Almanaque Chuva de Versos n. 382

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Almanaque com trovas, haicais, poesias, e outros gêneros.
Na seção nada de versos, folclore, artigos de literatura, estante de livros, etc.

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Almanaque Chuva de Versos n. 382

  1. 1. 2 Uma Trova de Ponta Grossa/PR Maria Helena Oliveira Costa Encanto?... Nenhum se iguala ao que Deus faz suceder, quando a semente se instala, dando vida a um novo ser! Uma Trova de Cruz Alta/RS Ivan Soares Schettert Todos os anjos que cantam da natureza, a beleza, são trovadores que plantam sementes de realeza! Um Soneto de São Simão/SP Thalma Tavares SONETO DA AMIZADE (Para Lisete, Delcy, Dorothy e Divenei} Esta vida me deu grandes riquezas!... Não me refiro à prata nem ao ouro, mas a amigos que tive nas tristezas, que são ainda o meu maior tesouro. São amigos no incerto e nas certezas, no efêmero e também no duradouro, que sabem perdoar minhas fraquezas, e rir, e ser, na dor, ancoradouro. Assim, quando eu partir para o outro lado, após pagar, talvez, algum pecado, recobrarei a paz na consciência... Mas lá, no Céu, serei quem nunca dorme, só por velar, numa saudade enorme, os amigos que fiz nesta existência. Uma Trova Humorística de Ibiporã/PR Maurício Fernandes Leonardo Passa creme na carcaça sempre que a erosão abunda, mas a ruga, por pirraça, cada vez fica mais funda! Uma Trova de Cruz Alta/RS José Westphalen Corrêa Desde o Amazonas ao Prata - num pensamento, a certeza:
  2. 2. 3 – Defender a nossa mata e salvar a natureza! Um Soneto de São Simão/SP Thalma Tavares MILAGRE Eu era um deserto cinzento, sem flores - um chão de tristeza em que não cresce a palma. Então ela vem e me fala de amores, e sobre o meu ermo a esperança se espalma. Cobrindo de estrelas o ocaso sem cores, trocando amarguras por noites de calma, com rimas e afagos calou minhas dores, e pôs em meu peito o candor de sua alma. O vulgo não sabe quem é a criatura que a mim favorece com tanta doçura, repondo em meu ser a perdida alegria. Os bardos já sabem do que estou falando, mas vou concluir feito um bardo, cantando, dizendo entre versos: - seu nome é Poesia! Uma Trova Hispânica do México Carlos Cortez Bustamante Con romance y alegría vibran tus notas, guitarra también cantan la agonía del amor que se desgarra. Um Sonetilho de São Simão/SP Thalma Tavares SONETILHO II (Da espera) Enquanto eu te esperava - e te esperei deveras - vi passar pelo céu todas as luas plenas, vi passar muito inverno e muitas primaveras. - "Um dia, eu voltarei!" Disseste. E eu pude apenas encher a solidão dessas longas esperas com poemas de amor, com mentiras amenas. Menti ao coração que ainda sonha contigo, que fínge ser feliz nessa espera sem fim, que é de tal forma teu, que não anda comigo, já não vive em meu peito e não bate por mim.
  3. 3. 4 Trovadores que deixaram Saudades Belmiro Braga Distrito de Vargem Grande (hoje Município com o seu nome)/MG (1872 – 1937) Juiz de Fora/MG A mãe que a um filho acalenta - tal o seu amor profundo - tem a impressão que sustenta em seus braços todo um mundo. Uma Trova de Cruz Alta/RS Olga Corssetti A tranquila natureza sussurrante nesta mata entrega toda a beleza para aquele que desmata. Um Sonetilho de São Simão/SP Thalma Tavares SONETILHO III (Das certezas) Conhecer-se a si mesmo e ter certeza de que Deus nos ampara com firmeza e nos conhece a todos sem enganos; saber que a morte não põe termo à vida, que é passagem apenas, concedida para nova existência noutros planos; amar a Deus mais que às coisas do mundo e ao próximo querer como a si mesmo, são sinais de entender quanto é profundo víver no mundo sem viver a esmo. Uma Trova de Cruz Alta/RS Nadir Crestani O mundo que tem pecado, está sentindo tristeza por tanto ter afetado a nossa mãe natureza. Uma Trova de Cruz Alta/RS Zuleika T. Ribeiro Edler Os netos são esperança são momentos de alegria lembrando sempre a criança que já fomos algum dia!
  4. 4. 5 Um Haicai de Maringá/PR Um Soneto de São Simão/SP Thalma Tavares O ANJO E O FAUNO Por que tenho de ser de dois extremos feito?... De um extremo, o melhor, vem a luz que me eleva. Mas se às vezes sou luz, outras vezes sou treva, que me impede enxergar o que é certo e direito. Do outro extremo, o pior, eu direi contrafeito que há um fauno viril que à luxúria me leva, contra o qual, com razão, a razão se subleva e me faz explodir a revolta no peito. Quantas vezes me ergui do meu lado mais nobre como quem, com a luz, de pureza se cobre e a seguir, sem razão, deixa tudo sombrio. Entre um anjo e um fauno eu passo a vida assim a suplicar aos céus que afugentem de mim o lascivo animal que anda sempre no cio. Uma Trova de Cruz Alta/RS Manuella Ajalla Paz Verdade da luz de Deus tão clara aí quanto aqui: – Quem busca o bem para os seus,
  5. 5. 6 encontra o bem para si! Uma Aldravia de Saitama/Japão Edweine Loureiro ao mundo azucrinas com essa buzina Um Sonetilho de São Simão/SP Thalma Tavares SONETILHO V (Da profissão de fé) Seja um grito de alerta, ou doce cantilena, hoje canto a canção que o coração me ordena - de protesto ou paixão, sem temor de censura. Como o Cristo eu também recebo Madalena, ungindo-a com a paz de uma oração serena, sem preconceitos vãos, sem perder a ternura. E empresto minha voz à dor dos excluídos, e somo ao seu clamor a minha dor também... Quem sabe eu possa ouvir meus anjos distraídos gritarem lá dos Céus um comovido amém! Uma Glosa de Natal/RN Fabiano Wanderley Carrego o carro da sorte, pelos caminhos da vida Por onde quer que eu aporte, não temo adversidades, pra evitar temeridades, carrego o carro da sorte. E por ser o meu suporte, meu destino consolida, me protege, dá guarida, me alerta, em todos momentos, pra que encontre os acalentos, pelos caminhos da vida. Um Soneto de São Simão/SP Thalma Tavares A UM JOVEM SUICIDA Pela porta entreaberta o velho pai assoma. Olha triste, em silêncio, a família e a casa, E em soluços explode a dor que ele não doma,
  6. 6. 7 o mal contido pranto, a lágrima que abrasa. A todos, de um só golpe, o sofrimento arrasa. Inconsolável mágoa a casa inteira toma. Parece que a tristeza, enfim, deitou sua asa sobre um lar onde a paz era único idioma. Tempos depois passou a dor e o desconforto. Mas do pai, que abraçou um dia o filho morto, como eterno castigo a dor não se apartou. Ficou-lhe na lembrança - e pela vida inteira - a débil voz do filho e a queixa derradeira: - Estou morrendo, pai!... A droga me matou! Um Haicai de Belém/PA Paulo Marcelo Braga HAICAI FAMOSO Tens a mesma famosa disposição de uma lesma. Uma Trova de Cruz Alta/RS Taciana Canales da Trindade Um sorriso de criança mostra um momento profundo, onde vigora a esperança de ressurgir novo mundo! Um Sonetilho de São Simão/SP Thalma Tavares SONETILHO XV (Da despedida) No aceno discreto e mudo que entre lágrimas fizeste, teus olhos disseram tudo do amor que nunca disseste... Por esse amor eu desnudo meu coração rude e agreste, que se transforma em veludo ante o teu olhar celeste. Mas assim que tu partiste a vida se fez mais triste e o mundo um tédio medonho. Sempre que lembro o teu pranto, minha alma se encolhe a um canto e chora a morte de um sonho.
  7. 7. 8 Recordando Velhas Canções Pra dizer adeus (canção, 1966) Edu Lobo e Torquato Neto Adeus Vou pra não voltar E onde quer que eu vá Sei que vou sozinho. Tão sozinho amor Nem é bom pensar Que eu não volto mais Desse meu caminho. Ah, pena eu não saber Como te contar Que o amor foi tanto E no entanto eu queria dizer Vem Eu só sei dizer Vem Nem que seja só Pra dizer adeus. Uma Trova de Cruz Alta/RS Dalvina Fagundes Ebling Eu saúdo a natureza, eu saúdo o novo dia. Nunca vi tanta beleza quando o dia principia! Um Soneto de São Simão/SP Thalma Tavares PECADOS Eu tenho pecados, e muitos, não nego. Só Deus é quem sabe das culpas que expio, dos erros, das faltas que eu triste carrego, que o sono me roubam, por noites a fio. Porque aos teus braços me atiro, me entrego, minha alma anda triste qual planta no estio. Mas Deus é culpado, se não me fez cego à rara beleza do teu corpo esguio. Não sei de pecados, mais doces, mais quentes que a luz de teus olhos, teus lábios ardentes, que enchem minha alma de sol e calor.
  8. 8. 9 Mas tenho certeza que os nossos pecados, por muitos que sejam, já estão perdoados, pois não é pecado pecar por amor. Um Haicai de Curitiba/PR José Marins sol de fevereiro o prateado da tilápia na ponta da linha Uma Trova de Cruz Alta/RS Carla Maria Canales André Dos momentos, o mais lindo – maravilhosa emoção - é ser mãe, sofrer sorrindo ter em festa o coração! Um Sonetilho de São Simão/SP Thalma Tavares SONETILHO XVII (Do dilema) Vivo um dilema terrível entre a virtude e o pecado. Quem dera fosse possível voltar inteiro ao passado. Assim meu pecado horrível seria, então, anulado e eu, num milagre incrível, voltaria imaculado. Então não mais pecaria. Sem transgressões não teria remorsos a me culpar.... Mas quando tu apareces, e me abraças e me aqueces, eu quero mesmo é pecar. Hinos de Cidades Brasileiras Santana do Seridó/RN Santana és orgulho do teu povo Teus campos e serras me fascinam Teu céu azul, salpicado de estrelas Em noites de verão, o luar te ilumina. Tuas ruas verdejadas de algarobas Acácias, pés de fícus, flamboyants A igreja guarda tuas tradições Que o tempo solidificou. Eu agradeço a Deus eternamente Por ter nascido em Santana do Seridó
  9. 9. 10 Pequena mas tão bela, Minha terra mãe gentil De um povo varonil. Do velho casarão sinto saudades Perfil de nossa colonização Do cruzeiro lá no pátio da capela E dos campos alvejados de algodão. A agricultura, a mineração e a pecuária Ajudaram a esculpir a tua história Desejamos de todo coração Que o teu futuro seja de vitórias. Santana do Seridó Teu pavilhão queremos reverenciar Teu povo com heroísmo e vigor Com muita luta o teu solo desbravou Vamos saudar, 9 de abril OH! Terra querida Iremos sempre te exaltar. Uma Trova de Cruz Alta/RS Maria Theresa S. Schettert Vi sorriso na vitória, vi nas lágrimas a dor, vi lembranças na memória e vi nos pais muito amor! Um Soneto de São Simão/SP Thalma Tavares AMOR EM DOIS TEMPOS Rompendo a neblina que embaça o passado, o sol em minha alma desperta a saudade e eu volto contente à feliz liberdade, ao álacre jogo do tempo encantado, do idílio inocente, do beijo apressado temendo os olhares do pai da beldade. Depois uma flor do gentil namorado no peito da amada era a felicidade!… Não sei em que ponto perdeu-se o lirismo do amor que os "ficantes", em seu modernismo, mataram o encanto e a pureza ideal. E enquanto eles "ficam", ao som da balada, o amor vai perdendo a feição encantada, mudando-se em coisa sem graça e banal. ____________________________
  10. 10. 11 Chuvisco Biográfico do Poeta Thalma Tavares (pseudônimo literário de Vicente Liles de Araújo Pereira), hoje residente em São Simão/SP, nasceu em Recife, a 12 de julho de 1934, onde fez o primário e o ginasial. Mudou-se em 1953 para São Paulo, onde concluiu os estudos. Estudou tecnologia, metalurgia, desenho técnico industrial, administração de materiais. Técnico em metalurgia na Multibrás, aposentou-se em 1985. Estudou Literatura Brasileira, Língua e Literatura Espanhola no IBRACE (Instituto Brasileiro de Cultura Espanhola) e na Escola Panamericana de Línguas. Em 1986 publicou “Fogo Sagrado” (poemas) na Associação Paraibana de Imprensa, em João Pessoa. Foi por oito anos presidente (municipal e estadual) da seção São Paulo, mudando-se em 1995 para São Simão. Até 1999 foi membro do conselho diretor do Rotary Club de São Simão e da Associação Beneficente de Ensino Profissionalizante “São Paulo e Minas”. Participa em São Simão de algumas ONGs. Participa de concursos de trovas, crônicas, contos e poesias obtendo dezenas de prêmios desde vencedor a menções especiais. Palestrou sobre as obras de Euclides da Cunha, Garcia Lorca, Luiz Otávio, a UBT e a Trova. Tem poesias e outros escritos publicados em antologias, jornais, revistas, alternativos no Brasil e Exterior. Membro de: Academia Pindamonhangabense de Letras; União Brasileira dos Trovadores; Centro de Estudos Euclides da Cunha (São Paulo); Academia Piracicabana de Letras; Casa do Poeta e Escritor de Ribeirão Preto; Casa do Poeta “Lampião de Gaz” (São Paulo) União Brasileira de Escritores; Academia de Trovas do Rio Grande do Norte.
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  12. 12. 13 A criança adormecida parece um lírio se abrindo. É o princípio de uma vida que o tempo vai esculpindo. É tão belo o amanhecer, quando o sol enfeita a aurora, que o luar ao perceber, fica triste e vai embora. Eu nunca fico às escuras nos caminhos que percorro, porque Deus, lá das alturas, sempre me envia socorro... Eu venho fazendo versos em fase de encantamento... Trago na mente Universos girando em meu pensamento. Há nos jardins uma flor que se chama Amor-perfeito. Eu também tenho um amor perfeito dentro do peito... Há sonhos em nossas vidas que duram um só momento. Parecem flechas perdidas nas asas do pensamento. Há tempos eu descobri mais uma forma de amor. É o beijo do colibri na corola de uma flor... Nosso amor é tão bonito, que já não tem dimensão, pois galgamos o infinito mesmo tendo os pés no chão. - Nuvem leve, tão discreta. Quem te fez tão leve assim?... Foi o sonho de um poeta, ou coisa de um querubim?... O canto do passarinho que fora liberto outrora, é só saudade do ninho, é a sua alma que chora...
  13. 13. 14 O tempo ficou parado naquele retrato antigo, que mesmo preso ao passado, conversa sempre comigo... O verso da trova é leve, e por ser leve é fluente, mas na hora que se escreve, é um pedacinho da gente... Para ser sempre lembrado com alegria e emoção, o nosso amor foi guardado no cofre do coração... Pouso os olhos nas estrelas sob um banho de luar. E assim, perdida por vê-las, nem sinto a noite passar. Quando o inverno terminar, abrirei minhas janelas... Quero ver em pleno mar, muitos barcos, muitas velas... Quando leus lábios se calam, eu consigo perceber o que teus olhos me falam e o coração quer dizer… Quem vive da nostalgia dos momentos do passado, não faz do seu dia-a-dia um presente a ser lembrado… Tão esplêndido luar desceu do céu sobre a terra, que eu cheguei a imaginar que havia prata na serra... Um sorriso de criança Sempre nos traz novo alento, como um fio de esperança num leve sopro do vento... Uma trova pequenina, quando sincera e sonora, a nossa mente ilumina como o esplendor de uma aurora...
  14. 14. 15 Uma verdade se encerra nesta minha afirmação: - A flor se eleva da terra e o verso do coração... Uma vida sem amor parece casa vazia, parece jardim sem flor ou canção sem poesia… ________ Julieta Wendhausen de Carvalho Gomes nasceu cm Curitiba/PR. Filha de Lúcio Dâmaso de Carvalho e Julieta Wendhausen de Carvalho. Ainda criança, foi para o Rio dc Janeiro, onde estudou formando-se professora pelo Instituto de Educação. Diplomou-se também pela Escola Nacional de Educação Física e pela Faculdade Nacional de Direito. Em 1948. casou-se com o hoje Desembargador Abeylard Pereira Gomes, do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Publicou os seguintes livros de poesia; "A Flor e o Verso", (1974); “De Sol a Sol", (1984); "Nas Asas do Pensamento", (1989); "Mensagem às Crianças do Mundo Inteiro", (1991); "Poesia e Eternidade", (1992). Em colaboração com a professora Zezinha Nunes, escreveu "Arte e Técnica de Decoração", editado em 1986. Membro efetivo da Academia Teresopolitana de Letras; Sócia honorária da Academia Brasileira de Trovas; A Câmara de Vereadores de Niterói concedeu-lhe, por unanimidade, a medalha José Cândido de Carvalho. Ministrou cursos de egiptologia em Teresópolis. –––––––––––––-
  15. 15. 16 Folclore Brasileiro O Lobisomem
  16. 16. 17 Leonardo Louredo O lobisomem Fera lobo, fera homem La vejo um lobisomem Metamorfoseado pela ferida que o consome Quando a lua Atrás dos montes Aparece ouvindo o nome Dos que uivam sem ter fome Há uma maldição quando o homem sai da toca E a lua o pega de surpresa A mesma prata que o consome o amaldiçoa de beleza De voltar a ser animal quando ainda percorria As florestas da incerteza Verde só para quem tem olhos qual coruja de Atenas Quando voa lá no alto vendo tudo que acena Bicho, Homem, Lobisomem e a Lua que a tenta Sob o sol que a ilumina Na penumbra da certeza Quando a noite é mais bonita E há dia que amanheça Enquanto lá atrás dos montes Há um lobo que a contempla Quando a lua o ilumina na certeza de que vinha Na clareira da floresta nascerá um novo dia ______________________ Antonio Cícero da Silva Encontro com lobisomem Dizem que lobisomem É meio bicho e meio homem Que nas noites de lua cheia A tudo que encontra consome. É folclore no Brasil Mas alguém fala existir É monstro feio cabeludo Ao falar dele todos param de rir. O lobisomem rasga os cachorros Por onde passa deixa o rastro É sanguinário é bestial Maltrata os animais no pasto. Encontrei com um lobisomem Quando ia namorar A noiva morava no sítio Nem gosto disso lembrar. Ele olhou para mim Com aqueles olhos terríveis Olhos grandes e rasgados Janelas pro invisível. Enfrentei o lobisomem Ora parecia bicho, ora parecia homem Com urros terríveis
  17. 17. 18 O medo quase me consome. Quase vim a desmaiar Quando veio me pegar Parecia do além Situação difícil para alguém. Criei força e coragem Ferveu nas veias o sangue nordestino Aquilo para mim era visagem Morrer ali seria meu destino? Nada disso, chamei por Deus e Jesus O bicho me perseguia Era violento e terrível à vista Momentos que para ninguém eu queria. O monstro quase me abraçou Abraço temível sem amor Minha blusa com as unhas tirou Quase minha pele devorou. Acertei-o com um murro Era duro como pedra Quase quebrei a mão Ao bater naquela fera. Ao procurar sacar a arma O bicho não me dava chance Pulava pra cima de mim Estava mais feio que antes. Consegui ferir o bicho Que soltou um alto grito Na mata ele entrou, não sei o que ele era E nunca mais voltou... ________________ Gilson Tadeu Galhardi O Lobisomem Caminha solitário Sobre a luz da lua Eterno fadário Pela noite nua Sobre quatro patas Esquecida alma humana Percorrendo as matas Uma vida profana Sente o cheiro doce De jovens inocentes Um prazer precoce Percorre seus dentes A razão perdida Na fome maldita Caçada homicida A vítima grita Um grito humano
  18. 18. 19 Que ressoa na alma Do ser profano Que come com calma Saciada a fome A fera volta a correr E quando a lua some Ela vai adormecer Outra vez homem ao amanhecer Um sofrimento agudo lhe vem Pois mesmo sem a fera conhecer Sabe que matara mais alguém A Lenda do Lobisomem A lenda do lobisomem tem, provavelmente, origem na Europa do século XVI, embora traços desta lenda apareçam em alguns mitos da Grécia Antiga. Do continente europeu, espalhou-se por várias regiões do mundo. Chegou ao Brasil através dos portugueses que colonizaram nosso país, a partir do século XVI. Este personagem possui um corpo misturando traços de ser humano e lobo. De acordo com a lenda, um homem foi mordido por um lobo em noite de lua cheia. A partir deste momento, passou a transforma-se em lobisomem em todas as noites em que a Lua apresenta-se nesta fase. Forte e peludo, vive assustando as pessoas nas ruas, colinas, encruzilhadas e cemitérios. Caso o lobisomem morda outra pessoa, a vítima passará pelo mesmo feitiço. Lobisomem ou licantropo (do grego λυκάνθρωπος: λύκος, lykos, "lobo" e άνθρωπος, anthrōpos, "homem"), é um ser lendário, com origem na mitologia grega, segundo as quais, um homem pode se transformar em lobo ou em algo semelhante a um lobo em noites de lua cheia, só voltando à forma humana ao amanhecer. Tais lendas são muito antigas e encontram a sua raiz na mitologia grega. Segundo As Metamorfoses de Ovídio, Licaão, o rei da Arcádia, serviu a carne de Árcade a Zeus e este, como castigo, transformou-o em lobo (Met. I. 237). Uma das personagens mais famosas foi o pugilista arcádio Damarco Parrásio, herói olímpico que assumiu a forma de lobo nove anos após um sacrifício a Zeus Liceu, lenda atestada pelo geógrafo Pausânias. A crença da metamorfose humana em Lobo, por um castigo divino, atravessou os séculos. Na Inglaterra, São Patrício transformou em Lobo o rei de Gales. Vereticus e São Natálio, na Irlanda, mandou que um homem ficasse lobo durante sete anos. Na Rússia a tradição era viva. A maioria dos lobos, cujas alcatéias famintas uivavam nas noites geladas de dezembro, eram pecadores amaldiçoados por crimes cometidos na terra. Estavam assim cumprindo penitência e um dia voltariam à comunhão de todos os fiéis. Segundo lendas mais modernas, para matar um lobisomem é preciso acertá-lo com artefatos feitos de prata.
  19. 19. 20 Variantes culturais O Licantropo dos gregos é o mesmo que o Versipélio dos romanos, o Volkodlák dos eslavos, o Werewolf ou Dracopyre dos saxões, o Werwolf dos alemães, o Óboroten dos russos, o Hamtammr dos nórdicos, o Loup-garou dos franceses, o arbac-apuhc da Península Ibérica, o Lobisomem dos brasileiros e da América Central e do Sul, com suas modificações fáceis de Lubiszon, Lobisomem, Lubishome; nas lendas destes povos, trata-se sempre da crença na metamorfose humana em lobo, por um castigo divino. Lenda brasileira Luison, o Lobisomem segundo a Mitologia guarani. No Brasil existem muitas versões dessa lenda, variando de acordo com a região. Uma versão diz que a sétima criança em uma sequência de filhos do mesmo sexo tornar-se-á um lobisomem. Outra versão diz o mesmo de um menino nascido após uma sucessão de sete mulheres. Outra, ainda, diz que o oitavo filho se tornará a fera. Outra já diz que é apos a morte de um familiar que possuía a aberração e passou de pai pra filho, avô pra neto e assim por diante. As pessoas conhecem o licantropo na forma humana através de comportamentos estranhos, como mudança de comportamento, misteriosa e quase sempre com olhos cansados(olheira), o licantropo na forma humana é uma pessoa muito atenta as outras, sempre desconfiando de tudo como por exemplo, tem muito medo de ser descoberta a humanidade que é uma aberração, porém é muito protetora em forma humana. Em algumas regiões, o Lobisomem se transforma à meia noite de sexta-feira, em uma encruzilhada. Como o nome diz, é metade lobo, metade homem. Depois de transformado, sai à noite procurando sangue, matando ferozmente tudo que se move. Antes do amanhecer, ele procura a mesma encruzilhada para voltar a ser homem. Em algumas localidades diz-se que eles têm preferência por bebês não batizados. O que faz com que as famílias batizem suas crianças o mais rápido possível. Já em outras diz-se que ele se transforma se espojando onde um jumento se espojou e dizendo algumas palavras do livro de São Cipriano e assim podendo sair transformado comendo porcarias até que quase se amanheça retornando ao local em que se transformou para voltar a ser homem novamente. No interior do estado de Rondônia, o lobisomem após se transformar, tem de atravessar correndo sete cemitérios até o amanhecer para voltar a ser humano. Caso contrário ficará em forma de besta até a morte. O escritor brasileiro João Simões Lopes Neto escreveu assim sobre o lobisomem: "Diziam que eram homens que havendo tido relações impuras com as suas comadres, emagreciam; todas as sextas-feiras, alta noite, saíam de suas casas transformados em cachorro ou em porco, e mordiam as pessoas que a tais desoras
  20. 20. 21 encontravam; estas, por sua vez, ficavam sujeitas a transformarem-se em Lobisomens…" Há também quem diga que um oitavo filho que tem sete irmãs mais velhas se torna lobisomem ao completar treze anos. Também dizem que o sétimo filho de um sétimo filho se tornará um lobisomem. A lenda do lobisomem é muito conhecida no folclore brasileiro, e assim como em todo o mundo, os lobisomens são temidos por quem acredita em sua lenda. Algumas pessoas dizem que além da prata o fogo também mata um lobisomem. Outras acreditam que eles se transformam totalmente em lobos e não metade lobo metade homem. Algumas lendas também dizem que se um ser humano for mordido por um lobisomem, e não o encontrar a cura até a 12ª badalada desse mesmo dia, ficará lobisomem para toda a eternidade. No Brasil (principalmente no sertão), a lenda ganhou várias versões. Em alguns locais dizem que o sétimo filho homem de uma sucessão de filhos do mesmo sexo, pode transforma-se em lobisomem. Em outras regiões dizem que se uma mãe tiver seis filhas mulheres e o sétimo for homem, este se transformará em lobisomem. Existem também versões que falam que, se um filho não for batizado poderá se transformar em lobisomem na fase adulta. Conta a lenda que a transformação ocorre em noite de Lua cheia em uma encruzilhada. O monstro passa a atacar animais e pessoas para se alimentar de sangue. Volta a forma humana somente com o raiar do Sol. No sul do Brasil, há a crença de que seja castigo por incesto. Diz assim a tradição: "Eram os homens que havendo tido relações incestuosas, emagreciam. E todas as sextas, altas horas da noite, saíam de casa transformados em cachorro ou porco e mordiam as pessoas. Quem fosse mordido ficava sujeito a mesma maldição". No norte, a maldição não tem razões morais. O Lobisomem é uma determinante do "amarelão" (ancilóstomo), ou paludismo. Todos os anêmicos são dados como candidatos à maldição. Transformados em lobos ou porcos, cães, ou animais misteriosos, correm dentro da noite atacando homens, mulheres, crianças e todos os animais recém-nascidos ou novos. Suga o sangue das vítimas para continuar vivo. No Brasil, não há mulher Lobisomem. O Lobisomem em sua aparência humana é fastidioso. Gosta de comida salgada, picante, e vive sempre com muita sede. Ele ainda anda devagar, bocejando, e é sempre pálido, muito pálido. Lenda portuguesa Há referências muito antigas ao lobisomem em Portugal. Aparece no Rifão de Álvaro de Brito (Cancioneiro Geral): Sois danado lobishomem, Primo d’Isac nafú; Sois por quem disse Jesus Preza-me ter feito homem.
  21. 21. 22 (Garcia de Resende, Excertos, por António Feliciano de Castilho, Livraria Garnier, Rio de Janeiro, 1865, p. 24). É também mencionado no Vocabulario Portuguez e Latino de Rafael Bluteau (tomo V, p. 195) e nos sonetos de Bocage: Profanador do Aónio santuário, Lobisomem do Pindo, orneia ou brama, Até findar no Inferno o teu fadário! (Bocage, Obras Escolhidas, primeiro volume, p.122). No século XIX, Alexandre Herculano escreveu assim sobre o lobisomem da região da Beira-Baixa: "Os lubis-homens são aqueles que têm o fado ou sina de se despirem de noite no meio de qualquer caminho, principalmente encruzilhada, darem cinco voltas, espojando-se no chão em lugar onde se espojasse algum animal, e em virtude disso transformarem-se na figura do animal pré-espojado. Esta pobre gente não faz mal a ninguém, e só anda cumprindo a sua sina, no que têm uma cenreira mui galante, porque não passam por caminho ou rua, onde haja luzes, senão dando grandes assopros e assobios para se lhas apaguem, de modo que seria a coisa mais fácil deste mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, acendendo luzes por todos os lados por onde ele pudesse sair do sítio em que fosse pressentido. É verdade que nenhum dos que contam semelhantes histórias fez a experiência". (A. Herculano, Opúsculos, Tomo IX, Bertrand, Lisboa, 1909, p. 176- 177). Nos seus estudos sobre mitologia popular, o escritor e etnógrafo português Alexandre Parafita reconhece que, embora a designação sugira tratar-se de um ser híbrido de homem e lobo, muitas das crenças sobre esta criatura identificam-na na figura tanto de lobo, como cavalo, burro ou bode, consistindo o seu fadário em ir despir-se à meia-noite numa encruzilhada, espojando-se no chão, onde um animal já antes fizera o mesmo, após o que se transforma nesse animal para ir “correr fado”. A representação na figura híbrida de homem e lobo não é alheia ao desassossego que este animal provoca, desde tempos imemoriais, no inconsciente coletivo. Escreve este autor: “As comunidades rurais transmontanas ainda hoje o encaram como um animal cruel, implacável com os seres mais indefesos, inimigo de pastores, dos caminhantes da noite e pesadelo permanente das crianças que habitam nas aldeias mais isoladas. Não se estranha, por isso, que no fabulário popular o lobo apareça como símbolo do mal e que o conceito de lobisomem, enquanto produto da fantasia popular, possa ser considerado como uma tentativa de apresentar uma criatura onde se conjuga a ferocidade maléfica do lobo com as emoções, ora angustiosas, ora igualmente maléficas, do homem”. Peeira Peeira ou fada dos lobos é o nome que se dá às jovens que se tornam nas guardadoras ou companheiras de lobos. Elas são a versão feminina do lobisomem e fazem parte das lendas de Portugal e da
  22. 22. 23 Galiza. A peeira tem o dom de comunicar e controlar alcateias de lobos. Um extenso relato sobre o lobisomem fêmea português encontra-se nas Travels in Portugal de John Latouche (London, [1875], p. 28-36). Camilo Castelo Branco escreveu nos Mistérios de Lisboa: "A porta em que bateu o padre Diniz comunicava para a sala em que estavam duas criadas da duquesa, cabeceando com sono, depois que se fartaram de anotar as excentricidades de sua ama, que, a acreditá-las, há cinco anos que cumpria fado, espécie de Loba-mulher, ou Lobis-homem fêmea, se os há, como nós sinceramente acreditamos." (Vol.I, Porto, 1864, p. 136). Marcos Miliano Araujo de Almeida Aparição do mito lobisomem nas lendas do Recife Os mitos e as lendas estão presentes no cotidiano das pessoas, principalmente na cultura popular nordestina. O Lobisomem, um mito universal, teve discussão na mídia nacional e local em outubro e novembro de 2008, embasada nas narrativas de populares sobre seu aparecimento nas noites pernambucanas. Detectamos o quão forte se manifesta ainda a crença no mito, mas que também sofre influência das manifestações midiáticas, como o cinema, e dos novos conceitos trazidos pelos desdobramentos da vida social na contemporaneidade. Sentimos a necessidade de enquadrar esses aspectos, identificando como ainda se manifesta essa crença no lobisomem e como se processam essas modificações. Propusemo-nos a realizar um trabalho de pesquisa entrevistando populares nas feiras livres — ágoras contemporâneas. Pudemos observar o mito em sua função socializadora e, de modo mais específico, como o mito do lobisomem se preserva no cotidiano dessas pessoas e como elas são influenciadas pela televisão, pelo cinema e pelo rádio. Os nossos estudos das narrativas sobre a aparição do lobisomem, que é tão antiga e recorrente, propõem a sua relevância ao confirmar o mito na sua função socializadora e se as intervenções da mídia alteram essa função, pois a importância de uma lenda ou um mito não está na sua veracidade, mas no poder de conduzir o homem; o imaginário como objeto de reflexão acadêmica é uma categoria polêmica de estudo, no entanto, configura-se como um caminho real numa pesquisa empírica, visando a ampliar o conhecimento de forma holística. Optamos pelos métodos qualitativo e quantitativo para obtenção de resultados. Antes da saída a campo, definimos o público-alvo das entrevistas e as regiões a pesquisar. Delineamos a pesquisa na busca de material bibliográfico, leituras, elaboração do questionário no qual identificaríamos o perfil socioeconômico, a rotina, os medos dos entrevistados e as histórias. Era essencial que as respostas fossem de cunho mais subjetivo. A pesquisa realizou-se em seis bairros: Casa Amarela, São José, Santo Amaro, Brasília Teimosa, Roda de Fogo e Cajueiro, por meio de sessenta questionários semiestruturados, divididos
  23. 23. 24 igualmente entre essas áreas. Escolhemos as feiras livres ou mercados tradicionais desses locais para realizar as entrevistas, por enxergar esses espaços como o lugar onde o discurso democrático realiza-se com maior liberdade. Foram aplicados os questionários durante os meses de dezembro/2009 e janeiro/2010 entre homens e mulheres, em sua maioria, trabalhadores daquele espaço. Demos preferência às pessoas de mais idade, por ser mais fácil encontrar nessas pessoas os "causos" da tradição popular pretérita, mas constam também jovens em nosso universo amostral. Iniciamos a aquisição dos dados com o objetivo de representar a expressão dessas pessoas, observando também que o conhecimento sobre o grupo não se dá apenas pela comunicação de fala, mas por sinais corporais que podem denunciar desconforto, incerteza, imprecisão, conveniência, etc. Constatamos, mesmo antes de concluir as entrevistas, uma tendência na confirmação dos resultados, muitas semelhanças entre as respostas e uma influência marcante dos programas de rádio no dia a dia das pessoas que trabalhavam nos mercados e feiras livres. Na análise das entrevistas, ficou evidente a influência da agitação de um grande centro e das violências características das cidades como Recife; a maioria dos entrevistados relatou ter medo da violência urbana ou de sua personificação nos "bandidos", quando perguntamos sobre os seus medos. A realidade vivenciada pelas pessoas, a nosso ver, as coloca avessas às "não realidades" como histórias de fantasmas ou aparições sobrenaturais. As representações simbólicas, enquanto processo que determina uma sociedade, possuem relação direta com as práticas materiais também determinantes da produção de sentidos. É da cultura: criar, representar, reproduzir e transformar as novas relações. De acordo com a pesquisa, o mito do lobisomem ainda está presente no imaginário popular, no qual suas descrições se assemelham a um ser animalesco com pelagem negra, características caninas, bem identificadas com as descrições contidas nos contos populares tradicionais. Durante nossa análise, entendemos que, ao longo do tempo, surgem, entre as pessoas, articulações comunicativas sobre os símbolos e mitos, fazendo emergir várias conexões e mediações. Isso significa que a cultura popular não é estática e imutável. Ainda que alguns elementos da cultura sejam semelhantes àqueles de épocas passadas, as transformações ocorrem pelo fato de a cultura popular estar presente no cotidiano imaginário e "não imaginário" das pessoas, o que significa que as relações socioeconômicas contribuem para essas transformações. O filme e a novela, enquanto produtos a serem consumidos, seguem uma linha de atendimento aos desejos de seus consumidores, têm a intenção de prender a atenção e permanecer em suas mentes como "bom filme” ou "novela boa”, estimulando a audiência para o consumo pelo boca a boca. Isso se constata nas referências constantes aos filmes nas respostas dos entrevistados. Nos vídeos comerciais, quando se
  24. 24. 25 adaptam personagens que não foram criados para a trama, mas emprestados de uma história tradicional da cultura popular, tornando-os alegoricamente mais interessantes sob o ponto de vista do mercado, modificam todo o contexto do próprio personagem em sua composição no imaginário — o extraordinário e o miraculoso são narrados com a maior exatidão. A partir da ponderação das entrevistas, entendemos que as raízes sociológicas do mito, os filmes e a tradição oral através de "causos" permitem uma conectividade entre imaginação e fatos sociais. Dentre as respostas de destaque, encontramos que a maioria “não conhece histórias estranhas” e entende que o “mito é uma mentira”. Entretanto, e apesar de negarem conhecer algum mito, todos os entrevistados descreveram com detalhes como seria um lobisomem. Muitas vezes o mito é tomado como verdadeiro porque se refere "às realidades". No mundo contemporâneo, existe uma necessidade de explicar acontecimentos de forma racional, cartesiana até, deste modo, o sagrado que há num mito é desvirtualizado, destituído de importância, influindo assim na importância deste mito e no desempenho de sua função socializadora. A contemporaneidade que introduz uma interpretação mais "humanizada" do mundo traz consigo a secularização para a cultura; as histórias tradicionais, o mito, as lendas estão se tornando, cada vez mais, matérias-primas do cinema, que as corrompem com a presença de novos elementos na modificação de sua alegoria tradicional. Os traços que compõem as figuras são convertidos em prol de uma produção direcionada ao mercado. O dia a dia de correria, violência e realidade crua se afirma mais; o processo de desmistificação dos mitos também se pronuncia nos lugares mais recônditos. Os medos socializadores, implantados pelas histórias míticas, dão lugar ao medo da violência urbana e do bandido. A mídia e os fatores socioeconômicos, incluindo ainda nesse processo a imitação cultural, substituem as figuras tradicionais. Esses desdobramentos que sofrem os mitos aparecem mais intensamente em algumas áreas que em outras e, em qualquer estágio, o que vem a ser determinante são as diferenças do estilo de vida em uma ou em outra. Certamente, algum modo de vida mais moderno conduzirá a novas formas de narrativas, podendo causar o desaparecimento dessas manifestações tradicionais, das heranças ibéricas, africanas e indígenas. O contador de história, um dos responsáveis pela manutenção das lendas e mitos, que passa adiante ainda mais que o conteúdo dessas histórias, passa o todo da cultura que dá base às experiências de uma comunidade. Fontes: Revista Coletiva n. 14, mai-ago, 2014; http://pt.wikipedia.org
  25. 25. 26 Cora Coralina Poemas dos becos de Goiás e estórias mais A imagem de Cora Coralina, como escritora, está associada, sobretudo, aos seus livros de poesia, notadamente a Poemas dos Becos de Goiás e Estórias mais, primeiro livro da autora, publicado em 1965, quando Cora tinha 76 anos. Nesses poemas, a autora quebra a fusão lírica entre o eu e o mundo para contar estórias que viveu, observou, aprendeu de ouvido, estórias que ela comunica não com a impessoalidade do gênero narrativo, mas impregnadas com a sua substância mais íntima, vez que as faz antes "transitar pelo coração vidente". No livro Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, tempo, geografia e memória compõem o tecido textual, numa delicada, amorosa e singela entrega poética. O eu-poético funde-se à sua terra, alimentando-se de suas raízes e das suas histórias. Os versos, marcados pelo cotidiano, permitem que as emoções aflorem a partir de objetos e de cenas familiares. Os muros da cidade são prisões nas quais mal se contém um eu-lírico angustiado por libertar-se. Ache os cursos e faculdades ideais para você ! Existe na obra a presença de confessionalismo e memorialismo; há o recurso anafórico e uma relação estreita entre prosa e poesia. Nota-se também uma insistência em descrever a ação do tempo sobre os rios, sobrados e pessoas. A estreita relação entre a prosa e a poesia, a própria autora nos diz: Versos... não poesia... Um modo diferente de contar velhas histórias. Calmamente, gestos e coisas simples vão sendo transformados em poesia. Na primeira página do livro, a poeta revela as motivações da sua escrita “ao leitor”: AO LEITOR Alguém deve rever, escrever e assinar os autos do Passado antes que o Tempo passe tudo a raso. É o que procuro fazer, para a geração nova, sempre
  26. 26. 27 atenta e enlevada nas estórias, lendas, tradições, sociologia e folclore de nossa terra. Para a gente moça, pois, escrevi este livro de estórias. Sei que serei lida e entendida. Na página seguinte, faz uma "ressalva": RESSALVA Este livro foi escrito por uma mulher que no tarde da Vida recria e poetiza sua própria Vida. Este livro foi escrito por uma mulher que fez a escalada da Montanha da Vida removendo pedras e plantando flores. Este livro: Versos… Não Poesia… Não um modo diferente de contar velhas estórias. A memória é o fio que Cora Coralina utiliza para esboçar o plano do livro: a poeta acredita na memória capaz de recuperar o passado coletivo, mas reconhece que essa tarefa é desempenhada a partir de uma perspectiva particular: a memória da mulher, da mulher velha, da mulher que escreve para "recriar e poetizar sua própria vida". "Presidiários", também de veio rememorativo, de feição doméstica, é a primeira parte de Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Já a segunda parte é dedicada ao aspecto social que ela observava e desejava retratar, através de poemas para lavadeiras, lavradores, mulheres da vida, crianças abandonadas e presidiários, a quem deseja levar palavras de amor e compreensão. Cora Coralina canta a beleza das lavadeiras e trabalhadoras comuns, como em "Estas mãos", poema a seguir, em que a poeta procede à estetização das mãos de modo que essas, profundamente identificadas com a matéria do trabalho, vão assumindo os atributos do ofício: Olha para estas mãos de mulher roceira, esforçadas mãos cavouqueiras. Pesadas, de falanges curtas, sem trato e sem carinho. Ossudas e grosseiras. Mãos que jamais calçaram luvas. Nunca para elas o brilho dos anéis. Minha pequenina aliança. Um dia o chamado heróico emocionante: – Dei Ouro para o Bem de São Paulo.
  27. 27. 28 Mãos que varreram e cozinharam. Lavaram e estenderam roupas nos varais. Pouparam e remendaram. Mãos domésticas e remendonas. Íntimas da economia, do arroz e do feijão da sua casa. Do tacho de cobre. Da panela de barro. Da acha de lenha. Da cinza da fornalha. Que encestavam o velho barreleiro e faziam sabão. Minhas mãos doceiras... Jamais ociosas. Fecundas, imensas e ocupadas. Mãos laboriosas. Abertas sempre para dar, ajudar, unir e abençoar. Mãos de semeador afeitas à sementeira do trabalho. Minhas mãos raízes procurando a terra. Semeando sempre. Jamais para elas os júbilos da colheita. Mãos tenazes e obtusas, feridas na remoção de pedras e tropeços, quebrando as arestas da vida. Mãos alavancas na escava de construções inconclusas. Mãos pequenas e curtas de mulher que nunca encontrou nada na vida. Caminheira de uma longa estrada. Sempre a caminhar. Sozinha a procurar, o ângulo perdido, a pedra rejeitada. ESTÓRIAS DO APARELHO AZUL Minha bisavó - que Deus a tenha em bom lugar inspirada no passado sempre tinha o que contar. Velhas tradições. Casos de assombração. Costumes antigos. Usanças de outros tempos Cenas da escravidão. Cronologia superada onde havia banguês. Mucamas e cadeirinhas. Rodas e teares. Ouro em profusão, posto a secar em couro de boi.
  28. 28. 29 Crioulinho vigiando de vara na mão pra galinha não ciscar. Romanceiro. Estórias avoengas... Por sinal que uma delas embalou minha infância. Era a estória de um aparelho de jantar? Fonte: http://www.passeiweb.com/estudos/livros/poemas_dos_becos_de_goia s_e_estorias_mais Concurso de Trovas com Inscrições Abertas XIV Concurso de Trovas do CTS/UBT CAICÓ-RN 2015 Prazo para recebimento: 30.06.2015 Tema Estadual (apenas residentes no Rio Grande do Norte): SOMBRA Enviar para: Wellington Freitas Rua: Renato Dantas, 33 - Caicó-RN CEP: 59300-000 Tema Nacional e Internacional para Língua Portuguesa: SEIVA Enviar para: Djalma Alves da Mota Rua: José Eustáquio, 1330 - Bairro Paraíba- Caicó-RN CEP: 59300-000 Tema para Língua Española: MAR (virtual) Coordenadoras: Gislaine Canales e Cristina Oliveira Chaves. Prazo para recebimento: 30.06.2015. UMA TROVA por autor em ambos os níveis
  29. 29. 30 Nota sobre o Almanaque Este Almanaque é de tiragem diária. Distribuído por e-mail e colocado nos blogs http://www.singrandohorizontes.blogspot.com.br e http://universosdeversos.blogspot.com.br Os textos foram obtidos na internet, em jornais, revistas e livros, ou mesmo colaboração do poeta. As imagens são montagens, cujas imagens principais foram obtidas na internet e geralmente sem autoria, caso contrário, constará no pé da figura o autor. Este Almanaque tem a intencionalidade de divulgar os valores literários de ontem e de hoje, sejam de renome ou não, respeitando os direitos autorais. Seus textos por normas não são preconceituosos, racistas, que ataquem diretamente os meios religiosos, nações ou mesmo pessoas ou órgãos específicos. Este almanaque não pode ser comercializado em hipótese alguma, sem a autorização de todos os seus autores.

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