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ISSN 0104-7043             Revista da FAEEBA        Educação e    ContemporaneidadeDepartamento de Educação - Campus IRevi...
Revista da FAEEBA – EDUCAÇÃO E CONTEMPORANEIDADERevista do Departamento de Educação – Campus I(Ex-Faculdade de Educação do...
SUMÁRIOEditorial ............................................................................................................
ESTUDOSA linguagem verbal e suas relações de poder: a interação lingüística como construto deresistênciaJane Adriana Vasco...
SUMMARYEditorial ............................................................................................................
STUDIESThe verbal language and its relations of power: the linguistic interaction as resistanceconstructJane Adriana Vasco...
EDITORIAL                   O número 18, dedicado ao tema EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO               SUSTENTÁVEL, é um marco...
Temas e prazos      dos próximos números da Revista da FAEEBA               Educação e Contemporaneidade      Nº.   Tema  ...
EDUCAÇÃO                        E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL :                                           UMA APRESENTAÇÃO...
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Edvalter Souza Santos                                                          EDUCAÇÃO E SUSTENTABILIDADE                ...
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Edvalter Souza Santoso que deve ser gerenciado, e para produzir que                       ampliar os investimentos em educ...
Educação e Sustentabilidadeum caráter excludente e destruidor, com pobre-                   (Eco-92, Rio de Janeiro) produ...
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Educação e Sustentabilidadealcançar as “condições adequadas” para “levar                    junto de atividades. É um camp...
Edvalter Souza Santosos processos de diferenciação social dos indiví-                     técnicas condicionadas por estru...
Educação e SustentabilidadeDesenvolvimento Local Sustentável                                    Abordaremos agora o papel ...
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Educação e desenvolvimento sustentavel

  1. 1. 243
  2. 2. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA - UNEBReitora: Ivete Alves do SacramentoVice-Reitor: Monsenhor Antônio Raimundo dos AnjosDEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - CAMPUS IDiretora: Adelaide Rocha BadaróNúcleo de Pesquisa e Extensão - NUPEPrograma de Pós-Graduação Educação e Contemporaneidade/UNEB - PECUNEBFUNDADORES: Yara Dulce Bandeira de Ataide – Jacques Jules SonnevilleCOMISSÃO DE EDITORAÇÃOEditora Geral: Yara Dulce Bandeira de AtaideEditor Executivo: Jacques Jules SonnevilleEditora Administrativa: Maria Nadja Nunes BittencourtRevisoras: Dilma Evangelista da Silva, Kátia Maria Santos Mota, Lígia Pellon de Lima Bulhões, Rosa HelenaBlanco Machado, Therezinha Maria Bottas Dantas, Véra Dantas de Souza Motta.Bibliotecária responsável: Debora Toniolo RauVersão para o inglês: Roberto Dias - trÁdus - traduções e versõesEstagiária: Elen Barbosa SimplícioCONSELHO CONSULTIVO: Adelaide Rocha Badaró (UNEB), Cleilza Ferreira Andrade (FAPESB), EdivaldoMachado Boaventura (UFBa), Jaci Maria Ferraz de Menezes (UNEB), Lourisvaldo Valentim (UNEB), ManoelitoDamasceno (UNEB), Marcel Lavallée (Univ. de Québec), Nadia Hage Fialho (UNEB), Robert Evan Verhine (UFBa).CONSELHO EDITORIALAdélia Luiza Portela Marcel LavalléeUniversidade Federal da Bahia Universidade de Québec, CanadáAntônio Gomes Ferreira Marcos FormigaUniversidade de Coimbra, Portugal Universidade de BrasíliaCipriano Carlos Luckesi Marcos Silva PaláciosUniversidade Federal da Bahia Universidade Federal da BahiaEdmundo Anibal Heredia Maria José PalmeiraUniversidade Nacional de Córdoba, Argentina Universidade do Estado da Bahia e UniversidadeEdivaldo Machado Boaventura Católica de SalvadorUniversidade Federal da Bahia Maria Luiza MarcílioEllen Bigler Universidade de São PauloRhode Island College, USA Maria Nadja Nunes BittencourtJacques Jules Sonneville Universidade do Estado da BahiaUniversidade do Estado da Bahia Mercedes VilanovaJoão Wanderley Geraldi Universidade de Barcelona, EspañaUniversidade de Campinas Nadia Hage FialhoIvete Alves do Sacramento Universidade do Estado da BahiaUniversidade do Estado da Bahia Paulo Batista MachadoJonas de Araújo Romualdo Universidade do Estado da BahiaUniversidade de Campinas Raquel Salek FiadJosé Carlos Sebe Bom Meihy Universidade de CampinasUniversidade de São Paulo Robert Evan VerhineJosé Crisóstomo de Souza Universidade Federal da BahiaUniversidade Federal da Bahia Rosalba GueriniKátia Siqueira de Freitas Universidade de Pádova, ItáliaUniversidade Federal da Bahia Walter Esteves GarciaLuís Reis Torgal Associação Brasileira de Tecnologia Educacional /Universidade de Coimbra, Portugal Instituto Paulo FreireLuiz Felipe Perret Serpa Yara Dulce Bandeira de AtaídeUniversidade Federal da Bahia Universidade do Estado da BahiaOrganização: Jacques Jules Sonneville e Nadia Hage FialhoCapa e editoração: Symbol Publicidade/Uilson MoraisImpressão e encadernação: Gráfica Santa HelenaTiragem: 1.500 exemplaresRevista financiada com recursos da UNEB244
  3. 3. ISSN 0104-7043 Revista da FAEEBA Educação e ContemporaneidadeDepartamento de Educação - Campus IRevista da FAEEBA Salvador v. 11 n. 18 jul/dez. 2002UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEBRevista da FAEEBA Salvador v. 11 n. 18 jul/dez. 2002 245
  4. 4. Revista da FAEEBA – EDUCAÇÃO E CONTEMPORANEIDADERevista do Departamento de Educação – Campus I(Ex-Faculdade de Educação do Estado da Bahia – FAEEBA)Publicação semestral temática que analisa e discute assuntos de interesse educacional, científico e cultural.Os pontos de vista apresentados são da exclusiva responsabilidade de seus autores.ADMINISTRAÇÃO E REDAÇÃO: A correspondência relativa a informações, pedidos de permuta,assinaturas, etc. deve ser dirigida à: Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA Departamento de Educação I - NUPE Estrada das Barreiras, s/n, Narandiba 41150.350 - SALVADOR – BA Tel. (071)387.5916/387.5933Instruções para os colaboradores: vide última página.E-mail da Revista da FAEEBA: refaeeba@campus1.uneb.brE-mail para o envio dos artigos: jacqson@uol.com.br / jacques.sonneville@terra.com.brHomepage da Revista da FAEEBA: http://www.uneb.br/Educacao/centro.htmIndexada em / Indexed in:– REDUC/FCC – Fundação Carlos Chagas - www.fcc.gov.br - Biblioteca Ana Maria Poppovic– BBE – Biblioteca Brasileira de Educação (Brasília/INEP)– Centro de Informação Documental em Educação - CIBEC/INEP - Biblioteca de Educação– EDUBASE e Sumários Correntes de Periódicos Online - Faculdade de Educação - Biblioteca UNICAMP– Sumários de Periódicos em Educação e Boletim Bibliográfico do Serviço de Biblioteca e Documentação– Universidade de São Paulo - Faculdade de Educação/Serviço de Biblioteca e Documentação. www.fe.usp.br/biblioteca/publicações/sumario/index.htmlPede-se permuta / We ask for exchange. Revista da FAEEBA / Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação I - v. 1, n. 1(jan./jun., 1992) - Salvador: UNEB, 1992- Periodicidade semestral ISSN 0104-7043 1. Educação. I. Universidade do Estado da Bahia. II. Título. CDD: 370.5246
  5. 5. SUMÁRIOEditorial .................................................................................................................... 251Temas e prazos dos próximos números da Revista da FAEEBA – Educação e Contempo-raneidade .................................................................................................................... 252Educação e desenvolvimento sustentável: uma apresentaçãoNadia Hage Fialho e Jacques Jules Sonneville .............................................................. 253 EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVELEducação e sustentabilidadeEdvalter Souza Santos................................................................................................. 259Indicadores de processos em educação para a sustentabilidade: enfrentando a polissemiado conceito pela vinculação deste aos conceitos Cultura, Tecnologia e AmbienteLuiz Antonio Ferraro Júnior......................................................................................... 281Ecologia, ética e ambientalismo: prefácio de suas ambigüidadesMarco Antonio Tomasoni & Sônia Marise Rodrigues Pereira Tomasoni ...................... 303O ambientalismo na mídia: da sustentabilidade pontual ao consumismo geralPaulo Roberto Ramos & Deolinda de Sousa Ramalho .................................................. 317Valores culturais como estruturantes do desenvolvimento local sustentávelMaria José Marita Palmeira & Solange de Oliveira Guimarães...................................... 333Cenários e agentes da educação ambiental: uma análise das condições macro-estruturaise a prática educativa escolarPaulo Ricardo da Rocha Araújo.................................................................................... 341Educação: visão panorâmica mundial e perspectivas para a América LatinaErnâni Lampert........................................................................................................... 349Políticas de educação do trabalhador brasileiro como política de desenvolvimentoEmília Maria da Trindade Prestes................................................................................. 361Desenvolvimento local sustentável em políticas públicas educacionais de municipalizaçãoLanara Guimarães de Souza......................................................................................... 377Transurbanidades e ambientes colaborativos em rede de computadoresAlfredo Eurico Rodríguez Matta................................................................................... 383O museu e o turismo: a ação educativa para o desenvolvimento sustentávelGregórioBenfica.................................................................................................... 391Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 243-462, jul./dez. 2002
  6. 6. ESTUDOSA linguagem verbal e suas relações de poder: a interação lingüística como construto deresistênciaJane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios .................................................................. 409Raça, gênero e educação superiorDelcele Mascarenhas Queiroz ................................................................................. 417Ambientes virtuais de aprendizagem: por autorias livres, plurais e gratuitasEdméa Oliveira dos Santos ..................................................................................... 425Jogos eletrônicos e violência: desvendando o imaginário dos screenagersLynn Rosalina Gama Alves ...................................................................................... 437Educação e virtude na República de PlatãoRoberto Evangelista ................................................................................................ 447 RESENHA – INSTRUÇÕESATAIDE, Yara Dulce Bandeira de. Clamor do presente: história oral de famílias embusca da cidadania. São Paulo: Loyola, 2002, 277 p. “Clamor do presente”: a vidacotidiana revisitadaGey Espinheira........................................................................................................ 459Instruções aos colaboradores ................................................................................... 461 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 243-462, jul./dez. 2002
  7. 7. SUMMARYEditorial ................................................................................................................ 251Themes and deadlines for the next issues of “Revista da FAEEBA – Educação eContemporaneidade” ............................................................................................. 252Education and sustainable development: a presentationNadia Hage Fialho e Jacques Jules Sonneville ......................................................... 253EDUCATION AND SUSTAINABLE DEVELOPMENTEducation and sustainabilityEdvalter Souza Santos........................................................................................... 259Indicators of processes in education for sustainability: facing the polysemy of the con-cept by linking this to the Culture, Technology and Environment conceptsLuiz Antonio Ferraro Júnior.................................................................................... 281Ecology, ethics and environmentalism: preface of their ambiguitiesMarco Antonio Tomasoni & Sônia Marise Rodrigues Pereira Tomasoni ................. 303The environmentalism in the media: from punctual sustainability to general consumerismPaulo Roberto Ramos & Deolinda de Sousa Ramalho ............................................. 317Cultural values as structuring elements of the local sustainable developmentMaria José Marita Palmeira & Solange de Oliveira Guimarães.................................. 333Sceneries and agents of the Environmental Education: an analysis of the macro-structured conditions and the school educative practicePaulo Ricardo da Rocha Araújo................................................................................ 341Education: world panoramic view and perspectives to Latin AmericaErnâni Lampert......................................................................................................... 349Politics of education of the Brazilian worker as development politicsEmília Maria da Trindade Prestes.............................................................................. 361Sustainable local development in educational public politics of municipalizationLanara Guimarães de Souza...................................................................................... 377Trans-urbanities and collaborative environments in computer networksAlfredo Eurico Rodríguez Matta............................................................................... 383The museum and tourism: the educative action towards the sustainable developmentGregório Benfica...................................................................................................... 391Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 243-462, jul./dez. 2002
  8. 8. STUDIESThe verbal language and its relations of power: the linguistic interaction as resistanceconstructJane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios ................................................................... 409Race, gender and superior educationDelcele Mascarenhas Queiroz .................................................................................. 417Virtual learning environments: by unrestricted, plural and free authoringEdméa Oliveira dos Santos ...................................................................................... 425Electronic games and violence: unraveling the imaginary of the screenagersLynn Rosalina Gama Alves ...................................................................................... 437Education and virtue in the Republic of PlatoRoberto Evangelista ................................................................................................ 447 REVIEW – INSTRUCTIONSATAIDE, Yara Dulce Bandeira. Clamor of the present: oral history of families insearch for citizenship (Clamor do presente: história oral de famílias em busca dacidadania). São Paulo: Loyola, 2002, p. 277 “Clamor of the present”: everydaylife revisited (“Clamor do presente”: a vida cotidiana revisitada)Gey Espinheira......................................................................................................... 459Instructions to contributors .. .............................................................................. 461 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 243-462, jul./dez. 2002
  9. 9. EDITORIAL O número 18, dedicado ao tema EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, é um marco na trajetória da Revista da FAEEBA – Educa- ção e Contemporaneidade. Nele iniciou-se concretamente a sua integração com o Programa de Pós-Graduação Educação e Contemporaneidade/UNEB (stricto sensu), através da Linha de Pesquisa Educação, Gestão e Desenvolvi- mento Local Sustentável, a qual assumiu a coordenação desse número. Esta integração continuará nos dois números seguintes, dedicados, respectivamente, aos temas: Educação e Pluralidade Cultural, a ser coordenado pela linha de pesquisa Processos civilizatórios: Educação, Memória e Pluralidade Cultural; e Educação e Formação do Educador, a cargo da linha de pesquisa Educação, tecnologia, currículo e formação do educador. Esta parceria entre a Revista e o Programa de Pós-Graduação tem como objetivo congregar autores-pesquisadores não só da UNEB, mas também de diversas outras universidades do país e do exterior, confirmando o compromis- so do nosso periódico de estar cada vez mais perto de seus leitores, autores e grupos de estudo, procurando corresponder às suas expectativas e incentivan- do-os a levar adiante a importante tarefa de discutir as questões contemporâne- as nos seus diversos níveis e aspectos. Com isso, a Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade pretende contribuir para o avanço do conheci- mento como uma construção coletiva e histórica capaz de aproximar pessoas e permitir interlocuções através das diversas linguagens, fomentando, assim, a contínua comunicação em busca da construção de uma sociedade mais justa e solidária. Os Editores: Jacques Jules Sonneville Maria Nadja Nunes Bittencourt Yara Dulce Bandeira de AtaideRevista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 251.252, jul./dez. 2002 251
  10. 10. Temas e prazos dos próximos números da Revista da FAEEBA Educação e Contemporaneidade Nº. Tema Prazo de entrega Lançamento dos artigos previsto 19 Educação e Pluralidade 30.05.03 setembro de 2003 Cultural 20 Educação e Formação 30.09.03 março de 2004 do Educador 21 Educação e Leitura 30.05.04 setembro de 2004252 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 251.252, jul./dez. 2002
  11. 11. EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL : UMA APRESENTAÇÃO ∗ Nadia Hage Fialho & Jacques Jules Sonneville Este número da Revista da FAEEBA - Educação e Contempora-neidade representa um momento de rara significação. Há cerca de dez anos, um profes- sor levava a uma diretora de uma faculdade a idéia de uma revista. Ali, a Revista da FAEEBA começava a nascer das mãos do professor Jacques Jules Sonneville. Publicada em 1992, a Revista trazia em seu primeiro número a temática da Universidade. Agora, voltamos a receber do professor Jacques uma nova tarefa: a de pre- parar com ele a edição dedicada à Linha de Pesquisa Educação, Gestão e Desenvolvimento Local Sustentável, que coordenamos junto ao Programa de Pós-Graduação Educação e Contemporaneidade/UNEB. Chegamos então ao número 18 desta Revista, dedicado ao tema EDUCAÇÃO E DESENVOLVI- MENTO SUSTENTÁVEL. Grato re-encontro da amizade e das temáticas que nos juntam. Mais uma vez retorna à cena, inevitavelmente, a missão da universidade. E uma universidade como a UNEB, com uma configuração multicampi que se distribui por todo o estado da Bahia, não pode se calar diante das problemáti- cas do desenvolvimento, sobretudo aquelas vivenciadas pelas comunidades que acolhem seus campi. O conjunto de artigos aqui reunidos insere-se no debate contemporâneo. Na segunda metade do século XX vimos surgir uma série de ‘novas’ ciências, as- sistimos à emergência de impensáveis sínteses entre variados campos do conhe- cimento ... e o mundo acadêmico – regulado pelo rigor disciplinar – viu-se sacudido pelas perspectivas das ciências polidisciplinares e pelas abordagens multidisciplinares, interdisciplinares ou transdisciplinares dos seus obje- ∗ Professores do Programa de Pós-Graduação Educação e Contemporaneida- de/UNEB - PECUNEB (stricto sensu). E-mails: nadiafialho@uol.com.br / jacques.sonneville@terra.com.brRevista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 253.256, jul./dez. 2002 253
  12. 12. tos, agora compreendidos num campo multidimensional e entrecortados pelos enfoques transversais. Basta ouvir o mundo e a vida ‘lá fora’ – recurso poético que alimenta em metáforas nossas vidas ‘de dentro’ – expondo-nos à efervescência dos debates sobre o meio ambiente, o desenvolvimento e a sustentabilidade. Abre esta coletânea o artigo Educação e Sustentabilidade, de autoria de Edvalter Souza Santos, que se debruça sobre a organização social e os estilos de vida impostos pela “civilização”, agravados pelo modo de produção capita- lista, para tentar falar do mal-estar moderno, lembrando-nos que a educação se insere na gênese do problema, mas também nas esperanças de solução. Segue-lhe Indicadores de processos em educação para a sustentabilidade: enfrentando a polissemia do conceito pela vinculação deste aos conceitos cultu- ra, tecnologia e ambiente, de Antonio Ferraro Júnior, ensaio onde discute quão imbricados se encontram sustentabilidade e processos educacionais, as rela- ções de intencionalidade que ambos mantêm entre si e os efeitos que podem derivar das mesmas. Marco Antonio Tomasoni e Sônia Marise Rodrigues Pereira Tomasoni es- crevem Ecologia, ética e ambientalismo: prefácio de suas ambigüidades, refle- tindo sobre essas complexidades, destacadas nos conceitos que envolvem a questão ambiental, a sua aplicabilidade e as inevitáveis rupturas com as postu- ras utilitaristas e a visão dicotômica de mundo, para dar lugar à construção de novos paradigmas. Analisando as abordagens da mídia sobre a problemática ambiental, Paulo Roberto Ramos e Deolinda de Sousa Ramalho, no artigo O ambientalismo na mídia: da sustentabilidade pontual ao consumismo geral, fazem um acompa- nhamento sistemático da programação da TV (particularmente da Rede Glo- bo), observando contradições da racionalidade discursiva que trata da questão sócio-ambiental, na medida em que apela para a educação ambiental e a sustentabilidade de maneira pontual, ao tempo em que pulveriza o tema numa programação extremamente marcada pelo consumismo e pela degradação só- cio-ambiental. No artigo Valores culturais como estruturantes do desenvolvimento local sustentável, as autoras Maria José Marita Palmeira e Solange de Oliveira Gui- marães consideram a perspectiva da multidimensionalidade como fundamental para a compreensão do processo de desenvolvimento local e sustentável, pro- curando ir além das dimensões geoambiental, econômica e política, para pôr em evidência a realidade local dos atores sociais, seus valores culturais e histó- ria. Por sua vez, o trabalho de Paulo Ricardo da Rocha Araújo, Cenários e agentes da educação ambiental: uma análise das condições macro-estruturais254 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 253.256, jul./dez. 2002
  13. 13. e a prática educativa escolar, aborda indicadores de insustentabilidade do mo- delo de desenvolvimento hegemônico para chegar a novos espaços de relação entre o homem e natureza, na perspectiva dos seus ‘entornos eco-sócio- territoriais’, também aprendidos nos contextos educativos relativos à ecologia e à educação ambiental. O campo da educação é re-visitado, numa abrangente abordagem, por Ernâni Lampert, em Educação: visão panorâmica mundial e perspectivas para a Amé- rica Latina, com base no Fórum Mundial sobre a Educação – Dacar/Senegal (2000), considerando os desafios da educação na África subsaariana, países da Ásia e Pacífico, Estados Árabes, nos países mais povoados do mundo, América do Norte e Europa, e países da América Latina e Caribe, para visualizar a América Latina dentro do quadro mundial e as perspectivas da educação no século XXI. A situação na qual se encontra a educação e os desafios colocados pelas problemáticas do desenvolvimento atingem, por sua vez, os trabalhadores e, nessa linha, o artigo de Emília Maria da Trindade Prestes – Políticas de educa- ção do trabalhador brasileiro como política de desenvolvimento – examina as novas políticas de educação do trabalho implantadas pelo Estado Brasileiro, através do Plano Nacional de Educação Profissional - PLANFOR, interrogan- do sobre seus alcances quanto às melhorias das condições de vida e de trabalho da População Economicamente Ativa - PEA, ou seja, sobre a sua capacidade de reduzir condições de pobreza e exclusão dos trabalhadores de baixa escola- ridade ou com problemas de trabalho e contribuir na promoção do desenvolvi- mento e da sustentabilidade local. Lanara Guimarães de Souza, em Desenvolvimento local sustentável em po- líticas públicas educacionais de municipalização, discute aspectos do processo de municipalização da educação na perspectiva do desenvolvimento local sus- tentável, mostrando a importância da descentralização política e administrati- va – no e pelo município – fomentando a ação participativa da sociedade local. Dentre as renovações conceituais ou terminológicas introduzidas pelo deba- te contemporâneo, insere-se o ensaio de Alfredo Eurico Rodríguez Matta, intitulado Transurbanidades e ambientes colaborativos em rede de computado- res, que trata das comunidades de práxis, de aprendizagem, de convivência e outras, expressões alternativas da clássica urbanidade física e geográfica, exem- plos de organizações e espaços de convivência paralelos e em rede que facili- tam entendimentos, experiências e participações em problemáticas muitas ve- zes distantes do processo urbano local. Também transitando pelas novas articulações temáticas e delas exigindo o re-pensar sobre a atualidade, Gregório Benfica, em O museu e o turismo: a ação educativa para o desenvolvimento sustentável, analisa a evolução do mu-Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 253.256, jul./dez. 2002 255
  14. 14. seu e do turismo, indicando que a integração de ambos pode promover sustentabilidade, referenciando exemplos de regiões onde a participação da co- munidade foi possibilitada pela ação educativa de museus, criando condições para o desenvolvimento sustentável do turismo nessas mesmas comunidades. A Seção Estudos reúne um conjunto de cinco trabalhos abordando temas diversos: A linguagem verbal e suas relações de poder: a interação lingüística como construto de resistência, de Jane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios, em que a autora apresenta reflexões pedagógicas sobre a linguagem verbal como formas sutis de poder que circulam na sala de aula; Raça, gênero e educação superior, em que Delcele Mascarenhas Queiroz trata das desigualdades entre os segmentos raciais e de gênero no sistema educacional; Ambientes virtuais de aprendizagem: por autorias livres, plurais e gratuitas, de Edméa Oliveira dos Santos, mostra possibilidades concretas de criação e gestão AVA que utilizam recursos gratuitos do próprio ciberespaço; Jogos eletrônicos e violência: des- vendando o imaginário dos screenagers, em que Lynn Rosalina Gama Alves discute a interação dos adolescentes com os jogos eletrônicos considerados vi- olentos; e Educação e virtude na República de Platão, de Roberto Evangelista, em que o autor estabelece o valor ontológico da educação na constituição do próprio ser do homem em sua existência estética, ética e política. Na última seção, Gey Espinheira apresenta uma resenha sobre o livro de Yara Dulce Bandeira de Ataide, Clamor do presente: história oral de famílias em busca da cidadania, tratando de uma população desafortunada que fala de seus sofrimentos, desilusões, desejos e perspectivas de vida.256 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 253.256, jul./dez. 2002
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  17. 17. Edvalter Souza Santos EDUCAÇÃO E SUSTENTABILIDADE Edvalter Souza Santos* RESUMO No passado, o Homem enfrentou dificuldades para produzir seu sustento e proteção. Com o progresso tecnológico, aperfeiçoou suas armas, instrumentos e processos, “venceu” os obstáculos e “inimigos” que a “Natureza” lhe opunha e anunciou o advento de um homem “civilizado” e feliz. Mas a organização social e os estilos de vida impostos pela “civilização” – agravados pelos aspec- tos predatórios do modo de produção capitalista - geraram variadas formas de mal-estar moderno ao manterem o princípio do homo hominis lupus, de explo- ração e violência dos dominadores sobre os dominados. A injusta apropriação do saber e dos recursos pelos primeiros explica o “fracasso da modernidade” – que não é “culpa” da ciência, da razão, ou da “modernidade”, apontadas em certos discursos como vilãs de todas as crises. Também, se pareceu “dominar” a natureza, o homem civilizado recebeu, como “resposta” ou “revanche”, a ameaça do esgotamento dos recursos ambientais indispensáveis à vida: a crise ecológica, ou “questão ambiental”. A educação se insere na gênese do proble- ma, mas também nas esperanças de solução. Quanto aos anúncios da “morte do Planeta” ou “extinção da vida”, são ameaças que se dirigem tão só e direta- mente à vida humana. Vida que (tanto!) nos interessa preservar. Palavras-chave: Crise ecológica – Questão ambiental – Meio-ambiente – Sustentabilidade – Desenvolvimento sustentável – Educação ambiental – Edu- cação para a cidadania. ABSTRACT EDUCATION AND SUSTAINABILITY In the past, Man faced difficulties to produce their nurture and protection. With the technological progress, they have perfected their guns, instruments and pro- cesses, have “overcome” the obstacles and “enemies” that “Nature” proposed and have announced the advent of a “civilized” and happy man. However the social organization and the life styles imposed by “civilization” – aggravated by the predatory aspects of the capitalist mode of production – have generated various forms of modern discomfort when maintaining the principle of the homo hominis lupus, of exploitation and violence of the dominators over the domi- nated. The unfair appropriation of knowledge and of resources by the first ex-* Professor Titular da UCSAL - Universidade Católica de Salvador. Mestre em Planejamento Urbano eRegional pelo IPPUR/UFRJ – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional/UniversidadeFederal do Rio de Janeiro. Doutorando em Planejamento Urbano e Regional, IPPUR/UFRJ. Endereçopara correspondência: Rua Piauí, 312 ap. 602, Pituba – 41.830-270. Salvador/BA. E-mail:edvaltersantos@ig.com.br.Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002 259
  18. 18. Educação e Sustentabilidade plains the “failure of modernity” – which is not “responsibility” of science, reason, or “modernity”, indicated in certain speeches as responsible for all cri- sis. Also, if they seemed to “dominate” nature, civilized men have received, in “return” or as “return match”, the threaten of depletion of the environmental resources necessary to life: the ecological crisis, or “environmental matter”. Education is inserted in the genesis of the problem, but also in the hope for solution. As for the advertising of the “death of the planet” or “extinction of life”, these are threats directed to the human life only. The life we want (so much!) to preserve. Key words: Ecological crisis – Environmental Matter – Environment – Sustainability – Sustainable development – Environmental education – Educa- tion for citizenship.INTRODUÇÃO Se hoje for um dia comum no planeta Terra, dal de problemas. O modo capitalista de produ- os seres humanos irão adicionar quinze mi- ção engendrado pela civilização cristã ociden- lhões de toneladas de carbono na atmosfera, tal européia conduziu – e inexoravelmente con- destruirão cento e quinze mil metros quadra- duz – ao agravamento da pobreza, da poluição dos de floresta tropical, criarão setenta e dois ambiental, da corrupção e da guerra. mil metros quadrados de deserto, elimina- Na segunda metade do século XX, o homem rão entre quarenta a cinqüenta espécies, cau- deu-se conta de um “novo” e grave problema. sarão a erosão de setenta e um milhões de O estilo “capitalista” de vida – consumista, vo- toneladas de solo, adicionarão duzentos e raz de recursos –, enquanto pareceu “dominar” setenta toneladas de CFC à estratosfera e au- a natureza recebeu, como “resposta” desta, a mentarão sua população em duzentos e ses- ameaça de esgotamento dos recursos ambientais senta e três mil pessoas. (ORR, 1992, p. 3)1. indispensáveis à vida humana. Ante a Admite-se que o ser humano enfrentou, num “revanche” da natureza agredida, pergunta-se:passado remoto, dificuldades para produzir seu o que vem a ser a crise ecológica? Como foisustento e proteção, dispondo de poucas e rudi- produzida? Que ameaças aporta? O tema acio-mentares armas e instrumentos. Essas carênci- na expressivas categorias como ecologia eas foram supridas pela via do progresso técnico ecossistemas, ambientalismo e meio-ambiente,que permitiu o aperfeiçoamento das armas, ins- desenvolvimento sustentável e justiça ambiental,trumentos e práticas, facilitando a produção dasubsistência e da proteção, e o aumento do ta-manho e da complexidade dos grupos. Tendo 1 A tradução desta – e de qualquer outra citação, neste“vencido” os obstáculos e “inimigos” que a texto – é da responsabilidade do autor do presente artigo. 2“Natureza” lhe opunha, o Homem2 pôde divi- Neste trabalho utiliza-se o substantivo Homem no sen- tido da espécie, do homo sapiens sapiens.sar o advento de uma vida “civilizada” e feliz. 3 Não se pode definir/delimitar uma “civilização”. Des-Não foi o que aconteceu. Prevaleceu o princí- taca-se, aqui, a civilização cristã ocidental, uma forma-pio – e a prática – do homo hominis lupus, do ção histórico-cultural que se consolidou em solo europeuque resultou e resulta para o homem “mais fra- a partir do Império Romano, girando em torno de valoresco” as variadas formas de exploração e de vio- cristãos difundidos pela Igreja e de valores e tradições herdados dos romanos (e, ainda, dos gregos antigos), en-lência impostas pelo “mais forte”. A organiza- gendrou os fenômenos do Renascimento, do Iluminismoção social e os estilos de vida impostos pela e por fim da chamada “modernidade” e logrou irradiar-“civilização”3 produziram e produzem um cau- se amplamente pelos demais continentes.260 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002
  19. 19. Edvalter Souza Santosbalanço energético e “sociedade de risco”, den- explicativo da evolução biológica dos seres vi-tre outras. A crise ancora-se num sistema de vos, a ênfase no efeito das condições externascrenças e num conjunto de práticas que deri- de vida sobre populações de organismos comovam daquelas e/ou, retroativamente, as consti- determinantes para o surgimento de novas es-tuem. Como se formaram essas crenças e práti- pécies (DARWIN, 1859) veio contrariar as te-cas, historicamente? O que lhes garante trans- ses que atribuíam esta evolução amissão e continuidade? De onde retiram legiti- potencialidades pré-existentes em espécies an-midade para manterem-se ativas? teriores. As teorias pré-formacionistas e As respostas poderiam explicar, em parte, a epigenéticas marcaram a história da embriologiagênesis do problema e apontar soluções. Quais e, já no século XX, embasaram o debate sobredestas crenças devem ser descontinuadas e que os papéis da “natureza” versus “educação” naoutras postas no lugar? Que práticas e tradi- formação dos atributos individuais humanos. Ações devemos descontinuar (e em favor de que teoria genética moderna fortaleceu o ponto deoutras)? Que papel, se algum, terá tido a edu- vista dos adeptos da hereditariedade, comocação na instauração da crise? Que papel pode- Francis Galton, Karl Pearson e outros, e o de-rá ter como auxiliar da eventual solução? bate resvalou para movimentos racistas e Divergimos dos discursos que demonizam a eugênicos, com desdobramentos genocidas.ciência, a razão, ou a “modernidade”, Franz Boas, G. H. Mead, R. H. Lowie e A. L.indigitadas vilãs da crise ecológica e demais Kroeber, na antropologia cultural; W. B.formas modernas de mal-estar. O “fracasso da Watsone, os behavioristas, na psicologia; e Johnmodernidade” explica-se pela visão de que “a Dewey, no campo filosófico, combateram o ra-história de todas as sociedades (...) tem sido a cismo e defenderam a supremacia do culturalhistória das lutas de classes” (MARX; sobre o biológico, no desenvolvimento humanoENGELS, 2000, p. 75), das lutas entre opres- (OUTHWAITE et al., 1996).sores e oprimidos, quaisquer que sejam uns e Em 1945, a construção da bomba atômica eoutros em cada formação histórica. A causa dos sua cruel utilização contra as populações civisproblemas sociais é a injusta apropriação/ex- de Hiroshima e Nagasaki despertaram os pen-propriação – pelos dominantes e exploradores sadores para o risco de destruição da biosfera– do saber e dos recursos em geral, e não uma pelo homem. Nos anos 60, o movimentohipotética “falência da razão” (ou da ciência). ambientalista4 ganhou contornos românticos noQuanto aos receios ambientalistas sobre a “mor- movimento hippie, enquanto a ecologia, comote do planeta” ou “extinção da vida”, convém ciência, adentrou as pautas do pensamento po-ter presente que a ameaça de extinção dirige-se, lítico e social. O movimento cresceu, diversifi-direta e tão somente, à vida humana. Mas é jus- cou-se, e tomou a forma de partidos políticosto esta... que tanto nos interessa preservar! “verdes” ou alas ambientalistas de outros parti- dos; ou de movimentos sociais e ONG’s, que1. AMBIENTALISMO E CRISE ECOLÓ- lutam por objetivos amplos (leis, regulamentos)GICA em setores como agricultura, alimentação, ener- gia, ou mais restritos e localizados. Esses mo- O ambientalismo, em sentido amplo, pode vimentos têm encontrado apoio pela repercus-ter suas origens remontadas ao século XIX, são de seguidos desastres ambientais, como osquando foi denunciada a degradação ambiental acidentes com os reatores nucleares de Three-das áreas residenciais da classe operária e asligações entre poluição ambiental, pobreza efalta de saúde, e pugnou-se por soluções 4ambientalmente informadas para a arquitetura Entre os livros de época, cf. Silent spring (RACHEL CARSON, 1962) e The population bomb (H. J.e para o planejamento urbano. No plano EHRLICH, 1968).Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002 261
  20. 20. Educação e SustentabilidadeMiles Island e Chernobyl, e o vazamento de óleo “melhorar” o ambiente pode, no fim, prejudicardo petroleiro Exxon-Valdez. Estudos recentes os ecossistemas. Ele remete às propostas de con-concluem que a degradação ambiental ameaça servação e de gestão do ambiente e alerta con-a saúde e a segurança das pessoas, como efei- tra a idéia de gestores globais. Pela quarta “lei”tos dos buracos de ozônio e de mudanças cli- (emprestada da economia, em que cada coisamáticas antropogênicas, e que a degradação tem um preço), em ecologia, cada coisa ou pro-decorre, sobretudo, das atividades humanas li- cesso tem um “custo”, pois energia e matériagadas à industrialização (OUTHWAITE et al., são usados e transformados em todo processo1996; DALBY, 1997). ecossistêmico. Um ecossistema é um complexo formado porEcologia e Ecossistemas uma comunidade biótica e seu ambiente, que permanecerá num suposto estado de equilíbrio, Barry Commoner (1971) condensou em lin- se não perturbado. As populações das diversasguagem simples, para consumo popular, qua- espécies flutuam no ecossistema, a depender dotro “leis básicas da ecologia”, na forma de clima, do processo sucessório das plantas e dasprincípios super-simplificados, mesmo assim relações predador/presa, dentro da capacidadeúteis para uma abordagem inicial e didática de carga. Perturbações, humanas ou não, aba-dos temas complexos da ecologia: lam o (suposto) equilíbrio dos ecossistemas e, 1) “Everything is connected to everything em muitos, casos os destroem. Tendências deelse” [Cada coisa está conectada a cada outra] longo prazo indicam que sistemas estáveis não 2) “Everything must go somewhere” [Cada são tão comuns como antes se pensava.coisa vai para algum lugar] Boas práticas de gerenciamento de recursos 3) “Nature knows best” [A natureza sabe devem, em teoria, permitir a colheita de biotasmelhor] com um rendimento sustentável, desde que não 4) “There is no such thing as a free lunch” se exceda a capacidade de carga. Mas, se se[Não existe nada tipo “almoço grátis”] entendem os ecossistemas como sistemas mais O primeiro princípio aborda a variáveis e menos previsíveis, que são abertos einterconectividade e a impossibilidade de isola- não fechados e, por isso, vulneráveis a interaçõesmento completo de qualquer sujeito, ou proces- em maior escala, suposições harmoniosas deso, no planeta, e combate todas as formas de estados de equilíbrio não são premissas apro-pensamento isolacionista. Nós não estamos na priadas para o gerenciamento de recursos. ATerra, nós somos a Terra. Não é útil pensar- falta de previsibilidade e a multiplicidade demos como se estivéssemos separados da natu- fatores operantes sugerem a necessidade de sereza, ou sobre o planeta. Nós somos uma ques- incorporar mais complexidade ao lidar comtão de natureza e uma questão de civilização, e fecundidade natural. A assertiva “a naturezaa civilização faz coisas à natureza no processo sabe melhor” não deverá ser interpretada node fazer coisas a si mesma e, como espécie, te- sentido de que os ecossistemas perturbados po-mos a capacidade de mudar a ecologia do pla- dem se recompor naturalmente. Perturbaçõesneta.. Pelo segundo princípio, não existem “so- por ação humana são às vezes tão extensas quebras”, todos os produtos dos processos biológi- abalam as possibilidades de “deixar a naturezacos vão para “algum lugar”, eles não “vão-se recompor-se sozinha”. As drásticas perturbaçõesembora” simplesmente. É crucial entender que da ecologia pelo sistema colonial europeu dolixo não se “joga fora”, pois todo lixo vai ser último milênio sugerem que suposições simplesdepositado em algum lugar e, no novo lugar, de recuperação espontânea da natureza são im-pode gerar problemas. Pelo terceiro princípio, possíveis. Entretanto, verifica-se a necessidadeo conhecimento humano dos processos ecológi- preliminar de se decidir que tipo de naturezacos é sempre incompleto, e toda tentativa de “nós” desejamos – o que deve ser conservado, e262 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002
  21. 21. Edvalter Souza Santoso que deve ser gerenciado, e para produzir que ampliar os investimentos em educação, para oefeito (DALBY, 1997)5. aumento das competências e do “capital inte- lectual” (BANCO MUNDIAL, 2002)6.Dimensões demográfica e urbana dacrise Dimensão sócio-econômica da crise ambiental A população global, hoje estimada em 6,1bilhões de habitantes, deverá crescer em 2 bi- Ao destacarem o risco do esgotamento daslhões de pessoas nos próximos 30 anos, e em reservas de insumos não renováveis que o mo-outro bilhão nos 20 anos subseqüentes. O acrés- delo produtivista - o modo capitalista de pro-cimo se dará quase totalmente no mundo em dução - implica, alguns estudos clamam por al-desenvolvimento (BANCO MUNDIAL, 2002). terações que garantam sustentação do modelo Prevê-se que, em torno de 2050, 80% - ou no longo prazo; além de denunciarem os riscosmais - das pessoas viverão em aldeias e cida- para a sobrevivência humana decorrentes dosdes. A urbanização criará oportunidades para a impactos ambientais das atividades econômicasreversão da expansão da agricultura em e sociais. O movimento ecológico aponta fortesecossistemas terrestres mas fará aumentar a relações entre ambiente e atividade econômica,pressão sobre a água potável. Os investimen- entendendo esta última como um sistema comtos em infra-estrutura irão afetar o uso da terra fortes interações com o “ambiente” e o cresci-e de energia, e a qualidade de vida dos habitan- mento da economia como um fator que está ab-tes, urbanos ou não. A partir de 2025, com ¾ sorvendo sempre mais da produção biosféricada população mundial vivendo próximo do lito- primária. Então, seus limites e suas perturba-ral – a 100 quilômetros do mar, ou menos – ções tornam-se muito claros (DALBY, 1997;crescerá muito a pressão sobre os ecossistemas SANTOS & HAMILTON, 2000; ACSELRAD,costeiros (BANCO MUNDIAL, 2002). 1999). Lembrando que se aponta um nexo específi- O pensamento moderno alicerçou o modeloco entre pobreza e degradação ambiental; que técnico-industrial que sustenta a separação ho-há nos países pobres cerca de 2,8 bilhões de mem-natureza e considera a natureza como umapessoas ganhando menos de 2 dólares por dia fonte inesgotável de recursos para dar suporte à(1,2 bilhão, abaixo de US$1 ) e que os gover- acumulação de riqueza da sociedade. A Revo-nos desses países enfrentam difíceis problemas lução Industrial agravou a hegemonia da pro-para a geração e distribuição de renda e redu- dução em detrimento da conservação e ação da pobreza, pode-se prever o aumento dos hegemonia humana sobre a natureza. O mito doproblemas ambientais. Em termos globais, pre- desenvolvimento fortaleceu a certeza de suces-vê-se o crescimento da renda nos próximos 50 so irrestrito da capacidade humana de produziranos à taxa média de 3% ao ano, devendo qua- e ocultou a barbárie do processo.druplicar o produto interno bruto (PIB) mundi- Ao tempo em que “dominava” a natureza, oal no período, expandir o consumo e pressio- Homem dominava o Outro, transformando-o emnar os recursos naturais. A inovação científica coisa. Isto é, alguns poucos homens domina-e tecnológica pode contribuir para a transfor- vam outros tantos..., conferindo à civilizaçãomação sócio-econômica e para a melhoria daqualidade de vida, ao acelerar a gestação e o 5 Para uma bibliografia mais extensa sobre os temas des-aprendizado de processos para melhorar a saú- te tópico, consultar as referências do artigo de Dalby e ode e a produtividade dos povos, o acesso distri- verbete ambientalismo na obra de Outhwaite.buído aos bens e serviços e à informação, a re- 6 Após 2050 a população mundial deverá estabilizar-sedução da exclusão social e o acesso aos proces- entre 9 e 10 bilhões de pessoas e, praticamente, deixará de crescer. Os governos deixarão de lidar com o proble-sos decisórios, e para mitigar mudanças climá- ma do crescimento populacional (BANCO MUNDIAL,ticas e a degradação ambiental. Para tanto, urge 2002).Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002 263
  22. 22. Educação e Sustentabilidadeum caráter excludente e destruidor, com pobre- (Eco-92, Rio de Janeiro) produziu o protocoloza, desigualdades e degradação ambiental, ma- conhecido como Agenda 21. Em 1993, foi a vezles que a globalização econômica e cultural da Declaração de Kyoto7, internacionalmentemundializou. Na prática, será sempre necessá- ainda não validada, sobretudo pela recusa dorio enfrentar os conflitos advindos da diversi- Governo Bush (EUA) em subscrevê-la. Anun-dade dos atores sociais - indivíduos e grupos - e ciam-se as próximas adesões da Rússia e dode seus interesses, sendo ingênuo esperar por Canadá, o que legitimaria este protocolo. Emum ser humano “ideal” que se relacione 2002, teve lugar em Johannesburgo, África doharmonicamente com uma natureza genérica. Sul, a “Conferência Rio+10”.Trata-se da milenar “luta de classes”, redefinida. A Agenda 21, da qual são signatários o Bra-O problema não reside, porém, na diversidade sil e outros 176 países, preconiza ahumana e sim no agravamento social das desi- implementação de políticas públicas compatí-gualdades (GRÜN, 2002; VAN PARIJS, 1997). veis com os princípios do desenvolvimento sus- Elmar Altvater (1995) apresenta e fundamen- tentável, através de projetos adaptados nacio-ta a tese da contradição insolúvel entre o mode- nalmente e financiados pelo Programa das Na-lo de desenvolvimento capitalista vigente e a ções Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).preservação dos recursos naturais e das fontes O Brasil criou um Ministério do Meio Ambien-energéticas desse modelo. Eficácia ecológica te e selecionou seis áreas temáticas para a açãocom justiça distributiva e eficiência econômica sócio-ambiental, a saber: Infra-Estrutura ecom base na alta produtividade do trabalho se- Integração Regional; Cidades Sustentáveis;ria de fato a “quadratura do círculo”. Entretan- Agricultura Sustentável; Gestão dos Recursosto, esta é impossível, não só de um ponto de Naturais; Redução das Desigualdades Sociais;vista matemático, mas também ecológico e eco- e Ciência e Tecnologia e Desenvolvimento Sus-nômico. “O sonho de um capitalismo ecológico tentávelproduz monstruosidades” (ALTVATER, 1995,p. 281). O autor refuta a economicização da 2. SUSTENTABILIDADE E DESEN-ecologia, afirmando que ecologia é política. A VOLVIMENTO SUSTENTÁVELcomunicação ecológica não pode confiar noscódigos econômicos, e o que está na ordem do A noção de desenvolvimento desdobra-se,dia não é a economicização da ecologia e, sim, analiticamente, em desenvolvimento econômi-a ecologização da economia e a politização de co e desenvolvimento social. A melhoria do es-ambas (ALTVATER, op.cit.). tágio econômico de uma comunidade – cresci-Os protocolos internacionais mento econômico – requer a elevação do rendi- mento dos fatores de produção: recursos natu- A Primeira Conferência das Nações Unidas rais, capital e trabalho (SANTOS & HAMIL-sobre o Meio-Ambiente, Estocolmo, 1972, trou- TON, 2000). Mas o progresso social implicaxe oficialmente à cena o tema da sobrevivência “a satisfação de necessidades básicas, tais comoda humanidade. Relatórios têm também sido nutrição, saúde e habitação ... e outras, comoapresentados desde então pelo Clube de Roma. acesso universal à educação, liberdades civis eEm 1983, a Assembléia Geral da ONU criou a participação política” (OUTHWAITE et al.,Comissão Mundial para o Meio-Ambiente e 1996).Desenvolvimento, presidida por Gro Harlem Durante séculos, o acesso aos recursos na-Brundtland, que preparou o “Relatório turais – terra e minerais – era considerado umBrundtland” e cunhou as expressões “desenvol-vimento sustentado” e “nova ordem mundial”.Em 1992, a Conferência das Nações Unidas 7 Kyoto Declaration on Sustainable Development of thesobre o Meio-Ambiente e Desenvolvimento International Association of Universities (IAU), 1993.264 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002
  23. 23. Edvalter Souza Santospré-requisito do desenvolvimento. As Américas contram quatro elementos chave: (a) a índolee parte da África e da Ásia foram colonizadas grave e urgente do problema; (b) o alcancecom vistas à apropriação desses recursos pelos interdisciplinar e transdisciplinar das possíveiscolonizadores, através de guerras coloniais e soluções; (c) a escala internacional de seus efei-imperialistas8. Após as revoluções industriais, tos; e (d) os imperativos éticos deo capital físico – máquinas e equipamentos – autoconhecimento, moderação, equidade e jus-tornou-se a base da acumulação da riqueza e, tiça. Como conseqüência de seu caráter“industrializado”, tornou-se sinônimo de “de- multidimensional, o desenvolvimento sustentá-senvolvido”. No pós-guerra, o fator tecnologia vel tem sido definido e caracterizado de manei-- conhecimentos e idéias – e o “capital huma- ras diversas. Pelo Princípio 1 da Declaração deno” valorizaram-se e atraíram os investimen- Estocolmo,tos. Durante os “anos de ouro” (1945-1973), a O homem tem o direito fundamental à liberda-economia do “primeiro mundo” cresceu a altas de, à igualdade e ao desfrute de condições detaxas anuais, o desenvolvimento foi visto como vida adequadas em um meio de qualidade talum problema dos “países subdesenvolvidos” e que lhe permita levar uma vida digna e gozaracalentou-se a idéia de que o desenvolvimento de bem-estar, e tem a solene obrigação de prote-econômico era possível para todos os povos do ger e melhorar o meio para as gerações presen-mundo, mediante a correta aplicação da técnica tes e futuras (DOCUMENTO 1, 2003).e a melhoria da eficiência, esperando-se, comosubprodutos, a melhoria geral da qualidade de Outrossim, os Princípios 1 e 3 da Declara-vida e das condições políticas. O último quartel ção do Rio de Janeiro sobre o Meio Ambientede século veio abalar estas certezas, ao deixar estatuíram que:claro que o desenvolvimento nem era ubíquo nem Os seres humanos constituem o centro das pre-conduzia automaticamente à eqüidade (BAN- ocupações relacionadas com o desenvolvimentoCO MUNDIAL, 1997; OUTHWAITE et al., sustentável. Têm direito a uma vida saudável e1996)9. produtiva em harmonia com a natureza (...). O A aurora do século XXI deixa perplexos os direito ao desenvolvimento deve exercer-se embrasileiros que se debruçam sobre a temática forma tal que responda eqüitativamente às ne-do desenvolvimento nacional, pois o aumento cessidades de desenvolvimento e ambientais das gerações presentes e futuras (DOCUMENTO 2,da dívida externa, o déficit comercial crônico, 2003).as altas taxas de juros, o “desajuste estrutural”criado pela conjugação da abertura comercial Estas formulações reconhecem os direitoscom a sobrevalorização cambial, a perda de humanos como uma meta fundamental e a pro-solidariedade federativa e a concentração de teção ambiental como um meio essencial derenda e riqueza, ameaçam o governo de perdade legitimidade ética e, junto com a retraçãoeconômica dos países centrais e as políticas pro- 8 A pilhagem – antiga e atual - dos demais continentestecionistas dos que nos exigem a prática do li- pelas potências da Europa e pelos EUA explica em partevre comércio sem se obrigarem a tanto (EUA, a riqueza destas áreas do mundo. Também desautorizaUE), parecem fechar pouco a pouco todos os qualquer tentativa ingênua de o Brasil tomar como mo- delo de crescimento qualquer daqueles países – já quecaminhos pelos quais poderíamos pretender ven- não pudemos nem poderemos pilhar país outro nenhum.cer a condição de subdesenvolvidos (FIORI, 9 Após os ‘choques do petróleo’, a crise econômica atin-2001). giu também – ainda que em menor grau – os países ricos. A doutrina neoliberal e o Consenso de Washington, a partirDesenvolvimento Sustentável e da década de 70, imputaram ao Estado de Bem-Estar a“sustentabilidade” ‘culpa’ pela crise e preconizaram a redução do Estado e o retorno à lógica soberana do mercado como remédio uni- No centro dos esforços por compreender e versal anti-crise. A recente débacle da Argentina (e ou-promover o desenvolvimento sustentável se en- tros casos) pôs a nu a falácia do pensamento neoliberal.Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002 265
  24. 24. Educação e Sustentabilidadealcançar as “condições adequadas” para “levar junto de atividades. É um campo de luta entreuma vida digna e gozar de bem-estar”. Elas vin- todos que pretendem, uns alterar, outros refor-culam claramente os direitos humanos à prote- çar, a distribuição de legitimidade e de poderção ambiental, uma vez que a saúde e a existên- sobre mercados e sobre mecanismos de acessocia humanas, protegidas juridicamente como o a recursos do meio material – apresentando-sedireito à saúde e o direito à vida, dependem das como portadores da nova eficiência ampliada,condições ambientais. O conceito de desenvol- a da utilização “sustentável” dos recursos. Mar-vimento sustentado foi apresentado pelo Rela- ca a disputa entre alternativas técnicas supos-tório Brundtland da seguinte maneira: tamente mais econômicas quanto aos níveis de uso/perturbação de ecossistemas e traz para a (...) é o desenvolvimento que satisfaz as neces- agenda pública sentidos extra-econômicos que sidades da geração presente sem comprometer acionam categorias como justiça, democratiza- a capacidade das gerações futuras de satisfaze- ção e diversidade cultural (DALBY, 1997; SAN- rem suas próprias necessidades, e (...) o pro- TOS & HAMILTON, 2000; OUTHWAITE et cesso de câmbio no qual a exploração dos re- al., 1996). cursos, a orientação da evolução tecnológica e Entre as matrizes discursivas formadas em a modificação das instituições estão acordes e torno do assunto, destacam-se a da eficiência, acrescentam o potencial atual e futuro para sa- que pretende combater o desperdício da base tisfazer as ne-cessidades e aspirações humanas material do desenvolvimento, estendendo a (BRUNDTLAND, 1991, p. 46 e ss.). racionalidade econômica ao espaço “não mer- A análise crítica da definição acima leva ao cantil” planetário; da escala, que propugna umquestionamento dos conceitos de desenvolvimen- limite quantitativo ao crescimento econômico eto, de necessidades e, por último, das limita- à pressão que ele exerce sobre os “recursosções imponíveis às gerações presentes em nome ambientais”; da eqüidade, que articula analiti-dos direitos das gerações futuras. As “necessi- camente princípios de justiça e ecologia; dadades” não são “naturais”, mas grandemente autosuficiência, que prega a desvinculação deditadas pela cultura. Por outro lado, não pode- economias nacionais e sociedades tradicionaisremos advogar uma eqüidade inter-geracional dos fluxos do mercado mundial, como estraté-se não formos capazes de praticar a eqüidade gia apropriada para assegurar a capacidade deintra-geracional, entre aqueles que estão vivos auto-regulação comunitária das condições deno presente. Desta forma, o desenvolvimento reprodução da base material; da ética, que ins-sustentável passa a ser aquele capaz de garantir creve a apropriação social do mundo materialqualidade de vida a todos, reduzindo as desi- em um debate entre os valores do Bem e do Mal,gualdades sociais (que se alimentam da segre- evidenciando as interações da base material dogação, da exclusão e dos grandes desníveis so- desenvolvimento com as condições de continui-ciais) e preservando a natureza, tanto em bene- dade da vida no planeta (ACSELRAD, 1999).fício dos viventes, quanto tendo em mira os vin- É através de suas relações sociais e de seusdouros, com a redução da poluição e a recusa à modos de apropriação do mundo material quedegradação e ao esgotamento dos recursos não- as sociedades produzem sua existência. Arenováveis (ACSELRAD, 1999). interface entre o mundo social e sua base mate- Estudos recentes tornaram cada vez mais rial se observa através das práticas sociais, queclaras as relações entre desenvolvimento indus- podem assumir formas técnicas, formas sociaistrial e poluição. A “sustentabilidade” passou a e formas culturais de apropriação do mundofazer parte dos debates sobre desenvolvimento, material (ALMEIDA NETO, 2000). As formascomo uma categoria inovadora que introduz técnicas incluem modos de uso, transformaçãofatores de diferenciação nas bases de legitimi- biofísica, extração, inserção e deslocamento dedade (a eficiência técnica convencional) do con- materiais. Por sua vez, as formas sociais são266 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002
  25. 25. Edvalter Souza Santosos processos de diferenciação social dos indiví- técnicas condicionadas por estruturas de poderduos a partir das estruturas desiguais de aces- vigentes, que procuram manter-se via dissemi-so, posse e controle de territórios ou de fontes, nação cultural de categorias de percepção quefluxos e estoques de recursos materiais. Tais fazem valer socialmente os critérios dominan-práticas são historicamente constituídas e con- tes de “eficiência”, “capacidade competitiva”,figuram lógicas distributivas das quais se nu- “níveis de produtividade”, etc. Tais critérios le-trem as dinâmicas de reprodução dos diferentes gitimam e reforçam a superioridade real e sim-tipos de sociedade baseadas na desigual distri- bólica dos dominantes. As correntesbuição de poder sobre os recursos. As formas desenvolvimentistas-economicistas pretendemculturais incluem as práticas e atividades de que o desenvolvimento sustentável seja simples-produção de significados, operações de signifi- mente uma questão de eficiência e de progressocação do mundo biofísico em que se constrói o tecnológico. Os otimistas tecnológicos que apói-mundo social. Mais do que epifenômenos das am esta corrente argumentam que o avanço daestruturas produtivas da sociedade, os fatos técnica será capaz de dar conta de todos os pro-culturais fazem parte do processo de constru- blemas ecológicos atuais ou futurosção do mundo, dando-lhe sentidos e (ACSELRAD, 2000). Para Wolfgang Sachs, oordenamentos, comandando atos e práticas di- simples aumento da eficiência não é capaz deversas a partir de categorias mentais, esquemas dar conta dos problemas criados: “según losde percepção e representações coletivas diferen- estándares en uso, sólo reduciendo en un 70 aciadas. 90% el uso de energía y la materia a utilizar Ora, depreende-se daí que as técnicas não durante los próximos cincuenta años se fariasão meras respostas às restrições do meio, nem justicia a la seriedad del sistema. Sólo undeterminações unilaterais das condições optimista muy audaz creería posible alcanzargeofisiográficas, mas estão integralmente con- esta meta con sólo mejorar la eficiencia. Ningunadicionadas pelas opções da sociedade e mode- revolución de la eficiencia bastará” (SACHS,los culturais prevalecentes. As sociedades alte- 1996).ram seu meio material não somente para satis- Assim, a “sustentabilidade” do desenvolvi-fazer carências e superar restrições materiais, mento somente pode ser considerada seriamen-mas sim para projetar no mundo diferentes sig- te se as preocupações se estenderem para alémnificados, como construir paisagens, democra- do desenvolvimento econômico puro e simples,tizar ou segregar espaços, padronizar ou diver- para incluir em seu bojo as questões relativas àsificar territórios sociais, etc. As diversas cate- eqüidade e à justiça social, além da preserva-gorias sociais - camponeses, capitais agro-ex- ção da natureza e prevenção dos riscos ecológi-portadores, capitais especulativos, empreendi- cos. Mas, sustentabilidade requer, ainda, legiti-mentos industriais, etc. - apresentam lógicas midade. Não se pode pretender sustentável umapróprias de apropriação do meio. As práticas sociedade cujos quadros dirigentes exercem otécnicas são referenciadas a contextos históri- poder a partir de alternativas ilegítimas, poiscos que condicionam os padrões/soluções aqueles a eles submetidos cedo ou tarde se re-tecnológicos, mas também as categorias de belarão, diante da insustentabilidade da ilegiti-percepção, julgamento e orientação que jus- midade dos próceres.tificam/legitimam tais práticas (ACSELRAD, Portanto, para muitas correntes de pensado-2000). res, nem o aumento da eficiência, nem o pro- Também a noção de eficiência – numa de- gresso da técnica justificam as propostas de re-terminada sociedade – não é absoluta, duzir os problemas ecológicos a simples “fa-transhistórica ou onivalente. Pode significar lhas de mercado” ou de tentar resolver as ques-economia de tempo de trabalho e/ou de materi- tões ambientais via mecanismos deste mesmoais. O padrão tecnológico resulta de escolhas mercado.Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002 267
  26. 26. Educação e SustentabilidadeDesenvolvimento Local Sustentável Abordaremos agora o papel da escola e da(DLS) educação na gênese da crise, bem como nas tentativas de sua superação, malgrado o apa- Altvater (1995), após dar por impossível a rente paradoxo de se pretender buscar na (su-ecologização global do capitalismo, sugere a posta) “causa” do problema os indicativos dapossibilidade dos atores regionais e sua solução. Mas, como agente privilegiado demicroeconômicos iniciarem práticas que se opo- socialização e fator relevante de consolidaçãonham à lógica do capitalismo macroeconômico. da sociedade e de suas práticas, a educação “de-E Henzel Henderson criou o conhecido lema: veria ser capaz de reorientar as premissas do“thinking globally and acting locally” – “pensar agir humano educando os cidadãos” (GRÜN,globalmente e agir localmente”. 2002, p.19). A aplicação dos conceitos de desenvolvimen- Educação é um conjunto de práticas que en-to sustentável no nível territorial local constitui volve educadores e educandos, do qual resultao “desenvolvimento local sustentável” (DLS), – ou deveria resultar – a formação do indivíduocuja especificidade consiste na ampliação de ‘educado’, isto é, portador de um repertório deiniciativas inovadoras e mobilizadoras da cole- saberes, de habilidades e de valores, e (supos-tividade, articulando as potencialidades locais. to) conscientemente mobilizado para um certoEntre nós, o recorte padrão - nem sempre ade- rol de práticas. A educação é o processo de trans-quado - é o território do município. Os gover- missão dos conteúdos educacionais e pode sernos do Acre e Amapá anunciam a aplicação do formal e não-formal. A parcela não-formal rea-DLS no âmbito estadual, conforme as publica- liza-se fora do circuito do sistema escolar e, podeções Amapá, um norte para o Brasil e Uma sus- provir dos Sistemas – Estado, empresas - ou dotentável revolução na floresta (AMAPÁ, 2000; Mundo da Vida11 - família, igreja, sindicatos,LEONELLI, 2000). movimentos sociais e outros agentes. Pode to- Em sua experiência de DLS em Canudos10, mar a forma de campanhas institucionais quea UNEB estabeleceu como metas: (a) partici- utilizam meios de comunicação de massa, e ou-pação social e organização comunitária, com tros, para incutir saberes, hábitos ou valores noelevação quantitativa e qualitativa do nível de público. A “educação do povo” busca valori-participação da população local, com garantias zar, difundir e manter ativas as crenças cívicasde continuidade; (b) descentralização progres- e as tradições, visando consolidar uma “culturasiva do processo decisório - envolvimento cons- nacional”. O presente artigo não se ocupará daciente dos cidadãos nas decisões de interesse co- educação não-formal, mas a reconhece comomunitário, antes concentradas no poder público indispensável em qualquer tentativa que viselocal; e (c) desenvolvimento institucional – instaurar nos corações e mentes os novos hábi-empowerment das organizações comunitárias, tos e valores requeridos por uma “consciênciacom apoio do governo municipal. É claro que ecológica” (GUIMARÃES, 2001; SEGURA,este projeto afronta a tradição de centralização 2001).das decisões nos prefeitos e suas forças de sus- A educação formal é ministrada pela escolatentação, mas sem tais mudanças não pode ha- (ou sistema nacional escolar), que é o locus e aver DLS (SANTOS & HAMILTON, 2000). instituição provedora desta forma de educação.3. ESCOLA E EDUCAÇÃO - na gê-nese e na saída da crise 10 O plano de DLS de Canudos foi elaborado pela UNEB - Pró-Reitoria de Pesquisa e Ensino, junto com o Centro de Estudos Euclides da Cunha , CEEC – e pela Prefeitu- (...) enfim, nós dispomos de princípios de es- ra Municipal de Canudos, em 1997. perança na desesperança. (Morin & Kern, “Ter- 11 Estamos usando Sistemas e Mundo da Vida no sentido ra-Pátria”). harbermasiano.268 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002
  27. 27. Edvalter Souza SantosA escola inclui a organização burocrática, as var o objeto e submetê-lo à experimentação.normas e legislação vigentes, os recursos mate- Separação, dualismo e isolamento estão na raizriais, os corpus funcionais – com sua hierar- da filosofia e da ciência legadas por Galileu,quia –, o currículo oficial. No Brasil, a educa- Bacon, Descartes e Newton (GRÜN, 2002).ção formal compõe-se dos níveis fundamental, O Humanismo renascentista desafiou a reli-médio e superior, ao que se somam a pesquisa e gião e iniciou o processo de laicização do mun-a extensão e a pós-graduação. A formação de do – na arte, na política, na filosofia, na ciên-professores constitui um momento especial neste cia. Valorizou o indivíduo e a liberdade. Gestousistema e deveria receber tratamento especial, a Reforma e derruiu o poder da Igreja e a auto-já que é deles que se espera a formação de cida- ridade do Papa. Deste caldo cultural vai surgin-dãos e de outros profissionais. do, aos poucos, o Estado-nação e uma nova clas- se social, a burguesia.Razão, ciência e educação na gênese O Homem é considerado capaz de transfor-da crise mar o curso dos acontecimentos. Para e por in- Numerosos discursos atribuem a crise eco- tervir no mundo e no curso dos eventos, modifi-lógica ao fato de “nossa civilização” ter se de- ca a noção de tempo e de espaço. O homemsenvolvido segundo uma concepção de “sepa- renascentista transforma o espaço (ou o concei-ração entre homem e natureza”, segundo a qual to de espaço), ao introduzir a perspectiva que,aquele se faz sujeito e fez desta objeto. Separa- para Da Vinci, “não é mais que um conheci-ção freqüentemente debitada à “ciência”, à “ra- mento perfeito da função do olho”. O espaçozão” ou à “modernidade”, também “culpadas” aristotélico, qualitativo (o “em cima” é diferen-pelas demais crises e outros males da atualida- te do “em baixo”) é tornado quantitativo, alturade. e largura são agora relações numéricas. Nas Grün (2002) destaca quatro tendências en- artes, o mundo passa a ser construído a partirtre as causas da crise ecológica: 1) crescimento de um ponto de vista privilegiado e único, o dopopulacional exponencial; 2) depleção da base Homem. Quanto ao tempo, que antes “perten-de recursos naturais; 3) sistemas produtivos que cia a Deus”, ou era o tempo da Natureza, vaiutilizam tecnologias poluentes e de baixa efici- agora ser contabilizado, mercantilizado, paraência energética; e 4) sistema de valores que que o comerciante possa vender a prazo e co-propiciam a expansão ilimitada do consumo brar juros. Deflagrado o processo dematerial. Para numerosos autores12, e por dife- quantificação do mundo, tempo, negócios e na-rentes abordagens, nossa civilização é insusten- tureza passam a andar juntos. “Tempo é dinhei-tável se mantidos os nossos atuais sistemas de ro”. Passa a se formar um sistema complexo devalores; e os seres humanos são a causa mesma inter-relações entre mercado, natureza e lógicada crise ecológica. temporal antropocêntrica. (GRÜN, 2002). Detecta-se um nexo causal entre a crise eco- A idéia aristotélica de natureza era de algológica e a ética antropocêntrica, a qual instituiu animado e vivo. A cultura européia vai propor ao Homem como centro de todas as coisas, su-bordinando tudo o mais unicamente a ele e a 12seus interesses. Esta ética é muito antiga na Grün apoia-se em Milbrath (1984); Touraine (1987); Hays (1987); McCormick (1989); Paehlke (1989); Nashcultura ocidental e tem raízes judaico-cristãs13. (1989); Caldwell (1990); Brown et al. (1990); e YoungNesta ética, o Homem se vê como senhor e (1990). Optamos por omitir as referências completas.dominador, separado da natureza – afinal, não 13 “Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e se-posso dominar algo do qual sou parte. O melhança, e que ele domine sobre os peixes do mar, asparadigma epistemológico que opõe sujeito e aves do céu (...) e todos os répteis que rastejam sobre a terra” (Gênesis 1:26). A frase é do primeiro livro do Ve-objeto no estudo da natureza exige que o sujeito lho Testamento da Bíblia, repositório da cultura hebraica.se isole, como condição para que possa obser- Pelo menos tão antiga seria a ética antropocêntrica.Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002 269
  28. 28. Educação e Sustentabilidadeidéia de uma natureza sem vida e mecânica. A do pela matemática – “a matemática universalnatureza de cores, tamanhos, sons, cheiros e estende-se a tudo o que comporta a ordem e atoques é substituída por um mundo “sem quali- medida” – Descartes busca a unidade do mun-dades”, sem lugar para a sensibilidade. Surge a do (do conhecimento do mundo) a partir da luzmetáfora da natureza como um relógio, um natural da razão. A razão é una, indivisível,mecanismo automático, criado por Deus. Kepler autônoma - é o sujeito. A natureza é o objeto,(1571-1630) estabeleceu como uma das suas subordinada, divisível, externa à razão e exter-metas mostrar que a máquina celestial está li- na ao Homem. O procedimento metodológicogada não a um organismo mas a um relógio. na ciência moderna mantém este corte, da sepa-Tratou-se, também, de um gesto político, para ração sujeito-objeto. Esta divisão penetrou pro-permitir à ciência estudar o mundo, o fundamente no espírito humano, segundo“conhecível”, sem ofensa a Deus e à Igreja. Heisenberg (1962). O cartesianismo e o cristia-(GRÜN, 2002, p. 28) nismo, juntos, lançaram as bases da ética Galileu (1564-1642) abandona a física antropocêntrica – homem separado e dominadoraristotélica e dá início à mudança paradigmática da natureza (GRÜN, 2002).do organicismo para o mecanicismo. Postula a Newton (1642-1727) aporta, em seu tempo,restrição do estudo científico às propriedades uma visão de mundo mecanicista e explicativo-essenciais, ou “primárias”, dos corpos materi- causal. A possibilidade de uma descrição mate-ais – formas, quantidade e movimento – com mática da natureza encanta a Europa. O pensa-abandono do estudo das propriedades “secun- mento newtoniano domina sua época e se tornadárias e terciárias”, da sensibilidade estética, dos a única maneira de fazer ciência. Kant identifi-valores e da ética. As propriedades primárias cou o objeto científico única e exclusivamenteexistem por si mesmas, independem da cognição com a física newtoniana, bloqueando a possibi-humana, diz ele. Matematiza a descrição da lidade de surgimento e progresso de qualquernatureza, privilegiando a quantificação. Ao cri- outro modo de pensar nos meios científicos daar o telescópio, amplia a visão do objeto, mas Europa. O pensamento não-mecanicista dereduz a “visão” do contexto. Ao se tornar um Schelling foi um dos expurgados.“observador científico”, Galileu se coloca “do A ética antropocêntrica penetra fundo nolado de fora” da natureza. Coetâneo de Galileu, âmbito educacional. Petrus Ramus (1515-1572)Francis Bacon (1561-1626) desenvolveu a ló- postulou a substituição da lógica aristotélica porgica indutiva e impulsionou o empirismo. Como outra, “mais realista” – implicando apoio aofilósofo e pensador utópico, defendeu um papel empiricismo. Johann Amos Comenius (1592-ativo para a ciência, na formação da cultura e 1670) adotou o empirismo de Bacon e trouxeno “progresso” humano. O Homem deveria ser para o âmbito da educação o projeto de Baconsenhor de seu destino e de todas as coisas do na ciência. “Pai” das metodologias chamadasmundo. Foi, assim, o defensor de um hoje de “ativas”, Comenius influenciou Dewey,antropocentrismo radical na ciência14. Montessori, Decroly, Ferrière (Manacorda, Mas, tendo rompido com as certezas do pas- 1989). A Royal Society, fundada em 1660 “parasado e com as verdades teológicas perenes, o promover a instrução experimental físico-ma-pensamento europeu encontra-se perdido e frag- temática”, adotou princípios semelhantes aos dementado. A necessidade de unidade vai ser pre- Comenius. O currículo clássico cede lugar a umenchida por Descartes (1596-1650). Começan- currículo “realista”, baconiano, com presença das “ciências”. A educação obrigatória tem iní- cio no Sec. XIX, como movimento das classes14 Mais uma vez optamos por poupar o leitor das referên- dirigentes – por necessidades do processo decias completas de Grün, que desta vez incluem industrialização – para garantir a ordem social,Oelschlaeger (1993); P. Rossi (1966); A. Koyré (1982);Rodis-Lewis (1977); Flickinger (1994). levar o povo a assimilar as instituições, separar270 Revista da FAEEBA - Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 18, p. 259-279, jul./dez. 2002

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