ao luxo de alimentar suspeitas e rivalidades nestemomento — disse a mulher, o corpo ...
Sombras teme o Cinturão. É por esse motivo que as pedras foram roubadas eescondidas, para começar.— Quantas pedras o Senho...
Muito mais tarde, Lief achava-se imóvel na escuridão. Suas pálpebrasestavam pesadas, mas a mente lutava contra o sono. Ele...
Ele fechou os olhos e obrigou a mente a se esvaziar. Chegara o momentode ceder à Água dos Sonhos, de visitar o mundo de Fa...
uma escuridão vazia.Fallow inclinou-se mais ainda. Uma voz sussurrou da escuridãomortalmente calma.— Fallow.— Sim, Mestre....
— Começo a acreditar que o ferreiro realmente não sabe de nada — Fallowbalbuciou. — Fome e tortura não o atingiram. Nem me...
mortos irão aparecer para ele no momento em que deixarem o mundo. Ols iguais aeles não enganarão o rapaz.Seguiu-se um silê...
de seu coração tivesse se acalmado. Então, em silêncio, a fim de não acordar osdemais, ele acordou Barda e Jasmine.Com a f...
sussurrou Jasmine de repente se dando conta da verdade. — Pois foi na fortalezaque o nome de Barda foi revelado a todos po...
Sem fazer ruído, os companheiros reuniram os seus pertences eesgueiraram-se para fora da clareira. Momentos depois já esta...
O sussurro maligno girava na mente de Lief como uma névoa nociva.Ele olhou para a frente e se deu conta de que chegavam à ...
— Não há perigo! — gritou ele novamente.Lentamente, os rugidos diminuíram. E, quando Lief conseguiu fixar os olhosna carro...
salvara de Nevets. Isso não significava que...— Que bom que vocês voltaram — Zeean disse, empurrando o prato debolinhos na...
balbuciou. — E no que aconteceu depois.Ele ficou em silêncio, olhando nervosamente para Perdição, que nadadisse.— E...? — ...
Dain hesitou, mas não se deixaria intimidar.— Os meus pais me ensinaram — disse com tranqüilidade. — Eles nuncaperderam a ...
Jasmine foi a primeira a romper o silêncio.— Mas as sete tribos existiram antigamente, pelo menos, foi isso que mecontaram...
— Já temos três tribos — ajuntou Fardeep com satisfação. — E as outras?— Os Ralads são uma raça antiga! — Barda exclamou. ...
4. Mere Lápis-lazúli(pedra celestial)Dunas5. Gnomos doMedoEsmeralda(honra)Montanha do Medo6. Tora Ametista(verdade)Labirin...
— Temos toranos em abundância — disse Barda. — Lief e eu somos de Del.Conhecemos Ralads e Gnomos do Medo. Mas e quanto ao ...
conhece. Um dos Jalis que escapou. Não é verdade?— De fato, é, sim. — O sorriso de Perdição se alargou. — E, se vocês oque...
A boca de Perdição torceu-se num sorriso estranho.— Então, vamos fazer os nossos planos — disse ele. — Primeiro,precisamos...
— Podemos viajar escondidos na carroça de Steven — Jasmine sugeriuansiosa para entrar em ação. — Além disso, apesar das dú...
ansiosas de Kris e Lauran, os jovens toranos escolhidos como iscas. Lauran comos sedosos cabelos sendo cacheados e emaranh...
A carroça sacolejava na estrada irregular. O seu interior estava escuro eabafado. Lief, Barda e Jasmine ficaram sentados, ...
de seu casaco. Ela fechou a cara quando as vozes se ergueram mais uma vez.— Não há nada de errado em estar contente — ela ...
E as abelhas partiram, uma flecha negra zunidora, levando a mensagemadiante.Jinks saiu da fortaleza da Resistência no oest...
aguardavam no interior da loja, bem agasalhados contra o frio.— Olá! O que posso fazer por vocês?Sem dizer palavra, a mulh...
O bando estava se aproximando. A flecha de Gla-Thon retesou a corda doarco. Então um dos pássaros separou-se do grupo e me...
ordens de ficar atentos, mas não àquilo.A estrada se bifurca adianteOl-io, Ol-iolA noite chega, e estamos livresDe Ol-io, ...
pelo interior com Sharn tão perto de ter o bebê.Ele tentou imaginar como teria sido. A estrada devia estar apinhada degent...
Ameaçava chover quando o grupo partiu no dia seguinte. O fato nãoincomodou os companheiros animados pela convicção de Stev...
Lief procurou rapidamente um meio de escapar. De um lado, havia umarocha alta e escarpada. Do outro, um campo cercado de c...
esgueirar-se em direção às colinas. Mas quase imediatamente Barda parou com umgrito abafado de dor. No mesmo instante, Jas...
porque, embora a grama pudesse crescer sobre as pedras, as carnívoras podiamsomente crescer para o fundo da terra.Ele e Ja...
Os Guardas estavam animados. Steven gritava para que parassem. Oenorme corpo moreno coroado de cabelos louros quase desapa...
até a cabana. O interior dela estava envolto na penumbra, pois as pequenas janelasestavam cobertas de sujeira. Do ambiente...
Tudo está perdido.Tora me abandonou. Está muito frio. A comida que trouxemos de Delacabou e não há amigos que nos ofereçam...
tinha perdido tudo que amava quando escreveu este bilhete. Ele estavadesesperado.— Ele foi o responsável por essa perda! —...
A carroça balançava, os sinos nos arreios tilintavam. Mas Steven nãocantava. No interior da carroça, Barda encontrava-se d...
finalmente.Ele se curvou e ergueu Barda tão facilmente como se o homenzarrão fosseuma criança e saiu da cabana sem olhar p...
malcheirosa."Para sua surpresa, naquele exato momento a carroça parou. As portastraseiras foram abertas, e Lief e Jasmine ...
— O que vocês procuram, se é que posso perguntar? — ele indagou comuma voz que mais parecia um grasnido. — Aqui, no meio d...
importa com pobres catadores de lixo? Algumas das pessoas que vocês viram aífora são verdadeiros catadores de lixo, almas ...
— Não a desperdice nele — Glock resmungou. — Ele está acabado.Jasmine não se preocupou em responder. Ela já estava passand...
explicou como foi encontrado.Barda leu incrédulo as palavras terríveis e, então, para surpresa de Lief, elesorriu.— E é is...
Fatigado, Barda fitou o círculo de rostos atônitos que se formou ao seuredor e sorriu mais uma vez.— O bilhete é uma boa f...
plantados ali para nos enganar! É por isso que os Guardas estavam posicionadosnaquele local. Para obrigar os viajantes a s...
Abelha Rainha já fez muitos milagres.Lief sentiu a mão de Jasmine pressionar a sua. Em seguida, houve ummovimento repentin...
aproximava em meio à luz ofuscante e alaranjada do céu.— Jasmine! — chamou Lief. — Corra!Entretanto, para sua surpresa, Ja...
— Mas claro! — retrucou Manus. Ele se virou para o homem que seencontrava parado atrás dele, perto de Jasmine.— Nosso amig...
— Ele não se mexeu desde o nascer do sol — contou Lief, balançando acabeça, invadido pelo sofrimento. — Acho que não vai d...
Velas tremeluzian ao redor das paredes. Rostos sérios, excitados,temerosos formavam um semi-círculo ao redor dos sete. Tod...
— Steven, de Plains. — Steven erguia-se acima de todos os demais, oscabelos dourados brilhando, quando se curvou sobre a o...
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Emily rodda deltora quest 8 - o retorno a del

  1. 1. DELTORA É UMA TERRA DE MONSTROS E MAGIA...As sete pedras preciosas foram recolocadas no Cinturão de Deltora. Agora,Lief, Barda e Jasmine precisam encontrar o herdeiro do trono do reino. Eles sabemque somente o verdadeiro herdeiro pode usar a magia do Cinturão a fim desobrepujar o maligno Senhor das Sombras.Entretanto, o herdeiro tem estado bem escondido desde o nascimento esomente o Cinturão poderá revelar onde ele se encontra. As surpresas se sucedemà medida que a busca de Deltora chega ao seu emocionante clímax e a fúria e opoder do próprio Senhor das Sombras ameaça destruir os três heróis e tudo o queamam.SUMÁRIOA magia de ToraFallowSuspeitaAs sete tribosMensagensUma estrada perigosaWithick MireChegadasO herdeiroA estrada para DelA praçaDesesperoA ferrariaO Local das PuniçõesUma luta mortalO último segredo
  2. 2. ATÉ AGORA...Lief, Barda e Jasmine recuperaram as sete pedras perdidas do mágicoCinturão de Deltora. Agora precisam encontrar o herdeiro do trono de Deltora, poiso perverso Senhor das Sombras somente poderá ser derrotado e o reino libertadoquando o Cinturão estiver em poder de seu herdeiro legítimo.Os pais de Lief, aprisionados em Del, haviam contado ao filho que, paraajudarem o rei Endon e a rainha Sharn a escapar da cidade quando o Senhor dasSombras assumiu o poder do reino há mais de dezesseis anos, planejaramesconder o casal real e seu futuro filho. Contudo, os companheiros de Liefdescobriram que esse plano havia fracassado quando o povo mágico de Toraquebrou seu antigo juramento de lealdade e se recusou a oferecer-lhes refúgio. Os
  3. 3. toranos foram banidos para o Vale dos Perdidos e o paradeiro da família real éignorado.Perdição, o sombrio, misterioso líder da Resistência, partiu irado quando oscompanheiros se recusaram a seguir o conselho de se manterem afastados do Valedos Perdidos. Dain, um jovem da mesma idade de Lief, integrante da Resistência,acompanhou-o relutante. Agora, o Vale foi libertado de seu encantamento maligno,mas Lief, Barda e Jasmine não sabem para onde ir. Eles precisam encontrar oherdeiro, mas não sabem como. E os servos do Senhor das Sombras — osGuardas Cinzentos, os terríveis Ols, capazes de mudar a aparência, e imensospássaros semelhantes a abutres chamados Ak-Baba — estão à procura deles.E, agora, continue a leitura...
  4. 4. O Cinturão de Deltora estava completo. Sete pedras preciosas brilhavamoutra vez nos reluzentes medalhões de aço. Ele era perfeito. No entanto...Lief olhou para Barda e Jasmine, que caminhavam a seu lado pelamaravilhosa planície iluminada pelo sol, que já fora o Vale dos Perdidos. No céuazul que se estendia sobre eles, Kree planava ao lado de companheiros da mesmaespécie. Muitos pássaros haviam retornado ao vale desde que a névoa maligna sedissipara, o povo exilado de Tora fora libertado de seus mortos-vivos e o perversoGuardião havia retornado à sua antiga personalidade, o eremita Fardeep.Os três companheiros haviam triunfado, mas agora tinham de enfrentar ofato de que, a menos que encontrassem o herdeiro do trono de Deltora, todos osseus esforços teriam sido em vão. Eles tinham acreditado que o Cinturão osconduziria ao herdeiro, mas até aquele momento não havia sinal dele.Com um suspiro, Lief abriu o pequeno livro azul que levava consigo.Aquela cópia era uma das poucas coisas que haviam sobrevivido à destruição dopalácio do Guardião. E por quê? Lief se perguntou. Talvez encerrasse a chave domistério... Mais uma vez, ele olhou para as palavras que lera tantas vezes.Cada pedra encerra a própria magia, mas juntas as sete criamum encantamento que é muito mais poderoso do que a soma das partes.
  5. 5. Somente o Cinturão de Deltora, completo como quando foi fabricado porAdin e usado por um de seus legítimos herdeiros, tem o poder de derrotar oinimigo.— Reler as palavras não vai mudá-las, Lief — murmurou Jasmine. —Precisamos encontrar o herdeiro... e depressa!Ela colheu uma fruta silvestre e a deu a Filli. Muitas outras criaturinhaspeludas agora enchiam o vale, mas todas eram maiores do que o pequeno Filli,que timidamente ficava no ombro de Jasmine, espiando ao redor com olhosmaravilhados.— Se ao menos soubéssemos onde procurar! — remexeu-se Bardainquieto. — Não podemos mais ficar aqui, esperando um sinal. A qualquermomento... — ele olhou para o céu e a expressão de seu rosto mudou, exibindouma repentina preocupação. Lief também olhou para o alto e ficou assustado aoverificar que, onde momentos antes havia um céu azul e límpido, agora se formavauma densa neblina. Os pássaros descreviam círculos, grasnando...Sem perda de tempo, Jasmine chamou Kree, que se afastou do grupo edesceu como um raio em sua direção. No mesmo momento, Lief viu Fardeepaproximar-se acompanhado por dois toranos: Peel, um homem alto e barbado, eZeean, a velha senhora de costas eretas que vestia uma túnica escarlate.— Não temam! — Fardeep avisou. — Os toranos estão tecendo um véu denuvens para esconder o vale outra vez. O Senhor das Sombras não deve descobrirque estamos livres.— Mas e os animais? — preocupou-se Jasmine.— A nossa névoa não irá prejudicá-los, pequena — Zeean a tranqüilizoucom um sorriso. — Ela é leve e doce. Agora que a nossa magia retornou, podemosfazer muitas coisas.— Exceto o que mais desejamos — ajuntou Peel ponderadamente.— Exceto voltar para Tora.— É verdade. — O olhar de Zeean voltou-se para Lief, Barda e Jasmine. —
  6. 6. E, no entanto, tínhamos esperanças...Lief olhou rapidamente para o eremita.— Fardeep nada disse, Lief — Zeean informou. — Mas nos lembramos doque vimos exatamente antes de o vale mudar. Você está carregando um objetoprecioso, um objeto que pode nos salvar a todos. No entanto, sentimos que vocêestá preocupado. Podemos ajudar?Lief hesitou. O hábito de manter segredo continuava forte, mas talvez, defato, os toranos pudessem ajudar. Barda e Jasmine mostravam-se irrequietos, eLief soube que eles também tinham o desejo de confiar.— Fique sabendo que contar algo a um torano é o mesmo que contar atodos — Zeean disse com suavidade. — Não temos segredos entre nós. Mas esseé o nosso ponto forte. Acumulamos muito conhecimento e nossas lembrançasremontam a muitos anos.Lief tocou o Cinturão que pesava sob sua camisa. Mas, antes que pudesseresponder, os corpos de Zeean e Peel enrijeceram.— Há estranhos entrando no vale! — sussurrou Peel. — Estão andandodepressa junto do córrego.— Amigos? — indagou Fardeep ansioso.— Não sabemos. Geralmente conseguimos pressentir a presença daquelesque mudam a forma, os Ols, e também de outros seres malignos. Mas essasmentes estão fechadas para nós.A claridade diminuiu quando a neblina ficou mais espessa. Lief tomou umadecisão.— Vamos encontrá-los. E conversaremos no caminho.E assim, caminhando sobre a relva verde do vale, os companheiroscontaram o segredo que haviam guardado por tanto tempo. Era estranho proferiraquelas palavras em voz alta. Mas Lief não teve receio quando os toranos viram oCinturão.— A ametista — Zeean sussurrou, tocando levemente a pedra roxa.— A pedra de Tora, símbolo da verdade.
  7. 7. — A pedra de Tora? Como assim? — exclamou Jasmine.— Ora, os toranos faziam parte de uma das sete tribos que ofereceram osseus talismãs a Adin quando o Cinturão de Deltora foi criado — Zeean contou.— Certamente esse é o motivo pelo qual a ametista se encontrava noLabirinto da Besta, tão próximo a Tora — acrescentou Peel. — Uma vez tirada doCinturão, a pedra desejou voltar a seu lugar de origem. Até onde pôde, influenciou avontade do Ak-Baba que a carregava. Talvez...Duas pessoas viraram a curva próxima ao riacho. Um deles gritou e se pôsa correr. Perplexo, Lief constatou que se tratava de Dain e que o homem que oacompanhava era Perdição.— Dain! — Perdição chamou. O rapaz olhou para trás com uma expressãode culpa, tropeçou e diminuiu o passo.— Ora, esse garoto é muito parecido com um de nós — Zeean comentou.— Os cabelos, os olhos...— A mãe de Dain tinha sangue torano — revelou Lief. — Os pais dele foramlevados pelos Guardas Cinzentos há um ano. Agora ele trabalha com Perdição, naResistência.Ambos os visitantes estavam agora parados, muito quietos. Perdiçãoobservou a nuvem que pairava sobre sua cabeça.— Está tudo bem, Perdição — avisou Fardeep. — Os seus amigos estãoem segurança. A névoa serve apenas para a nossa proteção.Cautelosamente, Perdição se aproximou. Ele sondou o rosto de Fardeep esua expressão endureceu.— Você! — rosnou ele, tocando a espada.— Não ! — exclamou Lief. — Perdição, este é Fardeep. Ele não é mais oGuardião, nosso inimigo.Pela primeira vez desde que Lief conhecera Perdição, este pareceudesconcertado.— Você tem muitas explicações a dar — balbuciou ele.— E você, também — ajuntou Barda bruscamente. — Por que guardou
  8. 8. para si mesmo o que sabia sobre este lugar?— Eu os alertei sobre o Vale dos Perdidos com todos os meus argumentos!— Perdição vociferou, recobrando um pouco da velha atitude. — Teria adiantadocontar que eu tinha estado aqui? Não acredito! Vocês teriam concluído que, se eutinha conseguido escapar, vocês também conseguiriam.— Talvez — disparou Jasmine. — Mas você leva esse sua fixação pelosegredo longe demais, Perdição! Por que não disse que achava que o Guardião erao rei Endon?Ignorando o sufocado grito de horror de Dain, Perdição sorriu tristemente.— Até mesmo eu alimento alguns bons sentimentos. Quando deixei estevale amaldiçoado, jurei que por meus lábios o meu povo nunca saberia em que oseu rei tinha se transformado. Eles já sofreram bastante. Era muito melhor, pensei,deixá-los acreditar que ele estava morto.— E assim você fez o jogo do Senhor das Sombras — afirmou Lief comcalma. — Ele quer que o rei seja esquecido para que o controle sobre Deltora nuncapossa ser tomado de suas mãos.Perdição recuou como se tivesse recebido uma bofetada. Lentamente, eleesfregava a testa com as costas da mão, ocultando os olhos. Dain tinha os olhosparados, o rosto totalmente inexpressivo. Mas a Lief pareceu que por trás daaparente máscara de tranqüilidade havia sentimentos conflitantes.Após um longo momento, Perdição baixou a mão e olhou diretamente paraLief, Barda e Jasmine.— Acho que sei por que vieram até aqui. Devo concluir que vocêsobtiveram êxito em sua busca?Os companheiros permaneceram em silêncio.— Talvez vocês sejam sensatos em não confiar em mim — disse ele comamargura, e uma sombra cruzou-lhe a face. — Talvez, em seu lugar, eu fizesse omesmo — ele deu meia-volta. — Venha, Dain — ordenou ao rapaz que permaneciaimóvel ao lado dele. — Não somos necessários aqui. Ou queridos, pelo que parece.— Espere! — gritou Zeean, dando um passo à frente. Perdição voltou-se, a
  9. 9. expressão séria.— Não podemos nos dar ao luxo de alimentar suspeitas e rivalidades nestemomento — disse a mulher, o corpo muito ereto. — Unidos, na época de Adin,expulsamos o Senhor das Sombras e suas abomináveis hordas de nossas terras.Unidos, podemos fazê-lo agora.Ela se voltou para Lief, Barda e Jasmine.— A época de segredos entre amigos ficou no passado — disse comfirmeza. — Vocês estão sendo caçados e não sabem qual deve ser o seu próximopasso. Precisamos dos talentos e da experiência de todos que estão envolvidoscom nossa causa. Agora, finalmente, é momento de confiarmos uns nos outros.O grupo retornou à clareira ao lado da cabana de Fardeep. Ali, enquantoabelhas zumbiam entre as flores e o sol mergulhava no céu, a história foi contadamais uma vez. Quando, finalmente, Lief mostrou o Cinturão, Dain abafou umaexclamação e recuou trêmulo.— Eu sabia que vocês tinham um objetivo poderoso — sussurrou. — Eusabia!Lief, porém, observava Perdição. A expressão do homem não mudara. Oque ele estaria pensado?— Parte do que vocês me contaram, eu já imaginava — disse ele por fim. —Ninguém que viajou por essas terras, como eu, poderia ter deixado de ouvir a lendado Cinturão de Deltora. Cheguei a acreditar que vocês o estavam procurando, masnão tinha idéia se seus motivos eram bons ou maus.O rosto de Perdição endureceu.— Lamento ter suspeitado de que vocês estivessem trabalhando contra anossa causa. Mas... — ele correu as mãos magras e morenas pelos cabelosemaranhados. — Será verdade que essa... essa lenda que se transformou emrealidade... pode ajudar Deltora? Talvez, há muito tempo, nos anos que estãoocultos nas sombras de minha memória, eu tivesse aceitado tal história. Masagora...— Você deve acreditar! — explodiu Jasmine. — O próprio Senhor das
  10. 10. Sombras teme o Cinturão. É por esse motivo que as pedras foram roubadas eescondidas, para começar.— Quantas pedras o Senhor das Sombras sabe que vocês têm? —indagou Perdição pensativo.— Temos grandes esperanças de que ele acredite que ainda estamos parachegar à Montanha do Medo, ao Labirinto da Besta e a este vale — respondeu Lief.— Esperanças não servem como base para um planejamento — Perdiçãoretrucou áspero.Lief sentiu uma onda de irritação. E não apenas ele.— Sabemos disso tão bem quanto você, Perdição! — Jasmine exclamouzangada. — Ninguém teria mais prazer em receber certas informações do que nós.Zeean olhou de um para outro, suspirando, e ergueu-se.— Vamos descansar, agora — recomendou ela. — Nossas mentes estarãomais aguçadas pela manhã.Quando ela e Peel deixaram a clareira lentamente, Perdição ergueu osombros e foi até onde se encontravam os seus pertences. Dain correu atrás dele.Fardeep retornou à cabana para começar a preparar a refeição da noite.— Perdição é um aliado desagradável — murmurou Barda. — Mas ele estácerto em querer fatos em vez de esperanças.— Então, nós vamos lhe dar fatos! — respondeu Jasmine irritada.— Lief precisa usar o restante da água da Fonte dos Sonhos.Lief assentiu devagar. Eles vinham guardando a água para quando fosserealmente necessária, e era evidente que esse momento havia chegado. Se elevisitasse o pai aprisionado novamente, o perverso Fallow poderia ir até a cela e,então, Lief poderia descobrir o que o Senhor das Sombras sabia. Mas e se Fallownão aparecesse?Lief sentiu o coração confrangido ao constatar o que deveria ser feito. Elenão podia se arriscar a visitar o pai ou a mãe. Em vez disse, deveria usar a águamágica a fim de espiar o próprio Fallow.
  11. 11. Muito mais tarde, Lief achava-se imóvel na escuridão. Suas pálpebrasestavam pesadas, mas a mente lutava contra o sono. Ele tinha medo do quepoderia ver. Quem era Fallow? O que era ele? Lief pensava que sabia. As palavrasque o ouvira dizer ao pai ecoavam em sua mente:...quando uma pessoa morre, há sempre alguém para tomar o seu lugar. OMestre gosta deste rosto e forma. Ele decidiu repeti-los em mim...Quando as ouviu pela primeira vez, Lief não soube o que queriam dizer.Agora ele as entendia bem demais.Fallow era um Ol e talvez, com quase toda a certeza, um dos Ols de GrauTrês, dos quais Perdição ouvira falar nas Terras das Sombras. O triunfo da arteperversa do Senhor das Sombras, um Ol de tal modo perfeito, tão controlado, queninguém poderia dizer que não era humano. Um Ol capaz de imitar objetosinanimados e seres vivos. Um Ol cuja maldade e poder superava tudo o que Liefpodia imaginar.Prandine, o conselheiro-chefe do rei Endon, tinha sido um deles, disso Lieftinha certeza. Fallow, feito à sua imagem, assumira o trabalho do Senhor dasSombras de onde Prandine o havia deixado.Lief virou-se inquieto. A rainha Sharn havia matado Prandine, jogara-o dajanela da torre do palácio para a morte. Isso significava que Ols de Grau Trêspagavam um preço por sua perfeição. Eles morriam como seres humanos.
  12. 12. Ele fechou os olhos e obrigou a mente a se esvaziar. Chegara o momentode ceder à Água dos Sonhos, de visitar o mundo de Fallow.Paredes brancas, duras e reluzentes. Um som gorgolejante e borbulhante.A um canto, um vulto alto e magro, Fallow, trêmulo sob uma chuva de luzesverdeada e nauseante, os braços ossudos estendidos para o alto. A bocaabria-se como os maxilares de uma caveira, os cantos cobertos de espuma. Osolhos haviam rolado para trás de modo que somente o branco podia ser vistoreluzente, horrível...Lief abafou um grito de pavor, embora soubesse que não poderia serouvido. Ele sentia o estômago revirar, mas não conseguiu desviar o olhar.Tump! Tump!Lief teve um violento sobressalto quando ouviu o som, como se o fortepulsar de um coração reverberasse pelo aposento.A luz verde desapareceu. Os longos braços de Fallow penderam e acabeça tombou para a frente.Tump! Tump!Lief cobriu os ouvidos com as mãos, mas o som ainda vibrava por todo oseu corpo, enchendo-lhe a mente, fazendo seus dentes bater. Contudo, o ruídoparecia atraí-lo, chamá-lo. Ansioso, ele examinou o aposento, tentando descobrirde onde vinha.E então ele a viu. Havia uma pequena mesa no centro do aposento. Umamesa parecida com tantas outras, exceto pelo fato de que a superfície de vidro eragrossa, curva e se movimentava como água agitada. Lief sentiu-se atraído para ela.A necessidade de olhar para a superfície em movimento, de responder ao chamadoera irresistível.Fallow ofegante estava saindo do canto aos tropeços e apanhou um panode dentro da manga. Enxugou o rosto depressa, cambaleou até a mesa einclinou-se sobre ela, fitando a sua superfície encrespada.O som vibrante diminuiu aos poucos. As ondulações ficaram enfumaçadase foram cercadas por uma borda vermelha. No centro do cinza e do vermelho, havia
  13. 13. uma escuridão vazia.Fallow inclinou-se mais ainda. Uma voz sussurrou da escuridãomortalmente calma.— Fallow.— Sim, Mestre. — Fallow tremia, a boca ainda manchada de espuma seca.— Você está abusando de minha confiança?— Não, Mestre.— Você recebeu o Lumin para o seu prazer no exílio. Mas, se negligenciaros seus deveres por causa dele, ele lhe será tirado.Os olhos de Fallow dispararam para o canto em que a luz verde caíra hápouco e então virou-se novamente para a superfície da mesa.— Não estou negligenciando meus deveres, Mestre — choramingou.— Então, que novidades tem para mim? O ferreiro confessou, finalmente?Com o coração confrangido, Lief juntou as mãos e pressionou-as sobre opeito aterrorizado.— Não, Mestre — respondeu Fallow. — Acho...— Há alguém com você, escravo? — a voz sussurrou de repente. Aturdido,Fallow virou-se e examinou o aposento. Seus olhos opacos passaram por Lief, empé atrás dele, imóvel, sem pestanejar.— Não, Mestre — ele murmurou. — Como poderia haver? Conformeordenou, ninguém entra neste quarto além de mim.— Eu senti... algo. — A escuridão no centro das sombras em movimento seintensificou, como a pupila de um olho gigante.Lief ficou imóvel como uma estátua, tentando manter a mente livre depensamentos, prendendo a respiração. O Senhor das Sombras podia sentir a suapresença. Aquela mente perversa estava esquadrinhando a sala, tentandoencontrá-lo. Lief podia sentir-lhe a hostilidade.— Não... não há ninguém aqui. — Era estranho ver Fallow encolhendo-sede medo, os lábios cruéis tremendo.— Muito bem. Continue.
  14. 14. — Começo a acreditar que o ferreiro realmente não sabe de nada — Fallowbalbuciou. — Fome e tortura não o atingiram. Nem mesmo a ameaça de matar oucegar a mulher o fizeram falar.— E ela?— Ela, com certeza, é mais forte do que o marido. Ela profere insultos aostorturadores, mas não diz nada de útil.Sua mãe. Lief sentiu as lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto. Não ousou semover para secá-las. Ele continuou parado, rígido, tentando conservar mente ecoração dissociados.— Então eles o fizeram de bobo, Fallow — sussurrou a voz vinda daescuridão. — Pois eles são os culpados... culpados de tudo que suspeitávamos.Não há dúvidas de que o filho deles é um dos três.— O filho está com o rei? — indagou Fallow boquiaberto. — Mas o ferreiroriu quando sugeri isso. Riu! E eu poderia jurar que aquele riso foi real.— E foi. O homem que está viajando com o rapaz não é Endon, mas umguarda do palácio chamado Barda. Certamente, Jarred divertiu-se com seu erro.— Ele pagará por isso! — vociferou Fallow, o rosto retorcido pela ira.— E a mulher também. Eles desejarão nunca ter nascido. Eu vou...— Você não vai fazer nada! — O sussurro foi gélido, e Fallow ficourigidamente imóvel.— Talvez você tenha vivido tempo demais entre os camponeses, Fallow, ecomeça a pensar como eles. Ou talvez o uso excessivo de Lumin que recebeu deminhas próprias mãos tenha enfraquecido o seu cérebro.— Não, Mestre, não!— Então, ouça. Você é minha criação, cujo objetivo é cumprir a minhavontade. Faça exatamente o que lhe digo. Mantenha o ferreiro e a mulher emsegurança. Eu preciso deles. Enquanto estiverem vivos, eles podem ser usadoscontra o rapaz. Se estiverem mortos, não teremos nenhuma influência sobre ele.— Seres com sua aparência...— Ele está com o grande topázio. Os espíritos de seus desventurados
  15. 15. mortos irão aparecer para ele no momento em que deixarem o mundo. Ols iguais aeles não enganarão o rapaz.Seguiu-se um silêncio. E então Fallow tornou a falar.— Posso perguntar onde os três estão agora, Mestre?— Nós os perdemos de vista. Por ora.— Mas pensei que o seu...— Não pense no que não é da sua conta, Fallow! Curiosidade é parahumanos, não para seres iguais a você. Está entendido?— Sim, Mestre. Mas eu não estava perguntando por mim, mas só por causada preocupação com os seus planos. Os três podem, por algum milagre, restaurar oCinturão. E isso vai... desagradá-lo.As palavras foram proferidas com humildade, porém Lief acreditou ter vistouma pequena faísca de rebeldia nos olhos baixos.É possível que o Senhor das Sombras também a tenha notado, pois a bordavermelha que circundava a massa cinzenta que não parava de girar pareceualargar-se, e um tom astuto se fez sentir em sua voz.— Eu tenho muitos planos, Fallow. Se um deles falhar, outro terá êxito. Sevocê cumprir minhas ordens à risca, cedo ou tarde ficará livre para se divertir àvontade com os pais do rapaz. E, quanto a Endon, se ele ao menos parasse detremer de medo e rastejasse para fora de seu esconderijo...Um calafrio percorreu o corpo de Lief.— E os três? — Fallow perguntou ávido.Ouviu-se uma gargalhada longa e baixa. As espirais vermelhasescureceram até atingir um tom escarlate.— Ah, não. Os três, Fallow, serão meus.Lief despertou, o coração aos saltos, o estômago dolorido. Tinha um gostoamargo na boca, o gosto do medo e do sofrimento.Ele não sabia ao certo quanto tempo havia dormido. A luz da Lua ainda seinsinuava palidamente por entre a nuvem torana, inundando a clareira com seubrilho suave e misterioso. Lief obrigou-se a ficar deitado, quieto até que o martelar
  16. 16. de seu coração tivesse se acalmado. Então, em silêncio, a fim de não acordar osdemais, ele acordou Barda e Jasmine.Com a facilidade causada pela longa prática, eles despertaram de imediato,vigilantes e atentos, as mãos nas armas.— Não! Não há perigo — sussurrou Lief. — Sinto perturbar seu descanso,mas tinha de falar com vocês.— Descobriu alguma coisa! — Jasmine falou em voz baixa, sentando-se.Lief assentiu. Olhou para onde Perdição e Dain estavam deitados e,baixando ainda mais a voz, contou o que tinha visto e ouvido. Ele se obrigou acontar tudo, mordendo o lábio para evitar o tremor da voz.Os seus companheiros ouviram em silêncio até o final.— Então, ele espera que caiamos em suas mãos — murmurou Barda. —Vamos cuidar disso!Lief olhou para ele. Os punhos do homenzarrão estavam fechados e aexpressão estava tomada pelo sofrimento e pela raiva. Jasmine pousou a mão nobraço de Lief.— Pelo menos, sabemos que, por enquanto, os seus pais estão emsegurança — confortou ela com suavidade. — E Perdição pode parar com suaszombarias. Nós estávamos certos. O Senhor das Sombras não tem certeza de ondeestamos.— E é evidente que também não sabe do paradeiro de Endon, Sharn e ofilho — completou Barda. — Ele acha que nós o levaremos ao esconderijo doherdeiro.— E talvez façamos isso mesmo — falou Lief baixinho, sentindo um frio noestômago. — Vocês não percebem o que mais descobrimos?Os dois amigos o fitaram sem entender. Ele engoliu o mal-estar eprosseguiu.— O Senhor das Sombras descobriu quem você realmente é, Barda. E eletambém sabe o meu nome. Como pode ser? A menos...— A menos que alguém na fortaleza da Resistência seja um espião! —
  17. 17. sussurrou Jasmine de repente se dando conta da verdade. — Pois foi na fortalezaque o nome de Barda foi revelado a todos por aquele acrobata, Jinks. E, comcerteza, Dain contou o nome de Lief e o meu enquanto estávamos presos. Ele nãodeve ter visto nenhum mal nisso.— E alguém... — continuou Lief, mordendo o lábio — alguém na fortalezafez contato com o Senhor das Sombras. Dain nos contou que Perdição suspeitavada presença de um espião na Resistência. Eis aí a prova.— Glock! — Jasmine sussurrou com ódio.— Ou o próprio Jinks — tornou Barda. — Pode ser qualquer um.— Sim — Lief concordou, olhando novamente para as figuras adormecidasde Dain e Perdição. — Pode mesmo ser qualquer um.
  18. 18. Sem fazer ruído, os companheiros reuniram os seus pertences eesgueiraram-se para fora da clareira. Momentos depois já estavam caminhando aolongo do riacho em direção à saída do vale. Eles sabiam que seria tolice tentar fugirescalando o penhasco. As encostas cobertas de pedras soltas eram íngremes eescorregadias demais.Estava frio e escuro sob as árvores. Havia toranos adormecidos por todolado, em abrigos improvisados."O que eles pensarão quando acordarem e descobrirem que partimos?",pensou Lief. Contudo, ele e os companheiros não tinham outra escolha senão fugir.Ao seguirem o conselho bem-intencionado de Zeean, eles haviam revelado seuprecioso segredo a duas pessoas cuja amizade agora estava longe de ser digna deconfiança.Lief lamentou amargamente não ter sido mais prudente."Não sabemos", Zeean havia sussurrado quando Fardeep haviaperguntado se os visitantes do vale eram amigos ou inimigos.Por que os toranos não podiam afirmar se Dain e Perdição eram pessoasde boas ou más intenções? Certamente porque um ou ambos tinham experiênciaem ocultar o que lhes passava na mente. Esse poderia ser um hábito totalmenteinocente ou..."Eu tenho muitos planos..."
  19. 19. O sussurro maligno girava na mente de Lief como uma névoa nociva.Ele olhou para a frente e se deu conta de que chegavam à saída do vale. Oespaço que os separava dos penhascos rochosos diminuía rapidamente. Eles seaproximavam da passagem estreita pela qual Perdição e Dain tinham chegado.— Há algo atravessado na entrada do vale — sussurrou Jasmine. —Alguma coisa está bloqueando a passagem.E, de fato, Lief também pôde ver um objeto enorme caído sobre o riacho.Quando se aproximou devagar, ele viu que se tratava de uma carroça. No banco docondutor, enrolado em um cobertor, estava um homem, roncando suavemente.— Steven — Barda sussurrou. — Ele deve ter vindo com Dain e Perdição.Sem dúvida, ele vai segui-los até o vale se não retornarem dentro de umdeterminado prazo.A carroça agigantava-se diante deles. As portas traseiras estavampressionadas fortemente contra a parede rochosa. Eles teriam de passar pela outraextremidade, bem diante do nariz de Steven. Mas ele ainda roncava suavementedebaixo do cobertor e dificilmente despertaria.Eles começaram a avançar. Um passo, dois...Três passos, quatro...O ronco cessou. Lief olhou para o vulto deitado sobre o banco. Ele estavaem silêncio e absolutamente imóvel. Imóvel demais.O coração de Lief pareceu congelar. Então, de repente, ouviu-se um terrívelrugido, e o cobertor começou a se erguer como se o corpo em seu interior estivesseinchando e dobrando de tamanho.— Aqui! — Uma voz vinda das árvores cortou o ar. Lief virou-se e viuPerdição acenando para eles.No banco da carroça, algo rosnou como se fosse um imenso animal. Arespiração quente e pesada ficou cada vez mais alta...— Nevets, volte! — Perdição ordenou. — Sou eu, Perdição! Não há perigo!— Ele empurrou Lief, Barda e Jasmine bruscamente para trás das árvores e ficouem frente deles.
  20. 20. — Não há perigo! — gritou ele novamente.Lentamente, os rugidos diminuíram. E, quando Lief conseguiu fixar os olhosna carroça outra vez, o vulto sob o cobertor havia retomado o tamanho normal.Enquanto ele olhava, o homem se virou para o lado como se estivesse se ajeitandopara dormir novamente.Perdição começou a empurrar os companheiros de volta pelo caminho poronde tinham vindo.— Que tipo de jogo vocês acham que estão jogando? — sussurrou elefurioso. — Vocês querem morrer? Se eu não tivesse acordado e descoberto quetinham partido...— Como iríamos saber que você tinha colocado o seu monstro deestimação para vigiar o vale? — devolveu Jasmine furiosa.— E não somos livres para fazer o que queremos? — Lief fervia de raiva emedo.Os olhos de Perdição se apertaram, então, ele se virou e começou acaminhar de volta ao riacho.— Sugiro que vocês fiquem no vale por enquanto — disse ele sobre oombro. — Nem mesmo eu me arriscaria a perturbar Steven outra vez durante umahora ou duas. E Zeean e Peel estão muito ansiosos para vê-los. Parece que elestêm algo a lhes dizer.O dia estava amanhecendo quando os companheiros voltaram à clareira.Zeean, Peel, Fardeep e Dain estavam reunidos ao redor de uma pequena fogueira esaboreavam um café da manhã composto de bolinhos quentes cobertos com meldas colméias de Fardeep. Todos ergueram o olhar quando os companheiros seaproximaram com Perdição, mas não fizeram perguntas."Talvez eles saibam que não receberão nenhuma resposta", pensouLief, sentando-se perto do fogo com Barda e Jasmine. Ele sentiu um mistode emoções: ressentimento por ter sido obrigado a voltar, curiosidade por aquiloque os toranos tinham a dizer, frustração diante do pensamento de que tudo o quefosse dito seria ouvido por Perdição e também por Dain. No entanto, Perdição os
  21. 21. salvara de Nevets. Isso não significava que...— Que bom que vocês voltaram — Zeean disse, empurrando o prato debolinhos na direção dos recém-chegados. — Tivemos uma idéia que queremosdiscutir com vocês.Ela fez uma pausa e franziu o cenho ao notar que Barda, Lief e Jasmineolharam para Perdição e Dain.Lief agarrou o Cinturão que lhe rodeava a cintura. A calma da ametista e aforça do diamante o invadiram. E, de repente, ele soube o que tinha de ser feito. Elee os companheiros deveriam agir como se não alimentassem dúvidas a respeitodos aliados. Porém as informações que haviam obtido por meio do sonho deveriamser mantidas em segredo a todo custo, pois elas eram o que de mais poderosopossuíam.Ele sorriu para Zeean e apanhou um bolinho, aparentandodespreocupação.— O seu pai lhe contou que o Cinturão o conduziria até o herdeiro, Lief.Mas o seu pai sabe apenas o que leu. E talvez isso não seja tudo o que vocêsprecisem saber.— O que quer dizer com isso? — Lief indagou sério. Ele deu uma mordidano bolinho, que estava quente e doce e se desfez em sua boca.— O livro 0 Cinturão de Deltora é uma obra de ficção, não deaconselhamento — Peel afirmou ansioso. — O escritor não podia prever que um diaas pedras seriam arrancadas do Cinturão e não poderia saber o que fazer nessasituação.— O Cinturão é um objeto dotado de grande mistério e magia — Zeeanacrescentou. — As pedras foram recuperadas, mas talvez isso não seja o bastante.Eles ouviram um som abafado vindo da extremidade do grupo. Daininclinava-se para a frente como se quisesse falar.— Dain? — Zeean chamou.O rapaz corou como sempre ocorria quando a atenção se voltava para ele.— Eu estava pensando... na história de como o Cinturão foi feito —
  22. 22. balbuciou. — E no que aconteceu depois.Ele ficou em silêncio, olhando nervosamente para Perdição, que nadadisse.— E...? — Zeean encorajou. Os olhos dela denotavam o seu interesse. Apele de Lief começou a formigar, pois, de alguma forma, ele sabia que estavamprestes a descobrir algo muito importante.Lief apanhou sua cópia de O Cinturão de Deltora e folheou-o. Não demoroua encontrar o que procurava... as palavras que contavam como o ferreiro Adinconvencera cada uma das sete tribos a permitir que a sua pedra fosse adicionadaao Cinturão.No início, as tribos se mostraram desconfiadas e cautelosas,mas, uma a uma, desesperadas para salvar suas terras, concordaram.Assim que cada pedra era colocada no Cinturão, a tribo ficava mais forte.Mas as pessoas mantiveram essa força em segredo e esperaram pelomomento certo.Quando, finalmente, o Cinturão ficou completo, Adin o prendeuao redor da cintura, e ele brilhou como o sol. Então, todas as tribos seuniram a Adin para formar um grande exército, e juntos expulsaram oinimigo de suas terras.Lief leu o trecho devagar, em voz alta.— A vitória dependeu não só do Cinturão, mas da união das sete tribos e dalealdade para com Adin — Peel disse devagar, quando a leitura terminou. — É nissoque você está pensando, Dain?O rapaz assentiu. Perdição o fitou com curiosidade.— Ora, você é um estudioso e tanto, Dain — ele comentou zombeteiro. —Como o filho de um fazendeiro aprendeu tanto sobre a história de Deltora?
  23. 23. Dain hesitou, mas não se deixaria intimidar.— Os meus pais me ensinaram — disse com tranqüilidade. — Eles nuncaperderam a esperança de que algum dia Deltora seria libertada. Eles disseram queessa história não deveria ser esquecida.Perdição deu de ombros e se virou, mas Lief imaginou ter visto um brilhodiferente nos olhos escuros. Seria raiva? Arrependimento? Ou alguma outra coisa?— Seus pais eram pessoas sábias, Dain — Zeean disse. — Sua mãe tinhasangue torano, não é mesmo? Como ela se chamava?Dain pareceu estremecer.— Ela se chama Rhans — ele disse tão baixo que Lief mal pôde escutar. —No presente, não no passado. Por que fala como se ela tivesse morrido?— Eu sinto muito — Zeean se desculpou perturbada. — Não quis...— Então as sete tribos se uniram a Adin e o Cinturão — rosnou Barda. —Que importância tem isso para nós?— Quem sabe? — Perdição murmurou. Ele se ergueu e afastou-se umpouco do grupo, voltando-me as costas. Dain olhou para Lief desesperado.— Você certamente recebeu ajuda em sua jornada, Lief — disse ele em vozbaixa. — Em toda Deltora, você conheceu pessoas dispostas a desafiar o Senhordas Sombras. Tenho certeza de que elas o ajudarão novamente. Eles o ajudarão a...— ele olhou de relance para Perdição e, novamente, sua voz pareceu falhar.— Acho que Dain acredita que a união de Deltora faz parte da magia doCinturão — comentou Lief, respirando fundo. — Dain acha que devemos reunir assete tribos mais uma vez.
  24. 24. Jasmine foi a primeira a romper o silêncio.— Mas as sete tribos existiram antigamente, pelo menos, foi isso que mecontaram. É provável que elas tenham desaparecido há muito.— Não, elas não desapareceram — Zeean contou. — Certamente, muitosem Deltora não saberiam dizer de que tribo descendem. A tribo de Del, cuja pedraera o topázio, espalhou-se por todo o reino. O mesmo aconteceu com outras tribos.— Mas algumas permaneceram unidas — ajuntou Peel. — Os toranos, porexemplo. E os Gnomos do Medo.— Os Gnomos do Medo eram uma das sete? — O coração de Liefcomeçou a bater forte.— Isso mesmo — Zeean assentiu. — A grande esmeralda era o talismãdos gnomos.Lief sacudiu a cabeça atônito. Fa-Glin e Gla-Thon nada disseram a esserespeito. Será que desconheciam o fato? Ou eles simplesmente decidiram mantersegredo até que chegasse o momento adequado?Lief procurou o presente de despedida dos gnomos em seu bolso, apanhoua pequena caixa feita com madeira Boolong e a abriu.— Se mandarmos este sinal, os gnomos virão — disse ele em voz baixa,enquanto todos fitavam admirados a ponta da flecha dourada.— Vocês realmente têm amigos poderosos — sussurrou Peel.
  25. 25. — Já temos três tribos — ajuntou Fardeep com satisfação. — E as outras?— Os Ralads são uma raça antiga! — Barda exclamou. — Será que eles,talvez...— Sim — Zeean concordou. — Vocês os conhecem?— Um deles, Manus, nos ajudou a encontrar o rubi no Lago das Lágrimas— contou Barda. — O rubi deve ter sido a pedra dos Ralads.Lief remexeu o bolso mais uma vez, desta vez à procura de lápis e papel.— E o povo de DOr? — Jasmine indagou.— Seus ancestrais chegaram a Deltora vindos do outro lado do oceano —disse Perdição por sobre o ombro. — Isso foi há muito tempo, mas depois da épocade Adin e das sete tribos."Então ele está ouvindo, afinal", pensou Lief acrescentando a informação àlista que começara a fazer. "Ele finge mostrar que isso é tolice, mas não conseguese afastar."— O povo das Planícies fazia parte de outra tribo — contou Zeean. — Apedra deles é a opala. E havia a tribo dos Meres na parte superior do Rio Largo, ealém...— Cujo talismã era o lápis-lazúli! — interrompeu Lief ainda escrevendo.— A última das sete tribos, os Jalis — Zeean prosseguiu assentindo -vivianessa região. Eles eram a mais selvagem de todas e eram grandes guerreiros. Apedra deles era o diamante.Lief mostrou a lista.Tribo Pedra Onde foi encontrada1. Del Topázio(lealdade)Florestas do Silêncio2. Ralads Rubi (felicidade) Lago das Lágrimas3. Planícies Opala(esperança)Cidade dos Ratos
  26. 26. 4. Mere Lápis-lazúli(pedra celestial)Dunas5. Gnomos doMedoEsmeralda(honra)Montanha do Medo6. Tora Ametista(verdade)Labirinto da Besta7. Jalis Diamante(pureza e força)Vale dos Perdidos— Eu senti que estávamos sendo guiados em toda nossa busca — contouLief. — Agora tenho certeza disso. Nós conhecemos membros de todas as tribos.— Exceto da última: os Jalis — ajuntou Jasmine. — Não vimos ninguém emnossa vinda para cá.— Não havia ninguém para ser visto -respondeu Perdição, virando-se paraeles. — Quando o Senhor das Sombras chegou, os Jalis defenderam as suas terrasferozmente. Mas mesmo eles não tiveram a menor chance contra os GuardasCinzentos. Eles foram massacrados, nem as crianças foram poupadas. Somentealgumas escaparam.— Então você também sabe um pouco de história, Perdição — comentouJasmine atrevida.— O bastante para afirmar que, se vocês pretendem formar um exércitocom os Jalis, ficarão extremamente desapontados — Perdição retrucou, aexpressão sombria.— Não queremos exércitos — Zeean disse. — Exércitos seriam vistos edestruídos de imediato. Nós só precisamos que sete almas, descendentesgenuínas das tribos que permitiram que os seus talismãs fossem reunidos para obem de todos, coloquem as mãos no Cinturão e renovem o juramento de lealdadepara com Deltora.— Isso! — exclamou Lief, sentindo uma grande onda de esperança.Dain nada disse, mas os seus olhos brilhavam.
  27. 27. — Temos toranos em abundância — disse Barda. — Lief e eu somos de Del.Conhecemos Ralads e Gnomos do Medo. Mas e quanto ao povo das Planícies? OsMeres? Isso sem falar...— Eu pertenço à tribo dos Meres — Fardeep anunciou tranqüilo. Ele ergueuo queixo e todos os olhares se voltaram para ele. — Rithmere tem sido o lar deminha família desde antes dos tempos de Adin.— E o povo das Planícies? — Peel perguntou.— O povo de Noradz deve descender da tribo das Planícies — Jasminemurmurou. — Temos uma amiga entre eles... Tira.— Tira certamente seria morta se tentasse escapar de Noradz — afirmouBarda com franqueza. — Dain? É possível que o seu pai descenda do povo dasPlanícies?— Não — Dain respondeu com voz rouca. — A nossa fazenda ficava a leste,não muito longe daqui. Os parentes de meu pai eram de Del. Mas... — Ele lançouum olhar suplicante para Perdição. Este suspirou, retornou ao grupo e sentou-secom um gemido cansado.— Você falou que o destino o guiou — ele disse a Lief. — Acho difícilacreditar nesse tipo de coisa. Mas, por acaso, há um descendente do povo dasPlanícies aqui perto. A família dele é... incomum, mas faz parte da tribo, comcerteza. Sei que ele estaria disposto a ajudar. Ele... e o seu irmão.— Steven? — perguntou Lief, o desânimo tomando conta dele.— E Nevets. — O rosto de Perdição se iluminou com um sorriso zombeteiro.— Pois você não pode ter um sem o outro.— Melhor ainda! — Fardeep exclamou animado.Barda, Lief e Jasmine se entreolharam, pois não tinham muita certezadisso.Contudo, Fardeep já falava novamente.— Agora, só falta encontrarmos um descendente dos Jalis.— Acho que você pode nos ajudar aqui — Zeean falou, voltando-se paraPerdição. — Acho que a história dos Jalis lhe foi contada por alguém que você
  28. 28. conhece. Um dos Jalis que escapou. Não é verdade?— De fato, é, sim. — O sorriso de Perdição se alargou. — E, se vocês oquerem, vocês o terão. Não tenho dúvidas de que ele vai animar os acontecimentos,quase tanto quanto Steven.— É mesmo? — Fardeep indagou radiante.— Ah, sim. Ele é um camarada simpático — Perdição brincou. — Um carasimpático chamado Glock.Barda, Lief e Jasmine deixaram escapar um grito de horror.— Não podemos chamar Glock! — Jasmine disparou.— Então, receio que não possamos ter um membro da tribo dos Jalis— Perdição retrucou. — Glock é o único que conheci. Acho que os outrosque escaparam já morreram. E essa também é a opinião de Glock.— Então, seja qual for a atitude desse Glock, precisamos pedir-lhe que sejunte a nós — Zeean concluiu com calma. — Onde ele está agora?— Em Withick Mire, uma fortaleza da Resistência perto de Del— Perdição informou, suspirando. Ele estava causando problemas ondeestava antes. Withick Mire é menos... isolado.— Então, temos sete pessoas — Zeean disse. — Agora, até mesmo você,Perdição, deve admitir que estamos sendo guiados.As linhas no rosto duro de Perdição se aprofundaram. E ele pareceu chegara uma decisão.— Certa vez você falou que nós nos uniríamos para lutar por Deltoraquando o momento certo chegasse — ele disse a Barda. — Parece que essemomento é agora. Talvez não da maneira que eu teria escolhido, mas...— Talvez a gente nem queira a sua ajuda! — Jasmine disparou.— Você já pensou nisso?— Não posso dizer que pensei — murmurou Perdição. — Eu não achariaque vocês seriam tão tolos.— De fato, não seríamos — replicou Barda, lançando a Jasmine um olharcarrancudo que a mandava calar-se.
  29. 29. A boca de Perdição torceu-se num sorriso estranho.— Então, vamos fazer os nossos planos — disse ele. — Primeiro,precisamos enviar mensagens secretas para Raladin e a Montanha do Medo.— Como? — Jasmine quis saber.— Deixe isso comigo — ofereceu Perdição. — A Resistência também temamigos úteis. Eu sugiro que o local da reunião seja Withick Mire.Lief sentiu-se invadido pela inquietação. Por que Perdição os queria tãopróximos de Del e de seu maior perigo?"Porque Withick Mire é uma fortaleza da Resistência", a voz da suspeitasussurrou em sua mente. Porque ali, a palavra de Perdição é lei.— Parece que todos esses esforços serão em vão se não conseguirmosencontrar o herdeiro — Perdição ajuntou, suspirando. — Portanto, quanto maisperto estivermos de seu possível esconderijo, melhor. Endon e Sharn viajaram deDel a Tora, mas eles não poderiam ter se afastado muito antes de receber amensagem dos toranos recusando refúgio. Imagino que ela tenha sido mandadaimediatamente.Zeean e Peel assentiram, os rostos obscurecidos pela terrível lembrançado juramento quebrado de Tora. Contudo, Perdição não tinha tempo para emoções.— O reino estava tomado pelo perigo — continuou ele. — A rainhaesperava um filho. É muito provável, então, que o casal tivesse procurado refúgionas redondezas, em algum lugar entre Del e o Vale dos Perdidos.Um calafrio percorreu o corpo de Lief. A busca os tinha levado a descreverum enorme círculo e os trouxera de volta à área onde provavelmente se encontravao herdeiro, em algum lugar a oeste de Del. Um local calmo, em que Endon e Sharnpudessem ter criado o filho sem ser notados.Algo lhe remoía o fundo da memória. A recordação de algo que tinha ouvido,não muito tempo atrás. Mas ele não conseguia se lembrar...— Certamente é melhor ficarmos aqui — Fardeep argumentava. — Se Lief,Barda e Jasmine saírem do esconderijo, eles chamarão a atenção do Senhor dasSombras.
  30. 30. — Podemos viajar escondidos na carroça de Steven — Jasmine sugeriuansiosa para entrar em ação. — Além disso, apesar das dúvidas de Perdição,temos certeza de que as buscas do Senhor das Sombras estão concentradas nooeste.— Talvez possamos nos garantir ainda mais. — Perdição foi até Peel. —Você tem quase a mesma altura e cor de pele de Barda. E entre o seu povo devehaver alguém que se pareça com esses dois jovens — ele disse, apontando paraLief e Jasmine.Peel assentiu em silêncio, as sobrancelhas erguidas.— Precisamos de iscas — Perdição explicou. — Que se exibam perto do rioTor. Uma garota, um rapaz e um homem com um pássaro que voe ao lado deles.Steven pode fornecer roupas que...— Não! É perigoso demais! — Jasmine exclamou.— Será que somente vocês devem encarar o perigo? — Peel perguntoucom delicadeza. — O plano é inteligente. E cabe aos toranos executá-lo. Se fomosobrigados a viver no exílio, podemos ao menos tentar reparar o grande erro queprovocou essa situação.— Um dia vocês poderão voltar a Tora — Lief gritou, o coração aospedaços. — O perdão do herdeiro certamente derrubará a maldição.— Talvez — Zeean disse séria, erguendo a cabeça. — Mas primeiro oherdeiro deve ser encontrado. E nós faremos nossa parte. — Ela olhou para Lief eJasmine com cautela. — O seu amigo Steven não terá uma capa igual a essa — eladisse a Lief. — Esse tecido é muito raro, digno dos teares de Tora. Como aconseguiu?— Minha mãe a teceu para mim — Lief tocou o tecido áspero do casaco.Zeean ergueu as sobrancelhas surpresa, e Lief sentiu um misto de prazer edor. Orgulho pelo trabalho da mãe. Medo por ela.O resto do dia passou em meio a uma névoa. Quando Lief pensou neledepois, lembrou-se somente de algumas imagens:Dain correndo para buscar Steven. Fardeep embalando comida. As faces
  31. 31. ansiosas de Kris e Lauran, os jovens toranos escolhidos como iscas. Lauran comos sedosos cabelos sendo cacheados e emaranhados para ficarem parecidos comos de Jasmine. Os longos cabelos negros de Kris cortados do mesmo comprimentodos de Lief. A ponta da flecha dourada na palma da própria mão. Pássaros pretosesperando silenciosamente nas árvores.E, então, a carroça de Steven rodando pelo vale. Steven assentindo,analisando a mensagem escrita por Barda. Steven sentado sozinho perto dascolméias de Fardeep, murmurando e desenhando na terra. As abelhasdeslocando-se pela névoa que cobria o topo das árvores e voando rapidamente nadireção do Rio Largo...Fim da tarde. Três pessoas movendo-se na clareira. Um homem grandebarbado, um rapaz usando uma longa capa e uma garota de aspecto selvagem comum pássaro preto pousado no braço. Era como olhar no espelho. Perdição assentiusatisfeito. Zeean, muito orgulhosa e ereta, tinha os olhos escurecidos pelo medo.Peel, Kris e Lauran abraçavam os familiares antes de partir e iniciar a perigosajornada...Noite. O ar pesado, dificultando a respiração. O adormecer difícil e ossonhos. Sonhos sobre uma busca desesperada. Sobre pernas que não conseguiamcorrer. Sobre mãos atadas e olhos vendados. Sobre faces veladas e máscarassorridentes que deslizavam para o lado e revelavam rostos horrivelmentedesfigurados. E, estendendo-se sobre tudo, uma massa rastejante escarlate ecinzenta, o centro escuro pulsando perversamente.Chamando-o.
  32. 32. A carroça sacolejava na estrada irregular. O seu interior estava escuro eabafado. Lief, Barda e Jasmine ficaram sentados, horas a fio, ouvindo o tilintar dosarreios, o ranger das rodas e o som de duas vozes que cantavam.Estou espiando umOl-io Ol-io, Ol-io?Olá, Ol-io cambaleante!Você não me incomoda!O grupo havia decidido que atrairiam muita atenção se viajassem todosjuntos. Dain, Perdição, Fardeep e Zeean viajariam pelo interior.— Steven e Nevets são mais do que capazes de defender vocês, senecessário — Perdição havia dito.Lief tinha certeza de que era verdade. Ainda assim, sua pele se arrepiavaao pensar nos dois estranhos irmãos cantando juntos no banco do condutor nafrente da carroça.Barda, como soldado treinado que era, aproveitou a oportunidade paradormir. Encostado a uma pilha de tapetes, ele cochilou tão tranqüilamente quantose estivesse numa cama confortável. Mas Jasmine estava bem desperta. Kreefurioso encontrava-se pousado ao seu lado, as penas eriçadas. Filli dormia dentro
  33. 33. de seu casaco. Ela fechou a cara quando as vozes se ergueram mais uma vez.— Não há nada de errado em estar contente — ela murmurou. — Mas elesprecisam cantar essas bobagens?Lief assentiu, concordando. Apesar disso, ele se flagrou cantarolando osversos bobos.Tempo de parar e tomar ar.Ol-io, Ol-ioÁrvores adiante, o céu está claroNão há mais nenhum Ol-io!Lief sentou-se ereto e arregalou os olhos. De repente, ele se deu conta deque a canção estava longe de não ter sentido. Steven estivera enviando-lhesmensagens o tempo todo!— Logo poderemos sair e esticar as pernas — ele disse a Jasminealegremente. — Há árvores adiante e nenhum sinal de Ols ou Ak-Babas.Jasmine olhou-o fixamente, a expressão carrancuda se acentuando.Evidentemente, ela achou que ele estava endoidecendo.Longe dali, uma mulher velha e rechonchuda, o rosto tão vermelho eenrugado quanto uma maçã murcha, estava inclinada sobre a água límpida. Aoredor de sua cabeça, fervilhava uma nuvem escura de abelhas.A mulher ouvia atentamente. Enormes peixes prateados flutuavam na águadebaixo dela. Bolhas saíam de suas bocas, formando estranhos desenhos nasuperfície.Finalmente, a mulher endireitou o corpo e se virou, ajeitando os muitosxales nos ombros. As abelhas giravam diante dela. Os desenhos que elasformavam no ar imitavam os das bolhas que marcavam a água.— Então, vocês aprenderam bem a lição — a mulher disse a elas —passada adiante por suas irmãs abelhas do sul aos peixes e agora para vocês.Podem ir, então!
  34. 34. E as abelhas partiram, uma flecha negra zunidora, levando a mensagemadiante.Jinks saiu da fortaleza da Resistência no oeste e estremeceu sob o ventogelado. O céu estava límpido, exceto por um bando de aves negras, manchaspretas pintando o azul. Jinks protegeu os olhos com as mãos e os observou.Pássaros? Ou Ols? Normalmente, Ols não voavam tão alto. Mas, por outrolado, o bando se dirigia para a Montanha do Medo. Que pássaro de verdade iriapara lá?De repente, Jinks viu uma pequena faísca no centro do bando, como se osol tivesse atingido algum objeto de metal. Mas por que um Ol, ou um pássaro,principalmente, estaria carregando tal coisa?Meus olhos estão me enganando. "Devo estar cansado", Jinks pensou.Bocejando, ele voltou para a caverna.Tom, o comerciante, servia cerveja a Guardas Cinzentos na pequenataverna que mantinha ao lado da loja.— Há muitos de vocês por aqui hoje — disse ele como quem não querianada. — Alguns de seus colegas também passaram por aqui ontem.Um dos guardas resmungou, apanhando a caneca cheia até a borda.— Eles têm ordens de ir para o oeste — ele informou. — E muitos outrostambém. Nós devemos ficar no noroeste, o que é muito pior. Vamos perder toda aação.— Ação? — O rosto magro de Tom abriu-se num largo sorriso enquanto eledistribuía as canecas aos demais.— Você fala demais, Teep 4 — grunhiu um segundo guarda.— O velho Tom não é uma ameaça! — o comerciante se defendeu,erguendo as sobrancelhas. — Ele não passa de um pobre comerciante.— E um pobre taverneiro também! — resmungou Teep 4. — Esta cervejatem gosto de água suja.Em meio às altas gargalhadas, a campainha da loja soou. Tom sedesculpou, atravessou uma porta e fechou-a atrás de si. Um homem e uma mulher
  35. 35. aguardavam no interior da loja, bem agasalhados contra o frio.— Olá! O que posso fazer por vocês?Sem dizer palavra, a mulher desenhou uma marca na poeira do balcão.Tom apagou a marca casualmente ao apanhar um pacote debaixo dobalcão.— Acho que esta é a sua encomenda — disse ele. Entregou o pacote àmulher e, então, lançou um olhar rápido para a porta da taverna.— Tenho novidades — ele murmurou. Os clientes inclinaram-se para afrente e ele começou a falar rapidamente.No alto da Montanha do Medo, Gla-Thon viu um bando de pássaros pretosse aproximando e ajustou uma flecha em seu arco.Os gnomos ainda colocavam garrafas de vidro cheias na base damontanha para serem levadas às Terras das Sombras pelos GuardasCinzentos. O fato de que o líquido das garrafas agora era água misturada àseiva de árvores Boolong, em vez do veneno mortal, era algo que os guardas sódescobririam quando tentassem usar as bolhas fabricadas com ele.Talvez, esse momento tivesse finalmente chegado. Talvez, os pássarospretos fossem o primeiro sinal de que o Senhor das Sombras tinha descoberto atraição dos Gnomos do Medo."Nesse caso, estamos preparados", Gla-Thon pensou séria. Ela escutouum farfalhar às suas costas e virou-se bruscamente. Mas era somente Prin, a maisjovem dos Kin.— Pássaros! — Prin se espantou. — Pássaros pretos...— Eu os vi — Gla-Thon resmungou.
  36. 36. O bando estava se aproximando. A flecha de Gla-Thon retesou a corda doarco. Então um dos pássaros separou-se do grupo e mergulhou em sua direção,levando no bico um objeto que, ao sol, emitia um brilho dourado.E, mesmo antes de o pássaro aterrissar, Gla-Thon estava gritando.Gritando que o sinal tinha chegado.Manus ergueu a cabeça da tarefa que realizava nos canteiros de verdurasde Raladin para espantar as moscas que se aglomeravam ao seu redor. E, então,algo lhe chamou a atenção.Os insetos não eram realmente moscas, mas abelhas. O ar parecia tomadopor elas. Enquanto Manus observava, estirando as costas doloridas, franziu a testa.As abelhas estavam agindo de modo estranho. Elas não estavam adejandoao redor das flores, mas zunindo no ar. Elas estavam se agrupando e formandodesenhos. E os desenhos...Manus ficou boquiaberto, e a pá caiu-lhe das mãos. Com seu longo dedocinza-azulado, ele começou a repetir no chão os desenhos que as abelhasformavam.Manus sentou-se sobre os calcanhares e leu o que tinha escrito. Amensagem era clara: Uma pessoa — viajar para — amigos — depressa. Pelaliberdade!Muitos dias se passaram. Dias lentos para Lief, Barda e Jasmineamontoados na carroça. Eles sabiam, a partir das canções de Steven, queAk-Babas os haviam sobrevoado e que Ols de todas as formas os haviamobservado enquanto a carroça passava. O veículo, porém, era uma visão conhecidapara os Ak-Babas, e os Ols não se mostraram interessados. Eles tinham recebido
  37. 37. ordens de ficar atentos, mas não àquilo.A estrada se bifurca adianteOl-io, Ol-iolA noite chega, e estamos livresDe Ol-io, Ol-ios!Steven cantava novamente, informando as novidades.Alguns minutos mais tarde, a carroça parou, as portas traseiras foramabertas e os companheiros saíram com dificuldade. O sol acabara de se pôr. Umacolina rochosa assomava diante deles e a estrada principal a rodeava e seguia paraa direita. Outra trilha se abria para a esquerda. Um sinal havia sido colocado nabifurcação, e os dizeres deixaram o coração de Lief apertado.<<< Rio Largo / Del >>>— Precisamos tomar a estrada para Del, mas será uma jornada para odesconhecido — Steven contou. — Não sei nada sobre ela, e Perdição também não.Ele sempre viaja pelo interior nestas paragens. Ele diz que as colinas queescondem a costa são traiçoeiras, mas ele as prefere.— Eu também as preferiria — murmurou Jasmine.— E eu também — Barda ajuntou. — Mas precisamos continuarescondidos. Se formos vistos aqui, as iscas que estão no oeste terão arriscado suasvidas por nada.Lief olhava para a estrada de Del. Endon e Sharn, sem dúvida, a tinhampercorrido ao sair da cidade na noite em que escaparam. Eles não teriam tentado ir
  38. 38. pelo interior com Sharn tão perto de ter o bebê.Ele tentou imaginar como teria sido. A estrada devia estar apinhada degente, pois muitas pessoas fugiram de Del naquela noite. Ele se lembrou da voztriste do pai contando-lhe o que aconteceu.— Sua mãe e eu ficamos fechados na ferraria durante todo o tumulto.Quando finalmente abrimos nossas portas, vimos que estávamos sozinhos. Amigos,vizinhos, antigos clientes, todos haviam desaparecido. Haviam sido mortos,capturados ou tinham escapado.— Esperávamos algo desse tipo — a mãe acrescentou. — Mas a confusãofoi pior do que imaginamos. Levou muito tempo para que a vida em Delrecomeçasse. E, quando isso aconteceu, estávamos preparados. E muito gratospor estarmos a salvo com você, meu filho, pois você nasceu nessa época e foi umaluz em nossas vidas. Mas... — A sua voz forte tremeu. — Mas temíamos poraqueles que tinham fugido.Os que tinham fugido.Não reconhecidos em suas humildes roupas de trabalho, Endon e Sharndevem ter se perdido em meio à multidão em pânico. Eles certamente correram comos demais em direção ao oeste, sofrendo sabe-se lá que horrores. E, quando opássaro preto que levava a mensagem de Tora os alcançou, eles devem terpercebido que não havia sentido em continuar.O que teriam feito então? Saído da estrada. Encontrado um esconderijo.Endon sabia que o Cinturão nunca mais brilharia para ele. A única esperança deDeltora estava nas mãos do filho. Ele e Sharn tinham de achar um lugar em que obebê pudesse nascer em segurança. Onde?Lief foi despertado pela voz aguda de Jasmine.— Lief! Precisamos encontrar um lugar para passar a noite.O rapaz virou-se para a carroça. Entretanto, os seus pensamentoscontinuaram presos na época que precedeu o seu nascimento e nas duas pessoasdesesperadas que procuravam refúgio e que ele nunca conhecera.
  39. 39. Ameaçava chover quando o grupo partiu no dia seguinte. O fato nãoincomodou os companheiros animados pela convicção de Steven de que chegariama Withick Mire antes do pôr-do-sol. Contudo, ainda não tinham ido muito longequando a voz dele lhes trouxe más notícias.Estejam preparados para fugir ou lutar.Ol-io, Ol-io!Campo de carnívoras à direita,À frente, Guardas-ios.— O que é um campo de carnívoras? — Jasmine sussurrou, quando acarroça parou com um solavanco.— Sei lá, mas não pode ser pior do que os Guardas Cinzentos — Bardaresmungou. — E parece que eles estão logo adiante.As portas da carroça foram abertas e Steven olhou para dentro.— A estrada está bloqueada — ele sussurrou. — Os Guardas devem estarinspecionando todos os veículos que passam. — Steven ergueu um barril do cantoenquanto Lief, Barda e Jasmine esgueiraram-se para fora. Eles não podiam servistos pelos Guardas porque a carroça parara em meio a uma curva. Mas assim queprosseguisse...
  40. 40. Lief procurou rapidamente um meio de escapar. De um lado, havia umarocha alta e escarpada. Do outro, um campo cercado de colinas cobertas pordensos bosques.— Vão para as colinas — Steven murmurou. — Se tiverem sorte, osGuardas não vão perceber. Nós nos encontraremos mais adiante. Cuidado. Aspedras são difíceis de...Ele foi interrompido por um grito rouco que veio da estrada à frente. Stevenbateu as portas e foi na direção deles, carregando o barril.— Estou indo, senhores — ele avisou. — Tenho cerveja para vocês. Oscompanheiros ouviram-no subir ao banco do condutor, e a carroça começou a semover.Kree voejou na direção das colinas. Lief, Barda e Jasmine rolaram para avala que margeava a estrada.— Não vejo sinais de carnívoras, seja lá o que forem — Barda sussurrou,sondando o campo.De fato, o campo parecia totalmente vazio. O único fato incomum era o tomverde vivo de uma grande quantidade de ervas daninhas grandes e achatadas.Como esteiras redondas feitas de círculos de folhas largas, elas cresciam muitojuntas, quase sufocando a grama.Lief observou a estrada. A carroça já estava muito perto dos Guardas.Havia dez deles, um grupo considerável. A estrada estava bloqueada por árvorescaídas. Pilhas de lixo, barris vazios e caixas espalhavam-se por toda parte. Eraevidente que os Guardas estavam de serviço ali há meses."Eles devem estar entediados, ansiosos por divertimento", Lief pensoudesanimado.— E o que temos aqui? — um dos Guardas gritou. — Um carrapato grandee feio e um cavalo que combina com ele! — Ouviram-se gargalhadas quando osseus colegas se reuniram ao redor da carroça, os olhares fixos em Steven.— Agora! — Barda sussurrou.Juntos, sob a proteção da capa de Lief, os amigos começaram a
  41. 41. esgueirar-se em direção às colinas. Mas quase imediatamente Barda parou com umgrito abafado de dor. No mesmo instante, Jasmine sufocou uma exclamação e caiude joelhos.Lief se virou, agachando-se para ajudá-los, mas ao apoiar a mão esquerdano chão, este cedeu e a mão foi puxada para baixo por algo que mordia e queimava.A mão de Lief afundou no centro de uma das ervas achatadas que sealargava, sugando o seu braço, puxando-o para baixo...Desesperado, Lief puxou o braço e se libertou. A mão estava coberta desangue. O centro da planta abria-se como uma enorme boca de lábios flácidos ecom manchas vermelhas. Horrorizado, Lief olhou para as fileiras de dentes cruéisque cobriam a garganta verde que mergulhava fundo na terra.As plantas! Carnívoras! Steven pensou que sabíamos...Ao seu lado, Jasmine lutava para livrar a perna presa enquanto Filliguinchava aterrorizado, tentando em vão ajudá-la, e Kree voava para junto dela.Barda se debatia em agonia e afundava atrás deles, ambas as pernas presas.Lief segurou os braços de Jasmine e a puxou. A perna foi libertada,pingando sangue e, ao seu redor, outras carnívoras abriam suas bocas horrendas eenormes. Gritos animados vieram da estrada e, por um momento, Lief pensou quetinham sido vistos. Mas, quando olhou, viu que os Guardas estavam de costas parao campo reunidos em volta do barril, enchendo suas canecas.— Barda! — Jasmine gritou com a voz sufocada. Barda estava preso aochão. Seus braços e pernas estavam aprisionados. Ele esticava o pescoçoenquanto lutava para manter o rosto afastado da boca verde, pulsante e ávidaaberta bem abaixo dele. E a cada instante ele afundava mais..."Por que não estou afundando?", Lief se perguntou. Ele olhou para baixo econstatou estar parado sobre um monte de grama clara que cobria uma pedraachatada. Steven começara a dizer algo sobre pedras...As pedras são difíceis de... de ver!Com um gemido de frustração, Lief viu manchas claras formando uma linhaatravés do campo, como uma passadeira. Um caminho que seria sempre seguro
  42. 42. porque, embora a grama pudesse crescer sobre as pedras, as carnívoras podiamsomente crescer para o fundo da terra.Ele e Jasmine estavam parados sobre pedras naquele momento. Barda,porém, encontrava-se em meio a uma agitada massa de um verde vivo, e a trilha depedras serpenteava ao lado dele.— Jasmine! Ande sobre as manchas claras. Elas são seguras! — Liefsussurrou. — Depois que Jasmine obedeceu a ordem de Lief, ele apanhou a cordado cinto e a seguiu.Quando a alcançou, Jasmine golpeava ferozmente as plantas queprendiam Barda, mas elas apenas estremeciam e recuavam um pouco. Lief ajeitoua ponta da corda sob o peito do amigo e, então, inclinando-se perigosamente,puxou-a do outro lado e fez um nó, amarrando-a com força sob os braços dohomenzarrão.— Barda, me ajude! — disse ele com dificuldade, puxando-o com todas asforças. E Barda, com um esforço final e angustiado, gemeu e arqueou o corpo.Os braços dele foram libertados. As mangas do casaco estavam rasgadasem tiras e ensopadas de sangue. As bocas ávidas se abriam imensas, debaixo dele.Com os dentes à mostra, repugnada, Jasmine começou a atacar as folhasao redor das pernas aprisionadas de Barda. Novamente, Lief puxou a corda, masdesta vez o amigo pouco pôde ajudar. O sangue fluía livremente da carne ferida, eele estava perto de perder a consciência. Mas, finalmente, com uma lentidãotorturante, as suas pernas começaram a se soltar do solo, até finalmente ficaremlivres.Jasmine e Lief rolaram-no sobre as pedras e começaram a levá-lo emdireção das colinas, carregando-o em alguns trechos, arrastando-o em outros.O barulho vindo da estrada transformou-se num rugido animado. OsGuardas pensaram num novo tipo de diversão. Cinco deles mantinham Stevenimóvel sob a ponta das adagas, e os outros cinco arrastavam o cavalo na direção docampo das carnívoras. O animal, percebendo o perigo, empinava-se e corcoveava,relinchando apavorado.
  43. 43. Os Guardas estavam animados. Steven gritava para que parassem. Oenorme corpo moreno coroado de cabelos louros quase desaparecia em meio àmultidão de uniformes cinzentos que não parava de se acotovelar.— Jasmine! Mais depressa! — Lief pediu, o sangue gelando nas veias. Asárvores não estavam longe. Alguns passos mais...Então, ouviram-se urros assustadores. Lief olhou para trás e viu os Guardascaindo ao chão, as mãos apertando os olhos. Steven cambaleava para trás,enquanto uma luz amarela e ofuscante se desprendia de seu corpo como fumaça. Elogo depois outro vulto assomou a sua frente, tomando forma no clarão. Um gigantedourado com uma crina selvagem feita de cabelos castanho-escuros.— Nevets — Lief sussurrou.O corpo do gigante estava coberto de pêlos dourados. Os seus olhosamarelos cintilavam com fúria impiedosa. Os dedos enormes exibiam garrasmarrons cruelmente curvas nas extremidades. Ele investiu na direção do cavaloapavorado e puxou-o para a segurança. E então, rugindo como um animal, elecomeçou a agarrar os Guardas que gritavam e se retorciam, sacudiu-os como sefossem bonecos e rasgou-os em pedaços.Lief e Jasmine observavam paralisados de terror. Steven ergueu-se e osviu.— Corram! — ele vociferou. — Depois que ele começa, não consigo fazê-loparar. Sumam das vistas dele.Seguros sob as árvores, Lief e Jasmine envolveram os graves ferimentosde Barda em ataduras, cobriram-no com cobertores e deram-lhe um pouco de melAbelha Rainha. Mas a hemorragia não cessava e Barda não se movia. A chuvacomeçou a cair intensa, gelada.Desesperado, Lief procurou um abrigo. E então ele deixou escapar um gritode surpresa. Não muito longe, como uma resposta às suas preces, havia uma velhacabana de pedra, quase escondida pelos arbustos. Claro! Uma trilha de pedras queantes conduzia à casa de alguém.Enquanto Kree voejava ansioso sobre eles, Lief e Jasmine levaram Barda
  44. 44. até a cabana. O interior dela estava envolto na penumbra, pois as pequenas janelasestavam cobertas de sujeira. Do ambiente desprendia-se um desagradável cheirode mofo, mas era seco, e a lareira estava repleta de gravetos e capim seco.Eles arrastaram Barda para dentro, e Jasmine correu até a lareira.Momentos depois, o fogo ardia em seu interior. A madeira seca e altamenteinflamável crepitava enquanto as chamas subiam e começavam a encher opequeno aposento com uma luz bruxuleante.E então Lief viu o que se encontrava a um canto.Dois esqueletos estavam encostados à parede. Tiras de roupas aindaestavam presas aos ossos e cabelos aos crânios, de modo que Lief pôde constatarque se tratava de um homem e uma mulher que haviam rastejado até ali paramorrer. Ele notou que aninhado nos braços da mulher, entre os farrapos de um xale,estava outro pequeno monte de ossos, os ossos de um bebezinho.A testa de Lief ficou porejada de suor. Ele se obrigou a se aproximar. Haviaalgo caído aos pés do homem. Uma caixa de estanho achatada.— Não! — gritou Jasmine, a voz cheia de medo. Mas Lief não parou. Eleapanhou a caixa e a abriu. Dentro dela, havia um pedaço de pergaminho comdizeres em preto. Ele se esforçou para ler, as palavras terríveis dançando-lhe diantedos olhos. Lief inspirou profunda e dolorosamente.— O que é? — Jasmine sussurrou.Lief leu o bilhete em voz alta. Sua voz soou fraca, irreconhecível.
  45. 45. Tudo está perdido.Tora me abandonou. Está muito frio. A comida que trouxemos de Delacabou e não há amigos que nos ofereçam mais. Sharn, minha amada esposa, estámorta e nosso filho recém-nascido viveu apenas alguns dias a mais. Devo juntar-mea eles em breve, com prazer. A grandiosa linhagem de Adin termina comigo. Deltoradeve submeter-se à sua sorte, assim como eu devo me submeter à minha. EndonO último rei de DeltoraO bilhete amassado nas mãos, Lief olhou fixamente para os ossos. Ele nãoconseguia aceitar o que via.O herdeiro de Deltora não estava seguro em seu esconderijo, esperandopor eles. O herdeiro tinha morrido há muito tempo.— Esse Endon não merecia ter sido rei — Jasmine disse com amargura. —Um homem fraco e teimoso, cheio de autopiedade. Isso é o que eu sempre temi.— Você está sendo cruel, Jasmine! — Lief sussurrou com esforço. — Ele
  46. 46. tinha perdido tudo que amava quando escreveu este bilhete. Ele estavadesesperado.— Ele foi o responsável por essa perda! — acusou Jasmine. — Se eletivesse sido corajoso o bastante para depender de si mesmo pelo menos uma vez,eles teriam sobrevivido, como os meus pais fizeram. Há madeira aqui. Ouvi o somde um riacho. Há frutas silvestres e outros alimentos nos arredores.Zangada, ela sacudiu a cabeça.— Ah, mas não! Sempre esperando que os outros lhe segurassem a mão efacilitassem a sua vida. Ele nem mesmo tentou ajudar a si mesmo e à família. Assim,acabou nesse lugar ermo, morrendo de fome e frio, provocando a morte da mulher edo pequenino. — Os olhos dela brilharam com as lágrimas que caíam ao olhar opequeno embrulho esfarrapado que repousava junto do seio da mulher.— Nunca saberemos o que realmente aconteceu — disse Lief pesaroso. —Mas de uma coisa nós sabemos. Sem o herdeiro para usá-lo, o Cinturão não podesalvar Deltora.O seu peito estava apertado, o estômago queimava. "Barda está morrendo",ele pensou. "Morrendo por uma causa que estava perdida antes mesmo decomeçar. E meus pais! Quanto eles não sofreram! E tudo por nada! O plano de meupai para ajudar o amigo e esconder o herdeiro levou somente à morte e aosofrimento. Quem lhe contara a mentira de que o Cinturão ficaria intacto somenteenquanto o herdeiro vivesse?""Estava escrito no livro 0 Cinturão de Deltora?" Lief sondou a memória.Não! Ele tinha certeza absoluta de que o livro nunca mencionara nada parecido. Porque ele pensara nisso, então?"Simplesmente porque acreditei no que meu pai me disse", pensou Liefdesanimado. Como, sem dúvida alguma, o pai acreditara em outra pessoa.Prandine, talvez. Ou no próprio Endon. Ele baixou a cabeça desesperado.
  47. 47. A carroça balançava, os sinos nos arreios tilintavam. Mas Steven nãocantava. No interior da carroça, Barda encontrava-se deitado entre Lief e Jasmine,que tentavam proteger o amigo ferido dos solavancos mais violentos.Eles passaram uma hora terrível perto do fogo da cabana antes que Stevenviesse procurá-los. Lief tremia, lembrando-se do que acontecera quando o homemvira os esqueletos e lera o bilhete.A expressão de Steven ficou sombria. O peito dele começou a crescer e, derepente, ele fechou os olhos e pressionou os lábios.— Não! Não! — Lief ouviu-o balbuciar enquanto se virava, batendo naparede de pedra com os punhos. E Lief sabia que ele estava lutando com Nevets,tentando manter o irmão selvagem sob controle.Depois de alguns instantes, ele venceu a batalha. Steven voltou-se paraeles, o rosto cansado, mas calmo.— O que não tem remédio remediado está — ele disse sério. — Nossodever agora é para com os vivos.— Ah, isto é minha culpa — ele se censurou, inclinando-se sobre Barda. —Eu pensei que vocês soubessem do campo de carnívoras.— Barda vai sobreviver? -perguntou Lief com dificuldade. Hesitante,Steven mordeu o lábio.— Em Withick Mire, ele vai ficar aquecido e confortável — disse ele
  48. 48. finalmente.Ele se curvou e ergueu Barda tão facilmente como se o homenzarrão fosseuma criança e saiu da cabana sem olhar para trás. Lief e Jasmine o seguiram,ambos cientes de que ele não respondera a pergunta.Eles caminharam em silêncio entre as árvores até onde começava a trilhade pedras e iniciaram a travessia entre o campo de carnívoras. A carroçaencontrava-se parada mais adiante, o cavalo esperando ao lado. Árvores quehaviam bloqueado a estrada haviam sido jogadas para o lado. As fogueiras, osmantimentos e o lixo, tudo tinha sido varrido para longe como que atingido por umaforte ventania.Dos Guardas não havia sinal, exceto por algumas tiras de tecido cinzamanchadas de sangue espalhadas aqui e ali. Com um calafrio, Lief se deu conta deque Nevets escolhera o caminho mais fácil para se livrar dos restos de suas vítimas.As plantas carnívoras mais próximas à estrada tinham sido bem alimentadas.Horas mais tarde, um odor repulsivo se fez sentir no ar. O cheiro depodridão e deterioração se infiltrou na carroça até que o ar parado e empoeiradoficou dominado por ele. Jasmine franziu o nariz enojada.— O que é isso? — ela sussurrou.Lief deu de ombros e então endireitou o corpo enquanto a carroçasacolejava violentamente como se estivesse percorrendo terreno acidentado.Ele olhou para Barda. As ataduras rudimentares que lhe envolviam aspernas e os braços estavam ensopadas de sangue. Ele tomara um pouco de água e,quando lhe deram um pouco de mel Abelha Rainha, ele o lambeu dos lábios. Masnão abriu os olhos, tampouco falou."O mel é tudo o que o está mantendo vivo", pensou Lief. "Mas por quantotempo? Quanto tempo? Ah, espero que cheguemos logo a Withick Mire.""Para que Barda possa ser tratado adequadamente. Para que os seusferimentos possam ser lavados e ser cobertos por ataduras limpas. Para que", Liefse obrigou a pensar no assunto, "se Barda tiver de morrer, que o faça em paz ecom conforto, numa cama quente, e não naquela carroça fria, sacolejante e
  49. 49. malcheirosa."Para sua surpresa, naquele exato momento a carroça parou. As portastraseiras foram abertas, e Lief e Jasmine saíram.A chuva havia parado. O sol se punha, inundando o céu com uma luzopaca e alaranjada que iluminava uma cena estranha e horrível. A carroça seencontrava no alto de um grande monte de lixo. Montes gigantescos e malcheirososde farrapos, ossos, móveis quebrados e utensílios domésticos, pedaços de metaltorcidos e restos de comida em decomposição erguiam-se de todos os lados. Entreos montes, pessoas andrajosas e desafortunadas se curvavam e remexiam,procurando algo aproveitável entre os restos.Lief virou-se zangado para Steven.— Por que você nos trouxe para cá? — ele quis saber. — Precisamos levarBarda a Withick Mire!Sem dizer palavra, Steven apontou para uma placa colocada exatamenteao lado de onde a carroça parara.Bem-vindo à Cidade Fedorenta!Withick MireAntes que Lief pudesse dizer qualquer coisa, um dos andrajosos catadoresde lixo aproximou-se deles arrastando os pés e apoiando-se numa bengala. Umremendo preto cobria-lhe um dos olhos e um lenço protegia-lhe o nariz e a boca domau cheiro. Ele se inclinou para eles, olhando de soslaio os recém-chegados com oolho saudável.
  50. 50. — O que vocês procuram, se é que posso perguntar? — ele indagou comuma voz que mais parecia um grasnido. — Aqui, no meio dos restos de Del?Lief e Jasmine hesitaram sem saber o que dizer.— Talvez vocês estejam procurando abrigo? — o homem continuou. —Então, venham comigo. Todos são bem-vindos em Withick Mire.Ele se afastou mancando, abrindo caminho entre os montes de lixo com afacilidade proporcionada pela longa prática. Sem saber o que mais fazer, oscompanheiros o seguiram, Lief e Jasmine a pé, Steven conduzindo o cavalo comcuidado em meio àquele labirinto.À medida que caminhavam, eles passaram por vários barracos deploráveis,feitos de pedaços de madeira, lata e tecido. Pessoas agachavam-se do lado de foradessas moradias, separando as sobras recolhidas no dia ou acendendo fogueiraspara cozinhar. Alguns sorriram para os estranhos, outros não se deram ao trabalhode sequer erguer os olhos.Nos fundos de um dos montes maiores, fora construído um abrigo maisespaçoso. O catador de lixo acenou, e Lief e Jasmine o seguiram para dentro,dando uma olhada para Steven que vinha logo atrás.Ao entrarem no abrigo, uma surpresa os aguardava. Sob a fina camada delata e madeira, havia um edifício sólido, muito maior do que aparentava do exteriorporque, exceto pela entrada, ele fora construído no interior do monte de lixo. Oespaço era não somente grande, mas limpo e bem organizado com muitas maçasarranjadas caprichosamente ao longo das paredes, cada qual com seu cobertordobrado e os pertences do usuário empilhados na parte inferior.O catador de lixo virou-se para eles, endireitou o corpo e tirou o lenço e oremendo do olho.— Perdição! — exclamou Jasmine surpresa.— Vocês não me reconheceram? — Perdição perguntou, sorrindo. — Issoé excelente! É claro que vocês não esperavam que a fortaleza da Resistênciaficasse num depósito de lixo. Mas que lugar melhor existe para se esconder?Ninguém vem aqui de boa vontade, nem mesmo os Guardas Cinzentos. E quem se
  51. 51. importa com pobres catadores de lixo? Algumas das pessoas que vocês viram aífora são verdadeiros catadores de lixo, almas sofridas de Del de quem a vida foiroubada. Outros, e são muitos, são gente nossa. Glock, Fardeep e até Zeean estãolá fora, em algum lugar, com todos os demais. Dain saiu para buscar água.Lief assentiu devagar, assimilando o que via. "Então, nada era o queparecia, nem mesmo ali", pensou.— Perdição — chamou Jasmine aflita. — Barda está ferido. Ele precisa decuidados. E... — ela olhou para Lief. — Há outra notícia. Muito desagradável.Lief remexeu no bolso e tirou o bilhete amassado de Endon.Os olhos negros de Perdição ficaram ainda mais escuros como se, dealguma forma, ele soubesse o que leria. Mas ele não apanhou o bilhete. Em vezdisso, voltou-se rapidamente para a porta.— Vou ter bastante tempo para isso depois que cuidarmos de Barda —disse ele bruscamente. — Traga-o para dentro. Vamos fazer o possível por ele.Mais tarde, Lief e Jasmine estavam sentados perto do leito do amigo. Asferidas deles também tinham sido lavadas e envolvidas em ataduras e o grandehomem finalmente se encontrava deitado tranqüilamente. O sangramento haviaparado, graças a um estranho aliado: Glock.— Isso não vai sarar com ataduras — ele resmungara, agarrando einspecionando o punho de Lief. — As plantas carnívoras injetam algo que mantém osangue fluindo.Ele foi até a própria cama, procurou algo debaixo dela e retornoucarregando um jarro sujo cheio de uma pasta cinzenta.— Passe isso nas mordidas — ordenou.— O que é isto? — indagou Jasmine, cheirando a pomada, desconfiada.— Como vou saber? — Glock rosnou. — Quem a fez já morreu há muitotempo. Mas a minha tribo sempre a usou, nos bobos e crianças que caíam noscampos de carnívoras.Jasmine reprimiu a resposta irada que lhe dançava nos lábios e virou-separa Barda.
  52. 52. — Não a desperdice nele — Glock resmungou. — Ele está acabado.Jasmine não se preocupou em responder. Ela já estava passando a pasta nosferimentos limpos de Barda. Glock cuspiu enojado e se afastou arrastando os pés.Depois disso, desapareceu.Lief ergueu os olhos exausto. Zeean, Fardeep e Perdição estavamreunidos não muito longe dele, acompanhados de Steven. As cabeças curvadas, asexpressões sérias, eles liam o bilhete de Endon.— Então — Lief ouviu Perdição dizer com pesar —, esse é o fim da história.Eles olharam para Lief e Jasmine, que os observavam, e se juntaram aeles. Perdição devolveu o bilhete a Lief.— Os Gnomos do Medo e o Ralad chegarão e descobrirão que viajarampara nada — ele disse.— Todas as nossas jornadas foram inúteis — replicou Lief desalentado.O rosto de Zeean estava tomado pelo sofrimento.— É muito difícil — ela murmurou. — Eu tinha... tantas esperanças.— Tudo bem, se nossas esperanças vão por água abaixo, quando sãofalsas. — A velha amargura havia voltado à voz de Perdição. — Logo voltaremospara o lugar de onde viemos. E, a cada passo que dermos, contaremos o quesabemos para que nenhum outro idiota seja tentado a arriscar a vida por uma causainútil.Ouviu-se um som ao lado de Lief. Ele baixou os olhos e seu coraçãoacelerou. Barda havia se mexido e tinha os olhos abertos.— O que... aconteceu? — perguntou ele num fio de voz.— Não aconteceu nada — respondeu Jasmine tranqüilizadora,acariciando-lhe a testa. — Agora, descanse.Mas Barda moveu a cabeça com impaciência e seus olhos foram atraídospelo bilhete nas mãos de Lief.— O que é isso? Deixe-me ver! — ordenou.Lief conhecia Barda bem demais para saber que seria impossível recusar.Com relutância, ele estendeu o bilhete para que o amigo pudesse vê-lo e lhe
  53. 53. explicou como foi encontrado.Barda leu incrédulo as palavras terríveis e, então, para surpresa de Lief, elesorriu.— E é isso que o preocupa? — ele perguntou.Lief e Jasmine se entreolharam alarmados. Barda estava delirando, eJasmine inclinou-se outra vez sobre a cama.— Durma — ela sussurrou. — Você está muito fraco e precisa descansar,Barda.— Pode ser — ele retrucou debilmente, mas não tanto que não reconheçauma falsificação quando a vejo.
  54. 54. Fatigado, Barda fitou o círculo de rostos atônitos que se formou ao seuredor e sorriu mais uma vez.— O bilhete é uma boa falsificação, com certeza — ele murmurou. — A letraé muito parecida com a do bilhete que vimos em Tora. Mas não foi o cérebro deEndon que compôs essas frases. Eu...Barda parou de falar ao ser distraído por um ruído. Lief virou-se depressa eviu Dain correndo na direção deles, os olhos cheios de interrogações. Contudo,antes que o rapaz pudesse falar, Perdição franziu o cenho e colocou o dedo sobreos lábios. Lief voltou-se para a cama.— Como você pode ter certeza de que o bilhete não foi escrito pelo reiEndon? — Jasmine indagou com suavidade. — Você não o conheceu.— Talvez não — Barda murmurou —, mas Jarred, sim. Repetidas vezes eleme contou dos terríveis sentimentos de culpa que assaltavam Endon. Ele mesmonão continha as lágrimas quando contava da agonia do rei ao se dar conta de quetinha decepcionado Deltora. No entanto, esta que se supõe ser a última mensagemde Endon, escrita muito tempo depois de ele fugir de Del, não diz nenhuma palavraa respeito.— Você está certo. — Lief sentiu-se despertar lentamente de um pesadelo.— Nenhuma palavra de desculpas ou pesar por quaisquer pessoas que não elepróprio e a família. E isso não pode ser verdade. O bilhete... os esqueletos... foram
  55. 55. plantados ali para nos enganar! É por isso que os Guardas estavam posicionadosnaquele local. Para obrigar os viajantes a sair da estrada e ir até a cabana. Tudonão passou de um plano do Senhor das Sombras. "Tenho muitos planos..."— Mas... — como Jasmine, Perdição ainda não estava totalmenteconvencido.Barda moveu a cabeça inquieto.— Vejam o selo no final da mensagem. Ele não deveria estar ali. O bilheteem Tora não tinha o selo real. E por quê? Porque Endon não tinha o sinete em seupoder quando escapou. Ele não poderia tê-lo levado. O sinete ficava guardado comPrandine e era trazido somente quando havia mensagens a serem assinadas.— Como você sabe disso? — Zeean perguntou curiosa.— Minha mãe, que Deus a tenha — Barda começou, suspirando —, foiama-seca de Jarred e Endon. Ela gostava de falar e me contou muitas coisas sobrea vida no palácio. Admito que, muitas vezes, eu mal a escutava, mas parece queaprendi mais do que o Senhor das Sombras imagina.— E isso foi uma bênção — Fardeep ajuntou agradecido. — Se não fossepor você, teríamos abandonado todas as nossas esperanças.— Então, isso significa que houve um motivo para que eu ficasse vivo —Barda replicou com um leve sorriso. — Mas agora estou muito cansado. — E fechouos olhos.Jasmine respirou fundo, colou o ouvido ao peito do amigo e prestouatenção, o rosto muito pálido.— Ele só está dormindo — sussurrou. — Mas seu coração está muito fraco.Receio que ele esteja nos deixando.Sem olhar, ela estendeu a mão para Lief que a tomou entre as suas, osolhos marejados de lágrimas. "Como essa jornada nos mudou", pensou ele,atordoado pelo sofrimento. "Jasmine demonstra sentimentos e busca consolo. Eunão tenho vergonha de chorar. Barda acharia isso tudo muito engraçado."— Não sofra antes do tempo, amigo — Perdição aconselhou comdelicadeza. — Barda é forte e um lutador. Ele não vai desistir facilmente. E o mel
  56. 56. Abelha Rainha já fez muitos milagres.Lief sentiu a mão de Jasmine pressionar a sua. Em seguida, houve ummovimento repentino ao lado dele. Dain havia se aproximado e se ajoelhava ao ladoda cama. Os olhos do rapaz estavam úmidos, mas o rosto mostrava determinação.— Barda não pode morrer — disse ele. — Se cuidarmos bem dele, tenhocerteza de que vai se recuperar.O rosto de Jasmine parecia brilhar de gratidão ao olhar para Dain. Destavez, contudo, Lief não ficou enciumado. Se Barda tinha de se salvar, ele precisavade todas as esperanças e ajuda que conseguisse obter.Aquela noite e o dia seguinte passaram como que em sonho. Lief, Jasminee Dain, que cuidavam de Barda em turnos, persuadiram-no a tomar mel, água ecolheradas de caldo. Às vezes, Barda parecia mais fortalecido, erguendo-se e atéfalando. Outras, a fraqueza voltava a dominá-lo e não demorava para que ficassepior do que antes.Era como se ele se encontrasse numa descida gradativa que não podia serinterrompida. Os momentos de melhora eram cada vez mais raros."Barda está morrendo", Lief disse a si mesmo. Preciso enfrentar esse fato.Mas ele ainda não podia perder as esperanças. Jasmine certamente não as tinhaperdido e Dain era uma torre de força, assumindo turnos cada vez mais longos aolado do leito de Barda, poupando os amigos o máximo que podia.O sol se punha e Lief acabara de se levantar da cabeceira do doente e deceder o lugar a Dain quando um grito estridente foi ouvido do lado de fora.— Ak-Baba! Cuidado!De repente, quando as pessoas começaram a passar pela porta e entrar noabrigo, tudo se transformou em confusão. Lief olhou ao redor assustado. Ondeestava Jasmine?Então, ele se lembrou. Jasmine tinha ido buscar água juntamente comZeean e Fardeep. Lief abriu caminho entre a multidão que se aglomerava na porta ecorreu para fora. Não demorou a ver as três pessoas que procurava. Elas estavamparadas, com os baldes transbordantes, observando a sombra escura que se
  57. 57. aproximava em meio à luz ofuscante e alaranjada do céu.— Jasmine! — chamou Lief. — Corra!Entretanto, para sua surpresa, Jasmine simplesmente se virou e lhe lançouum sorriso fatigado. Ele olhou para cima mais uma vez e percebeu o que a sombrarealmente era.Não era um Ak-Baba, mas sim um Kin! Ailsa, se não estava enganado. Elaestava cercada por uma nuvem flutuante de pássaros pretos. Então, os pássaros seafastaram e Ailsa começou a descer em direção ao solo. Um pequeno vulto em suabolsa acenava vigorosamente.Gla-Thon, Lief calculou, observando o céu com olhos semicerrados edevolvendo o aceno. Gla-Thon, de raciocínio rápido e língua afiada. Liefreconheceu-lhe o corpo robusto, os cabelos castanhos ondulados. E quem mais,além de Gla-thon, pensaria em pedir a um Kin que a levasse rapidamente pelo araté a reunião? O velho Fa-Glin pode ter concordado em fazer as pazes com os Kins,seus vizinhos, mas Lief achou improvável que ele tivesse concordado em voar comum deles."Agora seis da sete tribos estão aqui representadas", pensou Lief, ao corrercom Jasmine para dar as boas-vindas aos recém-chegados. "Eu deveria estarentusiasmado e cheio de esperanças."E, de certa forma, estava. Ele sabia que comemorações e muitasconversas se seguiriam a essa chegada e estava ansioso para explicar tudo aGla-Thon. Lief estava muito feliz em rever Ailsa, mas o medo de perder Bardapairava sobre ele como uma nuvem, toldando todos os demais pensamentos esentimentos.Alguns dias depois, Lief encontrava-se sentado ao lado da cabeceira deBarda, dormitando, quando alguém lhe tocou o ombro de leve. Assustado, virou-sede repente e deu com dois olhos pretos como botões e uma enrugada facecinza-azulada.— Manus! — ele exclamou, erguendo-se de um salto e se abaixando paraabraçar o pequeno Ralad. — Ah, Manus! Você veio!
  58. 58. — Mas claro! — retrucou Manus. Ele se virou para o homem que seencontrava parado atrás dele, perto de Jasmine.— Nosso amigo Nanion, chefe deDOr, foi o responsável por eu chegar tão depressa. Ele sabe lidar com cavalos,habilidade que eu não domino. Para começar, os pés dele alcançam os estribos.Mas devo confessar que foi uma viagem desconfortável. Fiquei aterrorizado e tododolorido!— Seguir um bando de abelhas em terreno acidentado não é uma tarefafácil! — divertiu-se Nanion. — E esse Ralad se queixou do começo ao fim da viagem.Estou aliviado por, finalmente, ter chegado e de ter me livrado de suas queixas. —Entretanto, o olhar dele era caloroso e ficou claro que ele e Manus haviam setornado bons amigos.— Como você conseguiu um cavalo? — Jasmine perguntou. — E é dosmelhores!— Um certo comerciante conseguiu-o para mim — ele contou, dando deombros. — Eu só espero que ele tenha uma boa explicação para os donos quandoeles vierem procurar por ele.— Tenho certeza de que ele vai ter! — Perdição devolveu secamente, aocaminhar atrás deles. — Boas explicações são a especialidade de Tom. Então, elefinalmente decidiu tomar partido?— Não é bem assim — Manus respondeu. Sorrindo. — Ele advertiu Nanionde que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Acho que isso significa que nãodevemos esperar receber mais favores dele.— Mas acho que ele esqueceu que já nos foi útil uma vez. — Nanion contou.— Um pouco antes de vê-lo, ele havia passado algumas informações a dois dosmeus colegas: Guardas Cinzentos estão sendo enviados para o oeste. Espera-seum confronto.— É mesmo? — Perdição se surpreendeu. Ele puxou Nanion para o lado,deixando Manus sozinho com Barda, Lief e Jasmine.— Isso é muito triste — o homenzinho comentou, observando Bardadeitado imóvel no leito. — Não há nada a fazer?
  59. 59. — Ele não se mexeu desde o nascer do sol — contou Lief, balançando acabeça, invadido pelo sofrimento. — Acho que não vai demorar...— Então estou satisfeito por ter chegado agora — Manus disse, curvando acabeça. — Pois para mim significa muito vê-lo novamente. Ele tem um grandecoração.Manus ergueu os olhos e encontrou o olhar de Lief.— Ele não deu sua vida em vão. Jasmine me disse por que fui convocado,embora eu já adivinhasse. Vocês três conseguiram um milagre.— Parte de um milagre — Lief respondeu. — O herdeiro ainda deve serencontrado.— E não é por isso que estamos todos aqui? — Manus indagou devagar,erguendo-se. — A Lua está nascendo. Chegou o momento de as sete tribos seunirem mais uma vez, de o herdeiro ser convocado.
  60. 60. Velas tremeluzian ao redor das paredes. Rostos sérios, excitados,temerosos formavam um semi-círculo ao redor dos sete. Todos os olhos estavampousados no Cinturão, que se encontrava na sombra sobre a mesa onde Lief ocolocara.Por insistência de Jasmine, o grupo estava parado ao lado do leito deBarda.— Não importa em que mundo obscuro ele esteja vagando, ele deve estarnos ouvindo — ela disse. — E, mesmo que não possa nos ouvir, ele tem o direito deestar presente.Ninguém argumentou com ela, mas estava claro para todos que a longa lutade Barda pela vida estava quase no final. Zeean deu um passo à frente.— Eu, Zeean de Tora, estou aqui — disse ela com gravidade, pousando amão sobre a ametista.Gla-Thon foi a seguinte.— E eu, Gla-Thon, dos Gnomos do Medo — disse, a cabeça erguida,enquanto afagava a esmeralda.Lief observava, mantendo-se rígido, enquanto os demais se adiantavam,um por um.— Fardeep, de Mere. — A voz de Fardeep, normalmente intensa, estavatrêmula. Humildemente, ele tocou o lápis-lazúli.
  61. 61. — Steven, de Plains. — Steven erguia-se acima de todos os demais, oscabelos dourados brilhando, quando se curvou sobre a opala.— Manus, em nome dos Ralads. — Manus roçou os dedos delicadamenteno rubi.Glock adiantou-se com passos pesados. Sua expressão era dura eorgulhosa quando estendeu a mão enorme para o diamante.— Eu sou Glock, o últimos dos Jalis — grunhiu. E Lief prendeu a respiraçãoao ver lágrimas saltando dos olhos selvagens.E então foi a sua vez. Lief apertou a mão de Barda e aproximou-se doCinturão. Os rostos dos observadores na primeira fila flutuaram diante de seusolhos.Jasmine, solene, Filli e Kree em seu ombro. Ailsa, as patas unidas perto daboca. Nanion, chefe de DOr, ansioso. Perdição, vigilante. Dain, pálido e atento.Lief pousou a mão sobre o topázio dourado. "Por você, Barda", ele pensou."Por minha mãe e meu pai, e todos em casa."— Lief, de Del — ele disse com clareza.Ele olhou para baixo. O Cinturão estava quase coberto pelas mãos que otocavam. Sete mãos de diversas cores e formas, juntas com um só objetivo.Zeean falava novamente, proferindo as palavras acordadas.— Juntos, nós, os representantes das sete tribos, renovamos nossa antigapromessa de nos unirmos sob o poder do Cinturão de Deltora e juramos lealdade aolegítimo herdeiro de Adin.— Nós juramos — disseram os sete em uníssono.Lief sentiu em sua mão o calor do Cinturão, e um arrepio percorreu-lhe ocorpo. O topázio emitia um brilho dourado entre seus dedos. Sua mente se aclarou.O Cinturão ficou mais cada vez mais quente até que ele se viu obrigado, assimcomo os companheiros, a retirar a mão. Mas, nesse momento, ele soube.O herdeiro estava ali, naquele aposento.Ele ergueu os olhos, que percorreram o rosto das pessoas à sua frente e sefixaram numa delas. Uma cujo corpo tremia e cuja face tremeluzia sob a luz quando

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