Vontade de mudar

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Escola pública em Mogi das Cruzes cria projetos que incentivam professores e melhoram habilidades dos alunos.
Reportagem divulgada na versão impressa da revista Carta na Fundamental 44, de dezembro 2012/janeiro 2013.

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Vontade de mudar

  1. 1. r e p o rtag e m Vontade de mudar Escola pública em Mogi das Cruzes cria projetos que incentivam professores e melhoram habilidades dos alunos Por Isabela Morais N uma rua de paralelepípedo em Mogi das Cruzes, região me­ tropolitana de São Paulo, Gio­ vana da Anunciação de Sou­ za inicia a aula de Matemática que preparou para sua turma de quinto ano da Escola Municipal Doutor Benedito La­ porte Vieira da Motta. Na sala abafada, os 30 alunos divididos em grupos discutem e dão risada. Não há lição na lousa e a pro­ fessora permanece em sua mesa. Eventual­ mente, ela interrompe algum aluno exaltado, mas os deixa conversarem. “E é sempre as­ sim?” “Sim, essa é nossa aula”, ela responde. O barulho se explica pelos tabuleiros, da­ dos e cartelas que fazem desta a aula de Ma­ temática mais aguardada da semana. Desde o início do ano letivo de 2012, professores e alunos criam, confeccionam e brincam com jogos em sala. E não é só isso. Outros dois projetos – um pedagógico e outro de leitura – têm motivado a equipe de docentes e me­ lhorado o desempenho das crianças. Localizada no distrito de Nova Jundia­ peba, periferia da cidade, a escola Benedito Laporte atende alunos do primeiro ao quin­ to ano. São cerca de 510 crianças de uma co­ munidade pobre e “itinerante”, nas palavras da coordenadora pedagógica Débora Soa­ res Alves Teixeira. Muitas famílias chegam, mas pouco tempo depois se mudam. O sa­ neamento básico precário e a violência são grandes problemas. As adversidades se re­ fletem no alto índice de abstenções. “Temos de ir atrás da família para tentar entender por que o aluno está faltando”, diz Débora. Apesar das dificuldades, a Benedito La­ porte é a escola que apresentou a maior evo­ A escola Benedito Laporte cresceu 40%, no Ideb, entre 2009 e 2011, com a implantação dos projetos, apesar de estar numa região pobre, violenta e com saneamento básico precário lução no Ideb em Mogi das Cruzes. De 2009 a 2011, o índice aumentou 40% e passou de 4.0 para 5.6, número superior à média do es­ tado de São Paulo, de 5.4. O crescimento é 30% superior à meta estabelecida para 2011. A mudança na escola traduzida em nú­ meros teve início em 2011. Nesse ano, Dé­ bora assumiu a coordenação pedagógica e implementou um projeto de reestrutura­ ção dos Planos de Ação, iniciativa que já se desenhava desde 2009, quando ainda era professora. A proposta era transformar os Planos de Ação, tidos como mera formali­ dade, em um documento de reflexão e au­ tocrítica, como uma espécie de diário do professor. Os primeiros passos foram difí­ ceis. “Havia aquela ideia de que o Plano de Ação era feito só para o coordenador ver. Fui mostrando que o documento pode até mesmo estar rascunhado a lápis, em uma folha qualquer. Ele precisa ser funcional e deve auxiliar o professor”, afirma. 56 carta fundamental ••CFReportagemMogi44.indd 56 27/11/12 18:11
  2. 2. f o t o s : I s a d o r a pa m p l o n a Hoje a prática é adotada por toda a equi­ pe. Os professores do primeiro ano traçam metas mensais em grupo e a cada semana registram, individualmente, os detalhes de suas aulas. Do segundo ao quinto ano, os objetivos são definidos em conjunto quinze­ nalmente. Os planos detalhados são feitos a cada semana. “Alguns usam o ­ o­ umento d c para desabafar e hoje já acrescentam até as fotos das atividades e comportamentos dos alunos que eles acham interessante. Isso faz do Plano de Ação um instrumento de tra­ balho significativo”, comenta. Cada docente tem sua pasta, onde guar­ dam as anotações feitas à mão. Débora lê e comenta todos os registros duas vezes ao mês. “Se vejo que a atividade está dando certo, valorizo e peço para que comparti­ lhem com os colegas nas reuniões.” Após a reestruturação dos Planos de Ação, a quali­ dade das aulas aumentou. Para atrair o interesse dos alunos para as aulas de Matemática, foi criado o projeto de jogos. A cada semestre, cada turma fi­ planos de ação Na aula de Matemática, alunos criam jogos, progresso é registrado por todos os professores em pastas próprias Saiba mais: Escola Municipal Doutor Benedito Laporte Vieira da Motta Telefone: (11) 4795-3244 ca responsável por elaborar, problematizar e confeccionar um desafio que contemple um dos quatro eixos da disciplina: núme­ ros e operações, espaço e forma, grandezas e medidas ou tratamento da informação. Neste semestre, a sala da professora Gio­ vana produziu os jogos Trilha do Tempo e Tentativa e Análise. No primeiro, o parti­ cipante joga um dado e avança o número de casas no tabuleiro. Cada casa conta com uma numeração, que equivale a um cartão com uma pergunta. O oponente a lê e o jo­ gador tem dez segundos para responder. Se ele errar, terá de cumprir a penalidade cor­ respondente. O jogo, que trabalha o senso de tempo, traz questões como: “Mil anos equivalem a quantos milênios?” Já o Tentativa e Análise trabalha com tratamento da informação e é jogado por duas pessoas. Um jogador anota uma se­ quência de quatro cores e a mantém em se­ gredo. Em um tabuleiro, dividido em du­ as colunas, o oponente tenta descobrir a sé­ rie colocando cartões coloridos em ordem. carta fundamental ••CFReportagemMogi44.indd 57 57 27/11/12 18:11
  3. 3. ped ro pre sot to R e p o rtag e m Projetos nas disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática e em Pedagogia foram reconhecidas pelo 1º Congresso de Boas Práticas em Sala de Aula, promovido pela ONG Parceiros da Educação jovens contadores Os mais velhos escolhem, leem e até interpretam livros para as crianças da Educação Infantil Na outra coluna, o jogador analisa a joga­ da do oponente distribuindo cartões pre­ tos para os erros e brancos para os acertos. O jogador tem oito tentativas para acertar. Nas turmas de primeiro ano, o Jogo do Caranguejo é um dos preferidos. Em gru­ pos de quatro pessoas, eles jogam um da­ do e realizam as instruções corresponden­ tes em um tabuleiro retangular. Todos co­ meçam com suas peças no centro e devem avançar ora para a direita, ora para a es­ querda, de acordo com as orientações reti­ radas. Vence quem alcançar primeiro uma das pontas. “O jogo trabalha o senso de di­ reção, com ordens de ir para a direita ou para a esquerda. Eles já são craques e dão um banho na gente”, brinca Débora. Os jogos são utilizados uma vez a cada se­ mana em todas as turmas. As primeiras au­ las são destinadas ao planejamento e à con­ fecção. Depois, os alunos começam a se fa­ miliarizar com as regras. A princípio, os pro­ fessores interferem nos grupos, problemati­ zando, mas, no final, a mediação diminui e eles dão autonomia para que os estudantes resolvam entre si eventuais problemas. Nas aulas de Língua Portuguesa, os alu­ nos tomam a frente da sala para contar his­ tórias. A ideia é que o estudante mais velho seja um exemplo para os mais novos. A cada 15 dias, professores do quarto e quinto anos iniciam a escolha de uma obra a ser lida para as crianças da Educação Infantil. Na biblio­ teca, os alunos exploram diferentes livros e decidem qual deles será utilizado. Depois, os docentes realizam o estudo do texto, onde dão aos colegas a oportunidade de escutar e recontar a história, chamando a atenção pa­ ra a entonação, a pontuação e outras estra­ tégias de leitura em voz alta. Entusiasmados, os alunos costumam produzir cartazes, fantoches e fantasias para o momento da leitura. “Alguns têm a iniciativa de se caracterizar como os per­ sonagens, o que é muito estimulante para eles”, diz Sandra Regina Fritoli Renzi, pro­ fessora do quinto ano. No momento de contar a história, os estu­ dantes são divididos em grupos e se dirigem às salas de aula do primeiro ano. Na turma de Sandra, Leandro de Souza e Guilherme Alves, ambos de 10 anos, se preparam pa­ ra interpretar os personagens Coelho Pai e Coelho Filho, do livro Adivinha o quanto Te Amo. De maquiagem pronta e orelhi­ nhas coladas, eles interpretam a narrativa que seis colegas leem diante dos alunos de 5 e 6 anos. Os estudantes do segundo e ter­ ceiro anos, ainda em processo de alfabetiza­ ção, não realizam a contação, mas indicam livros para os alunos da Educação Infantil. Segundo Sandra, além da melhora na fl ­ uência, o trabalho com a pontuação e a en­ tonação ajudou os alunos a compreender melhor o texto. “No início, eles ficaram inse­ guros, mas criaram o hábito de leitura e ho­ je são modelos na escola, o que é muito im­ portante para eles.” Ao término da leitura, a professora questiona os alunos do primei­ ro ano: “Quando vocês crescerem, quem vai querer contar histórias?” Sentados em gru­ pos de quatro, todos levantam as mãos. As iniciativas da Benedito Laporte fo­ ram reconhecidas pelo 1º Congresso de Boas Práticas em Sala de Aula, que acon­ teceu em setembro na capital paulista. O evento, promovido anualmente pela ONG Parceiros da Educação, promove e moni­ tora parcerias entre empresas e escolas da rede pública. Um dos critérios para a apro­ vação da escola foi justamente a facilidade de os projetos serem replicados, um estí­ mulo para outros educadores que também têm vontade de mudar. 58 carta fundamental ••CFReportagemMogi44.indd 58 27/11/12 18:11

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