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O Valor Real das Árvores de Jorge Moreira - Revista O Instalador 234 Out 2015

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As árvores são magníficos seres da luz.
Procuram-na constantemente e quando
suas folhas verdes são bafejadas por ela, o
mundo jubila. Cada árvore autóctone abatida
entristece o nosso mundo, especialmente
porque cada árvore pode ser um autêntico
ecossistema, albergando líquenes, musgos,
fungos, insetos, aves, outras plantas, bacté-
rias e até mamíferos, que são também mortos
ou desalojados. Um conjunto equilibrado
de árvores e harmoniosamente consociado,
como são as florestas nativas, possuem uma
excelente biodiversidade. A diversidade dá
resiliência à floresta e a resiliência é a chave
para a recuperação após um evento desolador.
Por esse motivo, a floresta autóctone
permite uma gestão natural dos incêndios, a
recarga de aquíferos e previne certos riscos
naturais.

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O Valor Real das Árvores de Jorge Moreira - Revista O Instalador 234 Out 2015

  1. 1. Opinião AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS O Valor Real das Árvores As árvores são poemas que a terra escreve para o céu Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registar todo o nosso vazio. Khalil Gibran Texto e Fotos_Jorge Moreira [Ambientalista] acrescentando o facto que, durante esse processo, capturam dióxido de carbono, um dos principais gases responsáveis pelo efeito de estufa, e libertam o oxigénio que respiramos. Estes seres, nos quais se incluem as árvores no seu topo, são autênticas fábricas silenciosas de transformação de energia e matéria, que alimentam uma vasta biodiversida- de, criando condições para que a vida pudesse caminhar, erguer-se e tomasse consciência de si. A luz do sol é a fonte de energia primária que permite o florescimento e a manuten- ção da vida no nosso planeta. Os seres vivos fototróficos convertem essa energia física em energia química, que fica arma- zenada nos compostos orgânicos e serve de alimento base para a maior parte das cadeias alimentares conhecidas. Trata-se de um processo bio-físico-químico com- plexo e com várias fases, que as plantas, alguns protistas, proclorobactérias e cianobactérias são capazes de realizar, 68 O Instalador Out'15 www.oinstalador.com Os benefícios das árvores As árvores são lenhosas com imensos benefícios socioeconómicos e ambientais. Vários estudos indicam que as árvores podem ser utilizadas em técnicas de fitorremediação, para removerem do solo, poluentes altamente nocivos, como metais pesados e derrames de combustíveis. Poluentes esses, que se não forem devida- mente removidos, podem ainda contami- nar aquíferos. Da mesma forma, as árvores
  2. 2. O Instalador Out'15 www.oinstalador.com 69 Opinião AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS o desaparecimento do mecanismo de sequestro do mesmo, contido nas árvo- res abatidas. Paralelamente, as árvores assumem especial relevo em técnicas de adaptação climática e manutenção dos nutrientes no solo, especialmente peran- te fenómenos climatéricos extremos. A enorme capacidade de absorção de água e o sistema radicular diminui o perigo de cheias, a erosão do solo, as enxurradas, os lixiviados e o assoreamento dos rios. Terrenos sensíveis e inclinados que sofre- ram alterações do uso do solo, o corte das árvores ou as agruras dos incêndios, podem causar a jusante, danos humanos e patrimoniais lamentáveis. A catástrofe de 2010 na ilha da Madeira ficará na memória de todos. Mas será que todos perceberam a(s) verdadeira(s) causa(s)? As árvores são um manancial de bens. Para além dos diversos tipos de madeira e seus subprodutos, consoante a espécie e local onde se encontram, elas fornecem isolante, como a cortiça; alimentos, no- meadamente sementes, frutos, especiarias e chás; óleos e substâncias que incorpo- ram medicamentos e cosméticos; fibras e celulose, que alimentam respetivamente as indústrias têxtil e papel; e flores que embe- lezam o nosso mundo. Os resíduos podem ainda ser utilizados como fertilizantes, em sistemas de aquecimento térmico e como biomassa na produção de energia elétrica. Muitos dos seus produtos não implicam o abate. A inteligência das árvores Quão absurdo este título poderia parecer entre a comunidade científica há cerca de uma ou duas décadas atrás! Algo que a professora de ecologia florestal Suzanne Simard, da University of British Columbia, conseguiu desmitificar. Ela descobriu que as árvores de uma floresta, mesmo de espécies diferentes, estão ligadas em rede, enviando e partilhando informação pelo sistema radicular. As raízes das árvores e podem ser utilizadas para capturarem mais de 50% das partículas em suspensão que existem nas cidades e absorverem po- luentes atmosféricos primários, tais como óxidos de azoto, emitidos pelos transpor- tes que utilizam motores de combustão interna, e o óxido de enxofre, proveniente de algumas atividades industriais e da queima do carvão em centrais termoe- létricas. Estes poluentes primários são particularmente nocivos para os indivíduos que sofrem de problemas respiratórios e cardíacos. A situação pode agravar-se, quando muitos destes poluentes reagem na atmosfera, originando novos compostos (poluentes secundários), corrosivos para tecidos vivos e materiais ou na formação do característico smog fotoquímico urbano. Nesta situação, até as árvores sofrem as consequências das chuvas ácidas e os efeitos a uma exposição prolongada ao ozono troposférico. Em muitos locais, a colocação de árvores e arbustos serve para reduzir a poluição sonora, minorando a irritabilidade e o stress. O seu benefício é tal, que valoriza propriedades e imóveis na envolvente. Outros estudos mostram que uma só árvore, com copa grande e saudável, possui o mesmo efeito de dez aparelhos de ar condicionado a funcionar durante 20 horas por dia. As folhas conseguem refrigerar o ar através do processo conhe- cido por evapotranspiração, que liberta humidade. Um bom projeto urbanístico, que utilize árvores, pode contribuir para a diminuição substancial do consumo energético. Um carvalho saudável e adul- to transpira cerca de 150.000 litros de água por ano. Este é o mesmo princípio que serve para justificar a importância das florestas para a regulação do clima, através da humidade, formação de nuvens e respetiva precipitação, que alimenta rios, lagos e lenções freáticos. Complementarmente, sabe-se hoje que a passagem do ar sobre extensas man- chas florestais produz, pelo menos, duas vezes mais chuvas que a passagem em zonas com ausência ou rara vegetação. A desflorestação altera proporcionalmente o clima local e contribui para as altera- ções climáticas à escala regional e global, potenciada pela libertação do carbono e os fungos associam-se simbioticamente formando as micorrizas. O nós da rede são as árvores, as ligações são os fungos. Estas redes encontram-se organizadas tal como o nosso sistema neuronal ou as nossas redes sociais. Segundo Stefano Mancuso, da Universidade de Florência, em cada ponta da raiz, e numa planta pode haver milhões de pontas, existem sensores capazes de perceberem parâmetros físico- -químicos como a presença de nutrientes, o oxigénio, a gravidade, a temperatura e a luz. Nessa mesma ponta, existem células similares aos neurónios, que comunicam equivalentemente através de impulsos elétricos. O conjunto das raízes funciona como uma espécie de cérebro enorme, comandado pelas árvores mais antigas, as árvores-mães, que são o centro da regeneração da floresta e ajudam as mais novas a desenvolverem-se. Elas fixam o carbono nas suas folhas, fazem-no descer até às raízes e enviam-no como nutriente e informação para as restantes árvores, Os fungos são a internet natural da Terra Paul Stamets
  3. 3. 70 O Instalador Out'15 www.oinstalador.com Opinião AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS preferencialmente para as suas filhas e es- pecialmente em situações de stress ligados a perigos diversos ou secas. Quando uma árvore é atacada por um agente patogéni- co, esta produz moléculas voláteis como informação, avisando as outras árvores para prepararem as suas defesas, mesmo que estas se encontrem a quilómetros de distância. Muitas vezes, quando uma semente germina no solo, onde a luz do sol não chega, essa pequena planta é alimen- tada por uma mais velha. Comportam-se como famílias humanas, cuidando umas das outras e ajudando as filhas a ultra- passar as dificuldades. As árvores-mães movem recursos para as descendentes antes de morrerem, deixando o seu legado às gerações futuras. Tal como a nossa internet, esta rede natural também está sujeita a situações indese- jadas. Alguns organismos aproveitam-se dela para retirarem nutrientes, sem os devidos benefícios para com os dadores e, certas espécies, utilizam-na para com- petirem com outras. São os casos das acácias e de muitos tipos de eucaliptos, que segregam substâncias nocivas para outras espécies, reduzindo a capacidade destas de se estabelecerem nas vizinhan- ças ou diminuindo a possibilidade dos microrganismos espalharem-se junto das suas raízes, dificultando a rede natural. Por esse e outros motivos, estas exóticas são associadas à fraca biodiversidade e devem ser evitadas. A nossa relação com as árvores Segundo a revista Nature, existem atual- mente 3.040.000.000.000 árvores no mundo. Cerca de 416 árvores por cada ser humano. Parece muito? Nem por isso! O homem já fez desaparecer metade das árvores existentes. Anualmente aparecem 5.000 milhões de árvores novas e assisti- mos ao corte de 15.000 milhões. O saldo é francamente negativo, de 10.000 milhões de árvores. Os cálculos são evidentes: se o ritmo continuar, as árvores irão desa- parecer do planeta em apenas 300 anos. As causas antropogénicas principais são: fornecimento de madeira, alteração do uso dos solos para urbanização e agropecuária, incêndios, substituição de espécies autóctones por exóticas e, mais A árvore vai ficar a conhecer-te com os seus próprios sentidos. Pode haver um momento em que, incomodado, você chega para ver a sua amiga; a árvore irá trazer a sua frescura, sua envolvência verde, vai acalmá-lo e refrescá-lo, vai deixá-lo consolado. Mary Majka, ambientalista pioneira, in: “My Friends, the Trees”
  4. 4. O Instalador Out'15 www.oinstalador.com 71 Opinião AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS 69 mulheres perderam a vida agarrados às árvores da sua aldeia, tentando protegê-las do abate. Esta dramática ação culminou num decreto real que proibia o corte de árvores em todas as aldeias de Bishnoi. Estas aldeias são paraísos arborizados no meio da paisagem deserta e inspiraram o movimento Chipko (agarrar-se), iniciado na década de 70 do século passado, quando um grupo de camponesas do nordeste indiano abraçou as árvores que iriam ser abatidas. Esta nova ação provocou adia- mentos ao corte de árvores nos Himalaias e forçou reformas florestais. Ainda dentro deste espírito, dois homens e uma mulher merecem especial relevo. Os homens chamam-se Jadav Molai Payeng e Elzéard Bouffier. Ambos plantaram sozinhos e sem recursos uma floresta inteira. No norte da Índia, na Ilha de Majuli, Molai enfrentou há 36 anos um problema desolador. O local era impiedoso. Os bichos morriam devido ao calor intenso e à falta de vegetação. Desde então, encontra-se a plantar árvores e o resultado são os fantásticos 560ha de flo- resta, que alberga naturalmente elefantes, tigres rinocerontes e várias aves. Bouffier, um velho camponês sem instrução, dedi- cou parte da sua vida a transformar um au- têntico deserto nos Alpes franceses numa maravilhosa mancha viva e com a água a correr novamente nos leitos dos rios. No século passado plantou milhões de árvores ao longo de 30 anos. A mulher chama-se Wangari Maathai e foi laureada com o Nobel da Paz em 2004, precisamente pela conservação das florestas e do ambiente. Ela fundou em 1977, o movimento Cinturão Verde Pan-africano (Pan-African Green Belt Network), que já plantou 51 milhões de árvores no Quénia. Contamos ainda a plantação de árvores, que algumas comunidades tradicionais fazem quando nasce um bebé. Um gesto lindo e sustentável. Da mesma forma, já há quem co- loque uma semente com as cinzas fúnebres de um ente querido para memória futura. Na verdade, várias pesquisas relacionam o contato com as árvores com o bem-estar e a melhoria do estado de saúde de pessoas com doenças mentais, défice de atenção e concentração, hiperatividade, depressão e enxaqueca. As crianças melhoram a sua cognição e normalmente adoram as árvores. A beleza delas não deixa ninguém indiferente. Notas finais As árvores são magníficos seres da luz. Procuram-na constantemente e quando suas folhas verdes são bafejadas por ela, o mundo jubila. Cada árvore autóctone abatida entristece o nosso mundo, especialmente porque cada árvore pode ser um autêntico ecossistema, albergando líquenes, musgos, fungos, insetos, aves, outras plantas, bacté- rias e até mamíferos, que são também mor- tos ou desalojados. Um conjunto equilibrado de árvores e harmoniosamente consociado, como são as florestas nativas, possuem uma excelente biodiversidade. A diversidade dá resiliência à floresta e a resiliência é a chave para a recuperação após um evento deso- lador. Por esse motivo, a floresta autóctone permite uma gestão natural dos incêndios, a recarga de aquíferos e previne certos riscos naturais. Quando o abate é mesmo neces- sário, os intervenientes devem ter cuidados especiais na escolha dos indivíduos a abater, deixando as árvores-mães e as juvenis, para melhor e mais rápida recuperação. As árvores nativas são um manancial de serviços, produtos, saúde e bem-estar. Se são assim tão especiais para nós e para o Planeta, se são tão inteligentes, análogas aos comportamentos humanos mais no- bres, se são tão belas, que elevam o nosso espírito, se têm valor intrínseco, indepen- dente daquele que lhe atribuímos, porque continuamos a permitir o seu abate? Que o exemplo dos amantes das árvores sirva de inspiração para todos nós. Paz a todos os seres recentemente, efeitos da poluição e das alterações climáticas. As árvores são exploradas até à exaustão. Florestas inteiras são cortadas e toda a vida que alberga é dizimada. Nada é respeitado. Nem às árvores-mães, nem as espécies em perigo. O comportamento humano traz a destruição e o terror à vida não-humana. Locais ricos em biodiversidade e resilientes às pragas e às ignições de fogos deram origem a monoculturas de eucalipto para as celuloses. Os incêndios são mais fre- quentes e os solos cada vez mais podres e secos. Contudo, há pessoas e instituições que contrariam esta tendência e juntam-se para reflorestar zonas degradadas, com árvores nativas, como o Futuro – o Projeto das 100.000 Árvores do CRE, o Movimento Terra Queimada do GEOTA, Florestar Por- tugal da AMO, Criar Bosques da Quercus e Plante esta Ideia da Associação Plantar uma Árvore. Outras, como a Montis, optam por adquirir terrenos próprios ou gerir terceiros, com objetivos de conservação. E muitas ações são levadas por municípios, ONGA, particulares e movimentos não instituídos, no sentido da preservação da biodiversidade, na erradicação de exóticas, na reflorestação com espécies autóctones e na plantação em espaços amplamente urbanizados. Há ainda aqueles que vão mais longe e in- cluem as nossas primas, como gentilmente Carl Sagan se referia às árvores, na sua afetividade. Lutam para as salvar, falam com elas, meditam sob a sua copa, abra- çam-nas. Vandana Shiva relata um episó- dio na Índia, em 1730, onde 294 homens e

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