Emily rodda deltora quest 3 - a cidade dos ratos

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Emily rodda deltora quest 3 - a cidade dos ratos

  1. 1. DELTORA É UMA TERRA DE MONSTROS E MAGIA...Lief, Barda e Jasmine, três companheiros que têm em comum somente o ódioque nutrem pelo inimigo, saíram numa perigosa busca para encontrar as sete pedraspreciosas do mágico Cinturão de Deltora. Somente quando o Cinturão estiver completonovamente, o malvado Senhor das Sombras poderá ser derrotado.Eles obtiveram êxito em encontrar o topázio dourado e o grande rubi. Osmisteriosos poderes das duas pedras fortaleceram os amigos e lhes deram coragempara prosseguir na busca pela terceira pedra. Contudo, nenhum deles sabe quehorrores os aguardam na proibida Cidade dos Ratos.SUMÁRIOA armadilhaCarne assadaTudo para o viajanteQuestões de dinheiroA negociaçãoNoradzCostumes estranhosO julgamentoAs cozinhasO buracoO preço da liberdadeUma questão de negóciosAlém do Rio LargoA noite dos ratosA cidadeReeahEsperança
  2. 2. ATÉ AGORA...Lief, de 16 anos de idade, cumprindo uma promessa feita pelo pai, antes que ofilho nascesse, saiu em uma grande busca para encontrar as sete pedras preciosas domágico Cinturão de Deltora. Somente o Cinturão poderia salvar o reino da tirania domalvado Senhor das Sombras que, apenas alguns meses antes do nascimento de Lief,invadira Deltora e escravizara o seu povo com a ajuda de feitiçaria e de seus temidosGuardas Cinzentos.As pedras — uma ametista, um topázio, um diamante, um rubi, uma opala, umlápis-lazúli e uma esmeralda — foram roubadas a fim de permitir que o desprezívelSenhor das Sombras invadisse o reino. Agora, elas se encontram escondidas em locaissombrios e terríveis em toda Deltora. Somente depois de recolocadas no Cinturão, éque o herdeiro do trono poderá ser encontrado, e o Senhor das Sombras será derrotado.Os companheiros de Lief são Barda, um homem mais velho que foi guarda dopalácio, e Jasmine, uma garota selvagem e órfã da idade de Lief. Os dois a conheceramem sua primeira aventura nas temíveis Florestas do Silêncio.Nas Florestas, os três companheiros descobriram os fantásticos poderes decura do néctar dos Lírios da Vida. Eles também conseguiram encontrar a primeira pedra— o topázio dourado, símbolo da lealdade, que tem o poder de fazer os vivos entrar em
  3. 3. contato com o mundo espiritual e de clarear e estimular a mente. No Lago das Lágrimas,eles romperam o cruel encantamento da feiticeira Thaegan, libertaram o povo deRaladin e de DOr de sua maldição e encontraram a segunda pedra — o admirável rubi,símbolo da felicidade, cuja cor perde a intensidade quando desgraças ameaçam quem ousa.Agora, continue a leitura...Com os pés doloridos e fatigados. Lief, Barda e Jasmine dirigiram-se para ooeste, na direção da lendária cidade dos ratos. Eles pouco sabiam sobre o seu destino,exceto que se tratava de um lugar maligno e há muito abandonado por seu povo.Entretanto, tinham quase certeza de que uma das sete pedras perdidas do cinturão deDeltora estava escondida lá.Os companheiros haviam caminhado sem parar o dia todo e, naquelemomento, quando o sol cintilante deslizava na direção do horizonte, ansiavam por parare repousar. Mas a estrada que percorriam, profundamente sulcada pelas rodas decarroças, ziguezagueava por uma planície cujo solo se encontrava totalmente tomadopor arbustos espinhentos. Os espinheiros cobriam toda a estrada e se estendiam atéonde a vista podia alcançar.Lief suspirou e tocou o Cinturão oculto debaixo da camisa em busca deconsolo. Agora ele continha duas pedras: o topázio dourado e o rubi escarlate. Ambashaviam sido conquistadas com grandes dificuldades e, nesse processo, grandes feitoshaviam sido realizados.O povo de Raladin, com quem haviam ficado nas duas últimas semanas,desconhecia a busca pelas pedras perdidas. Manus, o pequeno ralad que osacompanhara na busca pelo rubi, jurara silêncio. Mas não era segredo que oscompanheiros haviam causado a morte da malvada feiticeira Thaegan, aliada do cruel
  4. 4. Senhor das Sombras. E também não era segredo que dois dos 13 filhos da bruxativeram o mesmo destino que a mãe. Os ralads, finalmente livres da maldição deThaegan, criaram muitas canções de alegria louvando os amigos por seus feitos.Fora difícil deixá-los. Difícil abandonar Manus, a felicidade, a segurança, a boacomida e as camas macias e quentes do vilarejo oculto. Mas ainda havia cinco pedras aserem encontradas e, enquanto não fossem recolocadas no Cinturão, a tirania doSenhor das Sombras não poderia ser derrotada. Os três companheiros precisavamprosseguir.— Esses espinheiros são intermináveis — Jasmine queixou-se, a vozinterrompendo os pensamentos de Lief, que se voltou para fitá-la. Como sempre, apequena criatura peluda chamada Filli encontrava-se aninhada no ombro dela e piscavapor entre a massa de cabelos negros de sua dona. Kree, o corvo, que nunca se afastavamuito da vista de Jasmine, esvoaçava sobre os espinheiros próximos e apanhavainsetos. Ao menos ele estava cuidando do estômago.— Há alguma coisa adiante! — Barda avisou, apontando para um ponto brancocintilante ao lado da estrada.Curiosos e esperançosos, eles correram para o local onde, sobressaindo-sedos espinheiros, havia uma estranha placa.— O que isso significa? — Jasmine murmurou.— Parece estar apontando a direção de algum tipo de loja — supôs Lief.— O que é loja?Lief olhou de relance para a garota perplexa e então lembrou que ela passaraa vida nas Florestas do Silêncio e que nunca vira muitas das coisas que ele consideravanormais.— Uma loja é um lugar para comprar e vender mercadorias — Barda explicou.— Hoje em dia, na cidade de Del, as lojas são malservidas, e muitas foram fechadas.Mas antigamente, antes do Senhor das Sombras, havia muitas que vendiam alimentos,bebidas, roupas e outros artigos.Jasmine olhou para ele, intrigada. Lief se deu conta de que mesmo assim ela
  5. 5. não compreendia. Para ela, os alimentos nasciam nas árvores e a bebida corria nosriachos. Outros objetos eram encontrados ou fabricados, e o que não podia serencontrado ou fabricado era esquecido.Eles caminharam com dificuldade estrada acima, conversando em voz baixa etentando esquecer o cansaço. Mas logo ficou escuro demais para enxergar algumacoisa e eles tiveram de acender uma tocha para guiar-lhes o caminho. Barda segurava achama bruxuleante para baixo, porém todos sabiam que ela ainda podia ser vista doalto.O pensamento de que os seus passos poderiam ser seguidos com tantafacilidade era desagradável. Mesmo àquela hora, os espiões do Senhor das Sombraspoderiam estar patrulhando os céus. Além disso, eles ainda não tinham saído doterritório que fora de Thaegan. Embora ela estivesse morta, eles sabiam muito bem quea maldade havia dominado por muito tempo e que o perigo era uma ameaça em todosos lugares.Cerca de uma hora depois de acenderem a tocha, Jasmine parou e olhou paratrás.— Estamos sendo seguidos. Não só por uma criatura, mas por muitas — elasussurrou.Embora não conseguissem ouvir nada, Lief e Barda não se preocuparam emperguntar-lhe como percebera. Eles haviam aprendido que os sentidos de Jasmineeram muito mais aguçados e afiados que os seus. Ela podia não saber o que eram lojas,mas seus outros conhecimentos eram muito amplos.— Eles sabem que estamos à frente deles — ela murmurou. — Eles paramquando paramos e andam quando andamos.Em silêncio, Lief puxou a camisa para cima e olhou para o rubi cravado noCinturão. Seu coração acelerou quando viu, sob a luz bruxuleante da tocha, que overmelho vivo da pedra havia se transformado num cor-de-rosa pálido.Barda e Jasmine também observavam a pedra. Assim como Lief, eles sabiamque a cor do rubi esmaecia quando algum perigo ameaçava quem o usava. Suamensagem, naquele momento, era clara.— Então, nossos seguidores têm más intenções — Barda murmurou.— Quem serão eles? Será que Kree poderia voltar e...— Kree não é uma coruja! — Jasmine disparou. — Ele não consegue enxergarno escuro, não mais do que nós. — Ela se agachou, encostou o ouvido no solo e,franzindo a testa, ouviu com atenção. — Pelo menos os nossos perseguidores não sãoGuardas Cinzentos. São silenciosos demais e não estão marchando.— Talvez seja um bando de ladrões que pretende armar uma emboscada
  6. 6. assim que pararmos para dormir ou descansar. Precisamos voltar e lutar! — A mão deLief já se encontrava no punho da espada. As canções dos ralads soavam em seusouvidos. O que era um grupo de ladrões maltrapilhos comparado aos monstros que ele,Barda e Jasmine haviam enfrentado e derrotado?— O meio de uma estrada margeada por espinheiros não é um bom lugar paraoferecer resistência, Lief — argumentou Barda, sombriamente.— E aqui não há nenhum lugar em que possamos nos esconder e pegar osinimigos de surpresa. Devemos continuar e tentar encontrar um local melhor.Os amigos recomeçaram a andar, dessa vez mais depressa. Lief olhava paratrás constantemente, mas não havia nada entre as sombras.Eles alcançaram uma árvore morta que parecia um fantasma ao lado daestrada, o tronco desbotado destacando-se entre os espinheiros. Momentos após eles aterem ultrapassado, Lief sentiu uma mudança no ar e a sua nuca começou a formigar.— Eles estão acelerando — Jasmine constatou, ofegante.E então eles ouviram o som. Um uivo longo e baixo que gelava o sangue.Filli, agarrado ao ombro de Jasmine, emitiu um leve som assustado. Lief viuque o pêlo do animalzinho se arrepiara por todo o seu corpinho.Seguiu-se mais um uivo e depois outro.— Lobos! — Jasmine sussurrou. — Não vamos conseguir fugir. Eles estãoperto demais!Ela preparou mais duas tochas com o material que levava na sacola eacendeu-as na que já carregava. — Eles vão ficar com medo do fogo — ela disse,colocando os dois fachos recém-acesos nas mãos de Lief e Barda. — Mas precisamosenfrentá-los. Não podemos voltar-lhes as costas.— Vamos ter de andar de costas até a loja de Tom? — agarrando a sua tocha,Lief tentou fazer uma brincadeira, mas nem Jasmine, nem Barda acharam graça. Ohomem fitava a árvore morta que cintilava fracamente ao longe.— Eles só se aproximaram depois que passamos pela árvore — murmurou. —Queriam impedir que subíssemos nela e escapássemos. Não são lobos comuns.— Estejam preparados — Jasmine advertiu.Ela já empunhava a adaga, e Lief e Barda desembainharam as espadas. Elespermaneceram juntos, as tochas no alto, esperando.E, acompanhando outro coro de uivos de gelar o sangue, da escuridão surgiuo que pareceu um mar de pontos de luz amarela em movimento — eram os olhos doslobos.Jasmine agitava a tocha à sua frente de um lado para o outro. Lief e Bardafaziam o mesmo, de modo que a estrada ficou bloqueada por uma linha de chamas em
  7. 7. movimento.Os animais diminuíram o passo, mas ainda avançavam, rosnando. À medidaque se aproximavam da luz, Lief podia ver que, de fato, não se tratava de lobos comuns.Eram imensos, cobertos por um pêlo espesso e opaco com listras marrons e amarelas.Os lábios se arregaçaram para trás, deixando à vista as mandíbulas furiosas, e o interiordas bocas abertas não era vermelho, mas preto.Lief os contou rapidamente. Eram 11. Por algum motivo, esse númerosignificava algo para ele, mas não conseguia lembrar do que se tratava. De qualquerforma, não havia tempo para preocupar-se com tais pensamentos. Acompanhado deBarda e Jasmine, começou a caminhar para trás com a tocha em movimento contínuo.Mas, a cada passo que os amigos davam, os animais faziam o mesmo.Lief lembrou-se de sua piada tola, "Vamos ter de andar de costas até a loja doTom?", ele perguntara.Naquele momento, parecia que era exatamente isso que seriam obrigados afazer. As bestas estão nos guiando", ele pensou.As bestas estão nos guiando... Eles não são lobos comuns... Eles são 11...— Barda! Jasmine! — sussurrou, com um frio no estômago. — Eles não sãolobos. Eles são...Mas não conseguiu terminar, pois, naquele instante, ele e os amigos deramoutro passo para trás, a enorme rede que havia sido armada para eles se fechou e ostrês ficaram pendurados no alto, aos gritos.
  8. 8. Amontoados na rede tão juntos que mal podiam se mover, Lief, Barda ejasmine balançavam no ar, indefesos e agoniados. As tochas e armas haviam voado desuas mãos ao serem içados para cima. Kree esvoaçava ao redor deles, grasnando,desesperado.A rede pendia de uma árvore que crescia ao lado da trilha. Ao contrário dequalquer outra árvore que tinham visto, ela estava viva. O galho que sustentava a redeera grosso e forte, forte demais para quebrar.Lá embaixo, os lobos passaram a emitir urros de triunfo. Lief olhou para baixo e,sob a luz das tochas caídas, pôde ver que os corpos das bestas inchavam e tomavamuma forma humana.Alguns instantes depois, 11 criaturas hediondas e de dentes arreganhadosdavam cambalhotas na trilha sob a árvore. Algumas eram grandes, outras, pequenas.Algumas tinham o corpo coberto de pêlos, outras eram totalmente desprovidas decabelos. Eram verdes, marrons, amarelas, de um branco pálido e até de um vermelholodoso. Uma delas tinha seis pernas atarracadas. Lief sabia quem eram.Eram os filhos da feiticeira Thaegan. Ele se lembrou do verso que listava seusnomes.Hot, Tot, Jin, Jod, Fie, Fly, Zan, Zod, Pik, Snik, Lun, Lod. E o temível Ichabod.Jin e Jod estavam mortos, sufocados na própria armadilha de areia movediça.Agora restavam somente 11. Mas estavam todos ali, reunidos para caçar os inimigosque haviam provocado a morte da mãe e dos irmãos. Eles queriam vingança.Grunhindo e fungando, alguns dos monstros arrancavam espinheiros pelasraízes e os empilhavam sob a rede que balançava. Outros apanhavam as tochas edançavam em círculos, cantando:Mais calor, mais calor,Carne assada macia e suculenta!Veja como é divertido
  9. 9. Esperar que fique pronta.Escute os gemidos,O estalar dos ossos!Mais calor, mais calor,Carne assada macia e suculenta!— Eles vão nos queimar! — grunhiu Barda, lutando em vão. — Jasmine, a suasegunda adaga. Você consegue pegá-la?— Você acha que eu ainda estaria pendurada aqui se pudesse? — Jasminesussurrou, furiosa.Lá embaixo, os monstros se divertiam, jogando as tochas sobre a pilha deespinheiros. Lief já podia sentir o calor e o cheiro de fumaça. Ele sabia que em breve osarbustos verdes iriam secar e se incendiar. Então, ele e os amigos assariam no calor e,quando a rede se queimasse, cairiam na fogueira.Algo macio roçou o rosto de Jasmine. Era Filli. A pequena criatura conseguirasair de seu esconderijo no ombro da dona e, naquele momento, estava se espremendopara passar pela rede, ao lado da orelha de Lief.Pelo menos ele estava livre. Mas, em vez de subir correndo pelas cordas parase esconder nas árvores, como Lief esperava que fizesse, continuou segurando-se narede e começou a mordiscá-la desesperadamente. Lief percebeu que ele tentava abrirum buraco grande o bastante para que passassem.Era um esforço louvável, mas quanto tempo levaria para que os dentes miúdosroessem aquelas cordas fortes e grossas? Tempo demais. Muito antes de Filli conseguirabrir mesmo uma pequena abertura, os monstros perceberiam o que ele estava fazendoe o afastariam ou então o matariam.Ouviu-se um grunhido de raiva vindo do solo. Lief olhou para baixo, em pânico.Os inimigos já teriam notado a presença de Filli? Não, eles não estavam olhando paracima. Em vez disso, olhavam uns para os outros.— Duas pernas para Ichabod! — rugia o maior, socando o peito vermelho eencaroçado. — Duas pernas e uma cabeça.— Não! Não! — rosnaram duas criaturas verdes, mostrando dentes escuros egotejantes. — Não é justo! Fie e Fly são contra!— Eles estão brigando para saber que partes de nossos corpos irão comer! —Barda exclamou. — Vocês acreditam nisso?— Deixe-os brigar — Jasmine murmurou. — Quanto mais eles brigarem, maistempo Filli terá para fazer o seu trabalho.— Vamos dividir a carne! — gritaram histericamente os dois monstrosmenores, as vozes agudas erguendo-se acima do barulho ao redor. — Hot e Tot
  10. 10. querem partes iguais.Seus irmãos e irmãs grunhiram e resmungaram.— Olhem só como eles são burros! — Lief gritou, de repente, fingindo estarconversando com Barda e Jasmine. — Eles não sabem que não podem ter partesiguais!— Lief, você está maluco? — Jasmine sussurrou.Mas Lief continuou gritando. Ele notou que os monstros haviam se calado eestavam ouvindo.— Nós somos três e eles são 11! — rugiu. — Não se pode dividir três em 11partes iguais. É impossível!Ele sabia tanto quanto Jasmine que estava assumindo um risco. Os monstrospoderiam olhar para ele e, ao mesmo tempo, ver Filli. Mas ele apostava na esperançade que a suspeita e a raiva fariam os inimigos manter os olhos presos uns nos outros.E, para seu alívio, percebeu que seu jogo estava dando certo. Os monstroshaviam começado a murmurar em pequenos grupos, enquanto se olhavamdissimuladamente.— Se fossem nove, eles poderiam cortar cada um de nós em três e ficar cadaum com uma parte — ele gritou. — Mas desse jeito...— Partes iguais — guincharam Hot e Tot. — Hot e Tot dizem... Ichabodagarrou a ambos e bateu as cabeças deles uma contra a outra, provocando um forteruído. Os dois caíram no chão, desacordados.— Agora — rosnou Ichabod —, agora as partes serão iguais como vocêsquerem. Agora somos nove.O fogo começara a se inflamar e a estalar. A fumaça subia, fazendo Lief tossir.Ele olhou para o lado e viu que Filli já conseguira abrir um pequeno buraco na rede etentava aumentá-lo. Mas ele precisava de mais tempo.— Eles se esqueceram de uma coisa, Lief — Barda disse em voz alta. —Mesmo que sejamos divididos em três, as partes ainda não vão ser iguais. Porque eusou duas vezes maior do que Jasmine. Quem ficar com uma terça parte dela vai se darmal. Na verdade, ela deveria ser dividida em dois.— Sim — concordou Lief, em voz igualmente alta, ignorando os protestos deraiva de Jasmine. — Mas assim só haverá oito pedaços, Barda. E há nove paraalimentar.Ele observou pelo canto dos olhos quando Zan, o monstro de seis pernas,assentiu, pensativo, e então se virou de repente, e atingiu a irmã Zie com um porrete,derrubando-a no chão.Fly, furioso com o ataque à irmã gêmea, saltou sobre as costas de Zan,
  11. 11. guinchando e mordendo. Zan rugiu, girou o corpo e nocauteou o irmão cabeludo,jogando-o para o outro lado. Este, por sua vez, caiu sobre a irmã à sua frente e ficouespetado em seus chifres.De repente, estavam todos brigando — gritando, mordendo e batendo —,caindo sobre os espinheiros, tropeçando no fogo, rolando no chão.A briga continuou, interminável. Assim, quando Filli concluiu seu trabalho e ostrês companheiros escaparam da rede, e subiram na árvore, havia somente um monstrode pé: Ichabod.Cercado pelos corpos dos irmãos e irmãs, ficou parado perto do fogo, rugindoe batendo no peito, triunfante. Ele iria olhar para cima a qualquer momento. Veria que arede estava vazia e que a comida pela qual havia lutado se encontrava na árvore — semter para onde ir.— Precisamos pegá-lo de surpresa — Jasmine sussurrou, apanhando asegunda adaga escondida entre as roupas e verificando se Filli voltara à segurança deseu ombro. — É a única maneira.Sem mais nenhuma palavra, ela saltou, atingindo Ichabod nas costas comambos os pés. Sem equilíbrio, ele caiu na fogueira, onde se estatelou com um estrondoe um rugido.Dando-se conta da situação, Lief e Barda deslizaram árvore abaixo o maisrápido possível e correram até Jasmine. Ela já recolhia sua adaga e as espadas dosamigos.— Por que demoraram tanto? — ela cobrou, jogando-lhes as armas. —Depressa!Com Kree esvoaçando sobre suas cabeças, eles correram como o vento aolongo da trilha, sem se importar com os sulcos da estrada e com a escuridão. Atrásdeles, Ichabod rugia de fúria e dor. Arrastou-se para fora do fogo e começou apersegui-los aos tropeços.
  12. 12. Ofegantes, com o peito dolorido e os ouvidos atentos aos uivos atrás deles,continuaram a correr. Eles sabiam que se Ichabod se transformasse num lobo ou emoutro animal os apanharia facilmente. Mas eles nada ouviram."Talvez ele não consiga transformar-se por estar ferido", Lief pensou. Nessecaso, estamos salvos. Mas, assim como os companheiros, não ousou parar nemdiminuir o passo.Finalmente, chegaram a um lugar em que a trilha atravessava um pequenocórrego.— Tenho certeza de aqui é o limite das terras de Thaegan — Barda informou.— Prestem atenção. Não há espinheiros do outro lado. Ichabod não vai nos seguir atélá.Com as pernas trêmulas de cansaço, continuaram a caminhada, agitando aágua fria à sua volta. Do outro lado do riacho, a trilha continuava, mas ao seu ladocresciam um capim verde e macio e pequenas árvores, e os amigos puderam enxergaro contorno de flores silvestres.Eles caminharam, cambaleantes, por mais alguns instantes. Então,afastaram-se da trilha e deixaram-se cair no abrigo do pequeno bosque formado pelasárvores. Com o sussurrar das folhas no alto e o capim macio sob suas cabeças,adormeceram.Quando despertaram, o sol estava alto e Kree os chamava. Liefespreguiçou-se e bocejou. Seus músculos estavam tensos e doloridos por causa dalonga corrida, e seus pés estavam sensíveis.— Deveríamos ter dormido em turnos — Barda resmungou, sentando-se emovendo as costas com cuidado. — Foi perigoso confiar que estávamos em segurançaainda tão perto da fronteira.— Estávamos cansados. E Kree ficou vigiando. -Jasmine erguera-se de umsalto e já estava investigando o bosque. Aparentemente, o corpo dela não estavadolorido.
  13. 13. Ela pousou a mão no tronco áspero de uma das árvores. Acima dela, as folhasmoveram-se levemente. Jasmine inclinou a cabeça para o lado e pareceu escutar.— As árvores dizem que ainda passam carroças nesta estrada com bastantefreqüência — ela anunciou, finalmente. — Carroças grandes, puxadas por cavalos. Masontem não passou ninguém por aqui.Antes de prosseguir em sua jornada, os companheiros comeram um pouco dopão, do mel e das frutas que os ralads haviam lhes dado. Filli recebeu sua porção, alémde um pedaço de favo de mel, seu petisco favorito.E, então, vagarosamente, eles se puseram a caminho. Após algum tempo,viram outra placa que indicava o caminho para a loja de Tom.— Espero que Tom venda algo para pés doloridos — Lief murmurou.— A placa diz "Tudo para o viajante" — Barda repetiu. — Portanto, ele deveter algo. Mas devemos escolher somente o que realmente precisamos. Temos poucodinheiro.Jasmine olhou os companheiros de relance. Não disse nada, mas Liefpercebeu que ela começou a caminhar um pouco mais depressa.Ficou claro que ela estava curiosa para ver exatamente como era uma loja.Uma hora mais tarde, logo depois de uma curva, eles viram, surgindo no meiode um grupo de árvores, um sinal de metal recortado parecido com um raio e, ao seulado, imensas letras de metal.Intrigados, continuaram a caminhar. À medida que se aproximavam do local,notaram que as árvores estavam dispostas no formato de uma ferradura e seagrupavam nas laterais e na parte posterior de um estranho e pequeno edifício de pedra.O suporte recortado que sustentava as letras de metal encontrava-se espetado
  14. 14. exatamente no centro do telhado pontiagudo, como se o edifício tivesse sido atingidopor um raio.Sem dúvida, aquela era a loja de Tom, embora, à primeira vista, ela separecesse mais com uma pousada do que com um lugar em que fosse possível fazercompras. Havia um espaço limpo e plano entre a casa e a estrada — grande o bastantepara receber carroças — e, aqui e ali, grandes gamelas de pedra com água para osanimais. Uma grande vitrine cintilava ao lado da porta e exibia o nome do proprietáriopintado em brilhantes letras vermelhas, dispostas na vertical, de cima para abaixo,como se via na placa da chaminé e nas placas pelas quais haviam passado.— Esse Tom realmente gosta de divulgar o seu nome — Barda gracejou. —Muito bem, então. Vamos ver o que ele tem para nós.Os companheiros atravessaram a clareira e espiaram pela vitrine. Ela estavarepleta de mochilas, chapéus, cintos, botas, meias, cantis, casacos, cordas, potes,panelas e muitos outros objetos, inclusive alguns que Lief não reconheceu.Estranhamente, não havia preços ou etiquetas, mas, bem no meio, havia um avisoamarelo.Um sino preso à porta tilintou quando eles entraram na loja, mas ninguém veiorecebê-los. Eles olharam ao redor, enxergando com dificuldade, pois estava muitoescuro. A sala abarrotada parecia muito mal iluminada em comparação com o sol quebrilhava lá fora. Corredores estreitos se estendiam entre as estantes que iam do chão aoteto. As prateleiras estavam entulhadas de mercadorias. No final, havia um balcão compilhas de livros de contabilidade, várias balanças e o que parecia ser uma lata paraguardar dinheiro. Atrás do balcão, havia mais prateleiras, uma porta e outro aviso:VIAJANTES!ESCOLHAM COM CUIDADO.NADA DE DEVOLUÇÕES.NADA DE REEMBOLSOS.NADA DE ARREPENDIMENTOS.— Tom é um cara confiante — Barda deduziu, olhando à sua volta.— Ora, nós poderíamos ter entrado aqui, roubado o que quiséssemos e já ter
  15. 15. saído.Para provar o seu ponto de vista, ele estendeu a mão na direção de umapequena lanterna na prateleira mais próxima. Quando tentou apanhá-la, porém, ela nãose moveu.Barda, atônito, ficou boquiaberto. Puxou com força, mas nada. Finalmente, aover Lief cair na gargalhada e Jasmine olhá-lo atentamente, desistiu. Mas, quandoprocurou tirar a mão do objeto, não conseguiu fazê-lo. Ele se esforçou ao máximo,blasfemando, mas seus dedos pareciam colados.— Você quer uma lanterna, amigo?Os três deram um salto, assustados, e viraram-se bruscamente. Um homemalto e magro, com um chapéu na parte de trás da cabeça, estava parado no balcão, osbraços cruzados e um largo sorriso zombeteira nos lábios.— O que é isso? — Barda gritou, zangado, tentando soltar a mão da lanterna.— É a prova de que Tom não é um cara confiante — falou o homem atrás dobalcão, e seu sorriso ficou ainda mais largo. Ele colocou uma de suas mãos de dedoslongos debaixo do balcão e aparentemente apertou algum botão escondido, pois derepente a mão de Barda foi libertada. Ele caiu para trás, chocando-se com força contraLief e Jasmine.— Agora, o que Tom pode fazer por vocês? — o homem indagou.— E, mais precisamente, o que Tom pode vender para vocês? — completou,esfregando as mãos.— Precisamos de uma corda forte e comprida — pediu Lief, vendo que Bardanada iria dizer. — E, também, algo para pés doloridos, se você tiver.— Se eu tiver? — Tom gritou. — É claro que eu tenho. Tudo para o viajante.Você não viu a placa?Ele saiu de trás do balcão e escolheu um rolo de corda fina em uma prateleira.— Esta é a melhor que tenho — disse. — Leve e muito resistente. Três moedasde prata e ela é sua.— Três moedas de prata por um pedaço de corda? — Barda explodiu.— Isso é um roubo!— Não é roubo, meu amigo, são negócios — Tom retrucou com calma, osorriso ainda no rosto. — Pois onde mais você vai achar uma corda como esta?Ele segurou uma das extremidades da corda e atirou-a para cima com ummovimento do pulso. Ela se desenrolou como uma cobra e prendeu-se firmemente aoredor de um dos caibros do telhado. Tom puxou-a para demonstrar a sua resistência.Em seguida, sacudiu o punho novamente; a corda se desenrolou do caibro e voltou paraas mãos dele, formando um rolo perfeito ao cair.
  16. 16. — Isso foi um truque — Barda resmungou, furioso.— Vamos levá-la — disse Lief, fascinado, ignorando o cotovelo do amigo emsuas costelas e o olhar desconfiado de Jasmine.— Sabia que você era um homem que sabe fazer bons negócios— Tom elogiou, esfregando as mãos. — Agora, o que mais posso lhesmostrar? Vocês não são obrigados a comprar.Lief olhou ao redor, excitado. Se essa loja tinha uma corda que agia como seestivesse viva, que outras maravilhas poderia conter?— Tudo! — ele exclamou. — Queremos ver tudo! Tom ficou radiante.Jasmine não estava nem um pouco à vontade. Era evidente que não gostavadaquela loja abarrotada, de teto baixo, tampouco gostava muito de Tom.— Filli e eu vamos esperar lá fora com Kree — anunciou. Virou-se e saiu.A próxima hora voou. Tom mostrou a Lief meias almofadadas para pésdoloridos, telescópios que possibilitavam enxergar além de esquinas, pratosautolimpantes e cachimbos que soltavam bolhas de luz. Mostrou máquinas que previamo tempo, pequenos círculos brancos que pareciam papel, mas que inchavam e setransformavam em pães enormes quando eram molhados com água, um machado quenunca perdia o fio, um saco de dormir que flutuava, pequenas pedras que acendiamfogo e mais uma centena de invenções surpreendentes.Lentamente, Barda esqueceu a desconfiança e começou a observar, fazerperguntas e participar. Quando Tom terminou, ele já tinha sido conquistado e estava tãoansioso quanto Lief para possuir quantas maravilhas daquelas pudesse. Havia coisastão fantásticas... coisas que tornariam a jornada mais fácil, segura e confortável.Finalmente, Tom cruzou os braços e deu um passo para trás, sorrindo paraeles.— Então, Tom lhes mostrou tudo. Agora, o que posso lhes vender?
  17. 17. Algumas das mercadorias de Tom, como o saco de dormir flutuante, custavammais dinheiro do que Barda e Lief possuíam, mas havia outras coisas que eles tinhamcondições de comprar, e foi difícil decidir.No final, além da corda que se enrolava sozinha, eles escolheram um pacotede "Nada de Forno" — as rodelas brancas que se expandiam e se transformavam empães — um frasco de "Puro e Claro" — um pó que tornava qualquer água potável — ealgumas meias almofadadas. Era uma quantidade decepcionantemente pequena deartigos, e eles tiveram de abrir mão de vários outros muito mais interessantes, inclusiveum frasco das pedras de acender fogo e o cachimbo que formava bolhas de luz.— Se tivéssemos mais dinheiro! — Lief exclamou.— Ah! — retrucou Tom, empurrando o chapéu um pouco mais para trás. —Bem, talvez possamos negociar. Além de vender, eu também compro. — E lançou umolhar astuto para a espada de Lief.Contudo, o garoto balançou a cabeça numa firme negativa. Por mais quequisesse as mercadorias de Tom, não desistiria da espada que o pai fizera para ele nasua forja.— O seu casaco está um pouco manchado — Tom prosseguiu casualmente,dando de ombros. — Mas ainda assim é possível que eu lhe dê algo por ele.Desta vez Lief sorriu. Por maior que fosse a indiferença que Tom aparentava,era evidente que ele sabia muito bem que o casaco tecido pela mãe do garoto possuíapoderes especiais.— Este casaco pode deixar quem o usa quase invisível — contou. — Elesalvou as nossas vidas mais de uma vez. Acho que também não está à venda.— Uma pena — Tom suspirou. — Então, está bem. — E começou a recolocaras pedras de acender fogo e o cachimbo de luz no lugar.Nesse momento, o sino da porta tilintou e um estranho entrou. Ele era tão altoquanto Barda e tinha um aspecto tão imponente quanto o dele. Tinha longos cabelosnegros emaranhados e uma barba preta mal-cuidada. Uma cicatriz irregular
  18. 18. marcava-lhe uma das faces, formando uma mancha branca na pele morena.Lief percebeu que Jasmine esgueirou-se para dentro por trás do viajante. Elapermaneceu parada de encontro à porta, a mão na adaga presa ao cinto. Era evidenteque estava preparada para problemas.O estranho acenou brevemente para Lief e Barda, apanhou um rolo de cordade uma prateleira, passou por eles e se inclinou sobre o balcão empoeirado.— Quanto é? — perguntou a Tom, bruscamente.— Para o senhor, uma moeda de prata — Tom respondeu.Lief arregalou os olhos. Tom lhes dissera que o preço da corda era trêsmoedas de prata. Ele abriu a boca para protestar, mas sentiu a mão de Barda em seupulso, alertando-o. Lief olhou para cima e percebeu que o olhar do companheiroencontrava-se fixo no balcão, perto de onde estavam pousadas as mãos do estranho.Havia uma marca ali. O recém-chegado a havia desenhado na poeira.O sinal secreto de resistência ao Senhor das Sombras! O sinal que haviamvisto rabiscado nas paredes tantas vezes em seu trajeto para o Lago das Lágrimas! Aodesenhá-lo no balcão, o homem dera um aviso a Tom e este reagira abaixando o preçoda mercadoria.O homem jogou uma moeda de prata na mão de Tom e, ao fazê-lo, a mangade seu casaco casualmente apagou a marca. Tudo aconteceu muito depressa. Se Liefnão tivesse visto a marca com os próprios olhos, não teria acreditado que ela estiveraali.— Ouvi boatos sobre estranhos acontecimentos no Lago das Lágrimas etambém em todo o território ao longo do riacho — o estranho comentou, despreocupado,quando se virou para sair. — Ouvi dizer que Thaegan é coisa do passado.— É mesmo? — Tom comentou com naturalidade. — Não sei. Sou apenas umpobre comerciante e não sei nada sobre isso. Que eu saiba, os espinheiros na beira daestrada continuam tão selvagens quanto antes.— Os espinheiros não são resultado de feitiçaria, mas de uma centena de anosde pobreza e negligência — o estranho comentou em tom de desprezo. — Osespinheiros do rei de Del, como eu e muitas outras pessoas os chamam.Lief sentiu um peso no coração. Ao fazer o sinal secreto, o estranho provara
  19. 19. que se dedicava a resistir ao Senhor das Sombras, mas estava claro que odiava alembrança dos reis e rainhas de Deltora tanto quanto o próprio Lief uma vez odiara e osculpava pelas desventuras do reino.Ele sabia que nada podia dizer, mas não pôde evitar olhar fixamente para ohomem quando este passou. O estranho retribuiu-lhe o olhar sem sorrir e saiu da loja,roçando em Jasmine ao passar pela porta.— Quem era ele? — Barda perguntou a Tom num sussurro.— Não mencionamos nomes na loja de Tom, a não ser o dele próprio, senhor— Tom respondeu com calma, ajeitando o chapéu na cabeça com firmeza. — Nessestempos difíceis, é melhor assim.Lief ouviu a porta tilintar outra vez e, ao virar-se, viu Jasmine sair. A ameaçade perigo havia passado e ela estava mais tranqüila, por isso decidiu ficar ao ar livremais uma vez.Talvez Tom tenha percebido que Barda e Lief viram e entenderam a marcaque o estranho desenhara no balcão, pois de repente apanhou as pedras de acenderfogo e o cachimbo de luz e acrescentou-os ao pequeno conjunto de mercadorias.— Sem custo extra — anunciou quando o fitaram, surpresos. — Como vocêsviram, Tom sempre fica satisfeito em ajudar um viajante.— Um viajante que esteja do lado certo — Barda retrucou, sorrindo.Tom, porém, ergueu levemente as sobrancelhas, como se não tivesse idéia doque Barda dizia, e estendeu a mão para receber o pagamento.— Foi um prazer servi-los, senhores — disse ele quando lhe entregaram odinheiro. Contou as moedas rapidamente, assentiu e guardou-as na caixa.— E o nosso brinde? — Lief quis saber, ousado. — O aviso na vitrine diz...— Ah, é claro — Tom lembrou. — O brinde. — Ele se inclinou e remexeudebaixo do balcão. Ao se levantar, segurava uma pequena caixa achatada de lata queentregou a Lief.Ele examinou o objeto. A lata cabia facilmente na palma de sua mão e pareciabastante velha. As letras desbotadas da tampa diziam simplesmente:DEVORADORES DE ÁGUAUSEM COM CUIDADO
  20. 20. — O que é isso? — Lief indagou, confuso.— As instruções estão no verso — informou Tom.Então o homem parou de falar, como se prestasse atenção em algo. Derepente, saiu de trás do balcão e disparou pela porta dos fundos da loja.Na pressa, deixou a porta aberta, e Lief e Barda o seguiram. Para surpresadeles, a porta conduzia diretamente a um pequeno campo rodeado por uma cercabranca, completamente escondido da estrada pelas árvores altas que o cercavam. Trêscavalos cinzentos encontravam-se próximos à cerca e, sentada sobre ela, afagando-os,estava Jasmine, com Kree empoleirado em seu ombro.Tom caminhou a passos largos até a cerca, agitando os braços. — Não toquenos animais, por favor! — ele gritou. — Eles são valiosos.— Eu não os estou machucando — Jasmine se defendeu, indignada, masobedeceu. Os animais resfolegaram, desapontados.— Cavalos! — Barda sussurrou para Lief. — Se tivéssemos cavalos... Nossajornada seria muito mais fácil.Lief assentiu, movendo lentamente a cabeça. Ele nunca montara antes e tinhacerteza de que tampouco Jasmine o fizera, mas certamente eles poderiam aprenderdepressa. No lombo de um cavalo, poderiam escapar do inimigo e até mesmo dosGuardas Cinzentos.— Você nos venderia os seus animais? — ele perguntou, quando seaproximaram de Tom. — Por exemplo, se lhe devolvêssemos todas as mercadorias quecompramos, isso seria suficiente...— Nada de devoluções — Tom disparou, áspero. — Nada de reembolsos,nada de arrependimentos.Lief mostrou-se profundamente desapontado.— Do que você está falando? — Jasmine retrucou. — Que negócio é esse de"comprar" e "vender"?— Os seus amigos gostariam de ter alguns animais para montar, senhorita —Tom lhe explicou, fitando-a, surpreso, como se Jasmine fosse uma criança. — Mas elesnão têm mais nada para me dar em troca. Gastaram todo o dinheiro em outras coisas.E... — ele olhou de relance para o casaco e a espada de Lief — não querem trocar maisnada.Jasmine assentiu, devagar, procurando entender.— Talvez, então, eu tenha algo para lhe dar em troca — ela disse. — Tenho osmeus tesouros.Ela começou a remexer nos bolsos, de onde tirou uma pena, um pedaço debarbante enrolado, algumas pedras, a segunda adaga e o pente de dentes quebrados
  21. 21. que estava em seu ninho nas Florestas do Silêncio. Tom a observava, sorrindo esacudindo a cabeça.— Jasmine! Nenhuma dessas coisas é... — Lief começou, sentindo-se umtanto envergonhado.E, então, ficou boquiaberto. Barda conteve um grito e Tom arregalou os olhos.Jasmine havia apanhado uma bolsinha e a estava segurando de ponta-cabeça,indiferente. De dentro dela, saíam moedas de ouro que saltavam brilhantes em seu colo."Mas é claro", pensou Lief, depois de passado o susto. Jasmine havia roubadoos guardas cinzentos, vítimas dos horrores das florestas do silêncio. Lief vira umagrande quantidade de moedas de ouro e prata entre os tesouros que ela guardava noninho do alto da árvore, mas não se dera conta de que ela trouxera algumas quandodeixou as florestas para juntar-se a eles. Jasmine tinha se esquecido completamentedas moedas até aquele momento e, por não representarem nada mais do que belasrecordações, ela não as mencionara antes.Algumas moedas caíram no chão. Barda apressou-se em apanhá-las, masJasmine mal olhou para elas. Ela observava os olhos brilhantes de Tom. Talvez nãotivesse compreendido o processo de compra e venda, mas reconhecia a ganânciaquando a via.— Você gosta disso? — ela perguntou, erguendo a mão cheia de moedas.— De fato, eu gosto, senhorita — Tom respondeu, recuperando-se. — E gostomuito.— Então, vai trocar os cavalos por elas?Uma expressão estranha percorreu o rosto de Tom — uma expressão cheia dedor, como se a sua cobiça pelo ouro estivesse em luta com outro sentimento. Como seele estivesse calculando, considerando os riscos.Finalmente, ele pareceu chegar a uma decisão.
  22. 22. — Não posso vender os cavalos — informou, pesaroso. — Eles foramprometidos a outras pessoas. Mas... tenho algo melhor. Se vocês me acompanharem...Tom conduziu-os a um galpão numa das extremidades do campo. Abriu aporta e sinalizou para que entrassem.Juntas, num canto, mastigando feno, havia três criaturas de aparência muitoestranha. O tamanho era praticamente o mesmo dos cavalos, mas tinham pescoçoslongos, cabeças muito pequenas, orelhas estreitas e caídas e, o que era maissurpreendente, apenas três patas — uma grossa na frente e duas mais finas atrás. Ocorpo era coberto por manchas irregulares pretas, marrons e brancas como se tivessemsido borrifadas com tinta e, em vez de ferraduras, tinham pés grandes, chatos e peludos,cada um com dois dedões largos.— Que animais são esses? — Barda perguntou, abismado.— Ora, são muddlets — gritou Tom, dando um passo e virando um dos animaisna direção deles. — E excelentes exemplares da raça. Corcéis feitos para um rei,senhor. Exatamente o que você e seus companheiros necessitam.Barda, Lief e Jasmine entreolharam-se, hesitantes. A idéia de poder cavalgarem vez de caminhar era muito atraente, mas os muddlets eram muito estranhos.— Eles se chamam Noodle, Zanzee e Pip — informou Tom, e deu um tapinhaafetuoso na anca de cada um dos animais. Estes continuaram a ruminar o feno,completamente impassíveis.— Eles parecem bastante mansos — Barda disse, após um momento.— Mas eles correm? São velozes?— Velozes? — Tom exclamou, erguendo as mãos e revirando os olhos.— Meu amigo, eles são tão velozes quanto o vento! E também são fortes,muito mais fortes do que qualquer cavalo. E leais... ah, são famosos por sua lealdade.Além disso, comem muito pouco e se desenvolvem com trabalho duro. Muddlets são asmontarias preferidas por todos nestas bandas. Mas é difícil consegui-los. Muito difícil.— Quanto você quer por eles? — Lief perguntou, bruscamente.— Que tal vinte e uma moedas de ouro pelos três? — Tom sugeriu,esfregando as mãos.— Que tal quinze? — Barda rugiu.— Quinze? — Tom pareceu chocado. Por esses esplêndidos animais de quegosto como se fossem meus próprios filhos? Você está querendo roubar o pobre Tom?Quer que ele se transforme num mendigo?Jasmine pareceu preocupada, mas a expressão de Barda não se alterou. —Quinze — ele repetiu.— Dezoito! — Tom rebateu, erguendo as mãos. — Com selas e arreios. Ora...
  23. 23. há preço mais justo que esse?Barda lançou um olhar rápido para Lief e Jasmine e ambos acenaramvigorosamente.— Muito bem — respondeu.E assim a transação foi concluída. Tom apanhou as selas e os arreios e ajudouLief, Barda e Jasmine a carregar os muddlets com suas mochilas. Em seguida, conduziuos animais para fora do galpão. Eles caminhavam com um estranho bambolear, a patada frente adiantando-se e as duas traseiras gingando juntas logo depois.Tom abriu o portão da cerca e eles saíram do campo, observados pelos trêscavalos cinzentos. Lief sentiu uma pontada de arrependimento. No calor da negociaçãocom Tom, esquecera-se dos cavalos. Como seria bom sair cavalgando neles e nãonessas criaturas estranhas e saltitantes."Tudo bem", pensou ele, afagando a traseira larga de Noodle. Em breve nosacostumaremos a estes animais. Não há dúvidas de que no final de nossa jornadateremos nos afeiçoado muito a eles.Mais tarde, ele se lembraria desse pensamento — com amargura.Quando chegaram à frente da loja, Tom segurou as rédeas dos muddletsenquanto os três companheiros montavam em seus lombos.Após discutirem, Jasmine ficou com Zanzee; Lief, com Noodle; Barda, com Pip,embora não houvesse muito o que escolher, pois os animais eram muito parecidos.As selas cabiam exatamente atrás dos pescoços dos animais, onde seuscorpos eram mais estreitos. A bagagem foi amarrada atrás, sobre suas largas ancas.Era um arranjo extremamente confortável, mas, ao mesmo tempo, Lief sentiu-se umpouco ansioso. O chão parecia muito longe e ele estranhava as rédeas nas mãos. Derepente, perguntou-se se aquela tinha sido uma boa idéia, afinal, embora, é claro,fizesse o possível para não demonstrar as suas dúvidas.Os muddlets resfolegaram com prazer. Estavam claramente satisfeitos de sairao ar livre e esperavam ansiosamente pelo exercício.— Segurem firme as rédeas — disse Tom. — Talvez eles fiquem um poucoagitados no início. Digam Brix quando quiserem que eles andem e Snuff para que parem.Falem alto, pois eles não ouvem muito bem. Amarrem-nos bem quando pararem paraque eles não se percam. E isso é tudo.Lief, Barda e Jasmine assentiram.— Mais uma coisa... — Tom murmurou, mexendo nas unhas. — Eu não lhesperguntei para onde vão, pois não me interessa. Saber das coisas é perigoso nestestempos difíceis. Mas vou lhes dar um conselho. É um excelente conselho e eu sugiroque vocês o sigam. Daqui a cerca de meia hora vocês vão chegar a uma bifurcação na
  24. 24. estrada. Sigam pelo caminho da esquerda, a todo custo, por mais que se vejamtentados a ir pela direita. Agora... boa viagem!Ao dizer essas últimas palavras, ergueu uma das mãos, bateu nas ancas deNoodle e gritou "Brix!" Com um movimento cambaleante, Noodle começou a andar,seguido de perto por Pip e Zanzee. Kree pairava sobre eles, grasnando.— Lembrem-se -Tom gritou atrás deles. — Segurem firme as rédeas! Sigampelo caminho da esquerda!Lief gostaria de ter acenado para mostrar que tinha ouvido, mas não ousousoltar as rédeas, pois Noodle estava acelerando o passo. Suas orelhas caídas eramarremessadas para trás pelo vento e suas patas potentes saltavam para a frente.Lief nunca havia visto o mar, pois, antes de ele nascer, o Senhor das Sombrashavia proibido a presença dos cidadãos de Del na costa, mas imaginou que a sensaçãode cavalgar nas costas de um agitado muddlet devia ser muito parecida com a denavegar num dia de tempestade. A tarefa exigia toda a sua atenção.Após cerca de dez minutos, o entusiasmo dos animais diminuiu e elespassaram a andar num ritmo regular e saltitante. Agora, Noodle fazia com que Lief selembrasse de um cavalo de balanço que teve quando criança, não mais de um barco emum mar revolto.Aquilo não era tão difícil, pensou. Na verdade, era fácil. Ele se sentia orgulhosoe satisfeito. O que seus amigos diriam se pudessem vê-lo naquele momento?A estrada era larga e os companheiros passaram a cavalgar lado a lado.Embalado pelo movimento oscilante, Filli se ajeitou para dormir dentro do casaco deJasmine e, agora que sabia que tudo estava bem, Kree voava à frente, mergulhando noar vez ou outra para apanhar um inseto. Jasmine cavalgava em silêncio, a expressãopensativa. Barda e Lief conversavam.— Estamos viajando num ritmo muito bom — Barda concluiu com satisfação.— Estes muddlets são mesmo excelentes montarias. Só não entendo por que nuncaouvi falar deles antes. Nunca vi um deles em Del.— Tom disse que é difícil consegui-los — respondeu Lief. — Sem dúvida, aspessoas desta parte de Deltora os conservam para si mesmas. E Del sabe pouco sobreo que acontece no interior desde a chegada do Senhor das Sombras.Jasmine fitou-o rapidamente e pareceu prestes a falar, mas então fechou aboca com firmeza e não disse nada. Sua expressão estava carrancuda.Eles prosseguiram em silêncio por alguns instantes e então, finalmente,Jasmine decidiu se manifestar.— Esse lugar para onde vamos, a Cidade dos Ratos... Não sabemos nadasobre ela, sabemos?
  25. 25. — Somente que é cercada por muros, parece estar deserta e fica isolada nacurva de um rio chamado de Largo — disse Barda. — Ela foi vista por viajantes de longe,mas nunca ouvi uma palavra sequer sobre alguém que tenha atravessado os seusmuros.— Talvez ninguém que tenha entrado tenha sobrevivido para contar a suahistória — disse Jasmine, sombria. — Já pensou nisso?Barda deu de ombros.— A cidade dos ratos tem uma reputação maligna, e um Ak-Baba foi visto noscéus acima dela na manhã em que o senhor das sombras invadiu Del. Provavelmente,uma das pedras do cinturão foi escondida ali.— Então, precisamos ir até lá, mas sabemos muito pouco sobre o que iremosencontrar. E não temos como nos preparar ou pensar em algum plano — concluiuJasmine, com a voz dura.— Não nos preparamos para o Lago das Lágrimas nem para as Florestas doSilêncio — Lief argumentou com firmeza. — E mesmo assim fomos bem-sucedidos emambos os lugares. Da mesma forma como seremos neste.— Palavras corajosas! — Jasmine disse, jogando a cabeça para trás. —Talvez você tenha esquecido que nas Florestas do Silêncio você teve a mim para ajudare que no Lago das Lágrimas tínhamos Manus para nos guiar. Desta vez é diferente.Estamos sozinhos, sem conselhos ou ajuda.As palavras francas da companheira irritaram Lief, e ele percebeu que haviamirritado Barda também. Talvez ela estivesse certa, mas por que desanimá-los?Ele se afastou dela e fitou o caminho à sua frente. Os companheirosprosseguiram em silêncio.
  26. 26. Não muito tempo depois, a estrada se dividiu em duas, conforme Tom lhesprevenira. Havia uma placa no centro da bifurcação, um lado apontando para aesquerda; o outro, para a direita.— Rio Largo! — Lief exclamou. — É o rio ao lado do qual foi construída aCidade dos Ratos. Puxa, que sorte!Entusiasmado, começou a virar a cabeça de Noodle para a direita.— Lief, o que você está fazendo? — Jasmine protestou. — Devemos tomar ocaminho da esquerda. Lembre-se do que Tom falou.— Você não percebe, Jasmine? Tom nunca sonharia que iríamos à Cidade dosRatos por vontade própria — Lief olhava para ela por sobre o ombro e falava, enquantoimpelia Noodle a prosseguir. — Portanto, é natural que tenha nos advertido sobre essecaminho. Mas, na verdade, é por ele que devemos seguir. Venha!Barda e Pip já seguiam Lief. Ainda indecisa, Jasmine permitiu que Zanzee acarregasse para junto dos dois.A trilha era tão larga quanto a outra, e muito boa também, embora fossepossível ver marcas de rodas de carroças. À medida que avançavam, o terreno que aladeava ficava cada vez mais verde e exuberante. Não havia áreas ressequidas nemárvores mortas. Frutas cresciam à vontade em todos os lugares e abelhas zumbiam aoredor das flores, as patas pesadas e carregadas de pólen.Na extrema direita, viam-se colinas arroxeadas envoltas em névoa e, àesquerda, o verde de uma floresta. Mais adiante, a estrada fazia várias curvas e, olhadaa distância, assemelhava-se a uma fita. O ar era fresco e doce.Os muddlets fungaram, ansiosos, e começaram a acelerar.— Eles estão gostando do lugar — Lief riu, afagando o pescoço de Noodle.— E eu também — Barda acrescentou. — Como é bom finalmente podercavalgar por um campo fértil. Pelo menos esta terra não foi destruída.Eles passaram por um bosque e notaram que, não muito longe dali, umaestrada secundária saía da principal em direção às colinas avermelhadas.Despreocupado, Lief perguntou-se para onde conduziria.De repente, Noodle emitiu um som estranho e excitado, semelhante a umlatido, e esticou o pescoço, rebelando-se contra os arreios. Pip e Zanzee tambémestavam agitados e começaram a saltar para a frente, avançando grandes distâncias a
  27. 27. cada passo. Lief era jogado e sacudido na sela e precisou de todas as forças para nãocair.— O que aconteceu com eles? — gritou, enquanto o vento lhe atingia o rosto.— Eu não sei — Barda respondeu. Ele tentava fazer com que Pip diminuísse oritmo, mas o animal não lhe dava a menor atenção. — Snuff! — ordenou. Mas Pip sófazia correr mais depressa, o pescoço estendido, a boca aberta e ansiosa.Jasmine gritou quando Zanzee estendeu a cabeça para a frente,arran-cando-lhe os arreios das mãos com violência. Ela escorregou para o lado e, porum momento assustador, Lief pensou que ela iria cair, porém a garota conseguiuenvolver o pescoço de sua montaria com os braços e colocar-se sobre a sela outra vez.Ali permaneceu agarrada, carrancuda, a cabeça curvada por causa do vento, enquantoZanzee continuava em sua disparada, espalhando as pedras da estrada atingidas porsuas patas voadoras.Não havia nada que eles pudessem fazer. Os muddlets eram fortes — fortesdemais para eles. Os animais se dirigiram com estrondo para o ponto em que a trilha sebifurcava, saíram da estrada principal numa nuvem de poeira e dispararam para cima,na direção das enevoadas colinas avermelhadas.Com os olhos lacrimejantes e a voz rouca de tanto gritar, Lief viu as colinas seaproximando rapidamente, envoltas na névoa avermelhada em meio à qual vislumbrouum vulto negro. Ele piscou e apertou bem os olhos, tentando ver do que se tratava. Ovulto se aproximava cada vez mais...E, então, sem mais nem menos, Noodle parou de repente. Lief foi atirado porcima da cabeça do animal, seu próprio grito de medo ecoando nos ouvidos. Ele malpôde ouvir os gritos de Jasmine e Barda quando estes também foram arremessados desuas montarias. Caiu de encontro ao solo e perdeu os sentidos.Todo o corpo de Lief doía. Algo cutucava o seu ombro e ele tentou abrir osolhos. Parecia que estavam grudados, mas conseguiu abri-los depois de forçá-los umpouco. Um vulto vermelho e sem rosto assomava sobre ele. Lief tentou gritar, mas umgemido estrangulado foi tudo o que escapou de sua garganta.O vulto vermelho recuou.— Este está acordado — disse uma voz.Uma mão se aproximou segurando um copo de água. Lief ergueu a cabeça ebebeu sofregamente. Aos poucos, percebeu que estava deitado ao lado de Barda eJasmine no chão de um grande salão. Muitas tochas queimavam ao redor das paredesde pedra, iluminando o aposento e espalhando sombras bruxuleantes sem, contudo,conseguir aquecer o ar frio. Havia uma imensa lareira, num canto, cheia de grandespedaços de madeira, mas o fogo estava apagado.
  28. 28. Um cheiro penetrante de sabão misturava-se ao das tochas acesas. Talvez ochão tivesse sido lavado recentemente, pois as pedras sobre as quais Lief seencontrava deitado estavam úmidas e não se via um grão de poeira sequer.O aposento estava cheio de pessoas. Elas tinham as cabeças raspadas evestiam estranhos conjuntos negros apertados e botas altas. Todas fitavam fixamenteos companheiros no chão, fascinadas e atemorizadas.A pessoa que ofereceu a água se afastou e a alta figura vermelha que tantoassustara Lief quando este recuperou a consciência retornou ao seu campo de visão.Naquele momento, ele pôde ver que se tratava de um homem vestido totalmente devermelho. Até mesmos as suas botas eram vermelhas. As mãos eram cobertas porluvas e a cabeça estava envolta numa faixa apertada que lhe cobria o nariz e a boca,deixando espaço somente para os olhos. Um longo chicote feito de couro trançadopendia-lhe da cintura e se arrastava atrás dele, emitindo um som sibilante quando ohomem se movia.Ele constatou que Lief voltara a si e o observava. — Noradzeer — murmurou,passando as mãos por seu corpo, dos ombros até os quadris, o que certamente eraalgum tipo de saudação.Lief queria certificar-se de que aquelas pessoas, não importava quem fossem,soubessem que ele era amigável. Esforçou-se para sentar-se e tentou imitar o gesto e apalavra.As pessoas de preto murmuraram e também passaram as mãos em seuscorpos de cima a baixo, sussurrando "Noradzeer, noradzeer, noradzeer...", até que assuas vozes se fizeram ouvir em todo o aposento.Lief olhou-os fixamente, sua cabeça parecendo flutuar.— Que... que lugar é este?— Aqui é Noradz — disse o homem de vermelho, a voz abafada pelo tecidoque lhe cobria a boca e o nariz. — Visitantes não são bem-vindos aqui. Por que vieram?— Não era... a nossa intenção — Lief contou. — Nossas montarias dispararame nos desviaram do caminho. Nós caímos... — Ele fez uma careta ao sentir umapontada atrás dos olhos.Jasmine e Barda também estavam se mexendo e receberam água. O vultovermelho se virou para eles e os cumprimentou da mesma forma que a Lief. Então falounovamente.— Vocês estavam caídos do lado de fora de nossos portões e seus pertencesestavam espalhados à sua volta — informou ele, com uma voz fria e desconfiada. —Não vimos nenhum animal.— Então devem ter fugido — Jasmine exclamou com impaciência.
  29. 29. — É claro que nós não iríamos nos jogar no chão com tanta força a ponto deficarmos inconscientes.O homem de vermelho se ergueu e agitou o chicote de modo ameaçador.— Cuidado com a língua, ser impuro — disparou. — Fale com respeito! Nãosabe que sou Reece, primeiro entre os Nove Ra-Kacharz?Jasmine recomeçou a falar, mas Barda ergueu a voz, encobrindo-lhe aspalavras.— Sentimos muito, senhor Ra-Kachar — desculpou-se em voz alta.— Somos estranhos e não conhecemos os seus costumes.— Os Nove Ra-Kacharz fazem o povo seguir as leis sagradas da pureza, dacautela e do dever — anunciou em tom monótono. — Por isso, a cidade está segura.Noradzeer.— Noradzeer — as pessoas murmuraram, curvando as cabeças calvas etocando os corpos dos ombros aos quadris.Barda e Lief fitaram-se rapidamente. Ambos pensaram que, quanto antespudessem deixar aquele estranho lugar, mais felizes seriam.
  30. 30. Jasmine ergueu-se com dificuldade e olhou ao redor do grande aposento,irritada. As pessoas de preto murmuravam e se afastavam dela como se suas roupasmaltrapilhas e seus cabelos emaranhados pudessem contaminá-los.— Onde está Kree? — ela quis saber.— Há outro de vocês? — Reece indagou bruscamente, virando o rosto paraela.— Kree é um pássaro. — Lief explicou depressa, enquanto ele e Bardatambém se levantavam. — Um pássaro preto.— Kree deve estar esperando por você lá fora, Jasmine — Barda garantiu emvoz baixa. — Agora, fique quieta. Filli está em segurança, não é?— Sim. Mas ele está escondido debaixo do meu casaco e não vai sair —Jasmine murmurou, de mau humor. — Ele não gosta daqui, e eu também não.Barda virou-se para Reece e fez uma reverência.— Estamos muito gratos por sua atenção para conosco, senhor. — disse emvoz alta. — Mas pedimos a sua permissão para continuarmos a nossa jornada.— É hora de comermos, e um prato foi preparado para vocês. — Reece avisou,os olhos negros percorrendo-lhes os rostos como se os desafiasse a contestá-lo. — Acomida já foi abençoada pelos Nove. Depois de abençoada, deve ser consumida emuma hora. Noradzeer.— Noradzeer — repetiram as pessoas com reverência.Antes que Barda pudesse dizer mais alguma coisa, gongos começaram a soare duas grandes portas no final do aposento se abriram, revelando uma sala de jantar.Oito figuras altas, vestidas de vermelho como Reece, estavam paradas na entrada,quatro de cada lado. Eram os outros oito Ra-Kacharz, deduziu Lief.Longos chicotes de couro pendiam dos pulsos dos Ra-Kacharz. Todos muitosérios, observavam as pessoas de preto passarem por eles.A cabeça de Lief doía. Ele nunca sentira tão pouca fome em sua vida. Mais quetudo, queria sair daquele lugar, mas estava claro que ele, Barda e Jasmine não teriam
  31. 31. permissão de partir antes de comer.Relutantes, eles atravessaram a sala de jantar, tão limpa e asseada quanto ooutro aposento e cuja generosa iluminação fazia com que todos os cantos ficassemvisíveis. Mesas simples, altas e com pernas finas de metal, dispostas em fileiras,ocupavam o aposento. Em cada lugar, havia um prato e uma caneca, mas não haviatalheres, tampouco cadeiras. Aparentemente, o povo de Noradz comia com as mãos eem pé.Na extremidade do salão, um conjunto de degraus conduzia a um estradoelevado onde havia uma outra mesa. Lief imaginou que era ali que os Ra-Kacharz iriamcomer, pois do alto poderiam ver tudo o que ocorria embaixo.Reece conduziu Lief, Barda e Jasmine à mesa deles, que fora posta um poucoafastada das demais. Em seguida, reuniu-se aos outros Ra-Kacharz que, como Liefimaginara, aguardavam em pé junto à mesa no estrado, voltados para a multidão.Quando assumiu o seu lugar no centro, Reece ergueu as mãos enluvadas einspecionou o aposento.— Noradzeer! — saudou, deslizando as mãos dos ombros aos quadris.— Noradzeer! — respondeu o povo.Com um único movimento, todos os Ra-Kacharz afastaram a faixa que lhescobria a boca e o nariz. Imediatamente, os gongos soaram mais uma vez e maispessoas vestidas de preto entraram no salão carregando enormes bandejas cobertas.— Não consigo imaginar uma maneira mais desagradável para fazer umarefeição! — Jasmine sussurrou. Ela era a menor pessoa no aposento e o seu queixo malalcançava o tampo da mesa.Uma copeira de mãos trêmulas aproximou-se e depositou sua carga sobre amesa deles. Seus olhos azuis demonstravam medo, pois servir os estranhos eraclaramente assustador para ela.— Não há crianças em Noradz? — Lief lhe perguntou. — As mesas são tãoaltas.— As crianças comem somente na sala de treinamento — a serva respondeuem voz baixa. — Precisam aprender os ritos sagrados antes de poder assumir os seuslugares no salão. Noradzeer.Ela retirou a tampa da bandeja e os três companheiros quase gritaram deespanto. A bandeja estava dividida em três partes. A maior exibia uma série deminúsculas salsichas e outras carnes dispostas em palitos de madeira com várioslegumes de diversas cores e formatos. A segunda continha vários pastéis dourados eapetitosos e pãezinhos brancos e macios. A terceira e menor estava repleta de frutasem calda, bolinhos com cobertura cor-de-rosa adornados com flores de açúcar e
  32. 32. estranhas sementes redondas e marrons.Barda apanhou um dos doces e fitou-o fixamente, como que espantado.— Será que isso é... chocolate? — exclamou. Empurrou o doce para dentro daboca e fechou os olhos. — É! — murmurou alegremente. — Puxa, não como chocolatedesde que era guarda do palácio! Há mais de dezesseis anos!Lief nunca vira alimentos tão sofisticados na vida e, de repente, apesar de tudo,constatou que estava morrendo de fome. Apanhou um dos palitos e começou asaborear a carne e os legumes. A comida estava deliciosa! Era diferente de tudo queprovara antes.— Isso é muito bom! — murmurou de boca cheia para a copeira. Ela olhou paraele de relance, satisfeita, mas um tanto confusa. Naturalmente, estava acostumada àcomida de Noradz e não conhecia nenhum outro tipo de alimento.Nervosa, ela estendeu a mão para levar a pesada tampa embora. Ao fazê-lo,seus dedos tremeram e a borda da tampa atingiu um dos pãezinhos, tirando-o do lugar.O pão rolou pela mesa e, antes que Lief ou ela pudessem apanhá-lo, caiu no chão.A garota gritou — um grito alto e estridente de terror. No mesmo momento,ouviram-se urros de raiva vindos da mesa sobre o estrado. Todos no aposento ficaramparalisados.— Comida foi derrubada — rugiram os Ra-Kacharz em uníssono. — Recolhama comida do chão! Prendam a ofensora! Prendam Tira!Várias pessoas na mesa mais próxima aos visitantes viraram-se. Uma delasdisparou em direção ao pãozinho caído, apanhou-o e ergueu-o. As demais agarraram acopeira, que gritou novamente quando começaram a arrastá-la para a mesa dos Nove.Reece foi até os degraus e desenrolou o chicote.— Tira derrubou comida no chão — trovejou ele. — Derrubar comida é um atomaligno. Noradzeer. O mal deve ser expulso com cem chicotadas. Noradzeer.— Noradzeer! — repetiram as pessoas de preto ao redor das mesas. Elasobservaram Tira, assustada e soluçando, ser atirada aos pés de Reece. Ele ergueu ochicote...— Não! — Lief deixou a mesa como um raio. — Não a castigue! Fui eu! A culpaé minha!— Você?! — Reece trovejou, baixando o chicote.— Sim — confirmou Lief. — Eu fiz com que a comida caísse. Sinto muito. —Ele sabia que estava sendo muito audacioso em assumir a culpa, mas, por maisestranhos que fossem os costumes desse povo, não suportaria ver a garota ser punidapor um mero acidente.Os demais Ra-Kacharz cochicharam entre si. O que se encontrava mais perto
  33. 33. de Reece aproximou-se ainda mais e lhe disse algo. Houve um momento de silêncio,quebrado apenas pelos soluços da garota, caída no chão. E, então, Reece encarou Liefmais uma vez.— Você é um intruso impuro — disse. — Você desconhece as normas. OsNove decidiram que será poupado do castigo.Sua voz era severa e era evidente que ele não aprovava a decisão, mas o seuvoto tinha sido superado pelos dos demais.Com um suspiro de alívio, Lief voltou à mesa em silêncio, enquanto Tira seerguia do chão com esforço e fugia do aposento aos tropeços.Barda e Jasmine cumprimentaram-no com um erguer de sobrancelhas.— Essa foi por pouco — Barda murmurou.— Valeu a pena correr esse risco — Lief respondeu alegremente, embora ocoração ainda batesse forte por causa da recente escapada. — Era provável que elesnão punissem um estranho da mesma forma que a um deles — pelo menos não naprimeira ocasião.Jasmine deu de ombros. Ela tirara alguns legumes de um dos palitos esegurava-os perto do ombro, tentando convencer Filli a sair e comer.— Deveríamos sair daqui o mais rápido possível — disse ela. — Essaspessoas são muito estranhas. Quem sabe que outras leis excêntricas... Ah! Filli, aí estávocê.Tentada pelo aroma dos petiscos, a pequena criatura finalmente se aventuroua tirar o focinho de baixo da gola do casaco de Jasmine. Com cuidado, ela foi até oombro da dona, pegou um pedaço do legume apetitoso e começou a mordiscá-lo.De repente, ouviu-se um som estranho e abafado na mesa do estrado. Liefolhou para cima e, desconcertado, percebeu todos os Ra-Kacharz apontando paraJasmine com as expressões transformadas em máscaras de terror.As demais pessoas que se encontravam no aposento viraram-se para olhar.Houve um momento de silêncio assustado e, então, subitamente, encaminharam-secom passos pesados até a porta, gritando aterrorizados.— A maldade! — A voz de Reece ecoou do estrado. — Os impuros trouxerama maldade para os nossos aposentos. Estão tentando nos destruir. Vejam! A criaturarasteja ali, em seu corpo! Mate-a! Mate-a!Os Nove Ra-Kacharz correram do estrado e investiram contra Jasmine comose fossem um só, usando seus chicotes para abrir caminho entre a multidão em pânico.— É Filli! — Barda exclamou. — Eles estão com medo de Filli.— Mate-a! — os Ra-Kacharz berraram, já muito próximos. Barda, Lief eJasmine olharam ao redor, desesperados. Não havia para onde fugir. Várias pessoas
  34. 34. empurravam-se em todas as portas, tentando passar.— Corra, Filli! — Jasmine gritou, atemorizada. — Corra! Esconda-se!Ela atirou Filli ao chão e ele partiu em disparada. As pessoas gritavam ao vê-lo,tropeçavam, caíam e se pisoteavam, aterrorizadas. Ele escapou por uma brecha entre amultidão e sumiu.Lief, Barda e Jasmine, porém, viram-se encurralados, cercados pelosRa-Kacharz.As grandes toras de madeira na lareira da sala de reuniões foram acesas e aschamas espalharam uma luz vermelha e espectral sobre o rosto dos prisioneiros.Os três amigos permaneceram ali parados durante quatro horas enquanto sefazia uma inútil busca por Filli. Os Ra-Kacharz os vigiavam, carrancudos, e seus olharesse tornavam cada vez mais sombrios à medida que os minutos passavam.Exaustos e silenciosos, Lief, Barda e Jasmine aguardavam o seu destino. Jáse haviam dado conta de que era inútil discutir, enfurecer-se ou implorar, pois, aolevarem um animal peludo a Noradz, eles haviam cometido o mais hediondo dos crimes.Finalmente, Reece falou.— Não podemos mais esperar. O julgamento deve começar.Um gongo soou e pessoas de preto começaram a se enfileirar no aposento,encarando os prisioneiros. Lief viu que Tira, a copeira que salvara do castigo, seencontrava na primeira fila, muito perto dele. Ele tentou encontrar-lhe o olhar, mas elafitou o chão rapidamente.Reece ergueu a voz para que todos pudessem ouvir.— Por causa desses seres impuros, a maldade se espalhou em Noradz. Elesquebraram a nossa lei mais sagrada. Eles alegam que agiram por ignorância. Eu
  35. 35. acredito que estão mentindo e que merecem a morte. Outros entre os Nove acreditamneles e são de opinião que a sua sentença deve ser o encarceramento. Portanto, adecisão irá caber ao Cálice Sagrado.Barda, Jasmine e Lief olharam-se furtivamente. Que nova loucura seriaaquela?Reece apanhou uma brilhante taça de prata da prateleira acima da lareira —antes usada para tomar vinho, talvez.— O Cálice revela a verdade — trovejou ele. — Noradzeer.— Noradzeer — murmuraram os que observavam.Em seguida, Reece mostrou dois pequenos cartões, cada qual com umapalavra escrita sobre ele.— Um de vocês irá tirar um cartão do Cálice — ele instruiu, voltando-se para osprisioneiros. Seus olhos escuros brilhavam. — Quem será essa pessoa?Os companheiros hesitaram. Então Lief se adiantou.— Eu — ofereceu-se, relutante.— Vire-se para a frente — Reece ordenou com um gesto.Lief obedeceu. Reece afastou-se dele e dos companheiros Ra-Kacharz ecolocou a mão enluvada sob o Cálice.Lief percebeu que Tira observava Reece com muita atenção. De repente, osseus olhos azuis se arregalaram com assombro e horror. Ela fitou Lief rapidamente eseus lábios moveram-se, mudos.O rosto de Lief começou a queimar quando ele decifrou as palavras.Ambos os cartões dizem MORTE.Tira deve ter visto Reece trocar o cartão VIDA por outro que dizia MORTE,oculto na manga ou na luva. O primeiro Ra-Kachar estava determinado a ver os intrusosmorrerem.O vulto alto e vermelho voltou-se para ele segurando o Cálice no alto.— Escolha! — ordenou.Lief não sabia o que fazer. Se anunciasse que o Cálice continha dois cartões
  36. 36. de MORTE, ninguém acreditaria e todos pensariam que ele simplesmente estava commedo de enfrentar o julgamento. Ninguém aceitaria a sua palavra ou a de Tira contra ado primeiro Ra-Kachar de Noradz. E Reece poderia facilmente tornar a trocar as cartas,caso fosse questionado.Lief deslizou os dedos para dentro da camisa e agarrou o topázio preso aoCinturão. Ele o ajudara a encontrar respostas antes. Poderia ajudá-lo naquelemomento? O fogo crepitava atrás dele e iluminava a figura alta parada à sua frente comum brilho sinistro. A taça de prata exibia um brilho vermelho, como uma chama sólida.Chama. Fogo...Com o coração batendo forte, Lief estendeu a mão para cima, mergulhou osdedos na taça e escolheu um cartão. Então, como um raio, ele rodopiou, parecendocambalear para trás, e deixou cair nas chamas crepitantes o cartão. Este tremeluziu porum momento e foi consumido pelo fogo.— Peço perdão por minha falta de jeito — Lief gritou diante das exclamaçõeshorrorizadas da multidão. — Mas pode-se facilmente saber qual cartão escolhi. É sóverificar o que continua no Cálice.Reece permaneceu totalmente imóvel, perturbado por uma raiva contida,quando um dos outros Ra-Kacharz tomou-lhe o Cálice da mão, retirou o cartão que seencontrava em seu interior e o ergueu.— O cartão que permaneceu diz MORTE — anunciou. — O prisioneiroescolheu o cartão VIDA. O Cálice se manifestou.Lief sentiu a mão de Barda agarrar-lhe o ombro. Com os joelhos trêmulos, elevirou-se para fitar os amigos, cujo olhar demonstrava alívio, mas também muitasperguntas. Eles suspeitavam que Lief tivesse queimado o cartão intencionalmente eperguntavam-se qual seria o motivo.— Levem-nos para as masmorras — trovejou Reece. — Ali ficarão até o finalde suas vidas, arrependendo-se do mal que fizeram.Os outros oito Ra-Kacharz cercaram Lief, Barda e Jasmine e começaram aconduzi-los para fora do aposento. A multidão sussurrante abriu caminho para eles. Liefvirou a cabeça e procurou Tira entre os vultos vestidos de preto, mas não conseguiuvê-la.Ao deixarem o salão, ouviram a voz de Reece erguer-se mais uma vez quandoele se dirigiu ao povo.— Continuem a procurar a criatura que maculou a nossa cidade -ordenou. —Ela precisa ser encontrada e morta antes do cair da noite.Lief olhou de relance para Jasmine, que não abriu a boca, mas exibia um rostopálido e preocupado. Ele sabia que ela estava pensando em Filli — caçado e
  37. 37. amedrontado.Os Ra-Kacharz empurraram os prisioneiros por um labirinto de corredores maliluminados e por escadas de pedra sinuosas. O cheiro de sabão pairava em todos oslugares, e as pedras sob seus pés eram lisas de tanto serem escovadas.No final dos degraus havia um amplo espaço ladeado de portas de metal, cadaqual com uma estreita abertura pela qual se podia passar uma bandeja de comida. ORa-Kachar que seguia na frente abriu uma das portas e seus companheirosempurraram Lief, Barda e Jasmine para dentro.Jasmine deu uma olhada na cela sombria e sem janelas que os aguardava ecomeçou a lutar ferozmente. Lief e Barda também brigaram por sua liberdade, masinutilmente. Eles não dispunham de armas, tampouco de proteção contra os chicotesdos Ra-Kacharz que estalavam ao redor de seus rostos e lhes machucavam braços epernas, de forma que se viram impelidos de volta à cela. A porta foi fechada comestrondo e trancada com um pesado ferrolho.Os amigos atiraram-se de encontro à porta e a golpearam com os punhos, masos passos dos Ra-Kacharz já eram quase inaudíveis.Eles examinaram a cela freneticamente em busca de algum ponto frágil, masas estreitas camas de madeira presas a uma das paredes não podiam ser movidas e atina vazia presa à outra era sólida como uma rocha.— Eles vão voltar — Barda disse, sério. — Fomos condenados à vida, não àmorte. Eles terão de nos alimentar e encher a tina de água. Não podem nos deixar aquimorrendo de fome e de sede.Contudo, várias horas angustiantes se passaram sem que ninguémaparecesse.Os três estavam mergulhados em um sono agitado quando ouviram algoarranhar a porta. Mesmo ao acordar, Lief pensou que o tímido som fora um sonho.Contudo, quando este se repetiu, ele correu até a porta, seguido de perto por Jasmine eBarda. A portinhola para a comida havia sido aberta e, através dela, conseguiram ver osolhos azuis de Tira.— O primeiro Ra-Kachar determinou que ninguém além dele lhes trouxesseágua e comida — ela murmurou. — Mas... temi que ele os tivesse... esquecido. Vocêscomeram? A tina foi enchida de água?— Não! — Lief respondeu aos sussurros. — E você sabe que ele não esqueceu,Tira. É por isso que você está aqui. Reece pretende que morramos aqui.— Não pode ser! — retrucou ela com uma voz desesperada. — O Cálicedeu-lhes a vida.— Reece não dá a mínima para o Cálice — Barda disparou. — Ele se importa
  38. 38. apenas com a própria vontade. Tira, destranque a porta! Deixe-nos sair!— Não posso! Não tenho coragem! Vocês trouxeram o mal para os nossossalões e ele ainda não foi encontrado. Todos, exceto os cozinheiros da noite, estãodormindo agora. É por isso que pude escapar sem que dessem por minha falta. Mas opovo está com medo e muitos choram durante o sono. Pela manhã, a busca irárecomeçar. — Pela fenda estreita, podia-se entrever o olhar da garota, obscurecido pelomedo.— De onde viemos, animais como Filli não são malignos — Lief contou. — Nãoquisemos prejudicá-los ao trazê-lo para cá. Ele é amigo de Jasmine. Mas se você nãonos deixar sair desta cela estaremos condenados. Reece cuidará para que morramosde fome e sede e ninguém nunca saberá. Ninguém além de você.A única resposta que ouviram foi um leve gemido.— Por favor, Tira, ajude-nos! — Lief implorou. — Por favor! Seguiu-se ummomento de silêncio. Então, os olhos desapareceram e eles ouviram o deslizar doferrolho.A porta abriu-se e eles saíram da cela rapidamente. Pálida sob a luz dastochas, Tira lhes deu água, e os amigos beberam sofregamente. Ela nada respondeuquando lhe agradeceram e, ao trancarem a porta para encobrir a fuga, Tira estremeceue cobriu o rosto com as mãos. Sem dúvida, ela acreditava estar fazendo algo muitoerrado.Contudo, quando descobriram as mochilas escondidas numa fenda dasescadas, ela abafou um grito de surpresa.— Disseram-nos que elas haviam sido colocadas na cela! — exclamou. —Para que vocês tivessem roupas e algum conforto.— Quem lhes disse isso? — Barda indagou, soturno.— O primeiro Ra-Kachar — ela murmurou. — Disse que ele próprio as haviatrazido para vocês.— Bem, como você pode ver, ele mentiu — Jasmine disparou, colocando suamochila nas costas.Os companheiros subiram as escadas com dificuldade. A passagem acima seencontrava vazia, mas eles puderam ouvir algumas vozes distantes.— Precisamos escapar da cidade — Barda sussurrou. — Que caminhodevemos tomar?— Não há como sair — Tira respondeu, sacudindo a cabeça, desanimada. — Oportão da colina está trancado com barras. Os que trabalham no campo são levadospara fora todas as manhãs e trazidos de volta à noite. Ninguém mais pode sair, sobpena de morte.
  39. 39. — Deve haver outro meio! — Lief murmurou.Tira hesitou e então fez um gesto negativo com a cabeça. Mas Jasminepercebera-lhe a hesitação e agarrou a oportunidade.— Em que você acaba de pensar? Conte-nos a idéia que teve! — ela insistiu.— Dizem que... que o final do Buraco leva ao mundo exterior — Tira começou,molhando os lábios. — Mas...— O que é o Buraco? — Barda quis saber. — Onde fica?— Fica perto das cozinhas — Tira informou, estremecendo. — É onde jogam acomida que não passa pela inspeção. Mas é... um lugar proibido.— Leve-nos até lá! — Jasmine sussurrou ferozmente. — Agora mesmo!Eles rastejaram como ladrões pelos corredores. Disparando para dentro dasgalerias sempre que ouviam alguém se aproximar. Finalmente, alcançaram umapequena porta de metal.— Ela conduz às passagens acima das cozinhas — Tira informou baixinho. -Aspassagens são usadas pelos Ra-Kacharz para vigiar o trabalho feito embaixo e poraqueles que lavam as paredes da cozinha.Ela abriu um pouco a porta. Do outro lado, vinha um aroma de comida e ruídosabafados de pratos.— Não façam barulho — ela pediu. — Andem com cuidado e não seremospercebidos. Os cozinheiros da noite trabalham depressa, pois têm muito o que fazerantes do amanhecer.Tira deslizou pela porta e os companheiros a seguiram. A visão que osesperava deixou-os atônitos.O pequeno grupo encontrava-se parado numa estreita passagem de metal.Bem abaixo, estavam as grandes cozinhas de Noradz repletas de sons e iluminadaspor uma luz intensa. As cozinhas eram imensas — tanto quando uma pequena vila — e
  40. 40. encontravam-se cheias de pessoas com roupas iguais às de Tira, exceto pelo fato deserem imaculadamente brancas.Algumas descascavam legumes ou preparavam frutas. Outras misturavam,assavam, mexiam panelas que borbulhavam nos enormes fogões. Milhares de bolosesfriavam sobre grelhas, esperando para serem cobertos e decorados. Centenas detortas e pastéis eram retirados dos grandes fornos. De um lado, uma equipe embalavaos alimentos prontos em caixas e potes de vidro ou pedra.— Mas... isso não acontece todos os dias e noites, não é mesmo?— assombrou-se Lief. — Quanta comida o povo de Noradz consome?— Somente uma pequena porção da comida é consumida aqui— Tira sussurrou. — Muito do que é preparado não passa pela inspeção e éjogado fora. — Ela suspirou. — Os cozinheiros são valorizados e treinados desdejovens, mas eu não gostaria de ser um deles. Eles ficam tristes por se esforçar tanto epor falhar tantas vezes.Eles rastejaram pela passagem, observando, fascinados, a atividade abaixo.Estavam andando há cinco minutos quando Tira parou e se agachou.— Ra-Kachar! — avisou em voz baixa.De fato, dois vultos vestidos de vermelho entravam nas cozinhas.— É uma inspeção — Tira informou.Com as mãos nas costas, os Ra-Kacharz caminharam rapidamente para olocal em que se encontravam quatro cozinheiros. Centenas de potes de frutascristalizadas, brilhantes como jóias, estavam enfileirados num balcão à espera deinspeção.Os Ra-Kacharz caminharam ao lado da fileira de potes observando-osatentamente. Ao atingirem o final, viraram-se e retornaram, dessa vez apontandoalguns potes que eram apanhados pelos cozinheiros e colocados em outra prateleira.Finalmente, quando a inspeção foi concluída, seis potes haviam sidoseparados dos demais.— Aqueles são os potes que serão abençoados e consumidos pelas pessoas— Tira informou. — Os demais foram rejeitados. — Ela lançou um olhar solidário nadireção dos cozinheiros, que, desapontados, haviam começado a colocar os potesrejeitados num enorme recipiente de metal.Lief, Barda e Jasmine olhavam fixamente, horrorizados. Para eles, todas asfrutas pareciam deliciosas e nutritivas.— Isso é uma vergonha — Lief murmurou, zangado, quando os Ra-Kacharz seviraram e se dirigiram para outra parte das cozinhas. — Em Del, o povo está passandofome, brigando por restos. E aqui boa comida é desperdiçada.
  41. 41. — Não é boa comida — Tira insistiu, séria, balançando a cabeça. — OsRa-Kacharz sabem quando a comida é impura. Com as inspeções, eles protegem opovo de doenças e enfermidades. Noradzeer.Lief gostaria de ter argumentado, e Jasmine estava rubra de raiva. Mas Bardaadvertiu-os com um gesto de cabeça e pediu-lhes que se calassem. Lief mordeu o lábio.Ele sabia que Barda estava certo. Eles precisavam da ajuda de Tira e não tinha sentidoaborrecê-la. Ela não tinha como entender o que ocorria no restante de Deltora, poisconhecia somente a sua cidade e as leis de acordo com as quais tinha crescido.Em silêncio, eles se moveram pela passagem e finalmente chegaram ao finaldas cozinhas. Degraus íngremes de metal conduziam piso abaixo exatamente diante deuma porta.— O Buraco fica depois dessa porta — Tira avisou em voz baixa. -Mas...Ela interrompeu-se e agachou-se mais uma vez, gesticulando para que seuscompanheiros fizessem o mesmo. Os quatro cozinheiros que haviam preparado asfrutas cristalizadas entraram em seu campo de visão e carregavam o engradado compotes rejeitados, agora firmemente selado com uma tampa de metal. Eles o carregarampela porta e desapareceram de vista.— Eles vão jogar o engradado no Buraco — Tira sussurrou.Alguns momentos mais tarde, os cozinheiros voltaram e se dirigiram para seuslugares nas cozinhas para recomeçar a tarefa de preparar comida. Tira, Lief, Barda eJasmine rastejaram degraus abaixo, passaram por prateleiras forradas de potes epanelas e atravessaram a porta.Os quatro se viram em um aposento pequeno e vazio. À esquerda, havia umaporta pintada de vermelho. Na frente, na parede oposta às cozinhas, uma grade demetal barrava a entrada redonda e escura para o Buraco.— Para onde leva a porta vermelha? — Barda quis saber.— Para os quartos dos Nove. Dizem que eles dormem em turnos e passampor essa porta quando está na hora das inspeções — Tira sussurrou.Ela olhou de relance por sobre o ombro, nervosa.— Vamos sair daqui agora. Eu os trouxe aqui porque exigiram, mas podemosser surpreendidos a qualquer momento.Os companheiros rastejaram para mais perto do Buraco e espiaram através dagrade, de onde viram o início de um túnel mal-iluminado revestido de pedras quepareciam emitir um brilho vermelho. Ele era muito estreito e descia para a escuridão, e oteto e as laterais eram arredondadas. Em seu interior, ao longe, ouvia-se um rosnadolongo e baixo.— O que há lá dentro? — Lief murmurou.
  42. 42. — Não sabemos — Tira respondeu. — Somente os Ra-Kacharz podem entrarno Buraco e sobreviver.— Isso é o que eles dizem — respondeu Lief com desprezo.— Na minha vida, vi duas pessoas tentando escapar da cidade pelo Buraco —ela disse com suavidade. — Ambos foram trazidos mortos. Seus olhos estavamabertos e arregalados, as mãos, dilaceradas e cobertas de bolhas. Havia espuma emseus lábios. — Ela estremeceu. — Dizem que eles morreram de medo.O rosnado lúgubre veio novamente do túnel. Eles espiaram para dentro daescuridão, mas nada conseguiram enxergar.— Tira, você sabe onde estão as nossas armas? — Barda perguntou, ansioso.— As espadas e as adagas?— Elas estão aguardando na fornalha — murmurou ela com cautela. —Amanhã elas serão derretidas e transformadas em novos utensílios para a cozinha.— Traga-as até nós — Barda pediu.— Não posso! — ela retrucou, desesperada. — É proibido tocá-las, e eu jácometi crimes terríveis por vocês.— Tudo o que queremos é sair daqui — Lief exclamou. — Como isso poderiaferir o seu povo? E nunca ninguém saberá que foi você que nos ajudou.— Reece é o primeiro dos Nove — Tira murmurou. — Sua palavra é lei.— Reece não merece a sua lealdade — Barda disparou, furioso. — Você viuque ele mente e trapaceia, zomba de suas leis! Se alguém merece morrer, esse alguémé ele.Mas Barda foi longe demais ao dizer isso. As faces de Tira se ruborizaram,seus olhos se arregalaram e ela se virou e voltou correndo para a cozinha. A porta sefechou atrás dela.— Eu a assustei — Barda resmungou, suspirando com impaciência. — Eudeveria ter ficado de boca fechada. O que faremos agora?— Vamos fazer o melhor que pudermos. — Com determinação, Lief retirou agrade da entrada do túnel. — Se os Ra-Kacharz podem entrar no Buraco e sobreviver,nós também podemos — com ou sem armas.Ele se virou e acenou para Jasmine. Ela recuou, sacudindo a cabeça.— Não posso ir — explicou em voz alta. — Pensei que talvez Filli estivesseaqui, esperando por mim. Mas ele não está. Ele não deixaria Noradz sem mim, e eu nãovou partir sem ele.— Jasmine! — Não temos tempo a perder! — ele insistiu, sentindo vontade desacudi-la. — Deixe de tolice!— Não vou pedir que você e Barda fiquem — ela disse com calma, fitando-o
  43. 43. com seus olhos verde-claros. — Vocês começaram essa busca sem mim e assimpodem continuar. — Jasmine desviou o olhar. — Talvez... talvez seja melhor assim —acrescentou.— O que você quer dizer? — Lief indagou. — Por que seria melhor?— Nós não concordamos em., alguns pontos — ela justificou. — Não tenhocerteza...Contudo, Jasmine não conseguiu terminar a frase, pois naquele exatomomento a porta vermelha abriu-se de repente e Reece entrou com passos pesados, osolhos pretos brilhando num triunfo irado. Antes que ela pudesse se mover, ele agarrou-acom sua mão forte e ergueu-a no ar.— Então, garota! — rosnou em seu ouvido. — Meus ouvidos não meenganaram. Que feitiçaria usaram para escapar da cela?Lief e Barda tentaram se aproximar dele, mas Reece os impediu com o seuchicote.— Espiões! — grunhiu. — Sua maldade está comprovada agora que invadiramas nossas cozinhas... Sem dúvida, para guiar a criatura maligna até elas. Quando opovo ouvir isso, ficará feliz em vê-los morrer mil vezes.Jasmine lutou, mas a mão de Reece parecia ser de ferro.— Você não pode escapar, garota — ele escarneceu. — Agora mesmo, outrosmembros dos Nove estão se aproximando desta porta. Seus amigos irão morrer antesde você. Tenho certeza de que gostará de ouvir os gritos deles.Reece açoitou Lief e Barda com o chicote, fazendo-os recuar na direção doBuraco, lenta e constantemente.
  44. 44. Um pensamento se insinuou na mente de Lief com maior intensidade que todoo resto. Um perigo terrível ocultava-se na escuridão do buraco. Do contrário, Reece nãoestaria sorrindo de modo tão triunfante ao impelir os prisioneiros naquela direção.Era evidente que Barda e Jasmine haviam chegado à mesma conclusão.Jasmine soltava gritos estridentes, tentando em vão rasgar as vestimentas espessas doRa-Kachar com as unhas. Barda lutava para manter o equilíbrio enquanto protegia acabeça com os braços.O chicote de couro agitava-se em volta das orelhas de Lief. Ele recuou e sevirou, a dor penetrante provocando-lhe lágrimas nos olhos. O chicote estalou mais umavez e ele sentiu o sangue quente escorrer pelo pescoço e ombros. A escuridão doBuraco bocejou bem à sua frente...Então, ouviu-se um baque surdo e retumbante. E, de repente, não havia mais oestalar do chicote, tampouco a dor lancinante.Lief virou-se rapidamente.Tira encontrava-se junto ao corpo encolhido de Reece, a porta da cozinhaaberta atrás dela. Seus olhos estavam vidrados de medo. Na mão esquerda, carregavaas armas dos três companheiros. Na direita, estava a frigideira que surrupiara daprateleira da cozinha e usara para atingir Reece na cabeça.Com um grito sufocado de terror pelo que tinha feito, ela jogou a frigideira paralonge, atingindo as pedras com um som ressonante.Lief, Barda e Jasmine correram para o lado da garota, que parecia paralisadapelo choque, e tomaram-lhe as armas. Tira correra em defesa deles sem pensar, masera óbvio que cometera um crime terrível ao atacar um Ra-Kachar.— Barda! — alertou Jasmine, ansiosa, apontando para a maçaneta da portavermelha que se movia.Barda atirou-se de encontro à porta e apoiou-se contra ela com todas as forças.Jasmine acrescentou seu peso ao dele. Do outro lado, foram dadas pesadas batidas e a
  45. 45. porta estremeceu.— Corra, Tira! — Lief mandou. — Ande! Esqueça que tudo isso aconteceu.Ela fitou-o, o olhar perturbado. Ele a conduziu rapidamente em direção à portada cozinha, empurrou-a para o outro lado e fechou a tranca. Dessa forma, osRa-Kacharz que tentavam ultrapassar a porta vermelha não teriam ajuda do pessoal dacozinha e, com sorte, Tira conseguiria alcançar as escadas e ir até a passagem sem servista.Lief virou-se outra vez, exatamente a tempo de ver Barda e Jasmine serematirados ao chão e a porta vermelha abrir-se. Ele saltou para ajudar os amigos e, aomesmo tempo, três Ra-Kacharz dispararam pela abertura. Embora tontos de sono,estavam completamente vestidos. Usavam as roupas vermelhas, as luvas e as botas;suas cabeças e seus rostos estavam cobertos.Os olhos deles já faiscavam de raiva quando irromperam no pequeno aposento.Mas, quando viram seu líder caído no chão e os três prisioneiros parados junto dele,rugiram e investiram para a frente, usando os chicotes sem misericórdia.Barda, Lief e Jasmine foram obrigados a retroceder. Suas lâminas cortavam oar vazio inutilmente. Lief gritou, frustrado, quando um dos chicotes enrolou-se naespada e a arrancou de suas mãos.Ele ficou indefeso. Em instantes, ouviu, com horror, o som da espada de Barda,que também caíra no chão. Naquele momento, as duas adagas de Jasmine eram aúnica defesa deles. Por isso, os Ra-Kacharz empurravam-nos para a frente,encurralando-os num canto, enquanto os chicotes os atacavam e rodopiavam juntos noar como uma terrível máquina cortante.— Parem! — gritou Jasmine com voz penetrante. — Não queremos lhes fazermal! Só queremos sair deste lugar!A voz dela ecoou contra as paredes de pedra e se elevou acima do estalar doschicotes. Os Ra-Kacharz não vacilaram, nem mesmo deram sinais de que haviamouvido o que ela disse.Mas alguém escutou. Um pequeno vulto peludo e cinzento passou pela portavermelha, tagarelando e guinchando de alegria.— Filli! — Jasmine exclamou.Os Ra-Kacharz gritaram, horrorizados e enojados, e saíram do caminho dopequeno animal quando este correu entre eles e saltou para o ombro de Jasmine.Foi somente um momento de distração, mas era tudo de que Bardanecessitava. Com um grunhido, ele se atirou às duas figuras de vermelho mais próximas,jogando-as com força contra a parede. As cabeças bateram nas pedras, e eles caíramjuntos no chão, bruscamente.
  46. 46. Lief virou-se rapidamente e chutou o terceiro Ra-Kachar, sentindo que oatingira na perna, exatamente acima da bota. O homem urrou e caiu. Lief apanhou afrigideira e abateu-o com um golpe.Ofegantes, perto dos corpos dos inimigos derrotados, os amigos olharam paraJasmine, que cantarolava para Filli.— Filli nos salvou — Jasmine disse, alegre. — Como ele é corajoso! Eleestava perdido, mas ouviu minha voz e veio correndo até mim. Pobrezinho. Sentiu tantomedo e correu tanto perigo!— Ele estava com medo e em perigo!? — Barda explodiu. — E quanto anos?Mas Jasmine simplesmente deu de ombros e recomeçou a afagar o pêlo deFilli.— O que faremos agora? — Lief murmurou. — Há quatro Ra-Kacharz aqui,contando com Reece. E sabemos que há dois nas cozinhas. Mas ainda faltam três.Onde eles estão? Onde encontraremos um lugar seguro?— Devemos arriscar ir pelo túnel — Barda opinou, sério, procurando a espada.— Não há outra forma de sair.— Reece achava que seríamos mortos por quem vive ali, seja quem for — Liefafirmou, olhando para o Buraco.— Se os Ra-Kacharz podem sobreviver a ele, nós também podemos —retrucou Barda. — Eles são fortes e bons lutadores, mas não têm poderes mágicos.— Talvez devêssemos usar as roupas deles — Jasmine sugeriu de onde seencontrava. — Acho que não é por acaso que eles se vestem de forma diferente dosdemais neste lugar e somente eles podem usar o Buraco. Talvez a criatura que mora naescuridão esteja treinada para atacar todas as cores, menos o vermelho.— Pode ser — Barda assentiu. — Em todo caso, vestir as roupas deles é umaboa idéia As nossas mostram que somos intrusos. Nunca conseguiríamos enganar aspessoas e sair da cidade pela entrada principal. Mas, talvez, pela porta dos fundos...Sem perda de tempo, eles começaram a despir os três Ra-Kacharz quehaviam acabado de derrotar. Jasmine trabalhava depressa e com habilidade. Para Lief,foi impossível não lembrar, com um calafrio, quantas vezes ela havia despido os corposde Guardas Cinzentos nas Florestas do Silêncio. Ela o fizera para conseguir roupas eoutros objetos de que precisava e agira com eficiência e sem compaixão, como fazianaquele momento.Eles se vestiram rapidamente, colocando os trajes vermelhos por cima daspróprias roupas e as botas sobre os próprios sapatos. Enquanto isso, os Ra-Kacharzpermaneciam imóveis. Roupas de baixo justas e brancas cobriam-nos dos pulsos até ostornozelos. Suas cabeças, como as dos demais moradores da cidade, haviam sido
  47. 47. totalmente raspadas.— Eles não parecem tão perigosos agora — Jasmine concluiu, carrancuda,envolvendo a cabeça com o tecido vermelho e certificando-se de que Filli estavaescondido e em segurança sob suas roupas.Apesar da pressa e da preocupação, Lief viu-se obrigado a rir quando olhoupara ela. A aparência de Jasmine era muito estranha. Os trajes dos Ra-Kacharz erammuito grandes para ele e até para Barda, mas em Jasmine eles formavam dobrasgrandes e amplas. As luvas não foram problema, pois eram feitas de um materialelástico que se ajustava a todos os tamanhos. E ele duvidou que ela conseguissecaminhar com as enormes botas vermelhas.Jasmine tinha percebido o problema. Carregou as botas até onde Reeceestava deitado, tirou-lhe as luvas e enfiou-as na ponta de uma das botas. Em seguida,desenrolou a faixa que lhe envolvia a cabeça e usou-a na segunda bota.Reece resmungou e sua cabeça raspada moveu-se sobre o chão frio.— Ele está acordando — constatou ela enquanto calçava as botas, tirando aadaga do cinto.— Não o mate! — Lief exclamou em pânico.— Por que não? — Jasmine indagou, olhando-o surpresa. — Ele me matariase estivesse em meu lugar. E, quando ele o atacou, você o teria matado se pudesse.Lief não sabia como explicar, mas tinha consciência de que Jasmine nuncaconcordaria com o fato de que matar no calor do momento, para defender a própria vida,era muito diferente de matar um homem, mesmo um inimigo, a sangue-frio.De repente, Barda soltou uma exclamação, aproximou-se de Jasmine eagachou-se ao lado do corpo de Reece.— Vejam isso! — murmurou, empurrando a cabeça do homem para o lado.Lief ajoelhou-se ao lado dele. No pescoço de Reece havia uma feia cicatrizprovocada por uma antiga queimadura num formato que eles conheciam muito bem.— Ele foi marcado — Lief balbuciou, observando a marca vermelha comhorror. — Marcado com o sinal do Senhor das Sombras. E, no entanto, vive aqui, livre e
  48. 48. poderoso. O que isso significa?— Significa que as coisas em Noradz não são o que aparentam ser— Barda concluiu sombriamente. Ele foi depressa até onde se encontravam oscorpos dos outros Ra-Kacharz. A marca do Senhor das Sombras estava em todos eles.Os três amigos olharam para cima, assustados, pois a maçaneta da porta dacozinha havia começado a balançar e chacoalhar. Em seguida ouviram uma batida forte.Alguém tentava entrar.— Outra inspeção deve ter sido completada — Jasmine murmurou.— Os cozinheiros têm outro engradado de comida para jogar fora.Ao constatar que a passagem estava impedida, as pessoas atrás da portacomeçaram a gritar e a golpeá-la com os punhos. Reece resmungou e gemeu, e suaspálpebras estremeceram. Ele estava prestes a acordar.— Vamos levá-lo conosco — Barda decidiu, erguendo-se num salto.— Vamos obrigá-lo a nos dizer como passar a salvo pelo que existe nessapassagem, seja lá o que for. E, em todo caso, um refém pode ser útil.Rapidamente, eles ajeitaram as mochilas nas costas, arrastaram Reece até aentrada do Buraco e o empurraram para a escuridão. Em seguida, um após o outro,rastejaram atrás dele, pois naquele momento não havia tempo para pensar no quepoderia estar aguardando os três amigos lá embaixo.

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