Almanaque Chuva de Versos n. 397

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Almanaque com trovas, haicais, poesias, e outros gêneros.
Na seção nada de versos, folclore, artigos de literatura, estante de livros, etc.

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Almanaque Chuva de Versos n. 397

  1. 1. 2 INDICE Mensagem na Garrafa Carlos Drummond de Andrade Reverência ao destino.................................... 3 Chuva de Versos ................................................................ 5 Poeta Homenageado Bastos Tigre................................................... 5 Trovador Homenageado Gilberto Guerreiro Barbalho ....................... 16 Jean de La Fontaine O Leão e o mosquito............................................... 20 Profa. Ana Suzuki Aula 10 – Final do curso sobre haicai...................... 22 NADA DE VERSOS Folclore Indígena Wiraccochan e o caminho sagrado.......................... 24 Adriana Falcão Ramsés Terceiro..................................................... 26 Aparecido Raimundo de Souza Celulares................................................................. 28 Zemaria Pinto Prosa Literária......................................................... 31 Deonisio da Silva Expressões e suas origens - Parte III...................... 37 Kathryn VanSpanckeren Panorama da Literatura dos Estados Unidos – Parte I................................................................... 40 Estante de Livros José Lins do Rego Fogo Morto.................................................. 47 Concursos com Inscrições Abertas XXIII Jogos Florais de Porto Alegre......................... 51 Concurso Literário da Academia Feminina Mineira de Letras e da Universidade Livre da Academia Mineira de Letras..................................................... 53
  2. 2. 3 Carlos Drummond de Andrade Reverência ao destino Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá. Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado. Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz. Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer. Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais. Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. Difícil é mentir para o nosso coração. Fácil é ver o que queremos enxergar. Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil. Fácil é dizer "oi" ou "como vai?" Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas... Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa. Fácil é querer ser amado. Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama. Fácil é ouvir a música que toca. Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas. Fácil é ditar regras. Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros. Fácil é perguntar o que deseja saber.
  3. 3. 4 Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta. Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria. Fácil é dar um beijo. Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro. Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro. Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado. Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho. Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata. Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro/ MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro. Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas Publica na Revista de Antropofagia de São Paulo, o poema "No meio do caminho", que se torna um dos maiores escândalos literários do Brasil. 39 anos depois publicará "Uma pedra no meio do caminho - Biografia de um poema", coletânea de críticas e matérias resultantes do poema ao longo dos anos. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil. Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade. Autor de uma vasta obra poética, não entrou para a Academia Brasileira de Letras por um motivo especial: não quis se candidatar.
  4. 4. 5 Uma Trova de Maringá/PR Conêgo Benedito Vieira Telles Á sua mesa haja o pão, partilhe-o com quem não tem. Reparta-o com o irmão, que não o falte a ninguém. Uma Trova de Balneário Camboriú/SC Ari Santos de Campos As saudades não têm fim; a luz do sol se apagou... Secou a flor do jardim e o trem da vida passou. Um Poema de Recife/PE Bastos Tigre POESIA Embora a turba iconoclasta, em fúria, Pretenda depredar os teus altares, Resistirás! Sobrepairando à injúria, Farás honra aos teus numes tutelares. Dos teus próprios fiéis fere-te a incúria; Abandonam-te às chufas, aos esgares Dos novos corifeus de língua espúria, De idéias parvas e expressões alvares. Mas viverás, Poesia soberana, Pelo esplendor solar que te ilumina, Dando-te a excelsa forma parnasiana. Não tombará teu nobre culto em ruína, Pois és, Poesia, o anseio da alma humana De conseguir a perfeição divina. Uma Trova Humorística de Paranavaí/PR Renato Benvindo Frata Meu amor deu-me um pacote embrulhado com barbante eu logo vi que era um trote: - Lindo vidro de laxante. Uma Trova de Pindamonhangaba/SP José Valdez C. Moura Partiu, deixando o seu traço no meu caminho dos sós... - A saudade é esse espaço que existe sempre entre nós.
  5. 5. 6 Um Poema de Recife/PE Bastos Tigre ENVELHECER... Entra pela velhice com cuidado, Pé ante pé, sem provocar rumores Que despertem lembranças do passado, Sonhos de glórias, ilusões de amores. Do que tiveres no pomar plantado, Apanha os frutos e recolhe as flores; Mas lavra, ainda, e planta o teu eirado, Que outros virão colher quando te fores. Não te seja a velhice enfermidade. Alimenta no espírito a saúde, Luta contra as tibiezas da vontade. Que a neve caia, o teu ardor não mude. Mantém-te jovem, pouco importa a idade; Tem cada idade a sua juventude!... Uma Quadra Popular Autor Anônimo Amanhã eu vou-me embora. É mentira não vou não, quem vai embora é meu corpo, mas não vai meu coração. Uma Trova Hispânica da Argentina Irene Mercedes Aguirre La honestidad es decencia para decir las verdades aunque nos cuesten ¡Sapiencia que supera mezquindades! Um Poema de Recife/PE Bastos Tigre ENVELHECER... (II) Boa noite, velhice, vens tão cedo! Não esperava, agora, a tua vinda. Eu tão despreocupado estava, ainda, Levando a vida como num brinquedo... Tens tão meigo sorriso e um ar tão ledo; Nos teus cabelos como a prata é linda! Ao meu teto, velhice, sê bem-vinda! Fica à vontade. Não me fazes medo. E ela assim me falou, em tom amigo:
  6. 6. 7 — Estranha me supões, mas, em verdade, Há muito tempo que, ao teu lado, eu sigo. Mas, da vida na estúrdia alacridade, Não me viste viver, seguir contigo... Eu sou, amigo, a tua mocidade. Trovadores que deixaram Saudades Francisco Neves Macedo Natal/RN (1948 – 2012) Saudade, um grande cercado, sem cancela e sem mourão; onde vivo “enchiqueirado” à sombra da solidão. Uma Trova de São Bernardo do Campo/SP Antônio Vanzella Saudade, lembrança acesa, não de um amor que passou, mas, sim, com toda certeza, daquele amor que ficou! ... Um Poema de Recife/PE Bastos Tigre O EXCELSO INVENTO Homem! Venceste a terra, o ar e o oceano; Dominaste a água, o fogo, a luz, o vento, Puseste asas no corpo: — o aeroplano; Fizeste o rádio: — asas do pensamento. Foste da ameba ao sol: de arcano a arcano, Traçaste as leis do etéreo movimento, Homem divino, ou semideus humano, Corrigiste a Criação com o teu Invento! Mas, ai das tuas invenções supernas! Vivemos como os homens das cavernas, De morte e roubo, corrupções e engodos. Quando farás com que da terra farta, Tudo fraternalmente se reparta E o que a terra produz seja de todos? Uma Trova de Sorocaba/SP Dorothy Jansson Moretti Presença eterna do ausente, perfume em frasco vazado,
  7. 7. 8 saudade é sombra incoerente num coração apagado. Um Haicai de São Paulo/SP Ronnaldo Andrade REFLEXÃO Um homem num banco De praça alisa sem graça Seu bigode branco. Um Poema de Recife/PE Bastos Tigre VITA BREVIS "A vida — dizes tu — tão curta é a vida! Setenta anos... oitenta... e é a morte, é o nada! Não vale a pena tão penosa lida Para tão breve e rápida jornada"... É que medes a vida mal medida, Aos teus cinco sentidos limitada, Entre um tálamo e um túmulo vivida, Pela ambição e o egoísmo partilhada. Mas vive além da tua natureza, Foge à matéria e o espírito exercita Em ações de Bondade e de Beleza; Belo e útil faze quanto em ti palpita E sentirás, com glória e com surpresa, Como a vida é imortal, indefinida... Uma Trova de Belo Horizonte/MG Consuelo Jardim De Miranda Saudade é noite de lua, entre sobrados antigos, e a gente só, numa rua, lembrando velhos amigos. Uma Teia de Trovas sobre Livros, de Fortaleza/CE Nemésio Prata Livros, tende-os por fanal lê-los desde a tenra infância, para serdes, por final, livres da vil ignorância! Capa mole, ou capa dura, folhetim ou calhamaço,
  8. 8. 9 um bom livro é uma armadura mais resistente que o aço! Tendo-se um bom livro à mão e um sofá bem confortável; não existe solidão, nem tempo desagradável! As mãos que corriam sôfregas pelos livros, a folheá-los; hoje, quase inertes, trôpegas, seu consolo é acariciá-los! Um Poema de Recife/PE Bastos Tigre OUVE O TEU CORAÇÃO Não esperes achar compensações na terra: Se fizeres o bem, prêmio nenhum terás. Os que sobem contigo os aclives da serra Não te virão valer, se ficares atrás. Aconselha-te alguém? É aquele que mais erra; Ensina-te a verdade? É o mais falso e mendaz. E o que, violento e hostil, te excita e incita à guerra É o mesmo que desfruta as delícias da paz. Mas não culpes ninguém. É a vida. Aceita a vida... Como sofres, também os outros sofrerão, Que há na maior ventura uma dor escondida. Teu cérebro consulta, ouve o teu coração, E, em ti mesmo, acharás a energia perdida, A censura, o aplauso, o castigo, o perdão. Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ Stélio Autran De alguém que amamos, a imagem que está longe vemos perto... - Saudade é como miragem que engana o olhar no deserto. Uma Glosa de Porto Alegre/RS Gislaine Canales Palhaços Tristes Glosando Silvia Araújo Motta (Belo Horizonte/MG) MOTE: Há dias em que os palhaços têm conflitos sem medida, quando em segredo, aos pedaços
  9. 9. 10 mendigam risos da vida. GLOSA Há dias em que os palhaços também sentem solidão e pedem ternos abraços à insensível multidão! Mesmo até, quando a sorrir, têm conflitos sem medida, e tentam, deles, fugir , escondendo a alma sofrida! Sorrindo, rompem os laços de quaisquer desilusões , quando em segredo, aos pedaços, soluçam seus corações! Esses palhaços tristonhos vendo a alegria perdida, pra alimentar os seus sonhos, mendigam risos da vida. Um Poema de Recife/PE Bastos Tigre INTRANQUILIDADE Este sentir em volta o mundo estreito, Este ansioso buscar diverso norte, Este amaldiçoar a própria sorte Sempre a julgar malfeito o que foi feito, Este querer, o forte, ser mais forte E, no melhor que tenha, achar defeito, Este eterno viver insatisfeito Do que a vida maldiz, mas foge à morte. Tudo isso mostra bem que dalma o prisma Tem diferente cor em cada face; Que a mente humana em dúvidas se abisma. É que a ambição, sem norma e sem medida, Gera a intranquilidade e, desta, nasce A estrênua luta que mantém a vida. Uma Trova de Petrópolis/RJ Ivan Herzog de Oliveira É tão viva tal sentença que tenho na consciência: – A saudade é uma presença constante da tua ausência!
  10. 10. 11 Um Haicai de Santa Juliana/MG Um Poema de Recife/PE Bastos Tigre É TARDE De erro em erro transcorre a mocidade: É o erro o nosso pão de cada dia; E, quando o acerto alheio se copia, Longe se está do acerto e da verdade. Vão-se os deuses de nossa idolatria; Vêm as traições do amor e as da amizade; Uma boca, mentindo, nos persuade, E num olhar que ilude se confia. Novas lições aprendem-se, contudo, Neste, da vida, prolongado estudo Em que a luz, pouco a pouco, se revela. Erros... lições... E escoa-se a existência... Vem-nos, enfim, com os anos, a experiência, Porém, já agora, que faremos dela? Recordando Velhas Canções Viola enluarada (1968) Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle A mão que toca um violão Se for preciso faz a guerra Mata o mundo, fere a terra A voz que canta uma canção Se for preciso canta um hino Louva à morte Viola em noite enluarada No sertão é como espada Esperança de vingança O mesmo pé que dança um samba Se preciso vai à luta
  11. 11. 12 Capoeira Quem tem de noite a companheira Sabe que a paz é passageira Prá defende-la se levanta E grita: Eu vou ! Mão, violão, canção e espada E viola enluarada Pelo campo, e cidade Porta bandeira, capoeira Desfilando vão cantando Liberdade Quem tem de noite a companheira Sabe que a paz é passageira Prá defende-la se levanta E grita: Eu vou! Porta bandeira, capoeira Desfilando vão cantando Liberdade Liberdade, liberdade, liberdade.… _______________ A saudade do Brasil, sentida por Marcos Valle durante uma longa estada (a maior até então) nos Estados Unidos, levou-o a compor uma toada dolente, com harmonia bem brasileira, que traria em sua bagagem de volta sem nome e sem letra. Ainda em Nova York, às vésperas do retorno, ele ouvira de Eumir Deodato elogios entusiasmados a um novo compositor, chamado Milton Nascimento, que despontara no II FIC e para cujas músicas havia escrito os arranjos. Assim, ao chegar ao Rio, procurou logo conhecê-lo, tendo esse encontro acontecido na casa de Tom Jobim, no Leblon. Na ocasião, como seu irmão Paulo Sérgio já havia aprontado a letra da toada que se chamou “Viola Enluarada”, Marcos e Milton tiveram a oportunidade de cantá-la juntos pela primeira vez. Ao contrário de outras músicas de protesto, em que o êxito se baseia quase tão somente na força da letra, “Viola Enluarada” possui, além dos belos versos libertários, uma rica melodia, que a classifica entre as grandes canções brasileiras do século. Isso era reconhecido pelo exigente Jacó do Bandolim, que tinha um projeto de gravá-la, não realizado em virtude de sua morte. Divulgada inicialmente em shows do Quarteto em Cy e da cantora Eliana Pittman, a canção foi lançada pela Odeon num compacto com seus contratados Marcos Vale e Milton Nascimento. Nesta gravação, que tem arranjo de Dori Caymmi, a dupla canta exatamente como o fazia nas reuniões com os amigos. Aliás, a boa participação de Milton, bem à vontade, acontece não por acaso, pois a composição encaixa-se em seu estilo como se por ele tivesse sido feita. Fonte: Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. A Canção no Tempo. v. 2. Uma Trova de Santos/SP Emílio Carlos Alves Esta saudade é um açoite que martiriza minh’alma, flagela por toda a noite e nem de dia se acalma... Um Poema de Recife/PE Bastos Tigre MISTÉRIO DA VIDA Procuras desvendar, cérebro humano, O segredo das outras existências;
  12. 12. 13 Com as teses e as hipóteses das ciências Penetras do mistério o fundo arcano. Mostra-te o acerto erradas conseqüências; Novo engano corrige o velho engano; Mas não recuas e, em labor insano, Sondas almas, espíritos, consciências. E estudas e investigas, de tal sorte Que, transpondo a amplidão indefinida, Em demanda do caos traças o norte. Descobres, entre as sombras escondida, A morte e quanto vem após a morte. E da vida? E que sabes tu, da vida? Um Triverso de Maringá/PR A. A. de Assis Segura, peão… Segura, que a vida é dura e mais duro o chão. Uma Trova de Americana/SP Antônio Zoppi Saudade - coisa engraçada: – é tal qual água corrente que quisesse, já passada, voltar de novo à nascente. Um Poema de Recife/PE Bastos Tigre LUTA INTERIOR Quem vive dentro em mim que ruge e clama Ou murmura, em soluços, uma prece? Que, ora, nas fráguas do prazer se inflama, Ora torturas infernais padece? E em mim, urdindo das paixões a trama, Tece intrigas de amor e de ódio as tece. Não sei se me quer mal, não sei se me ama; Sei que a minha vontade lhe obedece. É um ser somente? Serão dois? suponho Ver e ouvir entre as brumas de um mau sonho. Peleja singular, áspera e bruta. E imagino, em presença desta cena, Que sou a arena e nada mais que a arena E que um anjo e um demônio estão em luta.
  13. 13. 14 Hinos de Cidades Brasileiras Cerejeiras/RO Tua história é forjada na bravura No destemor do nobre bandeirante. Na solidão sem fim dos seringais E a fibra indomável do migrante. Na campina verdejante da fazenda Foi a escola o berço promissor, Onde o projeto dividiu a terra Com justiça ao bravo lavrador. Cerejeiras, Onde o campo plantado É mais verde e bonito, Com o fruto da terra Vicejando no vale E abraçando o infinito. E tens hoje a epopéia do migrante A construir em ti um mundo novo, Traçando sobre a Terra o teu futuro E o feliz destino de teu povo. A nobreza que há na selva da Amazônia Onde teu nome o povo foi buscar. Na união do povo brasileiro Que escolheu em ti viver e amar. Cerejeiras, Onde o campo plantado É mais verde e bonito, Com o fruto da terra Vicejando no vale E abraçando o infinito. Uma Trova de Arapongas/PR André Ricardo Rogério Cubro o sol com a peneira escondendo-me do amor porquanto “à sua maneira” tenho luz mas, sinto dor. Manuel Bastos Tigre nasceu no Recife/PE, em 12 de março de 1882 foi um bibliotecário, jornalista, poeta, compositor, humorista e destacado publicitário brasileiro. Estudou no Colégio Diocesano de Olinda, onde compôs os primeiros versos e criou o jornalzinho humorístico O Vigia, revelando, desde cedo, seu talento literário na composição de odes cívicas e sonetos humorísticos, onde mestres e colegas eram satirizados. Líder estudantil encabeçou movimento em prol da obrigatoriedade de ensino, campanha que viria trazer inestimáveis serviços a população. Formou-se engenheiro civil, em 1906 na Escola Nacional de Engenharia, no Rio de Janeiro. Mais tarde especializou-se em eletricidade nos
  14. 14. 15 Estados Unidos, onde permaneceu cerca de três anos, diplomando-se pela Bliss School de Washington. Regressando, trabalhou como engenheiro do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil. Da sua vida universitária e de uma época trepidante do Rio de Janeiro, tudo revelou, através de seus poemas satíricos, um prenúncio de seu extraordinário humorismo. Sua vida de jornalista iniciou-se em 1902, quando colaborou na revista humorística “Tagarela”. Prestou depois seus serviços nos principais órgãos da imprensa carioca como: “A Noite”, “Gazeta de Notícias”, “A Rua”, “Careta”, “O Malho”, etc. . Foi fundador da revista “D. Xiquote”. No “Correio da Manhà”, manteve durante mais de 50 anos, “Pingos e Respingos”, uma das mais conhecidas seções da imprensa citadina, na qual, glosava com sadio humor, os fatos pitorescos do Rio, do país e até do mundo. (Usava, então, o pseudônimo Cyrano e Cia). Emilio de Menezes introduziu-o nas rodas literárias do Rio Antigo, o que o fez tornar-se grande amigo de Olavo Bilac, Martins Fontes, Guimarães Passos, Plácido Junior, Henrique de Orlando e outros. Suas atividades como escritor, fizeram-no conquistar o 1O. Prêmio de Poesias da Academia Brasileira de Letras, com a obra “Meu Bebê”. Deixou, como poeta, uma bela obra educativa, dedicada à infância. Sob o pseudônimo de “D. Xiquote” publicou muitos livros de versos humorísticos: Saguão da Posteridade, Poesias Humorísticas, Versos Perversos, Moinhos de Vento, etc. Foi homem de múltiplos talentos, pois foi jornalista, poeta, compositor, teatrólogo, humorista, publicitário, além de engenheiro e bibliotecário. E em todas as áreas obteve sucesso, especialmente como publicitário. "É dele, por exemplo, o slogan da Bayer que correu o mundo, garantindo a qualidade dos produtos daquela empresa: "Se é Bayer é bom". Foi ele ainda quem fez a letra para Ary Barroso musicar e Orlando Silva cantar, em 1934, o "Chopp em Garrafa", inspirado no produto que a Brahma passou a engarrafar naquele ano, e veio a constituir-se no primeiro jingle publicitário, entre nós." (As vidas..., p. 16). Prestou concurso para Bibliotecário do Museu Nacional (1915) com tese sobre a Classificação Decimal. Mais tarde, transferiu-se para a Biblioteca Central da Universidade do Brasil, onde serviu por mais de 20 anos. Exerceu a profissão de bibliotecário por 40 anos, é considerado o primeiro bibliotecário por concurso, no Brasil. Decano dos Bibliotecários brasileiros foi agraciado com uma das maiores distinções da classe, sendo-lhe conferido o premio “Paula Brito” ou Premio Gutenberg” e a Resolução no. 5 de 11 de março de 1958 do Poder Legislativo do Distrito Federal, que instituiu o Dia do Bibliotecário, a 12 de março, data de seu nascimento. No dia 12 de março é comemorado o Dia do Bibliotecário, que foi instituído em sua homenagem. Faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1 de agosto de 1957. Fontes: Informativo CRB-10, Porto Alegre, v. 11, n. 32, p.7, fev. 1998. pt.wikipedia.org/wiki/Bastos_Tigre
  15. 15. 16
  16. 16. 17 Amo-te tanto, querida, meu amor é tão sincero, que não existe medida que meça o bem que te quero. Coração é vida, chama, estranho e insondável cofre, sofre demais se não ama, se ama demais, muito sofre! Coração, máquina viva, oscilas dentro do peito, entre a dor da sensitiva e a graça do amor-perfeito. É triste, nas madrugadas, ver crianças seminuas chorando pelas calçadas, ante o silêncio das ruas. Há tanta leveza e graça no teu porte, ao caminhar, que o vento forte que passa, faz-se brisa ao te encontrar... Malgrado ter vida breve, como diz mestre Cascudo, Auta é a menina que escreve um Horto que nos diz tudo... Madrugada... a chuva fina, emoldurando a janela, forma um vulto na neblina e, no vulto, o rosto dela... Nem a mais funda tristeza que nos possa acontecer, deve empanar a beleza do dom de Deus, que é viver. O carinho que me fazes, passada a briga da gente, compensa fazer as pazes para brigar novamente. O tempo, vaga mentira, baú de velhas feridas, vai, qual máquina que gira, triturando nossas vidas.
  17. 17. 18 O trabalho que se exerce com prazer e competência é o mais perfeito alicerce, na construção da existência. Por haver chorado tanto, hoje eu invejo quem chora, pois, se há razão para o pranto, falta-me a lágrima, agora. Por que razão me condenas, jardineiro das idades: – aos quinze tantas verbenas e, agora, tantas saudades. Quando te espero, querida, se por acaso demoras, cada segundo é uma vida, no tique-taque das horas. Que no campo se concentre esforço vasto e profundo fazendo da terra o ventre, que aplaque a fome do mundo. Roseira, dá-me uma rosa, para que eu possa ofertar àquela que é mais formosa, que as rosas que sabes dar. Se a esperança e a caridade são fontes de eterna luz, a fé completa a trindade, que, os homens, ao céu conduz. Se a seca o sertão devasta, ao sertanejo sedento, um só relâmpago basta para lhe dar novo alento. Semeia amor, sem alarde, não vise compensação, pois, um dia, cedo ou tarde, as recompensas virão. Se por medo ou insegurança, cobras sempre o meu amor, nesta espécie de cobrança sou, também, teu cobrador.
  18. 18. 19 Só hoje, vivendo às tontas, na ausência do teu amor, vi que, no acerto de contas, eu fui sempre o devedor. Sonho com belas jornadas em dias lindos, risonhos, mas que ficam confinadas no limite dos meus sonhos. Tendo por teto a marquise, crianças famintas, nuas... são o retrato da crise que o país joga nas ruas… Toda beleza e harmonia, que emanam de simples flor, é Deus fazendo poesia, as mãos repletas de amor. Traíste o melhor amigo? Pois chores a solidão que o pranto é o melhor castigo para crimes sem perdão. Um motivo, na verdade, levou-me a ser Trovador: poder matar a saudade fazendo trovas de amor. Vence o dilúvio que encharca teus dias negros, tristonhos, constrói, de amor, uma barca, e salva, ao menos, teus sonhos… Vê no milagre dos peixes, pescador, esta lição: se tens pouco, não te queixes, divide com teu irmão. Voltaste e a bem da verdade, por uma estranha ironia, eu hoje sinto saudade da saudade que sentia. _____________________
  19. 19. 20 Gilberto Guerreiro Barbalho, nasceu na cidade de São José de Mipibu/RN, em 1926, filho de Izaias Herculano Barbalho e de Anália Guerreiro Barbalho. Fez o curso primário no Grupo Escolar Barão de Mipibu e o secundário no Colégio Estadual de Pernambuco. Diplomou-se em matemática pela Faculdade de Filosofia da UFRJ, em 1952, e em Ciências Econômicas pela mesma Universidade, em 1963. Exerceu o magistério em vários estabelecimentos de ensino no antigo Estado da Guanabara, antes de ingressar por concurso público no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES, no qual foi chefe do Setor de Orçamento e Gerente da Área de Planejamento, aposentando-se em 1980. No BNDES, participou do Curso "Política para Países em Desenvolvimento", na Universidade de Harvard/USA. É autor de uma Monografia histórica sobre o município de São José de Mipibu com o honroso Prefácio do folclorista norte-riograndense Luiz da Câmara Cascudo. Pertence ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, como sócio correspondente, à Academia Brasileira de Trova e a União Brasileira de Trovadores (UBT), Seção Rio de Janeiro. Premiado em diversos concursos, foi eleito Trovador do Ano pela UBT em 1988. Em "talentos da melhor idade", lançou o seu primeiro livro de trovas pela HP comunicação editora. Atualmente, reside em Mariana/MG, onde exerceu outros cargos importantes na área da cultura. Jean de La Fontaine O Leão e o Mosquito "Vai-te, excremento do Orbe, vil inseto!" (Ao mosquito dizia o leão um dia) Quando, clamando guerra, Respondia o mosquito: — Cuidas que tenho susto, ou faço caso, De que rei te intitules? Mais potente É um rei, que tu não és, e eu dou-lhe o amanho, Que me dá na vontade. — Assim falando. Trombeta de si mesmo, e seu herói, Toca a investir, e pondo-se de largo, Lança as linhas, e atira-se ao pescoço Do leão, que enlouquece, Que escuma, e que nos olhos relampeja: Ruge horrendo, e pavor em roda infunde
  20. 20. 21 Tão rijo, que estremece, e que se esconde Toda a gente. — E era obra dum mosquito Tão insólito susto: Atormenta-o essa esquírola de mosca, Que ora elfas lhe pica, ora o costado, Ora lhe entra nas ventas. — Então lhe sobe ao galarim a sanha, Então triunfa, e ri do seu contrário. O invencível, de ver no irado busto, Que dentes, garras, em lavá-lo em sangue Seu dever desempenham. O costado do leão se esfola, e rasga, Dá num, dá noutro quadril com a cauda estalos. Fere a mais não poder, com o açoite os ares. — Desse extremo furor, que o cansa, e quebra. Fica prostrado e torvo. — Eis que o mosquito ali blasona ovante; Qual a investir tocou, vitórias toca, Pelo Orbe as assoalha, Pavoneando gira. — Mas no giro Certa aranha, que estava de emboscada, De sobressalto o colhe, E lhe chupa a ufania. Doutrinas serviçais há nesta fábula. Eis uma: Que o que mais entre inimigos Devemos de temer, são muitas vezes Os mais pequenos deles. Outra é: Que alguém escapa aos perigos, Que em menor lance acaba. Jean de La Fontaine foi um poeta e fabulista francês. Filho de um inspetor de águas e florestas, nasceu na pequena localidade de Château-Thierry/França, em 8 de julho de 1621. Estudou teologia e direito em Paris, mas seu maior interesse sempre foi a literatura. Escreveu o romance "Os Amores de Psique e Cupido" e tornou-se próximo dos escritores Molière e Racine. Em 1668 foram publicadas as primeiras fábulas, num volume intitulado "Fábulas Escolhidas". O livro era uma coletânea de 124 fábulas, dividida em seis partes. La Fontaine dedicou este livro ao filho do rei Luís 14. As fábulas continham histórias de animais, magistralmente contadas, contendo um fundo moral. Escritas em linguagem simples e atraente, as fábulas de La Fontaine conquistaram imediatamente seus leitores.Várias novas edições das "Fábulas" foram publicadas em vida do autor. A cada nova edição, novas narrativas foram acrescentadas. Em 1692, La Fontaine, já doente, converteu-se ao catolicismo. Antes de vir a ser fabulista, foi poeta, tentou ser teólogo. Além disso, também entrou para um seminário, mas aí perdeu o interesse. A sua grande obra, “Fábulas”, escrita em três partes, no período de 1668 a 1694, seguiu o estilo do autor grego Esopo, o qual falava da vaidade, estupidez e agressividade humanas através de animais. Faleceu em Paris, 13 de abril de 1695.
  21. 21. 22 Profa. Ana Suzuki Aula 10 Final do nosso cursinho Existem muitos sites interessantes para quem deseje aprimorar-se como haicaísta e também grêmios que fornecem kigôs, organizam concursos, publicam trabalhos dos associados, etc. Aí vão alguns endereços: CAQUI - REVISTA BRASILEIRA DE HAICAI http://www.kakinet.com UNIVERSO DO HAICAI http://universodohaicai.vilabol.uol.com.br HAICAI YOGABRASIL http://www.revistayogabrasil.hpg.ig.com.br/haicai_ind ex.htm REVISTA DO HAIJIN http://www.sumauma.net/haijins/haijinsp.html Aqui termina o nosso curso de haicai. Os que leram, espero que tenham gostado. Aos que levaram a sério, parabéns. Haijin é a pessoa que cultiva o haicai (em japonês haiku). Se você quer mesmo tornar-se um haijin, trabalhe nisso. Basta escrever "haicai" num site de busca que surgirão muitas opções para que você continue o estudo. Ana Suzuki
  22. 22. 23
  23. 23. 24 Folclore Indígena Wiraccochan e o caminho sagrado Antes que os Inkas reinassem, conta-se que no princípio Wiraccochan criou um mundo escuro e logo ordenou ao céu e a terra a criarem uma raça de gigantes. A estes ele mandou que vivessem em paz para que o servissem, mas como não foram recíprocos com ele, os converteu em pedras, enviando-lhes um dilúvio mundial chamado Unu Pachacuti, que quer dizer a água que transformou o mundo. Passado o dilúvio e a seca na terra, Wiraccochan decidiu povoa-la novamente e para fazê-lo com mais perfeição determinou criar a luz que dessem claridade, para isso foi ao lago Titicaca e mandou que ali saíssem o Sol, a Lua e as estrelas, e subissem ao céu para dar luz ao mundo. Nessa época a Lua tinha mais claridade que o Sol, para diminuir sua claridade ela colocou um punhado de cinzas na cara e desde essa época a Lua tem a cor cinza. Depois que tudo isso foi realizado, ao sul apareceu o enviado de Wiraccochan, que era um homem já adulto, que demonstrava ser uma pessoa de grande autoridade chamado Wiraccochan o Tunupa. Vestia uma túnica que ia até os pés, tinha o cabelo curto, uma coroa em sua cabeça e um bastão que era levado antigamente pelos sacerdotes e astrônomos. As costas ele levava um grande saco de presente que eram dado a todos aqueles que o escutavam-no. Logo se dirigiu a Tiahuanaco e neste lugar esculpiu em uma rocha grande todas as nações que pensava criar, depois iniciou sua peregrinação criando coisas maravilhosas pelas Serras, mandando sair os povos de suas Paqarinas dizendo: “Criaturas e nações, eu os peço para saírem do fundo da terra, multiplicarem-se e construírem cidades aonde possam viver em paz”. E assim saíram do solo alguns lagos, fontes, vales, cavernas, árvores e montanhas. A medida que iam surgindo os povos, ele os pintavam e os vestiam com túnicas coloridas, ensinado-os também a língua que cada nação deveria falar e cantar, além de ensiná-los a semearem as terras em que iriam viver. Assim, caminho pelos Andes e outras montanhas da terra ele
  24. 24. 25 foi criando povos e dando nomes a tudo o que ele criava. Mostrava os frutos que eram bons para os povos comerem,as ervas que eram boas para a cura e terminou por colocar nome em todas as ervas e indicou que época elas iriam florescer e frutificar. Também deu ordem aos homens como eles deveriam viver, amando uns aos outros sem causar dano a nenhuma criatura injuriando-a; logo depois ensinou-lhes a cultivar, para isso cavou a terra com seu bastão e de dentro dela surgiu uma semente de milho que começou a florescer juntamente com os outros alimentos. Em sua peregrinação, ele encontrou algumas nações rebeldes que contestavam sua autoridade, então ele demonstrava seu grande poder transformando-os em pedras. Estas transformações foram realizadas em Tiahuanaco, Púcara e Jauja. Nesses lugares existem até os dias atuais montanhas com formas humanas. Assim ele chegou a província de Cacha habitada pelos Canas, e estes não conhecendo-o saíram armados, dispostos a matá-lo. Sabendo de suas intenções Wiraccochan fez com que jorrasse fogo vulcânico sobre eles; estes com medo de serem queimados, largaram suas armas e começaram a venerá-lo. Vendo essa atitude, ele pegou seu bastão e ordenou que o fogo parasse. Em memória a esse feito, foi edificado um suntuoso templo e hoje em dia ainda pode-se ver nos montes de Cacha a marca de um grande incêndio que há consumidos pedras, transformando-as em seres leves com as plumas, assim foi criado as pedras de lava. Dizem que depois a esse ocorrido, Wiraccochan seguiu em direção ao povoado de Urcos e subiu até uma alta montanha onde ordenou que de lá saíssem os Urcos. Com o tempo foi erigido nesse local um templo com uma imagem de Wiraccochan feita em ouro. Logo Wiraccochan prosseguiu seu caminho e chegou a uma região onde criou um homem com o nome de Alcaviza e dando ao lugar o nome de Cuzco; deixando com Alcaviza uma mensagem que seria dada posteriormente ao Inkas. Wiraccochan a quem os povos chamava de Tunupa, Taracapa, Wiraccochan pachayachicachan, Bichaycamayoc, Cunacuycamayoc Pachacan, que quer dizer o enviado de Wiraccocha, sua fonte, o encarregado do presente e conhecedor do tempo, dizem que se dirigiu ao povoado de Curaca Apotambo (Ollantaytambo), a aonde chegou quando havia a celebração de um casamento. Os habitantes escutaram suas palavras de amor com muita atenção, mas o povo não fez uso delas, e Wiraccochan os repreendeu amorosamente, mas vendo que aquele povo estava arrependido de suas ações ele ensinou a eles todo os conhecimentos sagrados e deu-lhes seu bastão. Em sua memória foi construído em uma montanha um busto que é a imagem de Wiraccochan e que até os dias de hoje é muito venerada. Wiraccochan prosseguiu seu caminho fazendo suas obras até chegar ao Equador. Antes de deixar a Terra, informou a todos os povos que muitas coisas iriam acontecer no futuro. Lhes disse que iriam surgir muitas pessoas dizendo ser Wiraccochans e que eles
  25. 25. 26 não deveriam crer neles. Dito isto ele mergulhou no mar caminha sobre as águas como se fosse espuma… Com o passar do tempo, Ollantaytambo floresceu graças aos conhecimentos deixados por Wiraccochan e o bastão ouro que ele lhes deu se transformou em ouro no momento em que nasceu uma criança que recebeu o nome de Manco Capac que veio a ser o primeiro Inka, com esse bastão Manco Capac se dirigiu a um local na Serra onde encontrou uma mensagem que Alcaviza havia guardado seguramente até sua chegada e fundou uma cidade que como o tempo seria a capital do Inkas: Cuzco. Fonte: http://www.xamanismo.com/lendas.asp?c=24 Adriana Falcão Ramsés Terceiro O nome dele era Ramsés Terceiro Gonçalves de Souza, mas quando o povo chamava “Zé”, ele vinha na hora. É que lá em São Miguel dos Milagres não havia quem decorasse nome tão qualificado,”Ramsés de quê, menino?”. Cresceu subindo no coqueiro e escutando conversa de turista: isso aqui sim é o paraíso. Achava uma grande besteira. Qualquer lugar é o paraíso com essa lourinha ao lado, moço, me desculpe. Parou de estudar na quinta, ou foi na sexta, mesmo assim ainda lembrava o nome das capitais de cada estado brasileiro, de Mato Grosso do Sul inclusive. Um belo dia irritou-se, saiu de São Miguel e foi pra Maceió, ele mais seu primo Neílson. Desse, nunca mais ouviu falar, se não morreu, esqueceu-se dele. Vai ver foi isso. O problema de Maceió é que lá era grande mas era pequeno, portanto veio morar no Rio de Janeiro. Foi em 1994, não havia de esquecer, no dia em que o Brasil ganhou o título. O italiano lá errou o gol, ele tomou mais uma, comprou a passagem e quando acordou já estava naquele Itapemirim amarelo assim, “Maceió — Rio de Janeiro”. No que chegou, ligou logo para a mãe, “adivinha onde é que eu tou?”, ela não havia de adivinhar era nunca. “Só não me diga que é no manicômio”, ô mulher pessimista, dona Maria do Socorro.
  26. 26. 27 Arranjou um bico aqui, outro ali, acabou ajudante de pedreiro num prédio enorme de tão grande, emprego certo que durou vários meses. De lá pra cá não parou mais. Foi porteiro, eletricista, camelô, ladrão de carro, motoboy, evangélico e balconista de loja, só não lembra em que ordem exatamente. Mandava dinheiro para casa, quando dava, e ainda conseguiu juntar novecentos e cinquenta. Quando ia completar vinte e nove anos, tempos atrás, resolveu passar o aniversário em casa. Era saudade da família. Foi pra São Miguel sem avisar, mas quem levou o susto foi ele. Descobriu que não tinha vinte e nove, tinha trinta e quatro, e que seu aniversário não era aquele dia. Dona Socorro contou tudinho com a maior sinceridade. Esqueceu de registrar o menino, passaram-se anos, mais cinco nasceram, e ela acabou perdendo a lembrança do dia exato do seu nascimento. — Acho que foi lá pro fim do mês, só não me lembro de qual mês — disse. — Se não me engano, você é filho de Seu Tabosa da venda, e como eu fiquei com ele por três anos, de 64 a 67, portanto você nasceu em 65. — Em 70 não era melhor não, mãe? — pelo menos era o ano da Copa, mas como dona Socorro já tinha tomado oito cervejas, não adiantava perguntar mais nada. Conformou-se. Desde então procura seu horóscopo em todos os signos e aquele que parecer mais, ele acredita. Muitas vezes dá Sagitário, geralmente. No dia que leu “clima propício para o amor”, conheceu uma moreninha na Central-Rodoviária que despertou seu interesse, parece até mentira. Montaram casa, compraram colchão, mesa, cadeira, e até almoço ela fazia. Era amor pra duzentos anos, ele dizia. Engano seu. Oito meses depois ela foi- se. Rodou foi tudo procurando a peste, de casa em casa, de bar em bar, não é que ela já estava com outro? Encontrou os dois na parada de ônibus. Não tinha a intenção de agredir ninguém, o miserável é que veio pra cima dele. Fugiu com a ideia concentrada apenas em não ficar louco, coisa que se tornava cada vez mais difícil com aquele inferno na lembrança, a cabeça do miserável na pedra, o sangue correndo e uma velha gritando: “Meu Pai, Nosso Senhor!”. Pra que tanta gritaria? Esse negócio de complexo de culpa é complicado mesmo, realmente. Ela é que arranjou outro, o outro é que partiu pra cima dele, e quem se arrependeu foi ele próprio, vê se pode, porque o tal do miserável ficou um pouco abaixo do juízo depois de todo o acontecido. Desse dia pra cá não encontrou mais nenhum dos dois, graças a Deus. Parece que depois ela conheceu um gringo e hoje está pros lados da Alemanha, ou coisa parecida, isso é problema lá dela. Nunca mais ligou pra mãe, nem arrumou emprego certo, nem quis saber de mulher fixa. Em compensação passou a comemorar seu aniversário todos os dias do ano, de segunda a domingo. Tomava conta de um carro aqui, arranjava uma coisa ali, vendia lá, deixou o cabelo crescer, voltou a
  27. 27. 28 fumar e a beber, tinha um batimento cardíaco triste, até que deu pra conversar com cachorro vira-lata, conversa besta. Não é que o infeliz do cachorro era tão sem esperança que chegou a lhe convencer que a vida não prestava? Atualmente, Zé tem a impressão de que está com trinta e sete anos completos. Desde abril está no manicômio. Toda noite reza pra São Miguel dos Milagres. Está só esperando. Quando fala que seu nome é Ramsés Terceiro, comentam que ele é doido. Fonte: Adriana Falcão. O Doido da garrafa. Roteirista e escritora brasileira, nasceu no Rio de Janeiro, e mudou-se para Recife aos 11 anos de idade. Teve uma história de vida trágica: o pai se suicidou e a mãe, um tempo depois, tomou uma dose fatal de comprimidos para dormir. Formada em Arquitetura, voltou para o Rio de Janeiro junto com João Falcão, seu marido, que se mudou para lá a fim de fazer teatro. Começou a escrever os diálogos, e os atores começaram a gostar de seus diálogos e a usá-los nas peças. Nunca exerceu a profissão de arquiteta, pois logo descobriu sua vocação para a literatura. Seu primeiro livro, voltado para o público infantil, “Mania de Explicação”, teve duas indicações para o Prêmio Jabuti/2001 e recebeu o Prêmio Ofélia Fontes — “O Melhor para a Criança”/2001, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Em 2002, publicou Luna Clara & Apolo Onze”, seu primeiro romance juvenil. “Seu romance “A Máquina” foi levado aos palcos por João Falcão. Na televisão, Adriana colaborou em vários episódios de “A Comédia da Vida Privada”, “Brasil Legal” e “A grande família”, todos da Rede Globo. Adaptou, com Guel Arraes, “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, para a TV, posteriormente levado ao cinema. Outros livros da escritora:“Pequeno dicionário de palavras ao vento” (2003); “A tampa do céu” (2005)-ilustrações de Ivan Zigg e, em conjunto com outros escritores,”Histórias dos tempos de escola: Memória e aprendizado” (2002); “Contos de estimação” (2003); “A comédia dos anjos” (2004); “PS Beijei” (2004); “Contos de escola” (2005); “O Zodíaco – Doze signos, doze histórias” (2005); “Tarja preta” (2005); “Sonho de uma noite de verão” (2007) e “Sete histórias para contar” (2008). Aparecido Raimundo de Souza Celulares NO ÔNIBUS LOTADO, O CELULAR do passageiro, sentado ao lado da porta da saída, entoa a 9ª Sinfonia de Beethoven. No terceiro toque o sujeito decide. -Alô?Alô?Alô?… Diante da mudez do aparelho, o cidadão espia, meio desconcertado, para um lado e outro, a fim de averiguar se alguém olha para ele. Ninguém parece
  28. 28. 29 preocupado, embora todas as atenções estejam discretamente voltadas para sua pessoa. Nova chamada. Dessa vez, espera uns segundos. Atende, ansioso. -Alô?Alô?Droga!Alôooa?… Nada. Uma moça trajando conjunto verde – parece um abacate amarrado pelo meio – viaja logo atrás. O telefone dela, com o “Vamos fugir” também resolve se fazer presente. Ao atender, seu rosto se ilumina num sorriso mágico. – Tô chegando, amor… Há uma pequena pausa. – Você já está no ponto? Devo pintar aí dentro de uns cinco ou seis minutos… Novo intervalo. – Te amo. Beijos. Um terceiro celular começa a encher com a Pantera Cor de Rosa. A colegial com o rosto abarrotado de espinhas emite uns gritinhos estridentes antes de iniciar a conversação. – Rodriguinho, seu sem vergonha. Isso lá é hora de ligar? A 9ª Sinfonia de Beethoven volta à baila e se mistura com a voz da adolescente. -Alô?Alô?Alô? Desta vez a ligação se completa. O passageiro ao lado da porta da saída consegue, finalmente, manter o diálogo com seu interlocutor. – Legal, cara. Parabéns! Gesticula e fala alto o suficiente para irritar um defunto. Sem um pingo de decência, age como se perto dele não houvesse uma leva de pessoas que merecesse, ao menos, respeito e educação. -Até que enfim. Então você está indo pra Portugal? Faça uma boa viagem, meu amigo. O Pedro te manda um abraço. A Luíza um beijo, o Carlos um puxão de orelhas… “Vamos fugir” volta a disparar no telefone da moça de verde. Ela prontamente atende: -Amor, tenha um pouco de paciência. Que loucura! O quê? Fala mais alto… De repente, a coisa toma proporções descomunais. A colegial pisa em ovos de tão indignada e irritada. – Vá pro inferno, Rodriguinho. Não me racha a cara! O sujeito no banco ao lado da porta parece um lunático. – Seu avião sai a que horas? As 19?De onde? Eu…O quê? Lado esquerdo do coletivo, um casal assiste a tudo com os olhos arregalados. A certa altura, o rapaz comenta, num cochicho: – É mole ou quer mais? -As pessoas – observa a moça igualmente aos murmúrios – perderam o senso do ridículo. A sensatez foi pro brejo. Ninguém respeita mais a individualidade. -Virou febre esse negócio. Todo mundo agora tem celular. Li, ontem, no jornal, que estão à venda, no mercado, aparelhos celulares de última geração para cachorros.
  29. 29. 30 Risos. – Fala sério? Qual o quê! Isso é piada! – Não é não. Agora, além de hospitais, hotéis e restaurantes, os cachorros poderão contar com mais essa vantagem. Celular para cães e gatos. – Se for verdade o que está me dizendo, minha nossa. Será o cúmulo do absurdo. A que ponto chegamos. Olhe só para essa gente. Parece um bando de alucinados. Ninguém se entende. Um homenzarrão puxa a campainha. Pessoas se levantam. Outras tantas tomam posição para apear. – Vá se danar, Ro… – Olhe, se lá em Portugal não tiver mulher que sirva, volta e leva uma brasileira. As mais bonitas do mundo estão aqui, meu chapa… – Rodriguinho, eu pensava, até agora, que você fosse do conceito. Me enganei redondamente. Vá pro inferno, ta ligado? A moça de verde pula do banco ao ver o rapaz que a espera, na calçada defronte à porta de acesso de uma loja de departamentos. Passa a mão no telefone e disca um número da memória. – Ei, amor, olha euzinha aqui. Cheguei. Já me enxergou? Estou te vendo. Me dê adeusinho! Nessa hora, então… -A mãe te manda um abraço. Vá com Deus. Chegando em Lisboa, ligue… Entendeu? Ligue, ligue, ligue, surdo!… No mesmo clima. -Rodriguinho, ô, sem noção, o bagulho por aqui tá tenso. Meu namorado não vai gostar. Com certeza levará um “lero” contigo, e, depois, com certeza, te comerá na porrada, meu… A moça de verde, afoita: – Com licença, meu senhor… Com licença… -Calma, senhorita. Vou ficar aqui também. Deixe ao menos o motorista parar e liberar a traseira. -… De Lisboa? Que droga!! -… Ro, Ro, cuidado com a tribo, malandro. Quer saber? Estou injuriada. Vá se danar de verde e amarelo… -…Amor, amor, estou descendo… Sobra o casal acomodado no lado esquerdo, rindo da galera a mais não poder. – Odeio celular – pondera a jovem, depois que todos saem – parece que esses trocinhos controlam nossa vida. Aliás, dominam, vivem no nosso pé. Jogaram, definitivamente, para o ralo a nossa intimidade. – Estou com você – completa o rapaz –O negocio é bom, mas, em certas horas, se torna deselegante, cai no vulgar. Tira a privacidade. Imagine, daqui a algum tempo, como lhe falei, ainda há pouco, a gente cruzando na rua, com essas madames, metidas à besta, atendendo ao telefone. “É pra você, Fifizinha!”. E o animal, posudo: “– Agora não posso, estou ocupada, lendo Os Melhores Contos de Cães e Gatos do meu amigo Flavio Moreira da Costa. Peça para me ligar mais tarde”. A jovem se abre num sorriso contagiante. Pensa em responder alguma coisa. Entretanto, seu celular estronda Tchaikovsky. – Desculpe. Meu marido…
  30. 30. 31 Pede licença, baixa a cabeça. Sem tirar o aparelho do ouvido se acomoda num banco lá na frente, ao lado do cobrador. Fonte: Aparecido Raimundo de Souza. A Outra Perna do Saci. São Paulo: Ed. Sucesso, 2009. Aparecido Raimundo de Souza, jornalista e escritor nasceu em Andirá/PR, em 19 de março de 1953. Escreve, desde os 14 anos, mas só conseguiu publicar seu primeiro trabalho em livro, em 2006. Em Osasco, onde morava com os pais, passou a publicar frases no Jornal Diário de Osasco, onde, mais tarde, ao completar 18 anos, passou a ser responsável por uma coluna chamada “Sociedade”. Escreveu e publicou, os livros "Quem se abilita?" (sem o h mesmo), com prefácio do escritor Paulo Coelho, "As mentiras que as mulheres gostam de ouvir" entre cerca de 20 livros publicados. Os textos retratam o cotidiano das pessoas. São escritos leves e soltos, alguns cheios de intransigências, outros salpicados de ironia e muita irreverência e picardia. Seu estilo lembra o escritor gaúcho Luiz Fernando Veríssimo, embora tenha criado uma grafia própria e inconfundível que cativa o leitor. Segundo Aparecido: “Nenhum livro, por mais esdrúxulo que seja seu tema central, deve ser considerado de qualidade menor. Não devemos esquecer que há público para todos os gostos e gêneros. A moda ‘Crepusculesca’ está bem em evidência, assim como outros temas, como o espiritismo, os livros de autoajuda, os romances de amor, os romances biográficos, os de enredos policiais, enfim, tudo é valido, tudo é literatura e, por essa razão, o bom leitor, o leitor assíduo e atento, assim como eu me considero, deve ler de tudo, inclusive, bulas de remédios.” Jornalista da “Isto é”, está radicado há cerca de 30 anos em Vila Velha/ES. Zemaria Pinto Prosa Literária O texto em prosa comum é, tradicionalmente, aquele elaborado em parágrafos e um tipo de mensagem composta por signos lingüísticos em sentido denotativo, selecionados e combinados linearmente, de maneira a tornar essa mensagem clara e objetiva e a mais próxima possível da realidade e da verdade. Sendo um trabalho de elaboração artística, a prosa literária, entretanto, é um tipo de mensagem composta por signos lingüísticos selecionados e combinados de maneira que torne tal mensagem diferente, especial, ou seja, dotada de LITERARIEDADE. A literariedade é um ingrediente que só a mensagem literária possui, pois ela é composta de um tipo de linguagem em que predomina a conotação, os efeitos sonoros, a
  31. 31. 32 ambigüidade, a polivalência, o neologismo, o rompimento com as normas de usos dos signos lingüísticos e com as normas gramaticais; a literariedade, assim, é tudo o que torna a obra literária um tipo de discurso diferente de todos os demais (por exemplo do científico, do jornalístico, etc.). Além disso, a obra literária é FICÇÃO: tudo que nela existe é INVENÇÃO DO AUTOR, por mais real, por mais verossímil que pareça. A obra literária é um mundo muito parecido com o mundo real: é uma imitação (=representação) da realidade através de palavras, de signos. A palavra rosa, no texto literário, representa a rosa que existe na realidade. A prosa literária, quanto ao conteúdo e à forma de transmissão da sua mensagem, pode ser uma obra de gênero: a) DRAMÁTICO, se for uma obra em prosa elaborada com o fito de ser REPRESENTADA num palco. Nessa forma de representação, são as ações (os “fazeres”) das personagens, no decorrer da peça teatral, que “contam” ao receptor a história (o enredo). São de gênero dramático: a comédia, a tragédia, a tragicomédia, a ópera, etc. b) NARRATIVO, se for uma obra em que alguém (o NARRADOR) conta uma história (ENREDO) ,produto de um conjunto de AÇÕES desempenhadas por pessoas fictícias (PERSONAGENS), num TEMPO, num ESPAÇO e numa SEQÜÊNCIA que dá, a essa história contada, uma idéia de VERACIDADE (= VEROSSIMILHANÇA) por mais mentirosa e impossível que ela seja. São de gênero narrativo as seguintes prosas literárias: o romance, a novela, o conto, a crônica, a fábula (e o apólogo) e a parábola. A seguir, focalizaremos com detalhes o Gênero Narrativo, já que a maioria das obras literárias brasileiras e portuguesas em prosa pertencem a esse gênero. A PROSA NARRATIVA I- ELEMENTOS DA NARRATIVA LITERÁRIA: 1. a AÇÃO: é a soma de gestos e atos desempenhados pelas personagens que compõem o enredo. Ela pode ser: a) externa = uma viagem, o deslocamento de uma sala para outra, etc.; b) interna = é toda a ação que se passa na consciência ou inconsciência de quem narra. Esse tipo de ação é própria das narrativas psicológicas ou introspectivas (veremos mais adiante) As ações, na prosa narrativa de ficção, têm que parecer verdadeiras, mesmo que elas não ocorram na realidade; para isso, é preciso que, desde o início, haja coerência na conduta da personagem. Por exemplo: do início ao fim, o cão Quincas Borba “pensa”, o que faz parecer algo possível e natural para o leitor. Um cão “pensar” seria inverossímil (até numa obra literária) se isso começasse a acontecer de repente, no meio da história, por exemplo. A ação, em suma, é o “pôr em movimento” personagens que se relacionam entre si. Como na vida, essas relações podem ser de amor, de amizade, de
  32. 32. 33 competição, de oposição, etc. A ação é o elemento essencial de toda e qualquer narrativa, pois é o que distingue esse tipo de discurso dos demais ( de uma descrição, de uma dissertação, etc.). 2. o ENREDO: deverbal de “enredar”, prender, colher na rede. É sinônimo de HISTÓRIA, TRAMA, ASSUNTO, INTRIGA. “É a composição de atos (ações) feitos pelas personagens”(Aristóteles) “É uma seqüência de acontecimentos encadeados rumo ao desenlace ou epílogo (=final da história)”(Massaud Moisés) “É uma narrativa de acontecimentos arranjados em sua seqüência temporal”(E.M.Forster) “É o arranjo de uma história, é o corpo de uma narrativa, é a maneira como a matéria é narrada ao leitor. ”(Samira Nahid de Mesquita) O enredo pressupõe um nexo de causalidade entre os acontecimentos. Numa narrativa, o que precede o enredo é o PRÓLOGO da narrativa e o desfecho do enredo é o EPÍLOGO. Toda narrativa, portanto, tem um começo, um meio e um fim, ou seja, o PRÓLOGO, a TRAMA ou ENREDO e o EPÍLOGO. Assim, conforme a ordenação dos fatos e situações narradas, o enredo pode apresentar uma organização linear, mais próxima da ordem narrativa oral, da narrativa tradicional (mitos, lendas, casos, contos populares, etc.) em que se respeita a cronologia (narra-se antes o que aconteceu antes), obedece-se à ordem começo, meio e fim, ao princípio da causalidade (fatos ligados pela relação de causa e efeito) e à verossimilhança (procura-se a aparência da verdade, respeita-se a logicidade dos fatos). O enredo é a própria estruturação da narrativa de ficção em prosa. Ele será não o somatório, mas o produto das relações de interdependência entre a sucessão e a transformação de situações e fatos narrados, e a maneira como são dispostos para o ouvinte e o leitor pelo discurso que narra. 3. a PERSONAGEM: do latim “persona” = máscara de ator; atuante, actante. As personagens , na narrativa literária e no teatro, são os seres fictícios construídos à imagem e semelhança dos seres humanos reais; são os que praticam as ações da narrativa: os agentes, portanto. Animais ou seres inanimados só são personagens quando têm características e ações humanas (personificação). As personagens, por conseguinte, representam PESSOAS : são os habitantes do mundo ficcional, seres que não existem no mundo real e fora das palavras, por isso, elas são um “problema lingüístico”. Não existe ação sem personagem e personagem sem ação. As personagens são classificadas quanto às ações que praticam e quanto à sua importância no enredo. - TIPOS DE PERSONAGENS QUANTO ÀS AÇÕES QUE PRATICAM (Forster): a) PLANAS: sua personalidade não revela surpresa; são personagens estáticas, infensas à evolução. Subdividem-se em tipos (personagens excêntricas, exageradas, mas sem deformação) e caricaturas (
  33. 33. 34 personagens que tem características que provocam tamanha distorção que chegam a ser ridículas; são personagens cômicas); b) REDONDAS: apresentam várias qualidades ou tendências, repelindo todo o intuito de simplificação. São as personagens que surpreendem o leitor; são dinâmicas porque evoluem. Subdividem-se em caracteres (quando a complexidade se acentua, a mudança de personalidade é tal que gera no enredo conflitos indissolúveis) e símbolos (quando a complexidade parece ultrapassar a fronteira que separa o humano do mítico, o natural do transcendental. Capitu é um exemplo perfeito). - TIPOS DE PERSONAGENS QUANTO À IMPORTÂNCIA NO ENREDO: a) PERSONAGENS PRINCIPAIS: A1. protagonista: herói ou heroína da trama (ou anti-herói), é aquela que ganha primeiro plano na narrativa; A2. antagonista: vilão, é o opositor ou oponente da protagonista (é o protagonista às avessas), aquele que cria os obstáculos da trama; b) PERSONAGENS SECUNDÁRIAS: B1. adjuvante ou coadjuvante: é a personagem que está atuando ao lado (=aliada) da protagonista ou da antagonista, podendo ser humano ou não (uma fada, um objeto “encantado”, etc.) B2. auxiliar ou árbitro ou juiz: é a personagem que funciona como um elemento decisivo dentro de um conflito, auxiliando a fazer ou a desfazer os obstáculos da trama, pendendo para a protagonista ou para a antagonista, respectivamente. B3. figurativa : suas ações ou mera presença no enredo pouco ou em nada alteram os fatos da narrativa. 4. O TEMPO: é o elemento que ordena as ações na narrativa, encadeando-as e produzindo uma relação de causa-efeito entre elas. O TEMPO CRONOLÓGICO OU HISTÓRICO é o mesmo do relógio, do calendário. É o tempo da NARRATIVA LINEAR (antes/depois), como o do conto, da novela e da maioria dos romances. O TEMPO PSICOLÓGICO é o infenso a qualquer ordem. Os episódios são apenas justapostos, sem que haja entre eles qualquer vínculo lógico, sintático- semântico. É o tempo da NARRATIVA PSICOLÓGICA OU INTIMISTA. 5. O ESPAÇO: é o lugar, o cenário onde as ações são feitas pelas personagens. Os espaços podem ser urbanos, naturais, o interior de uma casa, de um teatro, etc. Nas narrativas psicológicas, o espaço é a mente do narrador ou de uma personagem. 6. O NARRADOR é quem conta o enredo. Ele pode participar da história ou apenas ser um mero observador. Na verdade, como tudo na narrativa, o narrador é também uma das invenções do autor. Dependendo da posição em que se coloca o narrador para contar a história (da pessoa verbal que narra - 1a ou 3a ), ou seja, do FOCO NARRATIVO ou PONTO DE VISTA, podemos classificar, segundo Friedman, o narrador como:
  34. 34. 35 NARRATIVA EM PRIMEIRA PESSOA : A) NARRADOR PROTAGONISTA (autodiegético) : é o narrador que é também personagem protagonista da narrativa; B) EU COMO TESTEMUNHA (homodiegético) : é o narrador que também é personagem secundária da narrativa; C) NARRADOR ONISCIENTE INTRUSO SUBJETIVO: é o narrador que conhece todos os demais elementos da narrativa e que não é personagem; conta a história em primeira pessoa; NARRATIVA EM TERCEIRA PESSOA: A) NARRADOR ONISCIENTE INTRUSO OBJETIVO: é o narrador que conhece todos os demais elementos da narrativa e que não é personagem; conta a história em terceira pessoa; B) NARRADOR ONISCIENTE NEUTRO (heterodiegético): é o narrador observador , que não interfere na história em nenhum momento e que não conhece os fatos com antecedência (conhece no momento em que o fato acontece); NARRATIVA SEM NARRADOR: as personagens agem por si. (não há ninguém contando a história, só o drama): . narrativa sem narrador e com apenas uma personagem: ONISCIÊNCIA SELETIVA MÚLTIPLA . narrativa sem narrador e com várias personagens: ONISCIÊNCIA SELETIVA. II- TIPOS DE PROSA NARRATIVA 1. ROMANCE: é a obra em prosa narrativa e de ficção mais extensa que existe, por isso contém muitos episódios; é o tipo de narrativa em que várias personagens e ações se interrelacionada e em que os espaços e as personagens são caracterizados mais detalhadamente. O enredo do romance está sempre na íntegra, ou seja, caso o leitor queira ler sem interrupções a história toda contada no romance, ele pode fazê-lo. Há vários tipos de romances: o policial, o sentimental, o psicológico, o experimental, o histórico, o de aventuras, o de “capa e espada”, o cientificista, etc. Podem ser românticos, realistas-naturalistas, modernistas, etc., quanto ao estilo. Quanto ao espaço predominante na narrativa, podem ser urbanos, regionalistas, intimistas, etc. 2. NOVELA: é a obra em prosa narrativa e de ficção um pouco menos extensa e, por isso, seus elementos são mostrados de maneira mais condensada. Caracteriza-se principalmente por ser UMA NARRATIVA EM CAPÍTULOS, ou seja, o enredo é apresentado ao leitor aos poucos, o que significa que ele só conhecerá a história na íntegra no momento em que terminar a leitura do último capítulo da obra. Mesmo que ele tenha tempo para a leitura, ele não tem material de leitura além do(s) capítulo(s) disponível (eis). 3. CONTO: é uma das narrativas menos extensas que existem (normalmente tem, no máximo, dez páginas); é um mini-romance ou um recorte dele: o
  35. 35. 36 conto corresponde a UM dos vários episódios de um romance. Por ser uma narrativa muito breve, não há praticamente descrições de espaços e de personagens no conto e seu conteúdo normalmente é a narrativa de um fato ou episódio incomum, curioso e, muitas vezes, sobrenatural ou irreal. 4. CRÔNICA: é a narrativa mais breve que existe; é leve e baseia-se em fatos ou episódios do cotidiano, vistos com humor ou, às vezes, com melancolia. As outras narrativas que existem, mas em grau de importância menor que as citadas, são: - A FÁBULA: narrativa literária em que as personagens são seres não humanos personificados e em que o enredo encerra uma “lição de moral”. Normalmente, na fábula, as personagens são animais personificados; quando as personagens são seres inanimados personificados (uma linha e uma agulha, por exemplo), tem-se um APÓLOGO. - A PARÁBOLA: é uma narrativa que também encerra um ensinamento. As personagens, porém, são humanas. São narrativas comuns às obras religiosas e ao texto bíblico. Não importa o tipo de narrativa: o que importa é narrar, é levar alguém a viajar para um mundo distante, que não existe nos mapas porque não é real, é ideal. É o mundo onde o impossível é possível, onde nossos defeitos desaparecem, onde nossos sonhos se realizam e de onde não queremos sair. Mas quando saímos desse mundo de fantasia, de mentirinha, de papel, e voltamos à nossa realidade, nosso espírito está tão bem alimentado que somos capazes de perceber que até nele há beleza, há poesia, há amor e há coisas que não conseguíamos captar porque nossa alma estava cega. José Maria Pinto de Figueiredo nasceu em Santarém, no Pará, em 1957, mas Manaus é sua casa desde criança. Além de economista, é poeta de sólida formação literária. Atuou como professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Amazonas. Editor do jornal poético “O fingidor”, escreve também premiados textos para teatro. Seus principais livros são Corpoenigma (1994), Fragmentos do silêncio ( 1996), Música para surdos (2001) e Dabacuri (2004).
  36. 36. 37 Deonisio da Silva Expressões e suas origens Parte III FICAM A VER NAVIOS Esta frase remonta ao desaparecimento do rei de Portugal, Dom Sebastião (1554-1578), na famosa batalha de Alcácer Quibir. Como o corpo do monarca não foi encontrado, criou-se a lenda de que ele se encantou e que um dia voltaria, dando origem ao movimento messiânico conhecido como sebastianismo. Multidões passaram a freqüentar o Alto da Santa Catarina, em Lisboa, aguardando a volta do rei e por isso ficavam a ver navios. Passou a ser aplicada a quem perdeu o emprego ou está esperando por alguma coisa que jamais chegará, sendo utilizada também com freqüência para indicar situação que alguém, por não comparecer ao encontrou, deixou o outro a ver navios. FOI O MAIOR ARRANCA-RABO Esta frase, que exprime grande confusão, nasceu do deplorável costume que os primeiros guerreiros adotaram nos campos de batalha, consistindo em cortar os rabos das montarias dos inimigos. Um oficial do exército do faraó Tutmés III (1504-1450 a.C.) ensejou um de seus primeiros registros ao vangloriar- se de ter decepado a cauda do cavalo do próprio rei adversário, para ele um ato tão importante que o inscreveu em seu epígrafe. O costume chegou a Portugal, de onde veio para o Brasil, tendo sido aplicado não somente aos cavalos, mas também ao gado das fazendas inimigas, para humilhar seus proprietários. O escritor José Lins Rego (1901-1957) refere o costume nos livros Fogo morto e Meus verdes anos. FOI UMA BATALHA DE TRÊS REIS Significando luta descomunal, esta frase surgiu após a derrota dos portugueses em Alcácer-Quibir, origem do sebastianismo, crença segunda a qual o rei Dom Sebastião não morreu, mas encantou-se e um dia voltará. A famosa batalha foi travada no dia 4 de agosto de 1578 e nela os mouros perderam seus dois maiores comandantes: o sultão de Marrocos, Abde Almélique, e o mulei Mohamende Almoutauaquil. O terrível combate durou apenas quatro horas e nele morreram cerca de 8 mil portugueses e 6 mil mouros. Dom Sebastião comandava um exército de 16 mil homens. Os árabes contavam com uma força formidável: 40 mil cavaleiros e 9 mil infantes. O trono
  37. 37. 38 português, depois de dois anos na mãos do cardeal Dom Henrique, tio-avô do rei português, passou às rédeas de Felipe II, rei da Espanha, e só foi restaurado em 1640. FORAM SOMENTE QUATRO OU CINCO GATOS- PINGADOS A origem desta frase remonta a uma tortura procedente do Japão que consistia em pingar óleo fervente em pessoas ou animais, especialmente gatos. Os portugueses faziam pouco isso, mas há várias narrativas ambientais na Ásia que mostram pessoas tendo os pés mergulhados num caldeirão de óleo quente, quando não o corpo todo. Depois do suplício, assistido por poucas pessoas, tal a crueldade, passou a denominar pequena assistência, sem entusiasmo ou curiosidade, para qualquer evento. James Clave II (1920-1994) narrou o costume no livro Xogum, transposto para minissérie de televisão em 1980, já exibida também no Brasil, com Toshiro Mifune num dos principais papéis. GANHARÁS O PÃO COM O SUOR DE TEU ROSTO Muito utilizada por oradores e por escritores de todos os tempos, e de uso bastante freqüente em alusão ao trabalhado, de acordo com o texto do Evangelho esta frase foi pronunciada originalmente por Deus ao expulsar Adão e Eva do paraíso terrestre. Ela foi dirigida ao primeiro homem, coroando um processo sumário conduzido por Deus que culminou em três sentenças gravíssimas. As outras duas foram dirigidas ao demônio, representado pela serpente, e a Eva. A serpente foi condenada a arrastar-se eternamente sobre o ventre, e as mulheres, a passar pelos sofrimentos no partos. GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS O evangelista São Lucas foi o primeiro a registrar esta frase que teria sido, não apenas dita, mas também cantada por um anjo, acompanhado de milhares de vozes de coros celestes, na noite em que nasceu Jesus, diante de pastores maravilhados e um pouco medrosos com a aparição. Eles guardavam seus rebanhos naquele noite nas redondezas da gruta que depois seria transformada em basílica formosa. A partir do século XIII, quando São Francisco de Assis (1182- 1226) construiu o primeiro presépio, a frase, juntamente com a represente da Sagrada Família, dos pastores e dos animais que rodearam a manjedoura naquela noite de frio, esteve sempre presente em todos os presépios em forma de faixa. HABEAS-CORPUS A origem desta famosa frase latina, citada com muita freqüência, principalmente em tempos de perseguições políticas que levam à perda das liberdades individuais, encontra-se nas primeiras palavras de uma célebre lei inglesa, o Habeas Corpus Act, sancionada em 1679 por Carlos II (1630-1685), então rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda. Hoje está incorporada aos sistemas jurídicos de quase todos os países. Seu significado é que tenhas teu corpo. O
  38. 38. 39 objetivo deste preceito é garantir ao acusado o direito de aguardar o julgamento em liberdade, sob fiança. O imperador que sancionou notabilizou-se, entre outras coisas, por assegurar a convivência entre católicos e protestantes num tempo de grandes rivalidades entre as duas religiões. HOUVE MUITOS MÚSICOS FAMOSOS, MAS APENAS UM BEETHOVEN Com esta frase, sempre repetida, Pelé explica, sem vaidade, a sua proclamada e reconhecida genialidade como maior jogador de futebol de todos os tempos. Excessiva humildade, vinda de nosso atraso socioeconômico, dera-nos, antes de 1958, o complexo de vira-latas, segundo Nelson Rodrigues. Pelé rejeitou toda modéstia, sagrando-se rei e desfrutando de sua majestade ainda hoje, sendo mais conhecido e reconhecido do que monarcas e presidentes. O glorioso camisa 10 não poderia, porém, ignorar que Beethoven e ele, na música e no futebol, sempre tiveram companhias à altura. Sem aqueles talentosos colegas, no Santos e na seleção, ele certamente não teria sido o mesmo. Sem contar que na Copa de 1962, Amarildo, Garrincha e os outros nove, e na de 1970, Gérson, Rivelino, Tostão e Jairzinho, fizeram-nos lembrar de que além de Beethoven, havia Mozart, Wagner, Vivaldi, Villa-Lobos, etc. HOUVE MUITOS PAPAS E UM ÚNICO MICHELANGELO Esta frase foi pronunciada pela primeira vez pelo célebre pintor, escultor, arquiteto e poeta italiano Michelangelo Buonarotti (1475-1564), autor de algumas das principais obras-primas da arquitetura e da arte sacra em todos os tempos, entre as quais se destacam a cúpula da Basílica de São Pedro, em Roma, e os famosos afrescos da capela Sistina. O artista vivia às turras com o papa Júlio II (1443-1513), que, entretanto, protegeu, além de Michelangelo, outros grandes pintores e arquitetos, como Rafael (1483-1520) e Bramante (1444 -1514), e foi numa de suas brigas com o sumo pontífice que pronunciou a frase que ficaria famosa. Ao ouvir a frase, o papa deu uma bolacha na face do artista. INDEPENDÊNCIA OU MORTE Esta frase foi pronunciada por Dom Pedro I (1978- 1834), no dia 7 de setembro de 1822, por volta das quatro da tarde, em São Paulo, às margens do riacho Ipiranga, ao romper os laços coloniais que nos submetiam a Portugal e proclamar a independência do Brasil. O imperador estava montado quando a pronunciou, de acordo com a iconografia que consagrou o ato mais importante do Brasil como nação, tal como fez o pintor paraibano Pedro Américo (1843-1905) no mais famoso de seus quadros históricos, Grito do Ipiranga. Nossa independência tornou notáveis muitas pessoas. O próprio pintor teve seu retrato colocado na sala dos pintores célebres, na celebérrima Galeria Degli Uffizzi, em Florença, na Itália.
  39. 39. 40 INÊS É MORTA Personagem histórica e literária, celebrada em Os lusíadas, de Luís de Camões (1524-1580), Inês de Castro (1320-1355) teve um caso com o príncipe Dom Pedro (1320-1367), com quem teve três filhos. Por reprovar o romance, a casa real condenou a dama castelhana que vivia na corte portuguesa à morte por decapitação. Ela literalmente perdeu a cabeça por um homem. Quando já era o oitavo rei de Portugal, Dom Pedro deu-lhe o título de rainha. Mas àquela altura logicamente isso de nada adiantava: Inês já estava morta. A frase passou a significar a inutilidade de certas ações tardais. É o título de romance do mineiro Roberto Drummond. Fonte: Deonísio da Silva. De onde vêm as palavras. Deonísio da Silva nasceu em Siderópolis/SC em 1948. Professor, escritor e etimologista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Filologia, vinculado às universidades Unijuí, RS (1972-1981), Ufscar, SP (1981-2003), Estácio, RJ (2003-2015) e Unisul, SC (2014-2015), dando aulas e videoaulas de Língua Portuguesa e respectivas literaturas e desenvolvendo projetos editoriais. Autor de 34 livros, alguns dos quais publicados também em Portugal, Itália, Alemanha, Canadá etc. Suas obras referenciais são o romance "Avante, soldados: para trás" (Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago); "Nos bastidores da censura" (sua tese de doutoramento na USP) e o livro de etimologia "De onde vêm as palavras". Kathryn VanSpanckeren Panorama da Literatura dos Estados Unidos Parte I Esta publicação apresenta uma visão geral histórica da literatura americana até o início do século 21, bem como breves perfis dos principais escritores — de ficção, não-ficção, teatro e poesia. Produzida para professores e estudantes de Inglês e Literatura e leitores interessados nesse tema, esta publicação baseia-se em outra mais ampla, Perfil da Literatura Americana. Para mais informações sobre esse tema, consulte: http://www.america.gov/publications/books/outline- of-american-literature.html.
  40. 40. 41 Primórdios e Período Colonial A base da literatura americana tem início com a transmissão oral de mitos, lendas, contos e letras (sempre de canções) das culturas indígenas. A tradição oral do indígena americano é bastante diversificada. As histórias indígenas fazem uma brilhante reverência à natureza como mãe espiritual e também física. A natureza é viva e dotada de forças espirituais; os principais personagens podem ser animais ou plantas, geralmente totens associados a uma tribo, um grupo ou indivíduo. A contribuição do índio americano para os Estados Unidos é maior do que se pensa. Centenas de palavras indígenas são usadas no inglês americano do dia-a-dia, entre elas “canoe” (canoa), “tobacco” (tabaco), “potato” (batata), “moccasin” (mocassim), “moose” (alce), “persimmon” (caqui), “raccoon” (guaximim), “tomahawk” (machadinha indígena) e “totem” (totem). O primeiro registro europeu sobre a exploração da América é em um idioma escandinavo. A Velha Saga Norueguesa de Vinland conta como o aventureiro Leif Eriksson e um bando de noruegueses errantes se instalaram por um breve período na costa nordeste da América — provavelmente na Nova Escócia, no Canadá — na primeira década do século 11. O primeiro contato conhecido e comprovado entre os americanos e o resto do mundo, contudo, começou com a famosa viagem de um explorador italiano, Cristóvão Colombo, financiada por Izabel, rainha da Espanha. O diário de Colombo em sua “Epístola”, impresso em 1493, conta o drama da viagem. As primeiras tentativas de colonização pelos ingleses foram desastrosas. A primeira colônia foi fundada em 1585 em Roanoke, na costa da Carolina do Norte; todos os seus colonizadores desapareceram. A segunda colônia foi mais duradoura: Jamestown, fundada em 1607. Ela resistiu à fome, à brutalidade e ao desgoverno. No entanto, a literatura desse período pinta a América com cores brilhantes como uma terra de fartura e oportunidades. Relatos sobre as colonizações tornaram-se famosos no mundo todo. No século 17, piratas, aventureiros e exploradores abriram caminho para uma segunda onda de colonizadores permanentes, que levou esposas, filhos, implementos agrícolas e ferramentas artesanais. As primeiras produções literárias da época da exploração consistiam de diários, cartas, diários de viagem, registros de bordo e relatórios dirigidos aos financiadores dos exploradores. Como a Inglaterra acabou tomando posse das colônias da América do Norte, a literatura colonial mais conhecida e antologizada era inglesa. Na história do mundo, provavelmente, não houve outros colonizadores tão intelectualizados quanto os puritanos, a maioria dos quais de origem inglesa ou holandesa. Entre 1630 e 1690, havia tantos bacharéis na região nordeste dos Estados Unidos, conhecida como Nova Inglaterra, quanto na Inglaterra. Os puritanos, que sempre venceram pelo próprio esforço e foram geralmente autodidatas, queriam educação para
  41. 41. 42 entender e realizar a vontade divina ao fundarem suas colônias por toda a Nova Inglaterra. O estilo puritano apresentava grande variedade — da complexa poesia metafísica aos diários domésticos, passando pela história religiosa com fortes toques de pedantismo. Seja qual for o estilo ou o gênero, certos temas eram constantes. A vida vista como um teste; o fracasso que leva à maldição eterna e ao fogo do inferno; e o sucesso que leva à felicidade eterna. Esse mundo era uma arena de embates constantes entre as forças de Deus e as forças do Diabo, um inimigo terrível com muitos disfarces. Há muito tempo os acadêmicos enfatizam essa ligação entre o puritanismo e o capitalismo: ambos têm como base a ambição, o trabalho árduo e a luta intensa pelo sucesso. Embora individualmente os puritanos não pudessem saber, em termos estritamente teológicos, se estavam “salvos” e entre os eleitos que iriam para o céu, eles viam em geral o sucesso terreno como um sinal de terem sido os escolhidos. Buscavam riqueza e status não só para eles próprios, mas como uma sempre bem-vinda garantia de saúde espiritual e promessas de vida eterna. Além disso, o conceito de administração estimulava o sucesso. Os puritanos achavam que ao aumentar seu próprio lucro e o bem-estar da comunidade, estavam também promovendo os planos de Deus. O grande modelo de literatura, crença e conduta era a Bíblia, em uma tradução inglesa autorizada. A grande antiguidade da Bíblia assegurava autoridade aos olhos dos puritanos. Com o fim do século 17 e início do século 18, o dogmatismo religioso diminuiu gradualmente, apesar dos grandes esforços esporádicos dos puritanos para impedir a onda de tolerância. O espírito de tolerância e liberdade religiosa que cresceu aos poucos nas colônias americanas foi plantado inicialmente em Rhode Island e na Pensilvânia, terra dos quakers. Os humanos e tolerantes quakers, ou “Amigos”, como eram conhecidos, acreditavam no caráter sagrado da consciência individual como origem da ordem social e da moralidade. A crença fundamental dos quakers no amor universal e na fraternidade os tornou profundamente democráticos e contrários à autoridade religiosa dogmática. Expulsos do rígido estado de Massachusetts, que temia sua influência, estabeleceram uma colônia muito bem-sucedida, a Pensilvânia, sob o comando de William Penn, em 1681. Origens Democráticas e Escritores Pós- Revolucionários A Revolução Americana de duras batalhas contra a Grã-Bretanha (1775-1783) foi a primeira guerra moderna de libertação contra uma potência colonialista. O triunfo da independência americana era visto por muitos na época como um sinal divino de que os Estados Unidos e seu povo estavam destinados à grandeza. A vitória militar alimentou esperanças nacionalistas por uma literatura nova e importante. No
  42. 42. 43 entanto, com exceção de escritos políticos de destaque, poucas obras dignas de nota apareceram durante ou logo após a Revolução. Os americanos estavam desgostosamente conscientes de sua excessiva dependência dos modelos literários ingleses. A busca por uma literatura nativa tornou-se obsessão nacional. A independência literária dos Estados Unidos foi retardada por uma identificação persistente com a Inglaterra, pela imitação exagerada dos modelos literários ingleses ou clássicos e por difíceis condições econômicas e políticas que prejudicavam as publicações. James Fenimore Cooper (1789-1851) James Fenimore Cooper, como Washington Irving, foi um dos primeiros grandes escritores americanos. Assim como outros autores românticos da época, Cooper evocava uma sensação de passado (naqueles dias, a vida selvagem americana que precedeu as primeiras colonizações européias e coincidiu com elas). Em Cooper, encontra-se o poderoso mito de uma “era de ouro” e a dor de sua perda. Se, por um lado, Washington Irving e outros escritores americanos antes e depois dele esquadrinhavam a Europa em busca de suas lendas, seus castelos e seus grandes temas, Cooper ajudava a criar o mito essencial dos Estados Unidos: a história européia em terras americanas foi uma reencenação da Queda no Jardim do Éden. O reino cíclico da natureza só foi percebido no ato de destruí-lo: a vida selvagem desapareceu diante dos olhos americanos, sumindo como uma miragem diante dos pioneiros que chegavam. Essa é basicamente a visão trágica de Cooper da irônica destruição da vida selvagem — o “novo Éden” que primeiro atraiu os colonizadores. Filho de uma família quaker, cresceu na propriedade rural distante de seu pai em Otsego Lake (atualmente Cooperstown), na região central do estado de Nova York. Embora essa área fosse relativamente pacífica durante a infância de Cooper, certa vez foi cenário de um massacre de índios. O jovem Fenimore Cooper viu homens da fronteira e índios em Otsego Lake quando menino; mais tarde audaciosos colonos brancos invadiram suas terras. Natty Bumppo, famoso personagem literário de Cooper, incorpora sua visão do homem da fronteira como um cavalheiro, um “aristocrata natural” à maneira de Jefferson. No início de 1823, em Os Pioneiros, Cooper começou a imaginar Bumppo. Natty é o primeiro homem da fronteira famoso na literatura americana e predecessor literário de inúmeros caubóis e heróis de distantes rincões ficcionais. É o individualista idealizado e honrado, que é melhor do que a sociedade que protege. Pobre e isolado, e no entanto puro, Natty é um exemplo de valores éticos e antecede Billy Budd, de Herman Melville, e Huck Finn, de Mark Twain. Baseado em parte na vida real do pioneiro americano Daniel Boone — que era um quaker como Cooper — Natty Bumppo, homem da floresta excepcional como Boone, era uma pessoa pacífica
  43. 43. 44 adotada por uma tribo indígena. Tanto Boone quanto o personagem Bumppo amavam a natureza e a liberdade. Eles se deslocavam constantemente para o Oeste para escapar dos novos colonos a quem haviam servido de guia por terras ainda não desbravadas e se tornaram lendas ainda em vida. A vida de Natty Bumppo é o fio unificador dos cinco romances conhecidos em seu conjunto como Leather- Stocking Tales [Contos dos Caçadores de Peles]. Como maior realização de Cooper, esses romances constituem um grande épico em prosa tendo o continente norte-americano como cenário, tribos indígenas como atores principais e grandes guerras e a migração para o Oeste como fundo social. Eles dão vida à fronteira dos Estados Unidos de 1740 a 1804. A obra de Cooper retrata as sucessivas ondas de colonização na fronteira: a terra original habitada pelos índios; a chegada dos primeiros brancos como batedores, soldados, comerciantes e desbravadores; a chegada das famílias de colonos pobres e rudes; e a chegada final da classe média, trazendo os primeiros profissionais liberais — o juiz, o médico e o banqueiro. Cada nova onda deslocava a anterior: os brancos deslocaram os índios, que se retiraram para o Oeste; a classe média “civilizada”, que construiu escolas, igrejas e cadeias, deslocou a gente individualista e mais simples da fronteira que, por sua vez, avançou ainda mais para o Oeste, deslocando os índios que os precederam. Cooper evoca a infindável e inevitável onda de colonos, vendo não apenas os ganhos, mas também as perdas. Assim como Rudyard Kipling, E.M. Forster, Herman Melville e outros observadores sensíveis de uma ampla gama de culturas interagindo entre si, Cooper foi um relativista cultural. Ele entendeu que nenhuma cultura detinha o monopólio sobre a virtude e o requinte. O Período Romântico, Ensaístas e Poetas O movimento romântico, que surgiu na Alemanha e logo se espalhou, chegou aos Estados Unidos por volta de 1820. O ideário romântico era permeado pela dimensão estética e espiritual da natureza e pela importância da mente e do espírito individuais. Os românticos destacavam a importância da arte da auto- expressão para o indivíduo e para a sociedade. O desenvolvimento do eu tornou-se o tema central; a autoconsciência, o método mais importante. Se, segundo a teoria romântica, o eu e a natureza eram uma coisa só, a autoconsciência não era um caminho egoísta, sem saída, mas uma forma de conhecimento que ampliava o universo. Se o próprio eu vibrava em harmonia com toda a humanidade, então o indivíduo tinha a obrigação moral de reverter as desigualdades sociais e aliviar o sofrimento humano. A idéia do “eu”, que as gerações anteriores viam como egoísmo, foi redefinida. Surgiram novas palavras compostas com significados positivos: “auto-realização”, “auto- expressão” e “auto-suficiência”. À medida que o eu único, subjetivo ganhava importância, verificava-se o mesmo no âmbito da psicologia. Técnicas e efeitos artísticos excepcionais
  44. 44. 45 foram criados para evocar estados psicológicos elevados. O “sublime” — efeito da beleza na grandiosidade (por exemplo, vista do alto da montanha) — produzia sentimentos de assombro respeitoso, reverência, imensidão e uma força além da compreensão humana. O romantismo era afirmativo e apropriado para a maioria dos poetas e ensaístas criativos americanos. As grandes montanhas, os desertos e os trópicos dos Estados Unidos expressavam o sublime. O espírito romântico parecia especialmente apropriado para a democracia americana: ele enfatizava o individualismo, afirmava o valor da pessoa comum e buscava na imaginação inspirada seus valores éticos e estéticos. Transcendentalismo O movimento transcendentalista, representado pelos ensaístas Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, foi uma reação contra o racionalismo do século 18 e estava intimamente ligado ao movimento romântico. Está bastante associado à Concord, no estado de Massachusetts, cidade perto de Boston, onde viveram Emerson, Thoreau e um grupo de outros escritores. Em geral, o transcendentalismo foi uma filosofia liberal que privilegiou a natureza em lugar da estrutura religiosa formal, a percepção individual em lugar do dogma e o instinto humano em lugar da convenção social. Os românticos transcendentalistas americanos levaram o individualismo radical ao extremo. Os escritores americanos — de então ou que vieram depois — viam-se com freqüência como exploradores solitários fora da sociedade e das convenções. O herói americano — como o capitão Ahab, de Herman Melville, ou Huck Finn, de Mark Twain — tipicamente enfrentava riscos ou mesmo certa destruição em busca da autodescoberta metafísica. Para o escritor romântico americano, nada era dado. As convenções literárias e sociais, longe de serem úteis, eram perigosas. Havia grande pressão para encontrar uma forma, voz e conteúdo literários autênticos. Ralph Waldo Emerson (1803-1882) Ralph Waldo Emerson, a figura eminente de sua época, tinha um sentido de missão religiosa. Embora muitos o tenham acusado de subverter o cristianismo, ele explicou que, para ele, “era necessário deixar a igreja para ser um bom pastor”. O discurso que proferiu em 1838 em sua alma mater, a Faculdade de Estudos Religiosos de Harvard, fez com que ele não fosse bem-vindo em Harvard por 30 anos. Nele, Emerson acusou a igreja de enfatizar o dogma enquanto sufocava o espírito. Emerson é extraordinariamente consistente em seu apelo pelo nascimento do individualismo americano inspirado pela natureza. O ensaio “A Natureza” (1836), sua primeira publicação.
  45. 45. 46 Muito deste insight espiritual vem de leituras em Hinduismo, Confucionismo e Sufismo Islâmico. Henry David Thoreau (1817-1862) Henry David Thoreau nasceu em Concord e fez da cidade sua residência permanente. Vindo de uma família pobre como Emerson, construiu seu caminho para Harvard. A obra-prima de Thoreau, Walden ou a Vida nos Bosques (1854), é fruto de dois anos, dois meses e dois dias (de 1845 a 1847) passados em uma cabana de madeira construída por ele no Lago Walden, perto de Concord. Esse longo ensaio poético desafia o leitor a olhar para a sua vida e vivê-la de forma autêntica. O ensaio de Thoreau “A Desobediência Civil”, com sua teoria de resistência passiva baseada na necessidade do indivíduo justo de desobedecer a leis injustas, serviu de inspiração para o movimento de independência da Índia de Mahatma Gandhi e para a luta de Martin Luther King pelos direitos civis dos negros americanos no século 20. Walt Whitman (1819-1892) Nascido em Long Island, Nova York, Walt Whitman foi carpinteiro em tempo parcial e homem do povo, cujo trabalho brilhante e inovador traduziu o espírito democrático do país. Whitman foi em grande parte autodidata; aos 11 anos abandonou a escola para trabalhar, não freqüentando o tipo de educação tradicional que fez com que a maioria dos autores americanos se tornasse respeitáveis imitadores dos ingleses. Suas Folhas de Relva (1855), que ele reescreveu e revisou por toda a vida, contém “Canção de Mim Mesmo”, o poema mais original e formidável já escrito por um americano. A forma inovadora, sem rima e com verso livre do poema, a franca celebração da sexualidade, a sensibilidade democrática vibrante e a declaração romântica extremada que o eu do poeta era um só com o universo e o leitor alteraram para sempre o curso da poesia americana. Emily Dickinson (1830-1886) Emily Dickinson é, de certa forma, elo de ligação entre sua época e as sensibilidades literárias do século 20. Individualista radical, ela nasceu e passou sua vida em Amherst, pequeno povoado no estado de Massachusetts. Nunca se casou e levou uma vida não convencional sem grandes acontecimentos externos, mas cheia de intensidade interior. Ela amava a natureza e encontrou inspiração profunda nos pássaros, nos animais, nas plantas e nas mudanças de estação na zona rural da Nova Inglaterra. Emily Dickinson viveu a última parte da sua vida em reclusão devido a uma psique extremamente sensível e possivelmente para conseguir tempo para escrever. O estilo conciso, normalmente imagístico da poeta é ainda mais moderno e inovador do que o de Whitman. Há ocasiões em que ela mostra uma consciência
  46. 46. 47 existencial terrível. Sua poesia limpa, clara e bem delineada, redescoberta nos anos 1950, traz alguns dos mais fascinantes e desafiadores poemas da literatura americana. continua… Fonte: http://embaixadaamericana.org.br/HTML/literatureinbrief/chapter03.htm Kathryn VanSpanckeren é professora de Inglês na Universidade de Tampa. Ela lecionou literatura americana no exterior. Recebeu seu bacharelado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, e seu Ph.D. da Universidade de Harvard. Estante de Livros José Lins do Rego Fogo Morto José Lins do Rego é um dos escritores mais importantes do chamado Neo-Realismo Regionalista Nordestino, que integra a segunda fase do Modernismo brasileiro, ao lado de nomes como Graciliano Ramos, na prosa, e Drummond, na poesia. O romance modernista dos anos 30 recebeu muitas sugestões da sociologia de Gilberto Freire, um dos organizadores do Congresso Regionalista do Recife, que, em 1926, apresentou um amplo projeto de estudo e compreensão da sociedade local. O livro mais importante de Gilberto Freire é Casa Grande e Senzala (1933). Fogo Morto (1943) é a obra-prima de José Lins do Rego. Como romance de feição realista, esse livro procura penetrar a superfície das coisas e revelar o processo de mudanças sociais por que passa o Nordeste brasileiro, num largo período que vai desde o Segundo Reinado, incluindo a Revolução Praieira e a Abolição, até as primeiras décadas do século XX. O tema central de Fogo Morto é o desajuste das pessoas com a realidade resultante do declínio do escravismo nos engenhos nordestinos, nas primeiras décadas do século XX. O romance conta a história de um poderoso engenho, o Santa Fé, desde sua fundação até o declínio, quando se transforma em “fogo morto”,
  47. 47. 48 expressão com que, no Nordeste, designam-se os engenhos inativos. Retomando o espírito de observação realista, o autor produz um minucioso levantamento da vida social e psicológica dos engenhos da Paraíba. Em virtude do apego ao cotidiano da região, Fogo Morto apresenta não apenas valor estético, mas também interesse documental. Fogo Morto não se esgota na classificação de romance regionalista, embora essa seja uma noção correta. Há outros componentes importantes na obra, a partir dos quais se pode enquadrá-la numa tipologia consagrada. Talvez o mais ilustre antecedente de Fogo Morto na literatura brasileira seja O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo. Em que sentido? No sentido de tomar uma personagem coletiva como objeto de análise. Assim como Aluísio investiga o nascimento, vida e morte de um cortiço do Rio de Janeiro, José Lins penetra no surgimento, plenitude e declínio do Engenho Santa Fé, localizado na zona da mata da Paraíba. Com efeito, o engenho parece possuir vida própria, embora suas células sejam as pessoas que o formam. Como análise quer dizer decomposição, o autor decompõe as pessoas como forma de expor a constituição do todo. Por essa perspectiva, Fogo Morto tanto pode ser entendido como um romance social quanto psicológico. Em rigor, uma categoria não existe sem a outra. O livro é forte em ambas as dimensões. Embora Fogo Morto apresente uma estória muito movimentada, não se trata de um romance de ação: pretende atrair pela problematização social e existencial, e não pela surpresa dos acontecimentos. O estilo da obra é modernista, pois baseia-se na linguagem cotidiana, revestindo-se de oralidade espontânea, isto é, o autor procura escrever como se fala. Resulta daí a impressão de vivacidade e dinamismo. Possui força dramática e senso do real. Poucas vezes um autor obteve tanto êxito na manipulação da frase curta e elementar, com palavras extraídas do uso diário. Seu ritmo sintático e narrativo é nervoso, quase frenético, imitando o vaivém das pessoas pelas estradas do engenho. Pertence ao Regionalismo Nordestino, porque aborda a paisagem específica dessa região, mas as questões abordadas transcendem os limites regionais, o que é comum nas obras bem realizadas. Em Fogo Morto, o autor soube transformar em ficção a vida real dos engenhos nordestinos. Trata-se de uma sociedade decadente, marcada pelo ressentimento, pelo desajuste e pela revolta. Domina em tudo uma atmosfera de ruína social e depauperamento psicológico, embora persistam aqui e ali sinais de uma felicidade antiga, restrita aos habitantes da casa-grande. Sem pertencer propriamente ao famoso Ciclo da Cana-de-Açúcar, Fogo Morto é uma retomada mais densa da matéria dos romances que o compõem: Menino de Engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), e Usina (1936). Neste último romance, José Lins retrata a decadência dos engenhos por força do processo industrial das usinas, que suplantam a produção artesanal. Todavia, em Fogo Morto, ainda não há sinais de industrialização na produção de açúcar. Quanto a
  48. 48. 49 José Amaro, sim, sua decadência decorre em parte do processo de industrialização das selas, que já ocorre nos centros urbanos. A fábula do livro não apresenta rigorosa unidade, isto é, não conta apenas uma estória, mas diversas, porque o propósito do romance é investigar e revelar o variado tecido social de um engenho típico da Paraíba. Assim, o livro divide-se em três partes: “O Mestre José Amaro”, “O Engenho de Seu Lula” e “Capitão Vitorino Carneiro da Cunha”. Na primeira parte domina a figura do seleiro Zé Amaro, morador revoltado do Engenho Santa Fé, que enfrenta enorme problema de inadaptação com o mundo. Na verdade, está praticamente se despedindo da vida. Em aguda crise existencial, pressente a morte nos mínimos detalhes. Permanece sentado na tenda de trabalho em frente de casa, à beira da estrada, por onde passam os diversos moradores do engenho. A segunda parte de Fogo Morto traça os antecedentes da situação de José Amaro, que é semelhante à de seu compadre Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, cujo destino também se confunde com a vida do engenho. Nesta parte, há um longo flashback ou retrospectiva da formação do latifúndio, em que se evocam as lutas do fundador, Capitão Tomás Cabral, para o estabelecimento daquela unidade econômica. A terceira parte concentra-se nas aventuras do Capitão Vitorino, cujas ações se pautam pelo desejo de justiça. Nesse particular, irmana-se a José Amaro. Mas é radicalmente contra a alternativa oferecida pelo cangaço. É também contra o governo, mas não admite a subversão da lei. Em rigor, é um aventureiro do sonho. Estabelece o elo entre ricos e pobres, fracos e fortes. Para ele, o homem mais valente do mundo é ele mesmo. Não obstante, empregava a valentia apenas no auxílio do próximo. Trata-se de uma paródia muito convincente de Dom Quixote. Por isso, sua figura resulta numa mescla de momentos sublimes com momentos ridículos. Apesar dos percalços, surras e prisões, é a única personagem gloriosa no romance. Personagens que não sofrem alteração são consideradas sem profundidade psicológica. Por isso são chamadas planas, das quais os tipos são uma variação. José Passarinho é personagem plana, pois mantém sempre o mesmo estatuto, do princípio ao fim do romance. Por outro lado, trata-se de personagem secundária, cuja função é apoiar a existência das demais. Assim são o pintor Laurentino, o aguardenteiro Alípio, o negro Floripes e outros coadjuvantes. Tipo é a personagem que se confunde com o estereótipo, no qual se condensam características genéricas de uma certa categoria de pessoas. Capitão Antônio Silvino é um tipo revestido de significação alegórica. Funciona como uma espécie de emblema, representando a força da subversão, o poder de uma justiça ilegal porém legítima. Tira dos ricos para dar aos pobres. O Tenente Maurício é semelhante ao cangaceiro, pois também representa uma instituição, a força legal do governo, manchada de mando ilegítimo.

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