SIDNEY SHELDON
O OUTRO LADO DE MIM 
Finalmente, o grande mestre da narrativa partilha com o leitor a 
maior de todas as suas histórias......
OBRAS DE SIDNEY SHELDON 
• A Outra Face( 1969) 
• Nada Dura para Sempre (1994) 
• O Outro Lado da Meia-Noite (1974) 
• Cor...
• O Outro Lado de Mim (2006) Título original: The Other Side of Me 
Tradução de Luiza Mascarenhas Tradução portuguesa © de...
No original estão incluídas várias fotografias, que foram suprimidas na digitalização. 
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duzentas mil crianças, vagueavam pelo país. Estávamos no meio de uma desastrosa depressão. 
Antigos milionários suicidavam...
em que se aprende a desligar as luzes sempre que não são precisas. Espremíamos as últimas gotas 
do frasco de molho de tom...
- Por quê? 
- Porque eu ia... Suicidar-me. 
Fez-se um silêncio. Em seguida o meu pai disse: 
- Não fazia idéia de que te s...
-... devias adorar Roma... 
Se ele me tentar impedir agora, faço-o quando se for embora. Estava completamente embrenhado n...
consolo, a minha protetora. Eu era o seu primogênito e ela nunca deixou de se maravilhar com o 
milagre do nascimento. Não...
Harry Schechtel casou com Pauline Marcus, Otto Schechtel casou com Natalie Marcus, Tillie 
Schechtel casou com Al Marcus e...
Decidi que não conseguia aguentar mais. Precisava de ajuda. Fui ter com a minha tia Pauline, irmã 
de Natalie. Era uma sen...
espantosamente baratos. 
Em 1925 nasceu o meu irmão Richard. Eu estava na altura com oito anos. Vivíamos em Gary, no 
esta...
segunda mão e fez questão que eu começasse a ter aulas de piano. 
- Por quê? Perguntou Otto. 
- Depois verás. Respondeu. 
...
no. Quanto a mim, era maravilhoso que a minha mãe acreditasse no que ela dissera. 
Chicago nos anos vinte e trinta era a c...
- Sidney, eu acho que isto é mesmo muito bom. Queres levá-la a cena? 
Se queria! 
- Claro que sim, professora. 
- Vou trat...
Nem queria acreditar. Ia ser um sucesso ainda maior do que imaginara. 
Às dez da manhã, o imenso auditório estava cheio. N...
estava no meio do auditório de pé, a ouvir as minhas gargalhadas frenéticas. 
- Pára imediatamente! Ordenou. Mas como podi...
- Não te preocupes. Eu estou em Denver. Tenho uma grande companhia de corretagem a funcionar. 
Quero que venhas trabalhar ...
No Outono de 1930, com a idade de treze anos, matriculei-me no liceu de East, o que acabou por se 
revelar uma experiência...
afastar-se e a desaparecer a uma velocidade vertiginosa, e eu jamais sentira algo tão estimulante em 
toda a minha vida. 
...
mim. Tudo me parecia cinzento. 
Eu não sou capaz de passar o resto da minha vida a viver assim, pensei. A pobreza em que 
...
E comecei logo a trabalhar nessa semana. 
O trabalho era simples. Os clientes entregavam os casacos e os chapéus às empreg...
de uma calorosa família italiana, que juntava cerca de uma dúzia de adultos e crianças em volta de 
uma enorme mesa de jan...
apanhados e o teu pai foi considerado culpado, juntamente com eles. Vai para a cadeia. 
Fiquei chocado. Então a quinta era...
o mais depressa que fui capaz. Quando cheguei ao cimo, olhei para dentro e vi o garoto a afundar-se. 
Atirei-me à água e c...
- O seu nome? 
- Sidney Sheldon. 
A funcionária pegou num livro enorme e procurou. 
- Ora cá está. Que cursos quer frequen...
tentasse recuperar tempo perdido. Nessa tarde, dirigi-me aos escritórios do Daily Northwestern, o 
jornal da universidade....
- Já comecei. Vai ter a primeira entrevista para a próxima edição. Olhou para mim, surpreso. Já? E 
quem vai ser? 
- É sur...
- Tu nunca jogaste futebol? 
- Não, mas sou muito rápido e... 
- E gostavas de pertencer a esta equipa? Filho esquece. E a...
- Sou. 
- E ninguém te disse nada? 
- Sobre o quê? 
- É que não são permitidos calouros nos debates. Tens de estar em anos...
negras. Por fim, desesperado, marquei consulta no psicólogo da universidade, para ver se ele 
descobria o que havia de err...
clientes. Decidi que não tinha nada a perder, entrei e olhei em volta. Comecei a vaguear pela loja. 
Era enorme. Passei pe...
experiência. 
- Muito obrigado respondi, agradecido. Não o vou decepcionar. 
Fui trabalhar cheio de otimismo. Quinze minut...
Esta operação decorria numa enorme sala nua, com uma dúzia de homens, cada um com um 
telefone, a falarem ao mesmo tempo c...
ali tinha a oportunidade de poder subir. Um dia até podia chegar a chefe do departamento. O 
Mandei Brothers tinha uma cad...
- Então vens trabalhar para cá? Perguntou. 
- Sim, senhor. Pareceu ficar desapontado. 
- Vem comigo. 
E, começamos a camin...
As máquinas que me tinham sido apresentadas eram gigantescas e tinham sido construído para 
responderem a grandes encomend...
Uma noite em que regressava já tarde a casa no El vindo do trabalho, um anúncio no The Chicago 
Tribune chamou-me a atençã...
- Vou usar um nome diferente. 
- Que queres dizer com isso? 
- Bom, Schechtel não é um bom nome para o espetáculo. De agor...
Com grande compostura, aproximei-me do microfone, respirei fundo e disse na minha melhor voz 
de locutor: 
- Boa noite, mi...
Ele só tinha dezenove anos, mas parecia-me que fora adulto quase toda a vida. 
Eu conhecera a noiva, Sidney Singer, quando...
" My Silent Self". Olhei para ela e pensei “e agora?” Podia deixá-la no banco do piano ou podia tentar 
fazer alguma coisa...
Exatamente no momento em que começava a relaxar, Otto entrou a correr na casa de banho. 
- Tens uma chamada para ti. A est...
- Muito bem. Acompanhe-me. Fiquei a olhar para ele. 
- Acompanho-o onde? Passe-me uma multa. Eu estou cheio de... 
- Agora...
- Otto? 
- Então, como é que correu? 
- Estou a caminho da esquadra de polícia. E expliquei-lhe a situação. 
- Deixa-me fa...
- Eles acham que Phil Levant não é um nome suficientemente importante para apresentar a sua 
música. Gostavam de ter outra...
- É uma música bonita. 
- Está interessado? Perguntei. Olhou para mim. 
- Estou. Quero cinquenta por cento. Eu ter-lhe-ia ...
”My Silent Self” seria transmitida de Nova Iorque e ouvida por todo o país. 
Durante as semanas seguintes, consegui ouvir ...
Com todo o dinheiro que começaria a entrar, Natalie nunca mais teria de trabalhar. 
CAPÍTULO 7 
Antes da minha viagem para...
- Isso é um excelente sinal. Tu vais ser um grande sucesso. Respondeu ela. 
Passei a primeira tarde e noite a explorar Nov...
- Depois verá. Começa amanhã. 
- Sim, senhor. E amanhã darei início à minha carreira de compositor. 
O Brill Building, com...
A primeira dupla de filmes que vi foi A Day atthe Roces com os irmãos Marx e o Mr. Deeds Góes to 
Town. As novidades que s...
Tentei avaliar pelo tom da voz dele se tinha gostado ou não das minhas músicas. Fora um ”bom 
dia” normal, ou será que det...
sabia que, sem a minha contribuição e Otto sem trabalho, a vida devia ser ainda mais difícil para 
eles. Interroguei-me se...
No dia seguinte, quando fui trabalhar, o gerente do cinema chamou-me ao escritório dele. 
- O nosso anunciador está doente...
Uma entrada só por trinta e cinco cêntimos. Duas lições no amor por trinta e cinco cêntimos. 
Apressem-se. Apressem-se. Co...
Sidney Sheldon_O outro lado de mim
Sidney Sheldon_O outro lado de mim
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Sidney Sheldon_O outro lado de mim

  1. 1. SIDNEY SHELDON
  2. 2. O OUTRO LADO DE MIM Finalmente, o grande mestre da narrativa partilha com o leitor a maior de todas as suas histórias... a da sua vida! Começou como um dos muitos meninos pobres da América mergulhada na Depressão. Aos 17 anos, tentava suicidar-se. Como foi que este menino se transformou no mais traduzido de todos os autores, com mais de 300 milhões de exemplares dos seus livros vendidos em todo o mundo? Como foi que o jovem arrumador numa sala de cinema subiu poucos anos depois a um palco para receber um Oscar da Academia? Em O OUTRO LADO DE MIM, Sidney Sheldon não se poupa aos golpes que a vida lhe reservou. Fala com candura dos seus altos e baixos, dos sucessos e das críticas, revelando, pela primeira vez, a sua intimidade: as suas profundas perdas pessoais e a sua busca pela felicidade. E, se cada romance de Sidney Sheldon é garantia de leitura apaixonante, o romance da sua vida não o é menos.
  3. 3. OBRAS DE SIDNEY SHELDON • A Outra Face( 1969) • Nada Dura para Sempre (1994) • O Outro Lado da Meia-Noite (1974) • Corrida pela Herança (1994) • Um Estranho no Espelho (1976) • O Ditador (1995) • A Herdeira (1977) • Manhã, Tarde e Noite (1995) • A Ira dos Anjos( 1980) • Os Doze Mandamentos (1995/ Infanto-Juvenil) • O Reverso da Medalha( 1982) • O Fantasma da Meia-Noite (1995) • Se Houver Amanhã (1986) • O Plano Perfeito( 1997) • Um Capricho dos Deuses (1987) • Conte-me Seus Sonhos (1998) • As Areias do Tempo (1988) • O Céu Está Caindo( 2000) • Lembranças da Meia-Noite (1990) • O Estrangulador (2001) • Juízo Final (1991) • Quem Tem Medo do Escuro?( 2004) • Escrito nas Estrelas (1992)
  4. 4. • O Outro Lado de Mim (2006) Título original: The Other Side of Me Tradução de Luiza Mascarenhas Tradução portuguesa © de P. E. A. Capa: estúdios P. E. A. Copyright 2005 by Sidney Sheldon Family Limited Partnership. Todos os direitos reservados incluindo os direitos de reprodução no todo ou em parte sob qualquer forma. Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer processo, eletrônico, mecânico ou fotográfico, incluindo fotocópia, xerocópia ou gravação, sem autorização prévia e escrita do editor. Excetua-se naturalmente a transcrição de pequenos textos ou passagens para apresentação ou crítica do livro. Esta exceção não deve de modo nenhum ser interpretado como sendo extensiva à transcrição de textos em recolhas antológicas ou similares donde resulte prejuízo para o interesse pela obra. Os transgressores são passíveis de procedimento judicial Editor: Tito Lyon de Castro PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA, LDA. Apartado 8 2726-901 MEM MARTINS PORTUGAL ( Revisado por Otto Silva Cerqueira) E-mail: secretariado@europa-america.pt Execução técnica: Gráfica Europam, Ltda., Mira-Sintra Mem Martins Edição n.°: 161219/8852 Outubro de 2006 Depósito legal n ° 247746/06 Consulte o nosso site na Internet: www.europa-america.pt ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- - Digitalização e revisão: Fátima Tomás Nota da digitalizadora:
  5. 5. No original estão incluídas várias fotografias, que foram suprimidas na digitalização. ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- - As minhas adoradas netas, Lizy e Rebecca, para que conheçam a mágica viagem que foi a minha vida " Aquele que não tem loucos, vigaristas ou pedintes na família foi gerado pelo clarão de um relâmpago.” Thomas Fuller, clérigo inglês do século xvI. CAPÍTULO 1 Aos dezessete anos, fui trabalhar como moço de recados na * drugstore (*farmácia) Afremow em Chicago. Era o emprego perfeito, porque me permitia desviar os barbitúricos suficientes para me suicidar. Não sabia exatamente quantos eram precisos, por isso, de forma arbitrária, calculei que vinte deviam chegar, e fui tendo o cuidado de meter no bolso uns poucos de cada vez, de forma a não levantar as suspeitas do nosso farmacêutico. Lera algures que uísque e barbitúricos eram uma combinação letal, e eu tencionava juntá-los para garantir que morreria. Era sábado, o sábado pelo qual eu ansiara. Os meus pais estariam ausentes todo o fim de semana e Richard, o meu irmão, iam ficar em casa de um amigo. O apartamento ficaria deserto, por isso ninguém poderia atrapalhar os meus planos. Às seis da tarde, o farmacêutico anunciou: - Hora de fechar. Ele não fazia a mínima idéia de como estava certo. Chegara à hora de fechar tudo àquilo que correra mal na minha vida. Eu sabia que não estava só. Todo o país pensava como eu. Estávamos em 1934 e a América atravessava uma crise devastadora. Cinco anos antes, a bolsa entrara em colapso e a ela seguiram-se milhares de bancos. Por todo o lado, as empresas fechavam. Mais de trinta milhões de pessoas perderam os empregos e estavam desesperadas. Os salários desceram tão baixo que chegaram a um níquel à hora. Um milhão de vagabundos, incluindo
  6. 6. duzentas mil crianças, vagueavam pelo país. Estávamos no meio de uma desastrosa depressão. Antigos milionários suicidavam-se e os executivos vendiam maçãs na rua. A música mais popular da altura era Gloomy Sunday. Eu decorara uma parte da letra: ” Gloomy Sunday, With shadows I spend it all My heart and I Have decided to end it all” ” Sombrio domingo, Nas trevas tudo gastei O meu coração e eu Decidimos tudo acabar”. (N. da T.) O mundo era sombrio e combinava perfeitamente com o meu estado de espírito. Eu atingira as profundezas do desespero. Não conseguia encontrar razão nem justificação para a minha existência. Sentia-me deslocado, perdido. Estava infeliz e ansiava desesperadamente por algo que não sabia definir ou nomear. Vivíamos perto do lago Michigan, apenas a alguns quarteirões da margem, e uma noite fui até lá para ver se me conseguia acalmar. Estava uma noite ventosa e o céu mostrava-se coberto de nuvens. Olhei para cima e pedi: - Deus, se existes, mostra-te a mim. E, enquanto eu ali estava parado a olhar para o céu, as nuvens aglutinaram-se e tomaram a forma de um enorme rosto. Um súbito relâmpago deu ao rosto olhos de fogo. Corri durante todo o caminho até casa, em pânico. Eu vivia com a minha família num pequeno apartamento num terceiro andar em Rogers Park. Mike Todd, o grande homem do espetáculo, disse que várias vezes se viu falido, mas que nunca se sentiu pobre. Eu, no entanto, senti-me sempre pobre, pois vivíamos naquela aviltante e terrível pobreza em que, num Inverno rigoroso, nos víamos obrigados a não ligar o calorífero para podermos poupar e
  7. 7. em que se aprende a desligar as luzes sempre que não são precisas. Espremíamos as últimas gotas do frasco de molho de tomate e os últimos resquícios do tubo de pasta de dentes. Mas eu estava prestes a libertar-me de tudo isto. Quando cheguei ao nosso desolado apartamento, este estava vazio. Os meus pais já tinham partido para o fim de semana e o meu irmão não estava em casa. Não havia ninguém para me impedir de fazer o que eu me propusera. Entrei no pequeno quarto que partilhava com o meu irmão e, com cuidado, tirei do armário o pequeno saco que ali escondera com os barbitúricos. Em seguida, dirigi-me à cozinha, tirei uma garrafa de Bourbon da prateleira onde o meu pai a guardava e levei-a comigo para o quarto. Olhei para os barbitúricos e para o Bourbon e perguntei-me quanto tempo demorariam a fazer efeito. Deitei um pouco de uísque num copo e levei-o aos lábios. Não me permitiria pensar no que estava a fazer. Bebi um gole de uísque e o sabor amargo fez-me tossir, engasgado. Peguei num punhado de barbitúricos e comecei a levá-los à boca quando ouvi uma voz que dizia: - O que é que estás a fazer? Girei sobre mim, entornando um pouco de uísque e deixando cair alguns dos comprimidos ao chão. O meu pai estava parado no umbral da porta. Aproximou-se. - Não sabia que bebias. Olhei para ele, atordoado. - Eu... eu pensei que se tinham ido embora. - Esqueci-me de uma coisa. Vou fazer a pergunta outra vez: o que é que estás a fazer? E tirou-me o copo de uísque da mão. O meu cérebro girava, desenfreado. - Nada... Nada. Ele tinha o sobrolho franzido. - Isto não é nada teu, Sidney. O que é que se passa? Viu o monte de barbitúricos. Meu Deus! Mas o que é que se passa aqui? O que é isto? Não me ocorreu nenhuma mentira. Respondi provocante: - São barbitúricos.
  8. 8. - Por quê? - Porque eu ia... Suicidar-me. Fez-se um silêncio. Em seguida o meu pai disse: - Não fazia idéia de que te sentisses tão infeliz. - Não adianta impedir-me, porque, se não o fizer agora, faço-o amanhã. Ficou parado a observar-me. - A vida é tua. Podes fazer com ela o que quiseres. Hesitou. Se não estás com muita pressa, que tal irmos dar uma volta? Eu sabia exatamente o que é que ele estava a pensar. O meu pai era vendedor. Ia tentar convencer-me a desistir do meu plano, mas não tinha qualquer hipótese. Eu sabia o que ia fazer. - Está bem. Respondi. - Veste um casaco, não apanhes uma constipação. A ironia destas palavras fez-me sorrir. Cinco minutos mais tarde, caminhávamos pelas ruas varridas pelo vento e vazias de peões devido às temperaturas gélidas. Após um longo silêncio, o meu pai começou a falar: - Explica lá, filho. Porque é que te queres suicidar? Por onde é que eu ia começar? Como poderia explicar-lhe como me sentia só e encurralado? Desejava desesperadamente uma vida melhor, mas não havia uma vida melhor para mim. Queria um futuro maravilhoso e não havia futuro maravilhoso. Tinha sonhos ofuscantes, mas a verdade é que eu não passava de um simples moço de recados de um drugstore. A minha fantasia era entrar para a Faculdade, mas não havia dinheiro para isso. O meu sonho era tornar-me escritor. Escrevera uma dúzia de contos e enviara-os à revista Story, ao Collier’s e ao Saturday Evening Post, e recebera apenas rejeições impressas em papel. Chegara finalmente à conclusão de que não era capaz de passar o resto da minha vida nessa miséria sufocante. O meu pai estava a falar comigo: -... e há tantos lugares maravilhosos no mundo que ainda não viste... Deixei de ouvi-lo. Se ele partir esta noite, poderei continuar com o meu plano.
  9. 9. -... devias adorar Roma... Se ele me tentar impedir agora, faço-o quando se for embora. Estava completamente embrenhado nos meus pensamentos, mal ouvindo o que ele me dizia. - Sidney, disseste-me que mais do que tudo no mundo querias ser escritor. De repente, conseguira a minha atenção. - Isso foi ontem. - Então, e amanhã? Olhei para ele, intrigado. - O quê? - Tu não sabes o que te pode acontecer amanhã. A vida é um romance, não é? É cheia de suspense. Não podes ter uma idéia do que vai acontecer enquanto não virares a página. - Eu sei o que vai acontecer. Nada. - Não podes realmente saber isso, pois não? Sidney, cada dia é uma página diferente que pode estar cheia de surpresas. Nunca saberás o que vem a seguir enquanto não virares a página. Ponderei no que ele dizia. Tinha alguma razão. Cada amanhã era mesmo como uma página nova de um romance. Dobramos a esquina e caminhamos ao longo de uma rua deserta. - Sidney se quer mesmo suicidar-te, eu compreendo. Mas eu detestaria que fechasses o livro tão cedo e perdesses a excitação que pode aparecer ao virar de uma página, aquela que tu vais escrever. Não feches o livro demasiado cedo... Estaria eu a fechá-lo cedo de mais? Algo maravilhoso poderia acontecer amanhã! Ou o meu pai era um extraordinário vendedor ou então eu não estava assim tão empenhado em pôr termo à minha vida, porque assim que cheguei ao fim do quarteirão eu já decidira adiar o meu plano. Mas tencionava deixar as minhas opções sobre a mesa. CAPÍTULO 2 Nasci em Chicago, em cima de uma mesa de cozinha que fiz com as minhas próprias mãos. Pelo menos era o que Natalie, a minha mãe, insistia em dizer. Natalie era a minha estrela Polar, o meu
  10. 10. consolo, a minha protetora. Eu era o seu primogênito e ela nunca deixou de se maravilhar com o milagre do nascimento. Não conseguia falar de mim sem ser com a ajuda de um dicionário. Eu era brilhante, talentoso, bonito e inteligente, e tudo isto ainda antes de completar os seis meses de idade. Nunca chamei aos meus pais ”mãe” e ”pai”. Preferiam que lhes chamasse ”Natalie” e ”Otto”, provavelmente porque achavam que os fazia parecer mais jovens. Natalie Marcus nasceu em Slavitka, na Rússia, perto de Odessa, durante o reinado dos czares. Aos dez anos conseguiu escapar a um pogrom contra os judeus e foi trazida pela mãe, Anna, para os Estados Unidos da América. Natalie era uma beldade. Tinha cerca de um metro e sessenta e sete de altura, cabelo castanho macio, uns olhos cinzentos inteligentes e lindas feições. Possuía a alma de uma romântica e uma enorme riqueza interior. Não recebera uma educação formal, mas aprendera a ler sozinha. Gostava de música clássica e de livros. O seu sonho era casar com um príncipe e viajar pelo mundo. O príncipe revelou-se ser Otto Schechtel, um lutador de rua de Chicago, que deixara a escola no segundo ano do liceu. Otto era bem parecido e encantador e percebia-se porque é que Natalie se sentira atraída por ele. Eram ambos sonhadores, mas tinham sonhos diferentes. Natalie sonhava com um mundo romântico, com castelos em Espanha e passeios de gôndola ao luar em Veneza, enquanto que os sonhos de Otto consistiam em esquemas impraticáveis para enriquecer depressa. Alguém disse um dia que para se ser um escritor de sucesso basta ter papel, caneta e uma família disfuncional. Eu fui criado por duas famílias assim. Neste canto, gostaria de apresentar o clã Marcus, dois irmãos, Sam e Al, e três irmãs, Pauline, Natalie e Fran. No canto oposto, temos os Schechtel, cinco irmãs e dois irmãos: Harry e Otto, e Rose, Bess, Emma, Mildred e Tillie. Os Schechtel eram extrovertidos, informais e espertos. Os Marcus eram introvertidos e reservados. As duas famílias não só eram completamente diferentes, como não tinham absolutamente nada em comum. E assim, o destino decidiu divertir-se.
  11. 11. Harry Schechtel casou com Pauline Marcus, Otto Schechtel casou com Natalie Marcus, Tillie Schechtel casou com Al Marcus e, como se isto não bastasse, Sam Marcus casou com a melhor amiga de Pauline. Foi um frenesi matrimonial. Harry, o irmão mais velho de Otto, era o membro mais formidável do clã Schechtel. Tinha um metro e setenta e sete de altura, era musculoso e forte, com uma personalidade vincada. Se fôssemos italianos, seria o consiglieri. Era ele que Otto e os outros procuravam em busca de conselho. Harry e Pauline tiveram quatro rapazes, Seymour, Eddie, Howard e Steve. Seymour, que só tinha mais seis meses do que eu, sempre pareceu muito mais velho. Na família Marcus, Al era o charmoso, o bem parecido e divertido, o bon vivant da família. Gostava de jogar e de namorar. Sam Marcus era o solene irmão mais velho, que desaprovava o estilo de vida dos Schechtel. O seu negócio era gerir concessões de bengaleiros em vários hotéis da cidade. Por vezes, quando os meus tios se juntavam, iam para um canto falar de uma coisa misteriosa chamada sexo. Parecia-me maravilhosa. Rezava para que não desaparecesse até eu crescer. Otto era um perdulário que gostava de desbaratar dinheiro, quer o tivesse quer não. Muitas vezes convidava várias pessoas para jantar num restaurante caro e, quando a conta chegava, pedia dinheiro emprestado a uma delas para pagá-la. Natalie detestava pedir ou ficar a dever dinheiro. Tinha um forte sentido de responsabilidade. À medida que fui crescendo, comecei a perceber como eles eram tremendamente incompatíveis. A minha mãe sentia-se infeliz, casada com um homem que não respeitava, a viver uma vida interior que ele não compreendia. O meu pai casara-se com uma princesa de conto de fadas e ficou muito espantado quando a lua de mel terminou. Discutiam constantemente, mas não eram discussões normais, eram amargas e maldosas. Tinham percebido quais os pontos fracos de cada um e repisavam-nos avidamente. As discussões tornaram-se de tal forma ferozes que me habituei a fugir de casa e a procurar abrigo na biblioteca pública, o único local onde conseguia encontrar refúgio, no mundo pacífico e sereno dos Hardy Boys e nos livros de Tom Swift. Um dia, quando cheguei à casa vindo da escola, Otto e Natalie gritavam obscenidades um ao outro.
  12. 12. Decidi que não conseguia aguentar mais. Precisava de ajuda. Fui ter com a minha tia Pauline, irmã de Natalie. Era uma senhora gorducha, doce, amorosa, pragmática e inteligente. Quando cheguei, Pauline olhou para mim e perguntou imediatamente: - O que é que se passa? Eu estava a chorar. - É a Nat e o Otto. Estão sempre a discutir. Não sei o que fazer. Pauline franziu o sobrolho. - Eles discutem na tua frente? Acenei que sim. - Muito bem. Eu digo-te o que tens de fazer. Ambos gostam muito de ti, Sidney, e não te querem magoar, por isso, da próxima vez que começarem uma discussão, chegas junto deles e dizes-lhes que nunca mais os queres ver discutir na tua frente. És capaz de fazer isso? Anui. - Sou. O conselho da tia Pauline resultou. Natalie e Otto estavam no meio de um desafio de gritos, quando cheguei junto deles e lhes disse: - Não me façam isto. Por favor, não discutam na minha frente. Os dois ficaram imediatamente contritos. Natalie foi a primeira a falar: - Claro. Tem toda a razão, meu querido. Não volta a acontecer. E Otto: - Desculpe Sidney. Não temos o direito de atirar com os nossos problemas para cima de ti. Depois disso, as discussões continuaram, mas pelo menos eram abafadas pelas paredes do quarto deles. Mudávamos constantemente de cidade para cidade, com Otto à procura de trabalho. Sempre que me perguntavam o que fazia o meu pai, a minha resposta dependia de onde nos encontrávamos. No Texas trabalhou numa joalharia, em Chicago, numa loja de roupas, no Arizona, numa mina de prata esgotada, em Los Angeles, vendia revestimentos. Otto levava-me duas vezes por ano a comprar roupa. A ”loja” era um carrinho parado numa viela, cheia de fatos maravilhosos. Eram tão novos que ainda tinham as etiquetas com os preços, e eram
  13. 13. espantosamente baratos. Em 1925 nasceu o meu irmão Richard. Eu estava na altura com oito anos. Vivíamos em Gary, no estado de Indiana, e lembro-me como fiquei entusiasmado por ter um irmão, um aliado contra as forças negras da minha vida. Foi um dos acontecimentos mais excitantes da minha vida. Tinha grandes planos para nós e ansiava por todas as coisas que faríamos juntos, quando ele crescesse. Enquanto esperava, fazia corridas por Gary com ele dentro do carrinho. Durante a Depressão, a nossa situação financeira era algo saído de Alice no País das Maravilhas. Otto andava por fora, a trabalhar num dos mega-negócios do seu mundo de fantasia, enquanto Natalie, Richard e eu vivíamos num sombrio e atulhado apartamento. De repente, Otto aparecia e anunciava que tinha feito um negócio onde ganharia mil dólares por semana. Antes de percebermos o que nos estava a acontecer, já estávamos a viver num apartamento enorme, no topo de um edifício, numa outra cidade. Parecia um sonho. A verdade é que alguns meses mais tarde constatávamos que fora de fato um sonho, pois o negócio de Otto acabava por desaparecer e estávamos de regresso a outro pequeno apartamento qualquer, numa outra cidade. Eu sentia-me um deslocado. Se existisse um brasão na família seria a figura de um carrinho em movimento. Ainda não completara dezessete anos e já vivera em oito cidades e freqüentara oito escolas básicas e três secundárias. Eu era sempre o recém chegado no bairro, o forasteiro. Otto era um grande vendedor e, cada vez que eu começava a freqüentar uma nova escola numa nova cidade, no primeiro dia levava-me sempre a conhecer o diretor da escola e quase invariavelmente conseguia convencê-lo a colocar-me um ano acima. Como conseqüência, eu era sempre o mais novo da classe, criando mais uma barreira na possibilidade de fazer novos amigos. Conseqüentemente, tornei-me tímido, fingindo sentir prazer em ser um solitário. Era uma vida muito perturbada. Cada vez que eu começava a fazer amigos, era altura de ir embora. De onde veio o dinheiro, não faço idéia, mas Natalie comprou um pequeno piano espineta em
  14. 14. segunda mão e fez questão que eu começasse a ter aulas de piano. - Por quê? Perguntou Otto. - Depois verás. Respondeu. - Ele até tem mãos de músico. Eu gostava das minhas lições, mas acabaram pouco tempo depois, quando nos mudamos para Detroit. Otto gabava-se orgulhosamente de nunca ter lido um livro na vida. Foi Natalie quem instigou em mim o amor pela leitura. Otto ficava preocupado porque eu gostava de ficar sentado em casa a ler os livros que trazia da biblioteca, quando podia estar no meio da rua a jogar basebol. - Vais dar cabo dos olhos. – Insistia - Por que é que não és como o teu primo Seymour? Esse joga futebol com os rapazes. O meu tio Harry foi mais longe. Uma vez ouvi-o dizer ao meu pai: - O Sidney lê demasiado. Vai acabar mal. Quando eu tinha dez anos, tornei as coisas piores, pois comecei a escrever. Havia uma competição de poesia numa revista chamada Wee Wisdom, uma revista para crianças. Escrevi um poema e pedi a Otto que o enviasse para a revista para eu poder concorrer. O fato de eu escrever deixava Otto nervoso. O fato de escrever poesia deixava-o muito nervoso. Mais tarde soube que, como não se queria sentir embaraçado quando a revista rejeitasse o meu poema, substituiu o meu nome pelo do meu tio Al e mandou-o assim. Duas semanas mais tarde, Otto foi almoçar com Al. - Otto, passou-se uma coisa muito esquisita. Porque será que a revista Wee Wisdom me mandou um cheque de cinco dólares? Foi assim que o meu primeiro escrito profissional foi editado sob o nome Al Marcus. Um dia a minha mãe entrou a correr no apartamento, quase sem fôlego. Abraçou-me e exclamou: - Sidney, acabo de vir da casa da Bea Factor. Ela diz que vais ser mundialmente famoso! Não é maravilhoso? Bea Factor era uma amiga dela conhecida por ser médium, e muitas pessoas conhecidas atestavam-
  15. 15. no. Quanto a mim, era maravilhoso que a minha mãe acreditasse no que ela dissera. Chicago nos anos vinte e trinta era a cidade dos barulhentos comboios de superfície, carroças de gelo puxadas por cavalos, praias atulhadas de gente, clubes de strip-tease, currais malcheirosos e o massacre do dia de São Valentim, onde sete mafiosos foram alinhados contra a parede de uma garagem e abatidos a tiros de metralhadora. O sistema escolar era gerido como a cidade, com dureza e agressividade. Havia coisas a voar pelas salas de aula. E nem eram os alunos que atiravam, eram os professores. Uma manhã, quando andava no terceiro ano, um professor não gostou de alguma coisa que um aluno disse, pegou num dos pesados tinteiros de vidro que havia em cima das secretárias e atirou-o pelos ares em direção ao aluno. Se lhe tivesse acertado na cabeça, tinha-o morto. Fiquei demasiado aterrorizado para voltar à tarde. A minha disciplina preferida na escola era o Inglês. Uma das tarefas da turma era ler à vez em voz alta um livro de pequenos contos chamado Elgin Reader. Chegávamos a um conto de Põe, de O’Henry ou de Tarkington e eu ficava a sonhar que um dia o professor diria: ”Passem para a página vinte do vosso livro de leitura” e, espanto dos espantos, ali estaria uma história escrita por mim. De onde me vinha este sonho, não faço idéia. Talvez fosse um recuo atávico a algum antepassado há muito desaparecido. O décimo andar do hotel Sovereign era a velha piscina da vizinhança. Sempre que podia, levava Richard até lá para brincar na piscina. Ele tinha cinco anos. Um dia, deixei-o na zona baixa da piscina e nadei até a zona mais funda. Enquanto falava com umas pessoas, Richard saiu da piscina, à minha procura. Chegou junto da parte mais funda, escorregou e caiu lá dentro. Foi direitinho para o fundo. Eu vi o que estava a acontecer, mergulhei e puxei-o para cima. Nunca mais houve piscina para nós. Quando tinha doze anos, andava no sétimo ano da escola de Marshall Field, em Chicago, e tinha uma aula de Inglês onde podíamos trabalhar nos nossos próprios projetos. Decidi escrever uma peça sobre um detetive que investigava um homicídio. Quando terminei, entreguei-a a professora. Ela leu-a, chamou-me à sua secretária e disse:
  16. 16. - Sidney, eu acho que isto é mesmo muito bom. Queres levá-la a cena? Se queria! - Claro que sim, professora. - Vou tratar das coisas para que a possas apresentar no grande auditório. De repente lembrei-me da grande excitação de Natalie com a profecia de Bea Factor. Sidney vai ser mundialmente famoso. Eu estava muito excitado. Aquilo era o princípio. Quando os meus companheiros de classe ouviram a notícia, todos quiseram entrar na peça. Decidi que não só a ia produzir e dirigir como tomaria parte nela. É claro que nunca antes dirigira uma peça, mas sabia exatamente o que queria. Comecei a escolher os atores. Permitiram-me que ensaiasse depois das aulas no grande auditório e, pouco tempo depois, a minha peça era o tema das conversas da escola. Deram-me todos os adereços que pedi: sofás, cadeiras, mesas, um telefone... Foi uma das épocas mais felizes da minha vida. Sabia, sem qualquer sombra de dúvida, que era o princípio de uma maravilhosa carreira. Se eu, com a minha idade, era capaz de escrever uma peça de sucesso, não havia limite para onde podia chegar. Podia até vir a ter peças na Broadway, com o meu nome a néon. Fiz um ensaio geral com os colegas que escolhi, todos já com os fatos vestidos, e o ensaio correu perfeitamente. Fui ter com a professora: - Estou pronto, quando quer que apresente a peça? Perguntei. Ela olhava para mim, radiante. - Porque não amanhã à noite? Nessa noite não consegui dormir. Sentia que todo o meu futuro dependia do sucesso da peça. Deitado na cama revi cena por cena, à procura de falhas. Não consegui encontrar nenhuma. Os diálogos eram excelentes, a trama desenrolava-se com leveza e a peça tinha um final inesperado. Todos iam adorar. Na manhã seguinte, assim que cheguei à escola, a professora tinha uma surpresa para mim. - Consegui cancelar todas as aulas de Inglês para que todos possam vir ao auditório ver a tua peça.
  17. 17. Nem queria acreditar. Ia ser um sucesso ainda maior do que imaginara. Às dez da manhã, o imenso auditório estava cheio. Não só lá estavam os alunos de Inglês como também o diretor e todos os professores que ouviram falar da minha peça, ansiosos por verem o trabalho de uma criança prodígio. No meio de toda a excitação, eu estava calmo. Muito calmo. Parecia-me perfeitamente normal que tudo aquilo me estivesse a acontecer, tão cedo na vida. Tu vais ser mundialmente famoso. Chegou à hora do espetáculo. As conversas no auditório começaram a morrer e o teatro ficou silencioso. O cenário consistia numa sala de estar simples, onde um rapaz e uma rapariga representavam o papel de um marido e uma mulher, cujo amigo acabara de ser assassinado. Estavam sentados lado a lado num sofá. Eu fazia o papel de um detetive que investigava o homicídio. Estava de pé nos bastidores, preparado para fazer a minha entrada. A minha deixa era o momento em que o rapaz olhava para o relógio e dizia: - O inspetor deve chegar em breve. Mas, em vez de dizer ”breve”, ele enganou-se e começou a dizer ”um minuto”, mas parou a meio e tentou transformar ”minuto” em ”breve”. O que saiu foi ”O inspetor deve chegar em min-breve”. Ele corrigiu imediatamente, mas era demasiado tarde. Min-breve? Era o som mais engraçado que eu alguma vez ouvira. Era tão engraçado que comecei a rir. E nunca mais consegui parar. Quanto mais pensava na palavra, mais gargalhadas dava. O rapaz e a rapariga no palco olhavam fixamente para mim nos bastidores, à espera que eu entrasse. Mas eu não me conseguia mexer, porque ria perdidamente. Não conseguia parar. As gargalhadas tomaram conta de mim e fui ficando cada vez mais histérico. A peça fora interrompida mal tinha começado. Depois do que pareceu uma eternidade, ouvi vinda do auditório, a voz da minha professora a dizer: - Sidney, vem cá fora. Forcei-me a abandonar o abrigo dos bastidores e cambaleei até meio do palco. A minha professora
  18. 18. estava no meio do auditório de pé, a ouvir as minhas gargalhadas frenéticas. - Pára imediatamente! Ordenou. Mas como podia eu? Min-brevé; As pessoas da audiência começaram a levantar-se e a sair do auditório e eu fiquei a vê-las, fingindo que me ria porque queria, fingindo que o que estava a acontecer não tinha qualquer importância. Fingindo que não queria morrer. CAPÍTULO 3 Por volta de 1930, a Depressão estava cada vez mais profunda e, no seu aperto feroz, oprimia toda a vida econômica do país. As filas para o pão aumentaram e o desemprego era pandêmico. Havia confrontos nas ruas. Eu terminara o ensino preparatório em Marshall Field, Chicago, e tinha um emprego na drugstore Afremow. Natalie trabalhava como caixa num recinto de patinagem, uma moda nova que tinha lugar em enormes recintos, com largos ringues de patinagem circulares em madeira, onde intrépidos homens sobre patins de rodas faziam corridas, deitando abaixo os seus rivais e criando o máximo de confusão que conseguiam, enquanto os espectadores os aplaudiam. Otto, entretanto, viajava pelo país nos seus hipotéticos mega-negócios. Intermitentemente, aparecia em casa cheio de entusiasmo. - Desta vez tenho um bom pressentimento. Acabei de fazer um negócio que nos vai levar a uma boa vida. E, mais uma vez, fazíamos as malas e mudávamo-nos para Hammond, ou Dálias, ou Kirkland Junction, no Arizona. - Kirkland Junction? - Vais gostar muito daquilo. - Prometeu ele - Comprei uma mina de prata. Kirkland era uma pequena cidade a 167 km de Phoenix, mas não era esse o nosso destino final. Kirkland Junction era uma velhíssima bomba de gasolina, e acabamos a viver nas suas traseiras durante três infelizes meses, enquanto Otto tentava dominar o mercado da prata. Verificou-se que não havia prata na mina. Fomos salvos por um telefonema do tio Harry. - Então? Como vai a mina de prata? Perguntou. - Nada famosa. Respondeu Otto.
  19. 19. - Não te preocupes. Eu estou em Denver. Tenho uma grande companhia de corretagem a funcionar. Quero que venhas trabalhar comigo. Denver revelou-se uma maravilha. Era antiquada e maravilhosa, com brisas frescas que vinham das encostas das montanhas de cumes cheios de neve e varriam e atravessavam a cidade. Eu adorava lá estar. Harry e Pauline tinham desencantado uma luxuosa mansão de dois pisos numa elegante zona da cidade. As traseiras da casa davam para uma enorme zona verde chamada Cheeseman Park. Os meus primos, Seymour, Howard, Eddie e Steve, ficaram felizes por nos ver e o sentimento foi mútuo. Seymour guiava um Pwrce Arrow vermelho vivo e namorava raparigas bem mais velhas do que ele. Eddie recebera pelos anos um cavalo de montar. Howard ganhava campeonatos juvenis de tênis. A atmosfera endinheirada das vidas deles era bem diferente da nossa miserável existência em Chicago. - Nós vamos viver com Harry e Pauline? Perguntei. - Não. Tinham uma surpresa para mim. - Vamos comprar cá uma casa. Quando vi a casa que iam comprar, nem queria acreditar. Era grande e tinha um lindo jardim, num subúrbio calmo, na rua Marion. Os quartos eram grandes, maravilhosos e acolhedores. A mobília era fresca e bonita, bem diferente dos móveis bafientos dos apartamentos onde vivera toda a minha vida. Aquilo era muito mais do que uma casa. Aquilo era um lar. No momento em que entrei pela porta da frente, senti que a minha vida tinha mudado, que finalmente tinha raízes. Não haveria mais mudanças todos os meses pelo país, com novos apartamentos e novas escolas. Otto vai comprar esta casa. Eu vou casar aqui e os meus filhos vão crescer aqui... Pela primeira vez desde que me lembrava, havia dinheiro em abundância. O negócio do Harry crescia de tal maneira que ele já era dono de três empresas de corretagem.
  20. 20. No Outono de 1930, com a idade de treze anos, matriculei-me no liceu de East, o que acabou por se revelar uma experiência bastante agradável. Os professores em Denver eram simpáticos e prestáveis. Ali ninguém atirava tinteiros à cabeça dos alunos. Comecei a fazer amizades na escola e gostava da sensação de regressar a casa, à maravilhosa casa que em breve ia ser nossa. Natalie e Otto pareciam ter resolvido a maior parte dos seus problemas pessoais, o que tornava a vida bem mais doce. Um dia, durante uma aula de ginástica, escorreguei e lesionei a minha coluna. A dor foi terrível. Ali estava eu, deitado no meio do chão, incapaz de me mexer. Levaram-me ao gabinete do médico. Assim que ele acabou o exame, perguntei-lhe: - Vou ficar aleijado? - Não. - Assegurou-me - Um dos teus discos deslocou-se e está a comprimir a espinal medula. É isso que provoca essa dor. O tratamento é muito simples. Só tens de ficar deitado durante dois ou três dias, com compressas quentes para relaxar os músculos, e o disco vai regredir e voltar ao seu lugar. E ficarás fino como antes. Uma ambulância levou-me a casa e os paramédicos colocaram-me na cama. Ali fiquei, cheio de dores, mas, tal como o médico dissera, ao fim de três dias a dor desapareceu. Não fazia idéia de como este incidente iria afetar tão profundamente todo o resto da minha vida. Um dia, tive uma experiência simplesmente espantosa. Havia um anúncio para uma feira em Denver onde uma das atrações era uma volta de avião. - Eu gostaria de fazer isto. Disse a Otto. Ele pensou no assunto e respondeu: - Está bem. O avião era um belíssimo Lincoln Commandere eu estava excitadíssimo só por subir para dentro dele. O piloto olhou para mim e perguntou: - A tua primeira vez? - A primeira. - Aperta o cinto. – Pediu - Vais adorar. E tinha toda a razão. Voar era uma experiência surrealista. Observei a terra a aproximar-se, a
  21. 21. afastar-se e a desaparecer a uma velocidade vertiginosa, e eu jamais sentira algo tão estimulante em toda a minha vida. Quando aterramos, disse a Otto: - Quero voltar lá acima. E voltei. Estava decidido a vir a ser piloto um dia. Uma manhã bem cedo, na primavera de 1933, Otto entrou no meu quarto. O seu rosto estava sombrio. - Faz as malas. Vamos embora. Fiquei sem perceber. - Aonde vamos? - Vamos voltar para Chicago. Não podia acreditar. - Nós vamos embora de Denver? - Exatamente. - Mas... Ele já desaparecera. Vesti-me e fui ter com Natalie. - O que foi que aconteceu? - O teu pai e Harry tiveram um... desentendimento. Olhei em volta da casa onde pensara viver o resto da minha vida. - Então e esta casa? - Não a vamos comprar. O nosso regresso a Chicago não foi nada alegre. Nem Otto, nem Natalie queriam falar sobre o que se passara. Depois de Denver, Chicago parecia ainda menos amistosa e agradável. Mudamo-nos para um pequeno apartamento e eu estava de volta à realidade, à triste lembrança de que não tínhamos dinheiro e que era impossível encontrar um emprego decente. Otto estava de volta à estrada e Natalie trabalhava como vendedora num armazém. O meu sonho de ir para a universidade morreu. Não tínhamos dinheiro para as propinas. As paredes do apartamento fechavam-se sobre
  22. 22. mim. Tudo me parecia cinzento. Eu não sou capaz de passar o resto da minha vida a viver assim, pensei. A pobreza em que vivíamos parecia agora bem pior, depois da breve e saborosa experiência da afluência de Denver, e nós precisávamos desesperadamente de dinheiro. Trabalhar como moço de recados de uma drugstore não era futuro para mim. Foi nessa altura que decidi suicidar-me e Otto me conseguiu convencer a não o fazer, dizendo-me que eu tinha de continuar a virar as páginas. Mas elas não se queriam virar e não havia nada a que pudesse aspirar. A promessa de Otto não passara de palavras vazias. Quando chegou Setembro, matriculei-me no liceu Senn. Otto estava de novo na estrada, tentando fazer os seus mega-negócios. Natalie trabalhava a tempo inteiro numa loja de roupas, mas o dinheiro que entrava não chegava. Eu tinha de arranjar uma maneira de ajudar... Lembrei-me de Sam, o irmão mais velho de Natalie, e das inúmeras concessões de bengaleiros que ele tinha em vários hotéis no Loop. Os bengaleiros estavam apinhados de mulheres lindas e escassamente vestidas e de arrumadores. Os clientes eram generosos com as gorjetas que davam as mulheres. Não faziam idéia que o dinheiro ia parar à gerência. Apanhei o comboio de superfície em direção à baixa da cidade, para falar com o meu tio Sam. Encontrei-o no seu escritório no hotel Sherman. Saudou-me calorosamente. - Ora, ora. Mas que agradável surpresa. O que posso fazer por ti, Sidney? - Preciso de um emprego. - Sim? - Tinha esperança de que talvez pudesse trabalhar como arrumador num dos bengaleiros de um dos hotéis. Sam conhecia bem a nossa situação financeira. Olhou pensativo para mim. Por fim respondeu: - E porque não? Pareces mais velho do que os teus dezessete anos. Acho que o hotel Bismarck precisa de alguém.
  23. 23. E comecei logo a trabalhar nessa semana. O trabalho era simples. Os clientes entregavam os casacos e os chapéus às empregadas, que por sua vez lhes davam um papel com um número. Em seguida, ela entregava-me o casaco e o chapéu e eu pendurava-os no cabide com o número correspondente. Quando o cliente voltava, o processo invertia-se. Tinha agora um novo horário. Ia à escola até as três e a seguir apanhava o El para sul, em direção ao Loop, saía na estação perto do hotel Bismarck e ia trabalhar. Fazia o turno das cinco até ao fecho, que muitas vezes era à meia noite ou mais tarde, dependendo se havia alguma festa especial. O meu salário era de três dólares por noite. Entregava todo o dinheiro que recebia a Natalie. Os fins de semana tinham mais movimento, com as festas no hotel, por isso acabava a trabalhar sete noites por semana. As épocas festivas eram emocionalmente difíceis para mim. As famílias vinham ao hotel passar o Natal e a passagem de Ano e eu via as crianças a celebrarem com os pais e sentia inveja. Natalie estava a trabalhar, Otto estava ausente, por isso eu e Richard estávamos sozinhos e não tínhamos ninguém com quem celebrar. Às oito da noite, quando todos se deleitavam com os seus jantares de festa, eu corria apressado até uma cafeteria ou um snack bar, comia rapidamente qualquer coisa e regressava ao trabalho. O ponto alto da rotina das minhas noites era quando a minha tia Francês, a efervescente irmã mais nova de Natalie, vinha trabalhar uma ou outra noite no bengaleiro do Bismarck. Era uma morena baixinha e alegre, com um vivo sentido de humor, e os clientes adoravam-na. Uma nova empregada do bengaleiro, Joan Vitucci, veio trabalhar para o Bismark. Só tinha mais um ano do que eu e era muito bonita. Senti-me atraído por ela e comecei a fantasiar a seu respeito. Começaria por levá-la a sair. Embora eu não tivesse dinheiro, ela acabaria por ver os aspectos positivos em mim. Íamo-nos apaixonar e acabaríamos por casar e ter filhos maravilhosos. Uma noite ela disse-me: - Os meus tios fazem um almoço de família todos os domingos. Acho que ias gostar deles. Se estiver livre este domingo, queres vir almoçar conosco? A fantasia estava a tornar-se realidade. Aquele domingo acabou por tornar-se uma experiência extremamente agradável. Era uma reunião
  24. 24. de uma calorosa família italiana, que juntava cerca de uma dúzia de adultos e crianças em volta de uma enorme mesa de jantar cheia de bruschetta, sopa fagioh, frango cacciatore e lasanha no forno. O tio de Joan era um homem afável e gregário chamado Louie Alterie e era o chefe do sindicato dos porteiros. Quando chegou a hora de me vir embora, agradeci a todos e comentei a Joan o quanto apreciara o seu convite. Era verdadeiramente o início da nossa relação. Na manhã seguinte, Louie Alterie foi abatido a tiros de metralhadora ao sair do edifício onde tivéramos o nosso almoço. Joan desapareceu da minha vida. A fantasia acabou. Entre a escola durante o dia, as noites passadas no bengaleiro e os sábados na drugstore, tinha muito pouco tempo para mim. Algo de estranho se passava em minha casa. Havia tensão, mas era de um tipo diferente. Natalie e Otto sussurravam umas coisas um ao outro e tinham um aspecto sombrio. Uma manhã, Otto chegou junto de mim e disse: - Filho, vou para uma quinta. Parto hoje. Fiquei espantado. Eu nunca estivera numa quinta e pensei que podia ser divertido. - Gostava de poder ir contigo, Otto. Ele abanou a cabeça. - Lamento muito, mas não te posso levar comigo. - Mas... - Não, Sidney. - Está bem. E quando é que voltas? - Daqui a três anos. E foi-se embora. Três anos? Não podia acreditar. Como é que ele nos podia abandonar durante três anos para ir viver numa quinta? Natalie entrou no quarto. Virei-me para ela. - O que é que se passa? - Infelizmente tenho más notícias para ti, Sidney. O teu pai meteu-se com gente má. – Explicou - Vendia máquinas de distribuição automática a lojas. O que o teu pai não sabia é que não havia máquinas. Os homens para quem trabalhava ficaram com o dinheiro e fugiram. Mas foram
  25. 25. apanhados e o teu pai foi considerado culpado, juntamente com eles. Vai para a cadeia. Fiquei chocado. Então a quinta era essa. Por três anos? Não sabia o que dizer. O que íamos nós fazer sem ele durante três anos? A verdade é que não precisava de me ter preocupado. Doze meses depois de Otto ter sido internado na prisão estadual de Lafayette, estava de volta a casa, um herói. CAPÍTULO 4 Tínhamos lido nos jornais a história do heroísmo de Otto e ouvimo-la vezes sem conta na rádio. Eu não fazia a mínima idéia do que a prisão fazia a um homem, mas, por qualquer razão, tinha a sensação que ele voltaria mudado, pálido e vergado. Aguardava-me uma agradável surpresa. Quando ele entrou pela porta da frente do nosso apartamento, ostentava um sorriso de orelha a orelha e estava alegre. - Voltei. Saudou. Choveram os abraços. - Queremos saber o que aconteceu. Otto sorriu. - Tenho todo o prazer em contar tudo. E sentou-se à mesa da cozinha e começou a contar: - Eu estava a trabalhar no recinto da prisão, juntamente com a equipe de limpeza. A cerca de mil e quinhentos metros, há um enorme reservatório que armazena a água que abastece a prisão, cercado por um muro com uns três metros de altura. Olhei para cima e vi um garoto a sair de um dos edifícios. Devia ter três ou quatro anos. A equipe acabara o trabalho e eu estava sozinho. Quando voltei a olhar para cima, o garoto subia os degraus do muro do reservatório e estava quase a chegar ao topo. Era muito perigoso. Olhei em volta à procura de quem estava a tomar conta dele, mas não vi ninguém. Enquanto eu olhava em redor, o garoto chegou ao cimo. Escorregou e caiu dentro do reservatório. Um guarda numa das torres viu o que se passou, mas eu sabia que ele nunca ia conseguir chegar a tempo ao garoto. Levantei-me e corri como um louco até ao muro. Subi
  26. 26. o mais depressa que fui capaz. Quando cheguei ao cimo, olhei para dentro e vi o garoto a afundar-se. Atirei-me à água e consegui apanhá-lo. Debatia-me para conseguir manter-nos aos dois a flutuar. Logo a seguir, chegaram os socorros e tiraram-nos de lá de dentro. Puseram-me no hospital durante uns dias, porque eu engolira uma data de água e tinha algumas contusões por me ter atirado. Estávamos presos as palavras dele. Quis a sorte que o garoto fosse o filho do diretor da prisão. Ele e a mulher foram ao hospital visitar-me. Otto olhou para nós e sorriu. - E a história acabaria aqui se não fosse um pormenor. É que descobriram que eu não sabia nadar e então a partir daí foi à loucura. De repente passei a ser um herói. Estava nos jornais e na rádio. A prisão foi inundada por telefonemas, cartas e telegramas a oferecerem-me emprego e a pedirem clemência para mim. O diretor e o governador tiveram uma reunião e decidiram que, dado o meu delito não ser sério, seria uma boa política perdoarem-me Otto estendeu os braços. E aqui estou eu. Éramos de novo uma família. Pode ter sido coincidência, mas, subitamente, uma bolsa à qual concorrera um ano atrás, da B’nai Brith uma organização judaica filantrópica foi-me concedida. Era um milagre. Eu seria o primeiro da minha família a frequentar a universidade. Uma página fora virada. Admiti que, afinal, talvez pudesse existir um futuro para mim algures. Mas, mesmo com a bolsa, continuávamos desesperados com falta de dinheiro. Seria eu capaz de aguentar o bengaleiro sete noites por semana, a drugstore Afremow aos sábados e um horário completo na universidade? Logo se veria. A Northwestern University situa-se em Evanston, em Illinois, a dezoito quilômetros de Chicago. A universidade, cujos terrenos ocupam cento e quarenta acres nas margens do Lago Michigan, era espetacular. Às nove da manhã de uma segunda-feira, entrei na secretaria. - Estou aqui para entrar na universidade.
  27. 27. - O seu nome? - Sidney Sheldon. A funcionária pegou num livro enorme e procurou. - Ora cá está. Que cursos quer frequentar? - Todos. Olhou para mim. - Como? - Quero dizer, todos os que me forem permitidos. Enquanto aqui estiver, quero aprender tudo o que puder. - E o que é que mais lhe interessa? - Literatura. Fiquei a olhar enquanto ela procurava no meio de uma série de panfletos. Tirou um e deu-mo. - Aqui tem uma lista dos nossos cursos. Analisei-a. - Isto é ótimo. Marquei todos os cursos que queria e em seguida devolvi-lha. Ela olhou para a lista. Está a marcar o número máximo de cursos? - Exatamente. Franzi o sobrolho. Mas o Latim não está aí e eu estou muito interessado em tirar Latim. Olhou outra vez para mim. - Acha mesmo que consegue lidar com tudo isto? Sorri. - Claro. Ela escreveu ”Latim”. Da secretaria passei para a cozinha da cafeteria. - Vocês precisam de um ajudante? - Sempre. Bom, já tinha mais um emprego, mas ainda não chegava. Sentia-me impelido a fazer mais, como se
  28. 28. tentasse recuperar tempo perdido. Nessa tarde, dirigi-me aos escritórios do Daily Northwestern, o jornal da universidade. - Chamo-me Sidney Schechtel disse ao homem por detrás de uma secretária com um letreiro que dizia ”Redator”. Gostava muito de trabalhar num jornal. - Lamento, mas já temos o quadro preenchido. Tenta para o ano. - Para o ano será demasiado tarde. - Fiquei parado a pensar - Têm alguma secção dedicada ao mundo do espetáculo? - Uma secção dedicada ao mundo do espetáculo? - Sim. Há sempre celebridades a vir a Chicago para fazer espetáculos. Não têm ninguém do jornal que as entreviste? - Não. Nós... - Faz idéia de quem está neste momento na cidade, desejosa de ser entrevistada? A Katherine Hepburn! - Nós não estamos... - O Clifton Webb. - Nós nunca tivemos uma... - O Walter Pidgeon. - Posso falar com alguém, mas receio que... - O George M. Cohan. Ele começava a demonstrar interesse. - Conhece toda essa gente? Eu não ouvi a pergunta. - Não há tempo a perder. Quando os espetáculos deles chegarem ao fim, vão-se embora. - Está bem. Vou dar-te uma oportunidade, Schechtel. Ele não fazia idéia de como eu estava excitado. - Essa é a melhor decisão que alguma vez já tomou. - Veremos. Quando podes começar?
  29. 29. - Já comecei. Vai ter a primeira entrevista para a próxima edição. Olhou para mim, surpreso. Já? E quem vai ser? - É surpresa. Era surpresa também para mim. No pouco tempo que tinha, entrevistei muitas celebridades menores para o jornal. A minha primeira entrevista foi feita a Guy Kibbee, um ator sem importância da época. As grandes estrelas eram demasiado importantes para serem entrevistadas por um jornal universitário. Eu trabalhava no bengaleiro, na drugstore, inscrevera-me na universidade no maior número possível de cursos incluindo Latim, tinha um emprego como ajudante de cozinha e pertencia ao quadro do Daily Northwestern. Mas, mesmo assim, ainda não me chegava. Era como estivesse possuído. Pensei no que mais podia fazer. A Northwestern tinha uma excelente equipa de futebol e não havia qualquer razão para que eu não fizesse parte dela. Tinha a certeza de que os WzTd Caís teriam todo o interesse em me terem na equipa deles. Na manhã seguinte, dirigi-me ao campo de futebol onde a equipa treinava. Pug Rentner, que veio a ter uma gloriosa carreira na NFL, era a estrela da equipa nesse ano. Dirigi-me ao treinador, que estava numa das linhas laterais a observar o treino. - Posso falar um minuto consigo? - O que é que queres? - Gostava de fazer testes para a equipe. Ele analisou-me. National Football League (N. da T.) - Gostavas, era? És bem constituído. Onde é que jogaste antes? Não respondi. - No liceu? Na universidade? - Não, senhor. - Na preparatória? - Não, senhor. Ele olhava fixamente para mim.
  30. 30. - Tu nunca jogaste futebol? - Não, mas sou muito rápido e... - E gostavas de pertencer a esta equipa? Filho esquece. E a atenção dele voltou para os jogadores. Foi o fim das minhas aspirações futebolísticas. Os professores em Northwestern eram maravilhosos e as aulas eram excitantes. Eu estava sedento de aprender tudo o que podia. Na semana depois de ter iniciado as aulas, passei por um letreiro no corredor que dizia ”Audições hoje à noite. Equipa de Debate da Northwestern”. Estaquei e fiquei a olhar. Sabia que era uma loucura, mas, no entanto sentia-me impelido a experimentar. Há uma máxima que diz que a morte é o segundo maior medo que as pessoas têm e que falar em público é o primeiro. Era, sem dúvida, o meu caso. Para mim, não há nada mais aterrorizador do que falar em público. Mas eu estava obcecado. Tinha de fazer de tudo. Tinha de continuar a virar páginas. Quando entrei na sala destinada aos testes, esta estava cheia de rapazes e raparigas que aguardavam a sua vez. Encontrei uma cadeira e sentei-me a ouvir. Todos os oradores me soavam espantosos. Eram articulados e falavam fluentemente, com uma enorme confiança. Por fim, chegou a minha vez. Ergui-me e dirigi-me para junto do microfone. O responsável perguntou: - Como te chamas? - Sidney Schechtel. - E qual vai ser o tema? Eu antecipara isto. - O capitalismo versus comunismo. Ele anuiu. - Então avança. Comecei a falar e pareceu-me que estava a ir muito bem. Quando cheguei a meio do meu tema, parei. Estava estático. Fez-se uma longa e nervosa pausa. Murmurei qualquer coisa para pôr fim ao meu discurso e escapuli-me dali para fora, praguejando para mim mesmo. Um aluno que estava à porta perguntou: - Tu não és um calouro?
  31. 31. - Sou. - E ninguém te disse nada? - Sobre o quê? - É que não são permitidos calouros nos debates. Tens de estar em anos mais avançado. Ora, boa, pensei para comigo. Agora já tenho uma boa justificação para o meu fracasso! No dia seguinte de manhã, os nomes dos vencedores foram afixados no quadro das informações. Por pura curiosidade, deitei uma olhadela. Um dos nomes era ”Shekter”. Alguém com um nome parecido com o meu fora escolhido. Na zona inferior do quadro estava um aviso para que todos os selecionados se dirigissem às três e meia da tarde para junto do orientador de debates. Ás quatro recebi um telefonema. - Shekter, o que é que te aconteceu? Não fazia idéia de que é que ele estava a falar. - O quê? Nada. - Não viste o aviso para vir ter com o orientador de debates? Shekter. Eles tinham percebido mal o meu nome. - Sim, mas pensei... É que eu sou calouro. - Eu sei. Mas decidimos abrir uma exceção para o teu caso. Mudamos as regras. E assim tornei-me o primeiro calouro alguma vez aceite na Equipa de Debate da Northwestern. Outra página que fora virada. Embora me forçasse a estar ocupado, havia ainda qualquer coisa que me faltava. De certa forma, sentia-me como se não estivesse realizado. Tinha uma profunda sensação de vazio, ansiedade e isolamento. No campus da universidade, ao observar as hordas de estudantes que se apressavam a entrar e a sair das aulas, pensava para mim: ”São todos anônimos. Quando morrerem, ninguém saberá que viveram sobre a Terra.” Uma enorme onda de depressão abateu-se sobre mim. ”Eu quero que as pessoas saibam que estive aqui”, pensei. ”Quero que saibam que vivi. Quero marcar a diferença.” No dia seguinte, a minha depressão estava mais profunda. Sentia-me atabafado por pesadas nuvens
  32. 32. negras. Por fim, desesperado, marquei consulta no psicólogo da universidade, para ver se ele descobria o que havia de errado em mim. No caminho, sem qualquer justificação, fui invadido por tal sensação de alegria que comecei a cantar alto. Quando cheguei à entrada do edifício onde o psicólogo tinha o gabinete, estaquei. ”Eu não preciso falar com ele”, pensei. ”Estou feliz. O homem vai pensar que sou maluco”. Foi uma má opção. Se tivesse ido falar com ele, teria ficado logo nesse dia a saber aquilo que só vim á descobrir muitos anos mais tarde. A minha depressão voltou e não mostrava sinais de regredir. O dinheiro era cada vez mais escasso. Otto tinha dificuldade em conseguir emprego e Natalie trabalhava como vendedora num grande armazém seis dias por semana. Eu trabalhava todas as noites no bengaleiro e na drugstore Afremow nas tardes de sábado, mas, mesmo com aquilo que Otto e Natalie ganhavam, o dinheiro não era suficiente. Por volta de Fevereiro de 1935, estávamos com a renda bastante atrasada. Uma noite, ouvi Otto e Natalie a conversarem. - Não sei o que vamos fazer. Estamos a ser pressionados por toda a gente. Talvez seja melhor tentar arranjar um trabalho à noite dizia ela. Não, pensei. A minha mãe já tinha um trabalho a tempo inteiro e vinha para casa, e fazia o jantar, e limpava o apartamento. Não podia permitir que ela fizesse mais do que fazia. Na manhã seguinte, desisti da Northwestern. Quando contei a Natalie o que acabara de fazer, ela ficou horrorizada. - Sidney, tu não podes desistir da universidade. Tudo se vai compor. Tinha os olhos cheios de lágrimas. Mas eu sabia que nada se ia compor. Comecei imediatamente à procura de outro emprego, mas em 1935 a Depressão estava no seu auge e não havia empregos disponíveis. Tentei agências de publicidade, jornais e estações de rádio, mas ninguém estava a contratar. No caminho para outra entrevista numa estação de rádio, passei por um grande armazém chamado Mandei Brothers. Lá dentro, pareciam muito ocupados. Meia dúzia de vendedores assistiam os
  33. 33. clientes. Decidi que não tinha nada a perder, entrei e olhei em volta. Comecei a vaguear pela loja. Era enorme. Passei pelo departamento de sapatos de senhora e parei. Isto ia ser fácil. Um homem aproximou-se. - Em que posso ser útil? - Gostava de falar com o gerente. - O meu nome é Young, sou o gerente. Em que lhe posso ser útil? - Estou à procura de trabalho. Tem alguma vaga? Olhou para mim por momentos. - Na realidade, tenho, sim. Tem alguma experiência na venda de sapatos de senhora? - Sim, sim. - E onde é que trabalhou antes? - Lembrei-me do nome de uma loja onde comprara uns sapatos. - Na Thom McCann, em Denver. - Pois muito bem. Acompanhe-me ao meu escritório. Deu-me um formulário. Preencha isso. Quando terminei, pegou nele, leu-o e em seguida olhou para mim. - Primeiro que tudo, senhor Schechtel, McCann não se escreve ”M-I-C-K-A-N”. E, em segundo lugar, não fica nesta rua. Eu precisava desesperadamente deste emprego. - Se calhar mudou. Respondi apressadamente. E sou péssimo em ortografia. Sabe... - Só espero que seja melhor a vender do que é a mentir. Acenei com a cabeça, deprimido, e virei-me para partir. - De qualquer das maneiras, muito obrigado. - Espere. Está contratado. Olhei para ele, espantado. - Estou? Mas, por quê? - O meu patrão acha que só uma pessoa com experiência é que consegue vender sapatos de senhoras. Eu por mim acho que qualquer pessoa é capaz de aprender rapidamente. Você vai ser uma
  34. 34. experiência. - Muito obrigado respondi, agradecido. Não o vou decepcionar. Fui trabalhar cheio de otimismo. Quinze minutos mais tarde estava despedido. O que aconteceu é que cometi um pecado imperdoável. A minha primeira cliente era uma senhora muito bem vestida, que me abordou no departamento de sapatos. - Posso ajudar? - Quero um par de sapatos rasos pretos, tamanho 40. Dei-lhe o meu melhor sorriso de vendedor. - Com certeza. Dirigi-me às traseiras, ao local onde guardavam os sapatos em prateleiras. Havia centenas de caixas, todas marcadas pelo lado de fora... 35, 36, 37, 38, 39, 41. Nenhum 40. Comecei a ficar desesperado. Havia um 41. ”Ela nunca vai dar pela diferença”, pensei. Tirei os sapatos da caixa e levei-lhos. - Ora aqui tem. Calcei-lhos nos pés. Ela olhou para eles durante um momento. - Isto é um 40? - Sim, minha senhora. Observou-me durante algum tempo. - Tem a certeza? - Tenho, sim. - Tem a certeza que isto é um 40? - Absoluta. - Quero falar com o gerente. E foi o fim da minha carreira no departamento de sapatos de senhora. Nessa tarde, fui transferido para a retrosaria. CAPÍTULO 5 Embora estivesse há trabalhar seis dias por semana na retrosaria do Mandei Brothers e sete noites por semana nos bengaleiros dos hotéis da baixa da cidade, o dinheiro continuava a não chegar. Otto arranjou um emprego a meio tempo a trabalhar num centro de telemarketing no South Side, cujo objetivo era vender produtos a desconhecidos por telefone.
  35. 35. Esta operação decorria numa enorme sala nua, com uma dúzia de homens, cada um com um telefone, a falarem ao mesmo tempo com potenciais clientes, tentando vender-lhes poços de petróleo, ações da bolsa ou o que quer que fosse que pudesse parecer um bom investimento. Era um trabalho de grande tensão. Os nomes e os números de telefone dos potenciais clientes eram obtidos de uma longa lista que era vendida a quem quer que dirija um centro de telemarketing. Os vendedores recebiam uma comissão pelas vendas que faziam. Otto voltava à noite para casa e falava excitadamente sobre o que lá se passara. Como estavam abertos sete dias por semana, decidi passar por lá e dar uma vista de olhos, para ver se conseguia ganhar mais algum dinheiro extra aos domingos. Otto conseguiu que me deixassem tentar e no domingo seguinte fui trabalhar com ele. Quando lá cheguei fiquei parado na temida sala a ouvir as conversas dos vendedores. “... senhor Collins, ainda bem que o consegui apanhar. O meu nome é Jason Richards e tenho excelentes notícias para si. O senhor e a sua família acabaram de ganhar uma viagem grátis ás Bermudas. A única coisa que precisa fazer é mandar-me um cheque e...” ”... senhor Adams, tenho excelentes notícias para si. O meu nome é Brown, Jim Brown. Sei que investe em ações e tive conhecimento de um negócio que vai ter um aumento de cem por cento nas próximas seis semanas. Não há muitas pessoas a terem conhecimento disso, mas, se estiver interessado em ganhar bom dinheiro...” "... senhora Doyle, fala Charlie Chase. Muitos parabéns. A senhora, o seu marido, a pequena Amanda e o Peter foram escolhidos para uma viagem grátis a...” E por aí fora. Espantava-me com a quantidade de pessoas que caíam no conto do vigário oferecido pelo vendedor. Por alguma razão, os médicos pareciam ser os mais crédulos. A maior parte dos produtos que eram vendidos tinha defeito, eram mais caros, de qualidade inferior ou nem sequer existiam. Naquele domingo, tive a minha conta daquele centro e nunca mais lá voltei. O meu trabalho no Mandei Brothers era aborrecido e fácil, mas eu não andava a procura de coisas fáceis. Queria um desafio, algo que me desse à possibilidade de crescer. Sabia que se me saísse bem
  36. 36. ali tinha a oportunidade de poder subir. Um dia até podia chegar a chefe do departamento. O Mandei Brothers tinha uma cadeia de lojas por todo o país, por isso, com o tempo, até podia tornar-me diretor regional e, quem sabe, chegar à presidente. Numa manhã de domingo, o meu chefe, o senhor Young, veio falar comigo. - Schechtel, tenho más notícias para ti. Eu olhava fixamente para ele. - O que é? - Vou ter que te despedir. Tentei parecer calmo. - Fiz alguma coisa de errado? - Não. Todos os departamentos receberam ordens para cortarem no pessoal. Tu foste o último a ser admitido, por isso tens de ser o primeiro a partir. Senti-me como se alguém tivesse agarrado o meu coração e o tivesse apertado. Eu precisava desesperadamente daquele emprego. Ele não fazia idéia de que não estava simplesmente a despedir um empregado do departamento de retrosaria, mas o futuro presidente da empresa. Sabia que tinha que encontrar outro emprego, o mais depressa possível. As dívidas acumulavam-se. Devíamos na mercearia, o senhorio começava a ficar agressivo e a água, a luz e o gás, que já tinham sido cortados várias vezes, estavam prestes a ser cortados de novo. Lembrei-me de alguém que talvez pudesse ajudar. Charley Fine, um amigo de muitos anos do meu pai, era executivo numa grande empresa industrial. Perguntei a Otto se ele via algum problema em que eu falasse com Charley para lhe pedir um emprego. Otto pensou durante um pouco e em seguida olhou para mim e respondeu: - Eu próprio falo com ele. Na manhã seguinte, atravessei os enormes portões da Stewart Warner, o maior fabricante do mundo de peças para automóveis. A fábrica estava instalada num edifício com cinco andares e ocupava um quarteirão inteiro. Um guarda acompanhou-me através da fábrica, cheia de enormes e misteriosas máquinas, semelhantes a monstros pré-históricos. O barulho que faziam era incrível. Otto Karp, um homem baixo e robusto, com um forte sotaque alemão, estava à minha espera.
  37. 37. - Então vens trabalhar para cá? Perguntou. - Sim, senhor. Pareceu ficar desapontado. - Vem comigo. E, começamos a caminhar ao longo da enorme fábrica. Todas as máquinas trabalhavam à máxima velocidade. Quando nos aproximamos de uma delas, Karp disse: - Esta aqui faz engrenagens e bichas para velocímetros. Fazem girar o veio flexível que faz mover o velocímetro. Estás a perceber? Eu não percebera uma palavra. - Pois. Levou-me até outra máquina junto daquela. - Aquilo que vês sair deste lado são engrenagens que são comprimidas contra o veio de saída da transmissão. A mais comprida é a bicha que é inserida num determinado ângulo para engrenar na roda dentada da transmissão. Fiquei a olhar para ele e interroguei-me: Chinês Swahili? Dirigimo-nos a outra máquina. - Aqui fazem engrenagens que estão fixas ao cubo das rodas da frente. A ponteira é fixada ao disco do travão. Estás a ver? Acenei que sim. Levou-me junto de outra máquina. - Esta substitui engrenagens gastas. Este sistema de transmissão há uns tempos que está estandardizado. A vantagem dos sistemas de transmissão frontal é que podemos obter várias multiplicações sem afetar o desempenho do velocímetro. Percebeste? É swahili. Concluí. - Claro que sim. - Bom, agora vou mostrar-te o teu departamento. Levou-me ao departamento de pequenas encomendas, do qual eu ia ficar encarregue.
  38. 38. As máquinas que me tinham sido apresentadas eram gigantescas e tinham sido construído para responderem a grandes encomendas dos construtores de automóveis, meio milhão de peças ou mais de cada vez. O departamento das pequenas encomendas tinha três máquinas muito menores. Otto Karp explicou: - Se alguém encomendar cinco ou dez peças, não nos podemos dar ao luxo de ligar uma das grandes máquinas para uma encomenda tão pequena. Mas estas máquinas aqui estão concebidas para produzirem quantidades tão pequenas como uma ou duas peças. Assim que entra uma encomenda pequena, tu tomas conta dela e é imediatamente tratada. - E como é que faço isso? - Primeiro, dão-te uma ordem de compra. A encomenda pode ser de uma a uma dúzia de engrenagens. Em seguida, passas a ordem de compra ao maquinista. Quando as peças estão prontas, tens de levá-las para o departamento de têmpera, onde vão ser endurecidas. A paragem seguinte é a inspeção e, por fim, o departamento de embalagem. Parecia razoavelmente fácil. Fiquei a saber que o meu antecessor só dava aos homens que trabalhavam no departamento de pequenas encomendas seis encomendas por dia. As restantes guardavam-as e os homens ficavam por ali sentados metade do dia, sem fazerem nada. Quanto a mim, era um desperdício. Ao fim de um mês, conseguira aumentar a nossa capacidade de resposta em cinquenta por cento. Por altura do Natal, recebi a minha recompensa. Otto Karp deu-me um cheque de catorze dólares e disse: - Aqui tens. Bem mereces. Tens um dólar de aumento. Otto andava na estrada, Natalie trabalhava seis dias por semana numa loja de roupas e Richard ia à escola. Os meus dias na Stewart Warner a trabalhar no monótono ambiente da fábrica, rodeado por máquinas irreais, tinham-se tornado entorpecedores. As minhas noites eram igualmente más. Apanhava o El para o Loop, ia a pé até ao hotel onde estava a trabalhar e passava as horas seguintes a receber e a entregar casacos. A minha vida transformara-se numa rotina cinzenta e feia e não havia saída à vista.
  39. 39. Uma noite em que regressava já tarde a casa no El vindo do trabalho, um anúncio no The Chicago Tribune chamou-me a atenção. Paul Ash patrocina concurso amador. Inicie a sua carreira no mundo do espetáculo. Paul Ash, regente de um grupo musical conhecido em todo o país, ia estar no teatro Chicago. O anúncio foi como mel para mim. Não fazia idéia de qual era o concurso amador, mas sabia que queria entrar. No sábado, antes de ir trabalhar na drugstore, parei no teatro Chicago e pedi para falar com Paul Ash. O empresário dele saiu de um gabinete. - O que posso fazer por si? - Gostava de entrar no concurso amador. Respondi. Ele consultou um papel. - Ainda não temos um apresentador. Acha que é capaz? - Oh, sim! Claro que sim! - Ótimo. E qual é o seu nome? Qual era o meu nome? Schechtel não era um nome apropriado para o mundo do espetáculo. As pessoas estavam sempre a escrevê-lo mal e a pronunciarem-no mal. Precisava de um nome que fosse fácil de recordar. As hipóteses passaram rapidamente pela minha mente. Gabble, Cooper, Grant, Stewart, Powett... O homem olhava para mim. - Não sabe como se chama? - Claro que sei! - Respondi imediatamente - É Sidney Sh... Sheldon. Sidney Sheldon. Ele anotou-o. - Muito bem, Sheldon, esteja cá no próximo sábado. As seis em ponto. Vai transmitir do estúdio numa estação da WGN. Fosse lá o que isso fosse. - Certo. Corri para casa para dar a notícia aos meus pais e ao meu irmão Richard. Ficaram muito excitados. Havia mais uma coisa que eu tinha de lhes dizer.
  40. 40. - Vou usar um nome diferente. - Que queres dizer com isso? - Bom, Schechtel não é um bom nome para o espetáculo. De agora em diante serei Sidney Sheldon. Olharam um para o outro e encolheram os ombros. - Está bem. Tive dificuldade em dormir nas noites que se seguiram. Sabia que aquilo seria o princípio. Eu ia ganhar o concurso. Paul Ash dar-me-ia um contrato para viajar com ele pelo país. Sidney Sheldon ia viajar pelo país com ele. Quando sábado relutantemente entrou no calendário, regressei ao teatro Chicago e fui conduzido a um pequeno estúdio, juntamente com mais outros jovens concorrentes. Havia um comediante, um cantor, uma pianista e um tocador de acordeão. O diretor disse, dirigindo-se a mim: - Sheldon... Senti um arrepio. Era a primeira vez que alguém me chamava pelo meu novo nome. - Diga, senhor? - Assim que eu apontar na tua direção dirige-te ao microfone e dás início ao programa. Vais dizer Boa noite, minhas senhoras e meus senhores. Sejam bem vindos ao Concurso para Amadores Paul Ash. Eu sou o vosso apresentador e chamo-me Sidney Sheldon. Este vai ser um programa emocionante, por isso não saiam daí. Percebeste? - Sim, senhor. Quinze minutos mais tarde, o diretor olhou para o relógio do estúdio que estava na parede e ergueu o braço. - Silêncio, todos. E começou a contar. Apontou para mim, e eu estava preparado. Nunca antes em toda a minha vida estivera tão calmo, porque sabia que isto era o início de uma carreira maravilhosa. E ia começar com o meu novo nome artístico.
  41. 41. Com grande compostura, aproximei-me do microfone, respirei fundo e disse na minha melhor voz de locutor: - Boa noite, minhas senhoras e meus senhores. Sejam bem-vindos ao Concurso para Amadores Paul Ash. Eu sou o vosso apresentador, Sidney Schechtel. CAPÍTULO 6 Consegui recompor-me a tempo de apresentar os outros concorrentes. O espetáculo correu bem. O tocador de acordeão executou uma alegre melodia, seguido pelo comediante, que cumpriu o seu papel como um verdadeiro profissional. O cantor cantou lindamente. Nada correu mal até que chegou a vez da última concorrente, a pianista, ser apresentada. Assim que anunciei o seu nome, ela entrou em pânico, começou a chorar e fugiu apressadamente, deixando-nos com três minutos de tempo de antena vazio. Sabia que tinha de preencher este tempo. Eu era o apresentador. Aproximei-me do microfone. - Senhoras e senhores, todos nós começamos na vida como amadores, mas, à medida que vamos avançando, tornamo-nos profissionais. Fiquei tão embrenhado nas minhas próprias palavras que continuei a falar até que o diretor me fez sinal para parar. Saímos do ar. Eu sabia que salvara o espetáculo e que todos me ficariam gratos por isso. Talvez me oferecessem um emprego como... O diretor aproximou-se de mim. - Que raio se passa contigo, ó tu, que não sei como te chamas? Gritou. Excedeste o tempo em quinze segundos. A minha carreira na rádio terminara. Paul Ash não me convidou para viajar pelo país com ele, mas este concurso de Paul Ash teve uma consequência interessante. Otto, Natalie, Richard, Seymour, Eddie, Howard e Steve, todos eles mudaram o apelido para Sheldon. O único Schechtel que restou foi o tio Harry. No princípio de Maio, o meu primo Seymour espantou-nos a todos anunciando que ia casar.
  42. 42. Ele só tinha dezenove anos, mas parecia-me que fora adulto quase toda a vida. Eu conhecera a noiva, Sidney Singer, quando vivera em Denver. Sidney era uma jovem e atraente secretária que trabalhara no escritório de corretagem do tio Harry, onde Seymour a conheceu. Achara-a calorosa e inteligente, com um sentido de humor simpático. O casamento foi simples, apenas com os membros da família presentes. Quando a cerimônia terminou, dei os parabéns a Seymour. - É uma rapariga espetacular. Guarda-a bem disse. - Não te preocupes, é o que tenciono fazer. Seis meses mais tarde, atravessavam um divórcio complicado. - O que foi que aconteceu? Perguntei a Seymour. - Ela descobriu que eu tinha um caso. - E pediu o divórcio? - Não. Perdoou-me. - Então, porque é que... - Apanhou-me com outra pessoa. Foi aí que pediu o divórcio. - Costumas vê-la? - Não. Ela odeia-me. Disse-me que nunca mais me queria ver. Partiu para Hollywood. Tem um irmão que vive lá. Arranjou um emprego na MGM como secretária de uma diretora. A Dorothy Arzner. A minha curta incursão na rádio deixara-me um agradável sabor na boca e fiquei excitado com as possibilidades que oferecia. A rádio podia muito bem ser a profissão que eu procurava. Em todos os minutos livres que tinha visitava a WBBM e outras estações de rádio de Chicago à procura de um emprego como locutor. Não havia empregos, ponto final. Tive de encarar o fato de que estava de regresso à velha armadilha, sem qualquer perspectiva de futuro. Uma tarde de domingo, quando todos tinham saído do apartamento, sentei-me ao pequeno piano. Fiquei ali, a compor uma melodia. Concluí que não era má e criei uma letra para ela. Chamei-lhe
  43. 43. " My Silent Self". Olhei para ela e pensei “e agora?” Podia deixá-la no banco do piano ou podia tentar fazer alguma coisa com ela. Optei por tentar fazer alguma coisa. Nesse ano de 1936, os maiores hotéis do país tinham orquestras nos seus salões de baile que eram transmitidas por rádio por todo o país. No hotel Bismarck, o chefe de orquestra era um simpático músico chamado Phil Levant. Eu nunca falara com ele, mas, de vez em quando, quando ele passava pelo bengaleiro a caminho do salão, costumávamos acenar com a cabeça um ao outro. Decidi mostrar-lhe a minha música. Quando nessa noite ele passou pelo bengaleiro, chamei-o: - Desculpe-me, senhor Levant. Compus uma música e gostava de saber se estaria interessado em lhe dar uma olhadela. A expressão no seu rosto deu-me uma idéia do número de vezes que já ouvira esta proposta, mas ele foi muito educado. - Terei muito gosto. Respondeu. Dei-lhe uma cópia da folha da música. Ele olhou-a de relance e seguiu o seu caminho. E acabou-se, pensei. Uma hora mais tarde, Phil Levant estava de volta ao bengaleiro. - Aquela tua música... Começou a dizer. Eu nem conseguia respirar. - Sim? - Gosto dela. É original. Parece-me que pode ser um sucesso. Importavas-te que eu a orquestrasse e a tocássemos? Importar? - Não, claro que não. Isso é... É maravilhoso. Respondi. Ele gostara da minha música! Na noite seguinte, enquanto eu pendurava chapéus e casacos, dos lados do salão de baile ouvi a minha música, " My Silent Self”, a ser tocada. Fiquei extasiado. Como a orquestra tinha difusão nacional, haveria pessoas a ouvir a minha música em todo o país. Era uma sensação arrebatadora. Já era tarde quando, nessa noite, terminei o meu trabalho. Fui para casa e, como estava exausto, decidi tomar um banho quente.
  44. 44. Exatamente no momento em que começava a relaxar, Otto entrou a correr na casa de banho. - Tens uma chamada para ti. A esta hora? - Quem é? - Diz que se chama Phil Levant. Saltei da banheira, agarrei numa toalha e corri para o telefone. - Senhor Levant? - Sheldon, tenho aqui um editor da Harms Music Company. Ouviram a tua música na rádio, em Nova Iorque. Querem editá-la. Quase deixei cair o telefone. - Podes vir até cá agora? Ele está à tua espera. - Estou a caminho. Sequei-me apressadamente e vesti-me num ápice. Apanhei uma cópia da folha da música. - Que é que se passa? Quis Otto saber. Expliquei-lhe. - Posso levar o carro? - Claro. - E deu-me as chaves - Tenha cuidado. Corri pelas escadas abaixo, entrei no carro e dirigi-me para a Outer Drive, a caminho do hotel Bismarck. A minha cabeça girava com a excitação de poder vir a ter a minha primeira música editada quando, de repente, me apercebi do som de uma sirene mesmo atrás de mim e vi as luzes vermelhas a girar. Enquanto me chegava para o lado, o polícia saiu da moto e dirigiu-se ao carro. - Qual é a pressa? - Senhor guarda, eu não me apercebi que estava com excesso de velocidade. Estou a caminho de um encontro com um editor de música no hotel Bismarck. Trabalho lá, no bengaleiro. Há uma pessoa interessada em editar a minha música e... - Carta de condução? Mostrei-lhe a minha carta. Meteu-a no bolso.
  45. 45. - Muito bem. Acompanhe-me. Fiquei a olhar para ele. - Acompanho-o onde? Passe-me uma multa. Eu estou cheio de... - Agora as regras são outras respondeu. Já não passamos multas. Agora levamos os prevaricadores diretamente para a esquadra. O coração caiu-me aos pés. - Senhor guarda, eu tenho de ir a esta reunião. Se me pudesse passar a multa, eu teria muito gosto em... - Eu disse para me acompanhar. Não tinha outra hipótese. Ele pôs a moto a funcionar e colocou-se à minha frente. Segui-o. Em vez de me ir encontrar com o meu novo editor, estava a caminho de uma esquadra de polícia. Cheguei à esquina seguinte no momento exato em que a luz passou de amarelo para vermelho. Ele passou. Eu parei, à espera que mudasse outra vez para verde. Quando comecei a avançar, o polícia na moto não se via em lado nenhum. Andei devagarzinho, para ter a certeza de que ele não ia pensar que eu tentava escapar. E quanto mais avançava mais otimista ia ficando. Ele desaparecera. Esquecera-se de mim. Andava a procura de outra pessoa para mandar para a cadeia. Aumentei a velocidade e dirigi-me ao Bismarck. Parei o carro na garagem e apressei-me até ao bengaleiro. Não podia acreditar no que estava a ver. O polícia estava lá dentro à minha espera, e estava furioso: - Pensou que se livrava de mim? Eu não sabia o que dizer. - Eu não estava a tentar fugir de si. Dei-lhe a minha carta e disse-lhe que vinha para aqui... - Está bem. Já cá está. Agora vamos para a esquadra ordenou. Eu estava desesperado. - Deixe-me telefonar ao meu pai. Ele abanou a cabeça. - Já perdi demasiado tempo... - Só demora um segundo. - Está bem, mas despache-se. Marquei o número de casa. Otto atendeu. - Estou?
  46. 46. - Otto? - Então, como é que correu? - Estou a caminho da esquadra de polícia. E expliquei-lhe a situação. - Deixa-me falar com o polícia. Pediu Otto. - O meu pai quer falar consigo. Ele pegou no telefone, relutante. - Sim... Não, não tenho tempo para ouvir. Vou levar o seu filho para a esquadra... O quê?... Ai é? Isso é interessante... Sim, sei o que quer dizer. Para falar verdade, sim... Tenho um cunhado que precisa de um emprego... Ai sim? Deixe-me apontar. E puxou de uma caneta e de um bloco e começou a escrever. É muito simpático da sua parte, senhor Sheldon. Vou mandá-lo de manhã. Olhou de relance para mim. E não se preocupe com o seu filho. Eu ouvia a conversa de boca aberta. O polícia desligou o telefone, devolveu-me a carta de condução e disse: - Eu que não te apanhe outra vez em excesso de velocidade. Fiquei a olhar, enquanto ele se ia embora. Virei-me para a empregada do bengaleiro e perguntei: - Onde está Phil Levant? - Está a dirigir a orquestra, mas está uma pessoa à tua espera no escritório do gerente. Respondeu. No escritório do gerente encontrei um homem muito bem vestido e elegante que parecia andar pelos cinquenta anos. Assim que entrei, ele disse. - Então, este é o jovem maravilha. O meu nome é Brent. Trabalho para a TB Harms. A TB Harms era uma das maiores editoras de música do mundo. - Ouviram a sua música em Nova Iorque e gostariam de editá-la. Informou. O meu coração cantava. - Mas há um problema hesitou. - Qual é?
  47. 47. - Eles acham que Phil Levant não é um nome suficientemente importante para apresentar a sua música. Gostavam de ter outra pessoa mais importante a tocá-la. O coração caiu-me aos pés. Eu não conhecia ninguém mais importante. - Horace Heidt está a tocar no hotel Drake. Talvez pudesse ir falar com ele e mostrar-lhe a música sugeriu. Horace Heidt tinha uma das orquestras mais populares do país. - Claro. Deu-me o cartão dele. - Diga-lhe que me telefone. - Com certeza. Prometi. Olhei para o relógio. Era um quarto para a meia noite. Horace Heidt ainda devia estar a tocar. Entrei no carro de Otto e conduzi bem devagarzinho até ao hotel Drake. Quando cheguei, dirigi-me ao salão de baile onde ele dirigia a orquestra. Assim que entrei, o chefe de mesa perguntou-me: - Tem mesa reservada? - Não. Estou aqui para falar com o senhor Heidt. - Pode aguardar aqui. E apontou para uma mesa vazia junto a uma parede. Esperei quinze minutos e, quando Horace Heidt saiu do palco, interpelei-o: - Senhor Heidt chamo-me Sidney Sheldon. Tenho aqui uma música que... - Lamento muito, mas não tenho tempo... Retorquiu. - Mas a Harms quer que... Ele começou a afastar-se. - A Harms quer editá-la. - Fui dizendo alto - Mas querem alguém como o senhor a tocá-la. Ele parou e voltou para junto de mim. - Deixe lá ver. Dei-lhe a partitura. Estudou-a como se a ouvisse na cabeça.
  48. 48. - É uma música bonita. - Está interessado? Perguntei. Olhou para mim. - Estou. Quero cinquenta por cento. Eu ter-lhe-ia dado cem por cento. - Excelente! E entreguei-lhe o cartão que Brent me dera. - Vou fazer uma orquestração. Volte cá amanhã. Na noite seguinte, quando voltei ao hotel Drake, ouvi a minha música a ser tocada por Horace Heidt e a sua orquestra, e soava ainda melhor do que o arranjo que Phil Levant fizera. Sentei-me e aguardei até ele estar livre. Ele aproximou-se da mesa onde eu estava sentado. - Já falou com o senhor Brent? Perguntei. - Sim. Vamos fazer um contrato. - Sorri. A minha primeira música ia ser editada. Na manhã seguinte, Brent veio ter comigo ao bengaleiro do Bismarck. - Está tudo tratado? Perguntei. - Infelizmente não. - Mas... - O Heidt está a pedir um avanço de cinco mil dólares e nós nunca demos esse montante por uma música nova. Fiquei abismado. Quando terminei o meu trabalho, fui ao hotel Drake para falar com Horace Heidt outra vez. - Senhor Heidt, eu não quero saber do avanço. Só quero a minha primeira música publicada. Expliquei. - Nós vamos publicá-la - Sossegou-me - Não te preocupes com isso. Eu próprio a vou publicar. Para a semana parto para Nova Iorque. A música vai receber muito tempo de antena. Além da sua emissão noturna, Horace Heidt era o apresentador de um popular programa semanal chamado Horace Heidt and His Alemite Brigadiers.
  49. 49. ”My Silent Self” seria transmitida de Nova Iorque e ouvida por todo o país. Durante as semanas seguintes, consegui ouvir as emissões de Horace, e ele tinha toda a razão. ”My Silent Self” teve muito tempo de antena, tanto nas emissões da noite, como no programa Alemite. Ele usou a minha música, mas nunca a editou. Eu não me senti desencorajado. Se for capaz de compor uma música que despertara a atenção de um grande editor, então ia compor uma dúzia delas. E foi exatamente o que fiz. Passei todo o meu tempo livre sentado ao piano a compor canções. Pensei que doze músicas seria um bom número para enviar para Nova Iorque. Não me podia dar ao luxo de lá ir pessoalmente, porque precisava de me manter nos meus empregos para ajudar a família. Natalie ouvia as minhas músicas e ficava encantada e entusiasmada. - Querido, são melhores do que as de Irving Berlin. Muito melhores. Quando é que as vais levar a Nova Iorque? Abanei a cabeça. - Natalie, eu não posso ir à Nova Iorque. Tenho três empregos aqui. Se eu... - Não, tens de ir - Interrompeu ela com firmeza - Eles não vão sequer ouvi-las se as mandares pelo correio. Tens de ir pessoalmente. - Não temos dinheiro... - Disse eu - Se... - Querido, esta é a tua grande oportunidade. Não te podes dar ao luxo de a deixares passar. Eu não fazia idéia que ela estava a viver através de mim. Nessa noite, tivemos uma conversa em família. Relutante, Otto acabou por concordar que eu devia ir à Nova Iorque. Arranjaria um trabalho até as minhas músicas começarem a vender. Decidimos que eu devia partir no sábado seguinte. A prenda de Natalie foi um bilhete de autocarro para Nova Iorque. Nessa noite, quando eu e Richard estávamos deitados nas nossas camas, ele perguntou-me: - Tu vais ser um compositor tão importante como o Irving Berlin? E eu respondi-lhe a verdade: - Sim.
  50. 50. Com todo o dinheiro que começaria a entrar, Natalie nunca mais teria de trabalhar. CAPÍTULO 7 Antes da minha viagem para Nova Iorque, em 1936, eu nunca estivera numa estação de autocarros. Esta tinha uma atmosfera de excitação, com pessoas que partiam e chegavam. Vindas de cidades de todo o país. O meu autocarro parecia enorme, com um lavabo e assentos confortáveis. O percurso até Nova Iorque ia durar quatro dias e meio. A longa viagem poderia ser aborrecida, mas eu estava demasiado ocupado a pensar e sonhar com o meu fantástico futuro para me importar. Quando entramos na estação dos autocarros em Nova Iorque, eu tinha trinta dólares no bolso, dinheiro que sabia com toda a certeza que Natalie e o Otto não podiam dispensar. Eu telefonara antecipadamente para o YMCA para reservar um quarto. Este se revelou pequeno e sombrio, mas a verdade é que só custavam quatro dólares por semana. Mesmo assim, sabia que os meus trinta dólares não durariam muito tempo. Pedi para falar com o gerente do YMCA. - Preciso de um trabalho disse-lhe e preciso dele já. Sabe de alguém que...? - Temos um serviço de empregos para os nossos hóspedes. Informou. - Excelente. Há alguma coisa disponível neste momento? Ele tirou uma folha de papel da secretária e leu-a rapidamente. - Há uma vaga para arrumador no RKO Jefferson Theatre, na rua Catorze. Está interessado? Interessado? Naquele momento, a minha única ambição era ser arrumador no RKO Jefferson da rua Catorze. - É exatamente do que ando a procura! Exclamei. Ele escreveu qualquer coisa num pedaço de papel e entregou-me. - Leve isto amanhã de manhã ao cinema. Estava em Nova Iorque há menos de um dia e já tinha um emprego! Telefonei a Natalie e a Otto para lhes contar as novidades.
  51. 51. - Isso é um excelente sinal. Tu vais ser um grande sucesso. Respondeu ela. Passei a primeira tarde e noite a explorar Nova Iorque. Era um lugar mágico, uma cidade em ebulição que fazia com que Chicago parecesse provinciana e triste. Tudo ali era maior, os edifícios, os toldos das lojas, as ruas, os sinais, o trânsito, a multidão. A minha carreira. O ROJefferson Theatre, na rua Catorze, que fora em tempos uma casa de vaudeville, era uma velha estrutura com dois andares e uma bilheteira na frente. Fazia parte de uma cadeia de cinemas, a RKO. Era normal passarem dois filmes ao mesmo tempo e os clientes podiam ver dois filmes de ponta a ponta pelo preço de um. Caminhei trinta e nove quarteirões desde o YMCA até ao cinema e entreguei ao gerente o papel que me tinham dado. Este olhou para mim e perguntou: - Já alguma vez foi arrumador? - Não, senhor. Encolheu os ombros. - Não tem importância. É capaz de andar? - Sim, senhor. - E sabe como acender uma lanterna? - Sim, senhor. - Então pode ser arrumador. O seu salário é de catorze dólares e quarenta por semana. Trabalha seis dias. O horário é das quatro e vinte à meia noite. - Muito bem. Isso significava que tinha as manhãs e parte das tardes livres para passar no Brill Building, a sede das editoras discográficas. - Vá ao bengaleiro do pessoal e veja se consegue encontrar um uniforme que lhe sirva. - Sim, senhor. Experimentei um uniforme de arrumador e o gerente olhou para mim e comentou: - Serve perfeitamente. Mantenha sempre o balcão debaixo de olho. - O balcão?
  52. 52. - Depois verá. Começa amanhã. - Sim, senhor. E amanhã darei início à minha carreira de compositor. O Brill Building, com os seus muitos andares, era o santo dos santos do negócio da música. Situado no número 1619 da Broadway, na rua Quarenta e Nove, era o centro da Tin Pan Alley1, o lugar onde os importantes editores de música do mundo tinham o seu quartel general. Quando entrei no edifício e vagueei pelos corredores, ouvi os acordes de A Fine Romance... I’ve Got You Under My Skin... Pennws from Heaven... Os nomes nas portas deixaram o meu coração sobressaltado: Jerome Remick... Robbins Music Corporation... M. Witmark & Sons... Shapiro Bernstein & Company... E TB Harms, todos os gigantes da indústria da música. Esta era a fonte do talento musical. Cole Porter, Irving Berlin, Richard Rodgers, George e Ira Gershwin, Jerome Kern... Todos eles tinham começado aqui. Entrei nos escritórios da TB Harms e cumprimentei o homem sentado atrás de uma secretária. - Bons dias. O meu nome é Sidney Shech... Sheldon. - Em que lhe posso ser útil? - Escrevi " O Meu eu Silencioso”. Parece que vocês estavam interessados em editá-lo. Um olhar de reconhecimento percorreu-lhe o rosto. - Ah, sim! Pois foi, estivemos. Estivemos? - Já não estão? - Bem, ela tem sido muito ouvida. O Horace Heidt tem-na tocado muito. Tem alguma coisa nova? Fiz que sim com a cabeça. - Sim, tenho. Posso voltar com novas músicas amanhã de manhã, senhor...? - Tasker. As quatro e vinte daquela tarde, eu estava vestido com o meu uniforme de arrumador, subindo e descendo as coxias para acompanhar as pessoas até aos seus lugares. O gerente tinha razão. A única coisa que fazia com que não fosse aborrecido era os filmes que passavam. Nome por que era conhecida a zona onde se concentravam os aspirantes a músicos, principalmente durante a depressão dos anos 30. Quando as coisas estavam calmas, podia sentar-me na última fila do cinema e ver os filmes.
  53. 53. A primeira dupla de filmes que vi foi A Day atthe Roces com os irmãos Marx e o Mr. Deeds Góes to Town. As novidades que se seguiam eram o A Star is Bom com Janet Gaynor e Frederic March e o Dodsworth com Walter Huston. À meia noite, quando o meu turno terminou, regressei ao hotel. O quarto já não me parecia nem pequeno, nem triste. Sabia que o ia transformar num palácio. De manhã, levaria as minhas músicas à TB Harms, e a única questão que se levantava era qual delas iam querer editar primeiro, se The Ghost of My Love, I Will if You Want to, A Handful of Stars, ou When Love Has Gone. Às oito e trinta da manhã seguinte eu estava em frente à TB Harms à espera que as portas se abram. As nove, o senhor Tasker chegou. Viu o enorme envelope que eu tinha na mão. - Estou a ver que trouxe as suas músicas. Sorri. - Sim, senhor. Entramos no escritório dele. Dei-lhe o envelope e preparei-me para me sentar. Ele fez-me sinal para parar. - Não precisa esperar. Vou vê-las assim que tiver oportunidade. Porque não volta cá amanhã? Sugeriu. Fiz-lhe o meu melhor aceno de compositor de músicas profissional. - Com certeza. Ia ter de esperar mais vinte e quatro horas para o meu futuro poder começar. As quatro e vinte estava de volta ao meu uniforme no RKO Jefferson. O gerente tinha toda a razão quanto ao balcão. Ouviam-se muitos risinhos lá em cima. Na última fila estavam sentados um jovem e uma jovem. Assim que me aproximei, ele afastou-se e ela puxou apressadamente para baixo o curto vestido. Afastei-me e nunca mais lá voltei. Que se lixasse o gerente. Eles que se divertissem. Na manhã seguinte às oito da manhã, estava no escritório da Harms, não se desse o caso de o senhor Tasker chegar mais cedo. Ele chegou às nove e abriu a porta. - Bom dia, Sheldon.
  54. 54. Tentei avaliar pelo tom da voz dele se tinha gostado ou não das minhas músicas. Fora um ”bom dia” normal, ou será que detectara um toque de entusiasmo na voz dele? Entramos no escritório. - Teve oportunidade de ouvir as minhas músicas, senhor Tasker? - Tive, sim. São muito agradáveis. O meu rosto iluminou-se. Aguardei, à espera de ouvir o que mais tinha ele para dizer. Mas permaneceu silencioso. - De qual delas gostou mais? Perguntei. - Infelizmente, nenhuma delas é o que andamos a procura neste momento. Esta foi a frase mais depressiva que ouvi em toda a minha vida. - Mas com certeza que... Alguma delas... Comecei a dizer. Ele tirou o meu envelope de trás da secretária e devolveu-me. Terei sempre todo o gosto em ouvir o que tiver de novo. E foi o fim da entrevista. Mas isto não é o fim, pensei para comigo. É só o princípio. Passei o resto da manhã e parte da tarde a entrar em todos os outros editores de música que havia no edifício. - Alguma vez teve alguma música editada? - Não, senhor. Mas, eu... - Nós não recebemos novos compositores. Volte quando tiver alguma coisa editada. Como é que eu ia conseguir editar uma canção se os editores não queriam editar nenhuma canção enquanto não tivesse nenhuma canção editada? Nas semanas que se seguiram, sempre que não estava no cinema estava no meu quarto a compor. No cinema, adorava ver os maravilhosos filmes que eram passados. Vi The Great Ziegfield, San Francisco, My Man Godfrey e Shall We Dance, com Fred Astaire e Ginger Rogers. Transportavam-me para outro mundo, um mundo de fascínio e de excitação, de elegância e de riqueza. O meu dinheiro estava a acabar. Recebi um cheque de vinte dólares de Natalie e devolvi-lho. Eu
  55. 55. sabia que, sem a minha contribuição e Otto sem trabalho, a vida devia ser ainda mais difícil para eles. Interroguei-me se eu não estaria a ser egoísta, a pensar em mim quando eles precisavam de ajuda. Assim que o meu novo grupo de músicas ficou pronto, levei-as aos mesmos editores. Olharam para elas e deu-me a mesma desesperante resposta: - Volte quando tiver alguma coisa editada. Num dos átrios fui invadido por uma onda de depressão. Tudo me parecia sem solução. Não tencionava passar o resto da minha vida como arrumador e ninguém estava interessado nas minhas músicas. Este é um excerto de uma das cartas que escrevi aos meus pais, com data de 2 de Novembro de 1936. Quero que sejam os mais felizes possíveis. A minha felicidade é um balão que me foge e que espera que eu o consiga apanhar, escapando de um lado para o outro, sobre oceanos, enormes prados verdes, por entre árvores e regatos, por cenas pastorais e por passeios varridos pelo vento. Primeiro lá no alto, mal o conseguindo ver, em seguida cá por baixo, quase ao meu alcance, soprado daqui e dali pelos caprichos do vento, num momento um vento cruel e sádico, e no momento seguinte cheio de compaixão. É o vento do destino e nele se baseiam as nossas vidas. Uma manhã, no átrio do YMCA, vi um jovem mais ou menos com a minha idade sentado num sofá a compor furiosamente. Trauteava uma melodia e parecia estar a escrever a letra de uma música. Aproximei-me, curioso. - Escreve músicas? Perguntei. Olhou para cima. - Escrevo. - Eu também. O meu nome é Sidney Sheldon. Ele estendeu a mão. - Sidney Rosenthal. Foi o início de uma longa amizade. Passamos a manhã toda a conversar e parecíamos almas gêmeas.
  56. 56. No dia seguinte, quando fui trabalhar, o gerente do cinema chamou-me ao escritório dele. - O nosso anunciador está doente. Quero que vistas o uniforme dele e o substituas até ele voltar. Vais trabalhar de dia. Só tens de andar de um lado para o outro na frente do cinema e dizer alto: ”Muitos lugares. Não precisa esperar”. E ganhas mais. Fiquei encantado. Não devido à promoção, mas por causa do aumento. Ia mandar o dinheiro a mais para casa. - E quanto é que ganho? - Quinze e quarenta por semana. Um dólar a mais por semana. Quando vesti o uniforme, parecia um general do exército russo. Eu não tinha nada contra o meu trabalho como anunciador, mas não aguentava o aborrecimento de dizer vezes sem conta ”Muitos lugares. Não precisa esperar”. Decidi dar um toque teatral. Comecei a gritar numa voz estrondosa: ” Uma excitante sessão dupla, The Texas Rangers e The Man Who Lived Twice. Como é que um homem vive duas vezes, senhoras e senhores? Entrem e descubram. Vão ter uma tarde que jamais esquecerão. Não há que esperar por lugares. Apressem-se! Está quase a esgotar!” O verdadeiro anunciador nunca mais apareceu e eu fiquei com o trabalho dele. A única diferença é que eu agora trabalhava manhãs e princípios da tarde. Ainda tinha tempo para ir visitar os editores de música que não estavam interessados nas minhas músicas. Eu e Sidney Rosenthal escrevemos várias músicas juntos. Foram muito elogiadas, mas nunca conseguimos um contrato. No final da semana, dava normalmente por mim com dez cêntimos no bolso. Precisava ir do cinema ao Brill Buiding e tinha de optar entre comer um cachorro quente por cinco cêntimos e uma Coca- Cola por cinco cêntimos e percorrer a pé os trinta e cinco blocos, ou comer um cachorro, não beber a Coca-Cola e apanhar o metropolitano por um níquel. Estava habituado a alternar a rotina. Alguns dias depois de ter começado a trabalhar como anunciador, o negócio no cinema começou a aumentar. Eu andava lá fora a gritar de um lado para o outro ”Não percam a oportunidade de ver Conquest com a Greta Garbo e o Charles Boyer. E há mais, Nothing Sacred com Carok Lombard e Frederich Match. Estes são os maiores amantes do mundo que vos vão ensinar como devem agir.
  57. 57. Uma entrada só por trinta e cinco cêntimos. Duas lições no amor por trinta e cinco cêntimos. Apressem-se. Apressem-se. Comprem os vossos bilhetes já!”. E os clientes entravam. Com os filmes seguintes, diverti-me ainda mais. ”Venham ver a dupla mais fantástica da história do cinema Night Must Fall com Robert Montgomery e Rosalind Russell. Não dispam os vossos casacos, pois vão ter muitos arrepios. E, como bônus, têm o novo filme do Tarzan”, e nessa altura eu lançava um grito a Tarzan e ficava a ver as pessoas a um quarteirão de distância virar-se para ver o que se estava a passar e a darem meia volta para o cinema e comprarem bilhetes. O gerente estava de pé do lado de fora do teatro a observar-me. No final da semana seguinte, um desconhecido aproximou-se de mim. - Onde está o filho da mãe de Chicago? Não gostei do tom de voz dele. - Por quê? - Porque o gerente da cadeia RKO mandou todos os anunciadores vir ver o sacana a trabalhar e a aprenderem a fazer o que ele faz. - Eu digo-lhe quando ele voltar. E virei-me e anunciei num tom de voz normal: - Lugares disponíveis. Não precisam esperar. Lugares disponíveis. Não precisam esperar. A vantagem de trabalhar durante o dia é que continuava a ter tempo para visitar os editores de música e passara a ter as noites livres, de forma que, pelo menos três noites por semana, ia ao teatro ver peças, sentando-me nos lugares mais baratos do segundo balcão. Vi Room Service, Abie’s Irish Rose, Tobacco RoaA, You Can’t Take it With You... A variedade era infinita. Sidney Rosenthal, o meu novo amigo, arranjara um emprego e um dia sugeriu: - Porque não juntamos o nosso dinheiro e saímos daqui? Excelente idéia. Uma semana mais tarde saímos do YMCA e mudamo-nos para o hotel Grand Union, na rua Trinta e Dois. Tínhamos dois quartos e uma salinha e, depois do pequeno quarto do YMCA, parecia o

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