Emily rodda deltora quest 6 - o labirinto da besta

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Emily rodda deltora quest 6 - o labirinto da besta

  1. 1. DELTORA É UMA TERRA DE MONSTROS E MAGIA...O cruel Senhor das Sombras tomou conhecimento de que Lief, Barda eJasmine estão à procura das sete pedras perdidas do mágico Cinturão de Deltora.Ele sabe que, se as pedras forem recolocadas no Cinturão, o seu poder irárepresentar uma ameaça à sua tirania.Cinco pedras já foram recuperadas. A próxima encontra-se escondida nocovil submerso do terrível e feroz Glus. Já exaustos e perseguidos pelos servos doSenhor das Sombras, os três companheiros precisarão de todas as suas forças ecoragem para enfrentar o Labirinto da Besta.SUMÁRIOO resgateUma interferência do destinoUma jornada difícilA fortalezaAmigo ou inimigo?Mudança de planosOnde as Águas se EncontramStevenAvançandoO Rainha do RioA noiteSombrasFatalidadeEncontrosGlusDescobertas Lutando pela liberdade
  2. 2. ATÉ AGORA...Lief, de 16 anos, cumprindo uma promessa feita pelo pai antes de seunascimento, saiu em uma grande busca para encontrar as sete pedras preciosasdo mágico Cinturão de Deltora. As pedras foram roubadas do Cinturão a fim depermitir que o desprezível Senhor das Sombras invadisse o reino. Escondidas emlocais assustadores em todo o reino, elas devem ser recolocadas no Cinturão paraque o herdeiro do trono possa ser encontrado e a tirania do Senhor das Sombrasseja derrotada.Os companheiros de Lief são Barda, um homem que já foi guarda dopalácio, e Jasmine, uma garota selvagem e órfã, da idade de Lief, que ambos
  3. 3. conheceram em sua primeira aventura nas temíveis Florestas do Silêncio. Em suasandanças, os três tomaram conhecimento de um movimento de resistência secretoliderado por Perdição, um misterioso homem com uma cicatriz no rosto que ossalvou quando foram capturados pelos brutais Guardas Cinzentos.Cinco pedras já foram encontradas. O topázio, símbolo da lealdade, quetem o poder de contatar o mundo espiritual e de aclarar e estimular a mente; o rubi,símbolo da felicidade, cuja cor perde a intensidade na presença de ameaças, repeleespíritos malignos e é um antídoto para venenos; a opala, pedra da esperança, queoferece vagas imagens do futuro; o lápis-lazúli, pedra celestial, que é um poderosotalismã; os poderes da esmeralda, símbolo da honra, ainda não foram descobertos.Seguindo o mapa desenhado pelo pai de Lief, os companheiros agora seencontram a caminho da costa e de sua próxima meta... O Labirinto da Besta.Rapidez e discrição são extremamente importantes, pois o Senhor das Sombras játomou conhecimento de seus feitos, e Lief descobriu que seus pais foramaprisionados.E, agora, continue a leitura...
  4. 4. Lief, Barda e Jasmine saíram da Montanha do Medo e seguiram em direçãoao Rio Tor apressados e em silêncio, satisfeitos por terem as árvores paraprotegê-los do céu aberto. Durante vários dias, eles viajaram dessa maneira,cientes de que o inimigo poderia atacar a qualquer momento. Por várias noites,dormiram em turnos, totalmente vestidos, de armas na mão.Em breve, atingiriam o rio. Eles sabiam que bastava acompanhá-lo parachegar à costa oeste de Deltora. Ali, em algum lugar, encontrava-se a próxima metamarcada no mapa — o terrível Labirinto da Besta. Ali, se o pai de Lief estivessecerto, encontrava-se também a sexta pedra do Cinturão de Deltora.Contudo, os servos do Senhor das Sombras estavam atentos, esperandoque os três amigos se revelassem. O Senhor das Sombras sabia que o topáziohavia sido retirado das Florestas do Silêncio, que o rubi não mais se encontrava noLago das Lágrimas, tampouco a opala, na Cidade dos Ratos. Talvez, naquelemomento, ele até suspeitasse que o lápis-lazúli também tivesse sido arrebatado dasmãos do terrível guardião das Dunas.Se os Gnomos do Medo tivessem sido bem-sucedidos em enganá-lo, elelevaria algum tempo para perceber que a esmeralda já seguira o mesmo destinodas outras quatro pedras preciosas. Entretanto, seus servos certamente estavampor perto naquele momento, ocultos nos contrafortes da montanha ou sobrevoandoa região à procura de Barda, Lief e Jasmine. Por isso, o Labirinto da Besta e todas
  5. 5. as estradas que levavam até ele estariam bem vigiados pelos inimigos à procura dogrupo que se encaixava na descrição que haviam recebido: um homem, um rapaz euma garota selvagem com um pássaro preto.Lief observou Kree, mais adiante, melancolicamente empoleirado noombro de Jasmine ao lado de Filli. O pobre pássaro queria esticar as asas, masseria perigoso demais que ele fosse visto no ar, pois sua presença indicava aposição deles para o inimigo. Assim sendo, ele foi obrigado a ficar perto do chão,fato que não lhe agradava nem um pouco."Nenhum de nós gosta disso", Lief pensou. Era desagradável correr comocriaturas caçadas em meio aos rumores daquela floresta ou temer a chegada danoite. Mas não havia nada que se pudesse fazer.Lief teve um sobressalto quando Jasmine se virou bruscamente, sacando aadaga do cinto. Kree voejou no ar, gritando. O rapaz entreviu um par de olhosnegros e brilhantes e um focinho pontudo entre os arbustos. Em seguida, ouviu-seo ruído de minúsculas patas em fuga e Jasmine tornou a guardar a arma,resmungando, aborrecida.— Agora estou com medo de minha própria sombra e enfrentando atémesmo ratos silvestres — resmungou ela, enquanto estendia o braço para Kree econtinuava a caminhar pela trilha acidentada. — Não consigo me livrar da sensaçãode que estamos sendo observados.— Essa mesma sensação tem me acompanhado há dias — Bardarespondeu, fitando-a. — A floresta parece estar cheia de olhos.Lief permaneceu em silêncio. Ele estava totalmente consciente do Cinturãoque lhe envolvia a cintura e sentiu que quem os vigiava também estava ciente desua existência, embora se encontrasse oculto sob a camisa e apertado sob ocasaco abotoado até o pescoço. Ele estava muito mais pesado do que quando ocolocara pela primeira vez, ainda vazio, em Del. Parecia que o poder e a mágica daspedras preciosas que agora preenchiam cinco de seus medalhões o pressionavampara baixo.De repente, ouviu-se um leve grito agudo e um espadanar em algum lugar
  6. 6. adiante. Os companheiros ficaram paralisados. O chapinhar ficou mais ruidoso edesesperado. A uma palavra de Jasmine, Kree bateu asas e voou na direção doruído.— Marie! Marie! — gritou uma voz esganiçada. — Ah, Marie!— O que foi isso? — sussurrou Lief. — Barda, depressa! Parece que...— Precisamos ter cuidado — Barda aconselhou. — Pode ser um truque.Espere...Mas Kree já retornava, gritando, apressado.— Alguém caiu na água! — exclamou Jasmine. — Alguém está seafogando!Eles começaram a correr, os pés martelando na trilha estreita, o som da vozdesesperada ficando mais alto e esganiçado a cada momento, o espadanardiminuindo cada vez mais.Os amigos dispararam por entre as últimas árvores até um amplo banco defina areia branca. O rio se estendia cintilante diante deles, fundo e de águas rápidas.Uma garotinha de uns 6 anos de idade estava sendo arrastada pelas águas, naparte rasa do rio, e se agarrara a um galho de árvore. Era ela quem gritava,estendendo inutilmente a mão para outra criança que se debatia num ponto maisprofundo ao lado de uma balsa virada.Em segundos, Lief e Barda livraram-se das botas e espadas e atiraram-sena água.— Pegue a mais próxima da borda — gritou Barda sobre o ombro, enquantodava braçadas na direção da balsa. — Depressa, Lief, ou a perderemos. Acorrenteza é muito rápida.Lief movimentou-se com dificuldade até onde a criança se encontrava econseguiu apanhá-la antes que fosse arrastada para longe. A menina agarrou-se aele freneticamente quando Lief a ergueu nos braços. O corpo dela estava gelado. Aágua batia no peito de Lief enquanto lutava para voltar à margem.— Marie! — soluçava a garota, tremendo e se esforçando para olhar paraonde estava a balsa virada. — Eu caí na água. Ela tentou me ajudar e, então, caiu
  7. 7. também. Eu consegui me segurar no galho, mas ela... Oh, onde está ela? Ondeestá Marie?Lief olhou ao redor e sentiu o desânimo tomar conta dele. Barda já seencontrava perto da balsa, mas no local em que Marie se encontrava havia somenteum redemoinho.Barda respirou fundo e mergulhou. Momentos depois, ressurgiu,carregando um corpo inerte e pálido. Nadou de volta à margem com um dos braços,enquanto puxava a criança com o outro.— Ela morreu! — gritou a outra criança.— Não. Ela não ficou submersa por muito tempo. Ela vai ficar bem —garantiu Lief, aparentando mais confiança do que realmente sentia. Ele avançou nadireção da praia, sentindo aliviado que a água ficava cada vez mais rasa à medidaque subia até a margem onde Jasmine esperava com um cobertor.— Eu cuido dela. Ajude Barda! — Jasmine ordenou bruscamente,envolvendo a menininha com o cobertor.— Meu nome é Jasmine — Lief ouviu-a dizer quando correu para ondeBarda nadava e carregava a criança imóvel e encharcada. — Estes são Filli e Kree.Como você se chama?— Ida — disse a menina. — Eu me chamo Ida. Por favor, vamos sair deperto do rio. Não quero mais olhar para ele. Marie morreu afogada!Lief mergulhou outra vez na água e ajudou Barda a levar a criançainconsciente até a margem. Como Ida, ela estava gelada até os ossos. Eles adeitaram no chão com suavidade. Ao ver-lhe o rosto, Lief abafou um grito desurpresa. Cabelos castanhos lisos, pele macia e dourada, rosto em forma decoração, cílios negros, longos e curvos — era uma cópia fiel de Ida, até mesmo nopequeno sinal marrom na bochecha esquerda e no vestido branco simples. Elaseram gêmeas idênticas.O que duas meninas tão pequenas estariam fazendo no meio da matasozinhas? Onde estavam seus pais?Barda virou Marie de lado e inclinou-se sobre ela, a expressão séria.
  8. 8. — Ela está morta? — sussurrou Lief. De algum modo, o pensamento eraainda mais terrível agora que sabia que as meninas eram gêmeas. Era assustadorpensar que uma delas ficaria sozinha. Ele ergueu os olhos e viu, com alívio, queJasmine levava a soluçante Ida para longe da margem do rio, na direção dasárvores.E então, quando Jasmine deu um passo para o lado para que a menininhapassasse à frente na trilha, Lief percebeu um leve movimento na vegetação rasteirapróxima. Antes que pudesse se mover ou gritar, ele ouviu um som metálico e umaflecha cruzou o ar.A arma atingiu Ida nas costas. Ela se encolheu e caiu para a frente sememitir um grito sequer. Lief saltou na direção do atacante com um brado deindignação. Sua espada encontrava-se fora de alcance, mas ele não deu atençãoao fato. Ele estava zangado e chocado o bastante para lutar de mãos vazias.Lief arrancou os arbustos que serviram de esconderijo e atirou-se sobre orapaz de cabelos escuros que ali se encontrava agachado. Com um golpe,arrancou-lhe a arma mortal da mão e derrubou-o no chão. O assassino caiupesadamente, batendo o rosto no chão e ali permaneceu, os braços encolhidos sobo corpo, gemendo de dor. Lief correu para apanhar a espada. Seus ouvidospareciam rugir, pois havia ódio em seu coração quando ele se virou.Gemendo, o garoto virou-se de costas. Ele tentou se erguer, mas caiunovamente, o rosto crispado, segurando o braço.— Você não percebeu... elas são Ols! Ols! — ele gritou.Então, Lief ouviu o grito gorgolejante de Barda e o brado de Jasmine eergueu os olhos.O corpo de Ida tinha desaparecido. E Marie, a pequena Marie, erguia-se naareia, arrastando Barda pelo pescoço, os dedos brancos enterrados profundamenteem sua carne. Os lábios dela estavam arreganhados e seu corpo começou aborbulhar, a esticar e a crescer até se transformar numa imensa sombra brancaondulante com um sinal escuro no centro e uma enorme cabeça em ponta, como aassustadora chama de uma vela. Os olhos do monstro estavam vermelhos como
  9. 9. fogo e a boca era um buraco negro destituído de dentes, mas ele riu como umacriança quando Barda cambaleou para trás e caiu no chão.Abafando um grito, aterrorizados, jasmine e Lief se adiantaramdesferindo golpes, tentando atingir o monstro e afastá-lo de Barda, porém amassa fria e oscilante se encolhia e recuperava a forma. O monstro vacilava,mas não libertava sua presa.— O coração! — avisou o garoto ferido. -Atinjam o coração! Matem-no sempiedade ou ele vai matar seu amigo!— Já o ferimos no coração — devolveu Jasmine. — Ele não cai. Rosnando,o monstro virou-se para ela. Com um grito, Jasmine foi violentamente atirada para olado pela imensa criatura branca.— Agora, Lief! Atinja-o no lado direito! — gritou o menino. — O coraçãodele fica do lado direito!Lief enterrou a espada no corpo do monstro com todas as forças. A criaturaestremeceu e caiu por terra, uma massa disforme e retorcida com membros, caras,garras e orelhas que se arqueava terrivelmente aqui e ali. Horrorizado diante da
  10. 10. cena repugnante, Lief reconheceu o rosto de Marie, o focinho pontiagudo de umrato silvestre, a asa de um pássaro... E, no final, restou somente uma massa brancae borbulhante, que era tragada pela areia diante de seus olhos.Barda estava caído no chão, tremendo e tossindo, a respiração irritando-lhea garganta. As marcas vermelho-escuras deixadas pelos dedos da criatura em seupescoço estavam ficando arroxeadas. Mas ele estava vivo.— Ele teve sorte. Mais um minuto e teria sido tarde demais. Lief virou-se eviu que o garoto que atacara tinha conseguido erguer-se e fora para o seu lado. Eleouviu Jasmine exclamar e fitou-o. Ela olhava o rapaz perplexa.— É você! — disse ela. — O garoto que serviu as bebidas nos Jogos deRithmere. Você faz parte do bando de Perdição. Você é Dain!O garoto assentiu com um gesto rápido, aproximou-se de Barda mancandoe examinou-o.— Seu amigo precisa ficar aquecido — aconselhou. — Ele está molhado eos ataques de um Ol deixam a pessoa enregelada até os ossos.Ele se afastou e devagar dirigiu-se para as árvores.Lief apressou-se em acender uma fogueira e aquecer água para um cháenquanto Jasmine correu a buscar mais cobertores. Quando Dain voltou arrastandouma pequena mochila, o braço ferido apoiado numa tipóia rústica, Barda já seencontrava envolto nas cobertas, sentado perto de um fogo crepitante. O fortetremor havia acalmado e a cor retornava ao seu rosto.— Obrigado — disse ele a Dain, com voz rouca. — Se não fosse por você...— Ele estremeceu e levou a mão à garganta.— Não tente falar — aconselhou Dain. E então se voltou para Lief e lheestendeu um jarro com a mão sã. — Uma bebida quente adoçada com isto iráajudá-lo. Ele fortalece e alivia a dor. É muito poderoso e uma colher das de sopadeve ser suficiente.O jarro exibia um pequeno rótulo escrito à mão.MEL ASAS RADIANTES
  11. 11. Lief abriu a tampa e cheirou o seu conteúdo dourado, assimilando o docearoma de flor de maçã. — Asas Radiantes — murmurou ele, fitando Dain. — Asiniciais são interessantes, mas o nome em si é comum. Na verdade, tão comum queacho que é falso.— Tão falso quanto os nomes que vocês deram nos Jogos de Rithmere,Lief — respondeu o garoto sem titubear. — Estes são tempos difíceis. Vocês nãosão os únicos que precisam ser cuidadosos.Lief assentiu, dando-se conta de que ele os ouvira usar os próprios nomesantes do ataque dos Ols. Tinha sido um azar, mas nada havia a fazer.Ele apanhou uma caneca de chá e derramou um pouco de mel na infusãoquente e ofereceu-a a Barda, que envolveu a caneca com ambas as mãos e sorveuo líquido, agradecido.— O que são esses Ols? — indagou Jasmine, ao passar uma caneca dechá para Dain.— Seres mutantes vindos das Terras das Sombras — esclareceu Dain,dissolvendo uma colher de mel na sua bebida. — O Senhor das Sombras os usapara realizar esse trabalho maligno. Talvez eu não devesse me surpreender porvocês nunca terem ouvido falar deles. Eles são mais comuns aqui, no Oeste, do queno Leste, de onde vocês vieram.Ele fez uma pausa e observou-os calado. Barda, Lief e Jasminepermaneceram impassíveis. Estaria Dain pensando que eles cairiam numaarmadilha tão óbvia?Dain soltou uma gargalhada e inclinou-se para desenhar na areia.
  12. 12. A marca da Resistência. Os companheiros a observaram em silêncio edepois se entreolharam.— Estamos do mesmo lado, não é? — indagou Dain com franqueza,inclinando-se para a frente, repentinamente deixando de lado a atitude decamaradagem. — Que importância tem que eu saiba onde vocês moram? Perdiçãodiz que...— Como você veio parar aqui? — interrompeu Jasmine, ríspida.— Como nos encontrou?Dain recuou, e sua expressão ficou séria mais uma vez.— Eu não estava procurando vocês. Estava voltando para a nossa fortaleza,no Oeste, quando vi os Ols. Eu os conheço muito bem. Os Ols de Grau Um sãoimaturos e não conseguem manter a mesma forma durante muito tempo. É fácilreconhecê-los quando se sabe o que procurar. Eu os segui, esperando umaoportunidade para destruí-los. E então, de repente, vocês apareceram, e os Olsficaram muito interessados.Dain fez uma pausa.— Eles vinham seguindo vocês há dias — acrescentou com frieza.— Assumiram a forma de ratos silvestres e vigiaram todos os seusmovimentos, ouviram o que diziam a fim de decidir como iriam agir. No final,escolheram apelar para a sua compaixão. Depois de separá-los, poderiam atacar.E vocês não teriam nenhuma chance.Lief, Jasmine e Barda se entreolharam embaraçados.— Nós lhe agradecemos por nos ajudar — disse Barda por fim, meio semjeito. — Peço que nos perdoe por nossas suspeitas e reservas. Aprendemos a ser
  13. 13. cautelosos.— Assim como eu — retrucou Dain, ainda com voz áspera —, embora, porum momento, tenha baixado a guarda pelo prazer de ver rostos conhecidos.De repente, Lief se deu conta de que o garoto era mais velho do queimaginara — tinha pelo menos a sua idade. O corpo franzino, o rosto magro e amaciez dos cabelos escuros que lhe caíam descuidadamente sobre a testa ohaviam enganado.Dain tomou o último gole de chá e se ergueu desajeitado, protegendo obraço ferido.— Vou deixá-los em paz. Fiquem atentos aos Ols. Os de Grau Um, como osque acabam de derrotar, sempre viajam aos pares. Os outros, bem... vocêsprovavelmente não vão reconhecê-los. É melhor não confiarem em ninguém.Ele ajeitou a mochila nas costas e virou-se para partir.— Espere! — chamou Lief num impulso, erguendo-se de um salto.— Você não pode viajar sozinho! Seu braço está ferido. Não vai conseguirusar o arco, nem mesmo a adaga.— Vou ficar bem — assegurou Dain. — Não tenho de ir muito longe.— Espere uma noite e nós o escoltaremos — ofereceu Barda, a voz rouca,a mão na garganta. — É o mínimo que podemos fazer.Lief viu Jasmine enrijecer. Ficou claro que ela não aprovava o plano. Derepente, ele se deu conta de que ela não queria rever Perdição, pois desconfiavadele. Mas ela nada disse, e Dain pareceu não lhe notar a expressão.Ele hesitou. Era óbvio que seu orgulho, que o instava a deixá-los, lutavacontra o bom senso, que lhe dizia que seria loucura viajar desprotegido.— Muito bem — concordou ele, afinal, deixando cair a mochila.— Agradeço. Vou esperar, e então iremos juntos até a fortaleza. — Ele fezuma pausa e mordeu o lábio. — Fica a Sudoeste, fora do caminho de vocês.— Como sabe disso? Não lhe dissemos para onde vamos — disparouJasmine com rispidez.— Pensei que talvez vocês estivessem viajando para... para Tora —
  14. 14. balbuciou Dain, o rosto delicado enrubescido.Jasmine olhou-o fixamente. O nome nada significava para ela. Lief, porém,forçava a memória.Tora! A grande cidade-irmã de Del, no Oeste. Ele aprendera sobre ela, mashá tanto tempo não ouvia esse nome que tinha se esquecido de sua existência.Dain, inclinando-se para a frente, aguardava uma resposta ansioso.— É isso mesmo — respondeu Barda devagar. — Bem, se estamos indopara Tora, não nos fará mal chegar lá um dia ou dois depois do planejado.— Vou procurar um lugar seguro para acamparmos nesta noite — disseJasmine, erguendo-se. E desapareceu por entre as árvores, caminhando a passosduros, com Kree voando à sua frente. Dain seguiu-a com os olhos, e Lief percebeuuma centelha de admiração em seu olhar.Lief sentiu uma perturbadora ponta de ciúmes, mordeu o lábio e virou orosto. "Se ao menos não o tivesse machucado", pensou, "Dain poderia seguir seucaminho e nós, o nosso."Imediatamente, sentiu-se envergonhado e tentou convencer-se de que sóestava aborrecido porque a ida à fortaleza da Resistência demandaria um tempoprecioso. Cada dia de atraso representava mais um dia em que seus pais corriamperigo, talvez sujeitos a sofrimentos, nas masmorras do Senhor das Sombras, emDel.Contudo, para ser honesto, tinha de admitir que não queria Dain comocompanheiro, mesmo que por pouco tempo.Dain o deixava pouco à vontade. Seus modos gentis e educados eramcativantes, sua calma tranqüilidade o fascinava e, apesar de não ser muito forte, eleagira com bravura ao salvá-los dos Ols. Contudo, apesar da aparente indiferença,Lief podia perceber que Dain ocultava algo. Algum segredo que não dividia comninguém."Não é de surpreender que ele sinta o mesmo em relação a nós", refletiaLief. "E ele tem razão, é claro. Ou seja, não confiamos um no outro. Essa é a raiz doproblema. Enquanto estivermos com Dain, não poderemos discutir nossa busca ou
  15. 15. falar sobre o Cinturão. Não poderemos falar sobre meus pais ou comentar em vozalta como estão passando. Não podemos ficar à vontade."Inquieto, não querendo mais ficar perto do fogo com Dain e Barda, Lief foiajudar Jasmine. Mas, ao caminhar para as árvores, outra idéia lhe ocorreu.O destino já lhes pregara estranhas peças no passado e, de um jeito ou deoutro, o resultado sempre tinha sido positivo para eles. Haveria alguma razão paraque se vissem obrigados a manter Dain em sua companhia? Estaria escrito, dealguma forma, que eles deveriam conhecê-lo? Estaria escrito que eles deveriam ir àfortaleza da Resistência? Reencontrar Perdição?Somente o tempo poderia dizer.
  16. 16. Depois de instalados sob a árvore frondosa que Jasmine encontrara, Dainlhes contou mais sobre os Ols. Ao ouvir-lhe a voz suave e tranqüila, Lief começou asentir que, se tinha havido um motivo especial para encontrá-lo, aquelasinformações por si só representavam um bom motivo.— Eles estão em toda parte — disse Dain, aconchegando-se melhor sob ocobertor. — Eles podem assumir a forma de qualquer ser vivo. Não comem, nãobebem, mas os de Grau Dois podem fingir que o fazem, já que conseguem criarcalor corporal a fim de disfarçar quem são. Em seu estado natural, todos os Olspossuem a marca do Senhor das Sombras em seu cerne e, seja qual for a formaque assumam, a marca estará em alguma parte de seu corpo, de algum jeito.— As gêmeas, os Ols que matamos, tinham um sinal no rosto — Lieflembrou. — Era isso?— Mas não pense que será sempre tão fácil — advertiu Dain, assentindo.— Ols do Grau Dois são muito mais experientes. Eles nunca terão o sinal assimvisível.— Então, você está dizendo que reconhecer um Ol de Grau Dois ésimplesmente uma questão de sorte? — Barda ajuntou preocupado.— Há uma forma de testá-los — disse Dain, sorrindo levemente. — Elesnão conseguem manter a mesma forma por mais do que três dias. Se você observar
  17. 17. um Ol de Grau Dois e nunca o perder de vista, haverá um momento em que eleperderá o controle e a sua forma começará a mudar e a oscilar. Nós chamamosesse momento de Tremor. Ele não dura muito e em segundos o Ol recupera ocontrole. Mas, a essa altura, você já saberá quem ele é.Dain demonstrava sinais de cansaço e abraçava o peito com o braço sãocomo se a dor o estivesse perturbando.— Há pessoas em Deltora que não precisam esperar pelo Tremor. Elasdesenvolveram um instinto, uma percepção que adivinha a presença de um Ol. Pelomenos, é o que Perdição diz. Quando ele sente a presença de um Ol, não esperapara atacar. E ele acerta sempre.— Dificilmente poderemos seguir o exemplo dele — Barda murmurou. —Matar com base em mera suspeita é um negócio arriscado.Dain assentiu e desta vez o seu sorriso foi mais largo e franco.— Concordo. Para gente como nós, a suspeita deve ser um sinal paracorrer e não para atacar.— Correr? — Jasmine retrucou furiosa.Dain corou diante do desdém da voz de Jasmine e seu sorriso esmoreceu.— Vejo que a idéia a desagrada, Jasmine. Você e Perdição pensam damesma forma, mas certamente é melhor correr do que matar uma pessoa inocente.— Ou, se as suspeitas se confirmarem — Barda acrescentou —, serespionado pelo Ol à vontade, ou ser morto quando menos espera. Depois queaqueles dedos gelados apertam a sua garganta, você fica impotente. Pode acreditarno que eu digo, Jasmine. — Ele tocou de leve a garganta ferida.Jasmine ergueu o queixo obstinadamente e voltou-se para Dain.— Você falou dos Ols de Grau Um e de Grau Dois. Existem outros?— Perdição diz que há outros... — Dain respondeu com relutância, depoisde um momento de hesitação. — Ele diz que há Ols de GrauTrês. Ele diz também que eles são poucos, mas que neles o Senhor dasSombras aperfeiçoou a arte da maldade. Eles podem mudar para qualquer formaque desejaram, seja de ser vivo ou inanimado. Eles são tão perfeitos, tão bem
  18. 18. controlados que ninguém é capaz de dizer quem realmente são. Nem mesmoPerdição.— Então, como ele sabe que existem? — replicou Jasmine.Lief observou fascinado quando uma expressão de desânimo invadiu orosto de Dain e este mordeu o lábio. O que o estaria perturbando?— E então? — insistiu Jasmine, ao também perceber-lhe a hesitação.— Perdição diz que... ele diz que tomou conhecimento deles nas Terras dasSombras — balbuciou o rapaz.Lief sentiu-se paralisar. Foi como se as peças de um quebra-cabeça seencaixassem em seus devidos lugares. De repente, ele estava vendo um túmuloperto de um riacho coberto pela vegetação. No instante seguinte, estava de volta àcaverna na Montanha do Medo, lendo as palavras rabiscadas com sangue.— Dain, você acredita em Perdição quando ele diz que esteve nas Terrasdas Sombras? — indagou Lief.— Acreditar como? — respondeu o rapaz, o olhar confuso. — Ninguémescapa das Terras das Sombras. E, no entanto, Perdição nunca mente. Nunca!— Ele mente sobre seu nome! — revelou Jasmine.— O que você quer dizer? — Dain estava muito pálido. Ele parecia exaustoe seu rosto estava coberto de suor e exibia uma expressão sombria. Ele oscilou.Lief segurou-o antes que caísse. Barda encontrou o jarro de mel, empurrouuma colher de seu conteúdo entre os lábios fechados de Dain e rapidamente a corvoltou ao rosto do rapaz. Lief deitou-o gentilmente no chão e cobriu-o com ocobertor.— Não se preocupe, Dain. Qualquer que seja o verdadeiro nome dePerdição, ele não mentiu para você. Ele esteve nas Terras das Sombras e, dealgum modo, escapou. Talvez você não acredite. Mas eu, sim.Ele percebeu um movimento nas pálpebras de Dain. O rapaz abriu oslábios como se tentasse falar.— Voltaremos a falar desse assunto com o próprio Perdição — sussurrouLief. — Por ora, tente descansar. Amanhã, você vai precisar de todas as suas
  19. 19. forças.Dois dias longos e difíceis se seguiram — dias em que o respeito de Lief porDain aumentou. A queda que o rapaz sofrerá não só lhe deslocara o braço comotambém lhe quebrara várias costelas. No segundo dia, eles escalaram colinascobertas de rochas. Cada passo dado deve ter causado a Dain muita dor, mas elenão se queixou. Somente o olhar revelava seu sofrimento.Já não se podia ver o rio. A Montanha do Medo erguia-se escura e proibitivano horizonte distante. Por duas vezes, ao olhar para trás, Lief viu a figura de umimenso e grotesco Ak-Baba circundando a montanha, procurando vestígios dosviajantes abaixo.De muitas maneiras, aquele era um bom sinal, pois significava que oSenhor das Sombras, apesar de todo o seu poder, não percebera que oscompanheiros haviam recuperado a pedra da Montanha. Contudo, a presença doAk-Baba, mesmo à distância, tornou mais premente a necessidade de viajarem emsegredo. À medida que o terreno se tornava mais acidentado e as árvoresfrondosas davam lugar a arbustos esparsos e enormes matacães, eles se viramobrigados a andar curvados, às vezes avançando com dificuldade em fila única.Dain não proferia uma palavra há muitas horas e parecia usar toda a suaenergia somente para caminhar. "Como ele teria se saído sozinho?", pensou Lief aoobservar as costas curvadas do garoto à sua frente e ao ouvir-lhe a respiraçãoofegante enquanto avançava com dificuldade.— Acho que Dain precisa de um descanso — disse ele em voz baixa.Barda e Jasmine pararam de imediato, mas Dain virou-se um pouco esacudiu a cabeça.— Precisamos chegar a um lugar seguro. Então, poderemos descansar.Não estamos longe... — o rapaz insistiu, arfando, pressionando as costelas com obraço não machucado. — Fica bem ali acima... numa fenda do rochedo. Então... hátrês arbustos alinhados e... a entrada de uma caverna fechada por uma pedra. Háuma senha...A voz dele enfraqueceu. E, então, sem qualquer aviso, ele caiu
  20. 20. pesadamente ao chão.Os três amigos curvaram-se sobre o rapaz e chamaram-no pelo nome, masele não despertou. Até mesmo o resto do mel não o reanimou.O sol se punha no horizonte e começava a escurecer.— Precisamos levá-lo a um abrigo — Lief disse. — Outra noite ao relento...— Ele disse que a fortaleza estava próxima — murmurou Barda. — Voucarregá-lo o resto do caminho. — Ele ergueu o garoto inconsciente com delicadezae eles continuaram a escalada.Não demorou para que encontrassem uma profunda fenda na rocha,semelhante a uma estreita passagem. O grupo arrastou-se por ela com dificuldadee, logo adiante, conforme Dain informara, avistaram três arbustos alinhados queapontavam um matacão recostado à rocha. Este parecia bastante natural, como setivesse caído ali por acaso, mas eles perceberam que a grande pedra disfarçava aentrada da fortaleza.— Está bem escondida — disse Barda. — Se não soubéssemos ondeprocurar, teríamos passado direto. — Ele se aproximou da grande rocha eexaminou-a, procurando meios de movê-la para o lado.— É estranho que não haja nenhum vigia — murmurou Jasmine, olhandoao redor com a mão na adaga. — Eles com certeza estão aguardando o retorno deDain. Como ele iria entrar?Lief também olhou à sua volta e viu uma tira de papel jogada sob o últimodos arbustos, presa a um galho, certamente trazida pelo vento. Ele a apanhou e aexaminou.ATIREM NOS INIMIGOS LOGO— Alguém foi descuidado — disse ele contrariado, mostrando o bilhete aos
  21. 21. amigos.— Parece que eles estão esperando problemas — Barda conjeturou.— Ou estão esperando por nós — ajuntou Jasmine. — Temos somente apalavra de Dain de que isto é a fortaleza da Resistência. Pode ser uma armadilha.— Logo saberemos.Lief apanhou um galho firme, dirigiu-se ao matacão, bateu nele com força,ao mesmo tempo em que chamava:— Olá! Somos amigos e queremos entrar.Nenhum ruído se ouviu atrás da rocha, mas Lief teve a forte sensação deque havia alguém do outro lado. Ele bateu novamente.— Perdição, escute! Nós somos os viajantes que você salvou dos GuardasCinzentos perto de Rithmere. Dain está conosco. Ele está ferido e precisa de ajuda.— Qual é a senha de hoje? — indagou uma voz profunda e abafada.Surpreso, Lief recuou. Era como se a própria rocha tivesse falado, mas então elepercebeu que o som tinha vindo por uma pequena fresta à direita do matacão.Como os gnomos da Montanha do Medo, a Resistência tinha vigias em suasparedes.— Quero falar com Perdição! — gritou.— Perdição não está aqui — a voz respondeu. — Qual é a senha?Responda ou morre.
  22. 22. Barda aproximou-se mais da pedra.— Você está louco? — gritou ele — Não somos inimigos! Somosconhecidos de Perdição. E, se você pudesse nos ver, saberia que seu amigo estáconosco.— Nós podemos ver vocês, acredite — respondeu a voz atrás da rocha. —Há uma dezena de armas apontadas para vocês neste momento. Não se mexam.Perplexos, os companheiros olharam ao redor e não conseguiram verninguém. Jasmine deu um passo para trás. Uma bola de fogo espatifou-se no chãoao lado dela, cobrindo-a de faíscas que ela apagou freneticamente.— Eu lhes disse para não se mexerem! — a voz repetiu. — Assumam orisco, se o fizerem.— Chame Neridah e Glock! — gritou Jasmine, a voz assustada. — Sei queeles estão com vocês. Perdição os salvou dos Guardas Cinzentos, assim como nossalvou. Eles vão nos reconhecer.Ouviu-se o som de uma gargalhada profunda.— Pode ser, não duvido. Mas por aqui não confiamos somente nasaparências. É por esse motivo que usamos uma senha. Vocês a têm, ou não?— Claro! -respondeu Lief.— Lief! -sussurrou Jasmine.— Se eu dissesse que não, eles nos matariam — Lief devolveu no mesmo
  23. 23. tom. — Eles acreditariam que somos Ols.— Assim que descobrirem que estamos mentindo, vão nos matar dequalquer jeito. — Jasmine fechou os punhos com força, frustrada e zangada. — Issoé loucura!— Dain mencionou uma senha — Lief começou desesperado. — Mas elenão poderia saber a senha do dia, já que esteve fora por tanto tempo. Ele deve terplanejado descobri-la quando chegasse aqui. E, se ele tinha condições de fazer isso,nós também temos. Deve haver um código, um sinal...— Onde? — indagou Jasmine.— Talvez eles levem uma lista consigo em que há uma palavra marcadapara cada dia — opinou Barda.— Isso certamente seria muito perigoso, mas... — Ele jogou a mochila deDain ao chão e rapidamente começou a examiná-la. Contudo, como imaginara, nãoencontrou nada escrito — apenas suprimentos de viagem, algumas mudas deroupa e o jarro vazio de mel.Asas Radiantes.Ele apanhou o jarro e olhou-o fixamente. De repente, uma idéia formou-seem sua mente. Remexeu o bolso à procura do bilhete que encontrara preso aoarbusto.— Estou ficando cansado desse jogo. Você tem dez segundos pararesponder! — gritou a voz por detrás da rocha. — Um, dois...— Espere! — gritou Lief. Seus dedos se fecharam sobre o bilhete. Ele otirou do bolso e o releu rapidamente, esperando, apesar das probabilidades emcontrário, que estivesse certo. As palavras escritas dançavam-lhe diante dos olhos.ATIREM NOS INIMIGOS LOGOSim! O que vira ali não podia ser apenas sorte. Era isso mesmo. Com todaa certeza. Ele respirou fundo e deixou cair o papel.— A senha é... "anil" — gritou.— Lief, como pode saber disso? — sussurrou Barda. — O que...Ele parou de falar quando, lentamente, o matacão que ocultava a entrada
  24. 24. da fortaleza começou a ser rolado para o lado e um facho de luz escapou pela frestada caverna do outro lado.À entrada, estava um homenzinho magro que vestia uma estranha coleçãode vestimentas de todas as cores do arco-íris. Sob o gorro de lã listrado, o cabelogrisalho trançado com penas pendia até a cintura.Lief sentiu Barda sobressaltar-se, mas não havia tempo para perguntar-lheo que estava acontecendo, pois o homenzinho sorria, exibindo dois ou três dentestortos e uma ampla gengiva cor-de-rosa.— Você não teve a menor pressa! — disparou com uma voz profunda epoderosa que em nada combinava com a sua aparência. — Você se divertebrincando com a morte? Faltou muito pouco para que eu desse a ordem paradisparar.O homenzinho espiou a figura desfalecida nos braços de Barda.— Então o garotinho se meteu numa aventura e se saiu mal! Ora, ora, quemdiria? Justo ele, sempre tão cuidadoso consigo mesmo!Como os companheiros hesitavam, ele acenou impaciente.— Bem, não fiquem parados aí! — exclamou. — Vocês estão deixando ofrio entrar. — E voltando-se para a caverna — Thalgus! Petronne! Está tudo bem.Deixem as armas e desçam. Venham cuidar de Dain. Ele foi carregado nos braçoscomo um bebê, o pobrezinho.Lief e Jasmine passaram pela entrada estreita, seguidos mais lentamentepor Barda. Quando este ficou sob o foco de luz, o homenzinho olhou seu rosto esoltou uma ruidosa gargalhada.— Barda! — rugiu ele. — Barda, o urso! Quem imaginaria isso? Depois detodos esses anos. Quem diria! Pensei que você tivesse morrido! Não se lembra demim?— Claro que me lembro, Jinks — Barda afirmou, sorrindo meio sem jeito.— Mas este é o último lugar em que eu esperaria encontrá-lo.Ele parou de falar quando um homem malvestido e uma mulher igualmenteandrajosa, Thalgus e Petronne, provavelmente, saltaram para o chão de algum
  25. 25. ponto acima da soleira da porta. Barda permitiu que eles lhe tomassem Dain dosbraços e então virou-se para Lief e Jasmine.— Jinks era um dos acrobatas do palácio de Del — ele exclamou, a vozinexpressiva. — Ele me conhecia bem, quando fui um dos guardas do palácio.— Um guarda do palácio? Que é isso! O mais forte e corajoso de todos,essa é a verdade! — Jinks tagarelava, seguindo Petronne e Thalgus enquantolevavam Dain para uma caverna maior de onde vinha o murmurar de várias vozes.— Mas, Barda, ouvi dizer que todos os guardas foram mortos no dia da chegada doSenhor das Sombras. Como você escapou à matança?— Por sorte, saí do palácio antes de ela começar — Barda murmurou. — Evocê?— Os invasores não deram atenção aos palhaços e acrobatas —esclareceu o homenzinho, franzindo o nariz. — Para eles, não éramos maisimportantes do que cachorrinhos. Eles nos deixaram partir à vontade. Pulamos osmuros enquanto eles derramavam o sangue dos nobres, assassinavam os guardasdo palácio e punham tudo abaixo ao procurar nossos corajosos rei e rainha, queestavam escondidos em algum lugar, tremendo em suas botas de ouro.Ele sorriu novamente e, desta vez, o sorriso tinha um toque de malícia.— Pois, então, você conseguiu escapar bem a tempo de se salvar! Barda, oUrso! — grunhiu o homenzinho. — Muito esperto! Os seus colegas foram mortosdefendendo o palácio, mas você, não! Deve estar muito orgulhoso de si mesmo.Lief olhou rapidamente para Barda e notou que o rosto dele exibia umadura expressão de sofrimento.— Barda não sabia o que estava acontecendo naquele dia! — exclamouzangado. — Ele deixou o palácio na noite anterior porque sua mãe tinha sidoassassinada e ele temia ser o próximo.— Não faz mal, Lief — murmurou Barda. Ele se virou para Jinks, e Liefpercebeu que ele estava se controlando para falar com educação.— Você me faria um grande favor se não voltasse a falar de meu passado aninguém mais, Jinks. Prefiro manter isso em segredo.
  26. 26. — Ora, mas claro, Barda! — o homenzinho garantiu, os olhos arregalados.— Entendo a sua posição, o que não acontece com o seu jovem amigo. Estes sãotempos difíceis e nem todos podem ser heróis. Ora, eu mesmo sou o maior covardedo mundo! — Eles chegaram à entrada da caverna maior e Jinks se afastou,gesticulando graciosamente para que entrassem. E, quando Barda passou por ele,acrescentou: — Veja bem, eu não finjo ser o que não sou.A caverna ampla era iluminada por tochas bruxuleantes e encontrava-setomada por grupos de homens, mulheres e crianças de diferentes idades. A comidajá cozinhava em diferentes fogueiras e colchões de palha forravam as paredes.— Por que deixou que ele o chamasse de covarde? — Jasmine sussurroupara Barda, ainda zangada, ignorando os rostos que se voltavam para observar osrecém-chegados. — Pois isso é o que ele está fazendo!— Sei muito bem o que ele está fazendo — retrucou Barda sombrio,fixando o olhar à frente. — Conheço Jinks há muito tempo. Ele era um ótimoacrobata, mas nunca vi um sujeito mais fofoqueiro, invejoso, maldoso e criador decasos do que ele. De fato, encontrá-lo aqui não foi nada bom. Por mais que tenhaprometido, amanhã todos aqui saberão tudo a meu respeito.— Dain já sabe o seu nome — lembrou Lief.— O nome não é tão importante. Os outros detalhes...Barda se interrompeu quando Jinks se aproximou deles apressado,batendo palmas para chamar a atenção de todos na caverna.— Aqui estão alguns amigos que vieram se juntar a nós — anunciou. —Eles trouxeram o pobre Dain para casa. Parece que ele decidiu se aventurar por aí edeu um passo maior do que a perna.Jinks riu em silêncio, olhando rapidamente para a figura pálida de Dain, quetinha sido colocado sobre um colchão de palha em um canto e, finalmente,começava a se mexer. Várias outras pessoas riram em resposta, e Lief sentiu-seinvadir pela irritação. Ele abriu a boca para falar, mas Jasmine foi mais rápida.— Dain nos salvou de dois Ols — informou em voz alta. — Ele foi muitocorajoso.
  27. 27. — É mesmo? — gritou uma voz em meio à multidão. — Quem é você parafalar de coragem, Birdie de Bushtown?E, do meio da multidão, surgiu a figura afetada e enorme de Glock.Glock estava ali, alternando sorrisos desdenhosos e olhares enfurecidospara Jasmine, os braços fortes pendendo livres ao lado do corpo, os olhospequenos brilhando. Todos os músculos do corpo poderoso indicavam que eleestava procurando briga.— Olá, Glock — cumprimentou a moça com calma. — Na última vez em quenos vimos, você estava sendo carregado para fora da arena de Rithmere,profundamente adormecido. Foi uma pena você não ter ficado acordado para afinal.Várias pessoas riram. Era evidente que tinham ouvido a história. O rostorude de Glock adquiriu uma expressão sombria e pareceu inchar. Ele rugiuperigosamente e seus dedos estalaram.Com o canto dos olhos, Lief percebeu que Jinks assistia à cena com umaexpressão de perverso interesse. Então Jinks era do tipo que adorava colocar lenhana fogueira e depois se afastar e observar os resultados! Um homem perigoso... tão
  28. 28. perigoso quanto Glock, à sua maneira.Nesse momento, ouviram-se golpes vindos do lado de fora da caverna.Foram três pancadas leves seguidas de três batidas rápidas. Por um momento,Jinks pareceu desapontado, mas então se virou e correu para a entrada, seguido deperto por Petronne e Thalgus.— Qual é a senha? — eles o ouviram perguntar.— Anil! — foi a resposta. A voz soou abafada, mas Lief acreditou tê-lareconhecido. Perdição tinha retornado.Glock, porém, não deu atenção ao que ocorria. Seu interesse ainda estavavoltado para Jasmine.— Eu teria sido o campeão, coisinha insignificante! — ele rosnou. — Setivéssemos lutado, a sua dança e os seus saltos não teriam me enganado. Eu teriatransformado você numa massa disforme com uma das mãos amarrada às costas.— Felizmente, a sua ganância garantiu que você não tivesse a chance detentar — retrucou ela, fitando-o com repugnância.Glock rugiu e tentou agarrá-la. Jasmine saltou para o lado, sorrindo comdesprezo quando ele cambaleou, as mãos enormes apanhando nada além de ar.— Já chega!Perdição encontrava-se parado, carrancudo, na entrada. Seu rosto estavamarcado pela exaustão, a barba e os longos cabelos pretos emaranhados estavamcobertos de poeira, e a cicatriz irregular parecia descorada em contraste com a peleprofundamente bronzeada.— Não deve haver lutas neste lugar! — vociferou. — Glock, você já foiavisado. Mais uma explosão de raiva e será expulso da fortaleza. E então não terámais a nossa proteção quando os Guardas Cinzentos procurarem você.Glock se afastou, resmungando e lançando olhares perversos por cima doombro. Ninguém emitiu um som sequer, mas Lief viu uma mulher alta cobrir a bocacom a mão para ocultar um sorriso. A mulher era Neridah. Ela flagrou o olhar de Liefe o sorriso dela se tornou mais amplo e irritante. Lief desviou o olhar e enrubesceuao lembrar a vergonha que ela o tinha feito passar na arena de Rithmere.
  29. 29. O olhar zangado de Perdição agora estava fixo em Jasmine.— E você... — ele ajuntou com frieza — se souber o que é bom para você,vai controlar essa língua afiada.No silêncio que se seguiu, ele se virou bruscamente e foi até o colchão emque Dain descansava. O garoto já tinha conseguido se sentar.— Então, finalmente você voltou. Nós o esperávamos há dias. Por ondeandou?— Eu vi um par de Ols, Perdição — balbuciou Dain, o rosto muito vermelho.— Apenas de Grau Um. Eu os segui...— Sozinho! — disparou Perdição. — Você os seguiu sozinho! Saiu de seucaminho, desobedeceu ordens e não chegou aqui quando era esperado.Dain baixou a cabeça, mas Perdição não tinha terminado.— E me disseram... — ele olhou para Jinks, que tentava, sem sucesso,parecer inocente. — Me disseram que você decidiu colocar todas as nossas vidasem perigo ao contar a esses desconhecidos que ainda não foram testados osegredo da senha.Ouviu-se um burburinho zangado na caverna. Finalmente, Dain conseguiufalar.— Na verdade... na verdade eu não disse nada, Perdição -garantiu o rapaz.— E como eles conseguiram entrar? — a voz de Perdição era gelada. —Você, suponho, nem mesmo viu o bilhete de hoje. No entanto, eles conseguiram dara senha.— Não foi difícil descobrir — interrompeu Lief, aproximando-se depressa.— O bilhete dizia: ATIREM NOS INIMIGOS LOGO. As primeiras letras dessaspalavras formam a senha ANIL.Quando Perdição o fitou, ele deu de ombros e decidiu deixar a cautela delado, pois não se deixaria intimidar como Dain.— É claro que tive uma pista para desvendar o código — ele contou em vozalta. — Eu já tinha visto o rótulo do jarro de mel de Dain. Asas Radiantes". — Ali,também, as iniciais são usadas para disfarçar a verdade. Por que vocês têm medo
  30. 30. que todos saibam que usam o mel da Abelha Rainha?Outro murmúrio se ouviu na multidão. Perdição gritou uma ordem eimediatamente Lief, Barda e Jasmine foram agarrados por trás por vários pares demãos fortes. Eles lutaram inutilmente.— O que vocês estão fazendo? — Lief disparou. — A minha foi umapergunta inocente. Eu só estava interessado.— Então deveria ter ficado de boca fechada — devolveu Perdição, os olhosfrios como gelo. — Você tropeçou num segredo que juramos proteger. Efetuarqualquer comércio com a Resistência é proibido, e o mel Abelha Rainha é aindamais raro e valioso do que a cidra da mesma marca. Seus poderes curativos sãofantásticos. Aquela senhora tem muito a perder por nos fornecer o seu produto. Elaarrisca não apenas a própria vida como a de seus filhos.Agora era a vez de Lief olhar intrigado. A idéia de que a mulher impetuosaque encontraram após a fuga da Cidade dos Ratos era mãe parecia muito estranha.— Para nós, não significa nada se a Abelha Rainha fornece mel para vocês— grunhiu Barda. — Para quem contaríamos?— Ao seu Mestre, talvez — Jinks se intrometeu, os olhinhos brilhando deexcitamento. — Foi assim que conseguiu escapar do palácio, corajoso guardaBarda? Você se vendeu ao Senhor das Sombras naquela época?Barda lançou-se para a frente furioso, mas as mãos que o prendiampuxaram-no de volta.— Cale-se, Jinks! — ordenou Perdição. Ele fitou Barda, por um momento,pensativo.— Então... você era guarda do palácio. O seu verdadeiro nome é Barda. Eonde ficou escondido todos esses anos, Barda... antes de começar a viajar pelopaís com seus jovens companheiros?— Isso é problema meu — respondeu Barda, encontrando o olhar dointerlocutor. — Prefiro guardar esse assunto para mim. Assim como, imagino, vocêdecidiu guardar para si por onde andou naqueles primeiros anos.— O seu paradeiro... e o seu verdadeiro nome — Jasmine acrescentou.
  31. 31. Perdição olhou para ela rapidamente. Apertando os lábios, ele voltou aencarar Barda.— Você esteve em Tora? — indagou com aspereza.Ao ouvir a pergunta, Dain, que havia estado encolhido no colchão, com acabeça baixa, ergueu os olhos ansioso.— Tora? — repetiu Barda, o olhar inescrutável. — Por que todos vocêsparecem tão fascinados com Tora? Não, nunca estive lá em toda a minha vida.— Levem-nos para a sala de teste — Perdição ordenou, virando-sebruscamente. — Volto a falar com eles quando os três dias tiverem passado.— Deixe-nos partir! — gritou Jasmine, enquanto eram arrastados para asala de teste. — Não há motivo para nos prender! Você sabe que não somos Ols.Você sabe!— Veremos — respondeu Perdição, o queixo erguido.Os três amigos passaram três dias exaustivos trancados na pequenacaverna fortemente iluminada que Perdição chamava de "sala de teste". Havia umajanela com barras na pesada porta de madeira e sempre havia um rosto espiandoatravés dela, observando todos os seus movimentos.Os seus pertences encontravam-se com eles. Nem mesmo as armas lhestinham sido tiradas. Bandejas de comida eram empurradas por baixo da porta eeles dispunham de bastante água. Mas não havia privacidade, escuridão ou paz.No terceiro dia, até Barda estava entrando em desespero. Jasmine havia seencolhido sobre um catre, as mãos cobrindo o rosto. Kree pousara em um canto dacela, as asas caídas. Lief andava pelo aposento agoniado e impaciente, sentindo otempo passar.Ele amaldiçoou o dia em que haviam encontrado Dain e, então, lembrouque, se não fosse por ele, todos os três estariam mortos. Ele amaldiçoou a suspeitade Perdição e, então, lembrou-se da própria perplexidade quando a doce Marie setransformou num monstro assassino.Contudo, Dain não dissera que Perdição podia pressentir a presença de umOl? Nesse caso, ele sabia muito bem que ele, Barda e Jasmine eram o que
  32. 32. pareciam ser. Por que motivo, então, os mantinha ali?Ele quer nos manter junto dele. O teste de três dias é um pretexto, algo queos outros na caverna irão aceitar e compreender. Ele quer saber quais são asnossas intenções. Ele espera que ao final desse período contemos a ele.A idéia surgiu nítida na mente de Lief. Ele sabia que era a verdade."Bem, você está enganado, Perdição, ou seja lá qual for seu nome", pensouLief irritado. "Nunca lhe contaremos sobre a nossa causa. E isso porque ainda nãosabemos se você é amigo ou inimigo."Os três companheiros perderam a noção do tempo. Eles não sabiam se eradia ou noite, mas, na verdade, exatamente setenta e duas horas e cinco minutosdepois que entraram na caverna, eles ouviram um assobio vindo da abertura naporta.Espiando pelas barras encontrava-se Dain, não mais curvado de dor, masereto e com o braço livre da tipóia. A expressão de seu rosto era séria edeterminada, embora Lief percebesse um tremor nos dedos do garoto apoiados najanela.— Três dias se passaram — sussurrou, quando os três amigos se reuniramjunto da porta. — Vocês não precisam mais ser vigiados. Mas Perdição ainda adia asua libertação. Não sei por que e acho que isso não está certo. Vou levá-los parafora daqui. Mas somente se prometerem que me levarão com vocês. Para Tora.
  33. 33. É possível que Dain tivesse sentido medo, ou até culpa e vergonha, delibertar Lief, Barda e jasmine da cela e levá-los em silêncio pela passagem escura.Ele pode ter ficado assustado enquanto avançavam para o interior de outro túnel epassavam por uma pequena porta que se abria para o mundo exterior. Mas, mesmoassim, ele foi em frente. Quando, finalmente, se encontraram ao ar livre, sob asestrelas que cintilavam como jóias espalhadas sobre o veludo escuro do céu, eledeixou escapar um suspiro de alívio.— Agora estamos seguros — sussurrou. — Todos estão comendo ebebendo. Ninguém irá visitar a sala de teste antes da hora de dormir. Até lá,estaremos longe.Eles não perderam tempo com palavras e juntos começaram a avançar comdificuldade sobre as rochas, deslizando e escorregando sobre pedras soltas,segurando-se em arbustos firmes para evitar uma queda.O grupo parou para descansar e conversar somente quando se encontravaa grande distância da fortaleza, ao atingir uma superfície plana outra vez.— Tora fica a vários dias de viagem daqui, seguindo rio abaixo — Dainsussurrou. — Teremos de ser muito cuidadosos, pois bandidos e piratas rondam orio Tor e um grande número de Ols patrulha a área.— Por quê? sussurrou Lief em resposta. — O que há de tão especial emTora? E por que você quer ir até lá?
  34. 34. Dain olhou-o fixamente. Diferentes emoções pareciam suceder-se em seurosto: surpresa, perplexidade, incredulidade e, finalmente, raiva. Devagar, ele seergueu.— Você sabe muito bem por quê — retrucou, olhando Lief de cima a baixo.— Será que ainda não confia em mim? — disse ele e sacudiu a cabeçaviolentamente de um lado para outro. — Eu traí meus companheiros por vocês. Eutraí Perdição, que tem sido como um pai para mim. Isso não é o bastante paraprovar...— Calma, garoto — Barda murmurou. — Não é uma questão de confiança.Sabemos muito pouco sobre Tora.— E eu não sei nada — Jasmine ajuntou. — Nunca ouvi falar dela até vocêpronunciar esse nome quando nos conhecemos.— Mas eu pensei... — Dain respirou fundo e apertou as mãos até que osnós dos seus dedos ficaram brancos. — Vocês me enganaram. Vocês me disseramque estavam indo...— Não dissemos nada — tornou Barda com firmeza. — Você sugeriu queTora era o nosso destino. Nós apenas não corrigimos o seu erro.Dain gemeu e enterrou o rosto nas mãos. Estava escuro, e o rapazmoveu-se levemente, mas Lief imaginou ter visto um brilho de lágrimas nos olhosescuros. Ele sentiu uma ponta de culpa e apoiou a mão no ombro de Dain, numgesto de conforto.— Nós vamos até a costa, acompanhando o rio. Se Tora estiver junto àmargem ou nas proximidades, podemos levá-lo até lá, se é isso que você quer.Com o rosto ainda escondido nas mãos, Dain balançou a cabeça devagarde um lado a outro.— Quando ouvi falar de vocês pela primeira vez: um homem, um rapaz euma garota com um pássaro preto que desfaziam o mal do Senhor das Sombraspor onde passavam, comecei a pensar que seriam a resposta — disse ele, a vozgrave e abafada. — E, quando os meses passaram e Perdição nos contou quevocês estavam se dirigindo para o Oeste, eu tive certeza.
  35. 35. Dain sufocou um soluço.— E então conheci vocês. Pensei que tivesse sido o destino. Mas tudo nãopassou de um engano. Outro engano. Ah, não faço nada certo. O que vou fazer?— Acho que é melhor você nos contar o que o preocupa — disse Jasmine,sem rodeios. — De nada adianta chorar e se lamentar.Dain olhou para ela. A calma de Jasmine ajudou Dain a se recompor comonenhum tipo de solidariedade o teria feito, e ele secou as lágrimas dos olhos comas costas da mão.— Eu preciso ir a Tora, mas não posso lhes contar os motivos. Perdição meproibiu de ir. Primeiro, quando ele me encontrou, deixado para morrer depois quebandidos incendiaram a fazenda de meus pais, ele disse que eu precisavarecuperar minhas forças. Em seguida, disse que eu precisava de mais treinamentopara viajar em segurança, embora eu já soubesse usar o arco e flecha. Mais tarde,ele afirmou que precisava de minha ajuda por mais algum tempo, e não pude dizernão. E, por fim, quando fiquei impaciente, ele disse que Tora ficara perigosa demaispara mim ou qualquer pessoa de nosso grupo e que deveríamos esperar atéficarmos mais fortes.Ele fez uma pausa e sacudiu a cabeça, como que para aclarar as idéias.— Ele disse que visitá-la significaria captura na certa, o que colocaria toda aResistência em risco. Ele disse que Tora está repleta de Guardas Cinzentos,tomada por espiões, porque...Sua voz desvaneceu e ele engoliu em seco.— Porque Tora sempre foi extremamente leal à família real — completouBarda de repente. — Mas é claro!Os seus olhos estavam atentos e mostravam entusiasmo. Lentamente, aslembranças vieram à tona na mente de Lief. Ele se lembrou do pai, batendo o ferrovermelho e incandescente, falando sobre Tora, a grande cidade do Oeste. Ele tinhadito que ela era um lugar de beleza, cultura e poderosa magia, muito longe doalvoroço de Del e seu palácio, mas totalmente leal à coroa. Lief lembrou-se do paidescrevendo um quadro que vira na biblioteca do palácio, muito tempo atrás.
  36. 36. Era o quadro de uma grande multidão de pessoas. Todas eram altas emagras, com rostos compridos e delicados, sobrancelhas arqueadas e cabelospretos e brilhantes. Elas usavam túnicas de várias cores cujas mangas largastocavam o chão. As mãos estavam postas sobre seus corações.Todos estavam voltados para uma grande rocha de cujo topo saltavamchamas verdes para o céu. Ao lado da rocha, com a cabeça curvada comhumildade, encontrava-se um homem alto usando roupas rústicas de trabalho e oCinturão de Deltora. Uma linda mulher de cabelos negros estava a seu lado, a mãopousada no braço dele.— Adin amava uma mulher de Tora e era correspondido — Lief contoudevagar. — Quando foi proclamado rei, ela o acompanhou a Del a fim de reinar aseu lado. No dia da partida, os toranos juraram lealdade a Adin e a todos os seussucessores. Outras tribos haviam feito o mesmo, mas os toranos, que formavam amaior de todas, gravaram o juramento na rocha incandescente que se encontravano centro da cidade e lançaram sobre ela um feitiço que nunca poderia serquebrado.Ele encontrou o olhar de Barda e Jasmine e o mesmo pensamentopercorreu a mente dos três. Que lugar mais perfeito do que Tora para esconder oherdeiro do trono?— É uma longa jornada de Del a Tora — Barda disse em voz alta,escolhendo as palavras com cuidado para não revelar seu significado a Dain. —Uma jornada perigosa. Mas, uma vez lá...Sim, o olhar de Lief respondeu em silêncio. Uma vez lá, o rei Endon poderiater certeza de encontrar ajuda. Os toranos teriam feito e arriscado qualquer coisapara manter o rei, a rainha Sharn e o bebê em segurança. E eles dispunham demagia suficiente para fazê-lo, quaisquer que fossem as ameaças do Senhor dasSombras ou a destruição que ele causasse.— Então, vocês sabem algo sobre Tora, afinal — Dain exclamou, o rosto seiluminando.— Não sabemos como está hoje — tornou Lief devagar. — Conheço
  37. 37. apenas histórias antigas. Nenhuma informação sobre o Oeste chegou a Del desdeantes do meu nascimento.— E talvez muito antes disso — Barda acrescentou. Ele encontrou o olharansioso de Dain. — Acho que, talvez, não sejam apenas os perigos que existem emTora que façam Perdição proibi-la para o seu pessoal. Ele despreza quaisquerlembranças sobre a família real, não é mesmo?— É verdade — admitiu Dain, mostrando desânimo. — E Perdição tambémnão quer recorrer à magia de Tora. Ele diz que já dependemos dela no passadopara nos salvar e que ela falhou conosco. Ele diz que precisamos aprender a andarcom os próprios pés e a combater o Senhor das Sombras com astúcia, força earmas. Mas eu...— Você sabe que isso não é o bastante — interrompeu Lief. — E você estácerto, Dain. O poder do inimigo foi conquistado com feitiçaria. A força comum,mesmo que usada com determinação, pode desfazer parte de seus atos malignos,mas não derrotá-lo para sempre.Jasmine, que estivera ouvindo, olhando de um interlocutor a outro, decidiuexternar a sua opinião.— A força normal pode não derrotar o Senhor das Sombras, mas o sensocomum nos diz como devemos proceder daqui em diante. É evidente que estamosprestes a entrar num território que o inimigo vigia atentamente. Haverá muitos olhosprocurando o grupo de que ouviram falar: um homem, um rapaz... e uma garotaselvagem com um pássaro preto.As últimas palavras foram acompanhadas de um sorriso amargo.Lief tentou interromper, mas ela ergueu a mão para impedi-lo.— Se quisermos passar desapercebidos, precisamos nos separar — elaconcluiu. — Como somos Kree e eu que tornamos o grupo facilmente reconhecível,somos nós que devemos seguir outro caminho.Ela apanhou a mochila e Kree voou e se empoleirou em seu braço. Filliguinchava assustado.— Jasmine, não! — exclamou Lief.
  38. 38. — Não nos deixe! — gritou Dain ao mesmo tempo.— Estou certa, não é mesmo? — Jasmine indagou, voltando-se para Barda.— Diga a eles!O homenzarrão hesitou, mas a expressão mortificada indicava que oraciocínio dela era bem fundado.— Então, está combinado — ela assentiu, bruscamente. — Se tudo dercerto, nos encontraremos na costa, na foz do rio.Com essas palavras, Jasmine ergueu a mão num gesto de despedida ecaminhou depressa para a escuridão. Com um grito, Lief começou a segui-la, masela não respondeu e ele não conseguiu alcançá-la. Momentos depois, ela nãopassava de uma sombra oscilante entre as árvores e, em seguida, desapareceu.
  39. 39. Barda, Lief e Dain acompanhavam o rio, esgueirando-se entre as árvoresque ladeavam as margens.Muitos dias haviam se passado desde que Jasmine os deixara e, emboraLief procurasse sinais dela constantemente, até aquele momento nada encontrara.Era estranho e monótono viajar sem ela, sem o chiar agradável de Filli ao fundo e osgritos de Kree sobre suas cabeças. Dain, embora sempre fosse digno de confiançaem momentos de perigo, não era capaz de substituí-la.Lief também ficou assustado ao perceber o quanto ele próprio e Bardahaviam ficado dependentes dos ouvidos e olhos atentos de Jasmine paraadverti-los dos perigos que se aproximavam. Pois perigo era o que não faltava. Porduas vezes, os companheiros foram obrigados a lutar por suas vidas contrabandidos que os surpreenderam ao saltar das árvores sobre eles. Quatro vezeseles se esconderam bem a tempo quando barcos de piratas passaram navegando orio — embarcações de madeira, grandes e velhas, carregadas de todo tipo dequinquilharia, algumas delas com velas feitas de tiras de tecido toscamentecosturadas umas às outras.Os rufiões que içavam as velas, que se encontravam deitados dormindonas pranchas rústicas ou que manejavam os grandes remos eram tãomal-ajambrados quanto o material usado para construir a embarcação. Haviatripulantes de todos os tamanhos, cores e formas, mas todos exibiam uma
  40. 40. expressão selvagem e faminta. Suas roupas estavam esfarrapadas e sujas, oscabelos desgrenhados; mas as facas, espadas e machadinhas que pendiam deseus cintos brilhavam e cintilavam ao sol.Um vulto solitário oscilava no topo de cada mastro, preso a ele com cordasou tiras de couro. Daquele ponto privilegiado, olhos atentos, protegidos do sol pelamão estendida, por um chapéu ou galho de árvore, vigiavam as margens do rio e aágua adiante.Eles procuravam por uma presa, viajantes que pudessem matar e roubar,vilas desprotegidas e outros barcos para saquear.Aqui, longe das montanhas e dos córregos que o alimentavam, o riodiminuíra o ritmo e se tornara estreito e sinuoso. Suas águas estavam escuras,oleosas e manchadas por uma espuma de aspecto desagradável. O cheiro demorte e decadência pairava sobre ele como uma névoa. Toras quebradas e emdecomposição, roupas esfarrapadas e lixo moviam-se na correnteza.E não eram somente esses objetos que flutuavam na água: vez ou outra,corpos passavam mal tocando a superfície, a água ao redor deles movendo-se eborbulhando horrivelmente, enquanto criaturas do rio se debatiam,banqueteando-se, invisíveis.E Ols? Quem saberia dizer quais dessas criaturas ou bandidos eram Ols?Uma noite, quando Lief, Barda e Dain pararam para descansar, doismagníficos pássaros aquáticos, brancos como o lírio, vagueavam entre os juncos,próximos à margem, curvando os pescoços graciosos como que pedindo para seralimentados. Mas eles ignoraram os restos que Lief lhes atirou. Eles apenasolharam. E Lief só se deu conta do que eram quando se afastaram batendo as asase ele viu o sinal negro que cada um tinha do lado.Ols à espreita. Mas um homem e dois rapazes não lhes interessavam. Elesprosseguiram na busca do homem, do rapaz e da garota acompanhada do pássaropreto que tinham sido enviados para encontrar e destruir.Lief recostou-se, o estômago revirado, olhando fixamente a Lua cintilante.Mais três dias e ela estaria cheia; mesmo agora, já estava grande e brilhante,
  41. 41. iluminando a escuridão. Todos os arbustos pareciam brilhar, todas as árvorespodiam ser vistas. Não havia lugar para se esconder.Jasmine estava certa. Era a sua presença e a de Kree que fazia com que ogrupo chamasse a atenção. Mas, se os Ols a encontrassem sozinha, acompanhadado pássaro, eles não a atacariam? Era ela que se encontrava em verdadeiro perigoagora.Lief rezou para que ela estivesse em segurança. Ele jurou que, se todossobrevivessem a esse teste, o grupo nunca mais se separaria. Era bom serprudente, mas havia outras coisas mais importantes.Na manhã seguinte, eles chegaram a uma ponte que se estendia sobreoutro afluente do rio Tor. Tratava-se de uma estrutura alta e arqueada de modo apermitir a passagem de barcos e, embora se encontrasse em mau estado, pareciasegura o bastante para ser atravessada. Do outro lado, havia uma pequena vilaaparentemente deserta aninhada na curva formada pelos dois rios.— Acho que esse é o rio Largo — disse Dain, observando a água quepassava lentamente quando eles cruzaram a ponte. — Vocês devem ter visto partedele quando foram para Rithmere.— Ah, sim — Barda concordou com um sorriso triste. — E também osentimos na pele, mais do que desejávamos. Então é aqui que ele termina.Eles chegaram ao final da ponte e avançaram para a vila que, segundopodiam ver agora, fora assolada por um terrível desastre. Muitas casas haviam sidoincendiadas, janelas quebradas e entulho e cacos de vidro forravam as ruasestreitas.— Piratas — murmurou Dain.Mais adiante, havia um poste fincado no chão. Quando o grupo seaproximou, viu que dele pendera uma placa que no momento se encontrava nochão, as bordas quebradas e as letras sujas de lama.
  42. 42. ONDE AS ÁGUAS SE ENCONTRAMBem-vindos, viajantes!— Ouvi Perdição falar deste lugar — contou Dain. — Ele disse que o seupovo era corajoso e tinha bom coração. Ele queria que se juntassem a nós para ficarem segurança. Mas eles se recusaram a abandonar a vila aos piratas e afirmaramque a defenderiam até a morte.— E parece que foi o que aconteceu. — A voz de Barda soou rouca eirada.Quando Lief se afastava dali, notou alguns restos de fios de lã caídos nochão junto da borda da placa. Ele se agachou para apanhá-los, mas retirou a mãoimediatamente ao perceber que tinham sido arranjados de modo a formar umdesenho.— Barda! Jasmine esteve aqui! — exclamou ele entusiasmado. — E talvezainda esteja. Essa é uma mensagem para nós, uma mensagem que ninguém maisiria notar. Vê? Ela formou a primeira letra de seu nome e a figura de um pássaro. Osoutros sinais devem indicar o seu esconderijo.Barda analisou os desenhos no chão.— O círculo pode representar parte de um edifício. Mas o que seria onúmero 3?
  43. 43. — O número em uma porta, talvez.Lief ergueu-se e olhou ao redor tomado por uma nova energia.Seguidos de perto por Dain, eles começaram a explorar a vila. Era umatarefa deprimente, e o entusiasmo de Lief desapareceu rapidamente. Era evidenteque Onde as Águas se Encontram tinha sido uma pequena vila agitada e próspera.Agora, por toda parte havia sinais de violência e derramamento de sangue. Ataverna, o centro de reuniões, todas as casas e lojas haviam sido saqueados. Tudoo que era de valor tinha sido levado.Alguns dos invasores haviam triunfalmente rabiscado os seus nomes nasparedes das salas de visita, dos quartos e corredores. "Nak" era um nome que serepetia várias vezes, duas das quais escrito aparentemente com sangue. Mas haviaoutros nomes, também. "Finn" era um deles; "Milne", outro.Lief observou os rabiscos com ódio. Nak, Finn e Milne eram nomes de quese lembraria. "Vocês não são Ols ou Guardas Cinzentos, servos do Senhor dasSombras, criados para o mal", pensou. "Vocês são livres para escolher o que fazer.E vocês escolheram afligir o seu próprio povo, decidiram roubar, destruir e matar.Espero encontrá-los algum dia e, então, vou fazê-los pagar."Os companheiros concluíram a busca com o coração apertado. Havia umpátio circular e alguns caixilhos redondos de janelas, mas nenhum número enenhum sinal de Jasmine.Lief parou do lado de fora da última casa em cuja porta havia uma Lua novaesculpida.— Luas são círculos, quando cheias — ele disse a Barda. — Será queJasmine quis dizer...E então ele parou de falar, pois finalmente se deu conta do verdadeirosignificado do recado de Jasmine. Ele sacudiu a cabeça aborrecido com sua falta deesperteza. — Desperdiçamos o nosso tempo — ele avisou.— Jasmine se foi há muito tempo. Os sinais não mostram em que parte davila ela se encontra, mas quando ela esteve aqui. O círculo é a Lua cheia. Ele éseguido por um sinal de menos e pelo número três. Ela esteve aqui ontem, três dias
  44. 44. antes da Lua cheia!— Mas, claro! — Barda soltou um profundo suspiro. — Então...De repente, ele ficou atento, cobriu os lábios com um dedo e escutou. Lief oimitou e o que ouviram foi totalmente inesperado.Era o ruído de vários sininhos que soavam cada vez mais alto. E, aindamais atordoante, o canto feliz e animado que o acompanhava.Era uma vez um Ol-io,Feliz e contente Ol-io,Era uma vez um Ol-io,Mais terrível não podia haver!Eu disse para esse Ol-io,Feliz e contente Ol-io,Eu disse para esse Ol-io,Que ele não me faz tremer!
  45. 45. Um carroção mambembe puxado por um cavalo velho e gordo vinharodando ao longo da trilha que acompanhava o Rio Largo, em direção à vila.Primeiro, Lief imaginou ter visto dois vultos sentados no banco do condutor.Contudo, à medida que o veículo se aproximava, ele percebeu que se enganara.havia somente uma pessoa — um homenzarrão loiro e de pele bronzeada quecantava aquela música um tanto surpreendente com toda força de seus pulmões.Impulsivamente, Lief começou a caminhar até ele.— Espere! — ordenou Barda. — Aparência e palavras podem enganar. Liefassentiu e permaneceu onde estava. Mas, ao ouvir a voz vacilar quando o carroçãoavançou para a placa caída da vila e ao ver a tristeza no rosto largo, ele nãoesperou mais.A expressão do homem denotou o seu espanto ao ver os três emergiremdas sombras.— Ah! Isso não é nada bom — disse ele. Saltou do veículo, olhou ao redor,observando a desolação. — Mas não estou surpreso. Temos vindo para cá há muitotempo, todos os anos, em nossas rondas, e a cada vez receava encontrar umasituação dessas.— Eu os avisei — continuou consternado. — Desistam, amigos. Partam. Avida é preciosa! Mas eles eram corajosos demais. E tolos...O homem esfregou os olhos com a mão enorme.
  46. 46. — Você falou de rondas. Que rondas são essas? — indagou Barda aindadesconfiado.— Ora, sou um mascate, senhor — ele retrucou com cortesia. — Eu vendo,compro e troco. Steven B é o meu nome. — E com um gesto mostrou as letrasesmaecidas gravadas no carroção.S & NBArtigos FinosCompra e VendaPara surpresa de Lief, houve um movimento atrás dele e Dain deu umpasso à frente.— Olá, Steven. Não se lembra de mim?— O jovem Dain! — a expressão do velho se desanuviou e ele exibiu umsorriso. — Eu o vi, mas não tinha certeza se você queria ser reconhecido nacompanhia deles.— Eles são amigos — afirmou Dain. — Estão me ajudando a ir até Tora,Steven. Finalmente estou indo para lá.— Isso é má notícia — comentou Steven. — Por que não fica onde estáseguro? Esta parte do país não é gentil com os viajantes.— E mesmo assim você viaja todos os dias — Lief ressaltou.— Eu? — disse o homem, dando de ombros, como se essa fosse umaquestão totalmente diferente. — Ah, sim. Mas eu tenho proteção.
  47. 47. Lief olhou-o atentamente. O homem estava desarmado e pareciatotalmente só, com exceção do velho cavalo. Ele era grande, é verdade, mas o seurosto afável e franco não parecia o rosto de um lutador. Muito pelo contrário.— O irmão de Steven, Nevets, sempre viaja com ele — Dain ajuntoudepressa e, Lief adivinhou, para adverti-lo.— Você gostaria de conhecer Nevets? — Steven indagou, inclinando acabeça para o lado.— Oh, não. Nem por sonho queremos incomodá-lo — exclamou Dain,antes que Lief e Barda pudessem dizer alguma coisa. — Mas, antes que vocêspartam, meus amigos e eu gostaríamos de comprar alguns artigos para a nossaviagem.— Ora, é um prazer servir vocês. — O homem caminhou até o fundo dacarroça e abriu as portas. O espaço estava arranjado como se fosse uma pequenaloja, atulhado de roupas e utilidades domésticas."Ao que parece, o irmão não está escondido aqui", pensou Lief. "E o quevamos comprar? Pois, é evidente, ele espera que compremos alguma coisa."Ele observou Dain adquirir uma pequena panela de que não precisava. Eentão Steven virou-se para Lief.— E o senhor, o que quer ver?Lief estendeu uma moeda e apontou uma cesta que continha váriospacotinhos semelhantes a balas de caramelo. Steven mostrou surpresa, masaceitou a moeda e entregou-lhe dois pacotes.Na vez de Barda e para a surpresa de Lief, o amigo apontou para um cintode tecido bordado com folhas douradas e marrons.— Se estiver de acordo com minhas posses, gostaria de levar isso —pediu.— Ótima escolha — elogiou Steven, removendo o cinto do gancho em queestava pendurado.— Para você, amigo de Dain, somente três moedas de prata. — Ele mediu acintura de Barda com os olhos. — Talvez fique um pouco apertado... —
  48. 48. acrescentou.— Não é para mim — informou Barda, contando o dinheiro. — É umpresente.Steven assentiu e passou-lhe o cinto.— Bem, a nossa viagem até que rendeu alguma coisa e isso é muito bom.Mas esse lugar me deixa triste e isso não é nada bom. Nós já vamos embora.Quando deu as costas para fechar as portas do veículo, começou amurmurar consigo mesmo. "Uma figura estranha", Lief pensou. "E um pouco louca,pois esse irmão de quem ele fala parece existir somente em sua imaginação. TalvezNevets tenha morrido e o fato tenha deixado Steven fora de si."O homenzarrão terminou de trancar as portas e foi até a dianteira docarroção. Ao colocar o pé no degrau para subir ao lugar do condutor, ele se voltoupara Dain.— Desista dessa idéia de ir a Tora, pelo menos por enquanto, Dain, e venhaconosco — convidou ele, estendendo a mão com simpatia. — Há espaço no bancopara você. Logo vamos nos encontrar com alguns de seus amigos para fazer umaentrega. Você pode voltar à fortaleza com eles.— Agradeço a sua oferta com toda a sinceridade, Steven, mas não possoaceitar.Steven pareceu triste, mas ergueu os ombros e terminou de se ajeitar.Quando se sentou com segurança no lugar do condutor, inclinou-se e pareceuprocurar algo sob o banco. Ouviu-se um tilintar e, finalmente, ele apanhou umapequena jarra e passou-a a Dain.— Com os meus cumprimentos — ele disse. — Espero que o ajude em suajornada.Enquanto Dain balbuciava um agradecimento, Lief olhou com curiosidadepara a jarra. Com susrpresa, ele viu o conhecido rótulo "Asas Radiantes".Steven observou o gesto e colocou um dedo sobre os lábios fechados.— Nem uma palavra — pediu. Ele estalou a língua para o cavalo; a carroçaarrastou-se para a frente e lentamente deu meia-volta.
  49. 49. Barda, Lief e Dain ergueram as mãos em despedida. Steven sorriu, acenoue sacudiu os arreios tilintantes, e o carroção afastou-se rangendo.— Ele vende mel Abelha Rainha? — Lief murmurou. — Mas pensei queestava em falta.— Ele o vende somente para a Resistência — informou Dain, observando ajarra. — E cobra apenas uma fração do que ele vale. Você não entende? Ele não éum mascate comum. Ele é o próprio filho da Abelha Rainha.Lief respirou fundo.— Mas que conversa é essa sobre ter um irmão? — Barda quis saber. —Ele estava sozinho!— Steven nunca está só — Dain afirmou, a expressão sombria. — Nevetsestá sempre com ele. Mas Nevets não é um homem que você gostaria de conhecer.Eu o vi somente uma vez e não quero vê-lo de novo.Barda e Lief o fitaram intrigados e Dain virou-se para observar o carroção.— Nevets aparece somente quando Steven ou alguém próximo dele éameaçado. Na maior parte do tempo, ele fica do lado de dentro.— Não havia ninguém do lado de dentro — retrucou Barda, impaciente. —Na carroça, havia apenas mercadorias para vender.— Não me refiro ao interior da carroça, mas sim do próprio Steven.Lief sentiu os cabelos da nuca arrepiarem. Espiou a trilha e constatou quea carroça já se ocultava atrás de uma fina nuvem de poeira. Mas o tilintar dos sinosnos arreios do cavalo chegavam até eles. E, acima do ruído dos sinos, ouvia-se osom da canção.Ol-io roncador.Ol-io feliz e contente,Ol-io roncador,Você não me faz tremer!Desta vez, contudo, Lief podia jurar que, em vez de uma voz, havia duas.
  50. 50. Assim que o carroção desapareceu de vista, os companheiros voltaram ascostas para as tristes ruínas de onde as águas se encontram e se puseram acaminho até a margem do Rio Tor. Ali chegaram a um pequeno píer de madeira quese estendia alguns metros acima da água. Num poste, estava fixada uma placa demetal.O Rainha do Rio— Deve haver um barco de passageiros que percorre esta parte do rio. Elecertamente desce o rio Largo e leva viajantes e mercadorias a Tora — exclamouLief. — É por isso que a ponte é tão alta.Dain fez um gesto preocupado com a cabeça e fitou a placa comdesconfiança.— Seria muito bom ir de barco em vez de andar, para variar... além de maisrápido — disse Lief. — Devemos esperar?
  51. 51. — Acho que não — Barda opinou pesaroso. — Pelo que sabemos, o barcopassa apenas uma vez por semana. Talvez nem navegue mais. Essa placa não énova e, de qualquer forma, decidimos ficar longe dos olhares curiosos.Lief concordou com relutância e eles continuaram seu caminho.Depois do encontro dos dois rios, o Tor ficou mais largo, fundo e menossinuoso. Além disso, suas águas pareciam mais limpas e o cheiro de decomposiçãoera menos intenso. Contudo, Lief sabia que sob a superfície tranqüila formasescuras flutuavam lentamente. Elas não haviam desaparecido, apenas tinhamafundado e se ocultado à vista.À medida que o rio se alargava, a paisagem que o cercava também sealterava. Gradativamente, árvores e arbustos desapareciam e multiplicavam-se osjuncos. Quando os companheiros pararam para descansar, à noite, o solo sob seuspés se tornara pantanoso.Depois de comer, Dain logo se ajeitou para dormir sob a Lua brilhante quesurgira no céu. Lief lembrou-se das balas que comprara de Steven e tirou uma dobolso com intenção de dividi-la com Barda. Mas, assim que desembrulhou oconteúdo marrom duro e brilhante, percebeu que não se tratava de uma bala decaramelo. O cheiro era horrível e o gosto, ainda pior.Constrangido por ter cometido um erro tão banal, Lief tornou a embrulhar asubstância e empurrou-a para o fundo do bolso. Olhou para Barda a fim de verificarse o amigo tinha notado algo, mas ele estava ocupado examinando a própriacompra, o cinto bordado. Enquanto Lief observava curioso, perguntando-se paraquem seria o presente, Barda o fitou e acenou. Com cuidado, para não despertarDain, Lief aproximou-se dele.— Tive um motivo para comprar este cinto, Lief — disse Barda numsussurro. — O tecido é duplo, grosso e forte. Acho que deveríamos usá-lo comouma capa para o Cinturão de Deltora.Lief abriu a boca para protestar. Se o Cinturão fosse coberto por tecido, elenão poderia tocá-lo ou ver as pedras. Ele perderia a possibilidade de sentir o topázio,que aclarava a mente; o rubi, cuja cor perdia a intensidade diante do perigo; e a
  52. 52. opala, que oferecia vislumbres do futuro.Ele temia o poder da opala, mas há dias vinha reunindo coragem paratocá-la. O mapa feito por seu pai mostrava que o Labirinto da Besta situava-se nacosta oeste de Deltora, mas sua verdadeira localização não estava clara. Talvez aopala pudesse fornecer uma pista.— O rio está cercado de inimigos. E Dain estará conosco, pelo menos atéchegarmos a Tora — Barda continuou. — É só uma questão de tempo até que eleveja o Cinturão, por mais cuidadosos que sejamos.Lief engoliu sua objeção. Barda tinha razão. Ele sentia muito por Dain, masum fato era indiscutível: nem ele, nem Barda haviam se decidido a confiartotalmente no rapaz. Ele assentiu e Barda se pôs a abrir a costura do cinto bordado.Lief estava apreensivo. O tempo era curto e ele não podia esperar mais.Lief deslizou a mão sob a camisa e correu os dedos sobre a pedra até alcançar aopala.Uma misteriosa luz azulada. Grandes lanças de pedra pendentes do teto.Paredes cintilantes e sulcadas sobre as quais escorria um líquido leitoso. E algoimenso, branco, com uma cauda agitada, mandíbulas vermelho-sangue abertas...Abafando um grito, Lief apressou-se em retirar a mão e cerrou os olhoscom força a fim de afastar da mente a terrível imagem.— Lief?Barda estendia a mão, impaciente. Lief tirou o Cinturão com dedos trêmulos.Barda o introduziu na tira de tecido bordado e tornou a costurar a abertura. Quandoterminou, nada indicava que ele tinha sido aberto.Lief prendeu o cinto ao redor da cintura, debaixo da camisa. O tecido eraáspero e estranho contra a pele. Lembrou que seu pai mantivera o Cinturão emsegurança dentro da cinta de trabalho de couro durante dezesseis anos. Aquele eraum plano prudente.Contudo, ele ainda estava inquieto. Voltou para junto do fogo e se preparoupara dormir, desejando, do fundo do coração e não pela primeira vez, que Dainnunca tivesse cruzado o caminho deles.
  53. 53. Na manhã seguinte, os três companheiros prosseguiram com dificuldade,mas ao meio-dia só conseguiam avançar cambaleantes, a cada passo mergulhandoas pernas até os joelhos na lama malcheirosa.— Isso é impossível — queixou-se Barda, ofegante, após mais uma hora naqual somente uma pequena distância tinha sido percorrida. — Temos de nos afastardo rio, procurar terreno seco.Contudo, naquele ponto os juncos se estendiam até onde a vista alcançavae uma névoa densa encobria o horizonte, fazendo com que os companheirosparecessem cercados por um deserto de lama, úmido e fétido.Foi nesse momento que escutaram o leve ruído de um motor e o som demúsica. Todos se viraram para olhar o rio e, vindo na direção deles, o vapor saindoda chaminé e a grande roda propulsora jogando água atrás de si, estava um barcovermelho.Lief, Barda e Dain não hesitaram. Os três começaram a gritar e a agitar osbraços.O barco se aproximou e logo estava tão perto que puderam ver o nome"Rainha do Rio" escrito em letras brancas na proa. Acima da música, eles puderamouvir os gritos de um homem barbado que usava um quepe de capitão inclinadopara o lado e olhava para eles.— Querem uma carona, rapazes? — ofereceu, quando o barcodesacelerou.— Sim! — responderam Lief, Barda e Dain.— Vocês têm dinheiro?— Temos.— Que ninguém diga que o Rainha do Rio recusou um passageiro pagante— o capitão devolveu, rindo. — Quanto mais, três! Ei, Chett!Assim, um pequeno bote a remo caiu no rio, espadanando água. Umaestranha criatura curvada com braços longos e um rosto peludo e sorridente saltouna embarcação e remou furiosamente para a margem.— O que é isso? — indagou Lief.
  54. 54. — É um polípano — esclareceu Dain, franzindo o nariz e recuando umpasso. — E, se esse capitão os emprega como tripulação, as intenções dele nãosão boas.— Acho que vi algo parecido nas feiras em Rithmere — lembrou Barda. —Ele estava andando em meio à multidão com uma caneca, coletando dinheiro parauma mulher que tocava um violino.— E, secretamente, coletando muito mais do que isso, sem dúvida— Dain ajuntou, assentindo, quando o pequeno bote se aproximou.— Polípanos são ladrões habilidosos. Dizem que eles podem tirar suacamisa sem que você perceba.O barco a remo parou na lama e o polípano acenou, abrindo um sorrisolargo. Lief percebeu que ele mascava algum tipo de goma escura. Seus dentesestavam manchados de marrom e, enquanto os companheiros se esgueiravamentre os juncos, ele cuspiu uma porção de líquido marrom no rio.Lief e Dain subiram no bote; Barda empurrou-o para fora da lama e entãosubiu também.O polípano cuspiu novamente e remou de volta ao Rainha do Rio. Emboraagora levasse mais três passageiros, o pequeno barco disparou pela água em altavelocidade. Os braços longos e cabeludos do polípano eram muito fortes e,aparentemente, dotados de ilimitada energia.Quando chegaram perto do barco maior, constataram que uma escada decorda havia sido baixada na lateral. Eles subiram, um após o outro, muito atentosaos olhinhos negros do polípano fixos neles. "Sem dúvida", pensou Lief, pouco àvontade, "ele está observando cada bolso de nossos casacos, cada fecho denossas mochilas."Lief ficou satisfeito com o fato de o Cinturão de Deltora estar bemescondido e só sentia não confirmar se a sensação de perigo que o invadiu quandopuseram o pé no convés do barco era real ou imaginária.
  55. 55. Os demais passageiros fitavam os recém-chegados com curiosidade. Umdeles, um homem muito gordo vestindo uma roupa de malha listrada, segurava umagrande caixa pintada com uma manivela. Uma caixa de música, Lief adivinhou.Lembrando-se da música que tinha ouvido da margem.— Ho-di-ho! — gritou o homem gordo, numa voz estranhamente fina eestridente para alguém daquele tamanho. — Lockie, o Listrado, às suas ordens,amantes da música!A mulher ao lado dele riu. Ela também era do tipo gorducho e usava umvestido e luvas cor-de-rosa. O seu rosto redondo estava emoldurado por enormesfeixes de cachos rosados que se amontoavam na testa e nas bochechas. Com umadas mãos, ela acenava para Lief, Barda e Dain, com jeito de garota. Com a outra,segurava o braço de um homem alto e magro parado ao seu lado e que usava umtapa-olho. Circunspecto, ele fez um gesto com a cabeça.Dois outros homens ergueram o olhar da mesa em que estavam jogandocartas, mas não fizeram menção de falar. Ambos tinham as cabeças raspadas elargas bandanas amarradas na testa. Seus dedos estavam cobertos de anéis, eambos tinham o que parecia ser um dente de animal enfiado na orelha. Nenhum dosdois parecia muito amistoso.A última passageira era uma jovem de aparência arrogante que usava umafina capa roxa amarrada ao pescoço por um cordão dourado. As mãos que
  56. 56. seguravam a sombrinha estavam cobertas por luvas apertadas e negras quecombinavam com as lustrosas botas de salto alto. Um lenço de seda roxoenvolvia-lhe a cabeça e longos brincos dourados balançavam-lhe nas orelhas. Orosto estava coberto com pó-de-arroz branco; os lábios estavam pintados devermelho e os olhos, fortemente delineados de preto. Após um olhar entediado aosrecém-chegados, ela se virou e ficou observando a água, girando a sombrinha.Lief olhou ao redor, tentando parecer à vontade, mas a apreensão tomavaconta dele. Qualquer um daqueles personagens poderia ser um Ol. Para falar averdade, todos eles podiam ser Ols. Lief começou a se perguntar se ele, Barda eDain não estariam em melhores condições se tivessem ficado em meio aos juncos.O capitão se aproximou sorrindo. Ele era um homem baixo e atarracado, denariz torto e cabelos grisalhos que formavam uma trança que lhe caía nas costascomo uma corda. O seu quepe estava de tal modo puxado sobre a testa que osolhos ficavam ocultos pela sombra.— Bem-vindos a bordo! Qual é o seu destino? — perguntou.— Um dos meus filhos e eu temos negócios a resolver na costa — disseBarda de modo agradável.— É mesmo? — o capitão sorriu. — Negócios complicados, imagino. Ecutucou Barda astuciosamente, depois do que estendeu a mão suja para receber opagamento. Enquanto Barda contava o dinheiro, Lief percebeu que o capitãoperdera o dedo mínimo e que o anular não passava de um toco.— Uma pequena discussão com um verme, meu rapaz — ele esclareceu,notando que Lief observava sua mão. — Você vai querer manter os seus dedinhosfora da água enquanto navegamos. Os vermes vêm do mar e nadam até aqui. E,quanto mais longe eu chego, mais famintos eles ficam. — Ele sorriu e a mulher derosa riu nervosamente.— Meu filho mais novo quer descer em Tora — Barda avisou, erguendo umpouco a voz. — Você pode parar lá?— Tora? — O capitão riu com desdém. — Ora, não é possível. Sinto nãopoder lhe fazer esse favor. Uma visita a Tora é impossível para nós.
  57. 57. Dain ficou perplexo, mas logo se recompôs. Era evidente quecompreendera não ter outra escolha senão ficar no barco, pelo menos por hora.Barda olhou para ele e ergueu de ombros num gesto de aquiescência.— Tudo bem. Apenas mais duas coisas — o capitão prosseguiu. —Primeiro, estou oferecendo uma condução, não um serviço de proteção. Este é umrio cruel, e vocês devem cuidar da própria segurança. Se vocês forem Ols, éproblema de vocês. Se pagarem, eu levo Ols com tanta satisfação quanto qualqueroutra pessoa. Mas mantenham as mãos quietas enquanto estiverem neste barco ouvou jogá-los na água para alimentar os vermes. Já lidei com Ols e posso fazê-looutra vez. Entendido?Lief, Barda e Dain olharam-no fixamente e então assentiram. O capitãosorriu, girou nos calcanhares e os deixou.— Tudo bem — sussurrou a mulher de rosa. — Ele disse o mesmo paranós. Acho que ele precisa ser cuidadoso, mas assim é demais!O capitão havia retomado o leme na cabine do barco. Ele gritou algumasordens, o polípano correu a atendê-lo, um apito soou e o barco recomeçou a semover.Lockie, o Listrado, sentou-se com um gemido, posicionou a caixa demúsica pintada entre os joelhos, começou a girar a manivela e uma melodiapipilante e alegre encheu o ar. A mulher de rosa e seu parceiro alto e magrocomeçaram a dançar, os pés martelando na prancha rústica. Ela ria, enquanto elepermanecia solene como um túmulo. Os dois outros homens voltaram ao jogo decartas, e a jovem de casaco roxo girou a sombrinha e olhou fixamente para o rio.Os companheiros sentaram-se num banco perto do parapeito.— Um grupo estranho — murmurou Barda. — Teremos de guardar nossospensamentos para nós mesmos.— É verdade.Todos os três ergueram os olhos. A jovem vestida de roxo havia seaproximado deles. Ela ainda olhava para o rio, mas era evidente que fora ela quefalara.
  58. 58. Lief a fitou e observou a inclinação orgulhosa da cabeça, os lábios pintados,os olhos sombreados de negro, os longos brincos dourados. E então ele levou omaior susto de sua vida quando a reconheceu.Era Jasmine.O sol encontrava-se muito baixo no céu. O Rainha do Rio avançavaruidosamente, descendo o rio num ritmo inalterável. Lockie, o Listrado, cansara-sede girar a manivela da caixa de música e estava deitado de costas no convés, osolhos fechados. A mulher de rosa e o companheiro conversavam em voz baixa. Osdois jogadores de cartas haviam iniciado outra partida.Sem mostrar nenhum sinal de que os conhecia, Jasmine afastou-se deBarda, Lief e Dain e sentou-se sob o abrigo da sombrinha na outra extremidade dobarco.— Não acredito que não a reconheci! — sussurrou Lief pela décima vez. —Como ela conseguiu aquelas roupas?— Do nosso amigo Steven, sem dúvida — sussurrou Barda em resposta.— Ela deve ter tentado ir para o interior a fim de evitar os juncos e se viu obrigada avoltar à trilha do rio Largo. E assim ela acabou se atrasando e ficando atrás de nós.— Ela é muito esperta — murmurou Dain com admiração, observandoJasmine mordiscar delicadamente uma fruta desidratada que tirara da bolsinha quecarregava. — Quem a descreveria como uma "garota selvagem" agora? Mas ondeestá o pássaro?Lief examinou as margens do rio e vislumbrou uma sombra negra voandoentre os juncos. Kree não os perdia de vista.Quando o sol se pôs, o leito do rio coberto de juncos deu lugar a montes deareia pontilhados por pequenos arbustos. A Lua surgiu no céu para logo ser cobertapor nuvens. O apitou soou. O Rainha do Rio desacelerou e parou.— Partiremos novamente na primeira luz do dia — o capitão anunciouquando Chett lançou outra âncora com um ruído de correntes. — Fiquem à vontade,amigos, e descansem um pouco. Mas fiquem atentos. Lembrem-se: a suasegurança depende de vocês, não de mim.
  59. 59. Ele retornou à cabine com passos pesados, fechou a porta e todos ouviramo ruído metálico quando ele a trancou com o ferrolho. Depois, houve apenas osilêncio, exceto pelo burburinho da água e o ranger do costado no barco.Chett correu pelo convés e acendeu lanternas, mas elas pouco ajudaram adiminuir a escuridão que os cercava. A mulher de rosa recostou-se no companheiroe fechou os olhos. Os jogadores guardaram as cartas, puxaram cobertas de dentrodas mochilas e ajeitaram-se para dormir.Lief, Barda e Dain comeram e beberam alguma coisa e a seguir tambémapanharam os cobertores, pois a noite se anunciava fria. Lief bocejou. O balanço dobarco começava a deixá-lo sonolento e ele teve de lutar para se manter acordado.— Eu vou ficar no primeiro turno de vigília, Lief — Barda anunciou derepente. — Durma, mas esteja preparado. Temo que a noite vá ser muito longa.
  60. 60. Lief foi despertado por um grito estridente. Ele se levantou de um salto, amão na espada, sem noção de quanto tempo se passara. Estava muito escuro e aslanternas haviam se apagado. O céu estava negro.— Barda! — Lief sussurrou. — Dain!As duas vozes responderam perto dele. Seus companheiros tambémestavam acordados e alertas.O grito se repetiu. Lief percebeu que se tratava de Kree dando um grito deadvertência. Onde estava Jasmine? Ele queria chamá-la, mas sabia que não podiafazê-lo. Ninguém deveria saber que se conheciam.Vozes sonolentas e sussurrantes foram ouvidas no convés quando osoutros passageiros acordaram.— É apenas um pássaro, querido — murmurou a mulher de rosa. — Durmaoutra vez.Por um instante, fez-se silêncio novamente e só se ouvia o agitar da água, oranger do madeiramento do barco. Mas os ouvidos de Lief se aguçaram e ele tinhacerteza de que os sons não eram os mesmos de antes. Eles estavam mais fortes eeram acompanhados por leves pancadas.Outro barco...O pensamento mal tinha ocorrido a Lief quando, de repente, a escuridão aoredor do parapeito pareceu mover-se e se adensar. Ele ouviu respirações pesadas
  61. 61. e um leve retinir de aço. Havia pessoas entrando no barco!— Cuidado! — ele gritou. — Defendam os seus...Ouviu-se um burburinho irado e um arrastar de pés apressados. Alguémcaiu sobre ele e atirou-o ao chão com violência. Lief atingiu o convés com um baque,batendo a testa no canto de um objeto que repicava e tilintava. "A caixa de música",pensou ele confuso. Lief tocou a testa e sentiu o sangue escorrer.Tonto e nauseado, Lief esforçou-se para ficar de joelhos. Lockie, o Listrado,protestava assustado. A mulher de rosa gritava e chorava. Sons de luta enchiam aescuridão. Lief ouviu estrondos e gemidos, um grito de gelar o sangue, o espadanarde algo caindo na água e também o bater de aço contra aço.— Acenda uma luz, idiota! — rugiu uma voz.Uma a uma, as lanternas recomeçaram a brilhar. O polípano as estavaacendendo, rindo e mascando enquanto saltava de uma para outra. Aos poucos,uma cena de horror foi revelada.Os invasores eram pelo menos vinte. Homens e mulheres que usavamuma estranha combinação de roupas finas e esfarrapadas, tinham cabelosemaranhados e olhos brilhantes e estavam munidos de facas, espadas emachadinhas.Barda, as costas apoiadas ao parapeito do barco, lutava contra dois deles.Dain encontrava-se ao lado dele, enfrentando um terceiro. Lockie encolhia-se noconvés. A mulher de rosa, lamentando-se indefesa agarrava-se ao homem magroque, na tentativa de livrar-se dela, sacudia-a e rastejava para longe como umaaranha à procura de um buraco para se esconder. Um dos jogadores de cartas jaziamorto numa poça de sangue. O outro havia desaparecido. "Com certeza, saltou naágua", pensou Lief, lembrando-se do espadanar.Nem sinal do capitão. Não havia dúvida de que ele ainda se encontravatrancado na cabine, e Lief tinha certeza de que não se arriscaria pelo bem de algunspassageiros. Eles tinham concordado com os seus termos, pago o seu dinheiro eaceitado os riscos. Ele não passara toda uma vida nesse rio perigoso por nada.Lief ergueu-se com dificuldade e procurou sua espada. Ele tinha de ajudar

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