Os maias capítulo xviii

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Os maias capítulo xviii

  1. 1. OS MAIAS CAPÍTULO XVIII
  2. 2. Transição do capítulo XVII para o XVIII O capítulo XVII encerra com a imagem negra e quase funerária de Maria Eduarda em contraste com o esplendor da sua primeira aparição.
  3. 3. MARIA EDUARDA CAPÍTULO VI CAPÍTULO XVII «uma senhora alta, loira, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea […], com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro», trazendo «um casaco colante de veludo branco». «Vinha toda envolta numa grande peliça escura, com um véu dobrado, espesso como uma máscara […] parecia tão bela, de ar tão triste, coberta de negro». «E foi assim que ele pela derradeira vez na vida, viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade.» Esta imagem inicial, cheia de brilho e claridade,… …contrasta violentamente com a visão sombria e enlutada de Maria Eduarda no final do penúltimo capítulo.
  4. 4. A MORTE SIMBÓLICA O afastamento de Maria Eduarda, figura de negro levada por um vagão de comboio, representa a sua morte simbólica e instaura uma rutura narrativa.
  5. 5. RUTURA TEMPORAL • A essa quebra corresponde, também, um grande hiato temporal:  A ação tinha tido início em 1875;  As analepses dos capítulos I a IV abrangem um período de 50 anos, sensivelmente, espraiando-se por cerca de 80 páginas;  Os dois anos que a ação central demora a passar ocupam grosso modo 600 páginas;  O último capítulo, com 28 páginas, condensa 10 anos da vida de Carlos, durante os quais ele desaparece nas suas viagens internacionais.
  6. 6. O SIMBOLISMO NUMÉRICO «Dez anos, o tempo catártico e também o tempo da descoberta e da fundação ou refundação do novo ser. Dez anos, o tempo das viagens de Odisseu; dez anos, o tempo do percurso de Eneias que, após a derrocada da velha Troia […] fundará, para a eternidade, uma nova Troia. […] Dez anos, em suma, no fim dos quais, o herói vai ser confrontado com a prova máxima e final: a visita ao Ramalhete, assumida como um verdadeiro rito de repetição.» Maria Leonor Carvalhão BUESCU, Ensaios de Literatura Portuguesa, Editorial Presença, Lisboa, 1986, p. 111.
  7. 7. A VIAGEM (1877) TEMPO ESPAÇO ACONTECIMENTOS «Semanas depois, nos primeiros dias do ano novo...» (p. 688) «O distinto e brilhante sportman, o Sr. Carlos da Maia, e o nosso amigo e colaborador João da Ega, partiram ontem para Londres, donde seguirão para a América do Norte, devendo daí prolongar a sua interessante viagem até ao Japão.» (Notícia na Gazeta Ilustrada — p. 688)
  8. 8. A VIAGEM (ATÉ 1879) TEMPO ESPAÇO ACONTECIMENTOS Até «lá para os meados de 79» (p. 689) «Planeamos ir a Pequim, passar a Grande Muralha, atravessar a Ásia Central, o oásis de Merv, Khiva, e penetrar na Rússia; daí, pela Arménia e pela Síria, descer ao Egito a retemperar-nos no sagrado Nilo; subir depois a Atenas, lançar sobre a Acrópole uma saudação a Minerva; passar a Nápoles; dar um olhar à Argélia e a Marrocos...» (Carta do Ega para o Vilaça — p. 689)
  9. 9. REGRESSO DE EGA CARLOS EM PARIS (188?) TEMPO ESPAÇO ACONTECIMENTOS «... passado ano e meio, num lindo dia de março...» (p. 689) [1880?] «... Ega reapareceu no Chiado. [...] Vinha esplêndido, mais forte, mais trigueiro, soberbo de verve, num alto apuro de toilette, cheio de histórias e de aventuras do Oriente, não tolerando nada em arte ou poesia que não fosse do Japão ou da China, e anunciando um grande livro, o “seu livro”, sob este título grave de crónica heroica — Jornadas da Ásia.» (p. 689) Carlos, entretanto, instalara-se em Paris, «num delicioso apartamento dos Campos Elísios, fazendo a vida larga de um príncipe artista da Renascença...». «Ao Vilaça, porém, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos ficara ainda “abalado”. Vivia, ria, governava o seu faetonte no Bois — mas lá no fundo do seu coração permanecia, pesada e negra, a memória da “semana terrível”.» (p. 689)
  10. 10. O REGRESSO A SANTA OLÁVIA (1886) TEMPO ESPAÇO ACONTECIMENTOS «E esse ano passou. […] Outros anos passaram.» (p. 689) «Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram, arvoredos murcharam.» (p. 689) «Nos fins de 1886 [...] depois de um exílio de quase dez anos...» (pp. 689-690) «... Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa de um amigo seu de Paris, o marquês de Vila Medina. E dessa propriedade dos Vila Medina, chamada La Soledad, escreveu para Lisboa ao Ega anunciando que [...] resolvera vir ao velho Portugal, ver as árvores de Santa Olávia e as maravilhas da Avenida.» (p. 690)
  11. 11. O REGRESSO A LISBOA (1887) TEMPO ESPAÇO ACONTECIMENTOS «Havia três anos...» (p. 690) «... (desde a sua última estada em Paris) que ele [Ega] não via Carlos.» (p. 690) «Pouco tempo...» (p. 690) «... se demorou em Resende.» (p. 690) «E numa luminosa e macia manhã de janeiro de 1887...» (p. 690) «... os dois amigos, enfim juntos, almoçavam num salão do Hotel Bragança, com as duas janelas abertas para o rio.» (p. 690)
  12. 12. A DESCRIÇÃO DOS DOIS AMIGOS «Ega, já curado, radiante, numa excitação que não se calmava, alagando-se de café, entalava a cada instante o monóculo para admirar Carlos e a sua «imutabilidade». — Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso é Paris, menino!... Lisboa arrasa. Olha para mim, olha para isto! Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do nariz, na face chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma calva que começara havia dois anos, alastrara, já reluzia no alto. — Olha este horror! A ciência para tudo acha um remédio, menos para a calva! Transformam-se as civilizações, a calva fica!... Já tem tons de bola de bilhar, não é verdade?...» (pp. 690-691)
  13. 13. O EPÍLOGO O episódio final funciona como um epílogo do romance: o passeio que Carlos e Ega dão na capital é um percurso simbólico. Os espaços que atravessam e as pessoas que veem, as atividades que consideram têm profundas conotações históricas e ideológicas.
  14. 14. ATIVIDADES A POLÍTICA
  15. 15. A POLÍTICA «E como Carlos lembrava a política, ocupação dos inúteis, Ega trovejou. A política! Isso tornara-se moralmente e fisicamente nojento, desde que o negócio atacara o constitucionalismo como uma filoxera! Os políticos hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxavam pelos cordéis... Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas qual! Aí é que estava o horror. Não tinham feitio, não tinham maneiras, não se lavavam, não limpavam as unhas...» (p. 691)
  16. 16. PERSONAGENS A CRÍTICA
  17. 17. OS GOUVARINHOS «A condessa herdara uns sessenta contos de uma tia excêntrica que vivia a Santa Isabel, tinha agora melhores carruagens, recebia sempre às terças-feiras. Mas sofria uma doença qualquer, grave, no fígado ou no pulmão. Ainda elegante todavia, muito séria, uma terrível flor de pruderie... Ele, o Gouvarinho, aí continuava, palrador, escrevinhador, politicote, empertigadote, já grisalho, duas vezes ministro, e coberto de grã-cruzes...» (pp. 691-692)
  18. 18. ALENCAR Enquanto almoçavam no Hotel Bragança surge o poeta Alencar, que, na visão de Carlos, parece «mais bonito, mais poético, com a sua grenha inspirada e toda branca, e aquelas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela tumultuosa passagem das emoções... — Estás típico, Alencar! Estás a preceito para a gravura e para a estátua!...» (p. 692)
  19. 19. ALENCAR Já só esporadicamente escreve versos, pois «O novo Portugal só compreendia a língua da libra, da massa. Agora, filho, tudo eram sindicatos.» (p. 694)
  20. 20. ALENCAR Mais tarde, Ega confidenciará a Carlos que «agora apreciava imensamente o Alencar. Em primeiro lugar, no meio desta Lisboa toda postiça, Alencar permanecia o único português genuíno. Depois, através da contagiosa intrujice, conservava uma honestidade resistente. Além disso, havia nele lealdade, bondade, generosidade. O seu comportamento com a sobrinhita era tocante. Tinha mais cortesia, melhores maneiras que os novos. […] E por fim, no estado a que descambara a literatura, a versalhada do Alencar tomava relevo pela correção, pela simplicidade, por um resto de sincera emoção.» (p. 706)
  21. 21. ALENCAR «— E aqui tens tu, Carlinhos, a que nós chegámos! Não há nada, com efeito, que caracterize melhor a pavorosa decadência de Portugal, nos últimos trinta anos, do que este simples facto: tão profundamente tem baixado o carácter e o talento, que de repente o nosso velho Tomás, o homem da Flor de Martírio, o Alencar de Alenquer, aparece com as proporções de um génio e de um justo.» (P. 706)
  22. 22. CRUGES O «velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais agudo, a grenha caindo mais crespa sobre a gola do paletó» (p. 695), tinha criado uma «linda ópera cómica» intitulada «Flor de Granada», que Alencar descreve como «Uma música toda do Sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira…» (p. 695).
  23. 23. DÂMASO SALCEDE No Chiado, à porta do Baltreschi, encontram Dâmaso, «barrigudo, nédio, mais pesado, de flor ao peito, mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente embrutecido de um ruminante farto e feliz» (p. 697).
  24. 24. DÂMASO SALCEDE Apesar da hesitação inicial, «nos olhos do Dâmaso […] parecia reviver a antiga admiração, arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe a sobrecasaca, o chapéu, o andar, como no tempo em que o Maia era para ele o tipo supremo do seu querido chique» (p. 698).
  25. 25. DÂMASO SALCEDE Tinha «casado com uma filha dos condes de Águeda, uma gente arruinada, com um rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o ótimo Dâmaso, verdadeira sorte grande para aquela distinta família, pagava agora os vestidos das mais velhas.» (p. 698) Além disso, a esposa «Faz aí a felicidade de um rapazote simpático, chamado Barroso» (p. 698), sendo, portanto, o Dâmaso mais um dos maridos atraiçoados de Lisboa.
  26. 26. OS AMIGOS DO RAMALHETE • O marquês, D. Maria da Cunha e Sequeira tinham falecido (pp. 700-701); • D. Diogo casara com a cozinheira (p. 701); • Steinbroken era ministro em Atenas (p. 701).
  27. 27. OS AMIGOS DO RAMALHETE • Taveira «tinha agora mais dez anos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre apurado, já um bocado grisalho, metido continuamente com alguma espanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as tardes na Havanesa, com um ar doce e contente: «Isto é um país perdido!» Enfim, um bom tipozinho de lisboeta fino.» (p. 701).
  28. 28. CHARLIE GOUVARINHO Descrito como um rapaz «muito bonitinho», é referida a sua suspeita «amizade com um velho», com o qual «anda sempre» (p. 705).
  29. 29. EUSEBIOZINHO «Parecia mais fúnebre, mais tísico, dando o braço a uma senhora muito forte, muito corada, que estalava num vestido de seda cor de pinhão. Iam devagar, tomando o Sol. E o Eusébio nem os viu, descaído e molengo, seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da sua sombra.»
  30. 30. EUSEBIOZINHO A «avantesma» era a mulher. Explicara o Ega que «Depois de várias paixões em lupanares, o nosso Eusébio teve este namoro. O pai da criatura, que é dono de um prego, apanhou-o uma noite na escada com ela a surripiar-lhe uns prazeres... Foi o diabo, obrigaram-no a casar. […] Diz que a mulher que o derreia à pancada.» (p. 705) O comentário de Carlos foi sintomático: «— Deus a conserve!» (p. 705)
  31. 31. PALMA «CAVALÃO» «Deixara a literatura, tornara-se o factótum do Carneiro, o que fora ministro; levava-lhe a espanhola ao teatro pelo braço» e ainda havia de ser deputado, talvez até ministro, segundo o Ega.
  32. 32. ESPAÇOS A CRÍTICA
  33. 33. O LARGO DO CAMÕES A estátua de Camões representa o Portugal heroico, glorioso, mas perdido, envolvido por uma atmosfera de estagnação (p. 697).
  34. 34. O CHIADO O Chiado simboliza o Portugal do presente, o país decadente da Regeneração (p. 697), que permanece igual a si próprio («Nada mudara.»), na mesma estagnação.
  35. 35. OS RESTAURADORES O Passeio Público e os Restauradores são o símbolo de uma tentativa de recuperação falhada, e a prová-lo está o ambiente de decadência e amolecimento que cerca o obelisco (pp. 701-702);
  36. 36. GRAÇA E PENHA Os bairros antigos da cidade associam-se à época anterior ao Liberalismo, ou seja, o Portugal absolutista, um tempo que, não obstante a sua autenticidade, é recusado por Carlos por causa da sua intolerância e do seu clericalismo (p. 704).

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