Cronicas 2

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Cronicas 2

  1. 1. FUGA – FERNANDO SABINOMal o pai colocou o papel na máquina, o menino começou aempurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulhoinfernal.- Pára com esse barulho, meu filho – falou, sem se voltar.Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto dasgrandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho,estava só empurrando uma cadeira.- Pois então pára de empurrar a cadeira.- Eu vou embora – foi a resposta.Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação àspalavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas,enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: umcaminhão de plástico com apenas três rodas, um resto debiscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave dadispensa? – a mãe mais tarde irá dizer), metade de umatesourinha enferrujada, sua única arma para a grandeaventura, um botão amarrado num barbante.A calma que baixou então na sala era vagamenteinquietante. De repente, o pai olhou ao redor e não viu omenino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:
  2. 2. - Viu um menino saindo desta casa? – gritou para o operárioque descansava diante da obra do outro lado da rua, sentadono meio-fio.- Saiu agora mesmo com uma trouxinha – informou ele.Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe,caminhando cabisbaixo ao longo do muro. A trouxa,arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seuspertences: o botão, o pedaço de biscoito e – saíra de casaprevenido – uma moeda de 1 cruzeiro. Camou-o, mas eleapertou o passinho, abriu a correr em direção à Avenida,como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia adistância.- Meu filho, cuidado!O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para aesquerda, os pneus cantaram no asfalto. O menino,assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e oarrebanhou com o braço como a um animalzinho:- Que susto que você me passou meu filho – a apertava-ocontra o peito, comovido.- Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe darumas palmadas:
  3. 3. - Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai.- Me larga. Eu quero ir embora.Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala – tendoantes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave,como ele fizera com a da dispensa.- Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.- Fico, mas vou empurrar esta cadeira.E o barulho recomeçou. O MÉDICO E O MONSTRO – PAULO MENDES CAMPOS Avental branco, pincenê vermelho, bigodes azuis, ei-lo,grave, aplicando sobre o peito descoberto duma criancinhaum estetoscópio, e depois a injeção que a enfermeira lhepassa. O avental na verdade é uma camisa de homem adulto abater-lhe pelos joelhos; os bigodes foram pintados por suairmã, a enfermeira; a criancinha é uma boneca de olhoscerúleos, mas já meio careca, que atende pelo nome deRosinha; os instrumentos para exame e cirurgia saem dumacaixinha de brinquedos. Ela, seis anos e meio; o doutor tem cinco. Enquantotrabalham, a enfermeira presta informações:
  4. 4. - Esta menina é boba mesmo, não gosta de injeção, nemde vitamina, mas a irmãzinha dela adora. O médico segura o microscópio, focaliza-o dentro da bocade Rosinha, pede uma colher, manda a paciente dizer aaá.Rosinha diz aaá pelos lábios da enfermeira. O médicoapanha o pincenê, que escorreu de seu nariz, rabisca umareceita, enquanto a enfermeira continua: - O senhor pode dar injeção que eu faço ela tomar dequalquer jeito, porque é claro que se ela não quiser, né, vaificar muito magrinha que até o vento carrega. O médico, no entanto, prefere enrolar uma gaze em tornodo pescoço da boneca, diagnosticando: - Mordida de leão. - Mordida de leão? - pergunta, desapontada, aenfermeira, para logo aceitar este faz-de-conta dentro dooutro faz-de-conta. - Eu já disse tanto, meu Deus, para essagarota não ir na floresta brincar com ChapeuzinhoVermelho... Novos clientes desfilam pela clínica: uma baiana deacarajé, um urso muito resfriado, porque só gostava de neve,um cachorro atropelado por lotação, outras bonecas devários tamanhos, um Papai Noel, uma bola de borracha e atémesmo o pai e a mãe do médico e da enfermeira. De repente, o médico diz que está com sede e corre paraa cozinha, apertando o pincenê contra o rosto. A mãe se
  5. 5. aproveita disso para dar um beijo violento no seu amor defilho e também para preparar-lhe um copázio de vitaminas:tomate, cenoura, maçã, banana, limão, laranja e aveia. Ofamoso pediatra, com um esgar colérico, recusa a formidáveldroga. - Tem de tomar, senão quem acaba no médico é vocêmesmo, doutor. Ele implora em vão por uma bebida mais inócua. O copoé levado com energia aos seus lábios, a beberagem é provadacom uma careta. Em seguida, propõe um trato: - Só se você depois me der um sorvete. A terrível mistura é sorvida com dificuldade erepugnância, seus olhos se alteram nas órbitas, um engasgodevolve o restinho. A operação durou um quarto de hora. A mãe recolhe o copo vazio com a alegria da vitória eaplica no menino uma palmadinha carinhosa, revidada coma ameaça dum chute. Já estamos a essa altura, como nãopodia deixar de ser, presenciando a metamorfose do médicoem monstro. Ao passar zunindo pela sala, o pincenê e o avental sãoatirados sobre o tapete com um gesto desabrido. Do antigomédico resta um lindo bigode azul. De máscara preta eespada, Mr. Hyde penetra no quarto, onde a doce enfermeiracontinua a brincar, e desfaz com uma espadeirada todo oconsultório: microscópio, estetoscópio, remédios, seringa,
  6. 6. termômetro, tesoura, gaze, esparadrapo, bonecas, tudo sederrama pelo chão. A enfermeira dá um grito de horror ecomeça a chorar nervosamente. O monstro, exultante,espeta-lhe a espada na barriga e brada: - Eu sou o Demônio do Deserto! Ainda sob o efeito das vitaminas, preso na solidão escurado mal, desatento a qualquer autoridade materna oupaterna, com o diabo no corpo, o monstro vai espalhandoterror a seu redor: é a televisão ligada ao máximo, é o divãmassacrado sob os seus pés, é uma corneta indo tinir noouvido da cozinheira, um vaso quebrado, uma cortina que sedespenca, um grito, um uivo, um rugido animal, é o docederramado, a torneira inundando o banheiro, a revista novadilacerada, é, enfim, o flagelo à solta no sexto andar dumapartamento carioca. Subitamente, o monstro se acalma. Suado e ofegante,senta-se sobre os joelhos do pai, pedindo com doçura queconte uma história ou lhe compre um carneirinho deverdade. E a paz e a ternura de novo abrem suas asas num larameaçado pelas forças do mal. QUEM SABE DEUS ESTÁ OUVINDO – RUBEM BRAGA
  7. 7. Outro dia eu estava distraído chupando um caju navaranda, e fiquei com a castanha na mão, sem saber ondebotar. Perto de mim havia um vaso de antúrio; pus acastanha ali, calcando-a um pouco para entrar na terra, semsequer me dar conta do que fazia. Na semana seguinte a empregada me chamou a atenção:a castanha estava brotando. Alguma coisa verde saída terra,em forma de concha. Dois ou três dias depois acordei cedo, evi que durante a noite aquela coisa verde lançara para o arum caule com pequenas folhas. É impressionante a rapidezcom que essa plantinha cresce e vai abrindo folhas novas.Notei que a empregada regava com especial carinho a planta,e caçoei dela: - Você vai criar um cajueiro aí? Embaraçada, ela confessou: tinha de arrancar amudinha, naturalmente; mas estava com pena. - Mas é melhor arrancar logo, não é? Fiquei em silêncio. Seria exagero dizer: silênciocriminoso - mas confesso que havia nele um certo remorso. Um silêncio covarde. Não tenho terra onde plantar umcajueiro, e seria uma tolice permitir que ele crescesse maisalguns centímetros, sem nenhum futuro. Eu fora culpado,com meu gesto leviano de enterrar a castanha, mas isso aempregada não sabe; ela pensa que tudo foi obra do acaso.Arrancar a plantinha com a minha mão – disso eu não seria
  8. 8. capaz; nem mesmo dar ordem para que ela o fizesse. Se ela ofizer, darei de ombros e não pensarei mais no caso; mas queo faça com sua mão, por sua iniciativa. Para a castanha esua linda plantinha seremos dois deuses contrários, masigualmente ignaros: eu, o deus da Vida, ela, o da Morte. Hoje pela manhã ela começou a me dizer alguma coisa -"seu Rubem, o cajueirinho..." - mas o telefone tocou, fuiatender, e a frase não se completou. Agora mesmo ela voltouda feira; trouxe um pequeno vaso com terra e transplantoupara ele a mudinha. Veio me mostrar: - Eu comprei um vaso... - Ahn... Depois de um silêncio eu disse: - Cajueiro sente muito a mudança, morre à-toa... Ela olhou a plantinha e disse com convicção: - Esse aqui não vai morrer, não senhor. Eu devia lhe perguntar o que ela vai fazer com aquilo,daqui a uma, duas semanas. Ela espera, talvez, que eu o levepara o quintal de algum amigo; ela mesma não tem ondeplantá-lo. Senti que ela tivera medo de que eu a censurassepela compra do vaso, e ficara aliviada com minhaindiferença. Antes de me sentar para escrever, eu disse,sorrindo, uma frase profética, dita apenas por dizer:
  9. 9. - Ainda vou chupar muito caju desse cajueiro! Ela riu muito, depois ficou séria, levou o vaso para avaranda, e, ao passar por mim na sala, disse baixo, comcerta gravidade: - É capaz mesmo, seu Rubem; quem sabe Deus estáouvindo o que o senhor está dizendo... Mas eu acho, sem falsa modéstia, que Deus deve andarmuito ocupado com as bombas de hidrogênio e outrosassuntos maiores.HORÓSCOPO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE- Telefonaram do escritório, bem. Seu chefe mandouperguntar por que você não foi trabalhar.- E você deu o motivo?- Não.- Podia ter dado.- Ora, Alfredinho, isso é motivo que se dê?- Por que não? Se há motivo, está justificado. Sem motivo éque não cola.
  10. 10. - Então eu ia dizer ao seu chefe que você não trabalha hojeporque o seu horóscopo aconselha: "Fique em casadescansando"?- E daí, amor? Se meu signo é Touro, e se Touro achaconveniente que eu não faça nada, como é que eu voudesobedecer a ele?- É, mas com certeza seu chefe não é Touro, e não vai achargraça nisso.- Ele é Áries, está ouvindo? E o dia não está para relaçõesentre Áries e Touro. Pega aí o jornal. Faz favor de ler comesses belos olhos cor de pervinca: "Áries - Eviterigorosamente discussões com subordinados".- Mas se ele evitar, não tem perigo para você.- Ele pode evitar, sim, deve evitar. E para colaborar com ele,eu fico em casa.- Mas se você não comparece, ele pode vir ao telefone e pegarnuma discussão danada com você, dessas de sair fogo.- Não atendo telefone durante o dia. Não posso atender. Nãovê que estou descansando, que o horóscopo me mandoudescansar? É favor não fazer rebuliço nesta casa. Amor epaz, para o descanso do guerreiro.- Pra mim você está é com preguiça, e das bravas.
  11. 11. - Posso estar com preguiça, e daí? Preguiça é relaxante,restaura as energias, predispõe para o trabalho no diaseguinte. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Seeu não faço nada hoje, não é porque estou com preguiça. Éem atenção a um mandamento superior, à mensagem quevem dos astros, você não percebe?- Percebo, sim, mas não concordo.- Pode se saber por que a excelentíssima não concorda comaquilo que percebe e que está devidamente explicado?- Pode.- Então explica, vamos.- Gozado, Alfredinho, até parece que para você só existemdois signos no zodíaco: Touro e Áries, você e o patrão.- Espera lá, você queria que eu não prestasse atenção emTouro? Áries eu li hoje por acaso, porque está ao lado deTouro, em coluna paralela.- Coincidência: você saber que seu chefe é Áries, e...- É sim.- E por que você guardou na cabeça que ele é Áries?- Ora por quê! Ele fez anos no mês passado, amorzinho. Atécontei a você que oferecemos a ele uma batedeira. Soubemosque a mulher dele precisava de batedeira, fizemos uma
  12. 12. vaquinha e pronto. Mas por que você diz que para mim sóexistem dois signos?- Pelo menos Sagitário você ignora.- Como que eu ia ignorar Sagitário, se é o signo de você,minha orquídea de novembro 25?- É, mas esqueceu de ler que o dia é propício para reuniõessociais de Sagitário, e saiba que esta sua orquídea denovembro 25 vai reunir hoje as amigas aqui em casa. Tratede se mandar, querido.- Sem essa! Touro me manda descansar em casa, e você meenche a casa com mulheres?- É, Sagitário não ia fazer isso comigo! Eu já tinhaharmonizado Touro com Áries!- Pode continuar harmonizando, se for descansar em casa doTostes, que é Virgem, eu sei, ele é nosso padrinho decasamento. O horóscopo do Tostes recomenda prestarserviço a um amigo. Assim, Touro, Virgem, Áries e Sagitárioficam inteiramente harmonizados, cada um na sua, um portodos, todos por um. Ande, vá se vestir rapidinho, rapidinho,e rua, seu vagabundo!CASO DE RECENSEAMENTO - CARLOS DRUMMOND DEANDRADE
  13. 13. O agente do recenseamento vai bater numa casa de subúrbiolongínqüo, aonde nunca chegam as notícias.- Não quero comprar nada.- Eu não vim vender, minha senhora. Estou fazendo o censoda população e lhe peço o favor de me ajudar.- Ah moço, não estou em condições de ajudar ninguém.Tomara eu que Deus me ajude. Com licença, sim?E fecha-lhe a porta.Ele bate de novo.- O senhor outra vez?! Não lhe disse que não adianta mepedir auxílio?- A senhora ano me entendeu bem, desculpe. Desejo que meauxilie mas é a encher esta papel. Não vai pagar nada, nãovou lhe tomar nada. Basta responder a umas perguntinhas.- Não vou responder a perguntinha nenhuma, estou muitoocupada, até logo!
  14. 14. A porta é fechada de novo, de novo o agente obstinado tentareestabelecer o diálago.- Sabe de uma coisa? Dê o fora depressa e antes que euchame meu marido!- Chame sim, minha senhora, eu me explico com ele. ( SóDeus sabe o que irá acontecer. Mas o rapaz tem uma idéiana cabeça: é preciso preencher o questionário, é precisopreencher o questionário, é preciso preencher oquestionário).- Que é que há? - resmunga o marido, sonolento, descalço esem camisa, puxado pela mulher.- É esse camelô aí que ano quer deixar a gente sossegada!- Não sou camelô, meu amigo, sou agente do censo...- Agente coisa nenhuma, eles inventam uma besteiraqualquer, depois empurram a mercadoria!A gente não pode comprar mais nada este mês, Ediraldo!O marido faz-lhe um gesto para calar-se, enquanto eleestuda o rapaz, suas intenções. O agente explica-lhe tudo
  15. 15. com calma, convence-o de que não é nem camelô, nempolicial, nem cobrador de impostos, nem enviado de TenórioCavalcanti.A idéia de recenseamento, pouco a pouco, vai-se instalandonaquela casa, penetrando naquele espírito. Não custaatender o rapaz, que é bonzinho e respeitoso. E como não hádespesa, nem ameaça de despesa ou incômodo de qualquerordem, começa a informar, obscuramente orgulhoso de serobjeto - pela primeira vez na vida - da curiosidade dogoverno.- O senhor tem filhos, seu Ediraldo?- Tenho três, sim senhor.- Pode me dizer a graça deles, por obséquio? Com a idade decada um?- Pois não. Tenho Jorge Independente, de 14 anos; o MiguelUrubatã, de 10; e a Pipoca, de 4.- Muito bem, me deixe tomar nota. Jorge... Urubatã... E aPipoca, como é mesmo o nome dela?- Nós chamamos ela de Pipoca porque é doida por pipoca.
  16. 16. - Se pudesse me dizer como é que ela foi registrada...- Isso eu não sei, não me lembro.E voltando-se para a cozinha:- Mulher, sabes o nome de Pipoca?A mulher aparece, confusa.- Assim de cabeça eu não guardei. Procura o papel na gaveta.Reviraram a gaveta, não acham a certidão de registro civil.- Só perguntando à madrinha dela, que foi quem inventou onome. Pra nós ela é Pipoca, tá bom?- Pois então fica se chamando Pipoca, decide o agente. Muitoobrigado, seu Ediraldo, muito obrigado minha senhora,disponham!FLOR DE MAIO - RUBEM BRAGAEntre tantas notícias do jornal - o crime do Sacopã, o discovoador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaimeque caiu, o homem que matou outro com machado e com
  17. 17. foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés -há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos osjornais publicaram.Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta dágua,nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país estáem paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre deavião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, enos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a penavisitar o Jardim, porque a planta chamada "flor-de-maio"está, efetivamente, em flor.Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foideixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico,contemplar a flor e cumprimentar a administração do hortopelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler eescrever, telefonema a dar, providências a tomar. Agora jádesce anoite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou àtarde, quando há sol - ou mesmo quando a chuva asdespenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores nochão.Suspiro e digo comigo mesmo - que amanhã acordarei cedo eirei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio queesse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi - um
  18. 18. impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde nomeio da pressa e da inquietação dos minutos que voam.Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontadereal, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então serátarde, não haverá mais "flor-de-maio", e então pensarei que épreciso esperar a vinda de outro outono, e no outro outonoposso estar em outra cidade em que não haja outono emmaio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidadehaverá essa "flor-de-maio".No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhassejam lidas por alguém - uma pessoa melhor do que eu,alguma criatura correta e simples que tire desta crônica asua única substância, a informação precisa e preciosa: dodia 27 em diante as "flores-de-maio" do Jardim Botânicoestãogloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindode casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a "flor-de-maio" - talvez com a mulher e as crianças, talvez com anamorada, talvez só.Ir só, no fim da tarde, ver a "flor-de-maio"; aproveitar a únicanotícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa maisbela e emocionante de um dia inteiro da cdade imensa. Seentre vós houver essa criatura, e ela souber por mim anotícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e
  19. 19. que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixõesdesgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que ahumanidade possivelmente ainda poderá sersalva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.Chatear e Encher – PAULO MENDES CAMPOSUm amigo meu me ensina a diferença entre ―chatear‖ e―encher‖.Chatear é assim:Você telefona para um escritório qualquer na cidade.- Alô! Quer me chamar por favor o Valdemar?- Aqui não tem nenhum Valdemar.Daí a alguns minutos você liga de novo:- O Valdemar, por obséquio.- Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.- Mas não é do número tal?- É, mas aqui não trabalha nenhum Valdemar.Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:- Por favor, o Valdemar já chegou?- Vê se te manca, palhaço. Já não lhe disse que o diabodesse Valdemar nunca trabalhou aqui?- Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.- Não chateia.Daí a dez minutos, liga de novo.- Escute uma coisa! O Valdemar não deixou pelo menos umrecado?
  20. 20. O outro desta vez esquece a presença da datilógrafa e dizcoisas impublicáveis.Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dezminutos, faça nova ligação:- Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar. Alguémtelefonou para mim?TURCO - FERNANDO SABINOAssim que chegou a Paris, foi cortar o cabelo, coisa que nãotivera tempo de fazer ao sair do Rio. O barbeiro, como os detoda parte, procurou logo puxar conversa:— Eu tenho aqui uma dúvida, que o senhor podia meesclarecer.— Pois não.— Eu estava pensando... A Turquia tomou parte na últimaguerra?— Parte ativa, propriamente, não. Mas de certa maneiraesteve envolvida, como os outros países. Por quê?— Por nada, eu estava pensando. A situação política lá émeio complicada, não?Seu forte não era a Turquia. Em todo caso respondeu:
  21. 21. — Bem, a Turquia, devido a sua situação geográfica...Posição estratégica, não é isso mesmo? O senhor sabe, oOriente Médio...O barbeiro pareceu satisfeito e calou-se, ficou pensando.Alguns dias depois ele voltou para cortar novamente ocabelo. Ainda não se havia instalado na cadeira, o barbeirocomeçou:— Os ingleses devem ter muito interesse na Turquia, não?Que diabo, esse sujeito vive com a Turquia na cabeça —pensou. Mas não custava ser amável, além do mais, iapraticando o seu francês:— Devem ter. Mas têm interesse mesmo é no Egito. O canalde Suez.— E o clima lá?— Onde? No Egito?— Na Turquia.Antes de voltar pela terceira vez, por via das dúvidasprocurou informar se com um conterrâneo seu, diplomataem Paris e que já servira na Turquia.— Desta vez eu entupo o homem com Turquia decidiu-se.Não esperou muito para que o barbeiro abordasse seuassunto predileto:
  22. 22. — Diga-me uma coisa, e me perdoe a ignorância: a capital daTurquia é Constantinopla ou Sófia?— Nem Constantinopla nem Sófia. É Ancara.E despejou no barbeiro tudo que aprendera com seu amigosobre a Turquia. Nem assim o homem se deu por satisfeito,pois na vez seguinte foi começando por perguntar:— O senhor conhece muitos turcos aqui em Paris?Era demais:— Não, não conheço nenhum. Mas agora chegou a minha vezde perguntar: por que diabo o senhor tem tanto interesse naTurquia?— Estou apenas sendo amável — tornou o barbeiro,melindrado: — Mesmo porque conheço outros turcos além dosenhor.— Além de mim? Quem lhe disse que sou turco? Soubrasileiro, essa é boa.— Brasileiro? — e o barbeiro o olhou, desconsolado:— Quem diria! Eu seria capaz de jurar que o senhor eraturco. . .Mas não perdeu tempo:— O Brasil fica é na América do Sul, não é isso mesmo?
  23. 23. NEIDE - RUBEM BRAGAO céu está limpo, não há nenhuma nuvem acima de nós. Oavião, entretanto, começa a dar saltos, e temos de pôr oscintos para evitar uma cabeçada na poltrona da frente. Olhopela janela: é que estamos sobrevoando de perto um grandetumulto de montanhas. As montanhas são belas, cobertas deflorestas; no verde escuro há manchas de ferrugem depalmeiras, algum ouro de ipê, alguma prata de embaúba, ede súbito uma cidade linda e um rio estreito. Dizem me que éPetrópolis.É fácil explicar que o vento nas montanhas faz corrente parabaixo e para cima, como também o ar é mais frio debaixo daleve nuvem. A um passageiro assustado o comissário diz que"isso é natural". Mas o avião, com o tranqüilo conforto imóvelcom que nos faz vencer milhas em segundos, havia nostirado o sentimento do natural. Somos hóspedes damáquina. Os motores foram revistos, estão perfeitos,funcionam bem, e temos nossas passagens no bolso; tudoestá em ordem. Os solavancos nos lembram de que anatureza insiste em existir, e ainda nos precipita além dela,para os reinos azuis da Metafísica. Pode o avião vencer amontanha e desprezar as passagens antigas que ahumanidade sempre trilhou. Mas sua vitória não pode sersaboreada de perto: mesmo debaixo, a montanha ainda fez
  24. 24. sentir que existe e à menor imprudência da máquina ogigante vencido a sorverá de um hausto, e a destruirá. Assima humilde lagoa, assim a pequena nuvem: a tudo isso somossensíveis dentro de nosso monstro de metal.A menina disse que era mentira, que não se via anjo nenhumnas nuvens. O homem, porém, explicou que sim, e pediu queeu confirmasse. Eu disse:— Tem anjo sim. Mas tem muito pouco. Até agora desde quesaímos eu só vi um, e assim mesmo de longe. Hoje em dia hámuito poucos anjos no céu. Parece que eles se assustam comos aviões. Nessas nuvens maiores nunca se encontranenhum. Você deve procurar nas nuvenzinhas pequenas,que ficam separadas umas das outras; é nelas que os anjosgostam de brincar. Eles voam de uma para outra.A menina queria saber de que cor eram as asas dos anjos ede que tamanho eles eram. O homem explicou que os anjostinham as asas da mesma cor daquele vestidinho da menina;e eram de seu tamanho. Ela começou a duvidar novamente,mas chamamos o comissário de bordo. Ele confirmou aexistência dos anjos com a autoridade de seu ofício; eraimpossível duvidar da palavra do comissário de bordo, queusa uniforme e voa todo dia para um lado e outro, e alémdisso ele tinha um argumento impressionante: "Então você
  25. 25. não sabia que tem anjos no céu?" E perguntou se ela tinhavontade de ser anjo.— Não.— Que é que você quer ser?— Aeromoça!E começou a nos servir biscoitos; dois passageiros queestavam cochilando acordaram assustados porque elaapertou o botão que faz descer as costas das poltronas; masdepois riram e aceitaram os biscoitos.— A Baía de Guanabara!Começamos a descer. E quando o avião tocava o solo,naquele instante de leve tensão nervosa, ela se libertou docinto e gritou alegremente:— Agora tudo vai explodir.E disse que queria sair primeiro porque estava com muitapressa, para ver as horas na torre do edifício ali perto: pois jásabia ver as horas.Não deviam ter lhe ensinado isso. Ela já sabe tanta coisa! As
  26. 26. horas se juntam, fazem os dias, fazem os anos, e tudo vaipassando, e os anjos depois não existem mais, nem no céu,nem na terra. A ABOBRINHA – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Quando a senhora foi descer do lotação, o motoristacoçou a cabeça: - Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eutroque mil cruzeiros? - Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado. - Não posso não. Madame não leu o aviso - olha ele ali -que o troco máximo é de 200 cruzeiros? - Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhornunca esqueceu nada na vida? - Quem sabe se procurando de novo na bolsa... - Já procurei. Procura outra vez. Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro(como se dizia no tempo de meu pai) se moveu para salvar asituação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar apassagem. Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos nolotação. - Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.
  27. 27. - Pera aí. Vou ver se posso trocar. Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foibotando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente. - Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe,hein? Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como édestino dos lotações, quando de repente o motorista freou ebotou as mãos à cabeça: - A abobrinha! Ela ficou com a abobrinha! Voltando-se para os passageiros: - Os senhores acreditam que em vez de guardar a notade mil, eu de burro devolvi com o troco? Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, queatravessava a rua, lá atrás: - Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros! Ela não escutava. Ele fazia sinais, pedia aos transeuntesque a chamassem, o trânsito entupigaitava-se, buzinassoavam. - Toca! Toca! Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo,como antes não se condoeram do vexame da senhora. - Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros,gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros? Encostou o veículo e, num gesto solene:
  28. 28. - Vou buscar meu cabral. A partir deste momento confioeste carro, com todos os seus pertences, à distinção dossenhores passageiros. - Deixa que eu vou - disse um deles, garoto. Eprecipitou-se para fora, antes do motorista. - Será que esse tiquinho de gente consegue? Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora,tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria denovo a bolsa, tirava objetos, o pequeno ajudava. Enquantoisso, o motorista carpia: - Esta linha é de morte. Primeiro querem que a gentetroque um conto de réis, como se o papai fosse o TesouroNacional ou o Banco do Brasil. Depois carregam o troco e odinheiro trocado, que nem juro. Essa não! E esse garoto quenão acaba com a conversa mole? Sei lá até se ele volta. Os passageiros impacientavam-se com a demora daexpedição. O guarda veio estranhar o estacionamento erecebeu a explicação de força-maior: - Quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço deTrânsito? Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987cruzeiros, ele vira e jurava por ela. - Toca! Toca!
  29. 29. - Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é detirar a fome e a vontade de comer. Disse isso em tom frio, sem revolta, como simplesremate. E tocou. Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo,encabulado: - Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não. O motorista respondeu-lhe baixinho: - Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos.Mas se eu disser isso, esse povo me mata.Confusão com São Pedro – FERNANDO SABINO Você vai neste avião, eu vou no próximo-decidiude súbito, no último instante, quando o alto-falante jáinvocava ospassageiros: queiram apresentar suas despedidas e boaviagem. Ele deu um suspiro desalentado. Já fora um custoconvencer amulher de viajarem de avião. Ela dizia que tinha medo, porque não vamosde trem? E passara a noite toda naquela conversa, olha, meubem, tenho um pressentimento ruim.
  30. 30. Quando já estavam praticamente embarcados, vinha comnovidade. - Que bobagem é essa? - Eu vou no outro- insistiu ela, aflita: - Tem outroaviãodaqui a meia hora. - Mas por que isso assim de repente? Ela o olhava nos olhos como se se despedisse dele parasempre: - Não podemos correr tanto risco juntos, meu bem, sejarazoável.Temos nossos filhos, imagine se acontece alguma coisa. - Não vai acontecer nada, mulher. - Eu sei que não tem perigo, que é o transporte maisseguro domundo, e as estatísticas, e essa coisa toda, você já meexplicou. Maspense um pouco nos nossos filhos, pelo amor de Deus! Euindo num e você
  31. 31. noutro, sempre é uma chance de pelo menos um de nós doisescapar. - Olha aí, já estão chamando de novo. Vamos embora,mulher. Ela fincara pé, irredutível. Sem mais tempo paraargumentar,ele acabou cedendo: - Está bem, seja como você quiser! Mas então vai nesse,eu vouno outro. Se eu deixar você aqui, você acaba não indo. Despediu-se dela, aborrecido, e foi tratar datransferência desua passagem. A mulher entrou no avião como num túmulo, o coraçãoaos pulos.A porta se fechou, desligando-a para sempre do mundo. Aseu lado, viajava um padre, alheio a tudo, mergulhado nobreviário. De súbito o avião, já em pleno vôo, começou a jogar.Eu não
  32. 32. disse? eu não disse? Entraram numa nuvem escura e nuncamais que saíamdela. Em pânico, chamou o comissário: não é nada, minhasenhora, umapequena tempestade, estamos fazendo vôo cego. Vôo cego! Sentindo-se perdida, voltou-se para o padre: - Estou com tanto medo, seu padre. O padre a olhou, desconfiado: - Reza, que é melhor. E voltou ao seu breviário. Rezar? Não, ela não sabiarezar.Lembrou-se de São Pedro, que era quem devia manobrarchuvas etempestades - juntou as mãos e pediu-lhe auxilio: - São Pedro, piedade de mim. Tenho meus filhos paracriar. Fuicriada sem mãe, o senhor não imagina a falta que uma mãefaz. Todos na
  33. 33. minha família ficaram assim feito eu, só porque não tiverammãe. Queserá dos meus filhos sem mãe, São Pedro, mãe faz muitomais falta quepai, por favor me protege, se for preciso transfere essatempestade parao avião dele, mas me salva desta que noutra eu nunca maishei de memeter. A falta de mãe não lhe abalara o prestígio junto a SãoPedro-tanto assim que em pouco o avião deixava para trás atempestade e saíapara um céu azul, e logo descia no aeroporto sem maisnovidades. Estavasalva! Comprou uma revista, sentou-se num canto e pôs-se aesperar oavião do marido. Esperou meia hora. Como ele nunca maischegasse, correu, já aflita, a informar-se no balcão.Soube que não havia nada de especial: as más condições dotempo às vezesocasionavam algum atraso.
  34. 34. - Más condições do tempo? Não tinha dúvida, era a tempestade que mandara paraele. Roídade remorsos, juntou as mãos ali mesmo, em frente aofuncionárioassombrado: - São Pedro, essa não! não faça isso comigo. Eramentira, osenhor não vai me levar a sério. O pai faz muito mais faltaque a mãe,quem é que foi meter uma bobagem dessa na minhacabeça? Ele trabalhapara sustentar a familha, eu não faço nada que preste. Elogo ele, tãobom que ele é, tão carinhoso, por favor, São Pedro, não façaisso comele, joga essa tempestade para cima de outro que não tenhafilhos, paracima dele não! Em pouco São Pedro voltava a atendê-la, fazendo omaridodesembarcar no aeroporto, são e salvo:
  35. 35. - Que cara é essa? Você está parecendo um fantasma!Aconteceualguma coisa? Ela se abraçou a ele, ansiosa: - Você está bem? Você me perdoa? - Eh, que novidade você vai inventar agora? Perdoaro quê,mulher? - Tudo por minha culpachoramingou ela.- Mas graças aDeus vocêestá salvo. Fiz uma confusão enorme com São Pedro, vocênem imagina. Dapróxima vez, quer saber de uma coisa? vou com você,morreremos juntos,nossos filhos que se danem. Ele a olhou, francamente apreensivo."Acho que essaminha mulherestá ficando maluca", pensou.CORAÇÃO MATERNO – PAULO MENDES CAMPOS
  36. 36. Duas horas da tarde. Ali no início do Morro da Viúvafizeramsinal: duas senhoras, ambas de cabelos brancos,preparavam-se paraentrar no lotação, quando o motorista gritou:"Um lugar só".A velhinhamais velha, já com o pé colocado no carro com imensadificuldade,conseguiu retirar a perna comprometida, com dificuldadeainda maior, sobos protestos persuasivos da velha mais moça, que dizia: - Vai, mamãe, vai a senhora, eu vou em outro. A mãe se desmanchando em timidez, medo e bondade,sorria:Na condução - 51 - Não, minha filha, eu não posso te deixar aqui sozinha. - Vai, mamãe. - Não, minha filha. - Pelo amor de Deus, mãe; o homem está esperando.
  37. 37. - Mas.., minha filha?! Os passageiros aguardavam com a tolerante paciênciade quem temou já teve mãe. O motorista fez força (e o conseguiu,parabéns) pararefrear a sua fúria de Averno. - Vai, mãezinha; aqui neste ponto é difícil arranjardoislugares. - Não posso te deixar sozinha, minha filha. Nunca! Diante do impasse, levantou-se, resoluto um senhorsentado nobanco da frente, oferecendo-se para ir em pé, as duassenhoras iriamsentadas. Ah, mas isso não, aparteou o motorista, eracontra oregulamento, dava multa. O amável passageiro descompôs oregulamento dotráfego e os demais regulamentos: eram desumanos. Ao péda calçada, otorneio sentimental de mãe e filha continuava:
  38. 38. - Vai, vai, mãe. - Não posso ir sem você, minha filha. Quem viu a necessidade eventual de perder docementea paciênciafoi a filha. Usando de energia adequada ao momento,segurou o braço davelhinha (mas velhinha mesmo, frágil, frágil), empurrou-acom o mínimode força necessária, proferiu uma ordem imperiosa:- Vai, mãe. E a velha mais moça se afastou em passadascompridas, impedindoa contramarcha da velha mais velha, que estava no limiteextremo de suatimidez, e não teve outro jeito senão agarrar-se ao braço domotorista,entrar penosamente, sorrir pedindo perdão para todos ospassageiros. Ajeitou-se no banco,esperou o barulho do motor e comentou para a vizinha(que a olhava,compreendendo tudo, as velhas, as mães, o cosmos):
  39. 39. - Coitadinha! Eu fico morrendo de pena de deixar ela aí,só, tãolonge! Longe de onde? Das entranhas que criaram umamenina. Longe. Só. A viagem para o centro foi recomeçada, sem novidades,todosvoltaram para dentro de si mesmos, esquecidos do episódio.A mãe, noentanto, furtiva (certa de que já causara bastantetranstornos naqueledia) inspecionava todos os lotações que ultrapassavam onosso, aflita emsua quietude, buscando lobrigar a filha. Mas foi só quandoo lotaçãoentrou na Avenida, e parou diante de um sinal, que, enfim, avelha maismoça, a filha, apareceu em um lotação ao nosso lado. Asduas se sorriramcomo depois de uma longa e apreensiva travessia. Avelhinha chegou afazer graça:
  40. 40. - Graças a Deus, minha filha! Você ainda chegou antesde mim. - Eu não disse, mãe, que não tinha perigo? A filha desceu na esquina, chegou até perto da janelado nossolotação, segurou a mão de sua mãe: - Agora vai direitinha, viu? - Você pode ir descansada, minha filha. O lotação arrancou de novo, gestos de adeus, aharmonia voltouao rosto da nossa velhinha, que tranqüilizou também avizinha de banco: - Ela vai trabalhar no Ministério; eu vou para casa,moro no RioComprido.NA ESCOLA – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Democrata é Dona Amarílis, professora na escolapública de uma
  41. 41. rua que não vou contar, e mesmo o nome de Dona Amarílis éinventado, maso caso aconteceu. Ela se virou para os alunos, no começo da aula, e falouassim: - Hoje eu preciso que vocês resolvam uma coisa muitoimportante.Pode ser? - Pode - a garotada respondeu em coro. - Muito bem. Será uma espécie de plebiscito. Apalavra écomplicada, mas a coisa é simples. Cada um dá sua opinião,a gente somaas opiniões e a maioria é que decide. Na hora de dar opinião,não falemtodos de uma vez só, porque senão vai ser muito difícil eusaber o que éque cada um pensa. Está bem? - Está - respondeu o coro, interessadíssimo.
  42. 42. - Ótimo. Então, vamos ao assunto. Surgiu ummovimento para asprofessoras poderem usar calça comprida nas escolas. Ogoverno disse quedeixa, a diretora também, mas no meu caso eu não querodicidir por mim.O que se faz na sala de aula deve ser de acordo com osalunos. Paratodos ficarem satisfeitos e um não dizer que não gostou.Assim não temproblema. Bem, vou começar pelo Renato Carlos. RenatoCarlos, você achaque sua professora deve ou não deve usar calça comprida naescola? - Acho que não deve - respondeu, baixando os olhos.- Por quê? - Porque é melhor não usar. - E por que é melhor não usar? - Porque minissaia é muito mais bacana.
  43. 43. - Perfeito. Um voto contra. Marilena, me faz um favor,anote aíno seu caderno os votos contra. E você, Leonardo, porobséquio, anote osvotos a favor, se houver. Agora quem vai responder é Inesita. - Claro que deve, professora. Lá fora a senhora usa, porque vaideixar de usar aqui dentro? - Mas aqui dentro é outro lugar. - É a mesma coisa. A senhora tem uma roxo-cardealque eu vioutro dia na rua, aquela é bárbara. - Um a favor. E você, Aparecida? - Posso ser sincera, professora? - Pode, não. Deve. - Eu, se fosse a senhora, não usava. - Por quê?
  44. 44. - O quadril, sabe? Fica meio saliente... - Obrigada, Aparecida. Você anotou, Marilena?Agora você,Edmundo. - Eu acho que Aparecida não tem razão, professora. Asenhoradeve ficar muito bacana de calça comprida. O seu quadril écertinho. - Meu quadril não está em votação, Edmundo. A calça,sim. Você écontra ou a favor da calça? - A favor 100%. - Você, Peter? - Pra mim tanto faz. - Não tem preferência? - Sei lá. Negócio de mulher eu não me meto, professora.
  45. 45. - Uma abstenção. Mônica, você fica encarregada detomar nota dosvotos iguais ao de Peter: nem contra nem a favor, antes pelocontrário. Assim iam todos votando, como se escolhessem oPresidente daRepública, tarefa que talvez, quem sabe? no futuro sejamchamados a desempenhar. Com a maior circunspeção. Avezde Rinalda: - Ah, cada um na sua. - Na sua, como? - Eu na minha, a senhora na sua, cada um na dele,entende? - Explique melhor. - Negócio seguinte. Se a senhora quer vir de pantalona,venha.Eu quero vir de midi, de máxi, de hort, venho. Uniforme épapo furado.
  46. 46. - Você foi além da pergunta, Rinalda. Então é a favor? - Evidente. Cada um curtindo à vontade. - Legal!exclamou Jorgito.- Uniforme esta superado,professora.A senhora vem de calça comprida, e a gente aparecemos dequalquer jeito. - Não pode - refutou Gilberto.- Vira bagunça. Lá emcasa ninguémanda de pijama ou de camisa aberta na sala. A gente tem derespeitar ouniforme. Respeita, não respeita, a discussão esquentou, DonaAmarílispedia ordem, ordem, assim não é possível, mas os gruposse haviamextremado, falavam todos ao mesmo tempo, ninguém sefazia ouvir, peloque, com quatro votos a favor de calça comprida, doiscontra, e umtanto-faz, e antes que fosse decretada por maioria absolutaa abolição
  47. 47. do uniforme escolar, a professora achou prudente declararencerrado oplebiscito, e passou à lição de História do Brasil.REUNIÃO DE MÃES - FERNANDO SABINO Na reunião de pais só havia mães. Eu me sentiriaconstrangido emmeio a tanta mulher, por mais simpáticas me parecessem, eacabaria nementrando - se não pudesse logo distinguir, espalhadas noauditório, duasou três presenças masculinas que partilhariam de meuressabiado zelopaterno. Sentei-me numa das últimas filas, para não causarespécie àseleta assembléia de progenitoras. Uma delas fazia tricô, eváriasconversavam, já confraternizadas de outras reuniões. OPadre-Diretortomou assento à mesa, cercado de professoras, e deu início àsessão.
  48. 48. Eu viera buscar Pedro Domingos para levá-lo aomédico, masdesta vez cabia-me também participar antes da reunião.Afinal de contasandava mesmo precisando de verificar pessoalmente aquantas o meninoandava. O Padre-Diretor fazia considerações gerais sobre ouniforme degala a ser adotado. A gravatinha é azul?perguntou uma dasmães. Meiatrês-quartos?perguntou outra. E o emblema nobolsinho?perguntou umaterceira. Outra ainda, à minha frente, quis saber se tinhapesponto-mas sua pergunta não chegou a ser ouvida. Invejei-lhes a desenvoltura. Tive vontade de perguntartambémalguma coisa, para tornar mais efetivo meu interesse de pai- mas temiaquelas mães todas voltando a cabeça, curiosas esurpreendidas, ante umadestoante voz de homem, meio gaguejante talvez deinsegurança. Poderia
  49. 49. também não ser ouvido - e se isso me acontecesse eu sumiriana cadeira.Além do mais, não me ocorria nada de mais prático paraperguntar senão oque vinha a ser pesponto. Acabei concluindo que tanta perguntação quebravaum pouco asolene compostura que devíamos manter, como responsáveispelo destino denossos filhos. E dispensei-me de intervir, passando a ouvir aexplanaçãodo Padre-Diretor: - Chegamos agora ao ponto que interessa: o quinto ano.Depois decuidadosa seleção, foi dividido em três turmas - a turma 14,dos maisadiantados; a turma 13, dos regulares; e a turma 12, dosatrasados,relapsos, irrequietos, indisciplinados. Os da 13 já não são láessas coisas, mas os da12 posso assegurar que dificilmente irão para a frente, nãoquerem nadacom estudo.
  50. 50. Fiquei atento: em qual delas estaria o menino? Penseique oDiretor ia ler a lista de cada turma - o meu certamente na14. Não leu,talvez por consideração para com as mães que tinhamfilhos na 12.Várias, que já sabiam disso, puseram-se a falar ao mesmotempo: não eraculpa delas; levavam muito dever para casa, não sehabituavam com osemi-internato. Uma - a do tricô, se não me engano - chegoumesmo a sequeixar do ensino dirigido, que a seu ver não estava dandoresultado.Outra disse que tinha três filhos, faziam provas no mesmodia, comoprepará-los de uma só vez? O Padre-Diretor sacudiu acabeça, sorrindocom simpatia - não posso nem ao menos lastimar que asenhora tenha tantofilho. E voltou a falar nos relapsos, um caso muito sério. Nãovai essePadre dizer que meu filho está entre eles, pensei.Irrequieto,indisciplinado. Ah, mas ele havia de ver comigo: entre ospiores!
  51. 51. E por que não? Quietinho, muito bem mandado,filhinho do papai,maria-vai-com-as-outras ele não era mesmo não. Desafiei oauditório,acendendo um cigarro: ninguém tinha nada com isso.Criança ainda, naidade mesmo de brincar e não levar as coisas tão a sério. Ocurioso éque não me parecesse assim tão vadio - jogava futebol narua, assistia àtelevisão, brincava de bandido, mas na hora de estudar orapazinhoestudava, então eu não via? Quem sabe se procurasseajudá-lo, dar umamãozinha... Mas essas coisas que ele andava estudando eujá não sabiade cor, tinha de aprender tudo de novo. Outro dia, porexemplo, meembatucou perguntando se eu sabia como se chamam osque nascem na NovaGuiné. Ninguém sabe isso, meu filho, respondi gravemente.Ah, não sabe?Pois ele sabia: guinéu! Não acreditei, fui olhar no dicionáriopara ver se era mesmo. Era. Talvez estivesse na turma 13,bem que
  52. 52. sabia lá uma coisa ou outra, o danadinho. Agora o Diretor falava na comida que serviam aoalmoço. Damelhor qualidade, mas havia um problema - os meninos serecusavam a comerverdura, ele fazia questão que comessem, para manter dietaadequada. Noentanto, algumas mães não colaboravam. Mandavambilhetinhos pedindo quenão dessem verdura aos filhos. Eis algo que eu jamais soube explicar: por que meninonão gostade verdura? Quando menino eu também não gostava. - Pedem às mães que mandem bilhetinhos e não é sóisso: usamqualquer recurso para não comer verdura. Hoje mesmo meapareceu um comum bilhete da mãe dizendo: não obrigar meu filho a comerverdura. Só queestava escrito com a letra do próprio menino. Chegava era a hora de levá-lo ao médico - umaprofessora amiga
  53. 53. foi buscá-lo para mim. - Meu filho - perguntei, ansioso, assim que saímos: -Em queturma você está? Na 12 ou na 13? - Na 14ele respondeu, distraído. Respirei com alívio: enempodia ser de outra maneira, não era isso mesmo? - Fico satisfeito de saber - comentei apenas. Ele não perdeu tempo: - Então eu queria te pedir um favor - aproveitou-selogo:- Quevocê mandasse ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que eunão posso comerverdura.O risadinha (1)- PAULO MENDES CAMPOS Seria melhor dizer que ele não teve infância. Mas não éverdade.
  54. 54. Eu o conheci menino, trepando às árvores, armandoalçapão paracanários-da-terra, bodoqueando as rolinhas, rolando pneuvelho pelasruas, pegando traseira de bonde, chamando o ProfessorAsdrúbal deJaburu. Foi este último um dos mais divertidos e perigososbrinquedos danossa infância: o velho corria atrás da gente brandindo abengala, seusbastos bigodes amarelos fremindo sob as ventas vulcânicas. Nestor, em suma, teve a meninice normal de umfilho defuncionário público em nosso tempo, tempo incerto, pois osrecursos daFazenda na província eram magros, e os pagamentos seatrasavam,enervando a população. Seus companheiros talvez nem soubessem que sechamasse Nestor;era para todos o Risadinha. Falava pouco e ria muito, umriso de fatodiminutivo, nascido de reservados solilóquios, quase sempreextemporâneo.
  55. 55. Certa feita, na aula defrancês, quando entoávamos em coro o presente dosubjuntivo do verbosôen aller, Risadinha pespegou uma bólide de papel bem naponta do narizdo professor, que era muito branco, pedante a capricho etinha o nome deDemóstenes. O rosto do mestre passou do pálido aorubro das suastremendas cóleras. Um dos seus prazeres, sendo-lhe vetadopor leicastigar-nos com o bastão, era desfiar em cima do culpadouma série deinsultos preciosos, que ele ia escandindo um por um, sempressa e comódio. - Levante-se, seu Nestor! Sa-cri-pan-ta! Ne-gli-gen-te!Si-co-fan-ta! Tu-nan-te! Man-dri-ão! Ca-la-cei-ro! Pan-di-lha!Bil-tre!Tram-po-li-nei-ro! Bar-gan-te! Es-trói-na! Val-de-vi-nos!Va-ga-bun-do!...
  56. 56. Pegando a deixa da única palavra inteligível, Risadinhaerguiao dedo no ar e protestava, com ar ofendido: - Vagabundo, não, professor. Era um artista do cinismo, e sua momice de inocênciaera detal arte que até mesmo seu Demóstenes não conseguiaconter o riso.Como também somente ele já arrancara uma gargalhada dopadre-prefeito,um alemão da altura da catedral de Colônia, num dia emque vinhacaminhando lento e distraído, fora da forma. - Por que o senhorr não está na forma?perguntou-lherosnandoo padre, como se estivesse de promotor da Inquisição,diante de umherege horripilante. - E porque estou com meu pezinho machucado,respondeu com doçurao Risadinha.
  57. 57. - E por que senhorr não está mancando? Risadinha olhou com espanto para os seus própriospes, começandoa mancar vistosamente: - Desculpe, seu padre, é porque eu tinha esquecido.Aula de inglês – RUBEM BRAGA- Is this an elephant? Minha tendência imediata foi responder que não; mas agente nãodeve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olharque lancei àprofessora bastou para ver que ela falava com seriedade, etinha o ar dequem propõe um grave problema. Em vista disso, examineicom a maioratenção o objeto que ela me apresentava. Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoalevianapoderia concluir às pressas que não se tratava de umelefante. Mas setirarmos a tromba a um elefante, nem por isso deixa elede ser um
  58. 58. elefante; e mesmo que morra em conseqüência da brutaloperação, continuaa ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, emprincípio, tãoelefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me deaveriguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossaspatas, comocostumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco conseguidescobrir opequeno rabo que caracteriza õ grande animal e que, àsvezes, como jánotei em um circo, ele costuma abanar com uma graçainfantil. Terminadas as minhas observações, voltei-me para aprofessora edisse convictamente:- No, its not! Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demorade minharesposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente meperguntou: - Is it a book?
  59. 59. Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte de minhavida no meiode livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz dedistinguir umlivro à primeira vista no meio de quaisquer outros objetos,sejam elesgarrafas, tijolos ou cerejas maduras - sejam quais forem.Aquilo não era um livro, e mesmosupondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilonão seria umdeles: não parecia de modo algum um livro. Minha respostademorou nomáximo dois segundos: - No, its not! Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita - mas so poralgunssegundos. Aquela mulher era um desses espíritosinsaciáveis que estãosempre a se propor questões, e se debruçam com umacuriosidade aflitasobre a natureza das coisas. - Is it a handkerchief? Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizera verdade,não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fossehipoteca...
  60. 60. Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca?Handkerchief! Erauma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática;talvez fosse chefede serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muitoprovavelmente,enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido: - No, its not! Minhas palavras soaram alto, com certa violência,pois merepugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nosmeus arredorespudesse ser um handkerchief. Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez,porém, apergunta foi precedida de um certo olhar em que haviauma luz demalícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque dedesafio. Suavoz era mais lenta que das outras vezes; nao soucompletamente ignoranteem psicologia feminina, e antes dela abrir a boca eu já tinhaa certezade que se tratava de uma pergunta decisiva. - Is it an ash-tray?
  61. 61. Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeirolugar porqueeu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Emsegundo lugarporque, fitando o objeto que ela me apresentava, noteiumaextraordinária semelhança entre ele e um ash-tray. Sim. Eraum objeto delouça de forma oval, comcerca de treze centímetros de comprimento. As bordaseram da alturaaproximada de um centímetro, e nelas havia reentrânciascurvas - duas outrêsna parte superior. Na depressão central, uma espéciede baciadelimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço decigarro fumado(uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de umpalito defósforos já riscado. Respondi: - Yes! O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhorateve orosto completamente iluminado por uma onda dealegria; os olhos
  62. 62. brilhavam - vitória! vitória!e um largo sorriso desabrochourapidamentenos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste einquieta.Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir deestender o braçoe me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muitoexcitada: - Very well! Very well! Sou um homem de natural tímido, e ainda mais nolidar commulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória meperturbou;tive um susto, senti vergonha e muito orgulho. Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeiraaula; andeina rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja,alguns beloscachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprarum. Certamenteteria entabulado uma longa conversação com o embaixadorbritânico, se oencontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo daboca e lhediria: - Its not an ash-tray!
  63. 63. E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eusabiafalar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixadorver que sualíngua natal começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé dopaís juntoa cujo governo é acreditado.OUSADIA – FERNANDO SABINO A moça ia no ônibus muito contente desta vida, mas, aosaltar, acontrariedade se anunciou: - A sua passagem já está paga - disse o motorista. - Paga por quem? - Esse cavalheiro aí. E apontou um mulato bem vestido que acabara dedeixar o ônibus,e aguardava com um sorriso junto à calçada.
  64. 64. - É algum engano, não conheço esse homem. Faça ofavor dereceber. - Mas já está paga... - Faça o favor de receber!insistiu ela, estendendo odinheiro e falando bem alto para que o homem ouvisse:- Jádisse que nãoconheço! Sujeito atrevido, ainda fica ali me esperando, osenhor nãoestá vendo? Vamos, faço questão que o senhor receba minhapassagem. O motorista ergueu os ombros e acabou recebendo:melhor para ele, ganhava duas vezes. A moça saltou do ônibus e passou fuzilando deindignação pelohomem. Foi seguindo pela rua, sem olhar para ele. Se olhasse, veria que ele a seguia, meio ressabiado, aalgunspassos.
  65. 65. Somente quando dobrou à direita para entrar noedifício ondemorava, arriscou uma espiada: lá vinha ele! Correu para oapartamento,que era no térreo, pôs-se a bater, aflita: - Abre! Abre aí! A empregada veio abrir e ela irrompeu pela sala,contando aospais atônitos, em termos confusos, a sua aventura: - Descarado, como é que tem coragem? Me seguiu atéaqui! De súbito, ao voltar-se, viu pela porta aberta que ohomem aindaestava lá fora, no saguão. Protegida pela presença dospais, ousouenfrentá-lo: - Olha ele ali! É ele, venham ver! Ainda está ali,osem-vergonha. Mas que ousadia!
  66. 66. Todos se precipitaram para a porta. A empregada levouas mãos àcabeça: - Mas a senhora, como é que pode! É o Marcelo. - Marcelo? Que Marcelo?a moça se voltou,surpreendida. - Marcelo, o meu noivo. A senhora conhece ele, foi quempintou oapartamento. A moça só faltou morrer de vergonha: - É mesmo, é o Marcelo! Como é que eu não reconheci!Você medesculpe, Marcelo, por favor. No saguão, Marcelo torcia as mãos, encabulado: - A senhora é que me desculpe, foi muita ousadia...Mendigo – PAULO MENDES CAMPOS
  67. 67. Eu estava diante duma banca de jornais na Avenida,quando a mãodo mendigo se estendeu. Dei-lhe uma nota tão suja e tãoamassada quantoele. Guardou-a no bolso, agradeceu com um seco obrigado ecomeçou a leras manchetes dos vespertinos. Depois me disse:Na rua - 71 - Não acredito um pingo em jornalistas. São muitomentirosos.Mas tá certo: mentem para ganhar a vida. O importante é ohomem ganhar avida, o resto é besteira. Calou-se e continuou a ler notícias eleitorais: - O Brasil ainda não teve um governo que prestasse.Nem rei, nempresidente. Tudo uma cambada só. Reconheceu algumas qualidades nessa ou naquelafigura (aliás,com invulgar pertinência para um mendigo), mas isso, aseu ver, não
  68. 68. queria dizer nada: - O problema é o fundo da coisa: o caso é que ohomem nãopresta. Ora, se o homem não presta, todos os futurospresidentes tambémserão ruínas. A natureza humana é que é de barro ordinário.Meu pai,por exemplo, foi um homem bastante bom. Mas não deucerto ser bomdurante muito tempo: então ele virou ruim. Suspeitando de que eu não estivesse convencido dasua teoria,passou a demonstrar para mim que também ele era umsujeito ordináriocomo os outros: - O senhor não vê? Estou aqui pedindo esmola,quando poderiaestar trabalhando. Eu não tenho defeito físico nenhum eaté que nãoposso me queixar da saúde. Tirei do bolso uma nota de cinqüenta e lhe oferecipela sua
  69. 69. franqueza. - Muito obrigado, moço, mas não vá pensar que eu voutirar osenhor da minha teoria. Vai me desculpar, mas o senhortambém no fundo éigualzinho aos outros. Aliás, quer saber de uma coisa? Houveum homem defato bom, cem por cento bom. Chamava-se Jesus Cristo. Maso senhor viu oque fizeram com ele?!DIPLOMA – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - Olha o diploma da mamãe! Quem tem sua mamãedeve lhe oferecereste diploma! Era atrás do edifício da Noite, na passagem lamacentaonde seaglomeram vendedores de canetas automáticas de dezcores, e outrosartigos. O rapaz aproximou-se da banca onde se exibiamos diplomas.
  70. 70. Pediu licença para pegar num deles, enquanto o vendedorcontinuavagritando a mercadoria sentimental.Mirou e remirou o papel com atençao. - Onde é que bota o retrato? - Que retrato?inquiriu o camelô. - O meu, para oferecer a ela... - Ah, compreendo, o cavalheiro quer oferecer umretratinho a suamamãe. Muito bem, pode colocar sua bonita estampa nascostas do diploma,está vendo?Timidamente, o rapaz formulou a objeção: - Mas, se ela enquadrar o diploma e pendurar naparede, oretrato fica escondido nas costas. - Perfeitamente, nesse caso ela pode pendurar oquadro de
  71. 71. costas, e o amigo fica aparecendo. - Isso não. Eu queria botar meu retrato na frente dodiploma,junto disso tudo que está escrito aí. - Não tem problema, cola aqui neste canto, fica atémaisinteressante. O rapaz tirou um embrulhinho do bolso, tirou doembrulhinhosua fotografia em tamanho de postal, aplicou-a sobre odiploma, no lugarindicado pelo vendedor. Reconheceu, consternado: - Cabe não. - Cabe sim. Com licença, cavalheiro. Olhe como ficoubacana. - Assim ele tapa as letras da escrita. - Ora, só umas letrinhas. A maioria das palavrascontinua
  72. 72. visível. Que importância tem tapar algumas palavras? Ocavalheirocobre elas com o carinho da sua fotografia. O rapaz continuava indeciso. Dar um diploma a suamãe, no Diadas Mães, era idéia nova, excitante. Não entendia bem oque fossediploma, porém, certamente, sua mãe o merecia; e se odiploma levasse oretrato dele, deixava de ser um diploma qualquer, oferecidoa qualquermãe. Mas, como, se não tinham previsto o lugar para oretrato do filho? - Vai levar?perguntou o camelô, desejoso de fechar onegócio evoltar à pregação oratória - pois eles gostam ainda mais defalar àmultidão do que de vender. - Bem... eu levo. Corto o peito do meu retrato, assimele cabesem ofender as palavras. E como é que eu faço paramandar paraInajaroba?
  73. 73. - Onde fica isso, meu chapa? - Sergipe, então não sabe? - Até este momento não sabia, mas não tem problema.Enrola,bota no Correio, vai de avião. - Chega todo esbandalhado. - Então, passa ali na papelaria e pede para botarenchimento,fazer uma embalagem bem legal. - Mais um favorzinho, moço - e o rapaz baixou a voz e acabeça. - Vai dizendo, vai dizendo. - Pode ler para mim o que está escrito aí? Eu nãogostava queminha mãe recebesse o diploma sem eu saber o que estoumandando dizernele...
  74. 74. - Com todo o prazer - e leu com ênfase, para o rapaz epara ogrupo em redor, a declaração de amor de um filho a suamamãe, em formade diploma.A OUTRA NOITE – RUBEM BRAGA Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, umanoite devento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha paracasa de táxi,encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a eleque lá emcima, além das nuvens, estava um luar lindo, de Lua cheia;e que asnuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima,enluaradas,colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal. Depois que o meu amigo desceu do carro, o choferaproveitou umsinal fechado para voltar-se para mim: - O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir suaconversa.
  75. 75. Mas, tem mesmo luar lá em cima? Confirmei: sim, acima da nossa noite preta eenlamaçada etorpe havia uma outra - pura, perfeita e linda. - Mas, que coisa... Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar océu fechadode chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Nãosei se sonhavaem ser aviador ou pensava em outra coisa. - Ora, sim senhor... E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disseum"boa noite"e um"muito obrigado ao senhor" tão sinceros, tão veementes,como se eulhe tivesse feito um presente de rei.

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