Frank g acumulação mundial 1492_1789 (2)

179 visualizações

Publicada em

Filosofia , marxismo

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
179
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
5
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
1
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Frank g acumulação mundial 1492_1789 (2)

  1. 1. URV-NM mkdmmnnt ¡RJ! Íükvmdxxçny _ - , v _à 1755145» (En: ' ' . Mitwhdti à . 1 V” LwQ NW , na »ea-Hugabquàmkpavaotgnpgagnaqminzu. ' amazonas. KAHASÍ' : :awüyípiãl . V r~ . eua-nus- m. .. -. W x.
  2. 2. Titulo original: World Accum ulatíon 1492-1789 Copyright © 1976 by Andre Gunder Frank capa de Enrco Edição para o Brasil Não pode circular em outros paises 1977 Direitos para a Edição Brasileira adquiridos por ZAHAR EDITORES Caixa Postal 207, ZC-OO, Rio que se reservam a propriedade desta versão Impresso no Brasil SUMÁRIO Prefácio Introdução PARTE I Rumo à Gloriosa Revolução Inglesa (1689) CAPÍTULO 1 A Expansão do Século XVI l I Ill IV 0 Mundo em 1500 . , . . . .. Expansão Ultramarina da Europa Acumulação Primitiva da Europa . . Troca e Produção Agrícola na Transiçao do Feudalismo na Europa Ocidental e Oriental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. CAPÍTULO 2 A Depressão do Século XVII l ll Ill IV O Declínio do Mediterrâneo . . Depressão e Transformação no Noroeste Europeu Ásia, Africa e as Américas . A Resposta Européia , . . . . . . . PARTE II Do Comércio à Indústria: Revolução Americana e Revolução Francesa (1789) A uvlmm 3 , l tl licmlomin Política da Expansão Cíclíea e da Rivalidade (1689-1763) . ... .. . . . A24 Guerras Clelicas, 1689-1793 . Fornecimento de Moeda do Brasil e de Portugal para a ln- ulnterra S9 59 69 83 86 98 101 107 120 128
  3. 3. Introdução O processo da acumulação do capital é um dos motores prin cipais (se não mesmo o principal) da História moderna e 00115-1_ litui o problema central examinado neste livro, que trata de sua, ' história. na época pré-industrial. Contudo, a acumulação do ca- pital - e seu tratamento aqui - coloca ainda um grande nú- mero de questões teóricas (e, portanto, também empíricas) fun- damentais, que permanecem em grande parte sem resposta. Essa introdução examina algumas dessas questões, sob os seguintes titulos inter-relacionados: l) Sobre a acumulação primitiva, primá- ria e capitalista do capital; 2) Sobre a estrutura e as relações de produção, circulação e realização desiguais no processo de acumu- ' lação do capital; 3) Sobre a desigual transformação da acumulação do capital através estágios, ciclos e crises; e 4) Sobre a inter- minável luta de classes na acumulação do capital: através do Estado, da guerra e da revolução. Na medida em que, de ncordo com nossa tese, teve lugar fm único e contínuo pro- f _ cesso de acumulação do capital no mundo durante vários séculos, . osso divisão heurística da problemática em estmtura desigualj ' processo irregular, etc. , é necessariamente arbitrária: A desigual-í dade estrutural e a irregularidade temporal da acumulação do. capital, por outro lado, são processos inerentes ao capitalismo. , 1. Sobre a Acumulação Primitiva, Primária e Capitalista Uma das questões abertas mais importantes refere-se às bnscs e às modalidades da ró ria acumulação ca italista do ca- _ P p _ p pllul e, particularmente, à transição para esse processo através __ da "chamada acumulação primitiva", bem como à nova transi- . _ _ _ çlo da "acumulação" capitalista para a socialista. Na medida em _, que argumentamos que, durante os séculos passados, o mundo '›
  4. 4. 22 INTRODUÇÃO experimentou um único e abrangente (embora desigual e irregu- lar) processo de acumulação de capital, o qual, pelo menos nos dois últimos séculos, foi capitalista, devemos também investigar como esse processo teve início, sobre que bases se desenvolveu _e em que medida sofreu modificações importantes. Marx escreveu: “Empregar a mais-valia como capital, re- convertê-la em capital, é a chamada acumulação do capita " (0 Capital, Livro I, cap. 24, p. 579). 'jChamo de mais-valia absoluta a mais-valia reproduzida pelo prolongamento da jornada de tra- balho. Por outro lado, a mais-valia que resulta da diminui ão do tempo de trabalho necessário e da correspondente alteração da respectiva extensão dos dois componentes (necessário e não-ne- cessário para a reprodução) da jornada de trabalho, chamo-a a demais-valia relativa? ibid, Livro I, cap. 12, p. 315). Embora 'a mais-valia absoluta certamente tenha sido importante para a acumulação, a mais importante acumulação capitalista recente _ bem como a análise que dela nos oferece Marx - baseia-se sobre o aumento da produção da mais-valia relativa. Contudo, embora Marx mencione o fato “apenas empiricamente" (em cinco linhas, como “um dos mais importantes fatores que se con- trapõem à tendência à queda da taxa de lucro”, no Livro III, p. 230; e, em quatro páginas, entre as “circunstâncias que [. . . ] determinam o montante da acumulação", no Livro I, pp. 599-602), ele também escreve: “Nos capítulos sobre a produção da mais- valia, esteve pressuposto constantemente que os salários eram pelo menos iguais ao valor da força de trabalho. Contudo, uma redução forçada dos salários abaixo desse valor desempenha na prática um papel tão importante, que não podemos deixar de nos deter nele por um momento. Com efeito, isso transforma, dentro de certos limites, o fundo de consumo necessário do tra- balhador num fundo para a acumulação do capita " (p. 599). “A chamada indústria doméstica [ou por encomenda] tem ser- vido para mostrar o papel desempenhado em nossos dias pelo saque direto do fundo de consumo necessário do trabalhador na formação da mais-valia e, por conseguinte, da acumulação do fundo de acumulação do capital" (p. 602). Em suma: a acumu- lação capitalista do capital baseia-se também sobre uma superex- ploração da força de trabalho através de uma mais-valia exceden- te, que com freqüência - e não somente na indústria domésti- ca britânica _ nega ao trabalhador até mesmo o mínimo neces- sário para sua subsistência, qualquer que seja a definição desse mínimo, e que, ao mesmo tempo, chega a impedir a reprodução INTRODUÇÃO 23 da força de trabalho. Mas que isso, essa superexploração situada abaixo do mínimo de subsistência ocorre tanto através do tra- balho assalariado quanto de outras relações de produção, assim como através de uma conexão entre as duas. Uma questão relacionada com essa refere-se ao tipo ou mo- dalidade de acumulação de capital. Em determinado sentido, a acumulação de capital é, por definição, “capitalista"; e tem sido analisada e definida por Marx e pelos marxistas em termos de criação de uma força de trabalho livre através da separação en- tre os antigos proprietários e os seus meios de produção; da pro- dução da mais-valia absoluta e - através das inovações tecno- lógicas e do aumento da composição orgânica do capital - da mais-valia relativa; da reprodução desse ciclo através da reali- zação da mais-valia e de sua aplicação em nova produção e na inovação; da concentração e centralização do capital, etc. , que definem o capitalismo industrial e o imperialismo. Mas, antes, que esse processo industrial-capitalista da acumulação de capital' , se tornasse (e pudesse se tornar) auto-sustentável, o que se dá' ' aparentemente por volta de 1800, há um longo periodo da cha- mada “acumulação primitiva", anterior à acumulação "capitalis- ta" e baseada principalmente sobre relações pré-capitalistas de, produção e/ ou sobre sua transformação em relações capitalistas. O sentido dessa chamada "acumulação primitiva”, que se proces- sa durante os vários séculos examinados em nosso livro, requer considerações mais aprofundadas. Durante esse período de acumulação prévia, anterior, urrprünglirche (em alemão), origi- nária, "pré"-capitalista, ocorrida em época pré-capitalista e basea- da em relações de produção pré-capitalistas, essas relações e o modo de produção que elas formavam eram, naquele sentido, tam- bém “nãdteapitalistas, Assim, não se poderia dizer que a aeumu: lação baseou-se diretamente na mais-valia, na medida em que essa , não era produzida por trabalhadores assalariados livres. Todavia, seja como for, o valor recebido pelos produtores era menor do _ que aquele por eles produzido, pois do contrário nenhuma espé- cie de acumulação teria sido possível. Quanto ao consumo que era permitido aos produtores, esse poderia ser ou não justo, maior ou menor que suas necessidades de subsistência e suas exi- gências para a reprodução da força de trabalho. Se “prê"-capitalista significa anterior ao capitalismo, então, por definição, significa também "nãM-capítalista. Se “prê”-capi- . talista significa o início do capitalismo, então é em parte capita- lista, em parte não-capitalista. Mas, em outros casos, "não"-capi-
  5. 5. 24 INTRODUÇÃO talista não necessita ser “pr “capitalista, pois pode também ser simultâneo ou mesmo posterior ao capitalismo. Desse modo, na medida em que acumulação "primitiva" refere-se à acumulação ' sobre a base de relações de produção não-capitalistas, não é ne- cessário que ela seja anterior a produção e acumulação capita- listas, mas pode também ser-lhes contemporânea. Essa produção não-capitalista, assim como a acumulação baseada sobre ela, deve , - para ser distinguida da acumulação e produção pré-capitalis- - tas "primitivas" - ser chamada de acumulação “primária”. (Roger Barta chama-a de acumulação primitiva permanente. ) Essa acumulação primágia, baseada em parte sobre a produção obtida através de relações de produção não-capitalistas, tem sido uma companheira freqüente, senão mesmo constante, do proces- so capitalista de acumulação do capital inclusive em seus estágios desenvolvidos, quando há dominância do trabalho assalariado e mesmo da mais-valia relativajNão há dúvida de que essa acumu- lação primária deu uma contribuição substancial, ou mesmo es- sencial, à acumulação capitalista do capital) Essa acumulação primária do capital pode ou não implicar uma superexploração do produtor não-assalariado, situada abaixo do mínimo de sub- sistência e de reprodução. Implica superexploração do trabalho assalariado na medida em que o fundo de consumo deste e a reprodução de sua força de trabalho provêm diretamente daquela produção não-capitalista. A partir dessas distinções conceituais, podemos colocar uma série de novas questões que emergem de nosso exame da gênese, da base e das modalidades da ecumulação do capital e, em par- ticular, da “chamada acumulação primitiva", que Marx discute no capítulo 24 de 0 Capital. Se esse processo da “chamada acumulação primitiva" ocorreu nos três ou mais séculos anterio- res ao processo capitalista da acumulação do capital, que tem início com a Revolução Industrial, em que sentido ele envolve acumulação de capital? Em que sentido e chamada “primitivaml Em que sentido leva e/ ou contribui para o posterior processo capitalista de acumulação? E de que modo é o processo (ou processos? ) inicial similar ou diferente do processo posterior de acumulação capitalista? Na seção dedicada à “chamada acumulação primitiva", Marx apresenta o seguinte argumento sobre “o segredo da acumulação primitiva": “Mas a acumulação de capital pressupõe mais-valia; mais-valia pressupõe produção capitalista; produção capitalista pressupõe a preexistência de consideráveis massas de capital e INTRODUÇÃO 25 de força de trabalho em mãos de produtores de mercadorias. Por conseguinte, a totalidade do movimento parece desembocar num círculo vicioso, do qual só podemos escapar por meio da supo- sição de uma acumulação primitiva (acumulação prévia em Adam Smith) que preceda a acumulação capitalista; uma acumu- lação que não seja resultado do modo de produção capitalista, mas seu ponto de partida [. . . ]. A chamada acumulação primi- tiva, desse modo, é nada mais que o processo histórico de_sepa- ração entre o produtor e os meios de produção. Aparece como primitiva porque forma o estágio pré-histórico do capital e do modo de produção que lhe corresponde" (O Capital, Livro I, pp. 713-714). Mas essa formulação coloca mais problemas do que aqueles que responde. Dois desses problemas, pelos quais começaremos, são os seguintes: como o acúmulo de consideráveis massas de ca- pital tem lugar e de que modo se produz o processo de separação , entre o produtor e seus meios de produção? O próprio Marx afirma que urna considerável massa de capital acumulado no - estágio pré-histórico do capital, antes da Revolução Industrial, foi produzida por relações de produção que não implicam, exigem ou tampouco toleram o trabalho assalariado, a separação entre os produtores e os seus meios de produção. Uma grande varieda- de de relações de produção não ou pré-capitalistas (como as “coloniais", "escravistas", de "segunda servidão", mas também de primeira servidão e feudais), situadas fora mas também no interior da Europa Ocidental ou Oriental, contribuiu para esse acúmulo de capital anterior à Revolução Industrial; essas rela- ções de produção serão examinadas em nosso livro. A retórica observação de Marx segundo a qual "a escravi- dão disfarçada dos trabalhadores assalariados na Europa exige, como sua base, a escravidão clara e aberta no Novo Mundo", bem como aquela de que “do capital, ao surgir, escorrem-lhe sangue e sujeira por todos os poros, da cabeça aos pés" (O Ca- pital, Livro l, pp. 759-760), essas observações sugerem não so- mente - como examinaremos em maiores detalhes - que as fontes e relações de produção "não-capitalistas" são essenciais à acumulação capitalista do capital, mas também que implicam o saque pela força de partes do fundo de consumo desses produ- tores em favor da acumulação do capital. Os sete anos "úteis" da vida de um escravo em muitas partes do Novo Mundo; o de- clínio da população indígena de 25.000.000 de pessoas para 1.500.000 no México (e o aumento do custo de trabalho na mi-
  6. 6. 25 lNrnoDUçÃo neração), declínio ocorrido em pouco menos de _um seculo apos a Conquista, para não mencionar a total dizimaçao da populaçao indígena do Caribe em meio século; o aumento da incidencia da fome em Bengala após sua conquista pelos britânicos, assim como a incapacidade muito menos generalizada da populaçao Para 5° auto-reproduzir após sua incorporação no processo de acumula- ção do capital; tudo isso testemunha o carater de superexploraçao próprio de tais relações de produção e formações sociais, assim como do processo de acumulação em seus estagios pre-in- dustriais. _ _ Muitas dessas _relações de produção, bem como a produçao que delas deriva. continuaram a ser e ainda são importantes para o processo capitalista de acumulação do capital. Uma questao importante, tanto para o passado quanto para os _nossos dias, e saber exatamente de que modo a produção ocorridano quadro de relações de produção não-capitalistas contribuiu para a acumulação capitalista (ou foi por ela transformada), seia na época anterior aos seus inícios propriamente ditos, seja simul- taneamente com ela a partir de então. A insistência sobre a importância dessas relações e da mais-valia em última instância gerada por elas, tanto antes quanto no período da Revolução Industrial e depois (durante o período do imperialismo clássico, estudado, por exemplo, por Lênin e Rosa Luxcmburg), não nega certamente a importância que também desempenhou o processo de separação do produtor de seus meios de produção e a trans- formação do mesmo num trabalhador assalariado. Na verdade, esse processo não apenas e subjacente ao desenvolvimento das relações capitalistas de produção, mas é também parte do pro- cesso de acumulação, na medida em que a separação entre os produtores e seus instrumentos de produção também contribui para a concentração do capital. Além do mais, deve-se lembrar que a separação de muitos produtores de seus meios de produ- _ção no “Terceiro Mundo" durante o período impetialista, assim como a negação dos meios de subsistência mínimos tanto para os trabalhadores assalariados que resultaram da separação quanto para os residuais produtores não-assalariados (obrigando uns a subsistirem com o apoio ou às expensas dos outros) representa- ram uma contribuição material não apenas à acumulação do ca- pital, mas também à elevação dos níveis salariais nos países me- tropolitanos. (Para uma estimativa da troca desigual, ver Amin; e para estimativas sobre o excedente da exportação de mercado- rias em relação às importações no caso dos países subdesenvolvi- INTRODUÇÃO 27 dos entre 1880 e 1910, ver Frank, 1973 b. ) Assim, o processo de separação dos proprietários de seus meios de produção e a conversão deles em trabalhadores assalariados não foi somente um processo primitivo, originário ou prévio ao estágio capitalista. Prosseguiu também durante o estágio capitalista e ainda prosse-m gue em nossos dias. Do mesmo modo, a acumulação primária não-capitalista também prossegue, mas alimentando o processo capitalista de acumulação do capital; todavia, esse último proces- so prossegue não apenas porque o desenvolvimento capitalista do trabalho assalariado separa o produtor dos seus meios de pro- dução; prossegue também a despeito dessa separação, através da manutenção e mesmo da recriação de relações de trabalho não estritamente assalariadas. A questão de como e por que essa cha- mada acumulação primitiva, não separadora, primária, não-capi- talista surgiu e prosseguiu a partir da Revolução Industrial é ainda tema de consideráveis debates. Mas o problema da relação e da contribuição da acumulação primária à acumulação capita- lista do capital é similar, levando-nos assim de volta à questão da relação e da contribuição da acumulação primitiva, pré-capita- lista. à própria acumulação capitalista: como escapar do círculo vicioso em torno do ponto de partida da acumulação capitalista do capital supondo uma chamada acumulação primitiva (acumu- lação prévia) anterior à acumulação capitalista? Quando, então, se deu o ponto de partida do modo de produção capitalista? Como a chamada acumulação originária primitiva, pré e, portan- to, não-capitalista, surgiu e juntou capital, se não existia repro- dução capitalista ampliada? E como essa acumulação prévia satis- fez uma condição necessária, senão mesmo suficiente, para o ponto de partida da acumulação capitalista do capital? Quando ocorreu o ponto de partida, não da acumulação capitalista, mas da acumulação pré-capitalista que contribuiu material e economi- camente para a real acumulação capitalista? Marx, ao que parece, exclui os séculos XIV e XV, "inícios (la produção capitalista", dos inícios da “história moderna do capital [que] data da criação, no século XVI, de um comércio e um mercado mundiais [. . . ]. As colônias garantiram um mer- cado para as manufaturas nascentes e, através do monopólio do mercado, uma crescente acumulação. As riquezas apresadas fora da Europa pela pilhagem, eseravização e massacre refluíam para aumetrópole, onde se transformavam em capital” (0 Capital, Livro l, pp. 146, 753-754). Mas a produção e a concentração do capital mercantil produtivamente implantado nas cidades italia-
  7. 7. 28 Inrxonução nas foi essencial para as viagens de descobrimentos e para a cria- ção inicial de um comércio mundial desejável e possível. Então, de que modo as riquezas se transformaram em capital? E que im- portância desempenhou nesse processo a pilhagem aberta e que importância teve a venda de manufaturas? De que modo, especi- ficamente, a extração de prata nas Américas e seu transporte para a Europa contribuíram para acumular capital nesse último continente? Uma resposta, examinada no livro, é que essa prata e o ouro financiaram a compra de valores de uso e de valores de troca dd Oriente e da Europa Oriental (os quais, por sua vez, que fizeram com os metais preciosos, além de retira-los parcial- mente da circulação? ) Outra resposta é que a inflação resultan- te, na medida em que os metais preciosos não eram retirados de circulação, levou direta e indiretamente à concentração de capi- tal, à separação entre produtores e meios de produção, bem como ao aumento na exploração de uma massa maior e menos bern paga de traballio. De que modo a pilhagem e a produção escravista, bem como os valores de uso produzidos na Europa pelo trabalho assalariado e não-assalariado e sua conversão em valores de troca, contribuíram para juntar e concentrar capital? De que modo o capital assim acumulado nos séculos XVI, XVII e XVIII reproduziu-se posteriormente - na ausência de relações de produção capitalistas desenvolvidas - e finalmente veio a converter-se em capital capaz de se auto-reproduzir, pelo menos parcialmente, através da produção e da reprodução industrial ba- seada no trabalho assalariado? A questão de quando e como a chamada acumulação primitiva, pré-capitalista, de capital tornou- se o (o ponto de partida do) processo capitalista de acumulação do capital é uma questão que continua substancialmente em aberto. Uma outra questão de imediata relevância política e econô- mica para o período contemporâneo diz respeito à possível per- sistência e importância da chamada acumulação primitiva (ou melhor, primária) na acumulação de nossos dias. Não há dúvida de que a produção de valores de uso através de relações de pro- dução não-capitalistas e pre-capitalistas prossegue atualmente e ainda é convertida diretamente em valores de troca pelo processo da acumulação capitalista. Mas talvez sua importância já não seja tão grande. Todavia, cabe investigar a importância das re- lações de produção não-capitalistas para o processo de acumula- ção do capital em nossos dias sob três aspectos: l) a conser- V3Ç50 97 quando necessária, a utilização de um potencial exercito INTRODUÇÃO 29 de reserva de trabalho, assim como de um pool de força de tra- balho; 2) a contribuição que tais relações podem dar no sen- tido dc manter e reproduzir a força de trabalho assalariada, que recebe do capital salários inferiores ao nível da subsistência, de- masiadamente baixos para a manutenção e reprodução do traba- lhador assalariado; e 3) o uso de relações “socialistas” não-capi- talistas de produção para gerar valor que ingressa no processo capitalista mundial da acumulação do capital. A conservação de um exército de reserva potencial através de relações de produção parcialmente não-capitalistas _ que ofe- rece ao capital nova força de trabalho e, ao mesmo tempo, ajuda a diminuir os salários do trabalho existente - pode atualmente ser observada no fluxo em massa de "operários convidados" do Sul rural para o Norte industrial da Europa, bem como na cres- cente transferência, de países industrializados para alguns países Subdesenvolvidos, de fábricas de produção industrial (ou de mon- tagem) para exportação. A importância quantitativa desses pro- cessos para a acumulação do capital é de dificil definição e ava- liação; mas o fato é que tais processos são certamente sig- nificativos. A contribuição da produção rural não-capitalista para a ma- nutenção da força de trabalho e da aposentadoria dos trabalhado- res assalariados nas minas, lavouras intensivos e empregos urbanos na África e na Asia, os quais recebem literalmente menos que o mínimo vital, é um fato substancial e foi analisado por Meillas- soux, Rey c outros. Embora os membros da extensa família? desse migrante e de outros trabalhadores assalariados na África Ocidental e do Sul produzam substanciais valores de uso que não entram diretamente no processo de circulação, parte desses valo- res de uso é consumida pelos membros da família submetidos ao trabalho assalariado, os quais produzem diretamente valor de troca e mais-valia (freqüentemente uma super-mais-valia) e no muís das vezes para exportação, de modo que a produção que não entra na esfera da troca, que não é capitalista, contribui indiretamente, de qualquer modo, para o processo capitalista de «acumulação do capital. Na verdade, somente com a parcela do vnlor criado que. o capital devolve a esses trabalhadores, sob a forma de salários, alguns deles seriam incapazes de produzir qunlqucr mais-valia para o capital, de modo que o capital tem de agradecer aos membros “não-capitalistas" da família deles pciu mais-valia que os mesmos são capazes de produzir. (Decerto, longe de fazer isso, ele os acusa de serem prejudiciais, na medi-
  8. 8. 30 INTRODUÇÃO da em que aparecem como um novo encargo "em bem-estar” para o capital. ) O mesmo princípio do “trabalhador migrante" da acumulação primária "não-capitalista” do capital é também parcialmente operante na relação dos "operários convidados" eu- ropeus, na medida em que esses são criados e depois novamente recebidos pelas comunidades do Sul da Europa, ou, no caso da Inglaterra, pela Ásia e pelo Caribe, comunidades nas quais uma parte da produção se dá através de relações de produção “não- capitalistas”. Mas - ampliando esse argumento até sua conclu- são lógica - o mais geral e importante exemplo da acumulação capitalista do capital sobre a base, em parte, da acumulação pri- mitiva através de relações "não-capitalistas" é a produção e re- produção (literalmente falando), que o capital não paga, reali- zada pela esposa e pela mãe dentro da família burguesa e ope- rária! Pois se o capital tivesse de lhes pagar pela contribuição total que, como a família do trabalhador africano migrante, elas dão à capacidade do trabalhador de produzir mais-valia; se o capital não tivesse nelas uma nova força de trabalho sub-remu- nerada e um exército de reserva industrial com que contar, a acumulaçãü capitalista do capital seria dificil, quando não mesmo impossível. Finalmente: se relações de produção pré/ não-capitalistas criam valor que direta ou indiretamente entra no processo de circulaçãofpermitindo ou contribuindo assim para a realização e a acumulação capitalistas, por que a produção através de rela- ções de produção pós/ não-capitalistas deixaria de fazer o mes- mo? Qual e o significado, para o processo capitalista da acumu- lação do capital, do atual interesse do capital imperialista pela mão-de-obra barata, bem treinada e disciplinada das economias socialistas da União Soviética e da Europa Oriental? Talvez o capital imperialista tenha de pagar, direta ou indiretamente, mais do que uma renda de subsistência aos produtores dos países so- cialistas. ou os Estados socialistas devam subsidiar o consumo social dos mesmos; porém, se as firmas imperialistas atuam atra- vés do “processamento de contratos" de produção industrial para recxportar a partir dos paises socialistas, ou simplesmente com- pram suas manufaturas e matérias-primas, parte do valor criado pelo trabalho nessas economias e transferido para o capitalista, cuja realização do lucro e acumulação são ampliados, ou pelos bens que recebem dos países socialistas, ou pelos bens produzidos capitalisticamente que trocam com tais países, ou pelos dois mo- dos. Num momento em que essa integração Leste-Oeste progride INTRODUÇÃO 31 rapidamente sob o guarda-sol político da distensão, surge a ques- tão de saber em que medida essas formações sociais dotadas de relações de produção socialistas, "não-capitalistas", estão ou não isoladas do processo único de acumulação capitalista do capital. 13 após os debates - entre seguidores e opositores de Althusser na França, entre comunistas e a "nova" esquerda na Europa, Ásia, África e América Latina - acerca dos modos e meios de transição do feudalismo para o capitalismo e do capitalismo para o socialismo, surge (ou permanece) a questão: o que que- remos dizer com "transição"? Uma transição entre duas transi- ções? E se trata de transições necessariamente cumulativos e uni- direcionais? 1 2. Sobre a Desigualdade das Relações de Produção, Circulação e Realização no Processo de Acumulação A extensão do processo mundial único de acumulação do capital e do sistema capitalista, formado por aquele processo ao ' ' longo de vários séculos, permanece como uma importante ques- tão em aberto. A clareza no debate tornou-se difícil por causa do que se poderia chamar de desigualdade estrutural nos padrões do próprio desenvolvimento capitalista, que admite variadas in- terpretações. A questão teve uma importante relevância teórica c política durante todo um século. Marx deduziu sua teoria do capital sobretudo a partir de sua manifestação mais desenvolvida nu Inglaterra; e, na época de sua morte, deixou sem elaboração o problema de como incorporar os setores menos desenvolvidos ou não-desenvolvidos da Europa e do mundo, que ele examinara ¡nuis através da descrição histórica do que de categorias teóri- cus, como é o caso da acumulação primitiva, do modo de pro- dução asiático. etc. Além disso, em suas análises jornalísticas «lu presença da Grã-Bretariba na Índia. da guerra mexicano-ame- * Dirigindo-se ao Congresso do Partido Comunista Húngaro, a 19 de ma. ” . Ir 1975 em Budapeste, o lider do Partido soviético, Leonid Brzjnev, afirmou quim tendo em vista “os amplos laços econômicos entre os países capitalistas- r uscialisras, os efeitos negativos da atual crise no Ocidente terão também um ¡Iupncto no mundo socialista". E esse impacto. aparentemente, nem é casual um¡ involuntária. Já em sua resolução de 1966, o Comitê Central do rar- luln húngaro afirmava que "o novo mecanismo econômico deverá estabelece¡ num estreita relação Entra mercados interno e externo. Com isso, aumentar¡ -- inlpacto das influências originadas nos mercados externos sobre o marcado interno [. .]".

×