Os muros de uberlândia

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Os muros de uberlândia

  1. 1. Os muros de Udi (Underground do Uber Alles) Daniel Faria
  2. 2. Sapo não esguicha veneno de propósito (manchete do caderno científico da FSP) Edições Gratuitas, 2010.
  3. 3. Ler Swift em Udi Por cinco horas Célia Se enfeitava (E quem seria mais rápido?) Com camadas e camadas De cremes, pomadas, óleos Perfumes e pós De todos os tipos. Estefânio, aproveitando-se Da folga da criada Entrou no quarto de Célia e Fez as devidas anotações, E pra que não restem Dúvidas, o que segue É um inventário: De cara, Estefânio deu com
  4. 4. Um avental engordurado, Mas apostando em mera Coincidência seguiu em frente. Sobre a penteadeira viu Uma escova com creme Caspas e fios de cabelo, Tudo tão misturado Entre pedaços amarelos De seborréia que mais parecia Um prato de exóticas Comidas tropicais. Ali ainda Entre frascos de perfumes, óleos e Infusões cheirando a hortelã Um recipiente Com os restos de comida De entre os dentes De um ogro talvez Nadando entre gosmas Espessas de catarro: ali a dama Cuspia o refugo De seu hálito floral. Pra melhor inspecionar Estefânio recorreu às virtudes Da poderosa lente De aumento usada por Célia, Capaz de multiplicar Por mil o tamanho Dos pontos de pus Ocultos em seu rosto delicado E agigantar a meleca Que pendia recôndita Em seu nariz, compondo O piercing de esmeraldas. Indo ao canto do quarto Atrás do biombo Estefânio sentiu O fedor mais intenso, Lento e adocicado De sua vida, como Se ele tivesse aberto A Caixa de Pandora Com seus vapores maléficos. Não acreditando Estefânio trouxe à luz
  5. 5. O penico, Que por negligência, Da criada, guarnecia Um troço parecido Com um bom naco De carne assada. Os arabescos fedorentos Causavam náusea Como se saídos do fundo Da garganta do demônio, E seu tamanho mais lembrava O produto de um fila brasileiro, E por isso Lamentando-se Estefânio Canta: “Meu coração é uma piscina De sangue e merda E porra onde Célia nada, Porque, ai de mim! Célia caga!” O pior pra Estefânio É que todas cagam E não há perfume que Não o lembre do quarto de Célia, nem máscara de creme Que não o assombre Com a massa de seborréia E caspas. Ele ainda aprenderá A abençoar a ordem que brota De tamanha confusão, As tulipas que repousam Sobre o monte de estrume, A beleza arrancada Com afinco por cada Musa-yahoo, como se lê Nas viagens de Gulliver.
  6. 6. 70 personagens de um romance Inacabado de Lima Barreto O medíocre aponta o dedo pra lua, pra melhor ver o próprio dedo. Citação tirada da placa inaugural da rodoviária de Uberlândia. Primeiro Movimento É tudo sempre o mesmo Marlon. Eles vivem no mundo Da lua e escrevem Por encomenda, nos rigores do método Taylorista enfiam a viola no saco e tomam O café Melado de açúcar. Paus pra toda obra
  7. 7. Fazem de tudo Pra “introjetar” Que a corporation é uma corporação De ofício: de fato Se vê romantismo Nesse lance de relatório Artesanal. (Mas num ônibus ninguém Os distinguiria De uma excursão de gerentes de bingo). São fodidos Pedindo emprego, A missão da empresa é dizer que: A cidade é boa, a terra É fértil; ubérrima Diria Policarpo Quaresma, Um sonho tornado real. Segundo Movimento No coro dos infelizes Você pensa que é Especial porque usa a escrita Como escarradeira e não quer Ser confundido Com os gerentes de bingo: “Minha camisa Amarrotada É minha bandeira” ou A estátua tem Uma cabeça grande E brilhante E um corpo de dar Inveja Aos cães amestrados Com seus diplomas iluminados Pelo luar do sertão Mas as notas de rodapé São de barro (O sonho apocalíptico De Daniel).
  8. 8. Terceiro Movimento Uberland – Ubermensch, É latim, é inglês É alemão É a finitude Do homem ocidental É a hermenêutica pós-moderna É o festival de citações A carta na manga e o bolso vazio À sombra dos clones De Roberto Justus. É o lirismo Do pesadelo acadêmico. É a poesia Sem charme Dos concursos, escrita Com os tipos dos carimbos1 Que não deveria ter sido Escrita, Não merece ser lida. 1 Carimbo: etimologicamente, o ferro em brasa usado pra marcar os escravos que saíam de Luanda. Escravos como Aristóteles, mas sem o consolo da filosofia, fechada para o balanço. Falida.
  9. 9. Um hotel em Udi Hospedado no inferninho O sujeito reage bem Ao cheiro de esgoto Impregnado nos lençóis Lendo O Samurai Corporativo, Vulgo Pecuarista do ying yang. "O mundo é rico de inimigos". No café da manhã
  10. 10. Sun Tzu apontou O dedo indicador Pra testa do discípulo Usando o polegar Como gatilho Depois disse à recepcionista "O seu chocolate Está no frigobar" & Sun Tzu disse: "A buceta é a crise do liberalismo"
  11. 11. Welcome Mr Ego 1. O meio é a massagem. 2. A falta de classe é o motor da história. 3. O eu não é senhor No seu condomínio fechado. 4. Sun Tzu e Bill Gates subindo a ladeira. 5. Walter Benjamin era um sujeito Diferenciado. 6. Um cantinho e um violão. 7. Um laptop e a Arte da Guerra
  12. 12. 8. Um estilo e um reconhecimento. 9. Uma casa no second life, um avatar, um cartão de crédito e nada mais. 10. Um tipo assim na mão E um otimismo na cabeça. 11. É sempre bom lembrar Que um pastel vazio Está cheio de ar. (depois de ouvir Gilberto Gil na propaganda do Pão de Açúcar) 12. etc etc etc
  13. 13. Opereta (pra ser encenada em qualquer hotel) Ubu-Estilista entra no saguão do Uberplace. Oito olhos na cabeça grande, muitas bocas, línguas grandes, cabelo arrepiado. Sobe lentamente pela escada. Em cada andar deixa um dos seus quatro pares de óculos escuros, como se fossem oferendas e ele um tipo de sacerdote. No quinto andar entra na Suíte Penitencial e da varanda proclama, naquele ritmo tipicamente papal, de canto falado: - Vocês sabiam que: - Pobre prefere pepsi-cola porque é mais doce? - A classe média prefere o amargo da coca-cola? - Os 2 princípios são a sanca e a cerca elétrica? Os pequenos e escuros labirintos? - Certas perguntas não devem ser feitas num açougue?
  14. 14. Nas outras varandas surgem as Capivaras, usando bigodinhos à Castro Alves, vestidas como aquelas crianças da serenata de natal: - Ó preclaro mecenas, prometemos: - Estourar miolos de estudantes. Celebrar nossos aniversários bêbados, caídos em frente às padarias. Mostrar nossas certidões de nascimento à polícia. Ubu-Estilista responde: - Que figuras exemplares! - Vocês levarão dois brindes: um círculo dourado (no formato de um dos andares do inferno) com o desenho de um mapa em traços negros. O mapa da mina pra vocês, soldados rasos, pendurarem no pescoço. E ainda mais, um grosso e reluzente supositório da Unimed, no modelo Maiêutica a Fórceps. Uma das capivaras responde, depois de limpar os restos de strogonoff de frango do bigode: - Magnífico, sempre sonhei com esse dia top de linha, com secretárias obesas que guardam poemas nas gavetas, desde minha infância imito o típico rastejar do calango do Planalto Central, nada me impede de, um pouco mais colado ao chão, chegar ao nível da lagartixa, tenho minh’alma carimbada pelas flores espinhosas do cerrado. Ubu-Estilista encerra a cerimônia: - Vocês têm um grande futuro pela frente, eu barganho com o presente. Quando aqui cheguei, esta merda era só estrada de terra. Nenhum clubezinho sequer. Com minhas mãos comecei a cavar esta vala, quer dizer lavar este vale, quer dizer gravar esta mala que vocês de hoje em diante carregarão, sempre mais fundo, cavando uma boquinha se me permitem a expressão. Só não vos chamo de cordeiros porque cordeiros são apetitosos e não causam ânsia de vômito.
  15. 15. O dom de ser observado O sol te fisgou No flagrante delito De caminhar pelas ruas. O sol tem dedos Azuis e unhas afiadas No ofício das sanguessugas. O sol se retorce por dentro Do meu couro cabeludo
  16. 16. Como se o seu cérebro Fosse massa de modelar. O sol é uma puta, ou melhor O sol é um olho vigilante Que joga o clarão sobre você, Imigrante ilegal, atrás Dos muros da cidade qualquer. O sol está grudado em sua pele E nas paredes quentes do meu apartamento. O sol torrou meus olhos E se esconde no capuz preto Porque sabe que é culpado Porque, no íntimo, Reconhece que o sol é um justiceiro Cheio de razão, apesar De você ser frio e verde escuro Por dentro.
  17. 17. Udi Grudi A cidade é de carne Seu sangue é lodo, tubulações Subterrâneas onde circula O rio canalizado (Assassinado), o rio onde nada Meu avô, que morreu delirando Com pescarias. A cidade é a terra Das minhas pernas Crivadas de raízes e pequenas plantas Que arranco, pacientemente.
  18. 18. Se tento fugir Da cidade é em mim Que encontro refúgio, e se completo Minha saída do labirinto De carne e lodo e musgo que sou Eu me encontro novamente Na cidade. Sou um emaranhado Infértil De lodo urbano, mas Que minha carne seja salva Junto com a carne da cidade Que me habita, que eu seja Condenado como um verme Roendo sua carniça, qualquer coisa Menos a ilusão de um nome próprio.
  19. 19. Udipalestra “Começando pelos verbos: atravessar, repensar, instigar, inserido e focar.” “é legal que o Vesúvio tenha inserido suas lavas em Pompéia, porque agora temos um sítio arqueológico intacto e instigante” “a lava preservou o salão das pinturas eróticas” “mas focou a pica do prefeito de Pompéia, pão e circo de auditório cultural” “e se o Vesúvio tivesse estourado sobre Uberlândia? repensaríamos os vestígios que restariam, por exemplo a lista telefônica (o instigante mapeamento da cidade) AÇOUGUES/ACRÍLICO AÇÚCAR/ADVOGADOS ADVOGADOS/ALARMES AR/AREIA BISCOITOS/BLOQUEADORES BOMBAS/BOUTIQUES CABELEIREIROS/CAÇA CAMINHÕES/CAMISETAS CHURRASQUEIRAS/CIRURGIÕES
  20. 20. COFRES/COLCHÕES CONTROLE/CÓPIAS CÓPIAS/CORTINAS DEDETIZAÇÃO/DEMOLIÇÕES DESENTUMPIMENTO/DIGITAÇÃO ENTULHO/ENXOVAIS ESCOLAS/ESPUMAS EVENTOS/FACULDADES FACULDADES/FANTASIAS FERRO/FESTAS FLORICULTURAS/FOGÕES FRANGOS/FUNERAIS GUINDASTES/HOSPITAIS INTERNET/JOALHEIROS LIMPEZA/LINGERIE MÉDICOS/METAIS MOTOCICLETAS/MOTOSSERAS NOIVAS/ÓCULOS ÔNIBUS/ORTOPEDIA PAPELARIAS/PÁRA-CHOQUES POÇOS/´PORTAS PROTÉTICOS/PSICÓLOGOS SELF/SEX TANQUES/TATUAGENS TERAPIA/TERRAPLANAGEM TURISMO/ULTRASSONOGRAFIA VIGILÂNCIA/ZÍPERES os cus carbonizados de Pompéia. Mas, como um buraco pode ser carbonizado? Tem aí um problema de método.” “O cu é uma mistura de carne e veias extremamente sensível, você só focou no buraco. É isso o que aconteceria se o Vesúvio explodisse em Cuberlândia” “O sonho do hospital próprio” “Boca inserida na cloaca do caixa eletrônico: finalizando, finalizando, finalizando.” “E nunca perder o gancho de vista”
  21. 21. O pensamento parece uma coisa à toa Mastigando perdas Como se fossem pedras Dentadas, lâminas polidas Em cristalina Água de esgoto, ou Entre peixe e refração, Anzol banzo Quando estou onde estive E não sou, & enfim Aquário de canibais Ornamentais
  22. 22. É a cidade submersa Em pensamentos alheios, Cheia de si, e daí Saio de mim. Caio na real. E daí. A cidade está fora de si.
  23. 23. La Boetie em Udi (Ou Network Canastrões Iltda) O segredo do Um Está escondido nas festas E jogos que ele promove, está Escondido nas sentinelas Que o protegem, contudo O segredo do Um Não é o mesmo que suas armas Por bem dispostas que estejam Nem o mesmo que seus cavalos, Por mais velozes, o segredo do Um Não tem a transparência das taças De vinho, nem é plano E frio como os tabuleiros de xadrez;
  24. 24. O Um sempre é servido por 4 ou 5 Que o sustentam Como os canhões de ar Que mantêm o suspense Dos números nas loterias nacionais e Estes 5 ou 6 são os favoritos do Um, Os sócios dos bens de suas pilhagens, Cúmplices de suas crueldades E estes 5 ou 6 são sustentados Por outros 600 que crescem às suas sombras E são coletores de impostos, corsários Em miniatura E quem se divertir em tecer esta rede Logo chegará aos 1.000 aos 100.000 Aos milhões que com estas cordas Se agarram ao Um, quando um simples Não bastaria, E assim visto ao revés 5 ou 6 suportam os males Causados pelo Um para poderem Causar outros males aos 600 Que calam o sofrimento para causarem Outros males aos milhares que restam E estes se entredevoram Em torno do espólio que lhes sobrou, enfim Este é o segredo do Um, Sua lastimável fraqueza e seu (quase) Indevassável poder.
  25. 25. Alegoria Há um cão agonizando sobre o asfalto. Ele tem os olhos amarelos, a língua esbranquiçada e a respiração lenta e funda de quem morre lentamente. Dolorosamente. Sua pele lacerada está cheia de carrapatos com o dorso tatuado em listras negras que formam pequenos roteiros geográficos, pontilhados de flores amarelas. A pele do cão está grudada no asfalto. Nas poucas vezes em que ele tentou se movimentar, o asfalto arrancou um bom pedaço de couro e mais uma ferida se abriu em sua pele. Eu sinto a dor deste cão porque seus nervos se misturaram aos nervos do asfalto e o asfalto está ligado a mim por meio dos raios de calor constantemente jogados na minha cabeça. Eu sinto a dor deste cão e por alguns momentos sinto que sou este cão. Da mesma forma que o asfalto, o sol também brinca de arrancar a dor da minha pele. Também vivo lentamente, ou morro lentamente o que dá no mesmo.
  26. 26. A memória tem seu preço A memória não mora Na cabeça, é na boca Do estômago Que se come a memória. Pergunte ao gato Que persegue um besouro A lógica da alegria – Ele sabe o motivo. Mas logo esquece o que sabe E esquece que esquece E vive fora do tempo Das suas perguntas e não entende Porque você lambe o osso
  27. 27. Das lembranças, como uma besta Faminta. É no vômito Criado pela bílis dos mercenários Injetado como soro intravenoso Em seu fígado Que se respira a memória, e tem mais Você nunca vai se esquecer disso: Por um precinho camarada os mercenários jogarão o gato morto num aterro qualquer de Uberlândia, em troca você leva um buraco pesado como chumbo entubado em seu esôfago como recordação.
  28. 28. Mais notícias de Udi Ou, é aí que você se engana Um rio foi picotado e circula debaixo do asfalto com dificuldade, os canos são suas pernas Mecânicas ao passo que ele anda em Udi Como quem se despede. O nome do rio é método e tem comigo uma porção de citações convenientes pra nos fazer acreditar que nascemos na pior das eras já que você não pode se contentar com a irrelevância e o merecido esquecimento, e o outro assunto sério além da teoria é a política e aí é preciso admitir que mesmo não sendo fracassado Hugo Chávez não tenho o charme das derrotas de Che Guevara e eu não me convenço dele mesmo com o boné venezuelano trazido pelo seu amigo, o último comunista depois da morte de Aldo Rebelo (você morreu engasgado com os trechos de Gilberto Freyre e Eduardo Prado, mais ácaros de plenário e hemorróidas na língua).
  29. 29. Mas falando em filosofia barata poderia dizer que isto não é um charuto e que nossa última revolução foi implantar o comunismo no colégio dos tarados salesianos e do professor de religião que queria ver o “terceiro olho” dos alunos, Pelo menos o ateísmo livrou meu rabo. Depois disso a queda foi visível e minha verdade é a farsa, revolvida por pequenas e cirúrgicas auto-sabotagens, deixar claro que não tenho meu estilo meu estilo é cheio de si (quer dizer, de uma terceira pessoa, do alheio). Mas nem isso dá pra se levar a sério, a sua consciência perversa é uma profissão De fé como outra qualquer, um amontoado de clichês, nada mais, literatura não é o álibi perfeito e ressentimento não é autenticidade, não sou eu aqui, entendeu?, é a cópia da minha cópia e você também é a cópia de uma idéia qualquer. Complexo de Max Weber, Melancolia Uspiana com o Fim dos Tempos, Neurastenia do Escritor que só Consegue se Repetir, Megalomania Deuleziana, Esquizofrenia do Legislador Platônico, Blogueiros Abúlicos, Histeria do Reacionário Afônico, Euforia do Ego Dilacerado pelos Mil Acessos, Nacional-Desenvolvimentismo Congênito Ambidestro, Fobia de Todos os Tipos, Alguma coisa se salva entre a gente.
  30. 30. Carnaval em Uberlândia Vitrines sem luz – Lojas fechadas, só As pessoas no shopping.
  31. 31. Conciliábulo Mas porque eu deixaria como rastro O amor que você, Cobra me cobra pra A mar como quem anda armado Ou se armadilha em Deserto, desterro ou arquipélago, se Em sua ilha de amigos belicosos Rastejar se oferece no cardápio frio Entre seus perdões de chumbo Pelo que você não tem, alma – Ulcera engrenagem vazia, concílio Devorador de sangue, vômito Inodoro que o amor desmente, Ou repudia.
  32. 32. Bêbado, eu mijava Na carcaça do gato morto. Os olhos são as primeiras Partes de um cadáver A serem comidas pelos vermes & Por isso o gato Parecia ter três cus – Isso antes de ele ter Se tornado um fedorento Casaco de pele para o asfalto De Uberlândia. Distantes, as vozes Se perdiam em suas confabulações, Formigavam os muros da cidade, Teciam os acordos que
  33. 33. As manteriam despertas para o dia. Eu queria ser esquecido Como o gato morto, não Deixar pegadas No calçamento e que minha Sombra fosse calcinada pelos seus muros. Eu morria sem que você Pronunciasse meu nome: Um carniça Não pode assinar tratados de paz Nem propor composições bélicas, como diziam Os poucos que se arriscavam a andar a pé e Tampavam o nariz E saltavam a carniça do gato, Entres os muros protetores E as cercas elétricas da cidade posto de gasolina.
  34. 34. Ler A Bolsa e a Vida De Le Goff em Udi, segundo a doutrina do Acaso Objetivo Na parte inferior do cérebro, na região que a ciência denomina de estriado, reside o vício financeiro do jogador que se apaixona pelo risco. O estriado, ao provocar ondas de calor que sobem pelo intestino do seu proprietário, também indica a presença da buceta mais desejada de uma festa, razão pela qual o indivíduo que tem o estriado volumoso geralmente acaba se acasalando com jovens advogadas, não importa quão feias. O que este tipo de incauto não sabe é que do estriado sai um canal invisível que, descendo pelo cu, faz uma ligação direta com o mais profundo dos infernos. A jovem advogada com quem ele contraiu matrimônio, por ser ótima defensora das moedas que ele insiste em não devolver vomitando, terá que passar o resto dos seus dias definhando ao lado de seu túmulo, orando interminavelmente, prostituindo-se para os imensos
  35. 35. fantasmas dos banqueiros culturais. O coitado somente então entenderá que aquela incômoda ardência em seu rabo não era fruto de prosaicas hemorróidas, mas sim um presságio de que ele teria que passar a eternidade sentado num chão abrasivo, sob uma sufocante chuva de fogo. Hoje mesmo eu conheci uma dessas jovens e infelizes senhoras. Ao passar pelo lúgubre cemitério mais conhecido como Procon, uma voz me intimou a entrar num de seus mausoléus (o pertencente à família de mafiosos Nossocaixão). O lugar fedia a miojo misturado com guaraná Mineiro. A moça mais parecia uma velhaca decrépita enquanto me convidava para ser seu companheiro de refeição. “Ela deve estar querendo dividir com os pobres o dinheiro conquistado de modo sórdido por seu marido”, pensei. Porém, saí dali assustado quando a vi tirando o prato de dentro de uma daquelas gavetas onde se guardam defuntos. O prato estava cheio de sapos e serpentes, que pelo fedor deviam ter sido cozidos no enxofre.
  36. 36. O curso-fantasma Um fantasma ensinando conceitos Vazios a outros fantasmas, Na boca do estômago de um grande fantasma, ou seja O grande fantasma habitado Por fantasmas contabilistas, fantasmas coletores de palavras Mortas na respiração de um deus quase morto, O grande animal envenenado Com carne e vidro moído, ou seja Vidro moído, a matéria-prima transparente Na fabricação dos fantasmas, a multidão Delirante dos fantasmas, a hemorragia divina,
  37. 37. As pessoas de vidro, Os conceitos vazios, as palavras Mortas na ponta da língua do fantasma Orador e suas palavras de vidro moído, ou seja Tudo isso Colado no suor das pequenas metrópoles delirantes Fantasmas, pesadelos de fantasmas herdeiros De um fantasma que enterra fantasmas.
  38. 38. Santidade barata, quase gratuita Melhor não ter nascido seria Melhor ser esquecido, historiadores Do futuro vomitarão este miasma Pra cima dos inocentes? O encanamento enferrujado sob As avenidas rasgadas como planícies No meio de um vale desértico Se misturou como um enxerto Em suas veias, querida. Quantas derrotas até chegar aqui, Você vive nos parâmetros Dessa metodologia, ancorada.
  39. 39. Mas, se você guarda as ofensas Como um tesouro? Como você gosta de dizer Elas te permitem fazer um gancho Com o mundo & se quando você Abre a boca se nota que a saliva Foi substituída pela lama que restou Da devastação do cerrado, querida, Em suas lentas, pegajosas palavras? Eu sei, não é você Nem sou eu, a culpa é do tempo, Fazemos bem em ser esquecidos Enterrados em pleno deserto, ao invés De cemitérios. Nunca foi tão fácil ser confundido Com anjos, você suspira, parece ter se esquecido Que você mesma cuspiu lama Nas asas encardidas de uma coisa parecida.
  40. 40. Mimetismo imperfeito A orquídea finge ser Jesus plastificado Como um galã esquecido Dos filmes de sábado à noite, Com o charme dos fumadores de haxixe, Num convite estendido Na pintura desbotada, azul. A orquídea se faz passar Por um bêbado que se emociona Em lágrimas de cerveja
  41. 41. E se esquece da severidade imposta Pela vida de imigrante e office boy Ex-morador do zoológico de Brasília. Atônitas, crianças Que medem a distância das estrelas Correndo com lanternas Lêem Mein Kampf nos bueiros, Livro em que a palavra Deus é repetida mais de vinte vezes Pelo autor que só tinha um testículo (As crianças precisam atestar O mal frente à inocência Despetalada a cada dia): As orquídeas colonizaram o mundo Por meio de disfarces: A imitação imperfeita Das flores Desdobra primaveras.
  42. 42. Na antevéspera de fugir Gato se esconde no lençol – O medo dos ecos Que agora moram na sala. * * * Os ecos chegaram primeiro Os ecos serão os últimos Depois da luz apagada e da porta – Trancados por fora. * * * Sala branca, território
  43. 43. Livre para os barulhos da rua: Gritaria de ecos na sala vazia. * * * Gato se esconde na mala – Conversa de ecos Na sala desabitada. * * * Onde o gato se meteu? – Ecos conversam Sobre o medo na sala branca. * * * Gato e ecos trocam Idéias sobre o vazio: Luz apagada, sala sem móveis, Mala enviada como relíquia No caminhão de mudanças. * * * Na chegada eram dois Gatos e oito ecos, na saída Um gato a menos e quatro Ecos a mais. * * * Gatos se tornam ecos
  44. 44. Quando morrem na cidade Vazia, ecos são guardados Nas malas, como relíquias. Nas malas vão vestígios das salas, vazias.
  45. 45. Entrar – sair – do – no – Inferno Você é um pretenso filósofo um pretenso poeta um pretenso outsider um pretenso professor um pretenso qualquer coisa da mesma forma que os outros estão pretensamente alegres pretensamente tristes pretensamente na sua, quer dizer na deles, em suma o Inferno é mera pretensão como outra qualquer, não interessa qual é a sua das máscaras que são pretexto de música que é pretexto de vida que é pretexto de longas caminhadas que são pretexto de morte que é um pretexto do Inferno que é um pretexto de você que é um mero pretexto, quer dizer talvez um mágico faça sumir o gato do apartamento como pretexto tardio e isso vai se repetir inúmeras vezes sempre como pretexto de outra coisa, você vai dizer que não era bem isso o gato pode ter sido enforcado, deixa eu dizer de novo de outro jeito, agora vai mas vai se repetir como os erros de uma máquina estressada, assim: A sua língua é subliminar, todas as línguas são subliminares na montanha-russa supralunar, não estamos falando de torre de babel, certo?, não tem nada a ver, estamos falando de onde tudo o que se diz é pretexto de uma música inexistente, não há música nos ruídos, mas eles querem dizer alguma coisa ou você quer dizer alguma coisa naquilo que eles poderiam querer dizer, você não é um compositor sacramentado, você às vezes não suporta os ruídos, quer dizer “conversas”, eles têm que ser combinados como se alguém mudasse aleatoriamente a sintonia do rádio e isso, no final das contas, desse como resultado alguma música, algum esboço de música que é, aí está, quer dizer o Inferno, esta música dos diabos Você pode inventar algo assim como uma montanha russa platônica e tecer comentários sobre a esfera de cristal, o éter, isso como alegoria, será mesmo que não é literal?, sobre a natureza líquida do tempo etc, os outros pensam que ele deve estar mentindo, cheio de pretensões ou pretextos, vão te filmar e colocar no youtube pra você ver lá o seu fantasma que (como todas as aparências) não mente, quer dizer mas a questão não é quem está fingindo e sim o que está sendo fingido quando todos estão fingindo, se todos não caíram, com você, dentro daquela velha história do mentiroso que só engana a si mesmo, o mais dantesco dos otários Outros vomitam. Você sabe: é seu o vômito deles e as aparências (por isso, os fantasmas) não mentem, quer dizer Você pode caminhar à vontade neste lugar em que nada muda de lugar você vai ter a sensação de caminhar em círculos mas aqui não há círculos você caminha em linha reta, para onde?, com sede, uma sede tão profunda que te faz criar caretas, taí, você virou uma caricatura, mas é aquela velha história da máscara que esconde o que mesmo? nada e do pesadelo de uma pessoa que bebe água, mas a água é ar e a sede continua e a pessoa acorda e percebe aliviada que era apenas sede mesmo e vai beber água e percebe que a água virou ar de novo, quer dizer as tais máscaras que ficam grudadas na cara, como as aparências (por isso os fantasmas) não mentem O Inferno não está para além da vida, está logo abaixo da vida, é o que sustenta a vida e permite suas caminhadas e devaneios, o Inferno não é um castigo, é mais um pretexto para redenções súbitas e passageiras, isto é, pequenas passagens para o Paraíso,
  46. 46. que também, por si mesmo, não é nada, sendo o Paraíso um pretexto do Inferno – ambos, pretextos da Realidade que por fim não é nada além de ruídos que solicitam, conclamam, forçam a barra no sentido de que alguma melodia saia desse vômito todo Por exemplo, e isso é literal, você pode pensar em mergulhar observando com a devida concentração os olhos que ficam negros quando ocultos por uma máscara dourada – não se trata de uma máscara “poética” de um carnaval veneziano – e a garota que está usando a máscara não simboliza nada, além de ser bonita, nada de metáforas, por favor, trata-se apenas de uma forte variação de eletricidade, um curto-circuito como aquele que te fez desviar os olhos quando você ainda estava pretensamente em si, no pleno controle de suas (risíveis) capacidades então você resolveu se preservar, quer dizer hoje não, ainda sinto uma pedra, quer dizer uma perda, na boca do estômago e agora momentos depois você caiu no limiar dos olhos que devem estar por trás da máscara, já que é pra brincar de pop cult cite o campo gravitacional das naves em guerra nas estrelas, você se lembra quando ela tirou a máscara, foi antes de tudo, naquela hora em que tudo era pretexto, mas no exato instante em que, em que mesmo?, alguém grita e os seus (quer dizer, não os dela) olhos explodem Você por um momento pensa em como seria bela uma recaída romântica, numa hora dessas?, e cantar a luz negra de um destino cruel ilumina esse teatro sem cor onde estou representando o papel de palhaço do amor e ri notando o que poderia ter de literal nisso tudo Agora se o seu amigo te revelar que enfim você está morto há uns dez minutos, e um seu brother não mentiria numa hora dessas, e você sabe muito bem no que isso vai dar, em nada, porque tudo é alegoria (principalmente o Paraíso, o Inferno e a Realidade), aí você está frito rapaz, você definitivamente estará morto, até quando Não é nada disso o que ele diz Não me venha com essa você pode se lembrar do Dom Quixote que não via um elmo no lugar de um penico ele dizia que aquilo era um elmo enquanto para os outros aquilo era um penico, aquilo não é nada além de aquilo, mas aquilo não presta pra nada, é como vômito, ao contrário de elmo ou penico que não existem, mas, sei lá, servem pra alguma coisa, você não serve pra nada como a perda não serve pra nada e nem mesmo as máscaras servem pra nada, o que não impede que Dom Quixote seja ou aja como ou fingisse ser um louco, como numa doença psiquiátrica cujo sintoma é fazer-se de louco, a loucura de quem pretende ser louco, ou aquela frase tipo Napoleão Bonaparte foi um louco que acreditou ser Napoleão Bonaparte, ou como diria um desses psicólogos de poltronas televisivas, cada um vive a sua fantasia Para os outros você e seus erros visíveis e risíveis é um lance inesperado, do seu ponto de vista, você e seus erros risíveis e visíveis, ah não, isso é inacreditável, quer dizer, por fora a surpresa e por dentro a perplexidade com as suas cagadas e você sempre achou canastrão e ridículo o choro simulado sem lágrimas e agora você está no Inferno e não tem lágrimas para chorar e melhor não falar de perdas, quer dizer derrotas, mas é só disso que você está falando, certo?, nas entrelinhas é isso, ponha mais essa na conta do vômito, de qualquer coisa que seja aquilo, melhor não comentar, aí é que você se engana, o Inferno não é o amor que ainda ontem se enforcou com o próprio cinto e
  47. 47. deixou um bilhete tão cheio de revelações como não se esqueça de pagar a conta da luz etc, o papo é outro Você estará grunhindo quando disser que são todos porcos E todo esse egocentrismo, peraí, não vai dar em nada, você vai sair do Inferno como entrou, de mãos vazias, e quanto aos pequenos paraísos e pelo menos a eletricidade, é isso aí, nada vai dar em nada, você vai ser, na pior das hipóteses, uma paródia, um pretexto, algo assim como o sábio da montanha, na melhor uma sabedoria possível seria ficar nos ruídos sem procurar uma música, mas a partir de então você só falará por ruídos e mais uma vez sua sabedoria será inútil, e se isso fará de você um santo, um otário ou um xarope tanto faz A viagem foi boa, uma festa dos infernos

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