Os Piratas
Mais Perversos
Da História
SHELLEY KLEIN

Os Piratas
Mais Perversos
Da História

tradução
MAGDA LOPES
Copyright © Michael O’Mara Books Ltd., 2006
Publicado pela primeira vez na Inglaterra por Michael O'Mara Books Ltd.
Título...
sumário

Capa – Orelha - Contracapa
7

Introdução

15

O Código de conduta dos piratas

21

Grace O’Malley — A mais femini...
INTRODUÇÃO

Na mente do marinheiro há um horror supersticioso
conectado à palavra pirata; e há poucos temas que
interessem...
8

inimigos. Muitos capitães aclamados como heróis, se olhados por
um ângulo diferente não eram nada além de criminosos. U...
Introdução

capitães eram sádicos e adoravam mais do que tudo infligir torturas
corporais naqueles que empregavam. Em seu ...
10

prisioneiros, mas não há dúvida de que ela instigou e esteve
presente durante alguns episódios extremamente horripilan...
Introdução

cabeça, juraram que, se não se juntasse a eles, cortariam
imediatamente sua cabeça, enquanto Mower implorava p...
12

de onde emergiam ...a água na altura da cintura e
borbulhando com a luz quente refletida de seus corpos ... E
eles con...
Introdução

a Índia e Boston. Essa idéia foi então ilustrada por Howard Pyle
em seu Book of Pirates (1921), no qual Kidd é...
14

Grande parte da imagem romântica da pirataria origina-se
do nosso fascínio pelas pessoas que vivem à margem da socieda...
CÓDIGO DE CONDUTA
DOS PIRATAS

A maioria das pessoas pode supor que os piratas, não sendo nada
além de um grupo de ladrões...
16

I
Todo homem tem direito a voto nos assuntos do momento;
tem igual direito a provisões frescas ou bebidas fortes,
asse...
Código de conduta dos piratas

esplendor de suas armas, dando às vezes em um leilão (no
mastro) trinta ou quarenta libras ...
18

IX
Nenhum homem pode falar em mudar seu modo de vida até
juntar mil libras. Se, para conseguir essa quantia, perder
um...
Código de conduta dos piratas

6. O homem que fumar no porão sem tampa no cachimbo,
ou carregar uma vela acesa sem lantern...
20

6. O homem que roubar o capitão ou a companhia em
algum espólio, seja dinheiro, mercadorias ou qualquer
outra coisa no...
GRACE O’MALLEY
A Mais Feminina Capitão do Mar

Veio até mim também a mais feminina capitão do mar,
chamada Granny Imallye,...
22

na terra e no mar] e poucos clãs no oeste da Irlanda conseguiam
superá-lo no conhecimento da costa desse país.
O pai d...
Grace O’Malley

castelo de Dónal, em Bunowen, cerca de 45 quilômetros ao sul,
seguindo a costa. Seria de se esperar que Gr...
O castelo Rockfleet, em County Mayo, tornou-se residência de O’Malley quando
ela se casou com o proprietário, Richard Burk...
Grace O’Malley

Foi esse período que inspirou centenas de histórias
lendárias sobre suas explorações. Diz-se que ela explo...
A ilha Clare guarda a entrada da baía Clew, na costa oeste da Irlanda. A
família O'Malley possuía um castelo em Belclare, ...
Grace O’Malley

propósito de sitiar Rockfleet e capturar a mulher mais procurada da
Irlanda. No entanto, Grace reuniu toda...
28

tiveram de enfrentar durante esse período, pois, no final de 1580,
com a morte de MacWilliam, de Mayo, Richard reivind...
Grace O’Malley

autoridade sobre aqueles que a cercavam. Realizando vários
ataques aos territórios vizinhos, ela logo se i...
30

considerado traição e, por isso, passível de ser punido com a morte.
A vida de Grace O’Malley estava agora por um fio ...
Grace O’Malley

Tendo conquistado tanta coisa e limpado seu passado,
poder-se-ia pensar que Grace O’Malley agora se estabe...
32

O único refúgio de Grace era o mar, então ela partiu para
as ilhas Aran, mas mesmo lá encontrou pouco repouso, pois
re...
Grace O’Malley

sem piedade, ele que matou seu filho e ele que a humilhou. Grace
precisava fazer algo espetacular para pod...
34

Enquanto isso, com essa carta a caminho da Inglaterra, as
coisas pioravam na Irlanda. Ocorreu outro levante, dessa vez...
Grace O’Malley

roupa mais elegante que conseguisse encontrar, preferiu vestir um
traje tradicional irlandês e ir descalça...
36

Mas as objeções de Bingham foram de pouca ou nenhuma
valia, pois, no final de setembro, Elizabeth escreveu-lhe ordenan...
Grace O’Malley

A essa altura, no entanto, Grace estava com quase setenta
anos, e, portanto, sem muitas condições de volta...
FRANÇOIS L'OLLONAIS
O Flagelo dos Espanhóis

Quando L'Olonnais tinha uma vítima na roda,
se o infeliz não respondesse imed...
40

No início da década de 1660, L’Ollonais mudou-se para a
ilha de Tortuga (ver Glossário), onde fez amizade com o
govern...
François L'Ollonais

François L'Ollonais, que
teria nascido na França em
torno de 1635, abrigava um
ódio intenso dos espan...
42

L'Ollonais, de posse de um novo navio, partiu para
Maracaibo, onde capturou uma embarcação carregada de artefatos
de p...
François L'Ollonais

Naquela mesma noite, os piratas foram até a floresta e
voltaram trazendo 20 mil pesos de prata, mulas...
44

capturado em 1726, confessou ter assassinado cerca de 37 capitães
do mar.
Outro pirata famoso por sua violência foi Ed...
François L'Ollonais

em um círculo no convés e depois acesas; em seguida, um ou
vários prisioneiros eram obrigados a corre...
A barbaridade de L'Ollonais não se restringia àqueles capturados no mar.
Centenas de prisioneiros eram feitos quando ele e...
François L'Ollonais

uma prolongada batalha, durante a qual L'Ollonais perdeu cerca de
setenta homens, a guarnição foi ven...
48

golfo de Honduras. Lá, L'Ollonais se esforçou muito e durante
longo tempo para fazer sua frota voltar ao curso origina...
François L'Ollonais

acreditou neles e, arrastando um infeliz até a sua frente, diz-se que
abriu seu peito com um punhal e...
50

Nicarágua. Alguns de seus homens gostaram da idéia, mas a
maioria resolveu voltar para Tortuga. Desfalcado de grande p...
François L'Ollonais

Howard Pyle, que escreveu e ilustrou o Howard Pyle's Book of Pirates, produziu
esta imagem de um infe...
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mais clemente dos indivíduos, ele e seus homens não trataram mal
os índios. Em vez disso, deram-lhes alimento e água e...
HENRY MORGAN
O Maior de Todos os Bucaneiros

Os cabelos de Morgan estão desarrumados,
Seus lábios rachados e secos,
Sua ba...
54

número de tiros de canhão, nós e o Drake disparamos 22 vezes e,
depois, todos os mercantes dispararam".1
Era uma despe...
Henry Morgan

Jamaica — com muito mais sucesso do em que em sua missão
anterior, provavelmente porque havia menos soldados...
56

Então, estabeleceram um preço para a cabeça de cada prisioneiro e
lhes disseram que não receberiam comida nem água enq...
Henry Morgan

continuariam por terra, chegando aos arredores de Puerto Bello
pouco antes do amanhecer.
Um grande estrategi...
58

para o restante dos bucaneiros atacar o forte, o que fizeram com
violência. Quarenta e cinco dos oitenta soldados da g...
Henry Morgan

exigindo 100 mil pesos de prata ou do contrário toda a cidade seria
destruída, juntamente com todos os seus ...
60

Um espanhol capturado ajoelha-se diante do vitorioso Henry Morgan após
a conquista da cidade do Panamá, iniciada com u...
Henry Morgan

guerra no qual foi decidido atacar a cidade espanhola de
Cartagena, Morgan e seus homens começaram a beber, ...
Os piratas mais perversos da história   shelley klein
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Os piratas mais perversos da história shelley klein

  1. 1. Os Piratas Mais Perversos Da História
  2. 2. SHELLEY KLEIN Os Piratas Mais Perversos Da História tradução MAGDA LOPES
  3. 3. Copyright © Michael O’Mara Books Ltd., 2006 Publicado pela primeira vez na Inglaterra por Michael O'Mara Books Ltd. Título original: The Most Evil Pirates in History Preparação e revisão: Tulio Kawata Diagramação: Nobuca Rachi Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Klein, Shelley Os piratas mais perversos da história / Shelley Klein ; tradução Magda Lopes. — São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2007. Título original: The most evil pirates in history. ISBN 97885-7665-277-9 1. Biografias coletivas 2. Piratas - Biografia 3. Piratas assassinos - Biografia I. Título. 07-2226 CDD-364.164092 07-2226 CDD-364.164092 Índices para catálogo sistemático: 1. Sociedades secretas : História 366.09 2007 Todos os direitos desta edição reservados à Editora Planeta do Brasil Ltda. Avenida Francisco Matarazzo, 1500 - 3- andar - conj. 32B Edifício New York 05001-100 - São Paulo-SP vendas@editoraplaneta.com.br
  4. 4. sumário Capa – Orelha - Contracapa 7 Introdução 15 O Código de conduta dos piratas 21 Grace O’Malley — A mais feminina capitão do mar 39 François L'Ollonais — O flagelo dos espanhóis 53 Henry Morgan — O maior de todos os bucaneiros 73 Capitão Kidd — Pirata ou corsário? 95 John Avery — O rei dos diamantes 111 Edward Teach — Barba Negra 129 Bartholomew Roberts — Black Barty 145 Edward England — O capitão bem-educado 161 Capitão Edward Low — O mal personificado 179 John Rackham — Calico Jack 193 Anne Bonny — Um homem muito peculiar 209 William Lewis — Fato e ficção 219 Jean Lafitte — O terror do golfo 235 Cheng I Sao — Rainha dos mares da China 251 Benito de Soto — O último pirata dos mares do Ocidente 267 Glossário 275 Bibliografia 278 Créditos iconográficos 279 Agradecimentos
  5. 5. INTRODUÇÃO Na mente do marinheiro há um horror supersticioso conectado à palavra pirata; e há poucos temas que interessem e excitem mais a curiosidade dos homens do que as terríveis proezas, os feitos sórdidos e as carreiras diabólicas desses monstros em forma humana. Charles Ellms, The Pirates Own Book Charles Ellms escreveu isso há mais de 150 anos, mas a atração do que ele chamou de "famosos ladrões do mar" não diminuiu nem um pouco. Muitos livros, tanto de ficção quanto de não-ficção, têm sido a eles dedicados, e até hoje inspiram filmes de sucesso. Mas o que tornou esses ladrões do mar personagens tão duradouros? E por que, apesar de serem pouco mais do que ladrões, os piratas — pelo menos em algumas épocas — são considerados heróis tão românticos e fanfarrões? No entanto, não foi sempre possível distinguir o roubo de outras atividades legítimas. Dos séculos XVII a XIX, as nações comissionavam corsários* em tempos de guerra para saquear os navios * Um corsário era um navio pirata (ou seu capitão) autorizado pelo governo de um país a atacar e tomar a carga do navio de outra nação. (N. T.)
  6. 6. 8 inimigos. Muitos capitães aclamados como heróis, se olhados por um ângulo diferente não eram nada além de criminosos. Uma boa ilustração disto é Sir Francis Drake, que tinha a autorização da rainha Elizabeth I para atacar e saquear navios inimigos (isto é, espanhóis). Drake, após vários ataques bem-sucedidos nas Índias Ocidentais, foi aclamado como herói na Inglaterra, mas na Espanha era visto como um pirata que, se capturado, seria sumariamente executado. Drake morreu de causas naturais; pouco menos de um século depois, o famoso capitão Kidd não teve tanta sorte. Começando sua carreira como corsário contratado por um grupo poderoso que incluía o rei Guilherme III, seis anos depois balançava na extremidade de uma corda, enforcado como pirata — um criminoso comum. Correndo o risco permanente de captura e execução, por que tantos marinheiros, que poderiam ser empregados em negócios legítimos, optavam pela pirataria? A principal razão, não surpreendentemente, era o dinheiro. No que se refere ao capitão Kidd, sua contratação como corsário não começou bem. A tripulação só era paga com uma parte da pilhagem; portanto, quando não havia pilhagem, não havia pagamento. Após meses sem ver um navio inimigo, Kidd estava desesperadamente tentando evitar que sua tripulação se amotinasse e então se transformou em pirata e saqueou navios que não deveria atacar. Mas outros marinheiros muitas vezes optavam por se tornar piratas porque o pagamento em um navio de guerra ou mercante era extremamente baixo — sobretudo considerando-se o trabalho árduo e a disciplina férrea que muitos marujos tinham de suportar. Além disso, muitos deles não estavam a bordo por escolha, e sim obrigados a servir contra a sua vontade — "aquela era a época do recrutamento militar forçado, em que os homens se escondiam nos fossos e nos pântanos para escapar dos grupos de marinheiros de rabicho, liderados por oficiais de laço no chapéu que arrebanhavam todos que encontravam".1 Para piorar, muitos 1 Richard Zacks, The Pirate Hunter, Londres, Review, Headline Book Publishing, 2003.
  7. 7. Introdução capitães eram sádicos e adoravam mais do que tudo infligir torturas corporais naqueles que empregavam. Em seu livro Life Among the Pirates [Vida entre os piratas], David Cordingly descreve a cena perfeitamente, listando todos os instrumentos a bordo de um navio que um capitão podia usar nessas torturas: "Havia croques,* vassouras e barras de ferro para espancar os homens. Havia machados, martelos e punhais para provocar terríveis feridas. Havia cordas de todas as grossuras que podiam ser usadas para açoitar, estrangular e esticar corpos e membros". Pouco espanta então que os marinheiros preferissem a pirataria a um trabalho na Marinha Real ou na marinha mercante — afinal, a bordo de um navio pirata, para alguém ser açoitado ou abandonado em uma ilha deserta era necessário o consentimento de toda a tripulação, não apenas do capitão. Além disso, em um navio pirata, era mais provável que a violência fosse dirigida aos prisioneiros, não à tripulação — e aí, sim, havia violência! A lista é interminável, com histórias de prisioneiros sendo queimados vivos, enforcados ou esquartejados por punhais e tendo seus órgãos arrancados. Nesse aspecto, os piratas François L'Ollonais, Benito de Soto e Edward Low eram mestres, verdadeiros psicopatas que correspondiam totalmente à imagem do bucaneiro sanguinário. Diz-se que Edward Low cortou as orelhas de dois de seus prisioneiros e as assou, fazendo que os prisioneiros as comessem. Além disso, segundo Charles Johnson, Low e seus homens "freqüentemente assassinavam um homem de excessivo bom humor por raiva e ressentimento [...] pelo perigo oculto em seus sorrisos".2 Porém Low, L'Ollonais e De Soto estavam longe de ser os únicos brutos pervertidos que navegavam em alto-mar. Surpreendentemente, alguns dos piores, no mundo dos séculos XVIII e XIX — dominado pelos homens —, eram mulheres como Mary Read, Anne Bonny e a famosa capitã pirata chinesa Cheng I Sao. Não há relatos da participação de Cheng na tortura e no assassinato de * Vara com um gancho na extremidade, usada pelos barqueiros para atracar os barcos. (N.T.) 2 Charles Johnson, A General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates (1724), Londres, Conway Maritime Press, 1998.
  8. 8. 10 prisioneiros, mas não há dúvida de que ela instigou e esteve presente durante alguns episódios extremamente horripilantes. Por outro lado, consta que Bonny e Read gostavam de participar do combate corpo-a-corpo e, quando finalmente foram capturadas, lutaram com mais garra e valentia do que qualquer de seus homens. Outro capitão famoso, que aparece muito na história de Calico Jack, foi Charles Vane. Em 1718, foi entregue ao governador Bennet, das Bermudas, um relatório escrito por um marinheiro chamado Nathaniel Catling, que estava a bordo do Diamond quando este foi capturado por Vane. Catling acusava Vane e seus companheiros não só de saquear o navio e espancar e torturar toda a tripulação, incluindo o capitão, mas também de tentar enforcá-lo (Catling) nos cabos do navio. Ao cortar a corda, os piratas perceberam que ele ainda vivia e então sacaram seus punhais e começaram a cortá-lo. Um golpe atingiu sua clavícula, enquanto outro abriu um talhe profundo no seu peito, e só por um milagre ele não morreu naquele momento — pois alguns dos piratas convenceram Vane de que seria cruel demais matá-lo, e Catling sobreviveu. O tratamento que os piratas davam às suas vítimas nem sempre era devido apenas à crueldade desenfreada — com freqüência havia uma razão por trás da violência, como "convencer" os prisioneiros a assinar as condições dos piratas e se juntar à tripulação. Na verdade, os navios piratas — muito parecidos com os da Marinha Real e da marinha mercante — estavam sempre à busca de novos recrutas, particularmente aqueles com habilidades especiais (como medicina ou carpintaria). Em 1725, o navio mercante Fancy foi detido pelo pirata capitão Lyn. Havia a bordo um tanoeiro (um homem que faz barris e tonéis) chamado Ebenezer Mower, que, assim que os piratas abordaram o navio foi levado para um canto e "persuadido" a se juntar a eles. "Um dos piratas deu muitos golpes na cabeça de Mower com o cabo de um machado, deixando sua cabeça muito machucada e sangrando, e depois os mesmos piratas que o feriram disseram ao prisioneiro para colocar sua cabeça nas braçolas* da escotilha e, erguendo o machado sobre sua * Partes salientes das escotilhas, para evitar que a água penetre por elas. (N. T.)
  9. 9. Introdução cabeça, juraram que, se não se juntasse a eles, cortariam imediatamente sua cabeça, enquanto Mower implorava por sua vida."3 Mas, fundamentalmente, a pior violência cometida pelos piratas era sempre com os prisioneiros, cujas vidas pouco valiam, se é que valiam alguma coisa para seus assassinos. Benito de Soto — o chamado "último pirata dos mares do Ocidente" —, tendo capturado um navio, não se incomodou em trancar todos os prisioneiros no porão e depois incendiar o navio, para que todos a bordo fossem queimados vivos. Talvez ele tivesse prazer nisso — provavelmente tinha —, mas havia também outra razão para perpetrar um ato tão terrível: divulgar sua crueldade para que, quando cruzasse com outro navio inimigo, ninguém a bordo o enfrentasse. De Soto não era o único a usar essa tática, um ato bárbaro podia garantir a um pirata a reputação de perverso. Era a melhor forma de se fazer conhecido nessa atividade — mesmo naquela época, as notícias corriam depressa. E alguns piratas pioravam sua reputação com uma aparência aterrorizante. O pirata Edward Teach decidiu deixar crescer uma grande barba negra, o que o fez angariar seu famoso cognome. Para aumentar o efeito, ele costumava ir para a batalha com pavios acesos dentro e em torno do seu chapéu, para que parecesse que a fumaça e as chamas estavam saindo da sua cabeça. Teach, provavelmente, contribuiu mais do que qualquer outro indivíduo na história para a imagem dos piratas (embora Edward Low, que tinha uma cicatriz atravessando um dos lados de seu rosto, viesse em um próximo segundo lugar). Teach era a própria imagem de um "monstro em forma de gente", uma criatura quase sobre-humana que, sem dúvida, inspirou muitos piratas da ficção. No romance de 1950 de Mervyn Peake, Gormenghast, o jovem narrador sonha com piratas "altos como torres": grandes sobrancelhas projetavam-se sobre seus olhos fundos, como conchas de rochas salientes. Em suas orelhas havia argolas de ouro vermelho, e em suas bocas punhais afiados. Da escuridão escarlate 3 Boston Gazette, 29 de novembro de 1725.
  10. 10. 12 de onde emergiam ...a água na altura da cintura e borbulhando com a luz quente refletida de seus corpos ... E eles continuavam a chegar, até só haver espaço para a cabeça em chamas do principal bucaneiro, um grande senhor da água salgada, com cada centímetro do rosto marcado e escoriado como o joelho de um menino, os dentes esculpidos nas formas de crânios, e a garganta circundada pela tatuagem de uma cobra escamada. É claro que nenhum pirata da vida real poderia ser assim tão extraordinário, mas, de muitas maneiras, a descrição de Peake ilustra a atração que os piratas despertavam na imaginação do público. Nenhum outro grupo de ladrões jamais inspirou esse tipo de fascínio. Os assaltantes de estrada se aproximam, mas nem eles são considerados tão maus ou tão românticos. Nesse aspecto, escritores como Charles Johnson e Alexander Olivier Exquemelin (ver Glossário) muito contribuíram para a exaltação da imagem do pirata. Esses dois autores, principalmente Exquemelin (que serviu com Henry Morgan durante seu ataque à Cidade do Panamá, em 1671), concentraramse nos malfeitos dos piratas, em vez de em qualquer outro aspecto de suas vidas, imaginando sem dúvida que relatos sensacionalistas dessa natureza aumentariam as vendas de seus livros. A descrição do Barba Negra, feita por Charles Johnson, garantiu o lugar do malfeitor na história — embora vários autores desde então tenham indicado que, em comparação com piratas como Bartholomew Roberts, que durante sua carreira capturou cerca de quatrocentos navios, a pirataria do Barba Negra beira a insignificância. Coisa muito parecida pode ser dita do capitão Kidd, pois, como escreveu Philip Gosse, "se a reputação de Kidd estivesse em justa proporção a seus feitos reais, ele teria sido esquecido assim que foi enforcado em Wapping Old Stairs".4 Em vez disso, a atração duradoura de Kidd parece se basear em apenas um fato — ele ter enterrado grandes quantidades de tesouro (a maior parte dele saqueada de um navio chamado Quedah Merchant) em locais entre 4 Philip Gosse, The History of Piracy (1924), Novo México, Rio Grande Press, 1988.
  11. 11. Introdução a Índia e Boston. Essa idéia foi então ilustrada por Howard Pyle em seu Book of Pirates (1921), no qual Kidd é visto de pé sobre uma arca de tesouro na ilha de Gardiner, enquanto um de seus piratas cava um buraco. Mas será que ele realmente enterrou enormes fortunas em ouro e jóias? A realidade é que ninguém conseguiu encontrar o tesouro do capitão Kidd (embora muitos tenham tentado), o que levou os historiadores a concluir que isso era parte do mito que cercou esses homens dos séculos XVII a XIX. Na verdade, poucos piratas enterravam seus tesouros — de preferência, dividiam seu saque e o distribuíam igualmente entre eles. Eram normalmente gastos em "vinhos e mulheres, que sugavam suas riquezas a tal ponto que, em pouco tempo, alguns deles ficavam reduzidos à mendicância. Sabe-se que gastavam 2 mil ou 3 mil moedas de prata em uma noite; e um deles deu quinhentas dessas moedas a uma prostituta para vê-la nua. Costumavam comprar um barril de vinho, colocá-lo na rua e obrigar todos que passavam a beber".5 Outro mito dos piratas é a idéia de que obrigavam seus prisioneiros a caminhar na prancha.* Com certeza torturavam suas vítimas, mas quase não há referências a essa prática nos escritos sobre piratas. O autor David Cordingly aponta uma que apareceu no The Times em 23 de julho de 1829 (ver o capítulo sobre L'Ollonais) e uma segunda referência, dessa vez uma ilustração, que apareceu no Harper's Monthly Magazine em 1887, desenhada por Howard Pyle. Na verdade, Pyle, juntamente com Charles Johnson e Exquemelin, parece responsável pela maioria dos mitos que envolvem esses bandidos. E, se não foram diretamente responsáveis, podem ter influenciado outros escritores como Lord Byron (O corsário), Robert Louis Stevenson (A ilha do tesouro) e J. M. Barrie [Peter Pan). 5 Charles Leslie, New History of Jamaica, Londres, J. Hodges, 1740. * Caminhar na prancha é uma forma de execução popularmente atribuída aos piratas, apesar da inexistência de um único registro de que ela tenha sido efetivamente usada. A execução seria aplicada através de uma prancha de madeira que se estenderia para lord do navio. Nela, a vitima teria que caminhar, usualmente de olhos vendados e forçada por uma espada, até cair na água. (N. T.)
  12. 12. 14 Grande parte da imagem romântica da pirataria origina-se do nosso fascínio pelas pessoas que vivem à margem da sociedade. Edward Teach, Jean Lafitte e Bartholomew Roberts eram todos, à sua própria maneira, como o Heathcliff de Emily Brontë — homens rudes, violentos, indomáveis. Todos personagens cheios de defeitos. Evidentemente, nunca deve ser esquecido que a imagem romântica que nos encantou em inúmeras histórias ficcionais de piratas e filmes de fanfarronadas, desde Gavião do mar, estrelado por Errol Flynn, até Piratas do Caribe, protagonizado por Johnny Depp, cinqüenta anos depois, tem apenas uma ligeira semelhança com aquela dos piratas reais. Todos nós gostamos de acreditar em mapas do tesouro e nos adoráveis embusteiros que os criaram, mas muito pouco nos piratas de verdade mereceria nossa afeição. Eles foram homens cruéis, bárbaros e desesperados que matavam e torturavam por prazer e por dinheiro. Sem dúvida, estão entre os mais perversos e abomináveis personagens da história.
  13. 13. CÓDIGO DE CONDUTA DOS PIRATAS A maioria das pessoas pode supor que os piratas, não sendo nada além de um grupo de ladrões e bandidos, eram também um bando de rebeldes sem lei, com poucas regras e ainda menos inclinação para seguir qualquer uma que lhes fosse apresentada. Porém, segundo Charles Johnson, um dos autores mais citados quando se trata de piratas, isso está bem longe da verdade. Duas vezes em seu livro A General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates [Uma história geral dos roubos e assassinatos dos piratas mais famosos] (1724), ele apresenta uma lista de regulamentos baseados naqueles que eram inicialmente empregados pelos corsários, mas que depois foram assumidos pelos piratas como um meio de impor algum tipo de disciplina nas tripulações de seus navios. Cita o exemplo do capitão Bartholomew Roberts, que durante uma viagem baixou as seguintes regras para que a vida a bordo do seu navio corresse de modo tranqüilo e eficiente:
  14. 14. 16 I Todo homem tem direito a voto nos assuntos do momento; tem igual direito a provisões frescas ou bebidas fortes, asseguradas a qualquer tempo, e de usá-las à vontade, a menos que a escassez [coisa não rara entre eles] tornasse necessário, para o bem de todos, votar por um racionamento. II Todo homem tem o direito de ser convocado, segundo a Lista, ao Conselho dos Prêmios, porque (sobre e acima da sua devida parte) nestas ocasiões tem direito a uma muda de roupa; mas, se lesar a Companhia no valor de um dólar, em prataria, jóias ou dinheiro, sua punição será o DESTERRO. [Este era o costume bárbaro de colocar o infrator numa praia, em algum cabo ou ilha desolado ou desabitado, com uma arma de fogo, alguma munição, uma garrafa de água e uma garrafa de pólvora, para com isso sobreviver ou morrer de fome. Se o objeto roubado fosse de um dos membros da tripulação, eles se contentariam em cortar as orelhas e o nariz do culpado e jogá-lo na praia — não em um lugar desabitado, mas em algum lugar onde certamente ele encontraria dificuldades.] III Ninguém deve jogar cartas ou dados por dinheiro. IV As luzes devem ser apagadas às oito horas da noite. Se algum membro da tripulação, após essa hora, ainda permanecer inclinado a beber, deverá fazê-lo no convés. [Roberts acreditava que assim reprimiria o vício, pois ele próprio não bebia, mas por fim descobriu que todos os seus esforços eram inúteis.] IV Os tripulantes devem manter suas armas de fogo e alfanjes limpos e prontos para o serviço. [Nisto eles eram extremamente competentes, esforçando-se para superar um ao outro na beleza e no
  15. 15. Código de conduta dos piratas esplendor de suas armas, dando às vezes em um leilão (no mastro) trinta ou quarenta libras por um par de pistolas. Estas eram levadas a tiracolo em tempo de serviço, com fitas de diferentes cores sobre seus ombros, de uma maneira peculiar a esses rapazes, o que os encantava.] VI Não é permitida entre a tripulação a presença de nenhum menino ou mulher. Se algum homem for descoberto seduzindo alguma mulher, e a levar para o mar, disfarçada, será punido com a morte. [Por isso, quando alguma caía em suas mãos, como aconteceu no Onslow, eles colocavam imediatamente uma Sentinela para cuidar dela a fim de evitar as conseqüências desastrosas de tão perigoso pomo de discórdia; mas aí é que estava a patifaria; eles brigavam para ver quem seria a Sentinela, que acabava sendo um dos valentões, que, para garantir a virtude da jovem, não deixava ninguém se deitar com ela, a não ser ele próprio.] VII Quem desertar o navio ou se recolher aos seus aposentos durante uma batalha, será punido com a morte ou com o desterro. VIII Nenhum homem deve agredir outro a bordo, e toda disputa, quando as partes não chegarem a uma reconciliação, deve terminar num duelo na praia, com a espada e a pistola: o contramestre do navio os acompanhará até a praia com a assistência que julgar adequada, e colocará os querelantes costa com costa, e depois os fará dar alguns passos. À voz de comando, eles se voltarão e atirarão imediatamente (ou a arma seria arrebatada de suas mãos). Se ambos errarem, recorrerão a seus alfanjes, e então será vitorioso aquele que arrancar do outro a primeira gota de sangue. IX Nenhum homem pode falar em mudar seu modo de vida até juntar mil libras. Se, para conseguir essa quantia, perder um membro ou
  16. 16. 18 IX Nenhum homem pode falar em mudar seu modo de vida até juntar mil libras. Se, para conseguir essa quantia, perder um membro ou ficar inválido, ganhará oitocentos dólares do cofre comum, e menos que isso, proporcionalmente, no caso de ferimentos menores. X O capitão e o contramestre recebem duas partes do prêmio; o imediato, o mestre e o homem de armas, uma parte e meia; os outros oficiais, uma parte e um quarto. XI Os músicos devem descansar no sábado, mas nos outros seis dias e noites descansam apenas se receberem autorização especial. Charles Johnson também cita o exemplo do capitão John Philips, que, antes de sair no Revenge para saquear navios nas Índias Ocidentais, fez todos os seus oficiais se sentarem para "redigirem as regras e estabelecerem sua pequena comunidade, para evitar disputas posteriores". AS REGRAS A BORDO DO REVENGE 1. Todos os homens devem obedecer ao código civil; o capitão tem direito a uma parte e meia de todos os prêmios; o imediato, o carpinteiro, o mestre e o homem de armas têm direito a uma parte e um quarto. 2. Se alguém tentar fugir, ou guardar algum segredo do resto da companhia, deve ser desterrado com uma garrafa de pólvora, uma garrafa de água, uma pequena arma e munição. 3. Se alguém roubar ou jogar, no valor de um peso, deverá ser desterrado ou morto. 4. Se alguma vez tivermos que encontrar com outro pirata e algum homem seguir seu código sem o consentimento de nossa companhia, deverá sofrer a punição que o capitão e a tripulação julgarem adequada.
  17. 17. Código de conduta dos piratas 6. O homem que fumar no porão sem tampa no cachimbo, ou carregar uma vela acesa sem lanterna, deverá sofrer a mesma punição estabelecida no artigo anterior. 7. O homem que não mantiver suas armas limpas, adequadas para o combate, ou negligenciar suas funções, deverá sofrer qualquer punição que o capitão e a companhia estabelecerem. 8. Se um homem perder uma junta na batalha, deve ganhar 400 pesos;* se perder um membro, 800. 9. Se alguma vez encontrar uma mulher honesta, o homem que assediá-la, sem o consentimento dela, deverá sofrer morte imediata. O capitão William Kidd também fazia seus homens aceitarem o código do navio — na época ele estava navegando no Adventure Galley como corsário, em vez de atuar como pirata, e por isso seus "códigos de conduta", citados em The Pirate Hunter, de Richard Zacks, eram um pouco menos severos e restritivos do que aqueles de Bartholomew Roberts ou John Philips. AS REGRAS A BORDO DO ADVENTURE GALLEY 1. O homem que avistar primeiro um navio, se este for capturado, receberá cem pesos. 2. Se algum homem perder um olho, perna, braço, ou o uso deles, deverá receber 600 pesos ou seis escravos saudáveis. 3. Quem desobedecer o capitão perderá sua parte ou sofrerá punição corporal, como julgarem apropriado o capitão e a maior parte da companhia. 4. Se um homem se mostrar covarde no combate, perderá a sua parte. 5. Se o homem estiver embriagado no momento do combate, antes de os prisioneiros estarem confinados, perderá sua parte. * No original, pieces of eight: eram moedas mexicanas, peruanas ou espanholas de oito reales, que equilavem a 54 pence britânicos. Nas colônias espanholas, eram conhecidas como pesos ou reales de a ocho, e os britânicos as chamavam de dollars. (N, T.)
  18. 18. 20 6. O homem que roubar o capitão ou a companhia em algum espólio, seja dinheiro, mercadorias ou qualquer outra coisa no valor de um peso [...] perderá sua parte e será deixado na praia da primeira ilha habitada ou outro lugar por onde o navio passar. 7. O dinheiro ou o tesouro conquistado pela companhia deverá ser colocado a bordo do navio e ser imediatamente dividido, e todas as mercadorias que forem legalmente confiscadas deverão ser legalmente divididas entre a tripulação dos navios segundo o código.
  19. 19. GRACE O’MALLEY A Mais Feminina Capitão do Mar Veio até mim também a mais feminina capitão do mar, chamada Granny Imallye, e me ofereceu seus serviços, para onde quer que eu a mandasse, com três galeras e duzentos homens experientes no combate, fosse na Escócia ou na Irlanda. Trazia consigo seu marido, porque tanto no mar quanto em terra era bem mais do que a sra. Mate [...] Esta foi uma mulher famosa em toda a costa da Irlanda. Sir HENRY SIDNEY, Governador da Irlanda, 1576 Poucas mulheres piratas tornaram-se famosas no decorrer dos séculos, entre elas Cheng I Sao, Anne Bonny e Mary Read (também apresentadas neste livro). Mesmo assim, suas vidas não estão particularmente bem documentadas e, na verdade, não se sabe muito sobre elas. Uma exceção é a mulher que seria homenageada na poesia, no folclore e na ficção: Grace (Gráinne) O’Malley, ou Granuaile, como é conhecida na Irlanda — a rainha dos piratas desse país, uma mulher notável, que não só provocava pavor em seus inimigos, mas também enorme admiração entre aqueles que a encaravam como uma heroína nacional. Nascida em Connaught, na costa oeste da Irlanda, em torno de 1530, Grace O’Malley pertencia ao clã Uí Mháille, pessoas robustas e resistentes, mais acostumadas à vida no mar do que na terra. O lema da sua família era "Terra marique potens" [Poderosos
  20. 20. 22 na terra e no mar] e poucos clãs no oeste da Irlanda conseguiam superá-lo no conhecimento da costa desse país. O pai de Grace era um chefe local que constava ser descendente do filho mais velho de um ilustre rei da Irlanda, um homem chamado Brian Orbsen, que foi morto durante uma batalha no ano de 388 d.C.1 Os O’Malley possuíam muitas propriedades, incluindo um castelo em Belclare, na ilha Clare. Eram também suficientemente ricos para manter toda uma frota de navios, usados não apenas para pescar em águas irlandesas, mas também para negociar com outras embarcações que por ali passavam. Com certa freqüência, esses mesmos navios também se envolviam em atividades de pirataria, saqueando e atacando territórios vizinhos. É quase certo que, desde garota, Grace estava a par dos negócios de sua família, e alguns comentaristas afirmam que ela recebeu seu apelido de Granuaile (que significa "careca") porque cortou seu cabelo quando era criança para se juntar aos garotos do lugar, que gostavam de levá-la para navegar.2 Além disso, muito pouco se sabe sobre a sua infância, exceto que ela provavelmente recebeu algum tipo de educação formal, já que alguns anos mais tarde ela fez uma petição por escrito ao tribunal inglês e conversou em latim durante sua audiência, em 1593, com a rainha Elizabeth I da Inglaterra, segundo foi registrado. Boa parte da infância de O’Malley provavelmente foi passada observando o pai a bordo de seus navios, aprendendo sobre o mundo dos negócios, da política e sobre pirataria. Também é muito provável que ela tenha acompanhado seu pai em viagens de pesca, particularmente devido a sua destreza no mar e a seu conhecimento das marés, das correntes marítimas e dos ventos alísios.* Seguindo as convenções, em 1546, aos dezesseis anos, Grace casou-se com um homem chamado Dónal O’Flaherty, filho de Gilledubh O’Flaherty. Depois do casamento, mudou-se para o 1 Anne Chambers, Granuaile: Ireland's Pirate Queen, Dublin, Wolfhound, 2003. 2 David Cordingly, Life Among the Pirates: The Romance and the Reality, Londres, Little, Brown and Company, 1995. * Certos ventos regulares que sopram durante o ano todo nas regiões tropicais, vindos do nordeste no hemisfério boreal e do sudeste no hemisfério austral. (N. T.)
  21. 21. Grace O’Malley castelo de Dónal, em Bunowen, cerca de 45 quilômetros ao sul, seguindo a costa. Seria de se esperar que Grace se sentisse um pouco estranha, pois era a primeira vez que ficava longe de sua família. Também seria de se supor que se sentisse um pouco claustrofóbica, pois estava acostumada a passar muito tempo no mar com seu pai e seus amigos e, agora — como mulher casada —, tinha de ficar em casa, preocupando-se principalmente com seus afazeres domésticos. Grace teve dois filhos com Dónal, Owen e Murrough, e uma filha chamada Margaret. No entanto, o casamento dos O’Flaherty não estava destinado a durar muito. Em 1549, Dónal foi acusado de ter participado do assassinato de um homem chamado Walter Fada Bourke e, possivelmente por vingança, acabou sendo assassinado. Desconhece-se a reação de Grace ao ficar viúva tão jovem, mas depois de um curto tempo ela voltou às terras de seu pai, onde se estabeleceu na ilha Clare. Logo montou uma frota de três galeras e vários navios menores, que usava para saquear e pilhar outros navios. Grace O’Malley começava agora sua própria carreira como pirata e, daí até o fim de sua vida, nunca olhou para trás. Reunindo em torno de si cerca de duzentos homens de diferentes clãs (entre eles O’Malley, MacCormack, O’Flaherty e Bourke), diz-se que Grace fez vários ataques de pilhagem tanto na Irlanda quanto na Escócia — todos bem-sucedidos e que garantiram a lealdade de seus homens. Na verdade, ela deve ter sido uma mulher muito carismática para ter ocupado uma posição de tamanha autoridade, que se tornou mais importante ainda quando seu pai morreu, deixando para sua única filha a maior parte de sua riqueza, incluindo uma grande frota de navios. A partir daí, seu comando das águas irlandesas foi indiscutível. "De Donegal a Waterford", escreve Anne Chambers em sua excelente biografia de O’Malley, "em toda a costa irlandesa, seus ataques pelo mar eram numerosos e disseminados. Sua fama crescia. Histórias de suas explorações eram comentadas de porto em porto. Em terra, começou a acumular grande quantidade de gado bovino e cavalos, que, em 1593, segundo ela própria confirmou, totalizava mil cabeças, o que a tornava uma mulher realmente rica "
  22. 22. O castelo Rockfleet, em County Mayo, tornou-se residência de O’Malley quando ela se casou com o proprietário, Richard Burke, em 1566. Eles concordaram que o casamento poderia terminar após um ano se assim o desejassem. Dizem que Grace deixou Burke do lado de fora do castelo logo após seu primeiro aniversário de casamento, embora o casal tenha permanecido junto durante muitos anos.
  23. 23. Grace O’Malley Foi esse período que inspirou centenas de histórias lendárias sobre suas explorações. Diz-se que ela explodiu uma parte do castelo Curradh, em Renvyle, disparando uma bala de canhão de seu navio, que estava ancorado na baía abaixo do castelo. Outros locais que sofreram seus ataques foram o castelo de O’Loughlin no Burren, as ilhas Aran, Killybegs e Lough Swilly, na Irlanda, e o castelo de Doona na costa de Erris. Em 1566, Grace casou-se com Richard Burke e se mudou para a residência da família dele, o castelo Rockfleet (Carraigahowley), em County Mayo. O castelo, que existe até hoje, está voltado para a baía Clew - um porto seguro perfeito para a frota de cerca de vinte navios de Grace, que incluía várias galeras fortemente armadas. Uma delas era tão bem equipada que mereceu uma menção do capitão Plessington do HMS Tremontaney: "Esta galera vem de Connaught e pertence a Grany O’Malley". Também comentou que o navio "navegava com trinta remos e tinha a bordo, prontos para defendê-la, cem bons atiradores, que mantiveram um conflito com meu barco por mais de uma hora".3 Diz a lenda que Grace, não desejando ser subserviente a seu novo marido, casou-se com Richard Burke em seus próprios termos — um dos quais estipulava um período de experiência; se ela não estivesse feliz no final do primeiro ano, o casal se separaria. Reza também a lenda que isso aconteceu, com Grace deixando Richard do lado de fora de Rockfleet e gritando do parapeito que ele estava "demitido". Entretanto, a verdade da história é que ela e Richard permaneceram casados durante muitos anos, como atestam vários documentos oficiais. Grace deu à luz seu filho Theobald, em 1567, aparentemente a bordo de um de seus navios. No momento, o navio estava sendo atacado por piratas argelinos e o capitão, temendo que esses estrangeiros estivessem vencendo, desceu para onde Grace estava deitada com seu filho recém-nascido para convencê-la a subir e estimular seus homens à ação. Enrolando um lençol em torno do corpo, Grace corajosamente subiu até o convés e incitou seus 3 Ibidem
  24. 24. A ilha Clare guarda a entrada da baía Clew, na costa oeste da Irlanda. A família O'Malley possuía um castelo em Belclare, desde que Grace era criança, e foi lá que ela estabeleceu sua base quando ingressou na pirataria. homens a pegar em armas ao mesmo tempo que pegava um mosquete e disparava um tiro contra os inimigos. Essa história não é tão exagerada quanto pode parecer, pois os registros mostram que vários piratas norte-africanos estavam operando ao longo das costas sul e oeste da Irlanda durante esse período, sendo portanto muito provável que um dos navios de Grace estivesse sob ataque. Nesse período, a Irlanda, embora parte das Ilhas Britânicas governadas por Elizabeth I, era dividida em províncias governadas por homens indicados pela rainha. Em Connaught, a província onde Grace vivia, o regime era doentiamente repressivo, uma situação que conduzia a freqüentes rebeliões. O governador de Connaught, Sir Edward Fitton, relatou que Grace muitas vezes liderava ataques a outros chefes irlandeses, assim como saqueava os navios mercantes que passavam. Em 1574, Fitton enviou uma frota de navios para capturá-la, uma missão comandada pelo capitão William Martin, que viajou para a baía Clew com o único
  25. 25. Grace O’Malley propósito de sitiar Rockfleet e capturar a mulher mais procurada da Irlanda. No entanto, Grace reuniu todas as forças à sua disposição e logo dominou a frota de Martin, fazendo-o fugir do local para salvar sua vida. Embora tenha sido bem-sucedida nessa campanha, sua sorte não durou muito: em 1577, quando estava em uma missão de pilhagem contra o conde de Desmond, em Munster, foi capturada. Nessa época, o confinamento para qualquer pessoa, homem ou mulher, teria sido terrível, mas, para alguém acostumada com a liberdade do alto-mar, que nunca foi limitada pelas convenções do casamento — muito menos por quaisquer outras da época —, a prisão deve ter sido insuportável. Tendo sido confinada na prisão de Limerick por mais de dezoito meses, ela foi então transferida, por ordem do Lord Justice William Drury, para o castelo de Dublin. A transferência ocorreu em 7 de novembro de 1578, com Grace amarrada e acorrentada. Ao conhecê-la, Drury assim a descreveu: "A esse lugar me foi trazida Granie ny Maille, uma mulher da província de Connaught, que governava uma região rural dos Oflaherties, famosa por sua coragem e personalidade, e por diversas explorações feitas no mar. Foi capturada pelo conde de Desmond um ano e meio atrás e permaneceu um tempo com ele e outro na prisão de Limerick de Sua Majestade, e agora me foi enviada para Dublin".4 Finalmente, em 1579, tendo cumprido sua pena, Grace foi libertada do cativeiro e retornou a Rockfleet. Entretanto, mais tumultos a aguardavam. Em 18 de julho daquele mesmo ano, James FitzMaurice Fitzgerald decidiu reunir toda a Irlanda em um ataque contra a "rainha herética da Inglaterra",5 Elizabeth I. Para isso, Fitzgerald buscou o apoio do conde de Desmond que, após ponderar sobre suas opções, decidiu apoiar a rebelião, assim como Richard Burke e, mais surpreendentemente devido ao fato de Desmond tê-la aprisionado, Grace O’Malley. A que ficou conhecida como a "rebelião de Desmond" não foi a única batalha que Grace e Richard 4 Documentos oficiais sobre a Irlanda, Public Record Office, London. 5 Chambers, op. cit.
  26. 26. 28 tiveram de enfrentar durante esse período, pois, no final de 1580, com a morte de MacWilliam, de Mayo, Richard reivindicou o direito de assumir o território e a posição de chefe do clã. Com a ajuda de Grace, reuniu um enorme exército para apoiar sua reivindicação e, finalmente, em grande parte devido aos incríveis poderes de persuasão de Grace e à sua capacidade de liderar os homens na batalha, ele conseguiu o que queria, incluindo os "territórios pertencentes ao título: castelo de Lough Mask, com 3 mil acres; castelo de Ballinrobe, com mil acres; e Kinlough, próximo de Shrule, com 2500 acres, além das terras espalhadas pelos baronatos de Kilmaine, Carra e Tirawley. Também recebeu todas as arrecadações e tributos devidos a MacWilliam por seus subordinados".6 Richard e, durante um curto tempo, Grace mudaram-se do castelo Rockfleet para o castelo de Lough Mask. Seu filho Theobald (Tibbot-ne-Long), com doze anos de idade, era criado por uma família vizinha, os MacEvillys, de Carra. No entanto, tendo lutado tão arduamente e por tanto tempo por sua posição recém-assumida, Richard não viveu muito para desfrutá-la. Em 30 de abril de 1583, poucos meses após ter assumido as terras, ele morreu tranqüilamente em casa. A perda de Grace não pode ser avaliada. Apesar de freqüentemente brigar com ele por motivos políticos, como casal eles eram bem ajustados. Ele era um guerreiro; o que ela mais gostava era de pilhar e saquear. Ele não se sentia ameaçado pelas maneiras não convencionais de Grace, seu amor pelo mar ou sua inclinação para a pirataria. Após sua morte, Grace reivindicou pelo menos um terço das propriedades de seu marido, incluindo um de seus castelos, e depois disso "reuniu todos os seus seguidores e, com mil vacas e éguas, partiu para morar em Carrikahowley, em Boroswole".7 Mas, apesar de sua riqueza, Grace ainda estava em uma posição complicada. Vulnerável ao ataque, provavelmente porque seus vizinhos achavam que, sendo ela uma mulher sozinha, seria um alvo fácil, Grace teve de mostrar duas vezes, e com dureza, sua 6 Ibidem. 7 Documentos oficiais, op. cit.
  27. 27. Grace O’Malley autoridade sobre aqueles que a cercavam. Realizando vários ataques aos territórios vizinhos, ela logo se incompatibilizou com Sir Richard Bingham, que havia sucedido Sir Edward Fitton como governador de Connaught. Bingham era um inglês nascido em Dorset. Introduzido muito cedo na carreira militar, ele participou do serviço ativo na batalha de Lepanto contra os turcos, e também na França e na Holanda. Ao assumir o cargo de governador de Connaught, aos 55 anos, declarou: "Os irlandeses nunca foram domados com palavras, mas com espadas".8 Logo pôs em ação suas próprias palavras, instaurando um regime duro que provocou muitos ressentimentos na província. Em parte alguma isso era mais evidente do que em sua maneira de tratar Grace O’Malley, cujo filho Theobald mantinha como refém para impedir que Grace se opusesse a ele. Theobald foi levado para o castelo de Ballymote, onde ficou trancado mais de um ano sob o olhar atento do irmão de Bingham, George Bingham, na época xerife de Sligo. Mas não foi apenas o filho mais moço de Grace que foi atacado por Richard Bingham, pois em julho de 1586 seu filho mais velho, de seu primeiro casamento, Owen O’Flaherty, foi morto por Bingham, que, segundo Grace, o amarrou com uma corda e o golpeou doze vezes com um punhal. Perturbada com o assassinato de seu amado primogênito, Grace O’Malley passou a apoiar ativamente não apenas seu filho caçula, Theobald, mas também amigos e conhecidos de seu falecido marido em sua luta contra Bingham. Preparando-se para viajar para a Escócia para angariar apoio à sua causa, ela também conversou longamente com o chefe do clã O’Donnell, mas Bingham logo ficou sabendo da sua trama. Advertido da incrível influência de O’Malley sobre seus seguidores, ele fez seu irmão, o capitão John Bingham, prendê-la. Presa, ela foi amarrada com cordas, colocada diante de Sir Richard e acusada de tramar para "atrair os escoceses". Também não estava sozinha ao ser acusada desse ato, pois vários de seus amigos e conhecidos também foram acusados pelo mesmo motivo, que era 8 Calendar State Papers (Elizabeth I). vol CLXX, p. 128.
  28. 28. 30 considerado traição e, por isso, passível de ser punido com a morte. A vida de Grace O’Malley estava agora por um fio e, se não fosse seu cunhado lhe ter oferecido abrigo, contanto que Grace abandonasse quaisquer tentativas de rebelião, ela teria sido executada. Do jeito como as coisas aconteceram, ela conseguiu ser libertada milagrosamente; no entanto, pouco depois, ordenou à sua frota que se aprontasse e partisse direto para Ulster, onde pretendia contratar mercenários. No caminho, seus navios foram fortemente atingidos por uma tempestade, o que proporcionou a Grace a oportunidade de passar algum tempo com os chefes dos clãs O’Neill e O’Donnell, enquanto sua frota era reparada. Grace ficou com eles por pouco mais de três meses, em 1587, e, durante sua permanência, advertiu esses homens, que estavam entre os mais poderosos de Ulster, de que o que Richard Bingham estava fazendo em Connaught (reduzindo os poderes dos antigos chefes irlandeses e destruindo os costumes tradicionais) logo poderia acontecer em Ulster. Enquanto Grace reunia apoio no norte, seu arquiinimigo recebia ordens de Elizabeth I para se dirigir a Flandres para assumir uma nova posição de trabalho. Assim que Grace soube da notícia, aproveitou a oportunidade para voltar ao sul, dessa vez para Dublin, onde procurou Sir John Perrot. Perrot era governador de Connaught e, como tal, supunhase que estivesse do lado de Sir Richard Bingham para colocar a província sob controle. No entanto, enquanto Bingham preferia a espada, Perrot preferia um estilo mais conciliatório, o que fazia que os dois homens freqüentemente entrassem em choque. Grace O’Malley sabia dessa animosidade e, ao voltar para Dublin, confiou no fato de que Perrot, querendo provocar seu colega, lhe concederia não apenas uma audiência, mas, muito provavelmente, também um perdão. Por isso, não ficou surpreendida quando, ao chegar em Dublin e procurar seu alvo, recebeu "o perdão de Sua Majestade através de Sir Perrot",9 além de também garantir um perdão para seus filhos. 9 Documentos oficiais, op. cit.
  29. 29. Grace O’Malley Tendo conquistado tanta coisa e limpado seu passado, poder-se-ia pensar que Grace O’Malley agora se estabeleceria numa vida mais sossegada, mas nada estaria mais longe da verdade. Pouco depois do perdão de Perrot, partiu para adquirir novas galeras e retomar suas atividades de pirataria. O momento não poderia ser mais apropriado, pois, em 29 de julho de 1588, a armada espanhola — uma frota de invasão enviada contra a rainha Elizabeth I — tinha sido vista em Lizard, no sudoeste da Inglaterra. A frota espanhola foi finalmente repelida, mas a Irlanda, particularmente a costa ocidental, viu muitos navios estrangeiros navegando em suas águas durante esse período. Sir Richard Bingham rapidamente voltou de Flandres com ordens de acusar de crime capital qualquer um que fosse surpreendido dando abrigo a soldados espanhóis. É claro que O’Malley não era grande admiradora de Bingham, e portanto ela possivelmente ficaria do lado dos estrangeiros, contra ele e Elizabeth, mas também era igualmente provável que — devido a sua história na pirataria — ela fosse tentada a saquear quaisquer navios espanhóis afundados ao longo da costa irlandesa. Bingham colocou O’Malley sob constante vigilância, mas ela não era seu único problema — devido ao tratamento brutal que ele dava aos cidadãos de Connaught, agora enfrentava uma rebelião aberta. Para sua raiva e desalento, acusações de seus malfeitos passados, incluindo acusações de assassinato, tortura e outras crueldades, logo chegaram aos ouvidos da rainha. Ela foi aconselhada a levá-lo a julgamento para verificar se ele era culpado das acusações. Richard Bingham foi levado à corte em Dublin, mas muito rapidamente inocentado. Em 1590, retornou a Connaught, onde recebeu carta branca para pôr fim à rebelião. Conhecendo apenas uma maneira de fazer isto — pela violência —, lançou um ataque total contra seus inimigos, matando e saqueando qualquer lugar onde chegasse com suas tropas. Naturalmente, isto incluiu as terras de propriedade de Grace O’Malley e seus familiares. A propriedade que ela possuía em Carraigahowley foi devastada por Bingham, que não apenas roubou seu gado, mas também queimou enormes quantidades de suas colheitas.
  30. 30. 32 O único refúgio de Grace era o mar, então ela partiu para as ilhas Aran, mas mesmo lá encontrou pouco repouso, pois recebeu a notícia de que seu segundo filho com Dónal O’Flaherty, Murrough, havia mudado de lado e se unido às tropas de Bingham. Furiosa com essa deslealdade, ela decidiu atacar seu filho — uma ação que Bingham mais tarde relatou a um dos representantes da rainha, William Cecil, como uma prova adicional do caráter inescrupuloso de O’Malley. "Sua já mencionada mãe Grany [de Murrough] (não tendo tolerância com seu filho por servir Sua Majestade) enviou sua esquadra de galeras e aportou em Ballinehencie, onde ele morava, incendiou sua aldeia, apoderou-se de sua colheita e de seus bens e assassinou três ou quatro de seus homens que tentaram lhe opor resistência..."10 Mas, enquanto um filho agia em defesa de Bingham, o terceiro filho de O’Malley, Theobald, estava fazendo o oposto. Na primavera de 1592, juntamente com vários outros conspiradores, ele montou um ataque espetacular a Bingham e seus homens. O ataque falhou, resultando em mais animosidade ainda entre Bingham e Grace. Desde o ataque às suas terras em Carraigahowley, a principal fonte de renda de Grace derivava do mar. Ela montou com esmero sua esquadra de galeras, mas, depois que Theobald o atacou, Bingham retaliou, encurralando sua frota — um golpe do qual Grace jamais se recuperou totalmente. Pior ainda, seu filho Theobald decidiu então render-se a Bingham e, embora não tenha sido preso ou executado, foi despojado de seus poderes e obrigado a pagar grandes somas de dinheiro ao governador. A essa altura, Grace O’Malley estava com mais de sessenta anos, idade elevada para qualquer homem ou mulher no século XVI, ainda mais com o estilo de vida que ela escolheu levar. Reduzida ao status de viúva — despojada de suas terras, de seu gado, de seus navios —, com um filho assassinado e outro do lado de seu inimigo mortal, ela era uma mulher dilacerada e, por tudo isso, culpava apenas um homem: Sir Richard Bingham. Foi ele que a perseguiu 10 Ibidem.
  31. 31. Grace O’Malley sem piedade, ele que matou seu filho e ele que a humilhou. Grace precisava fazer algo espetacular para poder continuar viva. Em julho de 1593, a rainha Elizabeth I recebeu uma carta de "sua leal e fiel súdita, Grany Ne Mailly, de Connaught, do reino da Irlanda de Sua Alteza".11 Como declara Anne Chambers, a motivação que estava por trás dessa missiva era antes de tudo a sobrevivência, mas era também um meio de, caso não conseguisse se livrar completamente de Bingham, pelo menos diminuir a influência dele sobre sua vida. Grace começou tentando refutar as declarações de Bingham de que ela era pirata e rebelde, apresentando sua versão dos acontecimentos: por causa "da agitação de discórdia e divergência contínuas que durante muito tempo permaneceram entre os irlandeses, especialmente no oeste, em Connaught, próximo do mar, todos os chefes para sua salvaguarda e manutenção, e para a defesa de seu povo, seguidores e camponeses, pegaram em armas com mão forte para enfrentar seus vizinhos, e da mesma maneira obrigaram os admiradores de Sua Alteza a pegar em armas e pela força manter ela e seu povo no mar e na terra durante quarenta anos".12 Prossegue contando à rainha sobre seus dois casamentos, seus filhos, sua presente viuvez e sua situação empobrecida. Diz que vai de boa vontade ceder a Elizabeth as propriedades de seus dois filhos remanescentes e também as propriedades de seus dois sobrinhos, e depois disso apresenta o principal propósito de sua carta: a devolução de sua frota para que ela possa ter como ganhar a vida. Pede à rainha para, "através de sua mais benevolente assinatura, conceder-lhe liberdade durante sua vida, para combater todos os inimigos de Sua Alteza com espada e fogo, onde eles estiverem, sem qualquer interferência de quem quer que seja".13 Esta última cláusula obviamente se refere a Sir Richard Bingham, porque, segundo Grace, se ela conseguisse obter o favor da rainha Elizabeth, Bingham ficaria impotente para agir contra ela. 11 Ibidem. 12 Ibidem. 13 Ibidem.
  32. 32. 34 Enquanto isso, com essa carta a caminho da Inglaterra, as coisas pioravam na Irlanda. Ocorreu outro levante, dessa vez em Ulster. O norte da Irlanda, temendo que os ingleses fossem agora tentar expandir sua influência mais para o norte, montou um ataque maciço e o filho de Grace, Theobald, foi implicado no levante. Isso foi extremamente oportuno para Bingham, que imediatamente acusou Theobald de traição e o atirou na prisão em Athlone para aguardar julgamento. Temendo pela vida de seu filho e sabendo mais uma vez que tinha de fazer algo decisivo para salvá-lo, Grace O’Malley partiu para a viagem mais perigosa de sua vida. Ela própria capitaneando o navio (ou assim diz a lenda), cruzou o mar da Irlanda, passou por End's Land,* na Cornuália, depois pelo estreito de Dover até finalmente entrar no estuário do Tâmisa e ancorar próximo à ponte de Londres. Nessa época, dado o status de Grace como pirata e rebelde e dado o tenso clima político na Inglaterra com relação à invasão estrangeira (particularmente a ameaça espanhola), essa era uma viagem perigosa — alguns até diriam que temerária. Apesar disso, tendo conseguido chegar à cidade, também conseguiu chegar até a corte inglesa — mais provavelmente ao Palácio de Greenwich, para onde Elizabeth teria fugido em julho de 1593 devido a um surto de peste em Londres. A essa altura, Elizabeth estava no auge de seu poder. Era a "Deusa Brilhante e Celeste" do poema épico A rainha das fadas, de Edmund Spencer, e o que lhe faltava em beleza ela certamente compensava com trajes extravagantes e uma inteligência aguda. Em contraste, Grace O’Malley, embora mais ou menos da mesma idade que Elizabeth, havia vivido a maior parte da sua vida no mar e envolvida em batalhas em terra, e parecia muito mais velha. Diz-se que as duas mulheres se conheceram no final de julho e, pelo que se sabe, sua conversa aconteceu em latim — a rainha Elizabeth era particularmente fluente neste idioma. Grace teria ido a esse encontro acompanhada por um grupo de seus mais leais servidores e, quando chegou à corte inglesa, em vez de usar a * O ponto mais ocidental da Inglaterra. (N. T.)
  33. 33. Grace O’Malley roupa mais elegante que conseguisse encontrar, preferiu vestir um traje tradicional irlandês e ir descalça. O encontro das duas mulheres foi posteriormente relatado (em particular pelos irlandeses) como sendo o encontro de duas rainhas de igual estatura. Consta que Elizabeth estendeu sua mão a Grace e que, por esta ser mais alta, "a rainha inglesa foi obrigada a erguer sua mão para a rainha irlandesa".14 Durante o encontro, Elizabeth emprestou um lenço a Grace que, após usá-lo, atirou-o diretamente ao fogo. Consta que Elizabeth ficou chocada com esse ato, declarando que na Inglaterra os lenços são em geral guardados no bolso, não atirados ao fogo. Igualmente chocante foi a suposta recusa de Grace em aceitar o título de condessa, sob a alegação de que um título não podia ser concedido a alguém do mesmo status. Quando Elizabeth fez um comentário relacionado às dificuldades de ser uma rainha, com todos os deveres que tinha a cumprir, diz-se que Grace retorquiu que as mulheres em Mayo tinham problemas muito maiores... mas quanto disto tudo é verdade é muito difícil de saber. Esse encontro é inquestionável (há registros mostrando que Grace permaneceu na corte inglesa de junho a setembro de 1593), mas imagina-se que no correr do tempo a conversa entre as duas mulheres foi bastante floreada, a ponto de ser impossível decidir o que foi e o que não foi dito. Não há dúvida de que, depois de seu encontro, Grace permaneceu em Londres esperando a decisão de Elizabeth em relação a seu futuro. Enquanto isso, Bingham, percebendo que Elizabeth estava considerando o restabelecimento da frota de Grace e a libertação de Theobald, escreveu para a corte inglesa dizendo que, "contanto que Grany Ne Maly e ele não criassem problemas, o Estado não se preocuparia com suas queixas, mas, agora que estão sendo obrigados, apesar dos seus sentimentos, a se submeter às suas leis [de Sua Majestade], eles alegam muitos erros e não se envergonham em solicitar recompensa".15 14 Chambers, op. cit. 15 Documentos oficiais, op. cit.
  34. 34. 36 Mas as objeções de Bingham foram de pouca ou nenhuma valia, pois, no final de setembro, Elizabeth escreveu-lhe ordenando a libertação de Theobald e, além disso, dizendo-lhe que Grace tinha sua permissão para viver em paz e garantir o seu sustento até o fim dos seus dias. Num primeiro momento, Bingham obedeceu a contragosto, libertando Theobald da prisão em Athlone, em setembro do mesmo ano, 1593. Mas, quanto à segunda ordem da rainha — que ele deixasse Grace viver em paz e garantir seu sustento —, ele não a acatou completamente. Quando retornou à Irlanda, Grace começou imediatamente a recompor sua frota com a única intenção de se restabelecer como pirata ou, como ela declarou, restabelecer seu "sustento através do mar". Mas, no momento em que reiniciou suas atividades, Bingham enviou o capitão Strittes, juntamente com um grupo de soldados, para provocá-la e deter seus navios. Essa situação continuou até que finalmente, em 1597, Sir Richard Bingham foi substituído em Connaught por Sir Conyers Clifford — um homem que tomou uma atitude muito mais conciliatória com relação a Grace e a suas atividades de pirataria. Uma mulher educada, O’Malley viajou para Londres em 1593 para conversar com a rainha Elizabeth I, buscando sua proteção da perseguição na Irlanda e a libertação de seu filho da prisão.
  35. 35. Grace O’Malley A essa altura, no entanto, Grace estava com quase setenta anos, e, portanto, sem muitas condições de voltar ao seu antigo negócio. Enviou seus filhos em seu lugar. Eles recompuseram sua frota e logo estavam colhendo recompensas substanciais por seu esforço. Não se sabe a data precisa da morte de Grace O’Malley, mas imagina-se que ela morreu no castelo Carraigahowley no ano de 1603. Consta que seu túmulo está nas ruínas de uma abadia cisterciense em algum lugar da ilha Clare, de frente para o mar.
  36. 36. FRANÇOIS L'OLLONAIS O Flagelo dos Espanhóis Quando L'Olonnais tinha uma vítima na roda, se o infeliz não respondesse imediatamente suas perguntas, ele esquartejava o homem com seu sabre e lambia o sangue da lâmina, desejando que aquele fosse o último espanhol no mundo. ALEXANDER OLIVIER EXQUEMELIN, The Buccaneers of America "O homem de Olonne", às vezes conhecido como Jean-David Nau, mas mais lembrado como François L'Ollonais, foi, segundo Alexander Olivier Exquemelin, um dos homens mais famosos a navegar pelos mares. Exquemelin devia saber do que estava falando, já que ele serviu sob as ordens de L'Ollonais e Henry Morgan, descrevendo suas experiências em seu grande sucesso The Buccaneers of America. L'Ollonais era extremamente cruel, especialista em torturas bárbaras, sendo o próprio símbolo do tipo de pirata sanguinário que habita os pesadelos. Embora ninguém saiba a data exata de seu nascimento, imagina-se que François L'Ollonais nasceu na França em torno de 1635, na região de Sables d'Olonne. Quando menino, foi levado para o Caribe, onde serviu como criado durante três anos, e depois teria se juntado a caçadores de gado de Hispaniola, antes de se estabelecei na pirataria
  37. 37. 40 No início da década de 1660, L’Ollonais mudou-se para a ilha de Tortuga (ver Glossário), onde fez amizade com o governador Monsieur de la Place, que lhe deu um navio, do qual L'Ollonais foi feito capitão e instruído a levantar âncora para ir atrás de seu destino — o que fez atacando principalmente navios espanhóis. Segundo Exquemelin, "suas crueldades contra os espanhóis eram tais que o tornaram famoso nas Índias. Por essa fama, os espanhóis, quando eram atacados no mar, tinham de escolher se morriam ou afundavam lutando, em vez de se render, pois sabiam que não receberiam clemência ou piedade". Na verdade, seus ataques aos espanhóis eram tão atrozes que ele recebeu o apelido de "Fléau des Espagnols", Flagelo dos Espanhóis. Mas eles tiveram sua vingança: após vários ataques bem-sucedidos contra os espanhóis, o navio de L’Ollonais naufragou na costa de Campeche durante uma tempestade extremamente violenta. Todos a bordo conseguiram nadar até a praia, mas, ao atingir a terra, os colonizadores espanhóis, reconhecendo-os, mataram a maioria e feriram L'Ollonais, que só conseguiu escapar da morte porque se escondeu entre os cadáveres de seus camaradas até os espanhóis se afastarem. Após escapar por pouco, L'Ollonais fugiu para uma floresta, onde curou seus ferimentos e, disfarçado de camponês espanhol, seguiu para a cidade de Campeche, onde fez amizade com alguns escravos que foram persuadidos a ajudá-lo a roubar uma canoa. L'Ollonais então partiu para o mar, dirigindo-se diretamente para Tortuga, "o local de refúgio habitual de todo tipo de maldade e a escola, digamos assim, de todo tipo de piratas e ladrões".1 Uma vez na ilha, L'Ollonais conseguiu outro navio e uma tripulação de 21 homens, com que navegou em direção a Cuba, para uma pequena cidade chamada De los Cayos, onde lhe disseram que poderia conseguir bons lucros. No entanto, sem ele saber, os cidadãos de De los Cayos, alertados sobre a sua chegada, avisaram o governador de Havana de que eles estavam prestes a ser atacados. Um navio armado com dez canhões e cinqüenta homens foi enviado para ajudar a repelir o ataque. Também estava a bordo, 1 Exquemelin, The Buccaneers of America, Londres, 1684.
  38. 38. François L'Ollonais François L'Ollonais, que teria nascido na França em torno de 1635, abrigava um ódio intenso dos espanhóis e tratava os prisioneiros espanhóis com assustadora crueldade. Os afortunados eram decapitados, mas outros ele esquartejava com seu alfanje. segundo Exquemelin, um negro que iria atuar como carrasco para executar, sob as ordens do governador de Havana, todos os piratas que fossem capturados — isto é, todos exceto L'Ollonais, que seria arrastado até Havana para enfrentar a justiça. Mas os espanhóis não estavam à altura de L'Ollonais e logo o navio cubano foi capturado, juntamente com sua tripulação. L'Ollonais então ordenou que todos os prisioneiros, um a um, fossem para o convés, onde foram obrigados a se ajoelhar diante dele antes de terem suas cabeças cortadas. Chegou a vez do carrasco negro que, pedindo clemência a L'Ollonais, suplicou para não ser morto, prometendo dar todas as informações que o pirata quisesse. O francês concordou, mas, assim que o carrasco lhe contou o que ele precisava, L'Ollonais o assassinou da mesma forma que os outros. Só uma pessoa foi poupada da morte: um rapaz, que foi enviado a Havana com uma mensagem de L'Ollonais para o governador, dizendo: "daqui em diante eu jamais terei clemência com nenhum espanhol; e tenho grandes esperanças de submeter a sua pessoa à mesma punição que sofreram os homens que enviou contra mim. Assim, terei revidado toda a bondade que o senhor destinou a mim e a meus companheiros".2 2 Ibidem
  39. 39. 42 L'Ollonais, de posse de um novo navio, partiu para Maracaibo, onde capturou uma embarcação carregada de artefatos de prata e outros objetos de valor. Voltou para Tortuga, onde reuniu uma força de cerca de quinhentos "vilões selecionados",3 incluindo um homem chamado Michael de Basco, a quem L'Ollonais encarregou dos ataques por terra. Na primavera de 1667, tendo conseguido homens suficientes com os quais poderia tomar portos e cidades importantes, L'Ollonais e sua frota partiram para o norte de Hispaniola, onde renovaram seus suprimentos e depois se dirigiram ao cabo leste da ilha, Punta d'Espada. No caminho encontraram um navio cargueiro espanhol, que L'Ollonais decidiu capturar. A batalha que se seguiu durou cerca de três horas e terminou com a rendição dos espanhóis. Havia a bordo uma carga de 120 mil weight (um weight equivalendo a uma libra) de cacau, 40 mil pesos de prata e inúmeras jóias. L'Ollonais selecionou vários homens da maior confiança e os enviou de volta a Tortuga com o navio cargueiro, com instruções estritas de descarregá-lo e depois retornarem para se juntar à frota na ilha de Savona. Enquanto isso, ele seguiu viagem, encontrando outro navio de carga espanhol — carregado com provisões militares que incluíam 7 mil weight de pólvora e muitos mosquetes, e 12 mil pesos de prata. L’Ollonais e seus homens também tomaram esse navio e o enviaram para Tortuga. Entusiasmada com esses dois sucessos, a frota pirata de L'Ollonais rumou para Maracaibo, no golfo da Venezuela. Apesar de a cidade ser defendida pelo lado do mar por uma enorme fortaleza e dezesseis canhões, os piratas derrotaram facilmente os soldados do local e depois "marcharam para a cidade, o que se seguiu podendo bem ser imaginado. Foi um holocausto de luxúria, paixão e sangue como jamais as Índias Ocidentais Espanholas haviam visto. Casas e igrejas foram saqueadas até não sobrar nada senão as paredes nuas; homens e mulheres foram torturados até revelarem onde havia mais tesouros escondidos".4 3 Howard Pyle, Howard Pyle's Book of Pirates, Nova York, Harper & Brothers, p. 1921. 4 Ibidem.
  40. 40. François L'Ollonais Naquela mesma noite, os piratas foram até a floresta e voltaram trazendo 20 mil pesos de prata, mulas carregadas com produtos domésticos e também vinte prisioneiros. Os prisioneiros homens eram colocados na roda para confessar onde haviam escondido o resto de seu tesouro, mas muito pouca informação se conseguiu extrair deles. L'Ollonais pegou um alfanje e esquartejou um deles diante dos outros, dizendo-lhes que, a menos que obedecessem a suas ordens, sofreriam o mesmo destino. A ameaça foi suficiente para amedrontar pelo menos um dos prisioneiros, que mostrou aos piratas onde ele achava que o resto dos espanhóis estava escondidos, mas, quando L'Ollonais e seu bando chegaram lá, todos já haviam desaparecido e o pobre homem, que havia ido como seu guia, foi esquartejado como seus companheiros. Esta era obviamente a única maneira que L'Ollonais conhecia para agir diante da oposição. Para ele — como para praticamente qualquer pirata —, a violência era uma segunda natureza. Esses atos eram usados não apenas como um meio de obrigar seus prisioneiros a se submeterem a eles, mas também como um meio de construir suas reputações. Quanto mais terrível as pessoas o considerassem, maior a probabilidade de cumprirem suas exigências. Há inúmeras histórias de atrocidades de piratas — Bartholomew Roberts (ver a p. 129) era conhecido em toda parte por seus atos de violência. Os cidadãos de Barbados e da Martinica eram particularmente aterrorizados por ele, principalmente porque os governos dessas duas ilhas estavam ansiosos para capturar Roberts e levá-lo a julgamento. A violência que ele usava contra os marinheiros desses lugares era doentia, como é registrado num trecho de um relatório enviado a Londres em 1721 contando que, após capturar um navio que saía da Martinica e prender sua tripulação, "alguns [os marinheiros] foram açoitados quase até a morte, outros tiveram suas orelhas cortadas, outros foram amarrados na ponta da verga e usados como alvo".5 Roberts estava longe de ser o único a praticar esses atos perversos. Diz-se que, quando o pirata Philip Lynne foi 5 Calendar of State Papers: Colonial, America and West Indies, vol. 1720-21, nº 463 (iii).
  41. 41. 44 capturado em 1726, confessou ter assassinado cerca de 37 capitães do mar. Outro pirata famoso por sua violência foi Edward Low (ver p. 161) que, como disse Charles Johnson em A General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates, nasceu para uma vida de crime. O comportamento violento inicial de Low perdurou até seu fim e é bem ilustrado por um incidente particularmente horrível que foi relatado pelo governador de St. Kitts ao Conselho de Comércio e Agricultura em 1724.6 O capitão Edward Low "capturou um navio português que voltava do Brasil para Portugal; seu mestre havia pendurado 11 mil moidores* de ouro em um saco do lado de fora da janela da cabine, e, assim que o navio foi tomado por Low, ele cortou a corda e deixou o saco cair no mar; por isso, Low cortou os lábios do mestre e o grelhou diante de seus olhos, e depois matou toda a tripulação de 32 pessoas".7 O capitão George Lowther foi outro famoso pirata cuja reputação desprezível incluía a pilhagem de um navio chamado Greyhound. Os piratas "não só atiraram no navio, mas chicotearam, espancaram e esfaquearam os homens de maneira cruel, transferiram-nos para o seu navio e incendiaram o deles".8 Atos ignóbeis como este não eram uma exceção — eram a regra. Como explica Alexander Olivier Exquemelin em seu livro Buccaneers of America, os piratas do mundo todo realizavam esses atos. "Entre outras torturas usadas na época, uma delas era esticar os membros [dos prisioneiros] com cordas e, ao mesmo tempo, espancá-los com paus e outros instrumentos. Outra era colocar fósforos acesos entre seus dedos, que eram assim queimados. Outra ainda era enrolar cordas finas ou estopins em volta de suas cabeças até seus olhos saírem das órbitas." Outro "passatempo" dos piratas — algo que eles faziam para se divertir quando estavam entediados ou imaginando maldades — era jogar o chamado "Transpiração": velas eram colocadas 6 * 7 8 Cordingly, Life Among Pirates, Londres, Little, Brown and Company, 1995. Moidores: moeda de ouro portuguesa no valor de seis dólares e meio. (N. T.) Calendar of State Papers, op. cit., nº 102. Johnson, A General History..., op. cit.
  42. 42. François L'Ollonais em um círculo no convés e depois acesas; em seguida, um ou vários prisioneiros eram obrigados a correr em torno desse círculo enquanto eram furados pelos piratas com facas ou baionetas até estarem exaustos demais para se mover e caíam no convés. No entanto, embora estivessem habituados a torturar prisioneiros, o autor David Cordingly tem dificuldade para dizer em seu livro Life Among the Pirates sobre o costume de "caminhar na prancha", que mal é mencionado nos documentos desse período. Na verdade, o único relato que existe dessa prática parece ter sido publicado no jornal The Times de 23 de julho de 1829, quando é feita menção a um navio holandês, o Vhan Fredericka, que estava indo para a Jamaica quando foi capturado por piratas. Durante a confusão, a tripulação holandesa do navio tentou deter os piratas, mas só conseguiram provocar "o riso dos rufiões, que obrigaram os infelizes ao que é chamado de 'caminhar na prancha'". Outras referências a essa prática são menos confiáveis e tendem — muito provavelmente — a ser a idéia fantasiosa de um ou outro escritor. Howard Pyle, em seu Book of Pirates, acusa o Barba Negra dessa prática, "pois nele temos um verdadeiro pirata fanfarrão, feroz e turbulento — um pirata que realmente enterrou tesouros, fez mais de um capitão caminhar na prancha, e cometeu mais assassinatos do que poderiam contar os dedos de suas duas mãos". É também famoso um desenho que Pyle fez para o Harper's Monthly Magazine, em 1887, ilustrando a prática com um desenho de um grupo de diabólicos piratas instigando um cativo com os olhos vendados até sua morte no fim de uma prancha. É claro que numa época em que todo tipo de pessoas, incluindo mulheres e crianças, podia ser condenado à morte pelo Estado por crimes como roubar uma fatia de pão, pouco espanta que os piratas praticassem a tortura. Aquela era uma época violenta, cm que todos estavam muito mais familiarizados com a morte do que a maioria de nós está hoje, em que as execuções eram realizadas em público e era considerado um passatempo assistir a alguém ser enforcado ou decapitado. Além disso, qualquer homem que se unisse a uma unidade naval tinha consciência da disciplina rígida a bordo do navio. Pouco espanta também que, tendo vivido
  43. 43. A barbaridade de L'Ollonais não se restringia àqueles capturados no mar. Centenas de prisioneiros eram feitos quando ele e seus homens atacavam cidades da costa e portos. Eles eram torturados para revelar os esconderijos de qualquer coisa de valor, e aqueles que não cooperavam ou não podiam cooperar sofriam uma morte lenta e dolorosa. nessa época, piratas como François L'Ollonais pensassem em atormentar suas vítimas das maneiras mais cruéis imagináveis. Depois do ataque a Maracaibo, L’Ollonais finalmente deixou a cidade, cruzando o lago Maracaibo e se aventurando em outra comunidade - uma cidade chamada Gibraltar. Depois de
  44. 44. François L'Ollonais uma prolongada batalha, durante a qual L'Ollonais perdeu cerca de setenta homens, a guarnição foi vencida e a cidade saqueada. Os piratas ficaram na região pouco mais de um mês, pilhando e cobrando muito dinheiro para não incendiar as propriedades. Grande número de cidadãos morreu, muitos de fome, pois os piratas confiscaram todas as provisões e o gado. "Finalmente, depois de ficarem de posse da cidade durante quatro semanas inteiras, enviaram quatro dos prisioneiros que tinham permanecido vivos para os espanhóis que haviam fugido para a floresta, exigindo deles um pagamento de 10 mil pesos de prata para não incendiarem e reduzirem a cinzas toda a cidade."9 A ameaça funcionou e vários dias mais tarde a quantia foi paga, mas L'Ollonais ainda parecia insatisfeito com a quantidade de dinheiro que havia conseguido. Ele e seus homens voltaram para Maracaibo onde, pela segunda vez em alguns meses, ameaçaram incendiar a cidade se não recebessem um pagamento de 30 mil pesos de prata. Finalmente, foram estabelecidos os termos: os cidadãos de Maracaibo pagaram aos piratas 20 mil pesos de prata e quinhentas vacas. L'Ollonais e sua frota rumaram então para a Île des Vaches (também conhecida como Cow Island), um local muito freqüentado pelo pirata Henry Morgan (ver a p. 53). Ali descarregaram a sua carga de pilhagem (em torno de 260 mil pesos de prata, além de jóias, seda, linho e "outros produtos"), que foi então dividida entre os homens. Aqueles que foram feridos durante a viagem, particularmente os que tinham perdido membros, foram substancialmente recompensados por seus ferimentos. Após a divisão, a frota voltou para Tortuga. Quando L'Ollonais chegou à ilha, foi recebido como herói, e ele e seus piratas passaram a comemorar tanto que logo haviam gastado todo o dinheiro em bebida, jogo e mulheres. No final de 1667, L'Ollonais resolveu empreender uma nova missão, dessa vez para Cuba, onde planejava saquear o maior número possível de cidades e aldeias. Reuniu cerca de setecentos homens a bordo de uma frota de navios e partiu. No caminho, no entanto, a frota pirata saiu do curso e teve sua rota desviada para o 9 Exquemelim, op. cit.
  45. 45. 48 golfo de Honduras. Lá, L'Ollonais se esforçou muito e durante longo tempo para fazer sua frota voltar ao curso original, mas sem sucesso; com os suprimentos cada vez mais reduzidos, decidiu baixar âncora o mais perto possível da costa. Os piratas então pegaram canoas e subiram remando o rio Xagua, que tem, ao longo de suas margens, vários assentamentos indígenas. Os piratas roubaram alimentos e gado das tribos, e decidiram permanecer na área pilhando o máximo que pudessem até que finalmente chegaram a Puerto Cavallo. Este era um grande porto espanhol e, por isso, ocorreu de, ao mesmo tempo que os piratas entravam, um grande navio espanhol armado com 24 canhões ingressar nas docas. Os piratas imediatamente tomaram esse navio, juntamente com a maior parte das casas do porto. Também fizeram centenas de prisioneiros, nos quais perpetraram as mais terríveis e desumanas crueldades jamais inventadas, submetendo-os às mais cruéis torturas que se poderia imaginar. Era costume de L'Ollonais que, se torturasse quaisquer pessoas e estas não confessassem, ele instantaneamente as esquartejava com sua espada e arrancava suas línguas; desejando fazer o mesmo, se possível, com todos os espanhóis do mundo. Freqüentemente acontecia de alguns desses miseráveis prisioneiros, sendo torturados pela roda, prometerem descobrir os lugares onde os espanhóis fugitivos estavam escondidos; se não conseguissem cumprir o prometido, eram submetidos a mortes mais monstruosas e cruéis do que aquelas que haviam enfrentado antes.10 Após restarem vivos apenas dois prisioneiros, os piratas marcharam para a cidade de San Pedro. No caminho, sofreram a emboscada de um grupo de espanhóis que, apesar de matarem muitos dos piratas, foram finalmente derrotados. L'Ollonais então torturou todos aqueles que não morreram na luta - perguntandolhes se havia mais emboscadas à frente e, se houvesse, se havia outro caminho para se chegar à cidade. No entanto, L'Ollonais não 10 Ibidem.
  46. 46. François L'Ollonais acreditou neles e, arrastando um infeliz até a sua frente, diz-se que abriu seu peito com um punhal e arrancou seu coração, que então passou a morder e roer "como um lobo raivoso", enquanto gritava para os outros que era isso que os esperava se não lhe mostrassem outro caminho para chegar a San Pedro. Temendo por suas vidas, os prisioneiros remanescentes prometeram mostrar a L'Ollonais outra rota para a cidade, mas acrescentaram que era uma rota muito difícil de transpor. Logo depois, os prisioneiros e seus captores partiram para San Pedro, mas, como haviam dito, o caminho era muito perigoso e, finalmente, L'Ollonais recuou e seguiu o caminho original. No dia seguinte, L'Ollonais sofreu uma segunda emboscada, mas derrotou os espanhóis em algumas horas, matando a maioria deles ali mesmo. Aqueles que não matou, levou com ele como prisioneiros. L'Ollonais sofreu então uma terceira emboscada, mas, ao contrário dos dois primeiros ataques, esta foi montada por um grupo muito mais forte de espanhóis, que conseguiu matar e ferir muitos piratas, antes de finalmente acenar a bandeira branca. Finalmente, L'Ollonais chegou a San Pedro, que ele saqueou (embora não houvesse muita coisa a ser arrebanhada ali, pois os habitantes, sendo advertidos da aproximação dos piratas, tinham fugido com todos seus bens de valor para a região rural em volta). L'Ollonais e seus homens então se dirigiram à costa. Cansados e famintos, os piratas começaram a fazer redes de pescar para se alimentar e readquirir sua força antes de voltar para seus navios. Os piratas já estavam no golfo havia quase três meses, durante os quais tinham saqueado muitas cidades e aldeias espanholas, quando ouviram falar de um grande navio espanhol armado com 42 canhões que estava na área. L'Ollonais não perdeu tempo em atacar e o navio foi capturado, mas uma surpresa os aguardava — ele não estava carregado de pilhagem, pois a maior parte da sua carga já havia sido descarregada. O único "tesouro" deixado a bordo eram algumas jarras de vinho, cinqüenta barras de ferro e um pequeno lote de papel. Furioso diante desse escasso butim, L'Ollonais convocou um conselho de toda a frota e anunciou que iam partir para a
  47. 47. 50 Nicarágua. Alguns de seus homens gostaram da idéia, mas a maioria resolveu voltar para Tortuga. Desfalcado de grande parte da sua frota, L'ollonais rumou para a costa do Mosquito, na Nicarágua, mas mais uma vez foi abatido pela má sorte. Navegando muito próximo às ilhas De Las Pertas, seu navio bateu em um banco de areia, onde "encalhou tão depressa que não houve meios de se conseguir colocá-lo novamente em águas profundas".11 A única maneira que L'Ollonais pôde vislumbrar de tirar seu navio daquela situação foi descarregar todos os seus canhões, ferro e outros materiais pesados, mas mesmo assim não foi bem-sucedido. L'Ollonais então ordenou a seus homens que desmontassem o navio e construíssem outro com as antigas tábuas e pregos. Enquanto isso, dois dos homens da tripulação de L'Ollonais, um francês e um espanhol, foram enviados à floresta próxima para ver que tipo de alimentos poderiam conseguir. Era um território perigoso, pois as ilhas De Las Pertas eram habitadas principalmente por índios, que Exquemelin descreve como "selvagens". Os dois homens andaram pelas florestas para ver o que conseguiam encontrar, mas logo se depararam com um grupo de índios que começou a persegui-los. Quando os índios finalmente alcançaram suas presas, começou uma luta. Os piratas se defenderam, mas o espanhol foi capturado. O francês escapou e correu de volta para o local onde L'Ollonais e o resto dos piratas estavam reconstruindo seu navio. Doze deles se juntaram e partiram para verificar o acontecido com seu companheiro. Quando chegaram ao local onde o espanhol havia sido visto pela última vez, tudo o que ele e os outros piratas conseguiram encontrar foram os remanescentes de uma fogueira e alguns pedaços de carne e ossos, "e uma mão, à qual só restavam dois dedos".12 Determinados a pegar os responsáveis pelo canibalismo, os piratas partiram em busca dos índios e, aos encontrá-los, levaram cinco dos homens e quatro das mulheres para bordo do seu novo navio. Mas, estranhamente, visto que L'Ollonais não era o melhor ou o 11 Ibidem. 12 Ibidem
  48. 48. François L'Ollonais Howard Pyle, que escreveu e ilustrou o Howard Pyle's Book of Pirates, produziu esta imagem de um infeliz prisioneiro sendo obrigado a “caminhar na prancha”, embora esta não fosse uma forma comum de punição ou tortura entre os piratas.
  49. 49. 52 mais clemente dos indivíduos, ele e seus homens não trataram mal os índios. Em vez disso, deram-lhes alimento e água e algumas bugigangas sem valor para conquistar sua confiança. Entretanto, não obtiveram sucesso, e os índios continuaram com medo de seus captores, sendo, finalmente, soltos pelos piratas. A construção do novo barco continuava, mas foi uma tarefa longa e trabalhosa e, para poderem comer, alguns piratas começaram a cultivar a terra, tentando plantar frutas e vegetais. Dizem que L'Ollonais e seus homens ficaram em De Las Pertas durante cinco a seis meses, quando finalmente ficou pronto o novo navio. Um grupo selecionado de piratas decidiu rumar para o rio Nicarágua para ver se conseguiam roubar algumas canoas dos índios nativos e retornar a De Las Pertas para pegar os homens remanescentes. L'Ollonais e os poucos homens escolhidos partiram com toda a intenção de retornar, mas a má sorte iria perseguir o pirata francês, pois, em vez de se defrontar com um grupo de índios que ele pudesse facilmente atacar e capturar, encontrou os índios de Darien — um grupo de nativos tão violentos e selvagens que nem seus vizinhos espanhóis, com todas as armas que possuíam, ousavam atacá-los. L'Ollonais não sabia disso e, pensando que poderia tratá-los como tratava todos os seus inimigos, precipitou-se para o meio deles. Foi um erro fatal. Os índios lutaram com bravura e capturaram L'Ollonais e "esquartejaram-no vivo, atirando seu corpo, pedaço por pedaço, na fogueira, e suas cinzas misturaram-se ao ar; com a intenção de não deixar vestígio nem memória dessa criatura tão infame e desumana".13 Parecia um fim adequado para alguém que torturava e assassinava tão terrivelmente seus prisioneiros. Ninguém chorou a sua morte — incluindo seus próprios homens, muitos dos quais tiveram o mesmo fim que seu capitão, tendo seus membros arrancados, um a um, e depois assados num espeto e consumidos. 13 Ibidem.
  50. 50. HENRY MORGAN O Maior de Todos os Bucaneiros Os cabelos de Morgan estão desarrumados, Seus lábios rachados e secos, Sua barba loira embaraçada, E seu chapéu de plumas torto: Mas sua voz ainda soa como um trovão Através da clareira da selva fétida Enquanto ele marcha, atrevido como Lúcifer, Conduzindo sua brigada sombria. “Henry Morgan's March on Panamá”, A.G. PRYS-JONES, 1888-1987 Quando Henry Morgan morreu em casa, na Jamaica, em 25 de agosto de 1688, dizem que o duque de Albermarle ficou arrasado. Na verdade, ficou tão triste que imediatamente ordenou um funeral oficial com uma salva de 22 tiros de canhão. O corpo de Morgan foi depois levado para King's House, em Port Royal, onde permaneceu com grande pompa para que amigos e conhecidos pudessem prestar seus últimos respeitos. Depois, o caixão foi colocado em uma carreta de canhão puxada por cavalos que percorreu as ruas da cidade até a igreja de St. Peter. O capitão Laurence Wright assim anotou os eventos em seu diário: "Sábado, 25. Neste dia, mais ou menos entre 11 horas e meio-dia, Sir Henry Morgan morreu, e no dia 26 foi levado de Passage Fort para King's House em Port Royal; de lá para a igreja, e, após um sermão, para Pallisadoes, onde foi enterrado. Todos os fortes deram o mesmo
  51. 51. 54 número de tiros de canhão, nós e o Drake disparamos 22 vezes e, depois, todos os mercantes dispararam".1 Era uma despedida extraordinária para qualquer homem, que dirá para um bucaneiro, alguém que havia passado grande parte da sua vida às margens da respeitabilidade, um homem que na sua época saqueou não apenas em alto-mar, mas em ataques a muitos assentamentos espanhóis, encorajando seus homens a usar torturas brutais para extrair informações de suas vítimas. Mas Henry Morgan não era um pirata comum, um indivíduo banal. No início de sua carreira, ele rapidamente assumiu a liderança de um grupo de corsários e piratas conhecidos como os Confrades da Costa (ver Glossário). Mais tarde, saqueou Puerto Príncipe, em Cuba, e atacou Portobello. Em 1671, tomou a cidade do Panamá, que naquela época era considerada a mais rica povoação do Novo Mundo. Três anos depois, recebeu um título de nobreza e foi nomeado, por ninguém menos do que o rei Carlos II, representante eleito do governador da Jamaica. Além disso, mantinha uma vida familiar estável, casado e feliz com Dame Mary Elizabeth Morgan durante mais de vinte anos. Henry Morgan foi um empresário astuto, adquirindo várias centenas de acres de terra na Jamaica, que dirigia como um negociante extremamente bem-sucedido. Morgan nasceu em Glamorganshire, no País de Gales, em torno de 1635. Seu pai era Robert Morgan, de Llanrhymni, uma pequena aldeia localizada próximo à cidade de Cardiff. Pouco se sabe sobre a infância de Morgan, exceto que ele provavelmente tinha dois tios militares — o major-general Sir Thomas Morgan e o coronel Edward Morgan, que mais tarde viria a ser o governador de Jersey. Determinado a seguir seus tios na carreira militar, Henry uniu-se, em 1654, a uma força militar liderada pelo almirante Penne e pelo general Venables que tinha como objetivo capturar Hispaniola (ver o Glossário). Entretanto, os espanhóis resistiram ferozmente e, por fim, Penn e Venables tiveram que se retirar. Reagrupados, a próxima meta dos militares foi atacar a 1 Dudley Pope, Harry Morgan's Way, Londres, Secker & Warburg, 1977.
  52. 52. Henry Morgan Jamaica — com muito mais sucesso do em que em sua missão anterior, provavelmente porque havia menos soldados espanhóis para defender a ilha. Daí em diante, a Jamaica foi proclamada britânica e, conseqüentemente, tornou-se um porto seguro tanto para a Marinha Real quanto para muitos corsários. Henry Morgan então passou alguns anos envolvido em ataques a povoados espanhóis na América Central. Em 1663, liderou um ataque que devastou Villahermosa e também saqueou Gran Granada, na Nicarágua.2 Retornando à Jamaica em 1665, Morgan era agora um homem de alguma importância militar. Quando Edward Mansfield (às vezes escrito Mansvelt), na época líder dos corsários e bucaneiros jamaicanos, foi executado pelos espanhóis em Havana, parecia natural que Morgan o substituísse. Devidamente escolhido para o posto, Morgan tornou-se o que na época era em geral conhecido como o "Almirante dos Confrades da Costa" — uma turbulenta fraternidade cujos membros eram unidos pelo amor à aventura, pela atração pelo ouro e pelo ódio à Espanha e aos espanhóis. O primeiro ato de Morgan como "almirante" foi planejar um ataque a Santa Maria de Puerto Príncipe (também conhecida como Camaguey). Ele e seus bucaneiros partiram para Cuba, onde desembarcaram e iniciaram uma caminhada longa e difícil até a cidade. No entanto, as notícias do avanço de Morgan logo chegaram a Puerto Príncipe, onde as autoridades locais se apressaram em enterrar todos os seus tesouros, ao mesmo tempo que erguiam defesas contra o assalto iminente. Quando Morgan se aproximou, descobriu que os principais caminhos para chegar à cidade haviam sido bloqueados e estavam intransponíveis. Teve de fazer seus homens dar uma longa volta por uma área de floresta que ia desembocar no campo. Apesar de todos os esforços dos habitantes do local para defender sua cidade, quando os homens de Morgan atingiram as cercanias do local e iniciaram os combates corpo-a-corpo, eles foram rapidamente vencidos. Com a cidade dominada, os bucaneiros de Morgan capturaram o máximo possível de homens, mulheres e crianças e os aprisionaram em várias igrejas da cidade. 2 Cordingly, Life Among the Pirates, Londres, Little, Brown and Company, 1993.
  53. 53. 56 Então, estabeleceram um preço para a cabeça de cada prisioneiro e lhes disseram que não receberiam comida nem água enquanto o resgate não fosse pago. Muitas pessoas morreram durante esse chamado "cerco" — embora alguns dos detidos tenham conseguido aparecer com ouro e jóias suficientes para satisfazer a ganância dos bucaneiros e foram libertados. Por fim, depois de cerca de duas semanas saqueando a cidade, Morgan e seus homens voltaram à Jamaica, onde logo depois ele planejou outro ataque ousado, dessa vez à cidade espanhola de Puerto Bello, no Panamá. Puerto Bello era a terceira maior cidade do Novo Mundo (depois de Havana e Cartagena) e oferecia ricos butins, como declarou o cirurgião-barbeiro* e bucaneiro, Lionel Wafer, quando visitou o local em 1680. Em sua opinião, Puerto Bello era "um porto muito bonito, grande e confortável, proporcionando uma boa ancoragem e um bom abrigo para os navios, tendo uma entrada estreita que depois se amplia bastante. Os galeões da Espanha encontram boa ancoragem aqui durante sua permanência para realizar negócios em Portobel; pois aqui recolhem tesouros do Peru que são para cá trazidos por terra do Panamá".3 Empenhando-se na captura de Puerto Bello, Morgan dispôs-se a conhecer todos os pontos fracos do porto, e descobriu que os dois fortes espanhóis que defendiam a cidade de ataques marítimos estavam inadequadamente equipados de homens. Calculando que um ataque-surpresa por terra seria sua melhor tática de ação, em julho de 1668 Morgan rumou com sua frota de doze navios para a baía de Boca del Tora, que fica a oeste de Puerto Bello. Lá ele ordenou à sua força de combate de quinhentos homens que embarcasse em uma série de canoas especialmente construídas e, ao abrigo da noite, remasse ao longo da costa até enxergar seu alvo. Em torno da meia-noite, os bucaneiros abandonariam suas canoas e * O cirurgião-barbeiro praticava sangrias e escarificações, aplicava ventosas, sanguessugas e clísteres, lancetava abscessos, fazia curativos, excisava prepúcios, tratava as picada de cobras, arrancava dentes. A maioria era constituída de leigos, incultos e de humilde classe social. (N. T.) 3 Pope, op. cit.
  54. 54. Henry Morgan continuariam por terra, chegando aos arredores de Puerto Bello pouco antes do amanhecer. Um grande estrategista, Morgan sabia que sua primeira missão era capturar o posto de observação da cidade, missão que rapidamente realizou, mas não antes de uma das sentinelas disparar um tiro que alertou os soldados que guardavam os dois fortes espanhóis. Esses soldados rapidamente lançaram um alarme que acordou toda a cidade, fazendo que centenas de cidadãos fugissem para salvar suas vidas. Frustrado o ataque-surpresa, Morgan enviou seus homens para a cidade, onde esperavam ficar sob fogo pesado do castelo de Santiago, mas só um canhão foi disparado das muralhas. O tiro foi mal dirigido e não deteve os atacantes. Enxergando a oportunidade, os bucaneiros correram para a cidade e capturaram o máximo possível de homens, mulheres e crianças, trancando-os em uma igreja. Um segundo grupo de bucaneiros subiu numa pequena colina, do alto da qual conseguiam ver toda Puerto Bello. De lá, começaram a disparar nos soldados do castelo de Santiago, executando-os um por um. Tendo assumido a cidade, Morgan e seus homens visaram então aos fortes de San Geronimo e Santiago. San Geronimo estava situado em uma ilha próxima do cais do porto e, embora de início os soldados (cerca de 150) tenham resistido ao ataque de Morgan, quando viram quantos bucaneiros estavam investindo contra eles, rapidamente decidiram se render. Santiago era um alvo bem mais difícil, e, percebendo isso, acredita-se que Henry Morgan empregou táticas infames. Sabendo que não poderia conduzir seus homens com segurança até o castelo sem que eles fossem atacados das muralhas, arrastou várias centenas de seus reféns (incluindo mulheres e crianças) das igrejas onde estavam trancados e os usou como escudos humanos. O estratagema funcionou, pois, embora vários tiros tenham sido disparados das muralhas do forte, poucos homens de Morgan morreram. Enquanto isso, não satisfeito em atacar o forte apenas por terra, Morgan também fez um destacamento de seus bucaneiros se aproximar do forte pelo mar, de onde ergueram escadas e escalaram os muros. Entrando no castelo, içaram a bandeira vermelha, o sinal
  55. 55. 58 para o restante dos bucaneiros atacar o forte, o que fizeram com violência. Quarenta e cinco dos oitenta soldados da guarnição foram mortos na batalha subseqüente, incluindo o guardião da artilharia que, segundo alguns relatos, consta ter sido tão humilhado pela derrota de seus soldados que implorou para ser morto - e um dos homens de Morgan "amavelmente o executou com sua pistola".4 Outros relatos narram os homens de Morgan estuprando as mulheres e saqueando a cidade durante os quinze dias seguintes - mas isto é refutado pelo cirurgião-barbeiro e bucaneiro Richard Browne, que estava presente durante o ataque a Puerto Bello e escreveu em 1671: "o que aconteceu no combate e no auge do derramamento de sangue eu presumo que seja justificável. Quanto às suas mulheres, desconheço a ocorrência de qualquer coisa tomada contra a sua vontade. Algo de que tenho conhecimento foi a execução cruel, pelo capitão Collier, de um frade no campo de batalha após a tomada de um forte. Já o almirante [Morgan], era muito magnânimo com o inimigo vencido".5 Tendo tomado o castelo de Santiago, na manhã seguinte Morgan enviou dois de seus bucaneiros até o porto, para o castelo de San Felipe (ou San Phelipe), exigindo sua rendição. Mas, apesar de terem muito poucas provisões, o líder da guarnição, de início, se recusou a ceder às ameaças de Morgan. Estava determinado a resistir até o último minuto, mas, quando Morgan mandou algumas centenas de seus bucaneiros mais aparentemente ferozes para tomar o forte, o líder da guarnição mudou de opinião. Essa "virada" não teve boa repercussão com os outros oficiais de San Felipe, que começaram a questionar a decisão do seu comandante. Enquanto o inimigo estava ocupado discutindo entre si, Morgan enviou uma tropa de bucaneiros para o interior do castelo, obrigando a guarnição a se render. Tendo capturado não apenas a cidade, mas também os principais fortes de Puerto Bello, Henry Morgan enviou então uma carta ao presidente do Panamá, Don Agustín de Bracamonte, 4 Ibidem. 5 Breverton, Admiral Sir Henry Morgan, Louisiana, Pelican, 2005.
  56. 56. Henry Morgan exigindo 100 mil pesos de prata ou do contrário toda a cidade seria destruída, juntamente com todos os seus cidadãos. Furioso diante da impertinência de Morgan, Bracamonte reuniu oitocentos de seus melhores soldados e os enviou para expulsar os bucaneiros de Puerto Bello. Entretanto, o avanço foi difícil e logo os soldados panamenhos foram desmoralizados, não só por terem de enfrentar pântanos e outros terrenos difíceis, mas também pela falta de provisões adequadas. Mesmo assim, conseguiram chegar a Puerto Bello, onde montaram acampamento. A negociações se arrastaram durante três semanas, com os homens de Bracamonte cada vez mais insatisfeitos, até que finalmente desistiram e, em 3 de agosto, segundo David Cordingly, enviaram a Morgan um pagamento de 4 mil pesos em moedas de ouro, 40 mil pesos em moedas de prata e muitas arcas cheias de pratarias, além de barras de prata no valor de cerca de 43 mil pesos. A captura de Puerto Bello e a quantia que foi subseqüentemente paga a Henry Morgan foi uma das maiores campanhas jamais realizadas por um bucaneiro. Voltando a Port Royal, na Jamaica, Morgan foi tratado como um rei. Suas proezas chegaram até Londres, onde o embaixador espanhol fez uma petição a Carlos II solicitando a prisão de Morgan por roubo e a devolução do que foi saqueado, mas o rei recusou. Enquanto isso, embora os bucaneiros de Morgan tenham conseguido grandes saques em Puerto Bello, esbanjaram quase tudo à moda dos piratas, em bebida e mulheres. Nessa época, Port Royal era o equivalente a um paraíso dos piratas, um parque de diversões cheio de lojas de bebidas, bares, bordéis, tavernas e casas de jogo. "Esta cidade", escreveu um clérigo do século XVII, "é a Sodoma do Novo Mundo, e como a maioria de sua população consiste de piratas, degoladores, prostitutas e de algumas das pessoas mais perversas de todo o mundo, achei que a minha permanência ali não tinha nenhuma utilidade."6 Pouco espanta então que os homens de Henry Morgan logo gastassem seus ganhos ilícitos e se vissem "clamando a seu capitão 6 Ibidem.
  57. 57. 60 Um espanhol capturado ajoelha-se diante do vitorioso Henry Morgan após a conquista da cidade do Panamá, iniciada com uma árdua marcha por terra através de 75 quilômetros de selva. Os espanhóis colocaram explosivos na cidade e a incendiaram durante sua retirada. para irem para o mar; pois estavam reduzidos a uma condição de miséria".7 Em outubro de 1668, Morgan partiu com sua frota de navios para a Île de Vaches (também conhecidas como Isla Vaca ou Cow Island), um de seus pontos de encontro preferidos. Lá se juntou ao capitão Edward Collier, comandante da fragata Oxford, da Marinha Real, que carregava um arsenal de 34 canhões. O governo britânico enviou o Oxford para a Jamaica e suas cercanias, expressamente como um corsário, para manter os espanhóis acuados e também se apoderar do máximo de riquezas possível. Em janeiro de 1669, a frota de Morgan consistia de um total de dez navios e mais de setecentos homens. Mas nem tudo estava tranqüilo, pois, tendo transferido sua bandeira para o Oxford (que era o mais bem equipado e o maior de todos os navios) e tendo convocado um conselho de 7 Ibidem.
  58. 58. Henry Morgan guerra no qual foi decidido atacar a cidade espanhola de Cartagena, Morgan e seus homens começaram a beber, farrear e disparar seus revólveres para celebrar sua decisão. Um desses tiros atingiu um barril de pólvora e o navio explodiu. O Oxford afundou rapidamente, matando 350 membros da população. Morgan, que escapou milagrosamente, estava entre os dez que conseguiram sobreviver. O cirurgião-barbeiro Richard Browne mais uma vez proporciona um bom relato de um episódio por ele testemunhado: "Eu estava jantando quando os mastros principais explodiram e caíram sobre Aylett, Bigford e outros, atingindo suas cabeças. Eu me salvei montando no mastro de ré".8 A explosão destruiu qualquer idéia que Morgan tivesse de tomar Cartagena, e por isso rumou com os poucos homens que lhe restaram para a lagoa de Maracaibo, na costa da Venezuela, para saquear vários portos. Entretanto, sabendo da presença de Morgan, Don Alonso del Campo, que era almirante da frota das Índias Ocidentais da Espanha, reuniu três navios de guerra e dirigiu-se para Maracaibo, com a intenção de bloquear a saída da lagoa e impedir que Morgan escapasse. O bucaneiro teve de agir rapidamente. Havia recentemente capturado um velho navio mercante cubano e agora o disfarçava de navio de guerra fazendo aberturas em suas laterais e enfiando troncos nelas para parecerem canhões. Colocou no convés mais troncos, vestindo-os com roupas, para que parecessem marinheiros, e encheu o navio de pólvora e rastilhos. "Com a bandeira de Morgan em seu mastro principal, o navio mercante liderou o ataque, acompanhado por duas pequenas fragatas. Rumaram diretamente para o maior dos navios espanhóis ancorados, o Magdalena, de 142 toneladas. O navio mercante navegou ao lado do Magdalena e foi prendido a ele por ganchos. Os rastilhos foram acesos e os doze bucaneiros que estavam a bordo escaparam nos barcos."9 Depois de apenas alguns segundos, o navio mercante explodiu e incendiou o Magdalena, que afundou sem deixar vestígio. Os outros dois navios 8 Ibidem. 9 Cordingly, op. cit.

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