Panorama do pensamento cristão michael d palmer - cpad

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O que uma mente influenciada pelo Evangelho pode produzir para a sociedade? Diversos autores analisam o pensamento cristão através dos séculos e a sua contribuição para a formação do pensamento ocidental. A ciência, a natureza humana, o trabalho, o lazer, a ética, a cultura, a política, enfim, cada ramo do conhecimento humano, não estão imunes à ação do Evangelho e são analisados neste livro.

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Panorama do pensamento cristão michael d palmer - cpad

  1. 1. CB4D Ti ygfgfà*VH^5i - • Compilado e editado por Michael D. Palmer
  2. 2. Panorama do pensamento CristãoCompilado e editado por Michael D. Palmer Prefácio de Russel P. Spittler
  3. 3. REIS BOOK’S DIGITAL
  4. 4. Todos os direitos reservados. Copyright © 2000 para a língua portuguesa daCasa Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovado pelo Conselho deDoutrina.Título do original em inglês: Elements o f a Christian WorldviewGospel Publishing House, Springfield, Missouri, USAPrimeira edição em inglês: 1998Tradução: Luís Aron de MacedoPreparação de originais: Jefferson MagnoRevisão: Alexandre Coelho e Kleber CruzCapa: Alexander DinizProjeto gráfico: Daniel BonatesEditoração: Oséas Felício MacielCDD: Filosofia-201ISBN: 85-263-0303-1As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida,Edição de 1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrá­rio.Casa Publicadora das Assembléias de DeusCaixa Postal 33120001-970, Rio de Janeiro, RJ, BrasilIa edição/2001
  5. 5. Dedicatória Para meus pais, Don eThelm a Palmer,que foram bem-sucedidos em me transmitir a fé e sempre me incentivaram para que eu buscasse a verdade,e para meu filho de 18 anos, Bradley Charley Palmerque, na época de sua morte trágica ocorrida em 22 de novembro de 1997,já sabia profundamente muitos dos conceitos centrais apresentados neste livro.
  6. 6. SumárioIntrodução / 7Prefácio / 11Agradecimentos / 13Lista de Colaboradores / 151. Panorama do Pensamento Cristão / 1 7 Michael D. Palmer2. O Rapei da Bíblia na Formação do Pensamento Cristão / 79 Edgar R. Lee3. Vozes do Passado: Tentativas Históricas para Formar um Pensamento Cristão / 109 Gregory J. Miller4. O Cristão e a Ciência Natural / 149 Lawrence T. McHargue5. Uma Perspectiva Sobre a Natureza Humana / 181 Billie Davis6. Trabalho / 223 Miroslav Volf7. Entrando no "Descanso Divino": Rumo a uma Visão Cris­ tã de Lazer / 247 Charles W. Nienkirchen8. A Ética de Ser: Caráter, Comunidade, Práxis / 293 Cheryl Bridges Johns e Vardaman W. White9. Música que Vem do Coração da Fé / 325 Johnathan David Horton10. O Lugar da Literatura no Pensamento Cristão/ 351 Twíla Brown Edwards11. Os Cristãos e a Cultura da Mídia de Entretenimento / 391 Terrence R. Lindvall e J. Matthew Mellon12. Política para Cristãos (e Outros Pecadores) / 427 Dennis McNuttApêndice 1: Reflexões sobre os Significados da Verdade / 470 Michael D. PalmerApêndice 2: Jean-Paul Sartre / 487 Michael D. PalmerApêndice 3: Karl Marx / 489 Michael D. PalmerApêndice 4: A Música e o Espaço de Execução / 493
  7. 7. ELEMENTOS DE UMA COSMOVISÃO CRISTÃ Johnathan David Horton Apêndice 5: A Música e o Estilo de Adoração / 497 Johnathan David Horton Apêndice 6: C . K. Chesterton no Poder dos Contos de Fada / 502 Twila Brown Edwards Apêndice 7: C. S. Lewis / 504 Twila Brown Edwards Apêndice 8: Thomas FJobbes e a Teoria de Contrato de Ju stiça /506 Michael D. Palmer Apêndice 9: John Locke e a Teoria dos Direitos Naturais / 509 Michael D. Palmer Apêndice 10: Os D ireitos/ 512 Michael D. Palmer Apêndice 11: A Justiça / 516 Michael D. Palmer
  8. 8. Introdução Muitas palavras do vocabulário inglês (e também do portugu­ês) vêm dos idiomas grego e latino. Palavras tão comuns quantoagenda ou exit (saída) vêm diretamente do tempo dos autores clás­sicos. Outras palavras, entretanto, entraram em nossa língua semserem percebidas, provenientes de alguma outra cultura. Khaki(cáqui) é originária de um termo paquistanês. Bureau (agência,repartição) é francês puro. Corridor (corredor), palio (pátio) e plaza(praça) são termos espanhóis autênticos, e chocolate provém dire­tamente do dialeto asteca. Cosmovisão, a palavra que define o ponto central deste livro,alcança a língua portuguesa como se também fosse um emigrantelinguístico. O idioma alemão tem uma grande propensão para pa­lavras compostas. Só para dar um exemplo extremo, eis um termoalemão para tanque m ilitar: Schutzengrabenzerstõrungsautomobil.Pelas mesmas leis do idioma, este é um sinónimo: der Panzer. Apalavra “ cosmovisão” junta lado a lado duas palavras equivalen­tes em português como tradução lite ra l do termo alemãoWeltanschauung — termo com longa e nobre herança filosófica. Inventado por filósofos alemães, Weltanschauung descreve ummodo de ver o mundo. Alguém poderia supor que o mundo é umailusão; que as coisas não são reais. Outros poderiam dizer, comofazem os idealistas de todas os tempos, que existe mais coisas nomundo do que se pode ver. Outros ainda poderiam concluir que omundo é inóspito e irremediável, levando ao desespero. Em vez de aportuguesar Weltanschauung para a palavra “ cos­movisão” , os linguistas teriam feito um favor aos povos de falaportuguesa sendo um pouco menos com plicados. Trad u zir Weltanschauung como “perspectiva” ou mesmo “ atitude” não te­ria representado uma tradução longe do seu significado, a não serpelo fato de que o termo técnico alemão refere-se especificamente à atitude da pessoa para com o mundo. Que “mundo” ? A s vastas extensões do universo estrelado? Opleno complemento das culturas humanas de nosso globo? Ou possivelmente o “mundo” que entra em nosso vocabulário medi­ ante alguma pressão que alguém exerce de maneira incorreta e forçada sobre a Escritura? Ao usar essa palavra, a tradição filosó­ fica alemã certamente tinha em mente o mundo material e o uni­ verso invisível, o mundo visível e as galáxias que o nosso intelec­ to é capaz de imaginar que existam. A noção que as pessoas têm da realidade constitui a cosmovisão delas. Até onde sei, não há palavra bíblica que possa equivaler à pa­ lavra “ cosmovisão” . Porém encontramos nas páginas das Escritu­ ras uma atitude normativa em relação ao mundo visível e in visí­ vel. A li existe - ainda que os teólogos não façam muita conta dis­ so - uma teologia do mundo. A cosmologia é qualificada como um termo que descreve como
  9. 9. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO as pessoas pensam a respeito do mundo. Os astrónomos e cientis­ tas usam o termo para definir uma ciência do universo distante. Os teólogos usam o mesmo termo para reunir doutrinas bíblicas relacionadas com a origem e o destino do mundo visível — cha­ mado em grego (inclusive o grego do Novo Testamento) de cos­ mo. (O termo “ cosmético” obteve sua qualidade de beleza prove­ niente da admiração grega da simetria deslumbrante dos céus.) A outra palavra importante no Novo Testamento grego traduzida por “mundo” vai numa direção diferente. Oikoumenê descreve a soma total das culturas humanas. Considerando que esta palavra primeiro definia uma casa de fam ília, é fácil entender como veio significar sociedade organizada, levando, por um lado, à palavra “economia” e, por outro, à palavra “ ecuménico” . Assim , as pala­ vras bíblicas usadas para descrever o mundo foram tomadas de outros significados comuns. Mas neste livro só nos preocupare­ mos em falar sobre uma teologia do mundo. Detectei no Novo Testamento um uso duplo da idéia de mundo e como os cristãos deveriam vê-lo. Há uma visão joanina do mun­ do — um sistema organizado de oposição humana, demoníaca até, e que peca contra Deus. Deste ponto de vista, segundo um grupo de passagens do Evangelho de João, das Epístolas de João e do Apocalipse, os verdadeiros crentes são aconselhados a “evitar o mundo” — o que pode ser chamado de “este mundo mal” , um setor da sociedade que acha-se em oposição à Igreja. Este é o mundo a evitar, a afastar-se, e sua existência torna necessária a nossa santidade (separação do mundo). O outro elemento da idéia de mundo na Escritura é paulino. A visão de Paulo do mundo é mais sanguínea do que a de João. Essa diferença pode refletir as diferentes experiências de suas respecti­ vas vidas. Tradicionalmente, João foi considerado um pescador rural; Paulo, como cidadão de Roma, um sofisticado e frequente viajante. Há, portanto, contrastes distintos nas atitudes de João e de Paulo em relação ao mundo. Nutridos pelas Escrituras judai­ cas, ambos vêem Deus como o Criador de tudo o que há. Ambos encaram Deus como estando no controle de todos os aconteci­ mentos humanos. Ambos sabem que o sistema mundial presente é passageiro, que logo passará. Ambos, junto com Pedro, esperam um novo céu e uma nova terra. Porém, a diferença entre os dois jaz na opinião sobre o que fazer no campo da cultura humana neste tempo presente. João mal conse­ gue achar alguma coisa boa no atual mundo de pessoas e coisas. Por outro lado, Paulo eleva sua retórica majestosa em louvor do controle de Deus sobre todo empreendimento humano, o que ele vê como reflexos manchados, mas autênticos, da imagem de Deus residente em toda pessoa e, por conseguinte, em toda cultura humana. Claro que tanto João quanto Paulo levam em conta o pecado para fazerem a análise fundamentalmente correta da condição hu­ mana falha. Ambos olham para as metáforas da transformação di-
  10. 10. vina da biologia — novo nascimento, segundo nascimento, vinhase podas, vida etema e coisa parecida. Paulo, treinado como advo­gado, prefere a linguagem judicial — culpa, julgamento, adoção,justificação, absolvição. Os cristãos pensantes podem obter ajuda de Paulo e João. Asmaquinações da humanidade caída realmente agrupam-se nosbolsões da cultura humana — pornografia, leis injustas, trapaças sistemáticas nos negócios ou na educação, para nomear apenas algumas. Os cristãos de tradições arminianas, que ressaltam a li­berdade humana, parecem inclinar-se às obscuras visões do mun­ do como algo a evitar, um reino do qual se separar. Tais idéiasvagas foram teologizadas especialmente nos setores metodista, holiness e pentecostal da Igreja. Porém, noções igualmente bíblicas sobre a cultura humana emergem dos escritos do apóstolo Paulo e aparecem em partes daIgreja afetada pela tradição reformada. Por exemplo, considere esta afirmação feita por Paulo num contexto de aconselhamento dado aos cristãos coríntios que se limitavam aos embaixadores favorecidos da verdade cristã: “ Tudo é vosso: seja Paulo, seja Apoio, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus” (1 Coríntios 3.21-23). “Tudo é vosso” , a herança dos cristãos. Tudo da cultura huma­ na: toda arte, toda música, todos os atos heróicos da abnegação, toda nobreza, toda compaixão. Nada foi omitido. Tudo pertence ao cristão. Os heróis da fé. O violinista mestre. Os fabricantes de filigrana de prata pura. O evangelista eloquente. Corrie ten Boom. Albert Einstein. Os bosques de tigre. Paulo, Apoio e Cefas: O Se­ nhor não pretendeu que ninguém limitasse a receptividade a qual­ quer uma das criaturas de Deus. Tudo é vosso: todas as pessoas, até todas as coisas. O editor dos capítulos deste livro, e os próprios autores, forne­ cem aqui recursos repletos de reflexão para que por meio deles possa ser construída uma cosmovisão de amplitude que mescle Paulo e João. Estas palavras sábias ajudarão seguidores pensati­ vos de Jesus a saber o que evitar no mundo, do que se afastar. Mas também serão de ajuda na avaliação de tudo o que é bom na cultu­ ra humana, e na consideração das reflexões coletadas das mais altas criaturas do Senhor que, embora manchadas e sozinhas entre todos os seres viventes, encarnam a imagem de Deus. Recomendo este livro aos cristãos pensativos de todos os lugares, e especialmente aos adultos jovens que estão come­ çando a aprender a considerar a imensidão e diversidade do mundo de Deus. — Russel P. Slittler Reitor e Professor do Novo Testamento no Fuller Theological Seminary
  11. 11. Prefácio do Editor O prefácio é frequentemente a parte menos lida de um livro.Espero que este seja uma exceção, porque o objetivo deste livro eas preocupações filosóficas que o inspiraram estão explicadas aqui. Conforme o título dá a entender, este livro considera certoscomponentes ou fatores — elementos, como os chamo — que cons­tituem uma cosmovisão. E um livro escrito por estudiosos cristãosdestinado a cristãos que buscam respostas claras e sólidas às ques­tões fundamentais que estão a confrontá-los nos inúmeros aspec­tos da vida. Mais particularmente, foi escrito para todos os cris­tãos que se sentem intensam ente confrontados por essesquestionamentos. Alguns capítulos alicerçam-se em algumas dis­ciplinas académicas. Outros tratam de assuntos cotidianos da vida.E outros, ainda, concentram-se em fenómenos culturais. Enquanto medito na distribuição dos capítulos e as ligaçõesentre eles, a palavra mais descritiva que me vem à mente é monta­gem: quadros separados foram combinados para formar um qua­dro composto. Embora os capítulos sejam unidos uns aos outrosde vários modos, cada um pode ser lido independentemente. Conseqiientemente, o leitor procurará em vão por um único econtínuo argumento do princípio ao fim . Não se trata desse tipode livro. Não obstante, ele exibe periodicamente certo tema recor­rente: a integração da fé, da aprendizagem e da vida. Integrar écoordenar ou misturar informações, fatos e conclusões num todofuncional e unificado. Integrar a fé, a aprendizagem e a vida signi­fica desenvolver para nós mesmo um modo completamente cris­tão de pensar e responder a assuntos e todos os tipos de situaçõesda vida. Significa desenvolver uma perspectiva distintamente cristãem todos os assuntos da fé, todos os modos de investigação e to­das as profundas questões que a vida levanta. A integração em sua expressão mais rica — pensar e agir demodo completamente cristão — não é nem facilmente alcançada,nem alcançada de uma vez por todas. De fato, é melhor não pen­sar nela como uma realização, absolutamente. E la é na verdademais um processo que continua ao longo da vida à medida querefletimos no significado de nossa fé e intentamos permitir queisso molde nossas respostas a novas idéias e experiências. Infelizmente, o que vemos com mais frequência que integraçãoé alguma forma de justaposição. Justapor duas coisas é pô-las umaao lado da outra. A interação entre elas pode ser real de certa ma­neira, mas o âmbito da interação total está limitado, e as duas nun­ca estão verdadeiramente unidas. O estudante de psicologia estarátão-somente justapondo sua fé e seu curso universitário se nãopensar cuidadosamente sobre como suas convicções cristãs rela-cionam-se com as teorias da personalidade que ele está estudandoem sala de aula. O jovem gerente empresarial está meramente jus­tapondo sua fé e sua profissão, se ele não permite que as im plica­
  12. 12. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO ções morais do seu sistema cristão de convicção influenciem sua política de administração. Em geral, justapomos (ou colocamos lado a lado) nossa fé e nosso curso universitário, ou nossa fé e nossa profissão, ou nossa fé e qualquer outro aspecto de nossa vida. Quando falamos da fé fazendo evidente diferença sobre como pensamos e nos expressamos, queremos dizer mais que simples­ mente poder declarar nossas convicções clara e sucintamente. A doutrinação pode alcançar esses resultados. Mas integração e dou­ trinação não são a mesma coisa. A doutrinação busca a aceitação inquestionável de respostas desenvolvidas por outra pessoa, nor­ malmente uma figura de autoridade, enquanto que a integração requer que descubramos para nós mesmos, mesmo que alguém nos ajude no processo. A integração, mesmo quando d ifícil e do­ lorosa, promove a fé madura. Com estas distinções em mente, apresso-me em observar que este livro é uma tentativa deliberada de dirigir-se àqueles a quem a doutrinação não é uma resposta aceitável para as grandes (e d ifí­ ceis) questões da vida. E um livro que explora idéias, conceitos e princípios, alguns dos quais controversos e todos resistentes a res­ postas fáceis. Presume uma medida de maturidade por parte do leitor. Além disso, pressupõe e encoraja uma abordagem integra­ da aos assuntos de que trata. O primeiro capítulo apresenta os elementos básicos de qual­ quer cosmovisão. São, segundo minha concepção: 1) ideologia, 2) narrativa, 3) normas morais e estéticas, 4) rituais, 5) experiên­ cia e 6) o elemento social. O restante dos capítulos lida, de uma maneira ou de outra, com aqueles seis elementos enquanto os ve­ mos desenvolvidos numa cosmovisão cristã. Em cada caso, os autores dos capítulos se esforçaram por fornecer mais que infor­ mação sobre suas respectivas disciplinas e campos de habilidade. Eles procuraram modelar o que significa pensar cristãmente — para verdadeiramente integrar a fé, a aprendizagem e a vida. É minha esperança que as palavras deles venham a servir de estímu­ lo a muitos cristãos, para que vivenciem o significado de sua fé em cada aspecto de suas vidas. — Michael D. Palmer Professor de Filosofia Evangel University
  13. 13. Agradecimentos Os autores em geral isentam todas as pessoas que os ajudaramda responsabilidade por quaisquer erros ou deficiências no texto.Porém, mesmo que os erros e as deficiências sejam meus, o crédi­to deles pertence a muitos amigos e colegas. Todos somos produ­tos do que as outras pessoas nos ajudaram a ser. Com relação aeste livro, muitas pessoas ajudaram no processo — desde a for­mação da idéia in icial até a criação do produto final — e desejoreconhecer minha considerável dívida para com eles. A junta diretora editorial da Logion Press merece crédito pelaconfiança depositada em mim para empreender este projeto, e pelapaciência e apoio no processo. David Bundrick, presidente da juntaquando este livro foi proposto pela primeira vez, trabalhou comafinco para assegurar que o projeto tivesse um bom começo. DaytonKingsriter, que sucedeu Bundrick como presidente da junta dire­tora editorial, dedicou muitas horas a este trabalho. Agradeço-lhepelo empenho como facilitador. Jean Lawson, editor administrati­vo, e Glen Ellard , editor de publicações, foram de grande auxílio,agradáveis e profissionais em todos os sentidos. Sou grato a LetaSapp pelo design do lay-out e texto. Kim Kelley fez excelentetrabalho coordenando o lay-out e design do livro. Desejo expres­sar agradecimento especial ao Dr. Stanley Horton, editor geral,pela atenção cuidadosa que deu aos vários desenhos de cada capítulo.Além do mais, desejo agradecer-lhe pelo apoio moral e paciência queme estendeu durante o desenvolvimento do livro. Acabei tendo pro­fundo afeto por ele como pessoa e considerável respeito por sua habi­lidade como editor. Trata-se de um homem em quem não há dolo —um cavalheiro no mais verdadeiro sentido da palavra — e consideroum privilégio ter trabalhado com ele. Que prazer foi trabalhar com os autores colaboradores! Seusescritos estimularam meu pensamento além de qualquer coisa queeu tivesse imaginado no início. Localmente, a Evangel University tem sido um lugar maravi­lhoso para eu amadurecer como estudioso desde que cheguei nocampus em 1985. Desde os primórdios deste projeto, o Dr. GlennH . Bemet Jr., Vice-presidente para Assuntos Académicos, deuencorajamento para o projeto — e dinheiro! Ele tem sido o principalresponsável por eu haver recebido subsídio do Fundo para Projetosdos Alunos/Faculdade da universidade que subscreveu as várias des­pesas associadas com o desenvolvimento do livro. Muitos estudantes na Evangel University também contribuí­ram para a qualidade global deste livro . Durante duas sessões deverão (1996 e 1997), os estudantes de um curso de educação geralintitulado Filosofia Cristã leram as primeiras versões de algunsdos capítulos que aparecem aqui e fizeram comentários proveito­sos. Estou satisfeito por terem levado a sério meu convite parafazerem um comentário sobre todos os aspectos do manuscrito.
  14. 14. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO Estou em débito com vários colegas que leram e teceram co­ mentários sobre certos capítulos. Larry Dissmore, do Departamento de Música, fez comentários sobre o capítulo de música. Turner Collins, do Departamento de Ciência e Tecnologia, propôs nume­ rosos comentários úteis no capítulo de ciência. Eu mesmo não poderia ter escrito meu principal capítulo sobre cosmovisão sem a ajuda generosa de Tw ila Edwards (Estudos Bíb lico s) e James Edwards (Humanidades). Quando em certo ponto no desenvolvi­ mento do capítulo cheguei a um impasse, eles dedicaram quase um fim de semana inteiro lendo o manuscrito e discutindo comigo numerosos assuntos organizacionais e substantivos. Michael Buesking, do Departamento de Humanidades, produ­ ziu virtualmente todos os trabalhos de arte no texto. Os esbo­ ços do seu lápis me são fonte contínua de satisfação e orgulho. Sinto-me honrado por seus nomes aparecerem neste livro. Stan Maples, do Departamento de Humanidades, projetou a capa para o livro. Agradeço a Stan por sua paciência em ouvir minhas idéi­ as para o design da capa e reconheço sua considerável habilidade em transformar minhas idéias imprecisas em imagens que pren­ dem a atenção. Aos meus colegas do Departamento de Estudos Bíblicos e F i­ losofia, que me incentivaram para que eu empreendesse este pro­ jeto e que me proporcionaram ajuda ao longo dele, expresso meus agradecimentos. Gary Liddle, cujas funções pedagógicas habitu­ ais encontram-se nos estudos bíblicos, mas que é na verdade um generalista ao estilo renascentista, é o herói não aclamado por trás deste livro. Ele crê nos conceitos, entende-os de certa maneira melhor do que eu e, portanto, suas palavras tiveram peso especial nas conjunturas cruciais ao longo do caminho. Ele ofereceu análi­ se extensa sobre vários capítulos. Suas perguntas eram investiga­ doras e seus comentários muito prestimosos. M inha esposa, C onnie M arie , fo i e tem sido m inha incentivadora e minha companheira favorita— no desenvolvimen­ to deste livro, como em tudo o mais, sine qua non. — M . D. P.
  15. 15. Lista de Colaboradores Billie Davis, Ed.D. (Administração & Sociologia, University ofMiami, Flórida), é Professor Emérito e ex-Cátedra do Departamento deCiências Behavioristas da Evangel University, em Springfield, Missouri. Twila Edwards, M.A. (Literatura Inglesa, Southwest M issouriState U niversity), M A. (Literatura B íb lica, Assemblies of GodTheological Seminary), é Professora Associada de Estudos B íb li­cos na Evangel University, em Springfield, M issouri. Johnathan David Horton, Ph.D. (M úsica, George PeabodyCollege for Teachers), é Professor de M úsica na Lee University,em Cleveland, Tennessee. Cheryl Bridges Johns, Ph.D. (Educação C ristã, SouthernB ap tist Theo lo g ical Sem inary), é Professor A ssociado deDiscipulado e Formação Cristã no Church of God TheologicalSeminary, em Cleveland, Tennessee. Edgar R. Lee, S.T.D. (Teologia, Em ory U niversity), é Vice-presidente para Assuntos Académicos no Assem blies o f GodTheological Seminary, em Springfield, M issouri. Terrence Lindvall, M.Div. (Fu ller Theological Sem inary),Ph.D. (Comunicação, University of Southern Califórnia), é Pro­fessor de Cinema e Estudos de Comunicação na Regent University,em Virginia Beach, Virgínia. Lawrence T. McHargue, Ph.D. (B io lo g ia, U niversity ofCalifórnia, Irvine), é Professor de Biologia na Southern CalifórniaCollege, em Costa Mesa, Califórnia. Dennis McNutt, Ph.D. (Governo, Claremont Graduate School),é Professor de História e Ciências Políticas na Southern CalifórniaCollege, em Costa Mesa, Califórnia. J. Matthew Melton, Ph.D. (Regent U niversity), é Cátedra deComunicação e Letras na Lee University, em Cleveland, Tennessee. Gregory J. Miller, Ph.D. (Estudos Religiosos — História doCristianismo, Boston University), é Professor Associado de H is­tó ria E c le siá stic a no V a lle y Forge C h ristian C o lleg e, emPhoenixville, Pensilvânia. C harles W. N ienkirchen, Ph.D. (H istó ria , W aterlooU niversity), é Professor de História Cristã e Espiritualidade noRocky Mountain College em Calgary, Alberta, Canadá. Ele tam­bém serve como Professor Adjunto em faculdades de graduaçãode diversos seminários canadenses. Michael D. Palmer, Ph.D. (Filosofia, Marquette University), éProfessor de Filosofia e Cátedra do Departamento de Estudos B íb li­cos e Filosofia na Evangel University, em Springfield, Missouri. Miroslav Volf, Th.D. (Teologia Sistemática, Eberhard-KarlsUniversitát, Túbingen), é Professor em Teologia do Henry B .Wright na Yale University, em New Haven, Connecticut. Vardaman W. White, candidato a Ph.D. (Teologia e Ética,University of Iowa), vive e trabalha em Atlanta, Geórgia.
  16. 16. 1Panorama dopensamento Cristão Michael D. Palmer
  17. 17. 18 MICHAEL D. PALMER ão é frequente ler um livro que me surpreenda, muito me­ N nos um que cause em mim uma impressão impactante. Mas fiquei surpreso e impressionado com o romance de Chiam Potok, The Chosen (O Escolhido). No início do romance, Reuven, o narrador, confessa: “Durante os primeiros quinze anos de nos­ sas vidas, Danny e eu morávamos a cinco quarteirões um do outro e nenhum de nós sabia da existência do outro” .1Minha infância e primeiros anos de adulto foram passados numa cidade de tama­ nho médio nas montanhas do Estado de Montana ocidental, Esta­ dos Unidos, onde eu conhecia todos os vizinhos de vários quartei­ rões em todas as direções. Assim , quando essa observação no li­ vro de Potok, minha imaginação foi instigada. Descobri, enquan­ to lia, que Reuven e Danny estavam impedidos de ser amigos, porque seus amigos mais chegados, fam ília e especialmente seus pais, tinham adotado cosmovisões competidoras. Observar a coli­ são destas cosmovisões impressionou minha imaginação e mar­ cou um ponto crucial em minha reflexão sobre as principais for­ ças da convicção e do sentimento que animam minha própria cos- movisão cristã. Dois Meninos, Dois Mundos Reuven Malter e Danny Saunders eram meninos judeus que cresceram nos anos de 1940, em um bairro densamente povoado do Brooklyn. Até os anos da adolescência, não sabiam nada um do outro porque pertenciam a seitas diferentes, ou da mesma ra­ mificação do judaísmo, com marcantes diferenças na cosmovisão. A fam ília e amigos de Danny eram judeus hassídicos, profunda­ mente conservadores com origens na Rússia. Em sua vida cotidi- ana, comunicavam-se em iídiche e observavam certas práticas cul­ turais que inequivocamente os identificavam como hassidim. Por exemplo, os homens usavam chapéus pretos e casacos pre­ tos longos, e cultivavam barbas fartas e cachos de cabelo pegados aos lados do rosto; os meninos usavam cachos de cabelo pegados O hassidismo é um movimento judaico incentiva a expressão religiosa jo vial por fundado na Polónia no século X V III por meio da música e da dança, e ensina que a um homem chamado B aal Shem Tov. O pureza de coração é mais agradável a Deus nome “ hassid ism o” d eriva da p alavra do que a aprendizagem . Em 1781, os hassidim , que significa “ os piedosos” . O talm udistas declararam herético o movimento hassídico surgiu como reação hassidism o. Não obstante, o movimento às perseguições e ao formalismo académi­ continuou crescendo e hoje é uma presen­ co do judaísmo rabínico. Desde seu início, ça forte e vital na vida judaica.
  18. 18. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO 19aos lados do rosto e tinham franjas no lado de fora de suas calçascompridas. A fam ília e amigos de Reuven, ao contrário, pratica­vam uma ortodoxia judaica menos conservadora. Em sua vidacotidiana comunicavam-se principalmente em inglês, usavam rou- O iídiche é um idioma do alto alemão escri­ Antes do aniquilamento de 6 milhões dejudeus to em caracteres hebraicos que se desenvolveu pelos nazistas durante a década de 1940, o iídiche durante a Idade Média. A palavra “iídiche” é a era a língua de mais de 11 milhões de pessoas. forma abreviada de iídiche daytsh, que signifi­ Embora não seja uma língua nacional, hoje o ca literalmente “judeu-alemão” . Os linguistas iídiche é falado no mundo inteiro por mais de 4 classificam o idioma como membro do grupo milhões de judeus, especialmente nos Estados germânico ocidental, da subfamília germânica Unidos, Israel, Argentina, Canadá, França, Mé­ pertencente à família indo-européia de idiomas. xico, Rússia, Ucrânia e Roménia.pa americana comum e não tinham barba ou cachos de cabelo aolado do rosto. Enquanto tanto os Maiter e os Saunders ansiavampelo retorno dos judeus à sua pátria, suas ideologias ditavam ca­minhos muito diferentes para que isso acontecesse. O pai de Danny,o rabino Saunders, como outros na comunidade hassídica, asseve­rava que os judeus só poderiam voltar à sua pátria depois da che­gada do seu tão esperado Messias. O pai de Reuven, por outro lado, juntava-se ao sionismo, ummovimento ideológico que lutava para estabelecer o Estado deIsrael. Além de diferirem sobre assuntos políticos importantes, osSaunders e os Maiter divergiam nas atividades cotidianas, como o *7oná Torá quer dizer “ ensinos” ou “ apren­ amplo para re­ dizagem” . Os judeus usam a palavra de ferir-se a todos duas maneiras relacionadas, mas distin­ os ensinos do tas. Prim eiro, Torá é o nome hebraico para ju d a ísm o , in ­ o Pentateuco, os cinco primeiros livros da c lu s iv e toda a B íb lia. A Torá, ou Le i Escrita, que os ju ­ escritura hebrai­ deus ortodoxos acreditam que foi revela­ ca, o Talmude e da diretam ente por Deus a M oisés no qualquer outra monte S in a i, estabelecia certas le is da in te rp re t a ç ã o moral e comportamento físico . Segundo, rab ín ica g eral­ o nome Torá é usado num sentido mais mente aceitada.
  19. 19. 20 MICHAEL D. PALMER entretenimento. Danny e Reuven nunca teriam se encontrado em um teatro, porque a cosmovisão do rabino Saunders proibia assis­ tir film es. Tanto o ramo hassídico de Danny quanto o ramo ortodoxo de Reuven acreditavam em Deus e ressaltavam a importância da Torá. Não obstante, os hassidim viam o povo de Reuven com suspeita. Eles os chamavam de apikorsim, termo de zombaria usado para referir-se aos judeus que abandonavam as práticas culturais tradi­ cionais e negavam certas doutrinas básicas da fé judaica, como a existência de Deus, sua revelação e a ressurreição dos mortos. Também dizia respeito aos judeus que liam a Torá em hebraico e não em Iídiche, um pecado imperdoável aos olhos dos hassidim, porque o hebraico era a língua santa. Usá-la em discurso comum de sala de aula era considerado uma profanação do nome de Deus. Claro que o povo de Reuven não negava a existência de Deus. Porém, sua educação diferia de maneira notável da educação das crianças hassídicas. Enquanto a cosmovisão hassídica restringia a educação principalmente aos assuntos religiosos aprovados, a cos­ movisão ortodoxa acrescentava à religião tais estudos como ciên­ cia moderna e psicologia, tópicos profundamente suspeitos para o rabino Saunders. No princípio da década de 1940, com o país completamente comprometido com os esforços da guerra, alguns professores de inglês nas escolas paroquiais judaicas (yeshiva) sentiram a neces­ sidade de fazer uma declaração ao “mundo gentio” . Eles queriam mostrar que os estudantes yeshiva, conhecidos por seu estilo de *7atwtude A palavra Ta/mude quer dizer literalmente nhamento (escrito em aramaico) é chamado “ aprendizagem” ou “ instrução” . No judaísmo, Gemara. A Gemara desenvolveu-se das inter­ é o nome de uma obra composta de duas par­ pretações da Mishná feitas por estudiosos ju ­ tes: A Lei Oral judaica e os comentários deus (fariseus de c. 200 a.C. a c. 500 d .C .), rabínicos de acompanhamento. O texto da Lei cujos argumentos excessivamente minuciosos Oral (escrito em hebraico) é chamado Mishná; tornaram a obra fonte valiosa de informaçãoí o texto dos comentários rabínicos de acompa- suplementar e comentário. vida repleto de estudos, eram fisicamente capazes como qualquer outro. Para fazerem isso, organizaram as escolas de bairro numa liga de softball, forma modificada de beisebol jogado com bola mais macia e maior. Como era de se esperar, os rabinos que ensi­ navam nas yeshivas encararam o beisebol com ceticismo. Para eles, era um nocivo desperdício de tempo. Eles temiam seu forte apelo, temiam que seduziria os jovens a abandonar sua identidade judaica, temiam que faria com que os jovens quisessem assim ilar as idéias e cultura americanas. Mas os jovens resolveram adotar o
  20. 20. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃOjogo e enfrentar o preconceito de serem americanos. Para eles, uma vitória no beisebol entre as ligas “representou somente um valor menos significativo do que uma nota alta no Talmude” . O sucesso no beisebol permitiu-lhes considerar-se a si mesmos par­ticipantes plenos na vida da nação: “Foi uma inquestionável mar­ ca do americanismo, e ser considerado um americano leal tinha se tomado cada vez mais importante para nós durante esses últimos dias da guerra” .2 Danny e Reuven encontraram-se pela primeira vez durante uma competição de beisebol entre suas duas escolas. Durante o jogo, o olho de Reuven ficou seriamente ferido, quando foi atingido por uma bola batida por Danny. A interação dos rapazes, inclusive sua consequente amizade depois do acidente, fornece base concreta para considerar o que significa manter uma cosmovisão. Também proporciona modelo proveitoso para refletir cuidadosamente e com precisão nas principais linhas de uma cosmovisão cristã. Na ver­ dade, a história destes rapazes judeus merece consideração, por causa das importantes questões que evoca, pois são as mesmas que os cristãos enfrentam hoje: perguntas sobre Deus, sobre nós mesmos, sobre nossa comunidade, sobre o que podemos esperar, sobre o que temos de fazer. Nas páginas que se seguem, exploraremos o que significa ter uma cosmovisão em geral, e em particular o que significa ter uma cosmovisão cristã. Quando tivermos terminado, disporemos de (como Danny e Reuven) uma avaliação profunda das questões e um melhor entendimento de como nossa cosmovisão pode perma­ necer unida. O que É uma Cosmovisão? Como definição in icial de nosso tópico, podemos dizer queuma cosmovisão é um conjunto de crenças que a pessoa mantém.Contudo, nem todo conjunto de crenças forma uma cosmovisão.Alguns desses conjuntos são meramente coleções fortuitas ou sor­timentos estranhos de crenças. Ao olhar os livros numa estante emmeu gabinete de estudos, identifico um chamado Triviata. Seusubtítulo descreve-o como Um Compêndio de Informações Inú­teis. Um amigo me deu o livro como uma brincadeira. As declara­ções desconexas dos fatos que ele contém seguramente não cons­tituem uma cosmovisão. As convicções numa cosmovisão perma­necem unidas, de certo modo coesas. Em vez de ser uma lista deidéias desconexas (um compêndio de informações inúteis, por as­sim dizer), estas crenças ajustam-se umas às outras de modo uni­ficado e formam um todo. Neste ponto, ninguém poderia encon­trar contraste mais forte do que entre a Triviata e o Talmude. Na tradição judaica, o Talmude representa um esforço ao lon­go dos séculos feito por muitos comentaristas rabínicos para che­gar a uma interpretação unificada da L e i Oral judaica. Mesmo
  21. 21. 22 MICHAEL D. PALMER quando os rabinos diferem em suas interpretações da Le i Oral, eles continuam se empenhando na busca de uma interpretação unificada que não contenha nenhuma contradição. No mínimo, uma cosmovisão é um conjunto de crenças que são consistentes entre si e que formam um ponto de vista unifica­ do. Mas até esta descrição não é adequada. Por exemplo, um con­ junto de crenças sobre geometria, outro sobre o equilíbrio do or­ çamento nacional e outro sobre a navegação numa grande rede de computadores como a Internet podem exibir consistência e unida­ de de perspectiva, mas nenhum destes conjuntos de crenças cons­ titui uma cosmovisão. Isto é assim por pelo menos duas razões. Prim eiro, embora consistentes e unificados em seu ponto de vista, são bastante estreitos em seu enfoque e lidam principalmen­ te com assuntos técnicos. Ao contrário, as crenças centrais de uma cosmovisão abordam interesses centrais ao significado da vida hu­ mana. Segundo, as crenças sobre geometria, a dívida interna ou a Internet têm poucas cone­ xões diretas para as outras coisas em que acre­ Uma cosmovisão é um conjunto de ditamos ou fazemos. O geômetra não tem de crenças e práticas que moldam o aplicar seu conhecimento para construir casas;envolvimento da pessoa nos assuntos uma teoria sobre o equilíbrio orçamentário na­ mais importantes da vida. cional pode muito bem nunca ver a luz do dia além da porta do economista que a desenvol­ veu; saber como navegar na Internet não diz nada sobre que tipo de informação a pessoa deve procurar ou compartilhar. Ao contrário, as crenças centrais de uma cosmovisão têm im­ plicações importantes para muitas outras crenças e práticas na vida diária. Na comunidade hassídica de Danny, por exemplo, crer em Deus afetou profundamente todas as outras crenças e práticas. Se­ melhantemente, porque acreditavam que a Torá era a lei de Deus, os hassidim também acreditavam que deveriam reunir-se regular­ mente na sinagoga para oração e estudo. Além disso, expressaram sua fé e lealdade comunitária por meio de seus rituais (ritos de passagem, como o bar mitzvah para os meninos), as roupas (cha­ péus pretos e casacos pretos longos), aparência externa (barbas fartas e cachos de cabelo pegados aos lados do rosto) e práticas tradicionais (matrimónios arranjados pelos pais). Em resumo, as crenças centrais de uma cosmovisão não são estreitas em seu foco, mas tocam quase todas as outras crenças e práticas daqueles que mantêm-se fiéis à cosmovisão. As questões enfrentadas por pessoas como Danny e Reuven na tradição judaica e por pessoas pensativas na tradição cristã são realmente questões sobre nossas crenças e práticas mais básicas. Quer estejamos cientes disso ou não, nossas crenças centrais e práticas formam um ponto de vista ou perspectiva que é distinta­ mente nosso. Esta perspectiva distintiva constitui nossa cosmovi­ são-, nossas várias crenças centrais e práticas são os elementos dessa
  22. 22. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO 23cosmovisão. Uma cosmovisão é um conjunto de crenças e práti­cas que moldam a abordagem da pessoa aos assuntos mais impor­tantes da vida. Por meio de nossa cosmovisão, determinamos pri­oridades, explicamos nossa relação com Deus e com os seres hu­manos, avaliamos o significado dos acontecimentos e ju stifica­mos nossas ações. Nossa cosmovisão também influencia as práticas mais comunsda vida cotidiana, inclusive os tipos de coisas que lemos e vemos,os tipos de entretenimento e atividades de lazer que buscamos,nossa abordagem ao trabalho e muito mais. Quem Tem uma Cosmovisão? Qualquer pessoa capaz de considerar esse assunto tem umacosmovisão. O modo como falamos e agimos dá evidência quetemos uma cosmovisão. Isto mostra que mantemos certas crenças,que adotamos determinado conjunto de prioridades, que certashistórias nos impressionam como particularmente eficazes e pro­váveis de mexer conosco, e que certas práticas e situações sociaistêm importância especial para nós. Claro que não é verdade que todas as pessoas que têm umacosmovisão a possuem precisamente da mesma maneira. A cos­movisão de algumas pessoas só existe no sentido de que herdaramum conjunto de crenças e práticas de sua fam ília e comunidadeimediata. Elas não entendem suas crenças e não alcançam o signi­ficado maior de suas ações. Acreditam e agem __________________de forma não crítica e ingénua em vez de ummodo auto-reflexivo. Na grande maioria das Quem tem uma cosmovisão?vezes explicarão por que acreditam ou fazem Todas as pessoas capazes dealgo, referindo-se às tradições da fam ília, aospadrões da igreja ou à afiliação partidária po­ considerar esse assunto.lítica. Em resumo, elas só têm uma cosmovi­são no sentido de que outra pessoa a impôsnelas, e não porque elas refletiram cuidadosamente sobre as ques­tões importantes e escolheram sua cosmovisão. Não é incomum para os indivíduos que tão-somente herdaramsua cosmovisão presumirem que as crenças e práticas de todo omundo são semelhantes às suas. Não desafiados por qualquer ou­tro ponto de vista, eles podem tornar-se apáticos com relação aoseu próprio ponto de vista. Em meados dos da década de 60, numacanção intitulada “Nowhere Man” (O Homem de Nenhum Lu ­gar), os Beatles capturaram o sentido da vida para aquele que cres­ceu indiferente à sua cosmovisão.3 De acordo com a letra da can­ção, o homem de nenhum lugar ocupa um lugar na terra de ne­nhum lugar fazendo planos sem sentido para ninguém. Ao quetudo indica, ele não faz a mínima idéia para onde vai. Talvez noponto mais comovente da canção, ouvimos que o homem de ne­nhum lugar “não tem um ponto de vista” . A frase levanta pergunta
  23. 23. 24 MICHAEL D. PALMER constrangedora: É possível não ter nenhum ponto de vista? Prova­ velmente não. E mais provável é que o verdadeiro problema do homem de nenhum lugar não seja que ele não tenha literalmente nenhum ponto de vista. Seu caso é pior. Ele é indiferente ao único ponto de vista que lhe é fam iliar. Portanto, ele pode muito bem não ter um porque não tem nenhuma idéia para onde está indo na vida. A descoberta de que nem todo o mundo "Somos os capitães de nosso segue os padrões de crença e prática similares às suas próprias pode surgir como um desper­ destino e os mestres de nossa alma tar abrupto. Quando isso ocorre, dois tipos de em nossa capacidade de decidir reação são comuns. Algumas pessoas reagem acerca da vida que levamos". defensivamente. Elas se retiram para trás dos — Vincent E. Rush dogmas memorizados e dos clichés familiares e geralmente adotam a posição de que não têm nada a aprender de estranhos. (Em The Chosen, os hassidim — particularmente os adolescen­ tes jovens — adotaram esta postura em relação aos judeus não- hassídicos.) Outras pessoas reagem com embaraço. Ao compararem suas crenças ou práticas com as dos outros, as suas podem parecer sem importância, triviais ou ingénuas. Elas podem tentar menosprezá-las ou mesmo escondê-las quando interagem com estranhos. (Uma das questões que Danny enfren­ tou quando foi para a universidade foi se deveria cortar seus ca­ chos de cabelos e usar roupas que não o identificassem como ju ­ deu hassídico.) Defesa e embaraço frequentemente são sinais de imaturidade. Indicam que o indivíduo em questão não está com­ pletamente confortável com sua própria cosmovisão. Estamos falando sobre o modo como as pessoas obtêm sua cosmovisão. Alguns indivíduos, já dissemos, meramente herdam sua cosmovisão. Aqueles que obtêm sua cosmovisão apenas por este meio limitado podem muito bem tornar-se apáticos ou indife­ rentes a ela. Ou, se inesperadamente encontram alguém que tenha uma cosmovisão diferente, podem reagir defensivamente ou com embaraço. Por outro lado, uma cosmovisão pode ser obtida por escolha. Escolher, no sentido pretendido aqui, não significa sim­ plesmente que a pessoa escolhe uma cosmovisão dentre várias opções disponíveis — como se fosse uma criança que escolhe um cachorrinho numa loja de animais domésticos. Escolher também não significa que a pessoa rejeita a cosmovisão herdada. Escolher diz respeito a um processo deliberativo que é qua­ se mais um estilo do que uma ação. Prontidão, consciência, auto- reflexão, estar presente nas alternativas — tudo isso significa o que se pretende dizer por escolha. Escolher significa que a pessoa não é lançada ao sabor do vento como os despojos que o mar da vida traz à praia. Como certo autor ressaltou: “Podemos não ser os capitães de nosso destino e os mestres de nossa alma, com capacidade total para controlar o ambiente que nos cerca, mas somos os capitães de nosso
  24. 24. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO 25destino e os mestres de nossa alma em nossa capacidade de decidiracerca da vida que levamos...”4Em suma, o indivíduo que escolhe é ooposto do homem de nenhum lugar dos Beatles. Toda pessoa capaz de refletir sobre as questões da cosmovisãojá tem uma cosmovisão? A pergunta crítica é: Como afinal de contasse obtém essa cosmovisão. Obtê-la como herança da fam ília e dacomunidade imediata pode ser uma boa forma de começar. Naverdade, esse é o modo como todo o mundo obtém uma cosmovi­são. Mas em certo sentido importante, uma cosmovisão herdadaainda não é inteiramente da pessoa. Tê-la inteiramente como sua— vivenciá-la com convicção e acreditar nela com entendimento— requer que o indivíduo a escolha. Aquele que escolhe uma cos­movisão tomando-a uma questão de escolha deliberada e reflexi­va não ficará apático ou indiferente a ela. Nem é provável que talindivíduo se porte defensivamente ou fique envergonhado com ela.Finalm ente, aquele que escolhe uma cosmovisão está melhorposicionado para avaliar as deficiências de sua própria cosmovi­são e para aprender de outras cosmovisões. ‘ eâ&uçâa de ‘r¥oCme& de uma, D Nas últimas décadas, os cristãos têm en­ 3. É um processo exploratório, sondan­ frentado tremendos desafios intelectuais em do a relação de uma área após a outra para a várias frentes. E o menor deles certamente perspectiva unificada. não é o de enunciar uma cosmovisão que sir­ 4. É pluralista no sen­ va para as doutrinas centrais da fé do cristi­ tido de que a mesma pers­ anismo e ao mesmo tempo funcione adequa­ pectiva básica pode ser damente como resposta aos desenvolvimen­ enunciada de maneiras um tos contemporâneos da ciência empírica, da tanto diferentes. teoria moral, das artes e da filosofia. Um dos 5. Tem resultados de líderes em enfrentar este desafio desde a se­ ação , pois o que pensamos gunda metade do século X X tem sido o filó ­ e o que avaliamos guiam sofo Arthur Holmes. No trecho apresentado o que faremos.” a seguir, Holmes oferece um resumo dos Este trecho é um principais critérios de uma estmtura intelec­ excerto de The Making of tual que pode de maneira justa ser chamada a C hristian Mind, A de cosmovisão. Christian World View & the Academ ic “ Uma cosmovisão global apresentará as Enterprise (A Estrutura de uma Mente C ris­ seguintes características: tã, Uma Cosmovisão Cristã e o Empreen­ 1. Tem uma meta globalizada, buscando dimento A cad ém ico). Downers G rove, ver cada área da vida e do pensamento de Illin o is: InterV arsily Press, 1985, p. 17. uma forma integrada. Outras obras notáveis de Holmes são AI.I 2. E uma abordagem sob um determina­ Truth is G od’s Truth (Toda Verdade é a do aspecto, versando as coisas de um ponto Verdade de D eus) e C ontours o f a de vista previamente adotado que agora pro­ Christian Worldwide (Contornos de uma porciona uma estrutura integrada. Cosmovisão C ristã).
  25. 25. Elementos de Uma Cosmovisão Uma cosmovisão bem desenvolvida fornece tipicamente umamplo quadro das preocupações essenciais da vida. Portanto, umacosmovisão bem desenvolvida evidencia em geral certos compo­nentes ou elementos essenciais. Na ciência como a química, umelemento é uma substância fundamental que consiste em átomosde um só tipo. Usamos a palavra elemento deste modo quandofalamos de elementos químicos, como o hidrogénio ou o hélio databela periódica. Na matemática um elemento é um membro bási­co de uma questão matemática ou lógica. Na fé cristã, usamos apalavra elementos (plural) para nos referirmos ao pão e ao vinhoassociados com a memória da última ceia de Cristo. Entretanto, dentro do contexto de falar sobre cosmovisão, umelemento é mais como um aspecto definível de como os seres hu­manos explicam e praticam o que acreditam. Uma cosmovisãobem desenvolvida mostra caracteristicamente pelo menos seis ele­mentos distintos.5 Podem ser descritos sucintamente da seguinteforma: 1. Ideologia. O elemento ideológico de uma cosmovisão con­siste em crenças centrais. Estas crenças normalmente são expres­sadas de uma maneira formal e precisa, como nas proposições fi­losóficas, declarações de credo, fórmulas autorizadas ou doutri­nas. A ideologia de uma cosmovisão também é geralmente ex­pressada de um modo sistemático, significando que algum esfor­ço é feito para assegurar que as declarações chaves sejam consis­tentes entre si. Em The Chosen, o rabino Saunders ensinou a Dannyas ideologias do hassidismo mediante estudo intensivo do Talmude. 2. Narrativa. O elemento narrativo de uma cosmovisão recontacertos eventos significativos da história daqueles que mantêm acosmovisão. Em alguns casos, as narrativas também tratam deeventos futuros. As narrativas podem ser sobre muitas coisas, porexemplo, uma pessoa famosa, a fundação de um povo ou nação, ocomeço do mundo ou a interação de alguém com Deus ou compráticas religiosas. Com frequência, os narradores expressam es­ses eventos em escritos sagrados, mitos, contos históricos, históri­as, lendas ou até na letra de um hino. As vezes, os artistas também representam temas narrativos empinturas ou outras formas de arte. Se a ideologia expressa crençascentrais em linguagem precisa e formal, as narrativas expressamcrenças centrais pelo exemplo, imagem, símbolo ou metáfora. Ashistórias bíblicas de Abraão, Isaque e Jacó são centrais para a cos­movisão hassídica. 3. Normas. Uma norma é um padrão de algum tipo. Quando setrata de uma cosmovisão, dois dos mais importantes tipos de nor­mas são as normas morais ou éticas e as normas estéticas. As nor­mas estéticas proporcionam base para a tomada de decisão sobreo que é bonito, agradável ou sublime.6 A s normas morais estabe­
  26. 26. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO 27lecem exigências para a conduta correta, estipulam nossas res-ponsabilidades e geralmente nos explicam que tipo de pessoa de­vemos ser. Em The Chosen, o lugar das normas morais no judaís­mo emerge vigorosamente em certo ponto, quando Danny visitaReuven no hospital logo depois de ferir-lhe o olho. Com raiva deDanny, Reuven a princípio recusa-se a falar, mas depois explode:“Vá para inferno e leve junto esse seu grupo esnobe de hassidim ” .Quando o senhor Malter fica sabendo da atitude indelicada deReuven, diz: “Você fez uma coisa tola, Reuven. Lembre-se do quediz o Talmude. Se alguém vem se desculpar por tê-lo ferido, vocêtem de ouvi-lo e perdoá-lo” .7 Estes três elementos de uma cosmovisão — ideologia, narrati­va e normas — formam um complicado padrão de crenças. Con­tudo, este padrão não existe meramente na teoria. Ele se tornavital e dinâmico no contexto da experiência e da prática. No juda­ísmo ortodoxo, por exemplo, as crenças acerca de Deus (ideolo­gia) não são meros conceitos sobre alguma deidade neutra e dis­tante considerada como o Mestre do Universo.8E le é um ser que éativamente adorado. Os hassidim retratados em The Chosen orama Ele nas sinagogas do bairro e falam sobre Ele nas casas, ruas elojas. Sua influência é sentida em todas as facetas de suas vidas,porque eles acreditam que são seu povo escolhido. A história (nar­rativa) que eles recontam sobre os atos de Deus na história dopovo deles é célebre e representada de novo em certos rituais, comoaqueles associados com a Páscoa e o Hanuká. As narrativas cen­trais juntamente com os rituais tradicionais evo­cam intensas experiências para o crente. 4. Ritual. Um ritual é um ato cerimonial Estes três elementos de umaexecutado periodicamente em ocasiões espe­ cosmovisão — ideologia, narrativa eciais. E projetado a representar novamente ourecordar um acontecimento especial. Um ritu­ normas — formam um complicadoal pode ser sombrio ou festivo, formal ou in­ padrão de crenças.formal. Em todo caso, os rituais proporcionamuma ocasião para se refletir no significado dascrenças centrais do indivíduo e evocam uma resposta afetiva aessas crenças. Ambas as funções são tencionadas a integrar os pa­drões de crença no trama da vida interior e no caráter da pessoa.Por exemplo, observar a Páscoa envolve celebrar e, de certo modo,reviver a libertação dos hebreus da escravidão egípcia descrita noLivro de Êxodo. 5. Experiência. Quando falamos do elemento experiencial deuma cosmovisão, queremos dizer o modo como alguém se dá con­ta vivamente das verdades expressadas nas crenças centrais. Ascrenças já não parecem abstratas e distantes. Ao invés disso, tor­nam-se imediatamente presentes. Os hassidim são famosos pornutrir experiências altamente místicas e pessoais. 6. Elemento Social. As crenças centrais de qualquer cosmovi­são evaporarão como a névoa ao sol da manhã, se não estiverem
  27. 27. embutidas numa situação social. Isto é assim porque a situaçãosocial fornece as estruturas organizacionais e outros meios quepermitem que as crenças sejam perpetuadas de uma geração paraoutra. Uma das características mais notáveis de The Chosen é omodo como Potok fornece insight na vida comunitária hassídica.Cada seita hassídica tinha seu próprio rabino, sua própria sinago­ga e yeshiva, seus próprios costumes, suas próprias lealdades fer­renhas. Em um comentário bastante expressivo sobre a vida nacomunidade, Reuven diz: “Em um sábado ou manhã festiva, osmembros de cada seita podiam ser vistos caminhando para as suasrespectivas sinagogas, vestidos com seus trajes particulares, ansi­osos para orar com seu rabino particular e esquecer o tumulto dasemana...” 9 Comentamos anteriormente que uma cosmovisão é um con­junto de crenças e práticas que moldam a abordagem de uma pes­ soa para as mais importantes (e muitas outras) questões da vida.Todo mundo, dissemos, tem uma cosmovisão. Também fizemosuma descrição breve de seis elementos mais importantes de umacosmovisão. A seguir, examinaremos estes seis elementos com maisdetalhes em preparação à descrição de uma cosmovisão cristã. O Elemento Ideológico A s cosmovisões geralmente surgem da experiência e das nar­rativas que exemplificam e desenvolvem-se nessa experiência. Masas experiências variam de uma pessoa para outra, e as narrativaspor sua própria natureza prestam-se a múltiplas interpretações. Por estes motivos as cosmovisões comumente desenvolvem um con­junto de declarações autorizadas que constituem seu elemento ide­ ológico. Estas declarações formam uma estrutura central, ou sis­tema, para explicar a realidade. Já nos referimos a elas como cren­ ças centrais. Por exemplo, o judaísmo ortodoxo expressa diversas crenças centrais, entre elas: Há um só Deus, Deus criou o mundo, Deus está ativamente envolvido na história. Estas crenças essenci­ ais são parte do elemento ideológico do judaísmo ortodoxo. Estas doutrinas (e outras importantes) explicam a natureza de Deus e sua relação com o resto da criação, inclusive os seres humanos. F u n ç õ e s G e r a is da I d e o l o g ia O elemento ideológico de uma cosmovisão exerce diversasfunções. Uma dessas função é trazer ordem e coerência à vastasérie de dados proporcionados na experiência. Superficialmente,as coisas que vivenciamos parecem não ter nenhuma relação umacom outra. Além disso, as experiências de uma pessoa afiguram-se não ter conexão com as de outra pessoa, especialmente se aoutra pessoa mora em outro país ou se viveu no passado. Mas aideologia pode fornecer um senso de ligação entre eventos apa­rentemente discrepantes e entre pessoas separadas geograficamente
  28. 28. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO 29e pelo tempo. Este ponto é vividamente notório na ideologia dojudaísmo. Durante o tempo em que Moisés estava procurando as­ segurar a libertação dos hebreus, as pragas que sobrevieram aosegípcios não eram catástrofes simplesmente fortuitas e isoladas.Faziam parte de um destino maior: A obra de Deus nos eventoshistóricos. O judaísmo também nutriu sempre um forte senso deidentidade do seu povo. Os judeus não sãomeros indivíduos isolados, mas membros deum povo histórico. Os Livros da Le i os lem­ As cosmovisões comumentebram desta conexão histórica com seus ante­passados. No Livro de Deuteronômio, quando desenvolvem um conjunto deMoisés está a ponto de pronunciar os manda­ declarações autorizadas que mentos de Deus, ele diz: “ O SEN H O R, nosso constituem seu elemento ideológico.Deus, fez conosco concerto, em Horebe [mon­ te Sinai]. Não foi com nossos pais que fez o SEN H O R este concerto, senão conosco, todos os que hoje aqui estamos vivos” (Deuteronômio 5.2,3). Os indivíduos a quem estas palavras foram ditas não estavam presentes quando o concerto foi feito em Horebe. Não obstante, o concerto é válido para eles em cada detalhe tanto quanto o era para seus antepassados, porque eles são parte de um povo escolhido por Deus desde tempos imemoriais. Em resumo, uma função da ideologia é trazer ordem e coerência à experiência. Uma segunda função é fornecer base para avaliar os valores, os insights e as declarações de conhecimento dos outros. Tem ha­ vido poucas épocas na história humana em que os partidários de qualquer determinada cosmovisão viveram uma geração inteira, ou mesmo várias gerações, sem encontrar pessoas cuja cosmovi­ são diferia radicalmente da deles. Mesmo os mais isolados povos ocasionalmente interagiam com estranhos. No ponto do fato his­ tórico, a maioria dos povos interagia com estranhos de maneira frequente e diversa, desde o comércio à guerra e à troca cultural. Sempre que ocorre interação entre uma pessoa e outra, a per­ gunta surge naturalmente: Como iremos avaliar e dar sentido àquilo que estas pessoas (os estranhos) dizem e fazem? A ideologia da cosmovisão do indivíduo fornece uma estrutura de referência para responder à pergunta. Quando Daniel e outros membros jovens da nobreza judaica foram levados cativos para a Babilónia no século V II a.C ., eles mantiveram sua identidade, enfrentaram e venceram a cosmovi­ são de seus captores, em parte porque estavam bem fundamentos em sua própria cosmovisão. Eles julgaram o que era bom e mau, certo e errado, proibido e permitido. Mas sem uma compreensão clara das crenças centrais de seus captores, eles facilmente pode­ riam ter sido assimilados pela vida e cultura babilónicas. Uma terceira função do elemento ideológico é definir a comu­ nidade. Em outras palavras, a ideologia ajuda a separar as pessoas íntimas dos estranhos, aqueles que pertencem ao grupo daqueles
  29. 29. 30 MICHAEL D. PALMER que não pertencem ao grupo. Em cada cosmovisão, as crenças tipicamente aceitas por aqueles que mantêm-se fiéis à determina­ da cosmovisão formam uma estrutura, um esqueleto, que dá for­ ma ao mundo como percebidas pelos membros da comunidade. Enquanto normalmente há alguma abertura em como interpretar e aplicar as crenças centrais, qualquer um que estira demasiadamente os lim ites arrisca ser separado da comunidade. Grandes diferen­ ças nas crenças centrais não podem em geral ser toleradas indefi­ nidamente. Considere, por exemplo, que os cristãos da Igreja prim itiva eram judeus. Uma profunda divisão ideológica aconteceu quase que imediatamente dentro do judaísmo, porque os seguidores de Jesus declararam que Ele era divino e igual a Deus — uma noção ideológica inaceitável para os judeus ortodoxos. C o n t e ú d o I d e o l ó g ic o G e r a l As cosmovisões que de outra forma diferem uma da outra em seu conteúdo específico — mesmo aquelas que são radicalmente opostas uma a outra — mostram uma semelhança interessante no modo como desenvolvem seu conteúdo ideológico em geral. Em outras palavras, as cosmovisões tendem a falar sobre tópicos se­ melhantes. Por exemplo, as cosmovisões naturalistas (como o existencialismo ateísta marxista) e as cosmovisões teístas (como o judaísmo ou o cristianismo) divergem em muitos pontos impor­ tantes. Elas são tão diferentes em alguns pontos que entram em conflito uma com a outra, às vezes até se contradizem. Não obstante, falam sobre tópicos similares. Por exemplo, ambas ex­ pressam visões ideológicas sobre o que existe e ambas fazem as- severações sobre a natureza humana. Vamos examinar estes tópi­ cos mais de perto. ~j O alem ão K a rl M arx apelava aos direitos naturais para justificar (1818-1883) fo i o filósofo a reforma social. M arx invocou o que acre­ social e revolucionário que ditou ser as leis da história que inevitavel­ viveu e escreveu na plenitu­ mente levariam ao triunfo da classe operá­ de da Revolução Industrial ria. M arx foi exilado da Europa depois das do século X IX . E le e revoluções de 1848. Em sua monumental Friedrich Engels são conside­ obra O Capital (3 volumes, 1867-1894), a rados os fundadores do mo­ qual foi escrita quando ele morava em Lon­ derno socialismo e do comu­ dres, M arx apresentou uma crítica cortante nismo. Com Engels, ele es­ à teoria económica capitalista e desenvolveu creveu o Manifesto Comunis­ uma teoria económica própria. ta (1848) e outras obras que quebraram a tra­ Para mais informações sobre M arx, veja o dição de teoristas como John Locke, que Apêndice 3, “K arl M arx” , no fim deste livro.
  30. 30. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO T e o r ia de F undo sobre o que E x is t e A s declarações ideológicas gerais sobre o que existe constitu­em o que podemos chamar de teoria de fundo sobre a natureza douniverso. Uma teoria de fundo aborda pelo menos três tópicos: ocosmo, Deus e a história.1 0 O Cosmo. A expressão cosmo foi usada pela primeira vez pe­los gregos antigos para referir-se a algo formoso e sistematica­mente organizado — como as linhas numa tapeçaria. O oposto decosmo era o caos ou a desordem. Desde então, os gregos usaram otermo para descrever o arranjo ordenado e harmonioso das estre­las e dos planetas como apareciam no céu à noite. Hoje, o signifi­cado do termo foi ampliado para incluir não só a harmonia doscorpos celestiais, mas o universo em geral — literalmente, tudo oque existe. Inclui as coisas que prontamente vemos como também as coi­sas difíceis de se ver, por exemplo, os elétrons. Também incluicoisas que não podemos ver de jeito nenhum, mas que podemosapenas pensar nelas, como números, conceitos, leis da natureza.Apesar destas mudanças em seu uso nos tempos modernos, o ter­mo cosmo ainda levanta questões que os gregos antigos pondera­vam. Se os corpos celestiais no céu à noite estão distribuídos deum modo ordenado e harmonioso, o que explica essa ordem e har­monia? Alguém ou algo os organizou de acordo com algum plano,ou sua aparência é só produto do acaso? Uma cosmovisão naturalista é aquela que nega que qualquerevento ou objeto tenha algum significado sobrenatural. As moder­nas cosmovisões naturalistas asseveram que leis científicas ouprincípios são adequados para explicar todos os fenómenos, taiscomo o arranjo dos corpos celestiais e o movimento dos elétrons.Uma cosmovisão teísta, por contraste, é aquela que adota a idéiade que poderes sobrenaturais desempenham um papel no desdo­bramento dos eventos. Portanto, as cosmovisões teístas de hojerejeitam a reivindicação de que as leis científicas em si podemexplicar o mundo e a nossa experiência dele. O marxismo e oexistencialismo ateísta são exemplos de cosmovisões naturalistas.O judaísmo, o islamismo, o hinduísmo e o cristianismo são exem­plos de cosmovisões teístas. Deus. É bastante óbvio que nem todas as cosmovisões reco­nhecem a existência de Deus. Entretanto, todas as principais cos­movisões afirmam, ou pelo menos implicam, uma posição relati­va à existência dEle. O judaísmo, o islamismo e o cristianismocomo cosmovisões teístas têm muito a dizer em suas declaraçõesideológicas, doutrinárias, sobre a existência de Deus, seus atribu­tos, suas atividades. Como era de se esperar, o marxismo, comocosmovisão naturalista, tem menos a dizer sobre Deus. Nãoobstante, não ficou calado no assunto nem é neutro. O próprioM arx negava a existência de Deus. De fato, ele é famoso por terdeclarado que a religião é “ o ópio do povo” , querendo com isso
  31. 31. 32 MICHAEL D. PALMER afirmar que a vida de fé é enganosa e ilusória: Não oferece espe­ rança alguma para resolver os problemas existenciais, e só é bem- sucedida em encobri-los temporariamente. A História. Toda importante teoria de fundo do universo tam­ bém afirma ou im plica algo sobre a história em sua ideologia. As cosmovisões teístas enfatizam a obra de Deus no fluxo da histó­ ria. Elas destacam o modo como Deus usa as pessoas e os aconte­ cimentos, em momentos e em locais específicos, para cumprir seus propósitos supremos, que são infinitos. Por exemplo, o hassidismo, tanto na realidade quanto descrito no romance de Potok, identifica um homem chamado Baal Shem Tov como alguém especialmente chamado por Deus em cerca de 1750 para viver uma vida piedosa e ensinar os outros a viver pia­ mente. (Hassidim quer dizer “ os piedosos” .) O judaísmo em geral também tem um forte senso da interven­ ção de Deus na história: Deus criou o universo e os seres humanos (Génesis 1— 2), deu uma promessa histórica a Abraão (“ Por pai da multidão de nações te tenho posto” [Génesis 17.5]) e até usou os inimigos dos hebreus (por exemplo, Faraó e Ciro) para cumprir seus propósitos. Uma cosmovisão cristã diverge de qualquer cos­ movisão judaica em um aspecto crucial: Jesus, ao mesmo tempo divino e humano, é a figura central no relato do tratamento de Deus para com a humanidade. As cosmovisões naturalistas afirmam uma visão cegamente mecânica da história. A história é o produto dos seres humanos interagindo entre si e com as forças naturais impessoais. Entretan­ to, os naturalistas estão divididos no que tange a se a história exi­ be padrões — quer sejam de progresso ou de regresso. O filósofo francês Jean-Paul Sartre rejeitou qualquer noção da ordem natural “participante” , ou que ela seja responsável por qualquer coisa como eanr O francês Jean-Paul causa do seu envolvimento com as forças da Sartre (1905-1980) foi fi­ resistência francesa e em parte por causa do lósofo, dramaturgo e no- seu brilho filosófico, depois da guerra Sartre velista. A partir de 1936, emergiu como figura dominante no m ovi­ publicou estudos filosó­ mento existencialista francês. (3 próprio ficos e romances, sendo Sartre era ateu. Durante os anos imediatos os mais notáveis A Náu­ depois da guerra, ele escreveu vários roman­ sea (1938) e O Muro ces e peças teatrais que lhe deram fama mun­ (1939). Durante a Segun­ dial. da Guerra M undial, ele Para informações adicionais, veja Apên­ completou sua obra filosófica mais impor­ dice 2, “ Jean-Paul Sartre” , no final deste tante, O Ser e o Nada (1943). Em parte por
  32. 32. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃOo progresso histórico. Para ele, a natureza não tem nenhum propó­sito último, nenhuma intenção, nenhuma direção — simplesmen­te existe. Por outro lado, K a rl M arx, que certamente rejeitava qualquernoção de propósito divino ou plano para a história, declarou que anatureza mostra padrões de progresso. Os seres humanos são par­te da natureza; portanto, também mostram padrões de progressoem sua história. Relato da Natureza Humana Além de fornecer uma teoria de fundo do universo, as cosmo­visões oferecem um relato geral do que significa ser humano. Esterelato trata de certos temas importantes da teoria de fundo. Porexemplo, se a teoria de fundo rejeita (ou é silenciosa sobre) a no­ção de que o universo tem um propósito e um destino último, en­tão o relato associado da natureza humana também rejeitará (ouestará silencioso sobre) se a pessoa individual tem um propósitoou um destino último. Semelhantemente, se a teoria de fundo diz que o universo temum propósito e um destino último, então o relato associado danatureza humana expressará a mesma visão sobre a pessoa in divi­dual. Sartre, um existencialista ateísta, retrata o universo comototalmente destituído de propósito e destino último. A naturezanão existe para os seres humanos. Na verdade, a natureza nãoexiste para qualquer coisa. Simplesmente existe — sem plano,propósito, intenção, esperança ou destino.1 (Certo personagem em 1um dos romances de Sartre, percebendo este ponto enquanto pon­dera junto às raízes de um castanheiro gigante, sente repugnânciapelo pensamento e vom ita.)1 Consistente com esta visão do uni­ 2verso, Sartre afirma que os seres humanos, no início da vida, tam­bém carecem de qualquer propósito essencial ou destino. NemDeus nem a natureza dão significado à vida. Se a vida algum diavier a ter um propósito ou significado, acontecerá apenas porque apessoa escolhe tomá-la significativa. Por contraste, o judaísmo e o cristianismo asseveram que Deuscriou o universo, que E le está atuando no universo para pôr emexecução seus propósitos, e que o universo tem um destino últimode acordo com o seu plano. E a humanidade se ajusta no propósitoúltimo de Deus para o universo? Sim , com certeza! O livro deGénesis, sagrado tanto para o judaísmo quanto para o cristianis­mo, declara que fomos feitos à imagem de Deus. Potok, referin­do-se ao fundador do hassidismo, diz: “ Ele os ensinou que o pro­pósito do homem é tornar a vida santa — cada aspecto da vida:comer, beber, orar, dormir” .13 Obviamente que uma cosmovisão que descreve o indivíduocomo tendo um propósito e um destino último também expressaráum conjunto de ideais para cada pessoa. Esses ideais podem sertraços de caráter interior. Por exemplo, o apóstolo Paulo, falando
  33. 33. 34 MICHAEL D. PALMER no século I d .C ., descreve a tarefa de cada pessoa como a de confor­ mar-se à imagem de Cristo. E le estabelece certos ideais de caráter em referência a Jesus. Cada pessoa tem de esforçar-se para encarnar os ideais de caráter modelados por Jesus, inclusive a integridade pessoal, a humildade, a mansidão, a paciência, o amor e a compai­ xão. Os ideais também podem ser expressos como situações soci­ ais. Os antigos profetas judeus, por exemplo, exaltavam a justiça como um ideal social. Para eles, a sociedade justa seria aquela em que o pobre e o fraco seriam adequadamente cuidados. Se as cosmovisões propositadas parecem naturalmente expres­ sar ideais para seus partidários, as cosmovisões naturalistas tam­ bém oferecem ideais? A resposta parece ser um qualificado sim. Como observamos anteriormente, M arx negou a existência de Deus. Portanto, ele não deixou lugar em sua cosmovisão para um conceito de propósito divino para os seres humanos. Neste sentido, a humanidade não tem nenhum destino e nenhum ideal a alcançar. Porém M arx reivindicou descobrir padrões de progresso na história humana: E le raciocinou que os seres humanos progredi­ ram do antigo barbarismo através dos estágios da escravidão e do feudalismo para as formas capitalistas da sociedade e da econo­ mia. O estágio fin al, acreditava ele, era aquele no qual os traba­ lhadores viriam a controlar a indústria e outros meios de produ­ ção. O controle destas forças económicas lhes perm itiria mudar as instituições sociais e políticas para melhor e, assim, ocasionar as melhores relações possíveis (quer dizer, o ideal) entre todos os seres humanos. Em suma, embora a cosmovisão de M arx certa­ mente não seja propositada, parece identificar certos ideais e de­ fender o empenho por eles. Albert Camus, como Jean-Paul Sartre, rejeitou não apenas a noção de propósito como se evidencia na cosmovisão teísta, mas também qualquer coisa como os padrões de progresso descritos por M arx. Para ele, a realidade é absurda — totalmente destituída de significado, propósito ou plano. Isto significa que, para Camus, as escolhas humanas são no final das contas arbitrárias. Coisas e eventos são o que lhes fazemos ser, e realmente não há razão para fazê-las de um jeito em vez do outro. Isto significa que Camus não reconheceu nenhum ideal? A resposta é: De fato, ele reconhe­ ceu ideais. Em sua mais famosa publicação ideológica, O Mito de Sísifo, Camus adapta aos seus próprios propósitos filosóficos o antigo mito grego de S ísifo .1 De acordo com o mito, certo dia, Sísifo, rei 4 de Corinto, incorreu na ira inexorável de Zeus. No Hades, o submundo, Zeus castigou Sísifo forçando-o a rodar uma pedra para cima e repetir este ciclo para sempre. Para Camus, Sísifo é “o operário fútil do submundo” . Sua atividade é totalmente sem sen­ tido, completamente destituída de propósito. Deve Sísifo — deve aqueles cujas vidas refletem a vida de Sísifo — desesperar-se? Camus acha que não. A alegria é uma opção: “A pessoa tem de
  34. 34. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO 35imaginar Sísifo fe liz” .1 Mas como? E onde está o ideal nesta re­ 5presentação da condição humana? A alegria é possível porque o significado de destino é no fimuma questão de ser resolvida pelos seres humanos. SegundoCamus, Zeus pode ditar nosso destino, mas somente nós podemosdeterminar o que esse destino sig nificará para nós e se nosdesgraçará. “ Sísifo” , diz Camus, “ ensina a mais alta fidelidadeque nega os deuses e levanta pedras.” 1 O ideal de Camus — sua 6figura heróica — é alguém que logo reconhece que o universo éimplacavelmente frio e indiferente para com os interesses huma­nos, mas que, não obstante, resolve alcançar um tipo de “ vitóriaabsurda” ao determinar para si que suas experiências tenham sig­nificado. Os ideais estabelecem que tipo de pessoa devemos ser eexemplificam o que vale a pena alcançar. Os ideais representam arealidade e a condição humana como elas devem ser, e não comosão. A implicação é que as coisas podem ser melhores do que são.Assim , quando uma cosmovisão inclui um conjunto de ideais, tam­bém costumeiramente oferece uma explicação sobre porquê aspessoas não alcançam esses ideais. Nas cosmovisões judaica e cristã os seres humanos vivemidealmente em comunidades fraternais entre si e em harmonia como seu Criador. Estas relações ideais existiram no princípio, numasituação como o jardim . Elas foram quebradas pelo fato de teremas escolhas humanas rejeitado os propósitos de Deus. Numa cos­movisão existencialista com a de Sartre ou Camus, os seres huma­nos vivem idealmente vidas autênticas, executando projetos que tóent &uuu& O francês Albert Camus (1913-1960) foi po, afirmam sua humani­ romancista e homem de letras. Nascido em dade ao se rebelarem con­ Algiers, Argélia, grande parte de sua vida tra essa mesma situação (a intelectual foi dedicada a explorar sua con­ volta humanística distinta­ vicção de que a condição humana é absurda. mente de Camus). Os tra­ Este fato, juntamente com sua associação balhos mais notáveis de Camus são os ro­ com o filósofo francês Jean-Paul Sartre, le­ mances O Estrangeiro (1942), A Peste (1947) varam muitos a identificá-lo como membro e A Queda ( 1956), e seus ensaios O Mito de do movimento existencialista, embora sua Sísifo (1942) c O Rebelde ( 1951). Em 1957, marca particular de humanismo o distinguisse Camus foi premiado com o prémio Nobel daquele movimento. Os personagens de suas de literatura. Morreu num acidente de auto­ peças e romances são obviamente apresentados móvel em 1960. Na época de sua morte, ele como reconhecedores do absurdo e da falta estava trabalhando num romance autobiográ­ de sentido da situação deles (um tema fico, postumamente publicado em 1995 sob existencialista proeminente); ao mesmo tem­ o título O Primeiro Homem.
  35. 35. 36 MICHAEL D. PALMER eles escolheram livremente. Eles ficam aquém do ideal, porque recusam a aceitar o fardo de sua própria liberdade e porque fa­ lham em assumir a plena responsabilidade pelo vasto alcance das escolhas implicadas por aquela liberdade. Na cosmovisão marxista, os seres humanos existem idealmente em harmonia (e não em competição) entre si, trabalham em tare­ fas que satisfazem (e não humilham) e desfrutam o fruto do seu trabalho (em vez de vê-lo tomado por outros e usado contra eles). O ideal foge ao entendimento deles, por causa de certos arranjos económicos capitalistas subjacentes, e por cau­ sa das estruturas sociais e políticas que refor­ Em geral, cada cosmovisão não çam a economia capitalista. Em geral, cada só enuncia certos ideais, mas cosmovisão não só enuncia certos ideais, mas também explica por que os seres humanos não também explica por que os seres os alcançam. humanos não os alcançam. Ordinariamente, quando uma cosmovisão enuncia um conjunto de ideais e então explica como os seres humanos e suas instituições so­ ciais ficam aquém dos ideais, também oferece alguma solução. Se os ideais (ou algo parecido com eles) outrora existiram , então a cosmovisão explicará como recuperar o que estava perdido. Por exemplo, o judaísmo identifica um tempo sob o governo dos reis D avi e Salomão quando Israel era uma nação unificada. Se esse tempo não era bastante ideal, com certeza representava um ponto político e social culm inante para os judeus. O ideal foi perdido quando os exércitos estrangeiros repetidamente invadi­ ram a pátria deles. O ideal só pode ser recuperado quando os ju ­ deus se preparam espiritualmente e Deus intervém na história para prover o M essias. Claro que para algumas cosmovisões, os principais ideais na verdade nunca existiram . Só existem no futuro, no horizonte do tempo. Neste caso, a cosmovisão explicará como alcançá-los. O marxismo é justamente tal cosmovisão. Os marxistas acreditam que nunca houve um tempo na história humana em que a maioria dos seres humanos de algum modo não sentiu falta de comunida­ de, não sofreu as indignidades do trabalho forçado, não perdeu o controle sobre suas ferramentas e os produtos do seu trabalho. Mas com o capitalismo desenfreado na plenitude da Revolução Industrial na Europa e nos Estados Unidos no século X IX , estas condições pioraram. As mulheres trabalhavam em miseráveis es­ tabelecimentos escravizantes e morriam prematuramente. Os ho­ mens competiam entre si por empregos de baixos salários. Mes­ mo as crianças trabalhavam horas dolorosamente longas em con­ dições imundas. Para M arx, a causa e a solução eram económicas. O capitalismo desenfreado, em vez dos arranjos sociais ou políti­ cos, era responsável pela prevalecente miséria e alienação. Uma vida melhor — na verdade, a vida ideal — só pode ser alcançada no futuro à medida que as condições económicas são mudadas.
  36. 36. PANORAMA DO PENSAMENTO CRISTÃO Resumo Nesta seção, discutimos o elemento ideológico de uma cosmo­visão. Prim eiro, citamos três funções gerais da ideologia: 1) trazerordem e consistência aos dados proporcionados pela experiência,2) fornecer base para avaliar os valores, os insights e as declara­ções de conhecimento dos outros e 3) definir a comunidade. Estasfunções da ideologia não pertencem a uma cosmovisão específi­ca. Antes, são funções comuns de qualquer cosmovisão. Emseguida, fornecemos um esboço do conteúdo ideológico geral deuma cosmovisão. Aqui comentamos mais uma vez que embora ascosmovisões possam ser diferentes em seu conteúdo específico,elas falam sobre tópicos semelhantes. Por exemplo, eles forne­cem uma teoria de fundo sobre o que existe. Três tópicos cen­trais da teoria de fundo são o cosmo, Deus e a história. A s cos­movisões também fornecem um relato geral da natureza huma­na. Este relato explicará se a vida humana tem ou não propósi­to, que ideais valem a pena alcançar, em que aspecto os sereshumanos ficam aquém dos ideais e como os ideais podem seralcançados. O conteúdo ideológico de uma cosmovisão é ordinariamenteexpresso em proposições filosóficas, declarações de credo, fór­mulas autorizadas ou doutrinas. Em geral também é expresso demodo sistemático, significando que algum esforço é feito paraassegurar que as declarações chaves sejam consistentes entre si. Anatureza preposicional formal da ideologia a distingue de outroelemento importante de uma cosm ovisão, a narrativa, quecomumente tem uma qualidade semelhante à história. O Elemento Narrativo Ressaltamos anteriormente que o elemento narrativo de umacosmovisão reconta certos eventos passados ou futuros, tendo aver com aqueles que mantém a cosmovisão. Porém, as narrativasda cosmovisão não são simples registros de acontecimentos coin­cidentes ou resumos de eventos interessantes, mas fortuitos. Sãohistórias que contam algo especial sobre a cosmovisão ou sobre aspessoas que a mantêm. Podem ser sobre uma pessoa famosa, afundação de um povo ou nação, o começo ou fim do mundo, ainteração de alguém com Deus ou deuses, ou algum outro eventointegralmente ligado à cosmovisão. As narrativas são uma característica bem reconhecida das cos­movisões religiosas. Todas as principais religiões do mundo estãorepletas delas. O elemento narrativo do cristianismo, por exem­plo, enfoca a criação do mundo; o primeiro homem e a primeiramulher afastando-se de Deus; os subsequentes concertos entre Deuse a humanidade; o nascimento, morte e ressurreição de Cristo; aformação da Igreja, e a promessa de que Cristo voltará à terra paraorquestrar os eventos finais da história. Mas as narrativas não são

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