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Índice
Mensagem na Garrafa
Eliana Ruiz Jimenez
Tração Humana.......................................................... 3...
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Eliana Ruiz
Jimenez
Tração Humana
Sábado, 8h de uma manhã de inverno. Dirigia
devagar sem familiaridade com as ruas daqu...
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A indiferença precisa ser combatida. Olhar o outro
como o próximo, espalhar atitudes fraternas, atenuar
fronteiras, não ...
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Uma Trova de Maringá/PR
Dari Pereira
Mesmo tachado de antigo,
ainda espalho esperança
ao mundo sincero e amigo
do coraçã...
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e os cabelos soltos como nuvens.
Trágica como princesa de elegia,
meu estandarte é o desespero,
minha bandeira, indecisã...
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Um Poema de Belém/PA
Olga Savary
UMA CENA
Vês acordada como em sonho
o sonho mau tal fosse belo
— o belo horror do real
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que minh'alma não suporta,
a tristeza me acompanha
mas a oração me conforta.
Uma Aldravia de Juiz de Fora/MG
Cecy Barbos...
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Um Poema de Belém/PA
Olga Savary
MÃOS ESTENDIDAS
Nessa direção
da janela aberta
vem o Murundu,
o bicho-papão
metendo med...
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Um Poema de Belém/PA
Olga Savary
ÁGUA ÁGUA
Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?
Tendo ...
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Quando o seu barco partia,
sonhava estar ao seu lado.
Um Poema de Belém/PA
Olga Savary
PÁSSARO
A noite não é tua
mas no...
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Era o sangue do imigrante,
Que chegava, de longe, aqui,
Chorando a saudade do Reno,
Nos remansos do Rio Ijui,
Chorando ...
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Participou do filme de 1968, 'Edu, Coração de Ouro. Correspondente de diversos periódicos no Brasil e no exterior, orga...
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Alvas nuvens enrolando
o Poente, em seu mantol,
- são os anjos enxugando
a face exausta do Sol.
Certas noites surpreend...
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Nenhuma angústia suplanta
aquela que silencia,
sufocando na garganta
o pranto de cada dia!...
Perguntas de que maneira
...
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Jesy de Oliveira Barbosa nasceu em Campos/RJ em 15 de novembro de 1902. Filha de um jornalista e mãe musicista,
tocava ...
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E a leve bafagem.
Que enruga das águas a linha tranqüila
Te averga a folhagem.
Mas minha cimeira tufões assoberba.
Com ...
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As fábulas continham histórias de animais, magistralmente contadas, contendo um fundo moral. Escritas em linguagem simp...
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E foi exatamente o que aconteceu: Monan mandou
um dilúvio à Terra para apagar o fogo (aqui o dilúvio é
reparador) e a t...
21
Depois que o mundo se recompôs de mais um
cataclismo, o tempo passou e vieram à Terra dois
descendentes de Maire-monan:...
22
Laé de Souza
Esmeraldo, o Garçom
Esmeraldo servia um bife acebolado, enquanto
outro cliente fazia insistentes sinais ch...
23
cozinheiro é muito folgado e anda fazendo as coisas de
qualquer jeito. É a segunda reclamação injusta que
recebo hoje. ...
24
Antonio Brás Constante
Zero à Esquerda ou Fora de Série?
“Ninguém cometeu maior erro, do que aquele
que errou ao fazer ...
25
semestre passa a ser um relatório contábil repleto de
números e indicações positivas ou negativas, traçando
geralmente ...
26
INFANCIA E PRIMEIROS LIVROS
• Conte um pouco de sua trajetória de vida,
onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.
Paraf...
27
escritor profissional, porque acho que isso acarreta
uma responsabilidade muito grande, e não gosto de
sentir este tipo...
28
• Qual a sua opinião a respeito da Internet? A
seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu
trabalho?
Posso dizer...
29
utilizando o Google. Considero a pesquisa essencial
para dar profundidade ao texto e para não escrever
minhas “pérolas ...
30
sobre a cegueira” do Saramago. Por enquanto, estou
apenas na companhia das revistas e suas reportagens
criativas.
• Voc...
31
SEGUNDO Pediria a ele que largasse este bico de
gênio realizador de desejos e voltasse a trabalhar em
prol do mundo, já...
32
abertura da porta misteriosa da caverna onde eram
guardados os tesouros. Aqui está presente também a
etimologia para ex...
33
esta frase perde-se nas brumas do tempo, mas um de
seus primeiros registros literário foi feito pelo escritor
latino Ov...
34
territorial, pois com ele o povo alemão conquistou sua
autonomia. Para tanto, Bismarck enfrentou sérias
dificuldades e ...
35
caráter do grande general romano Pompeu (106-48
a.C.) que abandonou suas virtudes guerreiras ao
tornar-se paisano, aind...
36
Evangelho de Lucas 2, 28, constituindo-se na
saudação com que o anjo Gabriel anunciou à Virgem
Maria que ela estava grá...
37
nas eleições presidenciais de 1989 por larga margem.
Curiosamente, não previu seu afastamento. Teria
faltado a vox Dei?...
38
tramas simbólicas revelam ações ocultas do espírito
angustiado.
Uma razão para essa exploração ficcional dos
recôncavos...
39
branca, Moby Dick, leva o barco e seus homens à
destruição. Essa obra, romance de aventura
aparentemente realista, cont...
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de águas na história dos EUA. Antes da guerra, os
idealistas defendiam os direitos humanos,
especialmente a abolição da...
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pomposos — em parte porque ainda tentavam provar
que poderiam escrever de forma tão elegante quanto os
ingleses. O esti...
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Newman, industrial milionário que venceu por seu
próprio esforço, ingênuo, mas inteligente e idealista,
vai para a Euro...
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em 1920. Falavam o que pensavam com ousadia e
ocupavam funções públicas na sociedade.
Apesar dessa prosperidade, os jov...
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Como um paciente anestesiado sobre a mesa…
(Tradução de Ivan Junqueira)
Imagens semelhantes permeiam “A Terra Desolada”...
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mentalmente instável e precisou ser internada;
Fitzgerald virou alcoólatra e morreu jovem como
roteirista de cinema.
Fi...
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William Faulkner (1897-1962)
Nascido em uma antiga família sulista, William
Harrison Faulkner foi criado em Oxford, no ...
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Alba Krishna Topan Feldman
A Identidade da Mulher Indígena na Escrita de
Zitkala-Ša e Eliane Potiguara
RESUMO:
O estudo...
Almanaque Chuva de Versos n. 398
Almanaque Chuva de Versos n. 398
Almanaque Chuva de Versos n. 398
Almanaque Chuva de Versos n. 398
Almanaque Chuva de Versos n. 398
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Na seção nada de versos, folclore, artigos de literatura, estante de livros, etc.

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Almanaque Chuva de Versos n. 398

  1. 1. 2 Índice Mensagem na Garrafa Eliana Ruiz Jimenez Tração Humana.......................................................... 3 Chuvisco Biográfico................................................... 4 Chuva de Versos ................................................................ 5 Poeta Homenageada: Olga Savary............................................................... 5-12 Chuvisco Biográfico....................................................... 12 Trovadora Homenageada: Jesy Barbosa............................................................... 14 Chuvisco Biográfico....................................................... 17 Jean de La Fontaine O Carvalho e o Caniço.................................................. 17 Chuvisco Biográfico....................................................... 18 Folclore Indígena Brasileiro Maire-Monan e os Três Dilúvios.................................... 19 Laé de Souza Esmeraldo, o Garçom.................................................... 22 Chuvisco Biográfico....................................................... 23 Antonio Brás Constante Zero à Esquerda ou Fora de Série? .............................. 24 Um Dedão de Prosa com o Escritor Antonio Brás Constante............................................................... 25 Deonísio da Silva Expressões e suas Origens - Parte IV ......................................................................... 31 Chuvisco Biográfico....................................................... 37 Kathryn VanSpanckeren Panorama da Literatura dos Estados Unidos Parte II........................................................................... 37 Alba Krishna Topan Feldman A Identidade da Mulher Indígena na Escrita de Zitkala-Ša e Eliane Potiguara ....................................... 47 Chuvisco Biográfico....................................................... 56 Estante de Livros José Saramago Memorial do Convento.............................................. 56 Chuvisco Biográfico.................................................. 64 Errata do número anterior ............................................... 64
  2. 2. 3 Eliana Ruiz Jimenez Tração Humana Sábado, 8h de uma manhã de inverno. Dirigia devagar sem familiaridade com as ruas daquele bairro distante. Numa colina logo à frente reduzi a velocidade ao ver uma carroça de duas rodas amontoada com toda sorte de materiais recicláveis, reaproveitáveis ou nem tanto. Pilhas de papelão, teclados de computador, monitores antigos, embalagens plásticas, vidros e até uma cadeira de três pés. A carroça vencia a subida metro a metro penosamente e não havia espaço para ultrapassagem. Atrás de mim o motorista de um carro de luxo começou a buzinar incessantemente. Pelo retrovisor observei que fazia gestos obscenos e depois começou a bater ensandecido com as duas mãos no volante num acesso de fúria. Tentou por duas vezes me ultrapassar de maneira perigosa, mas acabou demovido do intento pelo fluxo de carros em sentido contrário. Sem pressa e somente quando tive segurança, ultrapassei a carroça. Observei o homem que a arrastava: idoso, com longa barba branca, vestindo uma roupa surrada e descalço. Confesso que se tal carga fosse conduzida por um cavalo, já me traria comoção pelos maus-tratos ao animal, mas era muito pior. Uma carroça de despojos de toda sorte conduzida por tração humana, na verdade tração desumana. Assim que terminei a ultrapassagem, o carro de luxo já passou por mim e mais uma vez acionou a buzina registrando o seu protesto por ter sido retido em seu trajeto. Trocamos olhares durante os segundos em que nossos carros ficaram emparelhados. Tinha o semblante enfurecido e balbuciou um xingamento na minha direção, daqueles fáceis de entender por leitura labial. Seguiu o homem do carro de luxo cantando pneus, indiferente ao padecimento alheio. Observei mais uma vez o carroceiro. Um pobre coitado que carregava o peso do descaso de uma sociedade desigual. Um homem sem chances, sem dignidade, em estado de miséria, cuja visibilidade passa a existir somente no momento em que atrapalha o fluxo de trânsito. Acabei por me sentir mal em também passar por aquele homem sem dar-lhe nenhum conforto além de uma solidariedade em pensamento, que de nada lhe adiantaria. As pessoas estão preocupadas apenas com a própria vida, no máximo com a própria genética, cuidando dos seus familiares sem se imaginarem como componentes de uma família única e universal de seres humanos com as mesmas necessidades e os mesmos anseios.
  3. 3. 4 A indiferença precisa ser combatida. Olhar o outro como o próximo, espalhar atitudes fraternas, atenuar fronteiras, não separar as pessoas por crenças, opções ou religiões é o caminho que leva ao bem comum. No meu trajeto naquela manhã fria, sonhei com um mundo de mãos justapostas, iguais e diferentes, calejadas, bem tratadas, coloridas, antigas, recém- nascidas, mas que fossem mãos enlaçadas, engajadas na busca de um novo tempo de trabalhos dignos, pés calçados e sofrimentos apaziguados. Crônica selecionada para antologia no Prêmio SESC de Literatura: Crônicas Rubem Braga –Brasília/DF – 2013. Eliana Ruiz Jimenez, nasceu em São Paulo, Capital, e reside em Balneário Camboriú desde 2001. Tem formação em Letras e em Direito. Ligada a entidades de proteção ao meio ambiente. Presidente da Comissão de Meio Ambiente e Urbanismo da OAB e secretária do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Balneário Camboriú/SC. Escritora de crônicas, contos, poemas livres, trovas, haicais e literatura infantojuvenil. Membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú e União Brasileira dos Trovadores.
  4. 4. 5 Uma Trova de Maringá/PR Dari Pereira Mesmo tachado de antigo, ainda espalho esperança ao mundo sincero e amigo do coração da criança. Uma Trova de Juiz de Fora/MG Arlindo Tadeu Hagen Eu quase posso notar, nos momentos de descanso, a saudade cochilar na cadeira de balanço!… Um Poema de Belém/PA Olga Savary PELE Um favo de mel na boca, um torrão de sal na anca roubam para a pele o calor de animais simples e vorazes, soltos como numa catedral, pele de asno, pele de mel, pele de água. Uma Trova Humorística de Curitiba/PR Vanda Fagundes Queiroz Menina linda “essa fada” – diz o moço… e vejam só – surpresa ela diz, zangada: – Mais safada é a sua vó! Uma Trova de Mogi-Guaçu/SP Olivaldo Júnior Vou andando e, sem barulho, vem à tona um triste fato: a saudade é um pedregulho que não sai do meu sapato! Um Poema de Belém/PA Olga Savary MAPA DE ESPERANÇA Vinha pisando sobre toda a praia, o sangue quieto — ou quase quieto —, os pensamentos leves como espumas
  5. 5. 6 e os cabelos soltos como nuvens. Trágica como princesa de elegia, meu estandarte é o desespero, minha bandeira, indecisão. Ainda assim, alegria, te festejo. Uma Quadra Popular Autor Anônimo Sete cravos, sete rosas na ponta de um alfinete. Meu benzinho está no meio servindo de ramalhete. Uma Trova Hispânica da Argentina Margarita Dimartino de Paoli ¡No hay mejor CAMBIO en la vida que el que vos quieras sentir...! ¡Cuando la paz sola anida en tu alma... podrás existir...! Um Poema de Belém/PA Olga Savary LIMITE Ausente e lassa, queria estar pisando a areia fina de Arraial do Cabo, a areia grossa de Amaralina, em Goiás Velho urdir a tarde com Bernardo Elis e Cora Coralina, farejar cheiro de candeia por toda Ouro Preto... mas estou presa à molduras de todos os meus retratos. Trovadores que deixaram Saudades Carlos da Silva Guimarães Júnior Rio de Janeiro/RJ (1915 – 1997) Na carta, ao dizer-te quanto a saudade me consome, as reticências do pranto quase apagaram meu nome. Uma Trova de São Paulo/SP Selma Patti Spinelli Com a bagunça rolando, sem ter mais o que falar, chilique, de vez em quando, bota tudo no lugar!
  6. 6. 7 Um Poema de Belém/PA Olga Savary UMA CENA Vês acordada como em sonho o sonho mau tal fosse belo — o belo horror do real que nem consciência nítida ou lúcida, clara, exata, não como é visto sol a pino ou através da água, como quem vê dentro do mar ou através de um vidro fosco, mais, no fundo de um espelho, não o que mostra a imagem mas aquele que a deforma inteiro fora de foco. Uma Trova de São Paulo/SP Héron Patrício A alvorada, em grande gala, tece a rica fantasia que faz do Sol, mestre-sala na passarela do dia. Um Haicai de Belém/PA Olga Savary PAZ Assim tão exata sem se assemelhar a nada sendo vária e vaga. Um Poema de Belém/PA Olga Savary OUTRA CENA Sentada estavas quando ele entrou seguido de uma princesa ou uma serpente. Só sabes que teu rosto não mudou mas em turvo mudou-se o transparente riso de antes, pesados os gestos. Viraste uma mulher que acordada e de frente vê um sonho mau se sonho e distante já nem sente e que já não amando é como se amasse e, perdido o amor, é como se o tecesse. Uma Trova de Fortaleza/CE Nazareth Serra Quando a saudade é tamanha
  7. 7. 8 que minh'alma não suporta, a tristeza me acompanha mas a oração me conforta. Uma Aldravia de Juiz de Fora/MG Cecy Barbosa Campos Luar indiscreto banhando meu corpo despido Um Poema de Belém/PA Olga Savary NOME Tu, em tudo presença, vibrar de asa, eu, que nem nome tenho, jamais nua de água, tu, felicidade do corpo embasado em brasa, eu, sequer lembrança, mero eco na sala, tu, veneno curare — e eu é que me chamo naja? Uma Trova de São Paulo/SP Darly O. Barros Nem o remorso amorteço, a dor, em dor se desdobra, teu adeus é o sobrepreço do preço que um erro cobra... Uma Setilha de Caicó/RN Prof. Garcia Quando a tarde se despede, diz adeus e vai embora, um poeta canta um hino, que de saudade o devora; tristonho, finge um sorriso, canta um verso de improviso, depois de saudade chora! 1º lugar no II Concurso da AEPP, Associação Estadual de Poetas Populares-RN em 2010 com o Tema: IMPROVISO:
  8. 8. 9 Um Poema de Belém/PA Olga Savary MÃOS ESTENDIDAS Nessa direção da janela aberta vem o Murundu, o bicho-papão metendo medo em quem anda acordado inda a essas horas. Em outro lugar cisma outra criança. Triste é não poder ter um outro voo que não o poético da imaginação para a consolar. E assim ficamos entre o querer estendendo as mãos e deixando-as cair. ___________ O título “Retrato em Branco e Preto” surgiu com a letra dramática de Chico Buarque, que trata de um amor desesperado. Mais uma vez, Tom Jobim oferece uma lição de economia e inteligência. Os três primeiros compassos, criados sobre uma melodia de quatro notas vizinhas ré, dó sustenido, mi e dó natural — são idênticos, mas, com harmonizações diferentes. O intervalo inicial da canção, uma segunda menor, vai sendo ampliado e explorado de várias maneiras à medida que a melodia avança, aumentando a tensão, a dramaticidade, o que é muito bem aproveitado no poema do Chico. Ritmicamente dos dezesseis compassos de “Retrato em Branco e Preto”, treze são absolutamente iguais, formados por oito colcheias. Tais observações podem à primeira vista, levar à conclusão de que a canção é repetitiva e até pobre quando na realidade é exatamente o oposto, um tratado sobre o que é possível fazer com um intervalo de duas notas. Tom Jobim sabia como ninguém partir de uma célula simples e enriquece-la ao máximo. Fonte: Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. A Canção no Tempo. v. 2. Um Haicai de Bauru/SP
  9. 9. 10 Um Poema de Belém/PA Olga Savary ÁGUA ÁGUA Menina sublunar, afogada, que voz de prata te embala toda desfolhada? Tendo como um só adorno o anel de seus vestidos ela própria é quem se encanta numa canção de acalanto presa ainda na garganta. Recordando Velhas Canções Retrato em branco e preto (1968) Chico Buarque e Tom Jobim Já conheço os passos dessa estrada Sei que não vai dar em nada Seus segredos sei de cor Já conheço as pedras do caminho E sei também que ali sozinho Eu vou ficar, tanto pior O que é que eu posso contra o encanto Desse amor que eu nego tanto Evito tanto E que no entanto Volta sempre a enfeitiçar Com seus mesmos tristes velhos fatos Que num álbum de retrato Eu teimo em colecionar Lá vou eu de novo como um tolo Procurar o desconsolo Que cansei de conhecer Novos dias tristes, noites claras Versos, cartas, minha cara Ainda volto a lhe escrever Pra lhe dizer que isso é pecado Eu trago o peito tão marcado De lembranças do passado E você sabe a razão Vou colecionar mais um soneto Outro retrato em branco e preto A maltratar meu coração Vou colecionar mais um soneto Outro retrato em branco e preto A maltratar meu coração Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ Gilson Faustino Maia Não sonhei quando dormia, sempre sonhei acordado.
  10. 10. 11 Quando o seu barco partia, sonhava estar ao seu lado. Um Poema de Belém/PA Olga Savary PÁSSARO A noite não é tua mas nos dias —curtos demais para o vôo — amadureces como um fruto. Tuas asas seguem as estações. É tua a curvatura da terra. Pássaro, metáfora de poeta. Um Haicai de Curitiba/PR José Marins tempo rigoroso – meu maior tesouro estas velhas ceroulas Uma Trova de São Paulo/SP Alba Christina Campos Netto Se abro as páginas da vida buscando instantes risonhos, sempre, naquela escolhida, faltam chaves, sobram sonhos Um Poema de Belém/PA Olga Savary SEXTILHA CAMONIANA Daqui dou o viver já por vivido. Quero estar quieta, sozinha agora, igual a uma cobra de cabeça chata, ficar sentada sobre os meus joelhos como alguém coagulado em outra margem. Daqui dou o viver já por vivido. Hinos de Cidades Brasileiras Cerro Largo/RS Quando o século vinte amanhecia, Para o incerto amanhã dos tempos novos, Sob o chão imortal dos Sete Povos, Flor do tempo, flor da audácia Flor do trabalho, Serro Azul nascia. Padre Max, que acendeste Nestas plagas a primeira luz Te lembramos, hoje e sempre Operário da enxada e da cruz Te lembramos, hoje e sempre Operário da enxada e da cruz.
  11. 11. 12 Era o sangue do imigrante, Que chegava, de longe, aqui, Chorando a saudade do Reno, Nos remansos do Rio Ijui, Chorando a saudade do Reno, Nos remansos do Rio Ijui. Cerro Largo, Cerro Largo, Glória viva plantada no Sul, Seja sempre azul teu destino, Como teu nome de batismo, Serro Azul, Seja sempre azul teu destino, Como teu nome de batismo, Serro Azul. Uma Trova de Curitiba/PR Adélia Maria Woellner Claro que existem tormentos, dores, angústias, saudade… Disso esqueça por momentos, e pense em felicidade! Um Poema de Belém/PA Olga Savary CERNE Nada a ver com a fonte mas com a sede Nada a ver com o repasto mas com a fome Nada a ver com o plantio mas com a semente Olga Savary nasceu em Belém do Pará, em 1933, filha única do engenheiro eletricista russo Bruno Savary e da paraense Célia Nobre de Almeida, Olga estudou em Belém, Fortaleza e no Rio de Janeiro. Na infância, absorveu fortemente os elementos da cultura da terra onde nasceu, transmitidos por sua família materna. Até os três anos de idade, teve a vida dividida entre Belém e Monte Alegre, no interior do Pará, cidade de seus avós maternos. Em 1936 seu pai, por motivo de trabalho, leva a família para o Nordeste, onde fixa moradia em Fortaleza. Em 1942 os pais de Olga se separam, e ela vai para o Rio de Janeiro onde passa a morar com um irmão de sua mãe, começando a desenvolver suas habilidades literárias. Aos onze anos passa a redigir um jornalzinho, incentivada por um vizinho, para quem escrevia, sendo remunerada por isso. Sua mãe, no início, recriminava a vocação da filha, pois queria que ela se dedicasse à música, coisa que Olga detestava. Nesse tempo ela começa a escrever e a guardar seus escritos em um caderninho preto, que sempre era deixado com o bibliotecário da ABI para que sua mãe não o destruísse. Sua convivência com a mãe tornar-se-á difícil ao ponto de a escritora, aos 16 anos, pensar em ir morar com o pai - desistindo por achar que ainda estaria muito perto da mãe. Contudo, aos 18 anos, Olga volta a Belém, indo morar com parentes e estudando. Posteriormente decide voltar para o Rio, onde começa a alavancar sua carreira de escritora.
  12. 12. 13 Participou do filme de 1968, 'Edu, Coração de Ouro. Correspondente de diversos periódicos no Brasil e no exterior, organizou várias antologias de poesia. Sua obra também está presente em diversas antologias brasileiras e internacionais, como a Antologia de Poesia da América Latina, editada nos Países Baixos, em 1994, com 18 poetas — inclusive dois prêmios Nobel: Pablo Neruda e Octavio Paz. É poeta, contista, romancista, crítica, tradutora e ensaísta. Traduziu mais de 40 obras de mestres hispano-americanos, como Borges, Cortázar, Carlos Fuentes, Lorca, Neruda, Octavio Paz, Jorge Semprún e Mário Vargas Llosa, e também os mestres japoneses do haicai - Bashô, Buson e Issa. A escritora acumulou vários dos principais prêmios nacionais de literatura, entre eles o Prêmio Jabuti de Autor Revelação1 , pelo livro Espelho Provisório, concedido pela Câmara Brasileira do Livro (1971), o Prêmio de Poesia, pelo livro Sumidouro, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (1977), e o Prêmio Artur de Sales de Poesia, concedido pela Academia de Letras da Bahia pelo livro Berço Esplêndido (1987). Membro do PEN Club, associação mundial de escritores, vinculada à Unesco, da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI - Associação Brasileira de Imprensa e do Instituto Brasileiro de Cultura Hispânica. Foi presidente do Sindicato de Escritores do Estado do Rio de Janeiro em 1997- 1998. Colabora com vários jornais e revistas do Brasil e do exterior. Alguns livros publicados: 1970 - Espelho Provisório (poemas); 1977 - Sumidouro (poemas); 1979 - Altaonda (poemas); 1982 - Natureza Viva (poemas); 1986 - Hai-Kais (poemas); 1987 - Linha d'água (poemas); 1987 - Berço Esplendido (poemas); 1989 - Retratos (poemas); 1997 - O Olhar Dourado do Abismo (contos), etc. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Olga_Savary
  13. 13. 14
  14. 14. 15 Alvas nuvens enrolando o Poente, em seu mantol, - são os anjos enxugando a face exausta do Sol. Certas noites surpreendo o meu sonho, tão bizarro, e tão alto que reacendo, nos astros o meu cigarro! Da uva bem machucada é que o bom vinho provém; Felicidade esmagada nos dá saudade também. Duvidas que numa trova eu encerre o nosso amor? Na hóstia tu tens a prova: Não cabe Nosso Senhor? És rico... Mas que tristeza! Tens vazio o coração... Não ter amor é pobreza mais triste que não ter pão. É tão triste a minha casa, o meu lar é tão vazio, que a lareira, acesa em brasa, ela própria sente frio... Há uma árvore tão feia, tão sozinha em meu quintal! - Vagalumes, acendei-a, que hoje é noite de Natal!… Mergulhei nos teus abraços em linda noite de luz, sem saber que, nos teus braços, encontrava a minha cruz!... Meu vestido colorido, tão profanado e desfeito, era um pássaro ferido, rolando aos pés de teu leito… Nas lindas noites de lua que ciúme sofre o mar vendo a rocha, toda nua sob os beijos do luar.
  15. 15. 16 Nenhuma angústia suplanta aquela que silencia, sufocando na garganta o pranto de cada dia!... Perguntas de que maneira nosso amor alimentamos? - Das culpas que, a vida inteira, um ao outro perdoamos. Pôr a saudade num verso, numa trova; que emoção! É concentrar o Universo na palma da minha mão! Por eu ter te amado tanto, será que Deus me condena? - Em que difere meu pranto do pranto de Madalena? Pousa aqui, cigano andejo! Minha tenda é hospitaleira. E na taça do meu beijo beberás a noite inteira... Quando a mágoa chora e fala, tarde ou cedo finaliza. Mas aquela que se cala, no silêncio se eterniza. Quanto mais teu corpo enlaço, mais padeço o meu tormento, por saber que o meu abraço não prende o teu pensamento. Surpreendente maravilha a que agora me acontece: - Minha mãe é minha filha à medida que envelhece! Velho mar, o teu bramido, numa angústia que apavora, faz pensar que teu gemido é do próprio Deus que chora! Vou dizer-te, bem no ouvido, minha angústia e desespero: eu te odeio, meu querido, pelo muito que te quero!
  16. 16. 17 Jesy de Oliveira Barbosa nasceu em Campos/RJ em 15 de novembro de 1902. Filha de um jornalista e mãe musicista, tocava violão e teve aulas de canto. Iniciou carreira profissional em 1928, na Rádio Sociedade, no Rio de Janeiro a convite de Roquete Pinto. Pioneira da gravadora RCA Victor, em 1928 lançou seu primeiro disco, com as canções Olhos pálidos, de Josué de Barros, e Medroso de amor, de Zizinha Bessa, nas quais colocou os versos. De 1929 a 1933 lançou 26 discos, quase todos na RCA Victor, interpretando composições de Marcelo Tupinambá, Joubert de Carvalho, Cândido das Neves, Gastão Lamounier, Henrique Vogeler, entre outros. Seus maiores sucessos foram as canções Minha viola e Sabiá cantador (ambas de Randoval Montenegro), a canção-toada Volta (1930, de M. Lopes de Castro), o tango Queixas (1932, de Zelita Vilar e Rhea Cibele), e o fox-canção Saudades do arranha-céu (1933, de J. Tomás e Orestes Barbosa). Foi eleita Rainha da Canção Brasileira em 1930, em concurso promovido pelo Diário Carioca, ficando cerca de 30.000 votos na frente de Zaira de Oliveira. Em 1931, quando da sua visita ao Brasil, o Príncipe de Gales, futuro rei Eduardo VIII da Inglaterra, teceu grandes elogios à cantora Jesy Barbosa e comprou seus discos para curtir na Inglaterra. Em agradecimento Jesy Barbosa gravou o tango “Príncipe de Gales”.(Gastão Lamounier e M. Lopes de Castro). Em 1935, atuou na Rádio Tupi com grande sucesso. Aos poucos foi deixando as interpretações românticas das canções brasileiras passando a atuar, posteriormente, como rádio atriz e escritora de novelas transmitidas pela Rádio Nacional. Uma das suas novelas de sucesso foi “Ressurreição”. Foi redatora da Rádio Globo durante nove anos, atuando, também, como apresentadora. Além da carreira de cantora, desenvolveu intensa e variada atividade intelectual: foi contista, teatróloga, conferencista e poetisa, tendo publicado Cantigas de quem perdoa, Livraria Freitas Bastos, São Paulo, 1963. Segundo Orestes Barbosa no livro "Samba", de 1933, sua especialidade eram "as canções de emoção e pensamento". Faleceu no Rio de Janeiro/RJ em 30/12/1987. Fonte: http://luisnassif.com/profiles/blogs/jesy-barbosa-rainha-da-can-o-brasileira Jean de La Fontaine O Carvalho e o Caniço Dizia ao caniço robusto carvalho: “Sou grande, sou forte; És débil e deves, com justos motivos, Queixar-te da sorte! Inclinas-te ao peso da frágil carriça;
  17. 17. 18 E a leve bafagem. Que enruga das águas a linha tranqüila Te averga a folhagem. Mas minha cimeira tufões assoberba. Com serras entesta; Do sol aos fulgores barreiras opondo, Domina a floresta. Qual rija lufada, do zéfiro o sopro, Te soa aos ouvidos, E a mim se afiguram suaves favônios Do Norte os bramidos. Se desta ramagem, que ensombra os contornos, A abrigo nasceras, Amparo eu te fora de suis* e procelas, E menos sofreras. Mas tens como berço brejais e alagados, Que o vento devasta. Confesso que sobram razões de acusares A sorte madrasta.” Responde o caniço: “Das almas sensíveis É ter compaixão; Mas crede que os ventos, não menos que os fracos, Minazes vos são. Eu vergo e não quebro. Da luta com o vento Fazeis grande alarde: Julgais que heis de sempre zombar das borrascas? Até ver não é tarde.” Mal isto dissera, dispara do fundo Dum céu carregado O mais formidável dos filhos que o Norte No seio há gerado. Ereto o carvalho, faz frente à refrega; E o frágil arbusto Vergando, flexível — do vento aos arrancos Resiste, sem custo. Mas logo a nortada, dobrando de força, Por terra lançava O roble que às nuvens se erguia e as raízes No chão profundava. _ * Suis – árvores leguminosas-mimóseas, de boa madeira para construção (Camla siberiana). Jean de La Fontaine foi um poeta e fabulista francês. Filho de um inspetor de águas e florestas, nasceu na pequena localidade de Château-Thierry/França, em 8 de julho de 1621. Estudou teologia e direito em Paris, mas seu maior interesse sempre foi a literatura. Escreveu o romance "Os Amores de Psique e Cupido" e tornou-se próximo dos escritores Molière e Racine. Em 1668 foram publicadas as primeiras fábulas, num volume intitulado "Fábulas Escolhidas". O livro era uma coletânea de 124 fábulas, dividida em seis partes. La Fontaine dedicou este livro ao filho do rei Luís 14.
  18. 18. 19 As fábulas continham histórias de animais, magistralmente contadas, contendo um fundo moral. Escritas em linguagem simples e atraente, as fábulas de La Fontaine conquistaram imediatamente seus leitores.Várias novas edições das "Fábulas" foram publicadas em vida do autor. A cada nova edição, novas narrativas foram acrescentadas. Em 1692, La Fontaine, já doente, converteu-se ao catolicismo. Antes de vir a ser fabulista, foi poeta, tentou ser teólogo. Além disso, também entrou para um seminário, mas aí perdeu o interesse. A sua grande obra, “Fábulas”, escrita em três partes, no período de 1668 a 1694, seguiu o estilo do autor grego Esopo, o qual falava da vaidade, estupidez e agressividade humanas através de animais. Faleceu em Paris, 13 de abril de 1695. Folclore Indígena Brasileiro Maire-Monan e os Três Dilúvios Os tupinambás creem que houve, nos primórdios do tempo, um ser chamado Monan. Segundo alguns etnógrafos, ele podia não ser exatamente um Deus, mas aquilo que se convencionou chamar de um “herói civilizador”. Deus ou não, o fato é que Monan criou os céus e a Terra, e também os animais. Ele viveu entre os homens, num clima de cordialidade e harmonia, até o dia em que eles deixaram de ser justos e bons. Então, Monan investiu-se de um furor divino e mandou um dilúvio de fogo sobre a Terra. Até ali a Terra tinha sido um lugar plano. Depois do fogo, a superfície do planeta tornou-se enrugada como um papel queimado, cheia de saliências e sulcos que os homens, mais adiante, chamariam de montanhas e abismos. Desse apocalipse indígena sobreviveu um único homem, Irin-magé, que foi morar no céu. Ali, em vez de conformar-se com o papel de favorito dos céus, ele preferiu converter-se em defensor obstinado da humanidade, conseguindo, após muitas súplicas, amolecer o coração de Monan. Segundo Irin-magé, a terra não poderia ficar do jeito que estava, arrasada e sem habitantes. – Está bem, repovoarei aquele lugar amaldiçoado! – disse Monan, afinal. A história, como vemos, é tão velha quanto o mundo: um ser superior cria uma raça e logo depois a extermina, tomando, porém, o cuidado de poupar um ou mais exemplares dela, a fim de recomeçar tudo outra vez.
  19. 19. 20 E foi exatamente o que aconteceu: Monan mandou um dilúvio à Terra para apagar o fogo (aqui o dilúvio é reparador) e a tornou novamente habitável, autorizando o seu repovoamento. Irin-magé foi encarregado de repovoar a Terra com o auxílio de uma mulher criada especialmente para isto, e desta união surgiu outro personagem mítico fundamental da mitologia tupinambá: Maire-monan. Essa Maire-monan tinha poderes semelhantes aos do primeiro Monan, e foi graças a isto que pôde criar uma série de outros seres – os animais –, espalhando- os depois sobre a Terra. Apesar de ser uma espécie de monge e gostar de viver longe das pessoas, ela estava sempre cercado por uma corte de admiradores e de pedintes. Ela também tinha o dom de se metamorfosear em criança. Quando o tempo estava muito seco e as colheitas tornavam-se escassas, bastava dar umas palmadas na criança- mágica e a chuva voltava a descer copiosamente dos céus. Além disso, Maire-monan fez muitas outras coisas úteis para a humanidade, ensinando-lhe o plantio da mandioca e de outros alimentos, além de autorizar o uso do fogo, que até então estava oculto nas espáduas da preguiça. Um dia, porém, a humanidade começou a murmurar. – Esta Maire-monan é um feiticeira! – dizia o cochicho intenso das ocas. – Assim como criou vegetais e animais, essa bruxa há de criar monstros e Tupã sabe o que mais! Então, certo dia, os homens decidiram aprontar uma armadilha para esse novo semideus. Maire- monan foi convidado para uma festa, na qual lhe foram feitos três desafios. – Bela maneira de um anfitrião receber um convidado! – disse Mairemonan, desconfiada. – É simples, na verdade – disse o chefe dos conspiradores. – Você só terá de transpor, sem queimar-se, estas três fogueiras. Para um ser como você, isso deve ser muito fácil! Instigado pelos desafiantes, e talvez um pouco por sua própria vaidade, Maire-monan acabou aceitando o desafio. – Muito bem, vamos a isso! – disse ele, querendo pôr logo um fim à comédia. Maire-monan passou incólume pela primeira fogueira, mas na segunda a coisa foi diferente: tão logo pisou nela, grandes labaredas o envolveram. Diante dos olhos de todos os índios, Maire-monan foi consumido pelas chamas, e sua cabeça explodiu. Os estilhaços do seu cérebro subiram aos céus, dando origem aos raios e aos trovões que são o principal atributo de Tupã, o deus tonante dos tupinambás que os jesuítas, ao chegarem ao Brasil, converteram por conta própria no Deus das sagradas escrituras. Desses raios e trovões originou-se um segundo dilúvio, desta vez arrasador. No fim de tudo, porém, as nuvens se desfizeram e por detrás delas surgiu, brilhando, uma estrela resplandecente, que era tudo quanto restara do corpo de Maire-monan, ascendido aos céus.
  20. 20. 21 Depois que o mundo se recompôs de mais um cataclismo, o tempo passou e vieram à Terra dois descendentes de Maire-monan: eles eram filhos de um certo Sommay , e se chamavam Tamendonare e Ariconte. Como normalmente acontece nas lendas e na vida real, a rivalidade cedo se estabeleceu entre os dois irmãos, e não tardou para que a fogueira da discórdia acirrasse os ânimos na tribo onde viviam. Tamendonare era bonzinho e pacífico, pai de família exemplar, enquanto Ariconte era amante da guerra e tinha o coração cheio de inveja. Seu sonho era reduzir todos os índios, inclusive seu irmão, à condição de escravos. Depois de diversos incidentes, aconteceu um dia de Ariconte invadir a choça de seu irmão e lançar sobre o chão um troféu de guerra. Tamendonare podia ser bom, mas sua bondade não ia ao extremo de suportar uma desfeita dessas. Erguendo-se, o irmão afrontado golpeou o chão com o pé e logo começou a brotar da rachadura um fino veio de água. Ao ver aquela risquinha inofensiva de água brotar do solo, Ariconte pôs-se a rir debochadamente. Acontece que a risquinha rapidamente converteu-se num jorro d’água, e num instante o chão sob os pés dos dois, bem como os de toda a tribo, rachou-se como a casca de um ovo, deixando subir à tona um verdadeiro mar impetuoso. Aterrorizado, o irmão perverso correu com sua esposa até um jenipapeiro, e ambos começaram a escalá-lo como dois macacos. Tamendonare fez o mesmo e, depois de tomar a esposa pela mão, subiu com ela numa pindoba (uma espécie de coqueiro). E assim permaneceram os dois casais, cada qual trepado no topo da sua árvore, enquanto as águas cobriam pela terceira vez o mundo – ou, pelo menos, a aldeia deles. Quando as águas baixaram, os dois casais desceram à Terra e repovoaram outra vez o mundo. De Tamendonare se originou a tribo dos tupinambás, e de Ariconte brotaram os Temininó Fonte:Ademilson S. Franchini. As 100 melhores lendas do folclore brasileiro. Porto Alegre/RS: L&PM, 2011.
  21. 21. 22 Laé de Souza Esmeraldo, o Garçom Esmeraldo servia um bife acebolado, enquanto outro cliente fazia insistentes sinais chamando-o. Ele, fingindo não perceber para não interferir no seu trabalho, atendeu com presteza e só então deslocou a sua visão à outra mesa. (Aí que descobri que quando chamamos um garçom e parece que ele não vê, às vezes está vendo e finge que não vê). Acostumado com os tipos e pela cara sentiu que era reclamação, e era mesmo. O sujeito, irritado, sentia-se indignado com a refeição. O macarrão estava grudado e o molho salgado. Esmeraldo, educadamente, perguntou: – Como é o seu nome, senhor? O cliente mais irritado ainda respondeu: – Jonas. – Pois é senhor Jonas, vou lhe explicar como funcionam as coisas -, disse-lhe Esmeraldo. – A minha função aqui, é a logística. Ou seja, coleto os pedidos do cliente, passo para a copa, que manda para a cozinha. Daí para a frente não interfiro em nada, até que eu ouça dois toques da sineta, o sinal de que o meu pedido está à disposição. Então apanho a mercadoria, vejo se está bem separada, cada qual em sua bandeja e faço a distribuição para os clientes. Quanto a verificar se os produtos estão perfeitos, se a qualidade é boa, foge ao meu alcance e se o fizesse, estaria me intrometendo no trabalho de outro setor, com o que o senhor há de concordar, seria antiético. Agora, é responsabilidade minha e o senhor pode me chamar a atenção que eu vou abaixar a cabeça, se ocorreu alguma coisa que me diz respeito como: Seu pedido veio trocado? Sua cerveja chegou quente? O refrigerante diet da sua esposa e as cocas normais dos seus filhos não vieram certinhos, como pedidos? Sua comida veio misturada, decorrente do transporte da copa até a sua mesa? Deixei cair um copo ou derramei molho na mesa ou em algum dos senhores? O senhor pode não ter percebido, senhor Jonas, mas a sineta tocou e eu já corri para trazer sua refeição. Se houve demora, foi lá para dentro, mas não no serviço de distribuição. Agora, se o senhor quer fazer reclamação do serviço da produção, posso chamar o cozinheiro ou então o senhor Manoel, que é o dono, portanto, é quem tem que ouvir essas reclamações, não eu. Aliás, aqui pra nós, acho que o senhor tem que reclamar com ele sim, porque esse
  22. 22. 23 cozinheiro é muito folgado e anda fazendo as coisas de qualquer jeito. É a segunda reclamação injusta que recebo hoje. Que culpa tenho eu, senhor Jonas, que estou aqui do lado de fora, nem sabendo do que está acontecendo lá por dentro e alguns clientes sem atentar para isto, me chacoalham? O senhor, sinceramente, não acha que é injusto seu Jonas? Vou chamar o seu Manoel, o senhor reclama do macarrão, do molho e, não diga que falei nada, mas pode reclamar que a carne está dura, porque sei que está, pois, uns dois clientes já reclamaram. Lá está o seu Manoel. Seu Manoel! Seu Manoel , faz o favor! Enquanto o Sr. Manoel se aproximava, Esmeraldo cochichou para o cliente: – O senhor pode reclamar do que quiser seu Jonas, mas não da comida fria, porque se esfriou, foi por culpa sua que iniciou a conversa, deixando-a esfriar. Jonas, mulher e filhos boquiabertos olhavam para o Esmeraldo e o Sr. Manoel, que todo solícito dizia um “pois não”, bem macio. Fonte: http://www.projetosdeleitura.com.br/cronica01.html O escritor Antonio Laé de Souza nasceu em Jequié/BA, em 15 de março de 1952. É cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Preocupado com o déficit educacional e inconformado com o slogan “Brasileiro não gosta de ler” vem criando projetos de leitura, objetivando gerar alternativas que favoreçam e criem o hábito da leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Jornalista, advogado, administrador de empresas e Agente Fiscal de São Paulo. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças “Noite de Variedades” (1972), “Casa dos Conflitos” (1974/75) e “Minha Linda Ró” (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal “O Casca” e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para “O Labor”(Jequié, BA), “A Cidade” (Olímpia, SP), “O Tatuapé” (São Paulo, SP), “Nossa Terra” (Itapetininga, SP); como colaborador no “Diário de Sorocaba”, O “Avaré” (Avaré, SP) e o “Periscópio” (Itu, SP). Obras: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial. Projetos: “Encontro com o Escritor”, “Ler É Bom, Experimente!”, “Lendo na Escola”, “Minha Escola Lê”, “Viajando na Leitura”, “Leitura no Parque”, “Dose de Leitura”, “Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, “Minha Cidade Lê”, “Dia do Livro” e “Leitura não tem idade”. Palestras: Ao longo de sua carreira de escritor e na aplicação de seus projetos de leitura, Laé de Souza já ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. “A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano”, dirigida a estudantes e “Como formar leitores”, voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Site: http://www.projetosdeleitura.com.br/ Fontes: http://www.projetosdeleitura.com.br/autor.html; http://www.ube.org.br/biografias-detalhe.asp?ID=97
  23. 23. 24 Antonio Brás Constante Zero à Esquerda ou Fora de Série? “Ninguém cometeu maior erro, do que aquele que errou ao fazer tudo errado”. Antonio Brás Constante Números. Números. Números. Não passamos de um conjunto numérico, perdido em uma equação qualquer. Uma equação ainda não totalmente resolvida, conhecida como vida. O ser humano na sua essência é feito de números. Somos compostos orgânicos com bilhões de células disto, sei lá mais quantos bilhões de outras células formando aquilo, etc. Os números determinam padrões na sociedade. Somos classificados por um número variável chamado: “idade”, e nos dizem que devemos agir conforme esta idade. Ou seja, em alguns casos somos muito velhos, em outros nos acham muito novos e ainda em outros temos a idade certa, mesmo que seja para algo que naquele momento não nos interessa. Apesar de não nos darmos conta, nós somos geralmente atraídos pelos números que compõe as outras pessoas. Por exemplo, na busca por relacionamentos amorosos, muitos procuram saber sobre a altura, peso, quadril, busto, idade e até conta bancária de seus pretendentes. Ainda na parte dos relacionamentos, podemos imaginar a seguinte situação: você sai para passear com sua amada. Resolve levá-la a um lugar especial, onde possam namorar, trocando beijos e carícias. Então você, aproveitando aquele momento lindo, totalmente enlouquecido de amor, dá uma, duas, três, até quatro idéias de como o futuro seria maravilhoso se vocês ficassem juntos para sempre. É a matemática do amor, agindo nos pensamentos do enamorados. Também no trabalho somos um mero número, conhecidos no sistema como o funcionário de matricula tal, que tem o RG tal e o CPF etecetera e tal. Em qualquer novo plano diretor, onde haja necessidade de cortes para maximizar custos, o fator humano é logo substituído por algum índice matemático, e de um instante para outro passamos de nove para seis, ou seja, nossa vida vira de cabeça para baixo. A própria empresa é um emaranhado de números, que aparentemente parece ser feita de tijolos e movida através de carne e sangue, mas que no fim de cada
  24. 24. 25 semestre passa a ser um relatório contábil repleto de números e indicações positivas ou negativas, traçando geralmente perfis pouco amistosos sobre ações futuras. Um assunto como este pode até causar insônia, algo que tentamos amenizar contando carneirinhos lanosos, que para desespero de qualquer fazendeiro, conseguem pular cercas com extrema facilidade. Em outros casos apenas contamos com algum tipo de calmante. Então percebemos que nossa saúde também é vista através de números, que medem pressão, batimentos cardíacos, taxa de glicose, entre outros tantos pontos que flutuam em nossos exames. Se notarmos, a própria política começa com a escolha de números, onde muitos se elegem apenas para fazer número e, principalmente, desviar números. Sua classe social, sua localização em sua rua ou mesmo no universo (latitude e longitude), ou o máximo de caracteres que devo digitar neste texto, tudo é formado por números. Podemos dizer que Deus é um número. Talvez o número mais básico que exista e por isso tão complexo. Algo similar ao computador, que é capaz de efetuar maravilhas, feitas a partir da combinação de dois únicos dígitos (0s e 1s) que formam o código binário. Enfim, na matemática da vida, não devemos ser apenas mais um número. Devemos somar esforços, dividir os problemas na busca de soluções, subtrair pensamentos negativos, e elevar a enésima potência às energias e ações positivas, passando a ser multiplicadores de algo melhor, deixando de ser um zero a esquerda para nos tornamos pessoas fora de série. Fonte: http://www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc Um Dedão de Prosa com o Escritor Antonio Brás Constante entrevista realizada por José Feldman ao escritor em 31 de março de 2012 NOTA DO ESCRITOR ENTREVISTADO: Antes de iniciar, gostaria de frisar aos que forem continuar lendo esta singela entrevista, que sou um escritor meio fora dos padrões convencionais ao termo (por isso mesmo definido como eterno aprendiz de escritor), por isso lhes peço, não me desejem mal…
  25. 25. 26 INFANCIA E PRIMEIROS LIVROS • Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou. Parafraseando o Analista de Bagé, posso dizer que minha infância foi normal, o que não aprendi no galpão, aprendi atrás do galpão. Nasci em Porto Alegre e me perdi por Canoas, onde cresci. Me formei em Ciência da Computação, mas daí me apaixonei perdidamente pela escrita, e passei a ser seu escravo, transcrevendo os delirios que esta Diva sussurra em minha mente. • Como era a formação de um jovem naquele tempo? E a disciplina, como era? Não existiam computadores, algo que pode parecer meio pré-histórico para essa gurizada hi-tech, mas não vejo tanta diferença para os dias de hoje (também não sou tão velho assim), no fim tudo se resume a querer aprender, pois no nosso mundo ou você aprende enquanto é novo ou alguém te prende depois. • Recebeu estímulo na casa da sua infância? Sim, meu maior estímulo foi ser péssimo em futebol, algo que me deu bastante tempo livre para me dedicar aos livros. • Qual o seu primeiro livro e do que falava? Meu primeiro e único livro chama-se: “Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE” e trata-se de um livro de crônicas que considero genérico aos livros do L.F. Verissímo, pois dispõe do mesmo princípio ativo: O Humor. P.S: se a pergunta foi qual o primeiro livro que eu li, sinceramente não lembro… • Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever. Foram muitos, mas a série “para gostar de ler” foi bem importante para mim nessa época. O ESCRITOR • Fale um pouco sobre sua trajetória literária. Como começou a vida de escritor? Minha vida literária se dividiu em duas partes. Na primeira etapa (fase adolescente) escrevi alguns textos na época do segundo grau (era assim chamado naqueles tempos), buscando melhorar minhas notas nas aulas de português, acabei gostando muito de escrever, mas tão logo concluí os estudos parei, adormecendo o escritor que dentro de mim existia. Somente ao final da faculdade voltei a escrever (quase quinze anos depois), graças ao empurrão de um grande amigo chamado Zé Gadis, que era chargista. A coisa começou como uma brincadeira, ele desenhava caricaturas dos colegas de empresa e eu fazia as mensagens para os cartões de aniversário. Aos poucos fui me viciando no ato de escrever, e não parei mais. • Como foi dar esse salto de leitor pra escritor? Foi estranho, tanto que até hoje me defino como um eterno aprendiz de escritor. Não me intitulo como
  26. 26. 27 escritor profissional, porque acho que isso acarreta uma responsabilidade muito grande, e não gosto de sentir este tipo de obrigação nas costas, como um fardo. Por isso prefiro ser um aprendiz, poder ousar, errar, viajar, tratando a arte de escrever como uma deliciosa brincadeira. • Teve a influência de alguém para começar a escrever? Além do meu amigo Gadis, do qual já citei antes, também tive as influências literárias de escritores como: L. F. Verissímo, Barão de Itararé e Douglas Adams. • Tem Home Page própria (não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)? Sim, todos os meus textos publicados estão disponíveis no site: recantodasletras.uol.com.br/autores/abrasc • Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros? Viver de literatura?? Rsrsrs… isso existe?? Rsrss. Falando sério, na verdade eu tento dar vida a literatura, mas não sobrevivo dela. Algo que me chama a atenção neste País é que muitos leitores tem preconceito com a literatura nacional. São pessoas que consomem tudo que vem de fora, mas torcem o nariz para o que é produzido aqui. • Como foi que você chegou à poesia? Para mim a poesia é como um arrepio de frio, um bocejo, um tropeção em uma pedra, chega sem aviso e se vai sem explicação. Para não perder a viagem acabo escrevendo o que senti naquele momento, mas não sou exatamente um poeta. SEUS LIVROS E PREMIOS • Como começou a tomar gosto pela escrita? Quando comecei a rir do que escrevia, acho que o primeiro ponto para alguém se tornar escritor é gostar daquilo que escreve. • Em que você se inspirou em seus livros? No cotidiano, temperando situações do dia-a-dia com pitadas de humor. • Como definiria seu estilo literário? Posso dizer que meu estilo literário ainda encontra- se em construção… • Dentre os livros escritos por você, qual te chamou mais atenção? E por quê? Foi o livro “Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE” que por ter sido o único até o momento, me chamou a atenção por total falta de opções. • Que acha de sua obra? Fiz um livro que eu gostaria de ler se fosse outra pessoa, e olhando a obra desta forma posso dizer que considero este livro, como um filho textual.
  27. 27. 28 • Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho? Posso dizer sem sombra de dúvidas, que se não fosse a internet, meu trabalho como escritor praticamente não existiria. • Tem prêmios literários? Sim, fui vencedor do oitavo concurso de poesias, contos e crônicas, na categoria crônicas. Prêmio oferecido pela fundação cultural de Canoas. Também ganhei uma mochila cheia de chocolates BIS em uma promoção de frases da Nestlé. CRIAÇÃO LITERÁRIA • Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ? Na realidade, para me inspirar a situação ideal seria poder relaxar em uma sauna com aproximadamente umas cinco beldades seminuas ao meu redor, mas como minha esposa desencoraja este tipo de “ambiente” para mim, argumentando silenciosamente com seu rolo de macarrão em punho, venho me contentando com um tempinho livre em qualquer lugar mesmo, onde possa rabiscar ideias para depois colocá-las no micro. • Você projeta os seus textos? Ou seja, você projeta a ação, você projeta o esquema narrativo antes? Como é que você concebe os textos? As ideias sobre novos textos vem em golfadas dentro da minha cabeça, depois coloco tudo no papel (entenda-se “papel” o editor de texto) e vou aprimorando o texto até ficar de um jeito que acho interessante. • Você acredita que para ser escritor basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial? Acho que sem vocação, não haveria prazer em escrever e consequentemente a pessoa não seguiria por este caminho, ou se seguisse, não seria por muito tempo. • Como surge o momento de escrever um livro? O momento certo para se escrever um livro é quando uma editora cai do céu e se propõe a publica- lo. Se isto não acontecer, tente conseguir alguma verba para pagar a editora, e o resultado será o mesmo. • Quanto tempo você leva escrevendo um livro? Deixe-me ver… Escrevo um novo texto a cada semana, meus livros tem em média 28 textos, ou seja, levo em torno de sete meses para ter material suficiente para um novo livro. • Como foi o processo de pesquisa para a escrita de seus livros? Alguns textos realmente precisam de pesquisa, algo que poderia ser feito em várias bibliotecas ou
  28. 28. 29 utilizando o Google. Considero a pesquisa essencial para dar profundidade ao texto e para não escrever minhas “pérolas textuais” de forma equivocada. • No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria? Tudo depende do que a pessoa vai querer escrever. Eu, por exemplo, adoro ler gibis (considerados por muitos como porcarias), sou fã de tirinhas de jornal, e sempre que tenho tempo dou uma olhadinha no Big Brother Brasil. O ESCRITOR E A LITERATURA • Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós, a quem chega apenas o que a mídia divulga, que autores são importantes descobrir? Sou um curioso nato, gosto de sempre que possível experimentar coisas novas, comidas diferentes, autores diferentes, lugares diferentes. Vou aproveitar este espaço para divulgar o trabalho de um mestre-poeta que conheci ao acaso no mundo virtual, o Dário Banas (http://estranhamobilia.blogspot.com) . Suas poesias são fantásticas. • Na sua opinião, que livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória? É dificil opinar sobre o que seriam livros “obrigatórios”, já que sou adepto da leitura espontanea. Acho que se um autor consegue cativar um leitor, sua leitura já deveria ser desejada e incentivada, pois teria o seu mérito. • Qual o papel do escritor na sociedade? Com certeza seria um papel escrito. Rsrsrs. O escritor é aquele sujeito que cutuca o outro, chamando sua atenção para uma outra realidade. É função do escritor abrir as janelas da imaginação para que as pessoas possam olhar o mundo e viajar por ele. • Há lugar para a poesia em nossos tempos? Claro que há, sempre tem alguma gaveta vazia em algum lugar. Mas o melhor lugar para se guardar a boa poesia é dentro dos compartimentos de nossas mentes. A poesia não é um almoço que se come religiosamente todo santo dia, mas uma fruta suculenta que é sorvida, e escorre seu néctar pela boca, deliciosamente, saciando nossa fome poética. A PESSOA POR TRÁS DO ESCRITOR • O que o choca hoje em dia? Quando percebo que a insensibilidade anda tomando conta do mundo, de tal forma que nada mais parece chocar, confesso que fico chocado. • O que lê hoje? Além das tradicionais bulas de remédio, cuja leitura é indispensável para uma vida saudável, leio o que me cai nas mãos, terminei há pouco de ler o livro “Ensaio
  29. 29. 30 sobre a cegueira” do Saramago. Por enquanto, estou apenas na companhia das revistas e suas reportagens criativas. • Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver? Atualmente ando respondendo um questionário sobre literatura da melhor forma possível, e confesso que estou adorando. Fico na torcida para que meu amigo virtual, José Feldman, publique estas minhas respostas espontâneas em seu portal. Não possuo outros projetos. • De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização? Toda raiz cultural começou através de uma veia popular, a cultura nasce no seio da população, enriquece e muitas vezes acaba elitista. Acho que a globalização é um bom instrumento de fomentar e divulgar a cultura, de termos contato com outras culturas. CONSELHOS PARA OS ESCRITORES • Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ? Querer se consagrar como escritor é o mesmo que se lançar ao oceano buscando chegar a uma ilha repleta de tesouros, você nada, nada e muitas vezes não acontece nada. Se desistir, ou se afoga, ou a maré te leva de volta para o anonimato de onde saiu. Por isso quero dizer para quem quiser começar a escrever, que escreva por prazer, sem querer visualizar um horizonte. Escreva pelo mesmo motivo que respira, para viver. A melhor recompensa para quem escreve é gravar para eternidade seus pensamentos, suas ideias, suas loucuras. O resto é pura consequência. • O que é preciso para ser um bom poeta? Entendo que a poesia é uma forma de dança onde as frases ocupam o lugar dos movimentos. Não se escreve uma poesia para que ela seja “bonitinha”, a poesia é a essência dos sentimentos, derramados no papel de um jeito ritmado. Gostaria de acrescentar mais alguma coisa? Outros trabalhos culturais, opiniões, crítica, etc. Estou distribuindo meu livro em PDF gratuitamente para quem quiser conhecer a obra, basta me enviar um e-mail para : abrasc@terra.com.br e pedir uma cópia. E para encerrar a entrevista Quero agradecer a iniciativa do Feldman em ceder este espaço para que os escritores possam falar um pouco sobre suas obras e divulgá-las. Deixo aqui registrado meu muito obrigado. • Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam? PRIMEIRO pediria que ele aumentasse a dose de humanidade nos seres que se definem como humanos.
  30. 30. 31 SEGUNDO Pediria a ele que largasse este bico de gênio realizador de desejos e voltasse a trabalhar em prol do mundo, já que depois do sexto dia (ele parou para descansar no sétimo) as coisas andaram piorando bastante por aqui. TERCEIRO pediria para ele sair um pouco para o lado (já que ele estaria parado na minha frente) para que eu pudesse terminar de ver na televisão a sua maior obra, o seriado de “Os Simpsons”. Deonísio da Silva Expressões e suas Origens Parte IV A bom entendedor, meia palavra basta Esta frase, dando conta de que não são necessárias muitas palavras para um bom entendimento entre as pessoas, está coberta de sutilezas, pois sugere que os interlocutores compreendem o sentido exato do que se disse por meio das mais leves alusões. Às vezes, é pronunciada também como advertência ou ameaça disfarçada de boas intenções. Os franceses são ainda mais sintéticos: para bom entendedor, meia palavra. E os espanhóis dizem: a bom entendedor, meio falador. A frase consagrou-se no famoso livro Dom Quixote de la Mancha, do celebérrimo Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616). A burrice é contagiosa; o talento, não. Esta é uma das muitas frases célebres da autoria do crítico literário Agripino Grieco (1888-1973), famoso por tiradas cheias de verve e maledicência, proferidas contra pomposos escritores nacionais, até então convictos de que, dado o ofício que praticavam, muitas vezes confundido com sua posição social ou política, não poderiam ter suas obras criticadas, a não ser em comentários favoráveis. O corajoso paraibano, entretanto, culto e irônico, não poupava ninguém e levou à posteridade uma obra de crítica literária desassombrada, imune às tradicionais igrejinhas e confrarias tão presentes na cultura brasileira. Entre seus livros estão Vivos e mortos, Recordações de um mundo perdido e Gralhas e pavões. Abre-te sésamo Esta frase reúne as palavras mágicas e cabalísticas que, proferidas pelo herói do episódio “Ali-Babá e os quarenta ladrões”, das Mil e uma noites, resultam na
  31. 31. 32 abertura da porta misteriosa da caverna onde eram guardados os tesouros. Aqui está presente também a etimologia para explicar o significado de sésamo, em latim sesamum, que é uma planta em cujas sementes, muito pequenas e amareladas, está contida numa cápsula que se abre sem muita pressão. O sésamo nada mais é do que o nosso popular gergelim, utilizado nas padarias para o fabrico de pães especiais e outras delicadezas de sabor muito raro. A casa da mãe Joana A expressão ‘casa da mãe Joana’ alude a lugar em que se pode fazer de tudo, onde ninguém manda, uma espécie de grau zero de poder. A mulher que deu nome a tal casa viveu no século XIV. Chamava-se, obviamente, Joana e era condessa de Provença e rainha de Nápoles. Teve vida cheia de muitas confusões. Em 1347, aos 21 anos, regulamentou os bordéis da cidade de Avignon, onde vivia refugiada. Uma das normas dizia: “o lugar terá uma porta por onde todos possam entrar”. ‘Casa da mãe Joana’ virou sinônimo de prostíbulo, de lugar onde impera a bagunça, mas a alcunha é injusta. Escritores como Jean Paul Sartre, em A prostituta respeitosa, e Josué Guimarães, em Dona Anja, mostraram como o poder, o respeito e outros quesitos de domínio conexo são nítidos nos bordéis. A crítica não ensina a fazer obras de arte; ensina a compreendê-las Frase do jornalista e romancista carioca Raul d’Ávila Pompéia (1863-1895), patrono da cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras. Foi também diretor da Biblioteca Nacional, cargo atualmente ocupado pelo poeta, crítico e ensaísta Affonso Romano de Sant’Anna. Os críticos nem sempre foram bem entendidos, mas freqüentemente hostilizados. O autor do famoso romance O ateneu foi um dos poucos escritores que, com isenção, esforçaram-se por praticas ou entender a crítica. Seu contemporâneo francês, também romancista, Gustave Flaubert (1821-1880), tinha opinião radicalmente contrária. Segundo ele, era crítico quem não podia criar, assim como tornava-se delator quem não podia ser soldado. Acta Est Fabula O cuidado com dois momentos decisivos das narrativas, o começo e o desfecho, resultou na criação de formas fixas como “era uma vez” para a abertura das fábulas, e “foram felizes para sempre”, para a conclusão. No teatro romano, o fim dos espetáculos era anunciado aos espectadores com a frase acima, que significa “a peça foi representada”. O imperador romano Caio Júlio César Otaviano Augusto escolheu esta frase como última a ser pronunciada por ele antes de morrer. Tinha feito uma administração tão primorosa que o século em que viveu foi chamado pelos historiadores de o século de Augusto. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura Utilizada para designar a pertinácia como virtude que vence qualquer dificuldade, por maior que seja,
  32. 32. 33 esta frase perde-se nas brumas do tempo, mas um de seus primeiros registros literário foi feito pelo escritor latino Ovídio (43 a.C.-18 d.C), autor de célebres livros como A arte de amar e Metamorfoses, que foi exilado sem que soubesse o motivo. Escreveu o poeta: “A água mole cava a pedra dura”. É tradição das culturas dos países em que a escrita não é muito difundida formar rimas nesse tipo de frase para que sua memorização seja facilitada. Foi o que fizeram com o provérbio portugueses e brasileiros. Alea Jacta Est O general e estadista romano Júlio César (101-44 a.C.) pronunciou esta frase, que significa ‘a sorte está lançada’, em 49 a.C., durante a campanha da Gália. Ele decidira atravessar o rio Rubicão, transgredindo a lei do Senado romano que determinava o licenciamento das tropas toda vez que um general de Roma entrasse na Itália pelo norte. A tradição consagrou-a como sinônimo de decisão importante, tomada após reflexão e seguida de risco. É lembrada quando se quer ressaltar ou não há mais possibilidade de voltar atrás, nem que se queira. Célebre em razão de quem a pronunciou em situação tão dramática, tem sido com freqüência para ilustrar decisões irrevogáveis. A imprensa é o quarto poder Esta frase, que expressa em boa síntese a importância que tem a imprensa, deve sua criação ao escritor e grande orador britânico Edmund Burke (1729-1797). Ao lado dos três poderes clássicos de uma sociedade democrática, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, a imprensa seria o quarto poder pela influência exercida sobre as votações do primeiro, as ações do segundo e as decisões do terceiro. Quem mais divulgou a frase em seus escritos, defendendo a mesma concepção, foi o famoso historiador e crítico inglês Thomas Carlyle (1795-1881). A imprensa foi sempre importante também para nossas letras. Os primeiros romances brasileiros foram publicados em jornais e revistas. A mulher é a porta do diabo Esta famosa frase foi originalmente dita e escrita em latim – mulier janua Diaboli – por Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona, na África, doutor da Igreja e um dos pilares da teologia cristã e da filosofia ocidental. Antes de proferi-la, entretanto, levou vida amorosa das mais conturbadas, entregando-se a prazeres que depois condenou. Sua conversão é atribuída às orações de sua mãe, sobre quem escreveu um texto famoso, o Panegírico de Santa Mônica. Para um dialético como Agostinho, nada mais sintomático: sua salvação e perdição foram obras femininas. “A mulher é a porta de Deus” também poderia ser uma frase agostiniana. A política não é uma ciência, mas uma arte Frase pronunciada pelo lendário príncipe, chefe militar e estadista prussiano, Otto von Bismarck (1815-1898), que fez da Alemanha uma grande potência, garantindo-lhe unidade não apenas
  33. 33. 34 territorial, pois com ele o povo alemão conquistou sua autonomia. Para tanto, Bismarck enfrentou sérias dificuldades e ousou sustentar uma de suas guerras até mesmo contra o partido católico. Além disso, deu especial atenção às classes trabalhadoras, protegendo- se numa espécie de socialismo de Estado. A frase acima foi dita pela primeira vez num discurso pronunciado em alemão no dia 18 de dezembro de 1863 e desde então insistentemente repetida em muitas outras línguas. A pressa é inimiga da perfeição Esta frase antológica passou ao acervo de ditos célebres pela pena do famoso jurisconsulto brasileiro Rui Barbosa de Oliveira ao comentar a rapidez com que se redigia o Código Civil Brasileiro, que trouxe em sua versão final preciosas anotações do mestre. Os detalhes sempre foram importantes, nas redações das leis como nas obras artísticas. Ao longo dos carnavais, várias foram as escolas de samba que perderam pontos importantes pelo desleixo com pormenores. O águia de Haia, como era chamado por sua atenção em famosa conferência que pronunciou na Holanda, acrescentou que a pressa é também “mãe do tumulto e do erro”. Assim é, se lhe parece Frase de autoria do célebre escritor italiano, Prêmio Nobel da Literatura em 1934, Luigi Pirandello (1967- 1936), autor de contos, romances e peças de teatro. Algumas de suas obras foram transpostas para o cinema. Seus livros mais conhecidos são O falecido Matias Pascal, Seis personagens à procura de um autor e Assim é, se lhe parece, comédia em três atos que discute a busca da verdade. Dois dos principais personagens, o senhor e a senhora Ponza, por meio de diálogos, apresentam um espelho da vida provinciana, no estilo habitual do autor, marcado por fina ironia, grande dose de sarcasmo, mas também grande compaixão humana. A frase passou a ser usada para encerrar uma discussão. As mulheres perdidas são as mais procuradas Cantores e cantoras, como Roberto Carlos e Sula Miranda, muso e musa de caminhoneiros, a quem dedicaram várias de suas canções, souberam inspirar- se num imaginário rico em metáforas, presente em frases como esta, extraída do pára-choques de um caminhão. Tendo abandonado os projetos de ferrovias, o desenvolvimento brasileiro dos anos de pós-guerra deu preferência ao transporte rodoviário. Formou-se, então, um tipo de profissional que está presente desde então na cultura brasileira, não apenas com o trabalho importantíssimo que realiza, inclusive carregando este livro até você, leitor, mas também em frases picantes, aludindo a amores passageiros que podem durara penas por um trecho de suas longas viagens. À sombra de um grande nome Esta frase tem sua origem na expressão latina Magni nombris umbra, encontrável em vários escritores antigos que escreviam em latim, entre os quais Lucano (39-65) e seu tio Sêneca (4 ªC.-65 d.C.), o primeiro lamentando a rápida transformação do seu
  34. 34. 35 caráter do grande general romano Pompeu (106-48 a.C.) que abandonou suas virtudes guerreiras ao tornar-se paisano, ainda que sob os eflúvios solenes da toga. A frase é citada quando um grande homem, por seus atos, faz com que se apaguem antigas lembranças de feitos memoráveis que o credenciaram à admiração, mas que vão para a vala comum dos esquecimentos em virtude de seus desvios. As boas recordações são apagadas e o povo passa a relembrar apenas os malefícios da grande figura. É também utilizada para identificar quem faz o mal à sombra de um bom nome, como ocorre a auxiliares de vários governantes. A Terra é Azul Esta frase foi a declaração do cosmonauta soviético Yuri Alekseyevich Gagarin (1934-1968), o primeiro a fazer um vôo espacial, a bordo da nave Vostok 1, em 12 de abril de 1961. Antes dele, a cadelinha Laika, também soviética, se é que se pode dar nacionalidades a cachorros, foi o primeiro ser vivo a ir ao espaço, no Sputnik 2 (um dos dez satélites soviéticos lançados a partir de 1957), mas morreu ao entrar em órbita. Gagarin disse a famosa frase quando contemplou a Terra de um lugar onde homem nenhum estivera. Não foi apenas um pioneiro, mas alguém que, a bordo de sofisticada tecnologia da época, lançou um olhar humano sobre o planeta e soube expressá-lo com simplicidade e poesia. Até que a morte os separe A história desta frase prende-se às cerimônias de casamentos, principalmente dos ritos cristãos, que concebem os laços do matrimônio como indissolúveis. Está presente em numerosas narrativas, sejam contos, novelas, romances ou poesias. Integra também a ensaística que trata das relações entre marido e mulher na estrutura familiar. Um de seus mais antigos registros foi feito pelo apóstolo São Paulo (10-67) em sua Primeira Epístola aos Coríntios, em que se esforça para demonstrar aos leitores e ouvintes daquela famosa carta que os laços que unem homem e mulher no casamento foram instituídos, não pelos homens, mas por Deus, ainda no paraíso. Até tu, Brutus? A história desta frase famosa, comumente aplicada a situações de traição, remonta ao episódio que resultou no assassinato do grande imperador, estadista e general romano Caio Júlio César (101-44 a.C.), vítima de conspiração organizada por senadores e aristocratas e liderada, entre outros, por Marco Júnio Bruto (85-42 a.C.), nos idos de março de 44 a.C. A vítima defendeu-se quanto e como pôde de punhais e espadas, até que reconheceu entre os que o atacavam e feriam o próprio filho adotivo. Ao vê-lo, teria pronunciado esta frase que o historiador Suetônio celebrizou em A vida de César. O enteado pagou caro por tramar a morte do pai e, derrotado, suicidou-se dois anos depois. Ave, Maria! Uma das mais célebres frases de todas as religiões cristãs, significando salve, Maria! Foi transcrita do
  35. 35. 36 Evangelho de Lucas 2, 28, constituindo-se na saudação com que o anjo Gabriel anunciou à Virgem Maria que ela estava grávida do Espírito Santo e iria ganhar um menino a quem deveria pôr o nome de Jesus. Tão famosa ficou a expressão que tornou-se tema e título de diversas obras artísticas, como pinturas, esculturas e até músicas. É também o nome de uma das mais notórias orações, que tem uma segunda parte acrescentada às palavras proferidas pelo anjo Gabriel no momento da anunciação. Ave já era forma de saudação na antiga Roma, como o clássico Ave, Caesar. A vida é breve Esta frase constitui o primeiro dos célebres aforismos de Hipócrates (460-377 a.C.), que o escreveu originalmente em grego, precedido de outra frase: a arte é longa. Tem sido muito citada ao longo dos séculos, e o cantor e o compositor Tom Jobim foi um dos que a aproveitaram, inserindo-a nos versos de uma de suas famosas músicas, porém em ordem inversa para fazer a rima: “breve é a vida”. O pai da medicina, ainda que praticando uma ciência, reconheceu ser a arte mais duradoura do que a vida, inaugurando assim uma linhagem de médicos escritores, presentes em todas as literaturas do mundo, incluindo a brasileira, em que se destacam autores que exerceram a medicina como ofício principal. A voz do dono Tornou-se célebre a figura de um cão ouvindo um fonógrafo, acompanhada desta expressão que foi utilizada por um fabricante de discos e de um aparelho destinado a reproduzir os sons gravados. A frase teria sido pronunciada pela primeira vez por Thomas More (1478-1535), depois transformado em santo, quando atuava como juiz de uma causa entre sua esposa e um mendigo. Lady More trouxera para casa um cachorrinho extraviado e um dia um mendigo apresentou-se como dono do animal. Querendo ser justo, o famoso humanista inglês pôs sua esposa num dos cantos da sala e o mendigo no outro, ordenando que cada qual chamasse ao mesmo tempo o cachorrinho, que estava no meio dos dois. Sem vacilar, o animal correu para o mendigo, reconhecendo a voz do dono. Para não deixar muito triste sua esposa, o marido pagou uma moeda de ouro pelo cãozinho. A voz do povo é a voz de Deus A expressão veio do latim vox populi, vox Dei, traduzida quase literalmente. Há milênios o povo simples considera que o julgamento popular é a voz de Deus. Tal crença tem raízes na cultura das mais diversas procedências. Tudo começou em Acaia, no Peloponeso, onde o deus Hermes se manifestava em seu templo do seguinte modo: o consulente entrava, fazia a pergunta ao oráculo, depois do que tapava as orelhas com as mãos e saía do recinto. As palavras errantes ditas pelos primeiros transeuntes seriam as respostas divinas. Perguntava-se a um deus, mas era o povo quem respondia. No Brasil, um instituto de pesquisa de opinião pública chama-se Vox Populi e foi um dos primeiros a prever a vitória de Fernando Collor
  36. 36. 37 nas eleições presidenciais de 1989 por larga margem. Curiosamente, não previu seu afastamento. Teria faltado a vox Dei? Fonte: Deonísio da Silva. De onde vêm as palavras? Deonísio da Silva nasceu em Siderópolis/SC em 1948. Professor, escritor e etimologista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Filologia, vinculado às universidades Unijuí, RS (1972-1981), Ufscar, SP (1981-2003), Estácio, RJ (2003-2015) e Unisul, SC (2014-2015), dando aulas e videoaulas de Língua Portuguesa e respectivas literaturas e desenvolvendo projetos editoriais. Autor de 34 livros, alguns dos quais publicados também em Portugal, Itália, Alemanha, Canadá etc. Suas obras referenciais são o romance "Avante, soldados: para trás" (Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago); "Nos bastidores da censura" (sua tese de doutoramento na USP) e o livro de etimologia "De onde vêm as palavras". Kathryn VanSpanckeren Panorama da Literatura dos Estados Unidos Parte II O Período Romântico, Ficção Walt Whitman, Herman Melville e Emily Dickinson — assim como seus contemporâneos Nathaniel Hawthorne e Edgar Allan Poe — representam a primeira geração literária importante dos Estados Unidos. No caso de escritores de ficção, a visão romântica tendia a se expressar na forma que Hawthorne chamava de “romance”, uma forma sofisticada, emocional e simbólica da narrativa ficcional. Segundo a definição de Hawthorne, os “romances” não eram histórias de amor, mas literatura de ficção séria que recorria a técnicas especiais para comunicar significados complexos e sutis. Em vez de definir cuidadosamente os personagens de forma realista por meio da riqueza de detalhes, como fazia a maioria dos romancistas ingleses ou continentais, Hawthorne, Melville e Poe construíram figuras heróicas maiores do que a vida, impregnadas de significados míticos. Os protagonistas típicos do chamado romance americano são pessoas atormentadas e isoladas. Arthur Dimmesdale ou Hester Prynne, de Hawthorne, em A Letra Escarlate, Ahab, de Melville, em Moby Dick, e muitos dos personagens segregados e obcecados dos contos de Poe são protagonistas solitários jogados ao destino sombrio e impenetrável que, de alguma maneira misteriosa, se sobrepõem ao seu “eu” inconsciente mais profundo. As
  37. 37. 38 tramas simbólicas revelam ações ocultas do espírito angustiado. Uma razão para essa exploração ficcional dos recôncavos da alma era a ausência na época de uma comunidade estabelecida. Os romancistas ingleses — Jane Austen, Charles Dickens (o grande favorito), Anthony Trollope, George Eliot e William Thackeray — viviam em uma sociedade tradicional, bem articulada e complexa, além de compartilhar com seus leitores atitudes que embasavam sua ficção realista. Os romancistas americanos enfrentavam uma história de conflito e revolução, uma geografia de vastos ermos não desbravados e uma sociedade democrática fluida e relativamente sem classes. Muitos romances ingleses mostram um personagem principal pobre que galga os degraus da escada social e econômica, talvez devido a um bom casamento ou à descoberta de um passado aristocrata desconhecido. Mas essa trama não desafia a estrutura social aristocrática da Inglaterra. Ao contrário, ela a confirma. A ascensão social do personagem principal satisfaz a realização do desejo dos leitores que na Inglaterra daquela época eram principalmente de classe média. O romancista americano, ao contrário, tinha de adotar uma estratégia própria. Os Estados Unidos eram, em parte, uma fronteira indefinida, em constante movimento, habitada por imigrantes que falavam diversos idiomas e cujo estilo de vida era estranho e rude. Portanto, o personagem principal de uma narrativa americana poderia se encontrar sozinho entre tribos canibais, como em Taipi – Paraíso de Canibais, de Melville, ou explorar terras selvagens, como os caçadores de peles de James Fenimore Cooper, ou ter visões de sepulcros isolados, como os personagens solitários de Poe, ou encontrar o demônio durante uma caminhada pela floresta, como o jovem Goodman Brown de Hawthorne. Praticamente todos os grandes protagonistas americanos são “solitários”. O americano democrático teve, por assim dizer, de se “inventar” a si mesmo. O romancista americano sério também precisou criar novas formas: daí o formato disperso e idiossincrático do romance Moby Dick de Melville e a narrativa em clima de sonho e divagação de Poe, O Relato de Arthur Gordon Pym. Herman Melville (1819-1891) Herman Melville era descendente de uma família antiga e abastada que caiu repentinamente na pobreza com a morte do pai. Apesar de sua criação, das tradições familiares e do trabalho árduo, Melville não teve educação universitária. Aos 19 anos, foi para o mar. Seu interesse pela vida dos marinheiros foi uma conseqüência natural de suas próprias experiências e seus primeiros romances foram em grande parte inspirados em suas viagens. Seu primeiro livro, Taipi, foi baseado no tempo em que viveu entre o povo taipi, nas Ilhas Marquesas, no Sul do Pacífico. Moby Dick; ou, A Baleia, obra-prima de Melville, é um épico sobre a história da baleeira Pequod e de seu capitão, Ahab, cuja busca obsessiva pela baleia
  38. 38. 39 branca, Moby Dick, leva o barco e seus homens à destruição. Essa obra, romance de aventura aparentemente realista, contém uma série de reflexões sobre a condição humana. A pesca da baleia, que percorre todo o livro, é uma grande metáfora da busca por conhecimento. Embora a busca de Ahab seja filosófica, ela é também trágica. A despeito de seu heroísmo, Ahab é condenado e talvez amaldiçoado no final. A natureza, ainda que bela, é misteriosa e potencialmente fatal. Em Moby Dick, Melville desafia a idéia otimista de Emerson de que os seres humanos podem entender a natureza. Moby Dick, a grande baleia branca, representa a existência cósmica e impenetrável que domina o romance, da mesma maneira que obceca Ahab. Os fatos sobre a baleia e sua pesca não podem explicar Moby Dick; ao contrário, os próprios fatos tendem a se dissolver em símbolos. Por trás do conjunto de fatos relatados por Melville está uma visão mística — mas se essa visão é do mal ou do bem, humana ou desumana, não é explicado. Ahab insiste em imaginar um mundo de absolutos atemporal e heróico. Insensatamente, ele exige um “texto” acabado, uma resposta. Mas o romance mostra que, assim como não existem formas acabadas, não há respostas definitivas exceto, talvez, a morte. Algumas referências literárias ressoam pelo romance. Ahab, cujo nome vem de um rei do Antigo Testamento, deseja o conhecimento absoluto, faustiano e divino. Como Édipo na peça de Sófocles, que paga de forma trágica pelo conhecimento equivocado, Ahab é atingido pela cegueira antes de ser morto no final. O nome do barco de Ahab, Pequod, refere-se a uma tribo indígena extinta da Nova Inglaterra; assim, o nome sugere que o barco está fadado à destruição. A pesca da baleia, na verdade, foi uma indústria importante, em especial na Nova Inglaterra: ela fornecia óleo de baleia como fonte de energia, principalmente para lamparinas. Portanto, a baleia literalmente “lança luz” sobre o universo. O livro tem ressonância histórica. A pesca da baleia era inerentemente expansionista e ligada à idéia histórica de um “destino manifesto” para os americanos, já que exigia que navegassem ao redor do mundo em busca de baleias (de fato, o atual estado do Havaí caiu sob o domínio americano porque era usado como importante base de reabastecimento de combustível para os navios baleeiros). Os membros da tripulação do Pequod representam todas as raças e várias religiões, sugerindo a idéia de um Estados Unidos como um estado de espírito universal, bem como de um caldeirão cultural. Finalmente, Ahab incorpora a versão trágica do individualismo americano democrático. Ele afirma sua dignidade como indivíduo e ousa se opor às inexoráveis forças externas do universo. A Ascensão do Realismo A Guerra Civil Americana (1861-1865) entre o Norte industrial e o Sul agrícola e escravagista foi um divisor
  39. 39. 40 de águas na história dos EUA. Antes da guerra, os idealistas defendiam os direitos humanos, especialmente a abolição da escravidão; depois da guerra, os americanos passaram a idealizar cada vez mais o progresso e o “self-made man”, como chamam as pessoas que conseguem vencer na vida pelo próprio esforço. Essa foi a era dos industriais e dos especuladores milionários, quando a teoria de Darwin sobre a evolução biológica e a “sobrevivência dos mais aptos” entre as espécies foi aplicada à sociedade e parecia sancionar a falta de ética ocasional nos métodos utilizados pelos magnatas empresariais de sucesso. Os negócios prosperaram rapidamente após a guerra. O novo sistema ferroviário intercontinental, inaugurado em 1869, e o telégrafo transcontinental, que começou a operar em 1861, deram à indústria acesso a materiais, mercados e comunicações. O ingresso constante de imigrantes propiciou o fornecimento aparentemente interminável de mão-de- obra barata. Mais de 23 milhões de estrangeiros — alemães, escandinavos e irlandeses nos primeiros anos e, a partir de então, cada vez mais imigrantes da Europa Central e do Sul — entraram nos Estados Unidos entre 1860 e 1910. Em 1860, a maioria dos americanos vivia em fazendas ou pequenos povoados, mas em 1919 metade da população estava concentrada em cerca de 12 cidades. Surgiram os problemas da urbanização e da industrialização: habitações pobres e superlotadas, falta de saneamento, baixos salários (chamados de “escravidão assalariada”), condições de trabalho difíceis e controle inadequado dos negócios. Os sindicatos trabalhistas cresceram, e as greves levaram ao conhecimento da nação a difícil situação da classe trabalhadora. Os agricultores também se viram lutando contra os “interesses monetários” do Leste. De 1860 a 1914, os Estados Unidos passaram de ex- colônia agrícola a uma imensa nação industrial moderna. A nação endividada de 1860 havia se transformado no Estado mais rico do mundo em 1914. Na época da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos tinham se tornado a maior potência mundial. A industrialização cresceu e, com ela, cresceu também o distanciamento. Dois grandes romancistas desse período — Mark Twain e Henry James — reagiram cada um à sua maneira. Twain voltou-se para o Sul e o Oeste no coração dos Estados Unidos rurais e fronteiriços para encontrar seu mito definidor; James voltou-se para a Europa a fim de avaliar a natureza dos novos americanos cosmopolitas. Samuel Clemens (Mark Twain) (1835-1910) Samuel Clemens, mais conhecido por seu pseudônimo Mark Twain, cresceu à beira do Rio Mississippi, na cidade fronteiriça de Hannibal, no Missouri. Ernest Hemingway disse que toda a literatura americana vem de um grande livro, As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain. No início do século 19, os escritores americanos tendiam a ser demasiadamente rebuscados, sentimentais ou
  40. 40. 41 pomposos — em parte porque ainda tentavam provar que poderiam escrever de forma tão elegante quanto os ingleses. O estilo de Twain, baseado na fala americana vigorosa, realista e coloquial, deu aos escritores do país uma nova valorização de sua voz nacional. Mark Twain foi o primeiro autor importante do interior do país. Ele captou suas gírias peculiares e humorísticas e o espírito iconoclasta. Para Twain, assim como para outros escritores americanos do final do século 19, o realismo não era apenas uma técnica literária: era uma maneira de falar a verdade e detonar antigas convenções. Portanto, era profundamente libertador e potencialmente hostil à sociedade. O exemplo mais conhecido é a história de Huck Finn, menino pobre que decide seguir a voz da consciência e ajudar um escravo negro a fugir para a liberdade, apesar de pensar que isso o condenaria ao inferno por infringir a lei. A obra-prima de Twain, lançada em 1884, tem como cenário a aldeia de St. Petersburg, às margens do rio Mississippi. Filho de um vagabundo alcoólatra, Huck acabara de ser adotado por uma família respeitável quando seu pai, em estupor alcoólico, o ameaça de morte. Temendo por sua vida, Huck foge, fingindo estar morto. Nessa fuga, junta-se a ele outro marginal, o escravo Jim, cuja dona, senhorita Watson, está pensando em vendê-lo rio abaixo para a escravidão mais empedernida do extremo Sul. Huck e Jim descem o majestoso Mississippi em uma canoa, mas ela é abalroada por um barco a vapor e afunda; eles se separam e mais tarde voltam a se encontrar. Os dois passam por muitas aventuras cômicas e perigosas à margem do rio mostrando a variedade, a generosidade e, às vezes, a irracionalidade cruel da sociedade. No final, descobre-se que a senhorita Watson já havia libertado Jim, e uma família respeitável está cuidando do rebelde Huck. Mas Huck não se adapta à sociedade civilizada e planeja fugir para “os territórios” — terras indígenas. O final dá ao leitor outra versão do clássico mito da “pureza” americana: a estrada aberta levando a terras ermas intocadas, longe das influências moralmente corruptas da “civilização”. Os romances de James Fenimore Cooper, os hinos de Walt Whitman à estrada livre, O Urso de William Faulkner e On the Road — Pé na Estrada de Jack Kerouac são outros exemplos literários. Henry James (1843-1916) Henry James certa vez escreveu que a arte, especialmente a literatura, “faz a vida, faz o interesse, faz a importância”. A ficção de James é a mais consciente, sofisticada e difícil de sua época. James se destaca pelo “tema internacional” — ou seja, as complexas relações entre americanos ingênuos e europeus cosmopolitas. O que seu biógrafo, Leon Edel, chama de primeira fase ou a fase internacional de James inclui obras como The American [O Americano] (1877), Daisy Miller (1879) e sua obra máxima, Retrato de uma Senhora (1881). Em The American, por exemplo, Christopher
  41. 41. 42 Newman, industrial milionário que venceu por seu próprio esforço, ingênuo, mas inteligente e idealista, vai para a Europa em busca de uma noiva. Quando a família da moça o rejeita por não ser aristocrata, ele tem a oportunidade de vingança; ao decidir nada fazer, mostra sua superioridade moral. A segunda fase de James foi experimental. Ele explorou novos temas — feminismo e reforma social em The Bostonians [Os Bostonianos] (1886) e intriga política em The Princess Casamassima [A Princesa Casamassima] (1885). Em sua terceira fase, ou a “principal”, James volta aos temas internacionais, mas os trata com crescente sofisticação e profundeza psicológica. O complexo e quase mítico As Asas da Pomba (1902), Os Embaixadores (1903) — que James considerava seu melhor romance — e A Taça de Ouro (1904) datam desse importante período. Se o tema principal da obra de Mark Twain é a diferença sempre cheia de humor entre a falsa aparência e a realidade, a preocupação constante de James é a percepção. Em James, só a autoconsciência e a clara percepção do outro levam à sabedoria e ao amor altruísta. Modernismo e Experimentação Muitos historiadores caracterizaram o período entre as duas guerras mundiais como o “amadurecimento” traumático dos Estados Unidos, apesar do fato de que o envolvimento direto dos americanos foi relativamente curto (1917-1918) e com muito menos mortos do que seus aliados e inimigos europeus. Chocados e para sempre transformados, os soldados americanos retornaram à sua pátria, mas nunca mais puderam recuperar a inocência. Tampouco os soldados provenientes da zona rural do país conseguiram voltar facilmente às suas raízes. Depois de conhecer o mundo, muitos deles agora ansiavam por uma vida moderna e urbana. No “grande boom” do pós-guerra, os negócios floresciam e os bem-sucedidos prosperavam além do que podiam imaginar em seus sonhos mais desvairados. Pela primeira vez, muitos americanos entraram no ensino superior — na década de 1920 as matrículas universitárias dobraram. A classe média prosperou; os americanos começaram a desfrutar da renda média nacional mais alta do mundo dessa época. Os americanos dos chamados “loucos anos 20” se apaixonaram pelos entretenimentos modernos. A maioria das pessoas ia ao cinema uma vez por semana. Embora a Lei Seca — proibição nacional da venda de álcool instituída por meio da 18º Emenda à Constituição do EUA — tenha começado em 1919, bares ilegais, conhecidos como “speakeasies”, e nightclubs proliferaram, oferecendo jazz, bebidas e maneiras ousadas de vestir e dançar. Dançar, ir ao cinema, fazer passeios de carro e ouvir rádio eram manias nacionais. As mulheres americanas, em particular, se sentiram liberadas. Elas cortaram o cabelo curto (“a la garçonne”), usavam vestidos curtos estilo “melindrosa” e vibraram com o direito ao voto garantido pela 19a Emenda à Constituição, aprovada
  42. 42. 43 em 1920. Falavam o que pensavam com ousadia e ocupavam funções públicas na sociedade. Apesar dessa prosperidade, os jovens ocidentais na “vanguarda” cultural encontravam-se em um estado de rebelião intelectual, enfurecidos e desiludidos com a guerra selvagem e com a geração mais velha que responsabilizavam. Ironicamente, as condições econômicas difíceis do pós-guerra na Europa permitiam que os americanos endinheirados — como os escritores F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Gertrude Stein e Ezra Pound — vivessem no exterior confortavelmente com pouquíssimo dinheiro e absorvessem a desilusão do pós-guerra e também outras correntes intelectuais européias, em particular a psicologia freudiana e, em menor grau, o marxismo. Diversos romances, em especial O Sol Também se Levanta (1926), de Hemingway, e Este Lado do Paraíso (1920), de Fitzgerald, evocam a extravagância e a desilusão do que a escritora americana expatriada Gertrude Stein chamou de “a geração perdida”. Em “A Terra Desolada” (1922), longo e influente poema de T.S. Eliot, a civilização ocidental é simbolizada por um deserto desolado necessitando desesperadamente de chuva (renovação espiritual). Modernismo A grande onda cultural do modernismo, que surgiu na Europa e depois se espalhou para os Estados Unidos nos primeiros anos do século 20, expressava um sentido de vida moderna pela arte como uma ruptura brusca com o passado. À medida que as máquinas modernas mudavam o ritmo, a atmosfera e a aparência da vida diária no início do século 20, muitos artistas e escritores, com graus variados de sucesso, reinventavam formas artísticas tradicionais e buscavam radicalmente outras novas — eco estético do que as pessoas haviam passado a chamar de “era da máquina”. T.S. Eliot (1888-1965) Thomas Stearns Eliot recebeu a melhor educação em comparação a qualquer outro grande escritor americano de sua geração. Freqüentou a Faculdade de Harvard, a Sorbonne e a Universidade de Oxford. Estudou sânscrito e filosofia oriental, o que influenciou sua poesia. Como seu amigo, o poeta Ezra Pound, foi para a Inglaterra cedo e se tornou figura de destaque no mundo literário inglês. Um dos poetas mais respeitados de sua época, sua poesia iconoclasta modernista, aparentemente ilógica ou abstrata teve impacto revolucionário. Em “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” (1915), o impotente e velho Prufrock acha que “mediu sua vida em colherinhas de café” — a imagem das colherinhas de café refletindo uma existência enfadonha e uma vida desperdiçada. A famosa abertura de “Prufrock” convida o leitor para vielas urbanas de mau gosto que, como a vida moderna, não oferecem respostas às questões da vida: Sigamos então, tu e eu, Enquanto o poente no céu se estende
  43. 43. 44 Como um paciente anestesiado sobre a mesa… (Tradução de Ivan Junqueira) Imagens semelhantes permeiam “A Terra Desolada” (1922), que ecoa o “Inferno” de Dante para evocar as ruas apinhadas de Londres na época da Primeira Guerra Mundial: Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno, Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos, Jamais pensei que a morte a tantos destruíra… (I, 60-63) (Tradução de Ivan Junqueira) Robert Frost (1874-1963) Robert Lee Frost nasceu na Califórnia, mas foi criado em uma fazenda no nordeste dos EUA até os 10 anos. Como Eliot e Pound, foi para a Inglaterra, atraído por novos movimentos poéticos. Escreveu sobre a vida nas fazendas tradicionais da Nova Inglaterra (no nordeste dos Estados Unidos), mostrando nostalgia pelo estilo de vida do passado. Seus temas são universais — colheita de maçã, muros de pedra, cercas, estradas rurais. Embora sua abordagem fosse clara e acessível, seu trabalho muitas vezes só é simples na aparência. Muitos poemas sugerem um sentido mais profundo. Por exemplo, uma noite tranqüila e nevosa pode sugerir, por meio de uma combinação de rimas quase hipnótica, a aproximação não de todo indesejada da morte. De “Stopping by Woods on a Snowy Evening” [“Parado no Bosque Numa Noite de Neve”] (1923): De quem é esse bosque acho que sei. Sua casa, no entanto, fica na aldeia; Ele não me verá parado aqui Olhando seu bosque se cobrir de neve. Embora a prosa americana no período entre guerras tenha feito experimentações relativas ao ponto de vista e à forma, de modo geral os americanos escreviam de maneira mais realista do que os europeus. A importância de enfrentar a realidade tornou-se tema dominante nas décadas de 1920 e 1930: escritores como F. Scott Fitzgerald e o dramaturgo Eugene O’Neill retrataram diversas vezes a tragédia que aguardava aqueles que vivem de sonhos frágeis. F. Scott Fitzgerald (1896-1940) A vida de Francis Scott Key Fitzgerald parece um conto de fadas. Durante a Primeira Guerra Mundial, Fitzgerald se alistou no Exército americano e se apaixonou por uma moça rica e bonita, Zelda Sayre, que morava em Montgomery, no Alabama, onde ele estava estacionado. Depois de ter sido dispensado no fim da guerra, foi em busca de sua fortuna literária na cidade de Nova York para poder se casar com ela. Seu primeiro romance, Este Lado do Paraíso (1920), se tornou um best-seller, e aos 24 anos se casou com Zelda. Nem um dos dois estava preparado para lidar com as pressões do sucesso e da fama, e acabaram dissipando o dinheiro que tinham. Em 1924, mudaram-se para a França para economizar e retornaram sete anos depois. Zelda tornou-se
  44. 44. 45 mentalmente instável e precisou ser internada; Fitzgerald virou alcoólatra e morreu jovem como roteirista de cinema. Fitzgerald garantiu seu lugar na literatura americana principalmente com seu romance O Grande Gatsby (1925), história escrita com brilhantismo e economicamente estruturada sobre o sonho americano do homem que se fez sozinho (self-made man). O protagonista, o misterioso Jay Gatsby, descobre o preço devastador do sucesso em termos de realização pessoal e do amor. Mais do que qualquer outro escritor, Fitzgerald captou a vida de esplendor e desespero dos anos 1920. Ernest Hemingway (1899-1961) Poucos escritores tiveram um vida tão intensa quanto Ernest Hemingway, cuja carreira poderia ter saído de um de seus romances de aventura. Como Fitzgerald, Dreiser e muitos outros romancistas do século 20, Hemingway veio do Meio Oeste dos EUA. Apresentou-se como voluntário para trabalhar como motorista de ambulância na França durante a Primeira Guerra Mundial, mas foi ferido e ficou hospitalizado por seis meses. Depois da guerra, como correspondente de guerra baseado em Paris, encontrou os escritores americanos expatriados Sherwood Anderson, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald e Gertrude Stein. Stein, em particular, influenciou seu estilo conciso. Depois de ficar famoso com o romance O Sol Também se Levanta, ele continuou a trabalhar como jornalista, cobrindo a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial e a luta na China na década de 1940. Durante um safári na África, feriu-se em um acidente com seu pequeno avião; apesar disso, continuou gostando de caçadas e da pesca esportiva, atividades que inspiraram alguns de seus melhores trabalhos. O Velho e o Mar (1952), breve romance poético sobre um pobre e velho pescador, cujo peixe imenso pescado em mar aberto é devorado por tubarões, rendeu-lhe o Prêmio Pulitzer em 1953; no ano seguinte, recebeu o Prêmio Nobel. Acossado por um histórico familiar problemático, doenças e por acreditar que estava perdendo o dom de escrever, o escritor se matou com um tiro em 1961. Hemingway é considerado o mais popular romancista americano. Seus interesses são basicamente apolíticos e humanísticos, e nesse sentido ele é universal. Como Fitzgerald, Hemingway se tornou porta-voz de sua geração. Mas ao invés de retratar seu glamour fatal, como fez Fitzgerald, que nunca lutou na Primeira Guerra Mundial, Hemingway escreveu sobre a guerra, a morte e a “geração perdida” de sobreviventes desiludidos. Seus personagens não são sonhadores, mas toureiros, soldados e atletas durões. Se intelectuais, são profundamente marcados e desiludidos. Sua marca registrada é o estilo claro desprovido de palavras desnecessárias. Usa com freqüência a contenção. Em Adeus às Armas (1929) a heroína morre ao dar à luz dizendo: “Não tenho medo. É só um golpe baixo.” Certa vez comparou sua produção literária a icebergs: “Para cada parte que se revela, há sete oitavos debaixo d’água.”
  45. 45. 46 William Faulkner (1897-1962) Nascido em uma antiga família sulista, William Harrison Faulkner foi criado em Oxford, no estado do Mississippi, onde viveu grande parte de sua vida. Faulkner recria a história da terra e das várias raças que nela viveram. Escritor inovador, Faulkner fez experimentações brilhantes com a cronologia narrativa, diferentes pontos de vista e vozes (inclusive a de párias, crianças e analfabetos) e um rico e absorvente estilo barroco, constituído de frases extremamente longas. Entre os melhores romances de Faulkner estão O Som e a Fúria (1929) e Enquanto Agonizo (1930), duas obras modernistas que fazem experimentações com pontos de vista e vozes para explorar fundo o drama de famílias sulistas sob a tensão de perder um membro da família; Luz em Agosto, sobre as relações complexas e violentas entre um mulher branca e um homem negro; e Absalom, Absalom! (1936), talvez seu melhor livro, sobre a ascensão de fazendeiro que subiu na vida por seu próprio esforço e sua trágica queda. Dramaturgia americana no século 20 A dramaturgia americana foi uma imitação do teatro inglês e europeu até o século 20. Foi somente no século 20 que peças sérias americanas tentaram fazer inovações estéticas. Eugene O’Neill (1888-1953) Eugene O’Neill é a grande figura da dramaturgia americana. Suas diversas peças combinam enorme originalidade técnica com visão renovada e profundidade emocional. As primeiras peças de O’Neill tratam da classe trabalhadora e dos pobres; trabalhos posteriores exploram o mundo subjetivo e destacam sua leitura de Freud e a tentativa angustiada de aprender a conviver com as mortes da mãe, do pai e do irmão. Sua peça Desejo sob os Ulmeiros (1924) recria as paixões escondidas de uma família. Suas peças posteriores incluem as reconhecidas obras-primas The Iceman Cometh (1946), obra cabal sobre o tema da morte, e Longa Jornada Noite Adentro (1956) — poderosa autobiografia em forma dramática, enfocando a própria família e sua deterioração física e psicológica, com a ação transcorrendo no período de uma noite. continua… Fonte: http://embaixadaamericana.org.br/HTML/literatureinbrief/ Kathryn VanSpanckeren é professora de Inglês na Universidade de Tampa. Ela lecionou literatura americana no exterior. Recebeu seu bacharelado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, e seu Ph.D. da Universidade de Harvard.
  46. 46. 47 Alba Krishna Topan Feldman A Identidade da Mulher Indígena na Escrita de Zitkala-Ša e Eliane Potiguara RESUMO: O estudo de crítica feminina tem se desenvolvido para abarcar mulheres de diferentes etnias e também de diferentes formações culturais e épocas. Este trabalho tem por objetivo discutir como a identidade de gênero e etnia se apresenta na escrita de duas autoras de origem indígena, uma brasileira contemporânea, Eliane Potiguara, e outra Estadunidense do início do século XX, Zitkala-Ša. As duas autoras estudadas misturam de forma vivaz a ficção, a escrita jornalística de informação com relação à situação indígena, além de poesia e narração com moldes na oralidade, reafirmando o papel da mulher indígena como contadora de histórias e como educadora. Ambas buscaram por caminhos às vezes diferentes, e muitas vezes conflitantes pela diferença de cultura e objetivo final com relação aos leitores, mas muitas vezes similares, mostrar aspectos desconhecidos e calados dos sentimentos e angústias vividas pela mulher indígena diante de uma sociedade opressora retomando fatos históricos e também as condições contemporâneas de suas tribos e do povo indígena como um todo. 1 – Introdução Eliane Potiguara é descendente de índios Potiguaras do Recife, escritora brasileira contemporânea, enquanto Zitkala-Ša é Yankton Dakota, e viveu no final do século XIX e início do século XX, nação Sioux, Estados Unidos. O foco de estudo deste artigo recairá nas estratégias utilizadas pelas duas autoras como forma de manter e questionar sua condição como mulher e como indígena em períodos igualmente marcados pela violência e repressão em seus respectivos países. Ashcroft (2002), Hall (2002), e Trinh (1989) fornecerão a base teórica para a análise. Uma breve intervenção biográfica das duas autoras será seguido do estudo de excertos que demonstram seus estilos e suas estratégias para tornarem-se agentes de suas etnias e de seu gênero. A primeira parte da análise se focará na etnia e na

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