Almanaque Chuva de Versos n. 396

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Almanaque com trovas, haicais, poesias, e outros gêneros.
Na seção nada de versos, folclore, artigos de literatura, estante de livros, etc.

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Almanaque Chuva de Versos n. 396

  1. 1. 2 INDICE Mensagem na Garrafa Sócrates (O Crivo das Três Peneiras)....................... 3 Chuva de Versos ................................................................ 5 Trovador Homenageado ... Haroldo Lyra ................ 14 Jean La Fontaine As Rãs Pedindo Rei ............................................... 19 Profa. Ana Suzuki Aula 9 - Diferença entre Tanka e Haicai.................. 21 NADA DE VERSOS Folclore Indígena Norte Americano Lenda da Mulher Búfalo Branco.............................. 24 Luís Fernando Veríssimo Grande Edgar.......................................................... 29 André Carneiro Do Outro Lado da Janela......................................... 32 Zemaria Pinto Poema e poesia não são a mesma coisa? Parte 2.. 35 Deonisio da Silva Expressões e suas origens Parte 2......................... 38 A Literatura Francesa....................................................... 42 Estante de Livros André Carneiro - Confissões do Inexplicável........... 52 Concursos com Inscrições Abertas Concurso de Contos e Poesias "Prêmio Cataratas" – Foz do Iguaçu....................................................... 56 Concurso Contemporânea de Literatura 2015 – modalidades Poesia e Crônica................................ 58 6º Concurso Cidade de Gravatal de Literatura ....... 61 XXXVIII Concurso Literário Felippe D'Oliveira – 2015 Conto, Crônica e Poesia................................. 62 2º Concurso Diário do Litoral de Poesias................ 65 I Concurso de Trovas de Itapema –SC.................... 66 28º Jogos Florais de Ribeirão Preto – 2015........... 66
  2. 2. 3 Sócrates O Crivo das Três Peneiras Um homem, procurou um sábio e disse-lhe: - Preciso contar-lhe algo sobre alguém! Você não imagina o que me contaram a respeito de... Nem chegou a terminar a frase, quando Sócrates ergueu os olhos do livro que lia e perguntou: - Espere um pouco. O que vai me contar já passou pelo crivo das três peneiras? - Peneiras? Que peneiras? - Sim. A primeira é a da verdade. Você tem certeza de que o que vai me contar é absolutamente verdadeiro? - Não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram! - Então suas palavras já vazaram a primeira peneira. Vamos então para a segunda peneira: a bondade. O que vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito? - Não! Absolutamente, não! - Então suas palavras vazaram, também, a segunda peneira. Vamos agora para a terceira peneira: a necessidade. Você acha mesmo necessário contar-me esse fato, ou mesmo passá-lo adiante? Resolve alguma coisa? Ajuda alguém? Melhora alguma coisa? - Não... Passando pelo crivo das três peneiras, compreendi que nada me resta do que iria contar. E o sábio sorrindo concluiu: - Se passar pelas três peneiras, conte! Tanto eu, quanto você e os outros iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos. Devemos ser sempre a estação terminal de qualquer comentário infeliz! Da próxima vez que ouvir algo, antes de ceder ao impulso de passá-lo adiante, submeta-o ao crivo das três peneiras porque: Pessoas sábias falam sobre idéias; Pessoas comuns falam sobre coisas; Pessoas medíocres falam sobre pessoas.
  3. 3. 4 Sócrates nasceu em Atenas/Grécia, c. 469 a.C. e morreu em Atenas/Grécia, 399 a.C, ao beber cicuta e, diante dos amigos, aos 70 anos, morrer por envenenamento. Filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga. Sócrates foi casado com Xântipe, que era bem mais jovem que ele, e teve um filho, Lamprocles. Creditado como um dos fundadores da filosofia ocidental, é até hoje uma figura enigmática, conhecida principalmente através dos relatos em obras de escritores que viveram mais tarde, especialmente dois de seus alunos, Platão e Xenofonte, bem como as peças teatrais de seu contemporâneo Aristófanes. Muitos defendem que os diálogos de Platão seriam o relato mais abrangente de Sócrates a ter perdurado da Antiguidade aos dias de hoje. Através de sua representação nos diálogos de seu estudante ou professor, Sócrates tornou-se renomado por sua contribuição no campo da ética, e é este Sócrates platônico que legou seu nome a conceitos como a ironia socrática e o método socrático (elenchus). Este permanece até hoje a ser uma ferramenta comumente utilizada numa ampla gama de discussões, e consiste de um tipo peculiar de pedagogia no qual uma série de questões são feitas, não apenas para obter respostas específicas, mas para encorajar também uma compreensão clara e fundamental do assunto sendo discutido. Foi o Sócrates de Platão que fez contribuições importantes e duradouras aos campos da epistemologia e lógica, e a influência de suas ideias e de seu método continuam a ser importantes alicerces para boa parte dos filósofos ocidentais que se seguiram a ele. Sócrates defendia que deve-se sempre dar mais ênfase à procura do que não se sabe, do que transmitir o que se julga saber, privilegiando a investigação permanente.
  4. 4. 5 Uma Trova de Maringá/PR Alberto Paco Caminho neste rincão de incomparável beleza! És a Cidade Canção, bendita por natureza! Uma Trova de São Paulo/SP Marly Rondan Amor doce como mel, néctar de Eros que me aquece; como vinho de um tonel, me embriaga, me enlouquece. Um Soneto de Fortaleza/CE Haroldo Lyra AMIZADE Depois de salpicada uma amizade, por leve farpa num fugaz momento, traz o fato, humana realidade, carência de afeto e entendimento. Se à prosa que se faz se põe maldade, perde, a amizade, o doce encantamento. Há de perder também sinceridade e lesto se avizinha o rompimento. Mas, valham as que têm, irrelevante, o dardo que feriu por um instante involuntariamente a fidalguia. Nisso, aquela que impõe severa norma, inexoravelmente se transforma em triste olá de falsa cortesia. Uma Trova Humorística de Maringá/PR Osvaldo Reis Enquanto conta lorota cantando as gatas na rua, em casa vira chacota, por não dar conta da sua… Uma Trova de Santos/SP Antonio Colavite Filho Na conjuntura atual, de incrível falta de fé,
  5. 5. 6 não traria nenhum mal “pacotes”... de cafuné... Um Soneto de Fortaleza/CE Haroldo Lyra COISIFICADAS Hoje é comum mulher tirar a roupa Pra revelar nas bancas de jornal, Despudoradamente o colossal Segredo da virtude, já tão pouca. Desnuda-se, aos apelos do mural; Na crapulosa folha a pose louca Que a revista conduz de boca em boca E faz dessa mulher coisa venal, Que assim exposta nua à sordidez; Dependurada à espreita do freguês, Nem percebe aonde e como vai chegar. Mas chega ao pai, os sonhos carcomidos, Por ver da filha os garbos preteridos, E oferecida a quem puder pagar. Uma Quadra Popular Autor Anônimo Sexta-feira faz um ano que meu coração fechou. Quem morava dentro dele tirou a chave e levou. Uma Trova Hispânica do México Maria Elena Espinosa Mata Honestidad: don precioso que no cualquiera te ofrece, es lazo maravilloso que la amistad fortalece. Um Soneto de Fortaleza/CE Haroldo Lyra SUBLIME AMOR Numa clínica, um velho procurava Rápido curativo à mão doente. Dizia-se apressado, que era urgente, Pois tinha um compromisso e se atrasava.
  6. 6. 7 O médico, atendendo ao paciente, Perguntou por que tanto se apressava! É que, num certo Asilo, costumava Tomar café co’a esposa, já demente. O médico ressalta: “Por descaso, Não reclamara ela desse atraso?” E ele: “Nem mais me reconhece, até”. “Então! É apenas um capricho seu?” “Oh, não! Ela não sabe quem sou eu, Mas eu sei muito bem quem ela é”. Trovadores que deixaram Saudades Humberto Lyrio da Silva Corumbá/MS (1918 – ????) Salvador/BA Versos que faço presentes para iludir meu tormento, são como estrelas cadentes: - não brilham mais que um momento. Uma Trova de São Paulo/SP Maria Izabel Labruciano Como a gaivota dourada sobre o mar, desliza o vento, é prenúncio de alvorada ter você no pensamento. Um Soneto de Fortaleza/CE Haroldo Lyra DUAS TAÇAS O álcool sempre vem abrilhantar Os banquetes em salas requintadas, Servido nas baixelas prateadas Que aos olhos serve mais que ao paladar. O álcool é um prazer bem popular, Nos bares, nas barracas empalhadas, Servido n’umas taças mal lavadas, Agrada à boca, à venta, a quem tomar. Um drink, salgadinhos de salmão; Uma cereja adorna a taça à mão E o fino aristocrata se enaltece. Um trago, um tira-gosto de buchada; A banda de um limão, já machucada, E o jeca deita e rola e a pinga desce.
  7. 7. 8 Uma Trova de Taubaté/SP Tharcílio Gomes de Macedo Vaqueiro velho de antanho, tendo rotos os gibões, vou tangendo hoje o rebanho das minhas desilusões. Um Haicai de Niterói/RJ Luís Antônio Pimentel Morre lento o sol... Nas grandes sombras deitadas, um pranto de folhas... Um Soneto de Fortaleza/CE Haroldo Lyra NO SHOPPING Pequenas saias na vitrine expostas, quanto menor tanto maior seu preço. Blusas que valem pouco mais de um terço, plissê na frente e nada traz às costas. Sorvete, uma colônia, um adereço; vendedoras alegres, bem dispostas; a gula, a tentação à prova postas. E em cada loja, à dama, o fino apreço. Na bolsa da mulher, uns desalinhos: espelho, celular, alguns tubinhos do anúncio pague dois e leve três. Portando seus pacotes entrançados, traz, a mulher, encantos realçados pelas compras que faz durante o mês. Uma Trova de Porto Alegre/RS Wilma Mello Cavalheiro Para as trovas que componho, repassadas de emoção, eu teço rendas de sonho na tela da inspiração. Uma Sextilha de São Simão/SP Thalma Tavares Vento brando da serra, doce aragem, por mim passa e agita meus cabelos com seu toque de paz e de ternura a lembrar minha mãe em seus desvelos
  8. 8. 9 feito um anjo que leva para sempre sonhos tristes e tristes pesadelos. Um Soneto de Fortaleza/CE Haroldo Lyra BARBEIRO Eis o barbeiro com afinco e altivez restaurando a aparência masculina. Trazendo à destra mão tesoura fina com que corta a cabeleira do freguês. Pega da navalha e a cadeira inclina e a barba faz com muita rapidez, embora haja um gemido toda vez quando ele corta a pele e não a “crina”. Passa talco e o perfume que inebria. um novo penteado o mestre cria com o talento que traz o salão cheio. Chamá-lo de barbeiro é apelido principalmente quando é compelido criar feição bonita um macho feio. Uma Trova de Fortaleza/CE Fernando Câncio Araújo Tarde sem chuva, de estio... Cigarra, que afinidade, passamos horas a fio cantando a mesma saudade!... Uma Aldravia do Rio de Janeiro/RJ Luiz Gondim como equilibrar equações em cada ausência? Um Soneto de Fortaleza/CE Haroldo Lyra MEDO DE NÃO SER FELIZ Se eu não tivesse um dia agido assim, dos rubros relegado o vil segredo, juro que agora não teria medo
  9. 9. 10 de ter o medo de um final ruim. Mas então criei meu pendular brinquedo, sem me importar com o que viria, enfim. Fiz tudo errado e o fruto assaz azedo pude colher desse cruel festim. Todo o meu crime, o meu maior pecado foi ser ingênuo e ter acreditado, sem nunca vislumbrar o triste fim. Mas o meu rosto, sorridente outrora, não lacrimava u’a gota a mais agora, se eu não tivesse um dia agido assim. Um Haicai de Salvador/BA Oldegar Franco Vieira (1915-2006) ALVORADA Pouco a pouco vai o canto claro dos galos clareando o dia. Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ Octávio Venturelli Migrante de mil andanças, mascate de fantasias, no alforje das esperanças só levo quinquilharias... Um Soneto de Fortaleza/CE Haroldo Lyra COLHEITA Aquelas árvores que nós plantamos na lavoura dos sonhos conjugais, cresceram como crescem os vegetais que dão bons frutos quando os cultivamos. Punhos fortes romperam matagais, sulcando a terra onde por lá deixamos sementes em que ambos preservamos o vigor das raízes paternais. Arrostando galhaças perigosas, muitas vezes, as mãos silenciosas removeram espinhos que encontramos. Hoje vamos, na idade já provecta, à sombra que das frondes se projeta, colhendo os frutos que nós dois plantamos.
  10. 10. 11 Recordando Velhas Canções Modinha (modinha, 1968) Sérgio Bittencourt Olho a rosa na janela, sonho um sonho pequenino Se eu pudesse ser menino eu roubava esta rosa E ofertava todo prosa à primeira namorada E nesse pouco ou quase nada eu dizia o meu amor O meu amor Olho o sol findando lento, sonho um sonho de adulto Minha voz na voz do vento indo em busca do teu vulto E o meu verso em pedaços só querendo o teu perdão Eu me perco nos teus passos e me encontro na canção Ai, amor, eu vou morrer buscando o teu amor Ai, amor, eu vou morrer, morrer de muito amor Uma Trova de Rio Novo/MG Eugênia Maria Rodrigues São diversos os destinos mas digo, nos versos meus: somos todos peregrinos caminhando para Deus! Um Soneto de Fortaleza/CE Haroldo Lyra CARAPUÇA Quem fez sabe o terrível sofrimento, imposto sem clemência ao infeliz que enfrenta desumano tratamento, nos obscuros porões de uma raiz. Desdenho, pois desse procedimento, refutando algum mal que jamais fiz, e pelo qual pagar esse tormento dos alicates, da perfuratriz. Hão de afirmar ser um falacioso desabafo de um paciente idoso que não se amolda às fases do processo.
  11. 11. 12 Mas acredito que um deleixo existe no secular sistema que persiste onde a ciência postergou progresso. Um Haicai de São José dos Pinhais/PR Sérgio Francisco Pichorim A igreja distante e os seis toques de sino. Sorvo o meu mate. Uma Trova de São Paulo/SP Cidoca da Silva Velho Mandacarus - mãos erguidas na aridez do meu sertão, são imagens destemidas do nordeste em oração. Um Soneto de Fortaleza/CE Haroldo Lyra APANIGUADOS I Tenho pena de quem não é capaz De sustentar-se pelos próprios meios, Nos donativos finca os seus esteios E a propaganda de um viver falaz. Tenho pena dos que romperam veios Das batalhas que não enfrentam mais; Mendigos de padrões oficiais Classificados sem quaisquer receios. Que pena!… quando o silo esvaziar-se E o joio dessa safra esparramar-se Sobre as mentes que o dolo enfeitiçou. Será penoso então o amanhecer, Pois apenas terão para comer: As sengas do pão que o diabo amassou. Hinos de Cidades Brasileiras Carinhanha/BA À margem do São Francisco Está a linda cidade; Nome que vem de uma ave, Que dorme em tranquilidade, Na esperança do porvir De heróis de capacidade. Eu te amo, Carinhanha, Dentro do meu coração,
  12. 12. 13 Tu és a minha primavera Florida numa canção, Cantada numa harmonia, No meio desta Nação. Princesa Sanfranciscana, Que ganhaste o trono em luta, Dispersando os filhos teus, No passado a tua conduta, Tristonho, quebraste o elo Duma amizade caduca. Tu és a deusa Euterpe Com o luar cor de prata, Onde a riqueza folclórica Reina qual a verde mata; Tuas festas é tradição De um povo que vibra em massa. Teu céu é mais azul, Nos confins do meu Brasil, No Rincão do Velho Nilo, Teu gigante e varonil, Povo humilde, bravo e forte Do Sertão és o perfil. Uma Trova de Curitiba/PR Wandira Fagundes Queiroz Se a mãe, através do amor, traz no olhar perene brilho, é para que a própria dor não turve a estrada do filho. _____________ Chuvisco Biográfico do Poeta Haroldo Lyra, nasceu em Icó/CE e radicou-se em Fortaleza desde a infância. Empresário da indústria e comércio no ramo materiais elétricos, iluminação. Escritor, sonetista, trovador. Seus livros publicados são: Remição do Soneto e Duetos – Editora Premius; Epigramas, Página solta, além de vários opúsculos. É Vice presidente da UBT Fortaleza com apoio e difusão: Diário do Nordeste, O Povo e Gazeta do Centro Oeste, periódicos classistas de Fortaleza e TV Educativa.
  13. 13. 14
  14. 14. 15 A gaiola me resguarda da fatal atiradeira: - do chumbo de uma espingarda, da pedra da baladeira. A juventude sadia brincando cria um evento, com lindo sorriso envia buquê de flores ao vento. A rede armada na praia, lazer que embala o casal, que no Ceará se espraia ao longo do litoral. A sombra da juventude na parede projetada, contrasta com lassitude da velhice na calçada. Bailar na vida é rotina de quem sabe ser feliz, e nunca fecha a cortina do baile que não tem bis. Cai a chuva sobre a terra em queda fenomenal; quanta alegria que encerra até banhando o casal. Cenas de tempos passados, que à saudade satisfazem, evocam sonhos dourados e muito a tantos aprazem. Confirma-se o sofrimento do pobre homem, coitado!... pois desde o seu casamento que ele vive acorrentado. Comprova a fama que traz, o casal protagonista desse filme ora em cartaz, intitulado turista. Considero a efervescência dessa densa multidão, estressante consequência da tal globalização.
  15. 15. 16 Com sua vela enfunada não lhe intimidam navios e singra, afoita jangada, os verdes mares bravios. Cores de outono bizarro que a paisagem modifica. E a estrada tosca de barro juncada de folhas fica. Era um garoto travesso, um mestre na peraltice: virava tudo ao avesso, era o rei da macaquice. Essa fumaça abismal configura um retrocesso atroz e paradoxal, nas esteiras do progresso. Fora a lida humanitária, do trabalho grande amiga, herdara dessa operária o denodo da formiga. Gosto de me divertir nas belas praias do Iguape, mas acho melhor curtir a serra de Maranguape. Já tenho setenta e três nessa tal melhor idade, versando com lucidez e muita felicidade. No cais, sem vela, ancorado, o barco sofre a lacuna, de um capitão reformado que abandonou velha escuna. No mar da vida sonhei com a rota certa e fiel. Sereno, as vagas singrei num barquinho de papel. Nos acordes, uma festa, namoro no coração; são enlevos da seresta nas cordas de um violão.
  16. 16. 17 O arrojo dos alpinistas arrepia tal qual túmulos, mormente quando as conquistas escalam os níveos cúmulos. Oh! vento que vela enfunas. Oh! buggy aberto ao terral, cinzelando as alvas dunas ornam praias de Natal. Olhando a fotografia me confunde um leve açoite: no relógio é meio-dia ou será que é meia-noite? O luar no mar refrata feixe de raios azuis, realça a onda e retrata a praia que nos seduz. Ontem pujante esperança numas linhas refratárias; no caderno, hoje, a lembrança das minhas trovas primárias. Os sentimentos do mar as ondas cantam na areia, afagando o firme olhar da solitária sereia. Para o carinho colher, por Maranguape eu passava, subia a serra a rever a noiva que ali morava. Permita entrar meu amor pela porta da afeição, para expulsar o torpor que anula a sua razão. Pode até conter amor, mas a emoção será pouca: beijos por computador!... prefiro os de boca à boca. Pra viagem convidado, chegou depois da partida. Convém tomar mais cuidado: se não, perde o trem da vida.
  17. 17. 18 Quanto mais vai apertando tanto mais fica gostoso, com esse aperto estreitando, doce abraço carinhoso!... Quisera que sempre houvesse nas mãos que dominam o mundo, a força que o amor exerce num viver livre e fecundo. Rio de curvas simétricas emoldurando a paisagem, cinzela as veias poéticas da natureza selvagem Tens a missão importante num mar sereno ou escuro, indicando ao navegante aquele porto seguro. Terra de gente importante que em Maranguape nasceu: do Chico, comediante; d’um Capistrano de Abreu. Um carinho especial dispensei à margarida; essa flor que hoje é vital no jardim da minha vida. Vai disposto e sorridente, o senil casal surfar. Quanta alegria evidente por se divertir no mar.
  18. 18. 19 Jean La Fontaine 1621 – 1695 As Rãs Pedindo Rei Viviam certas rãs num charco imundo Em república plena. Era um pagode! Tal qual uns democratas, que há no mundo, Julgando que a república, no fundo, Outra coisa não é senão a gente Fazer o que bem quer e quanto pode, A rã tripudiava impunemente. Todos os dias era certo o choque Entre o batráquio forte, intransigente, E parte da nação, já descontente. Largou-lhe lá do céu um rei pacato, De suma gravidade, Das alturas tombando, o rei na queda Fez tal espalhafato, Que as fêmeas em pavor, os machos fulos, Aquelas saltitando, estes aos pulos, Como é uso das rãs nas grandes crises, Cada qual a gritar: arreda!, arreda! Entre os juncais, no lodo, nas raízes Dos salgueiros se enreda. Por longo tempo em seus esconderijos Das rãs esteve homiziado o povo, Transformaram-se em medo os regozijos Da antiga bacanal. Gigante novo Cuidavam ser o rei que o céu lhes dera. Não ousavam sequer sair da toca: Pois, não raro, os instintos maus de fera Por imprudente a presa é que os provoca. Já nessas muito a pêlo vinha Dizer: Cautela e caldo de galinha... O rei era um pedaço de madeira. Nem mais, nem menos. — Numa bela tarde Uma das rãs, por ser menos covarde Ou mais bisbilhoteira, Tirou-se de cuidados, manso e manso Na flor das águas surge, e, às guinadinhas, Com muito tento e jeito, Do cepo se aproxima. Após ela vem outra.. e outra... aos centos! Vendo que o rei não sai do seu ripanço, Rodeiam-no; coaxam: Salta acima...
  19. 19. 20 E coaxado e feito!... O rei, temido outrora, às picuinhas Dessa chusma vilã se vê sujeito. Em rápido momento Sobre ele a malta audaz se encarapita, E faz do bom monarca um bom assento. Nem chus nem bus! Galado que nem porta, Qual fora noutros tempos!... Isto irrita. Rompem as rãs então numa algazarra Que o pântano atordoa, Os fios d'alma a quem as ouve corta: "Leva daqui, ó Jove, esta almanjarra Que nem mexe, nem pune, nem perdoa, E mais parece uma alimária morta. Cabide duma croa. Em vez de nosso rei — nossa vergonha!" Vai Júpiter que faz? Uma cegonha Das muitas que possui logo destaca, E manda que das rãs ponha e disponha, Numa das mãos o queijo e noutra a faca. Ora a cegonha, apenas em seu trono Dona das rãs se vê e sem ter dono, Diz consigo: "Nasci dentro de um fole! Quem tira agora o papo da miséria Sempre sou eu!..." Passeia toda séria, Perna aqui... perna além, num andar mole E quanta rã apanha quanta engole. Geral consternação o charco enluta, Renovam-se as lamúrias: Que o rei é doido e tem às vezes fúrias; Que, doido ou não, o povo trata à bruta; Doutro rei que as não coma mais depressa Por fim, que faça o deus formal promessa! Mas Júpiter tonante Destarte lhes responde: "Inútil prece! Dei-vos um rei tranqüilo, inofensivo, Que nem sempre se tem, nem se merece: Um rei, que era um regalo! Foi vê-lo e pô-lo pela barra fora! Dei-vos segundo: um gênio um pouco vivo... Meninas, agüentá-lo! Era bom o primeiro e foi-se embora. É mau este de agora. Contentai-vos com ele, ó meus indezes, Que venha quem vier... pior mil vezes!”
  20. 20. 21 Jean de La Fontaine foi um poeta e fabulista francês. Filho de um inspetor de águas e florestas, nasceu na pequena localidade de Château-Thierry/França, em 8 de julho de 1621. Estudou teologia e direito em Paris, mas seu maior interesse sempre foi a literatura. Escreveu o romance "Os Amores de Psique e Cupido" e tornou-se próximo dos escritores Molière e Racine. Em 1668 foram publicadas as primeiras fábulas, num volume intitulado "Fábulas Escolhidas". O livro era uma coletânea de 124 fábulas, dividida em seis partes. La Fontaine dedicou este livro ao filho do rei Luís 14. As fábulas continham histórias de animais, magistralmente contadas, contendo um fundo moral. Escritas em linguagem simples e atraente, as fábulas de La Fontaine conquistaram imediatamente seus leitores.Várias novas edições das "Fábulas" foram publicadas em vida do autor. A cada nova edição, novas narrativas foram acrescentadas. Em 1692, La Fontaine, já doente, converteu-se ao catolicismo. Antes de vir a ser fabulista, foi poeta, tentou ser teólogo. Além disso, também entrou para um seminário, mas aí perdeu o interesse. A sua grande obra, “Fábulas”, escrita em três partes, no período de 1668 a 1694, seguiu o estilo do autor grego Esopo, o qual falava da vaidade, estupidez e agressividade humanas através de animais. Faleceu em Paris, 13 de abril de 1695. Profa. Ana Suzuki Aula 9 Diferença entre Tanka e Haicai O haicai, como já sabemos, é derivado do tanka, que começou como uma espécie de ciranda, chamada (pronuncia-se o erre como em cara, caro), para depois constituir-se num gênero cujo autor pode ser único. Ao contrário de seu filhinho haicai, tão mimado, o tanka só exige métrica. Esta sim, é indispensável: Cinco sílabas no primeiro verso. Sete no segundo Cinco no terceiro. Sete no quarto. Sete no quinto. Enfim, ele é um 5-7-5-7-7, sendo, com suas 31 sílabas, pouco maior que uma trova. O Hino Nacional Brasileiro é a musicalização de um poema pré-existente. o Hino Nacional do Japão também. A diferença é que os japoneses musicalizaram um tanka e por isto a letra de seu hino tem apenas 31 sílabas. Já existiu, no Japão, um Ministério da Poesia.
  21. 21. 22 Hoje não existe, mas ainda assim todo imperador e seus familiares têm que saber escrever tankas. Uma vez por ano, o imperador apresenta um tema para o Concurso Nacional de Tanka. A vantagem do haicai é tornar as pessoas mais atentas ao que sucede na natureza. A vantagem do tanka, para nossa alma latina, é permitir o subjetivismo. Nele, sim, podemos expor nossos sentimentos, confessar romanticamente nossos amores e desamores. E além disso ele é mais espaçoso, tem dois versos a mais, de sete sílabas cada um. Quem sabe escrever corretamente uma trova, sabe escrever um tanka.Vou dar apenas um exemplo, de minha autoria: É noite na praia... Os pescadores recolhem a estrela cadente. Então finjo recolher Carinhos que não me deste. Eu mesma, poeta ocasional, costumo usar só versos livres. Mas há duas coisas, necessárias, que me encantan nos versos breves metrificados - trova, tanka e haicai - e uma delas é a síntese. A outra tem tudo a ver com aquela cerveja que desce redondo, e são as redondilhas. Na contagem rítmica, poética, uma redondilha maior tem sete sílabas. A redondilha menor tem cinco sílabas. Todos os três gêneros que citei são feitos de redondilhas, maiores ou menores. E elas só descem redondo quando bem feitas, assim como a cerveja só é boa quando gelada. continua… Conheça mais sobre o haicai
  22. 22. 23
  23. 23. 24 Folclore Indígena Norte Americano Lenda da Mulher Búfalo Branco Um dia, dois jovens guerreiros Sioux estavam caçando nas pradarias do Minnesota. Ao subirem uma colina em busca de caça, eles foram surpreendidos ao verem uma jovem mulher, muito bonita surgir diante deles numa nuvem. Retendo o fôlego, eles a observavam. Ela trajava vestes feitas de corça branca. Levava a tiracolo uma sacola de pele e uma pele de búfalo em uma das mãos. Uma pena de águia, trançada nos seus longos cabelos negros, reluzia à luz do sol. Não tema, “disse a mulher,” eu trago paz e felicidade para vocês. Agora me falem, por que vocês estão longe de sua aldeia? A graça, a beleza dela, incendiou o guerreiro mais velho com pensamentos lascivos, que se calou. O mais jovem, então respondeu: -Nossa aldeia está com falta de comida.”Nós estamos caçando”. - Aqui, “ela disse,” leve de volta este pacote aos seus. Diga para os Chefes das sete fogueiras, de sua tribo, para reunirem-se na fogueira do conselho, e esperarem por mim." Ao escutar essas palavras, o mais velho deu voz ao seu desejo de acasalar-se com ela, ali mesmo na pradaria, debaixo do sol. No momento em que o guerreiro mais velho tentou agarrá-la, a mulher envolveu-o na pele de búfalo. Uma nuvem envolveu o corpo dele, e quando o pó assentou, no lugar do guerreiro havia um esqueleto recoberto de vermes. Foi então que Mulher Búfalo Branco, falou ao jovem guerreiro: -"O homem que olha primeiro a beleza exterior de uma mulher, nunca conhecerá sua beleza divina, pois ele é um cego. Mas o homem que primeiro vê a beleza de seu espírito e sua verdade, esse homem conhecerá o Grande Espírito nessa mulher; se ela quiser deitar-se com ele, ele compartilhará com ela um prazer mais pleno do que poderia imaginar." -Você, quando me olhou, não ficou cego com a minha beleza, mas seu primeiro pensamento foi: 'Quem é essa mulher?' 'De onde ela vem?' 'Será ela uma mulher sagrada?' -"Meu jovem, você também terá o que deseja".
  24. 24. 25 -"Você e seu amigo simbolizam dois caminhos que os homens podem seguir. Se procurar primeiro a sagrada visão do Grande Espírito, estará vendo da mesma maneira que o Criador, e por isso você saberá que aquilo que necessitar da terra chegará às suas mãos. Mas se preferir seguir primeiro, esquecer o Grande Espírito, satisfazer os seus desejos terrenos, você morrerá por dentro". Foi então que o jovem guerreiro resolveu perguntar quem era ela. Ela olhou profundamente nos olhos dele e respondeu: -"Eu sou o Espírito da Verdade. Seu povo me conhece como a Mãe dos Mais Velhos; mas como você pode ver, não sou tão velha assim. Sou a Grande Mãe, que vive dentro de cada Mãe, a moça que brinca em cada criança. Sou a face do Grande Espírito, que seu povo esqueceu. Vim para falar para as nações da planície. Vá para sua aldeia e prepare a minha chegada. Tenho algumas coisas a ensinar, coisas sagradas que sua tribo esqueceu." O jovem então correu ao seu povo, para transmitir a mensagem de Mulher Búfalo Branco aos Chefes das Sete Fogueiras de sua tribo. Após ouvirem o jovem, toda tribo começou a trabalhar numa enorme cabana, coberta de muitas peles, na qual toda tribo pudesse se reunir. Quando viram Mulher Búfalo Branco se aproximando pela pradaria, ficaram atônitos. Esperavam por alguém de mais idade. E ela parecia uma donzela, graciosa como a relva que se movia em torno dela no crepúsculo. Seu rosto brilhava como uma luz que falava das flores e das mais finas ervas. Descalça, como sempre andava nas suas viagens pela terra, ela entrou na grande cabana. Seu vestido de pele de Búfalo Branco irradiava a presença de seu espírito. Sem dizer uma palavra, andou em círculo em torno do fogo que ardia no centro da cabana. Cada vez que seus delicados pés tocavam a areia ao redor do fogo, os que a observavam sentiam que cada gesto seu era uma prece de profunda reverência à terra. Devagar, em silêncio, ela contornou o fogo sete vezes. Quando por fim ela falou, sua voz era como a canção dos pássaros das pradarias. -"Sete vezes, andei em sete círculos em torno deste fogo, em reverência e silêncio. O fogo simboliza o amor que arde para sempre no coração do Grande Espírito. É o fogo que aquece cada criatura no mundo. Vocês são como um ser único. Esta cabana, feita de muitas peles, é o corpo de vocês. O fogo que arde no centro dela é o amor de vocês." Parou um momento e, devagar, curvou-se para tirar um graveto incandescente das chamas. "Este fogo é mais forte que qualquer um de vocês. Seu povo esqueceu, o que é mais precioso que a água. Vocês esqueceram suas ligações com o Grande Espírito. Eu vim", disse ela erguendo o graveto, "como um fogo do céu para reavivar a memória daquilo que foi, e fortalecê-los para os tempos que virão." Pousou novamente o graveto no fogo e pegou uma sacola de pele que trazia.
  25. 25. 26 -"Nesta sacola, trago um cachimbo para ajudá-los a recordarem os ensinamentos que eu trago. Tratem-no sempre com respeito. Levem-no sempre em sacolas das mais finas peles, enfeitadas pelas mãos mais reverentes. Ponham neste cachimbo um tabaco sagrado plantado especialmente para esse fim. Fumem-no com um sentimento de gratidão ao Grande Espírito, de cujo sopro vocês receberam a vida. Usem o fumo para representar seus pensamentos, suas orações e aspirações ao Grande Espírito." Até então ela ainda não tinha aberto a sacola na qual estava o cachimbo. Desatou as tiras de couro que a amarrava, e retirou o cachimbo com tal reverência que todos que estavam na cabana, sentiram o coração transbordando e os olhos cheios de lágrimas. -"Este cachimbo sagrado, e cada tragada de fumo sagrado que vocês inalam pelo seu tubo, ajudará vocês a recordarem que cada sopro de vocês é sagrado. O fornilho do cachimbo é feito de pedra vermelha. Tem o formato de círculo. Simboliza a Roda Sagrada, o sagrado círculo da vida, o dar e receber, da inalação e da exalação, pelo qual todas as coisas vivas ingressam na vida pelo poder do Grande Espírito." Pedindo um pouco de tabaco, Mulher Búfalo Branco colocou-o no fornilho do cachimbo dizendo: "Este tabaco, simboliza o mundo das plantas, o musgo das pedras, as flores, as ervas, as folhas das relvas que cobre a colina para que sua mãe não repouse nua ao sol. Vocês estão aqui para cuidar da terra. Suas vidas são acesas pelo mesmo fogo que arde no coração do Grande Espírito." Assim falando, ela colocou um pequeno graveto no fogo para que ardesse como chama viva. "Da mesma forma que acendo esse graveto no grande fogo, assim todo ser humano é uma chama que faz parte do fogo eterno do amor do Grande Espírito." Devagar, ela tirou o graveto em chamas do fogo, e ergueu-o para que todos o pudessem ver. "Quando vocês viverem em harmonia com o Grande Espírito, sua chama de amor será vivida sempre por aqueles ventos espirituais. Vocês serão tomados de amor pela própria razão da vida! Acenderão o fogo do amor em todos os que encontrarem. Conhecerão o propósito de sua travessia por esse mundo e saberão que o Grande Ser deu uma chama da vida a todos: não para guardarem sua pequenina chama somente para si, amando apenas aquilo que é necessário às suas vidas, mas sim para que pudessem dar o seu amor, e com o fogo desse amor trazer consciência para a terra." Dizendo isto, ela segurou o graveto bem em cima do fornilho vermelho do cachimbo. Encostou a chama bem no centro do cachimbo, aspirando suavemente pelo tubo até o tabaco incandescer. O cheiro do fumo invadiu o ambiente. "Assim como o tabaco queima neste cachimbo de terra que representa as plantas," continuou Mulher Búfalo Branco, "assim também esse búfalo que vocês vêem entalhados no fornilho de pedra do cachimbo representa as criaturas quadrúpedes que compartilham com vocês esse mundo sagrado. As doze penas que pendem o tubo do cachimbo representam os seres alados com os quais vocês compartilham o grande círculo do céu." Em seguida ela passou o cachimbo ao chefe do conselho dizendo:
  26. 26. 27 -"Tomem este cachimbo. Agradeçam ao Grande Espírito, e passem o cachimbo aos outros do nosso círculo. Que seus pensamentos sejam elevados ao Grande Espírito que vem agora mexer com suas memórias, abrindo os olhos de seus narradores. Cada amanhecer que nasce vermelho no céu do leste, como o fornilho vermelho deste cachimbo, é o nascimento de um novo dia, de um dia sagrado. Lembrem-se sempre de tratar cada criatura como um ser sagrado: as pessoas que vivem além das montanhas, os pássaros, os peixes e os outros animais, todos eles são irmãs e irmãos de vocês. Todos constituem parte sagradas do corpo do Grande Espírito. Tudo é Sagrado." Neste momento, o cachimbo começa a ser passado de mão em mão. Depois que todos que estavam na cabana deram uma baforada, Mulher Búfalo Branco levantou com reverência o cachimbo para que todos vissem. -"Levem sempre o cachimbo com vocês. Trate-o como um objeto sagrado. Honrem todas as criaturas e vivam suas vidas em harmonia com o Caminho Sagrado do Equilíbrio de que fala cada árvore, cada flor e cada novo dia. Haverá muitas estações nas quais o coração de vocês se sentirá claro e puro como uma nascente nas montanhas, e vocês conhecerão a paz e a alegria do Grande Espírito. Mas, se vocês sentirem que se afastaram da trilha do Caminho Sagrado, se seus corações passarem a pesar dentro de vocês, não percam tempo em arrependimento. Ensinar-lhe-eis uma cerimônia," disse ela acendendo o cachimbo mais uma vez no fogo sagrado, "uma cerimônia que cada um de vocês pode fazer em companhia de outros, a sós em suas tendas, ou lá fora, na pradaria." Ela deu uma pequena baforada no cachimbo e disse: -"Parem suas atividades. Procurem uma pedra sobre a qual sentar. Rogando orientação do Grande Espírito. Acendam o cachimbo e deixem que o fornilho vermelho lhes lembre a sagrada escritura, o caminho da vida, o trilho vermelho do sol. Depois de ter aspirado seu fumo em honra do Grande Espírito, em honra da Mãe Terra, em honra dos animais e das pessoas que são fiéis à realidade, depois de ter dado graças as quatro direções, então aspirem uma vez mais para pedirem orientação aos grandes seres alados do mundo dos espíritos. Peça-os para ajudá-los a ver o melhor procedimento a seguir. Peçam para que eles ajudem a vocês fazerem a escolha mais sábia e a reconhecer os passos que devem tomar na trilha que seu EU mais profundo escolher para vocês. Isso permitirá que o fogo que arde dentro de vocês fale em termos claros, sem interrupções. Peça que os seres espirituais que os cercam, entrem em sua vida. Diga- lhes que desejam ajudá-los e ao Grande Espírito no seu trabalho, e perguntem-lhes como fazer isto. Ao ajudarem o Grande Espírito, vocês se ajudarão. Os seres humanos não são inteiramente felizes nem saudáveis senão quando servem aos propósitos para os quais o Grande Espírito os criou." Novamente ela entregou o cachimbo, para que fosse passado de mão em mão. Durante muito tempo, Mulher Búfalo Branco permaneceu em silêncio, mesmo
  27. 27. 28 após ser completado o círculo de baforada no cachimbo. Quando falou novamente, comparou seus ensinamentos a uma árvore; uma árvore que iria florescer à medida que tomavam a si essas coisas, plantando-as no coração de cada um e aplicando-as no dia a dia. -"Durante longo tempo," ela continuou, "vocês viverão sob a sombra sagrada da Árvore da Compreensão que estou plantando nas suas consciências. E, nas gerações vindouras, seu povo estará unido novamente no Sagrado Círculo da Vida. Infelizmente, essa árvore será derrubada depois de algumas gerações. A árvore parecerá morrer. A Roda Sagrada murchará até ser esquecida. Alguns poucos manterão a luz da verdade ardendo nos seus corações, mas a luz será fraca e, mesmo neles, passará a ser uma brasa pequena e imperceptível." Guardando o cachimbo na sacola, ela continuou: - "Mas a brasinha permanecerá. Em silêncio, continuará. Mesmo quando vocês tiverem suas terras invadidas, vendidas e roubadas. Essa brasa ainda manterá sua luz acesa e saibam, meu povo: um grande fogo pode sair de uma única brasa!" "Quando a tempestade passar, essa brasa acenderá um alvorecer mais forte do que qualquer outra alvorada. Uma nova árvore crescerá, mais gloriosa do que esta que agora deixo com vocês. Com o novo alvorecer, eu voltarei e viverei com vocês. Debaixo da sombra dessa árvore, estarão reunidos não somente as tribos vermelhas, mas as tribos brancas, as tribos negras e as tribos amarelas, vindo de todas as direções. Em harmonia, as quatro raças viverão sob os ramos da nova árvore. Tudo que foi quebrado será refeito por inteiro. A Roda Sagrada será consertada. A comida será farta e os espíritos de todas as criaturas alegrar-se-ão na harmonia de uma nova ordem, perfeita. O Grande Espírito, estará atuando dentro das raças, vivendo, respirando, criando através dos povos da terra. A paz virá as nações." Despediu-se dizendo que voltaria um dia, então transformou-se num Búfalo Branco, e sumiu envolta nas nuvens e nunca mais foi vista. Fonte: http://www.xamanismo.com/lendas.asp?c=2. dez 2007
  28. 28. 29 Luís Fernando Veríssimo GRANDE EDGAR Já deve ter acontecido com você. - Não está se lembrando de mim? Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra? Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir. Um, curto, grosso e sincero. - Não. Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O "Não" seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Passe bem. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto, mas igualmente razoável, é o da dissimulação. - Não me diga. Você é o... o... "Não me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como: - Desculpe, deve ser a velhice, mas... Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua. E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe. - Claro que estou me lembrando de você! Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata: - Há quanto tempo! Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará. - Então me diga quem sou. 29 Luís Fernando Veríssimo GRANDE EDGAR Já deve ter acontecido com você. - Não está se lembrando de mim? Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra? Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir. Um, curto, grosso e sincero. - Não. Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O "Não" seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Passe bem. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto, mas igualmente razoável, é o da dissimulação. - Não me diga. Você é o... o... "Não me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como: - Desculpe, deve ser a velhice, mas... Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua. E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe. - Claro que estou me lembrando de você! Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata: - Há quanto tempo! Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará. - Então me diga quem sou. 29 Luís Fernando Veríssimo GRANDE EDGAR Já deve ter acontecido com você. - Não está se lembrando de mim? Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra? Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir. Um, curto, grosso e sincero. - Não. Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O "Não" seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Passe bem. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto, mas igualmente razoável, é o da dissimulação. - Não me diga. Você é o... o... "Não me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como: - Desculpe, deve ser a velhice, mas... Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua. E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe. - Claro que estou me lembrando de você! Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata: - Há quanto tempo! Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará. - Então me diga quem sou.
  29. 29. 30 Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, e falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas: - Pois é. Ou: - Bota tempo nisso. Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse cara meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como jabs verbais. - Como cê tem passado? - Bem, bem. - Parece mentira. - Puxa. (Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?) Ele esta falando: -Pensei que você não fosse me reconhecer... -O que é isso?! -Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas. -E eu ia esquecer de você? Logo você? -As pessoas mudam. Sei lá. - Que idéia. (é o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. "Que bom encontrar você!" e paf, chuta uma perna. "Que saudade!" e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?) - É incrível como a gente perde contato. - É mesmo. Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso. - Cê tem visto alguém da velha turma? - Só o Pontes. - Velho Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...) - Lembra do Croarê? - Claro! - Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo. - Velho Croarê. (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.) - Rezende... - Quem? Não é ele. Pelo menos isto está esclarecido. - Não tinha um Rezende na turma? - Não me lembro. - Devo esta confundindo. Silêncio. Você sente que esta prestes a ser desmascarado. Ele fala:
  30. 30. 31 - Sabe que a Ritinha casou? - Não! - Casou. - Com quem? - Acho que você não conheceu. O Bituca. (Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador . Você esta tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?) - Claro que conheci! Velho Bituca... - Pois casaram. É a sua chance. É a saída. Você passou ao ataque. - E não avisou nada? - Bem... - Não. Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, O Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada? - É que a gente perdeu contato e... - Mas meu nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite. - É... - E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim. - Desculpe, Edgar. É que... - Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam. ( Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele esta na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de "Já?!".) - Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu? - Certo, Edgar. E desculpe, hein? - O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido. - Isso. - Reunir a velha turma. - Certo. - E olha, quando falar com a Ritinha e o Manuca... - Bituca. - E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein? - Tchau, Edgar! Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer "Grande Edgar". Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar "Você está me reconhecendo?" não dirá nem não. Sairá correndo. Luis Fernando Verissimo nasceu em 26 de setembro 1936, em Porto Alegre, RS. Filho do grande escritor Érico Veríssimo, iniciou seus estudos no Instituto Porto Alegre, tendo passado por escolas nos Estados Unidos quando morou lá, em virtude de seu pai ter ido lecionar em uma universidade da Califórnia, por dois anos. Voltou a morar nos EUA quando tinha 16 anos, tendo cursado a Roosevelt High School de Washington, onde também estudou música, sendo até hoje inseparável de seu saxofone. Participou da televisão, criando quadros para o programa "Planeta dos Homens", na Rede Globo e, fornecendo material para a série "Comédias da Vida Privada", baseada em livro homônimo. Escritor prolífero, tem textos de ficção e crônicas publicadas nas revistas Playboy, Cláudia, Domingo (do Jornal do Brasil), Veja, e nos jornais Zero Hora, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e, a partir de junho de 2.000, no jornal O Globo.
  31. 31. 32 André Carneiro Do Outro Lado da Janela Ele notava o defeito bem tarde, quando já passava horas vendo os programas. Era uma pequena mancha que mudava de lugar e às vezes desaparecia, para voltar depois. A televisão era nova, não devia dar defeito. Mandou consertá-la. No primeiro dia foi tudo bem. No segundo, lá estava a mancha de novo. Nos programas da tarde a imagem era boa. Alguém o lembrou de que talvez fossem os olhos cansados... Não eram. Sentia-os perfeitos, mesmo quando passava da meia-noite. Alguns filmes terminavam por volta das três horas da manhã. O técnico foi chamado de novo, e tudo se repetiu, até que ele resolveu vender o aparelho por qualquer preço e comprar outro, com sacrifício, o melhor e o mais caro nos anúncios. Até a meia-noite a imagem estava nítida, mas meia hora depois apareceu a sombra, vaga e móvel, como se fosse parte de outra transmissão. A mancha não era estática, tinha movimento, suas bordas modificavam-se, dissolviam-se como algo em crescimento, em evolução. É isso, em evolução. Ele notou que a mancha era uma coisa viva, às vezes tinha tanto interesse quanto os filmes. Ele se perturbava olhando para aquilo, tentando descobrir o que era, o que significava, enquanto se esforçava para não perder o que estava acontecendo atrás, no filme que acompanhava. Atrás? Por que atrás? A mancha não estava na frente, misturava-se à imagem do programa transmitido. Ele já mudara a televisão de lugar, comprara filtros especiais, inutilmente. Embora não falasse com ninguém do prédio, um dia, no elevador, quando conversavam sobre novelas, criou coragem, perguntou se eles notaram um defeito, uma leve mancha na imagem. Não, ninguém vira nada parecido. Aos poucos, desistiu de lutar contra a mancha. Não chamaria mais os técnicos, não tentaria eliminar o defeito. Estava aprendendo a conviver com ela. Entretanto, a mancha não era somente
  32. 32. 33 algo que tapava o que estava atrás. Ela vibrava e se mexia com tal sutileza que parecia um pequeno programa dentro do outro que ele via. Surpreendeu-se, um dia, ao perceber que a mancha estava também aparecendo à tarde, nem se lembrava há quanto tempo. Agora, quando o programa não era de seu especial interesse, ele olhava para a mancha, acompanhava as suas bordas, tentava calcular quanto ela tinha crescido e até onde ia chegar. Bem tarde da noite, ela parecia bem maior e mais forte. Ele ficava no sofá, quase deitado, olhando fixo, horas seguidas. Um dia, surpreendeu-se com o vídeo luminoso e branco, o zumbido do aparelho ligado, sem nenhuma imagem. Eram cinco horas da manhã, a estação tinha encerrado a transmissão. Ficou olhando por algum tempo ainda o retângulo mágico, depois deitou-se e custou a dormir. Ficou algumas horas na cama, levantou-se e ligou o aparelho. A mancha estava lá. Agora bem maior. Quando se deu conta que a mancha já ocupava metade da imagem, percebeu que só via também os programas pela metade. A mancha crescia do centro para as bordas. Fazia estas reflexões para si próprio, de maneira fria e estatística, pois também ele aumentava as horas em que permanecia em frente ao aparelho, prestando a maior atenção. A mancha não era um borrão. Era uma cena, personagens, gestos, que ele identificava como em um sonho. Só saia do quarto para pegar algo, um sanduíche, voltava correndo com medo de perder alguma coisa. Comia coisas frugais, olhando para o vídeo. Já não importava selecionar canais, procurar programas. A mancha estava ali e fixando-a com atenção revelava coisas, fisionomias que ele não identificava, mas lhe pareciam importantes. Não se esforçava para entender nem reconhecer o que via. Era algo que o fascinava e o prendia, que talvez acabasse saindo do aparelho e invadindo toda a casa. Sim, havia personagens na mancha, e um, mais especial, que o emocionava, não sabia por quê. Assistia aos programas até o fim. Quais programas? Não saberia descrever ou dar o título de nenhum. Ele via televisão e a mancha não existia mais. Era o próprio programa. O personagem principal foi adquirindo contornos mais precisos e, embora não houvesse enredo ou história, sua maneira de andar, sua fisionomia marcada eram impressionantes. Com lágrimas nos olhos, ele percebeu, um dia, que aquele personagem era ele próprio, circulando naquele retângulo, vivendo ali a sua vida. Nesse dia, não dormiu. Ficou na frente da TV até o dia amanhecer. Não a desligou, também. Sem quase
  33. 33. 34 tirar os olhos dela, bebeu apenas um copo de leite. Pestanejava e olhava o aparelho zumbindo, e de repente teve uma sensação estranha. O quarto parecia menor, mais quente, as paredes não eram mais paredes, mas tinham encaixes, fios, eram curvas, eram... o aparelho de televisão em sua frente parecia imenso agora, mas... não era um aparelho, era como se fosse uma janela retangular, enorme, do tamanho da parede do quarto. Do outro lado da janela, não, não era janela, era o próprio vídeo que ele reconhecia, as paredes do quarto eram de vidro. Ele estava dentro do tubo, dentro do próprio aparelho, e lá fora, sentado em uma cadeira, com os olhos fixos em sua direção, um homem cansado, mas atento. Podia reconhecê- lo facilmente. Era ele próprio. Fonte: CARNEIRO, André. A máquina de Hyerónimus e outras histórias. São Carlos: EDUFSCar, 1997. p.21-23. André Granja Carneiro nasceu em Atibaia/SP, em 9 de maio de 1922. Foi um poeta, escritor, cineasta e artista plástico brasileiro. Fundou o Clube de Cinema e promove exposições e encontros culturais, levando à Atibaia artistas como Aldemir Martins, Anita Malfatti, Oswald de Andrade e Di Cavalcante. Cria o jornal literário Tentativa (1949)2 , que contribui para sua projeção como escritor. Nesse período, atua em O Atibaiense, escreve o primeiro livro – Ângulo e face (1949) – e trava contato com Sérgio Milliet, Cassiano Ricardo, Murilo Mendes, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade e Stephen Spender. Faz literatura, fotografia e cinema, tendo sido premiado nas três áreas, no Brasil, França, Holanda, Itália e Inglaterra. Na literatura, ramo ao qual mais se dedicou, tem obras publicadas em diversos países, tendo recebido, entre outros, os prêmios Machado de Assis, Alphonsus de Guimaraens, Pen Club internacional e Nestlé. Membro de sociedades artísticas e científicas integra a Parapsychological Association, a Science Fiction and Fantasy Writers of America, e a Academie Ansaldi, de Paris. Dono de uma obra densa e variada publicou, entre outros, Piscina Livre e Amorquia (romance), Ângulo e face, Espaçopleno, e Pássaros florescem (poesia), Diário da nave perdida e O homem que adivinhava (contos) e Introdução ao estudo da Science-fiction, Manual de hipnose e O mundo misterioso do hipnotismo, no gênero ensaio. Sua obra tem sido objeto de estudos importantes, entre os quais.Foram escritas diversas teses acadêmicas de mestrado e doutorado sobre sua obra poética e sua prosa. André Carneiro escreveu também ensaios sobre Literatura e Hipnose Clínica. Teve seu conto "A Escuridão" (1963), publicado nos EUA em antologia ao lado de ganhadores do Nobel de Literatura e participou da antologia brasileira Páginas de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros, editada por Braulio Tavares para a Editora Casa da Palavra, que incluiu histórias de Machado de Assis, Drummond, Aluízio Azevedo, etc. A Imprensa Oficial do Estado de São Paulo publicou, também em 2006, uma coleção facsimilada do seu jornal literário Tentativa, com título desenhado por Aldemir Martins e apresentação de Oswald de Andrade. Foi destaque da ficção científica internacional, ao ser publicado na antologia The Definitive Year's Best Selection, de 1973, que editou os melhores contos de ficção científica do mundo, onde André Carneiro é apresentado como um dos grandes autores do gênero. André Carneiro foi escolhido "Personalidade do Ano de 2007" pelos editores do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Faleceu em Curitiba, 4 de novembro de 2014, aos 92 anos de idade. O corpo foi cremado, e as cinzas depositadas em uma árvore.
  34. 34. 35 Zemaria Pinto POEMA E POESIA NÃO SÃO A MESMA COISA? Parte 2 CONCEITO ESTRUTURAL O Discurso que é produto de uma SELEÇÃO E COMBINAÇÃO ESPECIAIS DE SIGNOS que resultem, além da semelhança de significados, numa semelhança sonora entre os significantes dos signos que compõem esse discurso (figuras de efeito sonoro). CONCEITO DE JAKOBSON O texto elaborado em versos, ou seja, o POEMA. O Poema que obedece às normas da Versificação é considerado belo e perfeito pelos antigos gregos(Aristóteles). CONCEITO CLÁSSICO OU TRADICIONAL A TRANSFORMAÇÃO DO SÍMBOLO (= signo, enquanto representação de algo que existe na realidade) EM ÍCONE, ou seja, na própria coisa que representa. É formar a imagem e os sons do referente usando as letras e os sons dos signos lingüísticos (SIGNIFICANTES). Ao invés de falar sobre o referente, o signo o concretiza no espaço em branco da página. Ao invés de trabalhar com o signo lingüístico, o poeta trabalha o signo lingüístico. CONCEITO CONCRETISTA A versificação é o conjunto de normas que ensinam a fazer poemas belos e perfeitos segundo o conceito dos antigos gregos. Para eles, beleza e perfeição são sinônimos de trabalhoso, detalhado, complexo e tudo aquilo que segue a um modelo, a um conjunto de normas. É, assim, a técnica ou a arte de fazer versos. Verso é cada uma das linhas que compõem um poema, possui número determinado de sílabas poéticas (métrica), agradável movimento rítmico (ritmo ) e musicalidade (rima). O conjunto de versos compõe uma estrofe, que pode ser: 1. Monóstico: estrofe com um verso; 2. Dístico: “ “ dois versos; 3. Terceto: “ “ três “ 4. Quarteto: “ quatro versos; (ou quadra) 5. Quintilha: “ “ cinco “ 6. Sextilha: “ “ seis “ 7. Septilha: “ “ sete “ 8. Oitava: “ “ oito “ 9. Nona: “ “ nove “ 10. Décima : “ “ dez “ Mais de dez versos: estrofe Irregular.
  35. 35. 36 O verso que se repete no início de todas as estrofes de um poema chama-se ANTECANTO e o que se repete no final, BORDÃO. O conjunto de versos repetidos no decorrer do poema chama-se ESTRIBILHO ou REFRÃO. Métrica é a medida ou quantidade de sílabas que um verso possui. A divisão e a contagem das sílabas métricas de um verso são chamadas de ESCANSÃO, que não é feita da mesma forma que a divisão e contagem de sílabas normais, pois, segundo a Versificação: 1) Separam-se e contam-se as sílabas de um verso até a última sílaba tônica desse verso. Ex: Es|tou | dei|ta|do | so|bre| mi|nha| ma|la 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 2) Quando duas ou mais vogais se encontram no fim de uma palavra e começo de outra, e podem ser pronunciadas simultaneamente, unem-se numa só sílaba métrica. Quando essas vogais são diferentes, o processo chama-se elisão e quando são vogais idênticas, crase. Ex: E|la+es|ta|va|só (Elisão) e fo|ge+e|gri|ta (Crase) 1 2 3 4 5 1 2 3 3) Geralmente, como acontece na divisão silábica normal, os elementos que formam um ditongo não podem ser separados e os elementos que formam um hiato devem ser separados na escansão de um verso. No entanto, se o poeta precisar separar os elementos de um ditongo (diérese) ou unir os de um hiato (sinérese), ele tem LICENÇA POÉTICA para que sua métrica dê certo. O mesmo acontece se ele precisar contar também até a última sílaba átona do verso. Outras LICENÇAS POÉTICAS: . ectlipse: supressão de um fonema nasal final , para possibilitar a crase ou a elisão. Ex: E nós com esperança = E|nós| co’es|pe|ran|ça 1 2 3 4 5 . aférese: Supressão da sílaba ou fonema inicial. Ex: “Estamos em pleno mar” = Sta|mos|em|ple|no|mar 1 2 3 4 5 6 Quanto à Métrica, um verso pode ser: 1. monossílabo: verso com apenas uma sílaba; 2. dissílabo: verso com duas sílabas; 3. trissílabo: três 4. tetrassílabo: quatro 5. pentassílabo: cinco, também chamado REDONDILHA MENOR 6. hexassílabo: seis 7. heptassílabo: sete, também chamado REDONDILHA MAIOR 8. octossílabo: oito 9. eneassílabo: nove 10. decassílabo: dez, também chamado de Heróico 11. hendecassílabo: onze 12. dodecassílabo: doze, também chamado de ALEXANDRINO Ritmo é o resultado da regular sucessão de sílabas tônicas e átonas de um verso. Para os gregos, ele é um
  36. 36. 37 elemento melódico tão essencial para o poema quanto para a Música. O ritmo é binário ascendente quando há um som fraco seguido de um forte (fraco/FORTE): “A|nu|vem|guar|da+o|pran|to” (Alphonsus de Guimaraens) O ritmo é binário descendente quando há um som forte seguido de um fraco (FORTE/fraco): “Te|nho|tan|ta|pe|na “ (Fernando Pessoa) O ritmo é ternário ascendente quando há dois sons fracos seguidos de um forte (fraco/fraco/FORTE): “Tu|cho|ras|te+em|pre|sem|ça |da|mor|te” (G. Dias) O ritmo é ternário descendente quando há um som forte seguido de dois sons fracos(FORTE/fraco/fraco): “Fá|ti|ma|diz|que|não|to|ma|nem|pí|lu|la.”(D. Pignatári) Os versos que não seguem as normas da Versificação quando à métrica e/ou ao ritmo são chamados de VERSOS LIVRES. Som ou RIMA também é para os antigos um elemento essencial para que um poema seja uma POESIA. A rima é a identidade e/ou semelhança sonora existente entre a palavra final de um verso com a palavra final de outro verso na estrofe. Foneticamente, uma rima pode ser perfeita - se houver identidade entre as terminações das palavras que rimam (neve/leve) - ou imperfeita, se houver apenas semelhança (estrela/vela). Morfologicamente, a rima é pobre quando as palavras que rimam pertencem à mesma classe gramatical (coração/oração), e rica quando as palavras que rimam pertencem a classes gramaticais diferentes (arde/covarde). Quanto à posição na estrofe, as rimas podem ser classificadas como: a) emparelhadas ou paralelas (aabb); b) cruzadas ou alternadas (abab) “Vagueio campos noturnos a “Se o casamento durasse a Muros soturnos a Semanas, meses fatais b Paredes de solidão b Talvez eu me balançasse a Sufocam minha canção.” b Mas toda a vida... é demais! “ b (Ferreira Gullar) ( Afonso Celso) c) opostas, intercaladas ou interpoladas (abba) “Não sei quem seja o autor a Desta sentença de peso b O beijo é um fósforo aceso b Na palha seca do amor!” a (B. Tigre) d) continuadas: consiste na mesma rima por todo o poema. e) misturadas: são as rimas que não seguem esquematização regular. f) VERSOS BRANCOS: são os do poema sem rima. Fazem parte do estudo do som ou rimas as FIGURAS DE HARMONIA OU DE EFEITO SONORO: aliteração, assonância, onomatopéia, paronomásia, parequema e o eco (ou rima coroada). continua…
  37. 37. 38 José Maria Pinto de Figueiredo nasceu em Santarém, no Pará, em 1957, mas Manaus é sua casa desde criança. Além de economista, é poeta de sólida formação literária. Atuou como professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Amazonas. Editor do jornal poético “O fingidor”, escreve também premiados textos para teatro. Seus principais livros são Corpoenigma (1994), Fragmentos do silêncio ( 1996), Música para surdos (2001) e Dabacuri (2004). Deonisio da Silva Expressões e suas origens 2 ERRAR É HUMANO Frase do escritor latino Sêneca, o filósofo preceptor do imperador Nero. Sêneca foi bom professor, mas seu aluno desvairado decretou-lhe morte das mais cruéis, ordenando que cortasse os próprios pulsos. O filósofo escreveu diversos livros, entre diálogos, tratados e cartas, e seus ensinamentos estavam baseados na doutrina dos estóicos. São-lhe atribuídas a autoria de obras célebres como Medéia, As troianas e Fedra. Teólogos cristãos, quando citam a frase, costumam emendá-la, escrevendo: "errare humanum est, sed perseverare in erro autem diabolicum". "Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico." ESTAR COM O DIABO NO CORPO O diabo tem sido ao longo dos milênios o principal responsável por certos atos que os homens perpetram, mas não querem assumir. O mais comum é que tais práticas estejam no terreno da luxúria, do sexo e de seus domínios conexos. Vários foram os que registraram a frase, entre os quais o talentoso escritor francês, morto aos 20 anos, Ramond Radiguet (1903- 1923), que deu este título a um de seus romances em que um adolescente exerce atração sobre uma esposa adúltera. Também Joaquim José da França Júnior (1838-1890), que foi da Academia Brasileira de Letras, registrou a frase na comédia Direito por linhas tortas, só que com outro resultado: "com o diabo no corpo, Sinhá Velha caiu de bordoada em cima de mim". É SEU BATISMO DE FOGO Ao condenar os hereges às fogueiras, a Inquisição sustentava que eles não tendo sido batizados com água benta, faziam ali seu batismo de fogo. E aqueles que os condenavam ainda garantiam que os réus estavam fazendo um bom negócio, ao trocar as labaredas
  38. 38. 39 eternas do inferno por chamuscadas que apenas os levariam desta vida. Porém, a frase mudou de sentido no século passado, quando Napoleão III (1808-1873) adaptou-se aos que entravam em combate pela primeira vez. Hoje, a expressão se refere a qualquer situação crítica em que os envolvidos têm de obter bom desempenho em tarefas importantes. Mário Vargas Llosa (61) tem um livro com o título Batismo de fogo. EU ACUSO Esta frase célebre, tantas vezes citada, nasceu no dia 13 de Janeiro de 1898, quando o escritor francês Émile Zola publicou uma famosa carta no jornal L´Aurore, dirigida ao então presidente da França, desmascarando o falso julgamento militar que havia sido imposto ao oficial Alfred Dreyfus, acusado de alta traição, mas na verdade condenado por ser judeu. Começava com a frase "Eu acuso" repetida em todos os parágrafos. Corajoso, o escritor acusava altas autoridades civis e militares, dando nomes e sobrenomes. Processado e condenado, o romancista refugiou-se na Inglaterra. Mas o caso Dreyfus foi reaberto e em 1906 o oficial foi considerado inocente e reintegrado pelo Exército francês. O escritor, porém, tinha falecido em 1902. É UM ELEFANTE BRANCO Esta frase tem servido para designar grandes empresas estatais deficitárias. Sua origem é um costume do antigo reino de Sião, situado na atual Tailândia, que consistia no gesto do rei de dar um elefante branco aos cortesãos que caíam em desgraça. Sendo um animal sagrado, não poderia ser posto para trabalhar. Como presente do próprio rei, não poderia ser vendido. Matá-lo, então, nem pensar. Não podendo também ser recusado, restava ao infeliz agraciado alimentá-lo, acomodá-lo e ajaezá-lo com luxo, sem nada obter de todos esses cuidados e despesas. A frase foi utilizada pelo ex-presidente João Figueiredo para queixar-se dos excessivos gastos, não de uma estatal, mas de seu sítio do Dragão. É UM NÓ GÓRDIO Quando se quer referir-se a uma extraordinária dificuldade em determinada questão, diz-se que se trata do nó górdio do assunto. A história desta frase remonta aos tempos de Alexandre, o Grande (356-323 a. C.), senhor de um império que incluía quase o mundo inteiro. Segundo a lenda, quem desatasse o nó com que estava atada a canga ao cabeçalho de um carro feito por um camponês frígio dominaria o Oriente. O carro estava no tempo de Zeus. Do nó, feito com perfeição, não se viam as pontas. Alexandre tentou desamarrar e , não conseguindo, cortou-o com a espada. E desde então esse gesto tem servido de metáfora para designar ações ousadas para resolver problemas. É UM PEQUENO PASSO PARA O HOMEM, MAS UM PASSO GIGANTESCO PARA A HUMANIDADE Neil Armstrong disse esta frase famosa ao descer no mar da tranqüilidade e tornar-se o primeiro homem a
  39. 39. 40 caminhar na superfície da Lua. Eram 5h56min56s do dia 21 de julho de 1969 e o mundo inteiro estava de olho na televisão, que transmitia ao vivo. O segundo homem a pisar na Lua, acompanhando o comandante do módulo Eagle (águia, em inglês ) foi Edwin Aldrin Jr. Enquanto isso, na nave-mãe, a Apollo 11, o terceiro deles, Michael Collins, tornou-se o mais solitário dos homens, pois, quando estava do lado escuro da Lua, ficava sem comunicação nenhuma: nem com os dois do módulo, nem com o resto da humanidade aqui embaixo. Os três tinham a mesma idade: 39 anos. É UM PÉ-RAPADO No Brasil colonial, pés-rapados eram trabalhadores que produziam riqueza na lavoura e nas minas. Com seu trabalho, o rei português Dom João V (1689-1750) enchia as burras monárquicas de ouro e diamantes vindos do Brasil. Gastou fortunas em doações a ordens religiosas e foi gigantesco o esbanjamento que garantiu a vida luxuosa da corte, a ponto de o seu reino tornar- se a maior nação importadora européia. Mas erigiu também museus, hospitais e a casa da moeda, além de providenciar a canalização do rio Tejo. Tudo pago pelos pés-rapados brasileiros. EU NÃO SOU MINISTRO, EU ESTOU MINISTRO Estas frases foram pronunciadas pelo professor universitário, crítico, ensaísta e editor Eduardo Portela, em 1981, quando era – ou melhor, estava – ministro da Educação e Cultura, no governo de João Baptista de Oliveira Figueiredo, o último presidente militar. Tão logo fez a preciosa distinção entre os verbos ser e estar, deixou o ministério, voltando para suas lides literárias. É autor de vários livros importantes para a compreensão de nossa literatura e de suas relações com a sociedade, entre os quais Literatura e realidade nacional e Crítica literária: método e ideologia. É membro da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 1981. EU QUERO FICAR SOZINHA A atriz sueca Greta Garbo (1905-1990) resolveu que seria mais feliz sozinha e fez este pedido de forma antológica com esta frase, retirando-se de cena aos 36 anos. Uma das mulheres mais admiradas e desejadas do mundo nasceu pobre e foi vendedora de loja e modelo antes de se tornar atriz na Real Escola Dramática de Estocolmo. Aqueles que a conheceram sempre admitiram que era mais bonita nas fotos e no cinema do que na vida real. Ao retirar-se, produziu duas solidões: a sua e a dos que ficaram sem ela. A frase que virou provérbio foi pronunciada originalmente em inglês: I want to be alone. FAÇAM O QUE EU DIGO, MAS NÃO FAÇAM O QUE EU FAÇO Um dos mais antigos registros desta frase encontra- se no Evangelho de São Mateus 23, 3, mas com uma variação: "façam tudo o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem, porque eles dizem o que se deve fazer, mas não o fazem". Por motivos de rima, a frase recebeu ainda um personagem imaginário: "Frei
  40. 40. 41 Tomás, façam o que ele diz, mas não façam o que ele faz". Antes destes registros, porém, quando ainda não havia frades e santos, nem neste mundo, nem no outro, o comediógrafo e poeta romano Plauto (254-184 a.C.), a quem foi atribuída a autoria de 130 peças de teatro, aconselhou no terceiro ato, na cena III, de sua peça Asinária: "prática aquilo que pregas". FALAI BAIXO SE FALAIS DE AMOR A frase é um conselho do célebre dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare (1564-1616), que se casou aos 19 anos, abandonou o lar e passou a dedicar-se ao teatro. Alguns dizem que ele nunca existiu, sendo uma invenção histórica sobre a qual muitos estão de acordo. A existência da sua obra, porém, é fácil de ser comprovada em muitos lugares do mundo, em diversas línguas e vários palcos, aonde vem sendo encenado há quatro séculos. Suas peças apresentam uma variedade impressionante de personagem e temas, com destaque para o amor e a política, quase sempre entrelaçadas. FALAR PELO COTOVELO Esta frase significa ‘falar demais’. Tem origem nos gostos de faladores contumazes, que procuram tocar os interlocutores com os cotovelos em busca de maior atenção. O primeiro a registrar a expressão foi o escritor latino Horácio (65-8 a.C.), numa de suas sátiras. O folclorista brasileiro Luís de Câmara Cascudo (1898-1986) referiu-se ao costume das esposas no sertão nordestino de cutucar os maridos à noite, no leito conjugal, buscando reconciliação depois de alguma briga diurna. Entre os estadistas, quem mais fala pelos cotovelos é o presidente de cuba, Fidel Castro. FAZER FIASCO Fazer fiasco é frase que nasceu nos meios teatrais italianos e originalmente foi grafada far fiasco, cuja tradução literal é fazer fiasco. Tudo teria começado quando um comediante meteu-se a fazer graça e volteios risíveis utilizando uma garrafa – fiasco, em italiano. Tendo sido malsucedido, dali em diante certos fracassos cotidianos passaram a ser identificados com esta frase. No Brasil a frase foi traduzida literalmente, e também na França, faire fiasco, mas lá com uma variante: faire un four. O escritor francês, nascido na Suíça, Henry Stendhal (1783-1842) foi um dos primeiros a registrá-la, usando a forma italiana. FAZER TEMPESTADE NUM COPO D’ÁGUA Com o significado de aumentar descabidamente a importância de eventuais acidentes nas relações pessoais, esta frase, de raízes antigas, tem sido dita e escrita muitas vezes nesses tempos em que os debates vão ficando cada vez mais acalorados, dada a revelância das questões em exame, de que são bons exemplos os assuntos tratados nas sessões da Câmara dos Deputados e do Senado. Entre os autores que mais cedo a registraram está o escritor francês Victor Hugo (1802-1885), que acrescentou algumas variações, como a de fazer tempestade dentro de um crânio, subtítulo do
  41. 41. 42 romance Os miseráveis, e "fazer tempestade no fundo de um tinteiro", numa de suas poesias. FAZER UMA MESA REDONDA Hoje é comum organizar mesa-redonda para discutir esse ou aquele assunto, mas raramente o móvel ao redor do qual os participantes tomam assento tem forma circular. É tradução da expressão inglesa round table, mesa da lendário corte do rei Arthur (séc. VI d.C.), que não tinha cabeceira, nem lugar de honra e ao redor da qual o rei e os cavaleiros sentavam-se como iguais. Suas aventuras foram tema de numerosas novelas de cavalaria narradas sob o título geral de Os cavaleiros da távola redonda. A frase passou a ser usada politicamente a partir de 14 de janeiro de 1887 na residência de Sir Willian Harcourt, quando o Partido Liberal Inglês discutiu a questão irlandesa. Fonte: Deonísio da Silva. De onde vêm as palavras. Deonísio da Silva nasceu em Siderópolis/SC em 1948. Professor, escritor e etimologista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Filologia, vinculado às universidades Unijuí, RS (1972-1981), Ufscar, SP (1981-2003), Estácio, RJ (2003-2015) e Unisul, SC (2014-2015), dando aulas e videoaulas de Língua Portuguesa e respectivas literaturas e desenvolvendo projetos editoriais. Autor de 34 livros, alguns dos quais publicados também em Portugal, Itália, Alemanha, Canadá etc. Suas obras referenciais são o romance "Avante, soldados: para trás" (Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago); "Nos bastidores da censura" (sua tese de doutoramento na USP) e o livro de etimologia "De onde vêm as palavras". A Literatura Francesa IDADE MÉDIA No século XI apareceram os primeiros textos em francês: as Canções de Gesta. Formas prematuras de poesia, seus autores narravam façanhas heróicas. Estes poemas são classificados em três grupos: francês, bretão e clássico. O ciclo francês trata, principalmente, dos que lutavam a serviço da religião. A figura central é Carlos Magno, transformado em herói do cristianismo. O poema épico mais famoso, composto no princípio do século XII, é A Canção de Rolando. O ciclo bretão está baseado no folclore celta. O principal poeta foi Chrétien de Troyes que viveu no
  42. 42. 43 final do século XII. O ciclo clássico ou antigo é o grupo menos original. A obra mais conhecida é o Romance de Alexandre. Simultaneamente às Canções de Gesta, a literatura popular criou os fabliaux, que floresceram nos séculos XII e XIII, as sátiras - entre elas, Le Roman de Renard, baseadas nas coleções de fábulas do século XII -, e o Roman de la rose, escrito por Guillaume de Lorris e Jean de Meun (ou Meung). A influência deste texto estendeu-se pela Europa até o século XVII. O melhor poeta lírico medieval foi François Villon, cuja influência prolongou-se até o século XX. A evolução da literatura medieval religiosa para a profana vê-se, mais claramente, no teatro do século XIII, data da primeira obra pastoral e ópera cômica. Os milagres da Virgem foram o tema favorito durante o século XIV mas, no século seguinte, as produções teatrais libertaram-se da influência eclesiástica. Antes do século XVI, destacam-se também alguns historiadores, entre eles Godofredo de Villehardouin e Jean de Joinville, cronistas das Cruzadas. Christine de Pisan, autora de crônicas cortesãs em elegantes versos e Alain Chartier, cronista em verso da desastrosa batalha de Agincourt, foram eclipsados por Jean Froissart que descreveu o mundo das ordens de cavalaria. As Memórias (1524), de Philippe de Comines, é o primeiro relato de acontecimentos políticos sob o ponto de vista de um homem de Estado. O RENASCIMENTO O mais importante dos primeiros poetas do Renascimento foi Maurice Scève, escritor do século XVI, mas o apogeu deste período só foi alcançado com o grupo de poetas conhecidos como la Pléyade cujo mentor foi Pierre de Ronsard. Por outro lado, Joachim du Bellay ajudou a preparar a chegada do Classicismo. As novas idéias do Renascimento - e, especialmente, o novo conceito de Humanismo - apareceram, pela primeira vez, nos escritos de François Rabelais, famoso pela vivacidade e talento enquanto Michel de Montaigne apresentava-se como protótipo do humanista erudito. PERÍODO CLÁSSICO O século XVII é a época clássica da literatura. Uma das principais figuras do período foi François de Malherbe. Dois fatores influenciaram na aceitação dos conceitos literários de Malherbe: o salão da marquesa de Rambouillet, considerada a fundadora do Preciosismo, e a Academia Francesa, tornada estatal em 1635 e responsável pela publicação do primeiro dicionário. Outra mulher influente foi a marquesa de Maintenon. Nicolas Boileau-Despréaux foi o principal crítico e teórico literário da época clássica. Também destaca-se Jacques Bénigne Bossuet, o orador mais célebre da época. Pierre Corneille tornou-se o primeiro dos grandes mestres franceses da tragédia clássica. Seu sucessor, Jean Baptiste Racine, foi mais valorizado. Molière seria reconhecido como o mestre da comédia. Cabe destacar a contribuição dos jansenistas, um grupo católico puritano. As figuras de ponta do Jansenismo são o filósofo, físico, matemático e místico Blaise Pascal, os
  43. 43. 44 polemistas teológicos Arnauld e Pierre Nicole, além dos moralistas Jean de la Bruyère e François de la Rochefoucauld. Jean de la Fontaine é considerado um dos maiores fabulistas de todos os tempos enquanto a melhor romancista da época - principalmente devido à exploração psicológica de suas personagens - foi Madame de La Fayette. O SÉCULO DAS LUZES No século XVIII, os precursores do Iluminismo foram François de Salignac de la Mothe Fenélon, Bernard le Bovier Fontenelle e Pierre Bayle. Contudo, quem melhor encarna o espírito deste século é Voltaire. O escritor Denis Diderot encarregou-se de projetar e sistematizar o conhecimento humano na Enciclopédia. Um livro notório desta época, O espírito das leis (1748- 1750), de Charles de Secondat, barão de Montesquieu, continua influenciando o pensamento político moderno. Na ficção destacam-se Antrine François Prévost, Pierre de Marivaux e Pierre Choderlos de Laclos. Na poesia, o maior nome foi André Chénier. A obra de Jean-Jacques Rousseau antecipou as idéias revolucionárias e inaugurou o Romantismo. No período de reação que sucedeu a Revolução Francesa, os principais escritores foram o Conde Joseph de Maistre e o Visconde François René de Chateaubriand. ROMANTISMO Dos numerosos grupos literários surgidos no século XIX, os mais importantes foram os românticos. Os romances de Madame de Staël anteciparam o Romantismo da geração seguinte, formada por Alphonse de Lamartine, Victor Hugo, Dumas (pai), Théophile Gautier e os poetas Alfred de Vigny, Alfred de Musset e Charles Nodier. Da mesma época procedem o poeta Pierre Jean de Béranger, a romancista George Sand - pioneira do romance social e uma das primeiras feministas da História -, o historiador Jules Michelet e alguns precursores do Socialismo como Saint-Simon, Charles Fourier, Pierre Proudhon e Louis Blanc. Em nível intermediário encontram-se as obras dos historiadores François Guizot, Adolphe Thiers e Augustin Thierry, e os textos de Benjamin Constant. REALISMO Honoré de Balzac é considerado o autor que propicia a transição entre a corrente romântica e a realista, integrada por Stendhal, Gustave Flaubert e Prosper Mérimée. O realista Charles Augustin Sainte- Beuve é considerado o melhor crítico francês. Seus ensaios são ótimos exemplos de crítica sociológica e psicológica. PARNASIANISMO E SIMBOLISMO Os poetas parnasianos Leconte de Lisle, Sully Prudhomme e José de Heredia reagiram contra o Romantismo. A obra deles é mais uma volta ao Classicismo do que uma inovação. Baudelaire exerceu forte influência sobre os simbolistas, também chamados, pejorativamente, de decadentes. Os poetas mais importantes deste período foram Paul Verlaine,
  44. 44. 45 Henri de Régnier, Stéphane Mallarmé, Isidore Ducasse (um uruguaio que se intitulava Conde de Lautréamont), Tristan Corbière, Charles Cros e Jules Laforgue. O mais influente simbolista foi Arthur Rimbaud que escreveu seus poemas mais representativos antes de completar 19 anos. Também na prosa alguns escritores buscaram efeitos simbolistas, entre eles o crítico literário Remy de Gourmont, Édouard Dujardin e o poeta Henri de Régnier. NATURALISMO No final do século XIX surge a corrente chamada Naturalismo, liderada pelo historiador e crítico Hippolyte Taine e pelos irmãos Edmond e Jules de Goncourt. O Naturalismo foi adotado por Émile Zola, o escritor mais significativo deste movimento. No campo da narrativa curta, o autor mais importante foi Guy de Maupassant. A obra do crítico e historiador Ernest Renan exerceu influência sobre os romancistas Pierre Loti, Maurice Barrès e Anatole France. O SÉCULO XX No século XX, a literatura francesa diversificou-se através de escritores individualistas, entre eles, Marcel Proust, autor de À Procura do Tempo Perdido, um dos melhores romances já escritos. A independência do pensamento nota-se, também, em Romain Rolland, André Gide e outros autores como Roger Martin du Gard, Francis Jammes e François Mauriac e Jean Cocteau, este último um homem que exerceu sua criatividade em diferentes campos artísticos. Jean Giraudoux é considerado um grande estilista. A obra de Jules Romains retrata a alma coletiva da sociedade e Guillaume Apollinaire exerceu uma marcada influência sobre a arte moderna. Destacam- se, também, o poeta católico, dramaturgo e apologista Paul Claudel e Paul Valéry que começou como simbolista e foi um dos melhores poetas psicológicos de seu tempo. Outros prosadores famosos são Henry de Montherlant, autor de romances elegantes, e Colette, cuja aguda percepção a une aos realistas. Após a I Guerra Mundial, o tema bélico ocupa as obras de Henri Barbusse e Roland Dorgelès, precursores dos livros antibélicos do final da década de 1920. O ensaísta André Maurois escreveu sobre a guerra em tom de humor. Georges Duhamel tratou o tema com ironia e as obras de Jean Giono mostram um pacifismo militante e uma antipatia pela hegemonia das máquinas. Na época das vanguardas artísticas explodiu uma rebelião contra todas as formas artísticas tradicionais. Surgem o dadaísmo e o surrealismo, este último liderado por André Breton. Louis Aragon, Paul Éluard e Philippe Soupault são poetas que participaram do movimento surrealista. Outros romancistas empregaram diferentes recursos para expressar o espírito de sua época. Muitos merecem destaque: André Malraux, o aviador Antoine de Saint-Exupéry - que chegou a ser considerado o melhor escritor de sua geração -, Louis- Ferdinand Céline, Marguerite Yourcenar, Françoise
  45. 45. 46 Sagan e Jean-Jacques Servan-Schreiber, cujas obras mudaram a opinião pública francesa em temas políticos. Poetas importantes deste século foram Saint- John Perse e René Char. Na década de 1940 desenvolve-se o movimento filosófico e literário chamado Existencialismo, integrado, entre outros, por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Albert Camus procurou encontrar um sentido digno para a vida sem recorrer à hipocrisia ou falsos moralismos, ao mesmo tempo em que revelava uma visão niilista e desesperançada da condição humana. Em seu romance A Peste, uma metáfora da ocupação nazista e um apelo à dignidade, Camus revelou sua descrença nos homens ao escrever a frase "o natural é o micróbio". Albert Camus recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957 e morreu, aos 47 anos, em um acidente de automóvel. Na década de 1950 surgem duas escolas de literatura experimental: o Antiteatro e o Teatro do Absurdo cujos maiores exemplo são as obras de Eugène Ionesco, Samuel Beckett e Jean Genet. Paralelo ao antiteatro nasce o nouveau roman que se manifestou, principalmente, nas obras narrativas e teóricas de Nathalie Sarraute, Claude Simon, Alain Robbe-Grillet e Michel Butor. Em 1960 aparece uma nova escola de crítica literária, o Estruturalismo, baseada no trabalho do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. Seu maior expoente foi Roland Barthes. A última tendência crítica é conhecida como Desconstrução e seu pioneiro é o filósofo e crítico Jacques Derrida AUTORES Apollinaire, Guillaume (1880-1918) Poeta, associado ao círculo de poetas vanguardistas e pintures cubistas. Serviu na I Guerra Mundial; gravemente ferido, morreu em conseqüência de uma trepanação. É considerado o criador da poesia francesa moderna com a obra Álcoois de 1913. Há, também, na sua poesia, resquícios do romantismo, além de um forte elemento de mistificação, revelado sobretudo em sua peça teatral As mamas de Tirésias. Fato pitoresco: esteve envolvido no roubo da Mona Lisa. Foi o primeiro propagandista de Picasso e também descobriu o pintor primitivista Henri Rousseau. Charles Perrault(1628-1703) Escritor, médico e advogado. Apesar de ser autor conhecido em sua época em função de polêmicas relacionadas a escritores contemporâneos seus, Perrault tornou-se mesmo conhecido pelas Histórias de Mamãe Gansa, como O Gato de Botas, Chapeuzinho Vermelho, Pequeno Polegar. Apesar de sua aparente simplicidade, os contos de Perrault geraram volumes de comentários eruditos, onde se assinalam inúmeras sobrevivências das mitologias primitivas. Segundo esses comentaristas, a história do Barba Azul conserva vestígios de antigas cerimônias de iniciação e contém um exemplo dos perigos que se correm por infringir alguma interdição mágica. Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778)
  46. 46. 47 Filósofo e romancista suíço de língua francesa. Considerado o representante mais radical do iluminismo e um dos ideólogos da Revolução Francesa. Nasce em Genebra. Órfão de mãe, é abandonado pelo pai aos 10 anos e entregue aos cuidados de um pastor. Em 1728 vai para Annecy, na França. Muda-se para Paris 13 anos depois, onde se torna amigo do filósofo Denis Diderot e escreve para a Enciclopédia. Em Discurso sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens (1755), afirma que o homem nasce bom e sem vícios - o bom selvagem -, mas é pervertido pela sociedade civilizada. Em sua obra mais conhecida, O Contrato Social (1762), defende um Estado baseado na democracia e voltado para o bem comum e para a vontade geral. É o primeiro a atribuir soberania ao povo. Prega liberdade, igualdade e fraternidade, lema assumido pela Revolução Francesa. Escreve também romances, como Júlia ou a Nova Heloísa, que obtêm grande sucesso, tratados sobre música e uma ópera, O Adivinho da Aldeia. Suas idéias causam polêmica com outros pensadores e com as autoridades francesas. Obrigado a sair do país, exila-se na Inglaterra, mas volta para Paris em 1770. Mais tarde se muda para o castelo do marquês de Girardin, em Ermenonville, onde morre. Victor Hugo (1802-1885) Poeta e escritor. Principal prosador do romantismo em seu país. Victor Marie Hugo nasce em Besançon, filho de Joseph-Léopold-Sigisbert Hugo, general de Napoleão. Estuda direito em Paris e passa temporadas na Itália e na Espanha. Começa a escrever poesia com 20 anos. Seu primeiro trabalho, Odes e Poesias Diversas, publicado em 1822, é premiado com uma pensão de Luís XVIII. Dedica-se ao mesmo tempo ao teatro: sua peça Amy Robsart (1828) é vaiada, mas com Hernani, em 1830, é reconhecido como um dos teóricos do teatro romântico na França. Paralelamente desenvolve intensa atividade política. Apóia a revolução de julho de 1830 e a ascensão da monarquia constitucional de Luís Felipe. Em 1830 estréia Hernani obra teatral que representa o fim do classicismo, e desencadeia uma polêmica apaixonada. Essa obra expressa novas aspirações da juventude. para Hugo começa então um período de fecundidade. Rival de Lamartine, deseja se afirmar como o único e maior poeta lírico da França. Após a revolução de 1841, torna-se favorável à República, combatendo, mais tarde, o imperador Napoleão III. Sua glória de poeta é finamente consagrada em 1841, com a sua eleição para a Academia Francesa. No mesmo ano Luís Felipe o nomeia par de França. A essa altura, Victor Hugo é um homem bem sucedido, leva uma vida burguesa e dedica-se muito pouco a toda criação verdadeiramente nova. Mas ao ser deflagrada a revolução se 1848, se entusiasma com os valores revolucionários das camadas miseráveis e rompe-se com o parido da situação. Torna-se deputado, e se destaca por sua eloquência e por sua radical oposição a Luís Napoleão Bonaparte. O golpe de 1851 obriga-o a deixar o país. Passa 20 anos no exílio, que descreve como "uma
  47. 47. 48 espécie de longa insônia". Refugiado em Guernesey, Hugo redige ferozes panfletos contra o regime imperial. Mas também escreve grandes "painéis" novelescos e poéticos, em particular A Lenda dos Séculos (1859- 1883). Esta obra épica evoca a história do mundo e mistura constantemente a lenda com a realidade. Para ele, o mundo é o terreno onde se defrontam os mitos, o bem e o mal, a bondade e a crueldade. Escreve nesse período seus melhores livros, entre eles Os Miseráveis (1862), sua obra-prima. e O Homem Que Ri (1867). Volta à França após a instalação da III República, em 1870, mas não adere à Comuna de Paris. Eleito senador em 1876, porém, defende a anistia a todos os participantes do movimento. Quando ocorre o golpe de Estado de 2 de dezembro de 1851, Hugo combate nas barricadas e quando "Napoleão, o pequeno"se torna imperador, vê-se obrigado a exilar-se. Quando morre, em 1885, a república lhe presta homenagens fúnebres nacionais. Com ele desaparece um dos grandes gênios da língua francesa. Victor Hugo despertou imenso entusiasmo e fervor popular e deixou sua marca na literatura de todo o século XIX, e ainda em boa parte do século XX. La Fontaine, Jean de (1621-1695) Poeta. Obteve, graças ao seu poema Adonis, uma pensão de Fouquet. Escreveu baladas e madrigais e revelou coragem ao defender seu protetor, que caíra em desgraça, em Elegia às ninfas de Vaux (1661). Encontrou novo protetor em Mme de Orléans, viúva de Gaston d'Orleans e iniciou a publicação de seus Contos e novelas em versos (1665) e as célebres Fábulas, que apareceram em 1668 a 1694. Sensual e amante das castas poesias pastoris, volúvel e admirador da fidelidade, cortesão mas amante da simplicidade, sua vida é a própria imagem de sua obra, que une em harmonia a arte e a natureza. Representou o apogeu do lirismo francês, em que o amor e a felicidade encontram lugar num mundo bem ordenado. Montaigne, Michel Eyquem de (1533-1592) Escritor e pensador, uma das maiores figuras do Renascimento. Combinando elementos filosóficos estóicos com o ceticismo antigo, deu expressão ao humanismo subjetivista de sua época. Expôs um ideal de felicidade que consiste na tranqüilidade da alma, na prudência, na eliminação da inquietude, no viver de acordo com a mais íntima natureza do eu. Por meio de refinadas análises psicológicas, foi um dos primeiros a mostrar o peso da condição humana e, por isso, tem sido lembrado como um precursor do existencialismo moderno. Para ele, o homem se define pelo que faz. Toda a sua obra está contida em seus Ensaios, cuja primeira edição surgiu em 1580. Musset, Alfred de (1810-1857) Escritor, um dos maiores representantes do Romantismo. Famoso desde a publicação de Contos da Espanha e da Itália (1830), sua breve e acidentada ligação amorosa com George Sand parece ter sido a fonte inspiradora de seus melhores trabalhos: As noites (1836), série de poemas líricos e Confissões de
  48. 48. 49 um filho do século (1836), romance autobiográfico em que identificou sua desventura pessoal com a de toda uma geração, contaminada pelo chamado mal du sciècle. Dramaturgo, suas peças destinam-se mais à leitura que à representação. Delas se destacam Os caprichos de Marianne (1833), Lorenzaccio e Com o amor não se brinca (1834). Sade (Donatien Alphonse François, conde de Sade, dito Marquês de) (1740-1814) Escritor. Após ter servido o exército, seus desregramentos (flagelação, sodomia, sacrilégio) lhe valeram sucessivas prisões, pontilhadas de libertações e fugas. Encarcerado, escreveu suas primeiras obras: Os 120 dias de Sodoma (1782-1785), Justine ou as infelicidades da virtude (1791); compôs dramas morais (Le suborneur, 1793) e publicou, entre outros: A filosofia na alcova (1795) e Nova Justine (1795), seguido de A história de Juliette, sua irmã (1797), que lhe valeu nova prisão, em 1801. Em 1803 foi transferido para o hospício de Charenton, onde organizou representações teatrais e redigiu seus últimos romances, entre eles A história secreta de Isabel da Baviera (1813). Contestada, vilipendiada, sua obra só seria reconhecida por Apollinaire e pelos surrealistas, que descobriram nele a vontade de libertar o homem de todas suas opressões. Voltaire (François Marie Arouet) (1694-1778) Nascido em Paris, em 21 de novembro de 1694, falecido em 30 de maio de 1778, foi o pensador mais influente do período do iluminismo francês. Em sua época, foi considerado um dos maiores poetas e dramaturgos de seu tempo. Hoje, a figura de Voltaire é mais relacionada aos seus ensaios e seus contos. O nome Voltaire, na verdade, foi por ele adotado após a passagem pela prisão na Bastilha durante um ano, por sua vez ocorrida devido a alguns versos satíricos dos quais foi acusado de ser autor. A tragédia Édipo (Oedipe) abriu passagem para sua incursão no meio intelectual, tendo sido escrita no período de sua detenção na Bastilha. Uma outra obra que merece ser citada é o conto Cândido, escrito em 1759. Já em seus escritos filosóficos, as obras que devem ser citadas são o Tratado de Metafísica (Traite de Metaphysique), de 1734, e o Dicionário Filosófico (Dictionaire Philosophique), de 1764. Seu pensamento foi calcado nas bases do racionalismo, instrumento com o qual procurava pregar a reforma social sem a destruição do regime já estabelecido. Muito de sua luta dirigia-se contra a Igreja e, na atualidade, alguns chegam a considerar Voltaire como um predecessor do anti- semitismo moderno, dadas seus pensamentos acerca dos judeus, tidos por ele como fanáticos supersticiosos. No entanto, ele se opôs à perseguição a estes povos. Colaborou ainda com um dos enciclopedistas mais radicais, Diderot. Charles Pierre Baudelaire (1821 – 1867) Nascido em Paris, França, órfão de pai aos seis anos, odiou desde cedo o segundo marido da mãe, o general Aupick, sentimento que inspirou, mais tarde, sua

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