Diferenca e Repeticao (Deleuze)

1.503 visualizações

Publicada em

0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.503
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
21
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
23
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Diferenca e Repeticao (Deleuze)

  1. 1. 1 Gilles DeleuzeDIFERENÇA E REPETIÇÃO Tradução Luiz Orlandi Roberto Machado
  2. 2. 2 SUMÁRIOGLOSSÁRIO DA TRADUÇÃO________________________________________________ 7PRÓLOGO ________________________________________________________________ 8INTRODUÇÃO ___________________________________________________________ 11 REPETIÇÃO E DIFERENÇA ___________________________________________________ 11 Repetição e generalidade: primeira distinção, do ponto de vista das condutas _____________________ 11 As duas ordens da generalidade: semelhança e igualdade _____________________________________ 11 Segunda distinção, do ponto de vista da lei ________________________________________________ 12 Repetição, lei da natureza e lei moral ____________________________________________________ 13 Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy _________________ 15 O verdadeiro movimento, o teatro e a representação_________________________________________ 17 Repetição e generalidade: terceira distinção, do ponto de vista do conceito _______________________ 20 A compreensão do conceito e o fenômeno do "bloqueio" _____________________________________ 21 Os três casos de "bloqueio natural" e a repetição: conceitos nominais, conceitos da natureza, conceitos da liberdade ________________________________________________________________ 21 A repetição não se explica pela identidade do conceito; nem mesmo por uma condição apenas negativa ___________________________________________________________________________ 24 As funções do "instinto de morte": a repetição em sua relação com a diferença e como sendo aquilo que exige um princípio positivo. (Exemplo dos conceitos da liberdade) _________________________ 25 As duas repetições: por identidade do conceito e condição negativa, por diferença e excesso na Idéia. (Exemplos dos conceitos naturais e nominais) _____________________________________________ 28 O nu e o travestido na repetição_________________________________________________________ 31 Diferença conceitual e diferença sem conceito _____________________________________________ 33 Mas o conceito da diferença (Idéia) não se reduz a uma diferença conceitual, assim como a essência positiva da repetição não se reduz a uma diferença sem conceito _______________________________ 34Capítulo I ________________________________________________________________ 36 A DIFERENÇA EM SI MESMA _________________________________________________ 36 A diferença e o fundo obscuro__________________________________________________________ 36 É preciso representar a diferença? os quatro aspectos da representação (quádrupla raiz)_____________ 38 o momento feliz, a diferença, o grande e o pequeno _________________________________________ 38 Diferença conceitual: a maior e a melhor _________________________________________________ 39 A lógica da diferença segundo Aristóteles e a confusão do conceito da diferença com a diferença conceitual __________________________________________________________________________ 40 Diferença específica e diferença genérica _________________________________________________ 41 Os quatro aspectos ou a subordinação da diferença: identidade do conceito, analogia do juízo, oposição dos predicados, semelhança do percebido _________________________________________ 41 A diferença e a representação orgânica ___________________________________________________ 42 Univocidade e diferença ______________________________________________________________ 44 Os dois tipos de distribuição ___________________________________________________________ 44 Impossibilidade de reconciliar a univocidade e a analogia ____________________________________ 46 Os momentos do unívoco: Duns Scot, Espinosa, Nietzsche ___________________________________ 47 A repetição no eterno retorno define a univocidade do ser ____________________________________ 48 A diferença e a representação orgíaca (o infinitamente grande e o infinitamente pequeno) ___________ 50 O fundamento como razão _____________________________________________________________ 50 Lógica e ontologia da diferença segundo Hegel: a contradição_________________________________ 52 Lógica e ontologia da diferença segundo Leibniz: a vice-dicção (continuidade e indiscerníveis) ______ 54
  3. 3. 3 De como a representação orgíaca ou infinita da diferença não escapa aos quatro aspectos precedentes _ 56 A diferença, a afirmação e a negação ____________________________________________________ 57 A ilusão do negativo _________________________________________________________________ 59 A eliminação do negativo e o eterno retorno _______________________________________________ 61 Lógica e ontologia da diferença segundo Platão ____________________________________________ 65 As figuras do método da divisão: os pretendentes, a prova-fundamento, as questões-problemas, o (não)-ser e o estatuto do negativo _______________________________________________________ 66 O que é decisivo no problema da diferença: o simulacro, a resistência do simulacro ________________ 71Capítulo II _______________________________________________________________ 75 A REPETIÇÃO PARA SI MESMA _______________________________________________ 75 A repetição: alguma coisa mudou _______________________________________________________ 75 Primeira síntese do tempo: o presente vivo ________________________________________________ 75 Habitus, síntese passiva, contração, contemplação __________________________________________ 77 O problema do hábito ________________________________________________________________ 78 Segunda síntese do tempo: o passado puro ________________________________________________ 83 A Memória, o passado puro e a representação dos presentes __________________________________ 84 Os quatro paradoxos do passado ________________________________________________________ 85 A repetição no hábito e na memória _____________________________________________________ 86 Repetição material e espiritual__________________________________________________________ 88 Cogito cartesiano e cogito kantiano ______________________________________________________ 89 O indeterminado, a determinação, o determinável___________________________________________ 89 O Eu rachado, o eu passivo e a forma vazia do tempo _______________________________________ 90 insuficiência da memória: a terceira síntese do tempo________________________________________ 92 Forma, ordem, conjunto e série do tempo _________________________________________________ 93 A repetição na terceira síntese: sua condição por deficiência, seu agente de metamorfose, seu caráter incondicionado______________________________________________________________________ 93 O trágico e o cômico, a história, a fé, do ponto de vista da repetição no eterno retorno ______________ 96 A repetição e o inconsciente: "Para além do princípio de prazer" _______________________________ 98 A primeira síntese e a ligação: Habitus ___________________________________________________ 99 Segunda síntese: os objetos virtuais e o passado ___________________________________________ 100 Eros e Mnemósina __________________________________________________________________ 104 Repetição, deslocamento e disfarce: a diferença ___________________________________________ 105 Conseqüências para a natureza do inconsciente: inconsciente serial, diferencial e questionante ______ 107 Em direção à terceira síntese ou ao terceiro "para além": o eu narcísico, o instinto de morte e a forma vazia do tempo _____________________________________________________________________ 110 Instinto de morte, oposição e repetição material ___________________________________________ 111 Instinto de morte e repetição no eterno retorno ____________________________________________ 113 Semelhança e diferença ______________________________________________________________ 116 Que é um sistema? __________________________________________________________________ 118 O precursor sombrio e o "diferenciante" _________________________________________________ 118 O sistema literário __________________________________________________________________ 120 O fantasma ou simulacro e as três figuras do idêntico em relação à diferença ____________________ 122 A verdadeira motivação do platonismo está no problema do simulacro _________________________ 125 Simulacro e repetição no eterno retorno _________________________________________________ 126Capítulo III______________________________________________________________ 128 A IMAGEM DO PENSAMENTO _______________________________________________ 128 O problema dos pressupostos em Filosofia _______________________________________________ 128 Primeiro postulado: o princípio da Cogitatio natura universalis _______________________________ 129 Segundo postulado: o ideal do senso comum _____________________________________________ 131 O pensamento e a doxa ______________________________________________________________ 131 Terceiro postulado: o modelo da recognição ______________________________________________ 132
  4. 4. 4 Ambigüidade da Crítica kantiana_______________________________________________________ 134 Quarto postulado: o elemento da representação ___________________________________________ 136 Teoria diferencial das faculdades_______________________________________________________ 136 O uso discordante das faculdades: violência e limite de cada uma _____________________________ 137 Ambigüidade do platonismo __________________________________________________________ 139 Pensar: sua gênese no pensamento _____________________________________________________ 141 Quinto postulado: o "negativo" do erro __________________________________________________ 145 Problema da besteira ________________________________________________________________ 147 Sexto postulado: o privilégio da designação ______________________________________________ 149 Sentido e proposição ________________________________________________________________ 150 Os paradoxos do sentido _____________________________________________________________ 150 Sentido e problema _________________________________________________________________ 152 Sétimo postulado: a modalidade das soluções _____________________________________________ 153 A ilusão das soluções na doutrina da verdade _____________________________________________ 154 Importância ontológica e epistemológica da categoria de problema ____________________________ 157 Oitavo postulado: o resultado do saber __________________________________________________ 158 Que significa "aprender"? ____________________________________________________________ 159 Recapitulação dos postulados como obstáculos para uma filosofia da diferença e da repetição _______ 160Capítulo IV ______________________________________________________________ 162 SÍNTESE IDEAL DA DIFERENÇA _____________________________________________ 162 A Idéia como instância problemática____________________________________________________ 162 Indeterminado, determinável e determinação: a diferença____________________________________ 163 A diferencial ______________________________________________________________________ 164 A quantitabilidade e o princípio de determinabilidade ______________________________________ 164 A qualitabilidade e o princípio de determinação recíproca ___________________________________ 165 A potencialidade e o princípio de determinação completa (a forma serial)_______________________ 167 Inutilidade do infinitamente pequeno no cálculo diferencial__________________________________ 169 Diferencial e problemático____________________________________________________________ 171 Teoria dos problemas: dialética e ciência ________________________________________________ 172 Idéia e multiplicidade________________________________________________________________ 174 As estruturas: seus critérios, os tipos de Idéias ____________________________________________ 175 Procedimento da vice-dicção: o singular e o regular, o relevante e o ordinário ___________________ 180 A Idéia e a teoria diferencial das faculdades ______________________________________________ 181 Problema e questão _________________________________________________________________ 184 Os imperativos e o jogo ______________________________________________________________ 186 A Idéia e a repetição ________________________________________________________________ 189 A repetição, o relevante e o ordinário ___________________________________________________ 190 A ilusão do negativo ________________________________________________________________ 191 Diferença, negação e oposição_________________________________________________________ 192 Gênese do negativo _________________________________________________________________ 194 Idéia e virtualidade__________________________________________________________________ 196 A realidade do virtual: ens omni modo..._________________________________________________ 197 Diferençação e diferenciação; as duas metades do objeto ____________________________________ 197 Os dois aspectos de cada metade _______________________________________________________ 198 A distinção do virtual e do possível_____________________________________________________ 199 O inconsciente diferencial; o distinto-obscuro_____________________________________________ 200 A diferenciação como processo de atualização da Idéia _____________________________________ 202 Os dinamismos ou dramas ____________________________________________________________ 204 Universalidade da dramatização _______________________________________________________ 206 ç A noção complexa de diferen ação _____________________________________________ 207
  5. 5. 5 ciCapítulo V_______________________________________________________________ 209 SÍNTESE ASSIMÉTRICA DO SENSÍVEL _______________________________________ 209 A diferença e o diverso ______________________________________________________________ 209 Diferença e intensidade ______________________________________________________________ 210 A anulação da diferença______________________________________________________________ 210 Bom senso e senso comum ___________________________________________________________ 211 A diferença e o paradoxo _____________________________________________________________ 213 Intensidade, qualidade, extensão: a ilusão da anulação ______________________________________ 214 A profundidade ou spatium ___________________________________________________________ 216 Primeira característica da intensidade: o desigual em si _____________________________________ 218 Papel do desigual no número __________________________________________________________ 219 Segunda característica: afirmar a diferença _______________________________________________ 220 A ilusão do negativo ________________________________________________________________ 221 O ser do sensível ___________________________________________________________________ 222 Terceira característica: a implicação ____________________________________________________ 223 Diferença de natureza e diferença de grau ________________________________________________ 224 A energia e o eterno retorno __________________________________________________________ 227 A repetição no eterno retorno não é qualitativa nem extensiva, mas intensiva ____________________ 227 Intensidade e diferencial _____________________________________________________________ 231 Papel da individuação na atualização da Idéia_____________________________________________ 232 Individuação e diferenciação __________________________________________________________ 232 A individuação é intensiva____________________________________________________________ 233 Diferença individual e diferença individuante _____________________________________________ 235 "Perplicação", "implicação", "explicação"________________________________________________ 237 Evolução dos sistemas _______________________________________________________________ 240 Os centros de envolvimento___________________________________________________________ 241 Fatores individuantes, Eu [Je] e Eu [Moi] ________________________________________________ 242 Natureza e função de outrem nos sistemas psíquicos _______________________________________ 244CONCLUSÃO ___________________________________________________________ 247 DIFERENÇA E REPETIÇÃO __________________________________________________ 247 Crítica da representação______________________________________________________________ 247 Inutilidade da alternativa finito-infinito__________________________________________________ 248 Identidade, semelhança, oposição e analogia: como elas traem a diferença (as quatro ilusões) , ______ 249 Mas como elas também traem a repetição ________________________________________________ 254 O fundamento como razão: seus três sentidos _____________________________________________ 256 Do fundamento ao sem-fundo _________________________________________________________ 257 individuações impessoais e singularidades pré-individuais___________________________________ 260 O simulacro _______________________________________________________________________ 261 Teoria das Idéias e dos problemas ______________________________________________________ 262 Outrem ___________________________________________________________________________ 264 Os dois tipos de jogo: suas características ________________________________________________ 265 Crítica das categorias ________________________________________________________________ 267 A repetição, o idêntico e o negativo_____________________________________________________ 268 As duas repetições __________________________________________________________________ 269 Patologia e arte, estereotipia e refrão: a arte como lugar de coexistência de todas as repetições ______ 272 Em direção a uma terceira repetição, ontológica ___________________________________________ 274 A forma do tempo e as três repetições ___________________________________________________ 275 Força seletiva da terceira: o eterno retorno e Nietzsche (os simulacros) _________________________ 277
  6. 6. 6O que não retorna___________________________________________________________________ 279Os três sentidos do Mesmo: a ontologia, a ilusão e o erro____________________________________ 281Analogia do ser e representação, univocidade do ser e repetição ______________________________ 283
  7. 7. 7GLOSSÁRIO DA TRADUÇÃO
  8. 8. 8 PRÓLOGO Os pontos fracos de um livro são freqüentemente a contrapartida de intençõesvazias que não soubemos realizar. Neste sentido, uma declaração de intenção dátestemunho de uma real modéstia em relação ao livro ideal. É freqüentemente dito que osprefácios devem ser lidos apenas no fim e que as conclusões, inversamente, devem serlidas no início. Isto é verdadeiro a respeito de nosso livro, de modo que a leitura de suaconclusão poderia tornar inútil a leitura do resto. O assunto aqui tratado está manifestamente no ar, podendo-se ressaltar como seussinais: a orientação cada vez mais acentuada de Heidegger na direção de uma filosofia daDiferença ontológica; o exercício do estruturalismo, fundado numa distribuição decaracteres diferenciais num espaço de coexistência; a arte do romance contemporâneo,que gira em torno da diferença e da repetição não só em sua mais abstrata reflexão comotambém em suas técnicas efetivas; a descoberta, em todos os domínios, de uma potênciaprópria de repetição, potência que também seria a do inconsciente, da linguagem, da arte.Todos estes sinais podem ser atribuídos a um anti-hegelianismo generalizado: a diferençae a repetição tomaram o lugar do idêntico e do negativo, da identidade e da contradição,pois a diferença só implica o negativo e se deixa levar até a contradição na medida emque se continua a subordiná-la ao idêntico. O primado da identidade, seja qual for amaneira pela qual esta é concebida, define o mundo da representação. Mas o pensamentomoderno nasce da falência da representação, assim como da perda das identidades, e dadescoberta de todas as forças que agem sob a representação do idêntico. O mundomoderno é o dos simulacros. Nele, o homem não sobrevive a Deus, nem a identidade dosujeito sobrevive à identidade da substância. Todas as identidades são apenas simuladas,produzidas como um "efeito" óptico por um jogo mais profundo, que é o da diferença eda repetição. Queremos pensar a diferença em si mesma e a relação do diferente com odiferente, independentemente das formas da representação que as conduzem ao Mesmo eas fazem passar pelo negativo. Nossa vida moderna é tal que, encontrando-nos diante das repetições maismecânicas, mais estereotipadas, fora de nós e em nós, não cessamos de extrair delaspequenas diferenças, variantes e modificações. Inversamente, repetições secretas,disfarçadas e ocultas, animadas pelo deslocamento perpétuo de uma diferença, restituemem nós e fora de nós repetições nuas, mecânicas e estereotipadas. No simulacro, arepetição já incide sobre repetições e a diferença já incide sobre diferenças. Sãorepetições que se repetem e é o diferenciante que se diferencia. A tarefa da vida é fazercom que coexistam todas as repetições num espaço em que se distribui a diferença. Háduas direções de pesquisa na origem deste livro: uma concerne ao conceito de diferençasem negação, precisamente porque a diferença, não sendo subordinada ao idêntico, nãoiria ou "não teria de ir" até a oposição e a contradição; a outra concerne a um conceito derepetição tal que as repetições físicas, mecânicas ou nuas (repetição do Mesmo)encontrariam sua razão nas estruturas mais profundas de uma repetição oculta, em que se
  9. 9. 9disfarça e se desloca um "diferencial". Estas duas direções de pesquisa juntaram-seespontaneamente, pois, em todas as ocasiões, estes conceitos de uma diferença pura e deuma repetição complexa pareciam reunir-se e confundir-se. À divergência e aodescentramento perpétuos da diferença correspondem rigorosamente um deslocamento eum disfarce na repetição. Há muitos perigos em invocar diferenças puras, liberadas do idêntico, tornadasindependentes do negativo. O maior perigo é cair nas representações da bela-alma:apenas diferenças, conciliáveis e federáveis, longe das lutas sangrentas. A bela-alma diz:somos diferentes, mas não opostos... E a noção de problema, que veremos estar ligada ànoção de diferença, também parece nutrir os estados de uma bela-alma: só contam osproblemas e as questões... Todavia, acreditamos que, quando os problemas atingem ograu de positividade que lhes é próprio e quando a diferença torna-se objeto de umaafirmação correspondente, eles liberam uma potência de agressão e de seleção que destróia bela-alma, destituindo-a de sua própria identidade e alquebrando sua boa vontade. Oproblemático e o diferencial determinam lutas ou destruições em relação às quais as donegativo não passam de aparência e os votos da bela-alma não passam igualmente demistificações na aparência. Não é próprio do simulacro ser uma cópia, mas reverter todasas cópias, revertendo também os modelos: todo pensamento torna-se uma agressão. Um livro de Filosofia deve ser, por um lado, um tipo muito particular de romancepolicial e, por outro, uma espécie de ficção científica. Por romance policial, queremosdizer que os conceitos devem intervir, com uma zona de presença, para resolver umasituação local. Modificam-se com os problemas. Têm esferas de influência em que, comoveremos, se exercem em relação a "dramas" e por meio de uma certa "crueldade". Devemter uma coerência entre si, mas tal coerência não deve vir deles. Devem receber suacoerência de outro lugar. É este o segredo do empirismo. De modo algum é o empirismo uma reação contraos conceitos, nem um simples apelo à experiência vivida. Ao contrário, ele empreende amais louca criação de conceitos, uma criação jamais vista e maior que todas aquelas deque se ouviu falar. O empirismo é o misticismo do conceito e seu matematismo. Mas,precisamente, ele trata o conceito como o objeto de um encontro, como um aqui-agora,ou melhor, como um Erewhon de onde saem, inesgotáveis, os "aqui" e os "agora" semprenovos, diversamente distribuídos. Só o empirista pode dizer: os conceitos são as própriascoisas, mas as coisas em estado livre e selvagem, para além dos "predicadosantropológicos". Eu faço, refaço e desfaço meus conceitos a partir de um horizontemovente, de um centro sempre descentrado, de uma periferia sempre deslocada que osrepete e os diferencia. Cabe à Filosofia moderna sobrepujar a alternativa temporal-intemporal, histórico-eterno, particular-universal. Graças a Nietzsche, descobrimos ointempestivo como sendo mais profundo que o tempo e a eternidade: a Filosofia não éFilosofia da História, nem Filosofia do eterno, mas intempestiva, sempre e sóintempestiva, isto é, "contra este tempo, a favor, espero, de um tempo que virá". Graças aSamuel Butler, descobrimos o Erewhon como aquilo que significa, ao mesmo tempo, o"parte alguma" originário  e o "aqui-agora" deslocado, disfarçado, modificado, semprerecriado. Nem particularidades empíricas nem universal abstrato: Cogito para um eudissolvido. Acreditamos num mundo em que as individuações são impessoais e em que assingularidades são pré-individuais: o esplendor do "SE". Daí o aspecto de ficção
  10. 10. 10científica que deriva necessariamente desse Erewhon. O que este livro deveria apresentar,portanto, é o acesso a uma coerência que já não é a nossa, a do homem, nem a de Deusnem a do mundo. Neste sentido, deveria ser um livro apocalíptico (o terceiro tempo nasérie do tempo). Ficção científica também no sentido em que os pontos fracos se revelam. Aoescrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemosmal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos naextremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossaignorância e que transforma um no outro. É só deste modo que somos determinados aescrever. Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois ou, antes, torná-laimpossível. Talvez tenhamos aí, entre a escrita e a ignorância, uma relação ainda maisameaçadora que a relação geralmente apontada entre a escrita e a morte, entre a escrita eo silêncio. Falamos, pois, de ciência, mas de uma maneira que, infelizmente, sentimosnão ser científica. Aproxima-se o tempo em que já não será possível escrever um livro de Filosofiacomo há muito tempo se faz: "Ah! O velho estilo..." A pesquisa de novos meios deexpressão filosófica foi inaugurada por Nietzsche e deve prosseguir, hoje, relacionada àrenovação de outras artes, como, por exemplo, o teatro ou o cinema. A este respeito,podemos, desde já, levantar a questão da utilização da História da Filosofia. Parece-nosque a História da Filosofia deve desempenhar um papel bastante análogo ao da colagemnuma pintura. A História da Filosofia é a reprodução da própria Filosofia. Seria precisoque a resenha em História da Filosofia atuasse como um verdadeiro duplo e quecomportasse a modificação máxima própria do duplo. (imagina-se um Hegelfilosoficamente barbudo, um Marx filosoficamente glabro, do mesmo modo que umaGioconda bigoduda). Seria preciso expor um livro real da Filosofia passada como se setratasse de um livro imaginário e fingido. Sabe-se que Borges se sobressai na resenha delivros imaginários. Mas ele vai mais longe quando considera um livro real, o DonQuixote, por exemplo, como se fosse um livro imaginário, ele próprio reproduzido porum autor imaginário, Pierre Ménard, que ele, por sua vez, considera como real. Então, amais exata repetição, a mais rigorosa repetição, tem, como correlato, o máximo dediferença ("o texto de Cervantes e o de Ménard são verbalmente idênticos, mas osegundo é quase infinitamente mais rico..."). As resenhas de História da Filosofia devemrepresentar uma espécie de desaceleração, de congelamento ou de imobilização do texto:não só do texto ao qual eles se relacionam, mas também do texto no qual eles se inserem.Deste modo, elas têm uma existência dupla e comportam, como duplo ideal, a purarepetição do texto antigo e do texto atual um no outro. Eis por que, para nosaproximarmos desta dupla existência, tivemos algumas vezes de integrar notas históricasem nosso próprio texto.
  11. 11. 11 INTRODUÇÃO REPETIÇÃO E DIFERENÇARepetição e generalidade: primeira distinção, do ponto de vista das condutas A repetição não é a generalidade. De várias maneiras deve a repetição serdistinguida da generalidade. Toda fórmula que implique sua confusão é deplorável, comoquando dizemos que duas coisas se assemelham como duas gotas dágua ou quandoidentificamos "só há ciência do geral" e "só há ciência do que se repete". Entre arepetição e a semelhança, mesmo extrema, a diferença é de natureza.As duas ordens da generalidade: semelhança e igualdade A generalidade apresenta duas grandes ordens: a ordem qualitativa dassemelhanças e a ordem quantitativa das equivalências. Os ciclos e as igualdades são seussímbolos. Mas, de toda maneira, a generalidade exprime um ponto de vista segundo oqual um termo pode ser trocado por outro, substituído por outro. A troca ou a substituiçãodos particulares define nossa conduta em correspondência com a generalidade. Eis porque os empiristas não se enganam ao apresentar a idéia geral como uma idéia em simesma particular, à condição de a ela acrescentar um sentimento de poder substituí-la porqualquer outra idéia particular que se lhe assemelhe sob a relação de uma palavra. Nós,ao contrário, vemos bem que a repetição só é uma conduta necessária e fundada apenasem relação ao que não pode ser substituído. Como conduta e como ponto de vista, arepetição concerne a uma singularidade não trocável, insubstituível. Os reflexos, os ecos,os duplos, as almas não são do domínio da semelhança ou da equivalência; e assim comonão há substituição possível entre os verdadeiros gêmeos, também não há possibilidadede se trocar de alma. Se a troca é o critério da generalidade, o roubo e o dom são oscritérios da repetição. Há, pois, uma diferença econômica entre as duas. Repetir é comportar-se, mas em relação a algo único ou singular, algo que não temsemelhante ou equivalente. Como conduta externa, esta repetição talvez seja o eco deuma vibração mais secreta, de uma repetição interior e mais profunda no singular que aanima. A festa não tem outro paradoxo aparente: repetir um "irrecomeçável". Nãoacrescentar uma segunda e uma terceira vez à primeira, mas elevar a primeira vez à"enésima" potência. Sob esta relação da potência, a repetição se reverte, interiorizando-se. Como diz Péguy, não é a festa da Federação que comemora ou representa a tomada daBastilha; é a tomada da Bastilha que festeja e repete de antemão todas as Federações; ou,ainda, é a primeira ninféia de Monet que repete todas as outras1. Opõe-se, pois, ageneralidade, como generalidade do particular, e a repetição, como universalidade dosingular. Repete-se uma obra de arte como singularidade sem conceito, e não é por acasoque um poema deve ser aprendido de cor. A cabeça é o órgão das trocas, mas o coração é1 Cf. Charles PÉGUY, Clio, 1917 (N.R.F., 33ª éd.), p. 45,p 114.
  12. 12. 12o órgão amoroso da repetição. (É verdade que a repetição concerne também à cabeça,mas precisamente porque ela é seu terror ou seu paradoxo.) Pius Servien distinguia, comjusteza, duas linguagens: a linguagem das ciências, dominada pelo símbolo da igualdade,onde cada termo pode ser substituído por outros, e a linguagem lírica, em que cada termo,insubstituível, só pode ser repetido2. Pode-se sempre "representar" a repetição como umasemelhança extrema ou uma equivalência perfeita. Mas passar gradativamente de umacoisa a outra não impede que haja diferença de natureza entre as duas coisas.Segunda distinção, do ponto de vista da lei Por outro lado, a generalidade é da ordem das leis. Mas a lei só determina asemelhança dos sujeitos que estão a ela submetidos e sua equivalência aos termos que eladesigna. Em vez de fundar a repetição, a lei mostra antes de tudo como a repetiçãopermaneceria impossível para puros sujeitos da lei  os particulares. Ela os condena amudar. Forma vazia da diferença, forma invariável da variação, a lei constrange seussujeitos a só ilustrá-la à custa de suas próprias mudanças. Sem dúvida, há constantesassim como variáveis nos termos designados pela lei; e há permanências na natureza,perseveranças, assim como fluxos e variações. Mas uma perseverança não faz umarepetição. As constantes de uma lei, por sua vez, são variáveis de uma lei mais geral, algoassim como os mais duros rochedos tornando-se matérias moles e fluídas na escalageológica de um milhão de anos. A cada nível, é com relação a grandes objetospermanentes na natureza que um sujeito da lei experimenta sua própria impotência emrepetir e descobre que essa impotência já está compreendida no objeto, refletida no objetopermanente, onde ele vê sua condenação. A lei reúne a mudança das águas à permanênciado rio. Élie Faure dizia de Watteau: "Ele colocou o que há de mais passageiro naquiloque nosso olhar encontra de mais durável, o espaço e os grandes bosques". É o método doséculo XVIII. Em La Nouvelle Héloise, Wolmar fez disto um sistema: a impossibilidadeda repetição, a mudança como condição geral a que a lei da Natureza parece condenartodas as criaturas particulares, era apreendida em relação a termos fixos (eles próprios,sem dúvida, sendo variáveis em relação a outras permanências, em. função de outras leismais gerais). Tal é o sentido do bosquete, da gruta, do objeto "sagrado". Saint-Preuxaprende que não pode repetir, não só em razão de suas mudanças e das de Julie, mas emrazão das grandes permanências da natureza, permanências que adquirem um valorsimbólico e não deixam de exclui-lo de uma verdadeira repetição. Se a repetição épossível, é por ser mais da ordem do milagre que da lei. Ela é contra a lei: contra a formasemelhante e o conteúdo equivalente da lei. Se a repetição pode ser encontrada, mesmona natureza, é em nome de uma potência que se afirma contra a lei, que trabalha sob asleis, talvez superior às leis. Se a repetição existe, ela exprime, ao mesmo tempo, umasingularidade contra o geral, uma universalidade contra o particular, um relevante contrao ordinário, uma instantaneidade contra a variação, uma eternidade contra a permanência.Sob todos os aspectos, a repetição é a transgressão. Ela põe a lei em questão, denunciaseu caráter nominal ou geral em proveito de uma realidade mais profunda e mais artística. Todavia, do ponto de vista da própria experimentação científica, parece difícil2 Pius SERVIEN, Principes d’esthétique (Boivin, 1935), pp. 3-5; Science et poésie (Flammarion, 1947),pp. 44-47.
  13. 13. 13negar qualquer relação da repetição com a lei. Devemos perguntar, porém, em quecondições a experimentação assegura uma repetição. Os fenômenos da naturezaproduzem-se ao ar livre, toda inferência sendo possível em vastos ciclos de semelhança: éneste sentido que tudo reage sobre tudo e que tudo se assemelha a tudo (semelhança dodiverso consigo mesmo). Mas a experimentação constitui meios relativamente fechados,em que definimos um fenômeno em função de um pequeno número de fatoresselecionados (dois, no mínimo, o espaço e o tempo, por exemplo, para o movimento deum corpo em geral no vazio). Assim, não há por que interrogar-se sobre a aplicação damatemática à Física: a Física é imediatamente Matemática, sendo que os fatores retidosou os meios fechados constituem, do mesmo modo, sistemas de coordenadasgeométricas. Nestas condições, o fenômeno aparece necessariamente como igual a umacerta correlação quantitativa entre fatores selecionados. Trata-se, pois, naexperimentação, de substituir uma ordem de generalidade por outra: uma ordem deigualdade por uma ordem de semelhança. Semelhanças são desfeitas para se descobriruma igualdade que permita identificar um fenômeno nas condições particulares daexperimentação. A repetição só aparece, aqui, na passagem de uma ordem degeneralidade a outra, aflorando por ocasião desta passagem e graças a ela. Tudo se passacomo se a repetição despontasse num instante, entre as duas generalidades, sob duasgeneralidades. Mas, ainda aí, corre-se o risco de tomar como sendo uma diferença degrau o que difere por natureza, pois a generalidade só representa e supõe uma repetiçãohipotética: se as mesmas circunstâncias são dadas, então... Esta fórmula significa: emtotalidades semelhantes, poder-se-á sempre reter e selecionar fatores idênticos querepresentam o ser-igual do fenômeno. Assim procedendo, não nos damos conta, porém,daquilo que instaura a repetição, nem daquilo que há de categórico ou é de direito narepetição (o que é de direito é "n" vezes como potência de uma só vez, sem que hajanecessidade de se passar por uma segunda, por uma terceira vez). Em sua essência, arepetição remete a uma potência singular que difere por natureza da generalidade, mesmoquando ela, para aparecer, se aproveita da passagem artificial de uma ordem geral a outra.Repetição, lei da natureza e lei moral O erro "estóico" é esperar a repetição da lei da natureza. O sábio deve converter-seem virtuoso; o sonho de encontrar uma lei que torne possível a repetição passa para olado da lei moral. Sempre uma tarefa a ser recomeçada, uma fidelidade a ser retomadanuma vida cotidiana que se confunde com a reafirmação do Dever. Büchner faz Dantondizer: "É muito fastidioso vestir, inicialmente, uma camisa, depois, uma calça, e, à noite,ir para o leito e dele sair pela manhã, e colocar sempre um pé diante do outro. Há muitopouca esperança de que isso venha a mudar. É muito triste que milhões de pessoastenham feito assim, que outros milhões venham a fazê-lo depois de nós e que, ainda porcima, sejamos constituídos por duas metades que fazem, ambas, a mesma coisa, de modoque tudo se produza duas vezes". Mas de que serviria a lei moral se ela não santificasse areiteração e, sobretudo, se ela não a tornasse possível, dando-nos um poder legislativo, doqual nos exclui a lei da natureza? Acontece que o moralista apresenta as categorias doBem e do Mal sob as seguintes espécies: toda vez que tentamos repetir segundo anatureza, como seres da natureza (repetição de um prazer, de um passado, de umapaixão), lançamo-nos numa tentativa demoníaco, desde já maldita, que só tem como
  14. 14. 14saída o desespero ou o tédio. O Bem, ao contrário, nos daria a possibilidade da repetição,do sucesso da repetição e da espiritualidade da repetição, porque dependeria de uma leique já não seria a da natureza, mas a do dever, da qual só seríamos sujeitos se fossemoslegisladores, como seres morais. O que Kant chama de a mais alta prova, o que é senão aprova de pensamento que deve determinar o que pode ser reproduzido de direito, isto é, oque pode ser repetido sem contradição sob a forma da lei moral? O homem do deverinventou uma "prova" da repetição, determinou o que podia ser repetido do ponto de vistado direito. Ele estima, pois, ter vencido o demoníaco e o fastidioso, ao mesmo tempo.Como um eco das preocupações de Danton, como uma resposta a essas preocupações,não há moralismo até neste surpreendente suporte para meias que Kant confeccionoupara si, neste aparelho de repetição que seus biógrafos descrevem com tanta precisão,assim como na fixidez de seus passeios cotidianos (moralismo, no sentido em que anegligência na toalete e a falta de exercício fazem parte das condutas cuja máxima nãopode, sem contradição, ser pensada como lei universal, nem ser, portanto, objeto de umarepetição de direito)? Mas é esta a ambigüidade da consciência: ela só pode pensar-se, colocando a leimoral como exterior, superior, indiferente à lei da natureza, mas ela só pode pensar aaplicação da lei moral, restaurando nela própria a imagem e o modelo da lei da natureza.Deste modo, a lei moral, em vez de nos dar uma verdadeira repetição, deixa-nos ainda nageneralidade. Desta vez, a generalidade já não é a da natureza, mas a do hábito comosegunda natureza. É inútil invocar a existência de hábitos imorais, de maus hábitos; o queé essencialmente moral, o que em a forma do bem, é a forma do hábito ou, como diziaBergson, o hábito de adquirir hábitos (o todo da obrigação). Ora, neste todo ou nestageneralidade do hábito reencontramos as duas grandes ordens: a ordem das semelhanças,na conformidade variável dos elementos da ação em relação a um modelo suposto,enquanto o hábito não foi adquirido; a ordem das equivalências, com a igualdade deelementos da ação em situações diversas, desde que o hábito tenha sido adquirido. De talmodo que o hábito nunca forma uma verdadeira repetição: ora é a ação que muda e seaperfeiçoa, permanecendo constante uma intenção; ora a ação permanece igual em meio aintenções e contextos diferentes. Ainda aí, se a repetição é possível, ela só aparece entreduas generalidades, sob estas duas generalidades, a de aperfeiçoamento e a de integração,pronta para revertê-las, dando testemunho de outra potência. Se a repetição é possível, ela o é tanto contra a lei moral quanto contra a lei danatureza. São conhecidas duas maneiras de reverter a lei imoral: seja por uma ascensãoaos princípios, contestando-se, então, a ordem da lei como secundária, derivada,emprestada, "geral", denunciando-se na lei um princípio de segunda mão que desvia umaforça ou usurpa uma potência originais; seja, ao contrário, e neste caso a lei é aindamelhor revertida, por uma descida às conseqüências e uma submissão minuciosa demais,de modo que, à força de esposar a lei, uma alma falsamente submissa chega a alterá-la e agozar os prazeres que se julgava proibidos. Vemos bem isto em todas as demonstraçõespor absurdo, nas abstenções por excesso de zelo, mas também em algunscomportamentos masoquistas de escárnio por submissão. A primeira maneira de revertera lei é irônica, a ironia aí aparecendo como arte dos princípios, da ascensão aos princípiose da reversão dos princípios. A segunda é o humor, que é uma arte das conseqüências edas descidas, das suspensões e das quedas. Significa isso que a repetição surge tanto
  15. 15. 15nesta suspensão quanto nesta ascensão, como se a existência se retomasse e se"reiterasse" em si mesma desde que já não seja coagida pelas leis? A repetição pertenceao humor e à ironia, sendo por natureza transgressão, exceção, e manifestando sempreuma singularidade contra os particulares submetidos à lei, um universal contra asgeneralidades que estabelecem a lei.Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy Há uma força comum a Kierkegaard e a Nietzsche. (Seria preciso aí incluir Péguypara se formar o tríptico do pastor, do anticristo e do católico. Cada um dos três, a suamaneira, faz da repetição não só uma potência própria da linguagem e do pensamento,um pathos e uma patologia superior, mas também a categoria fundamental da Filosofia dofuturo. A cada um deles corresponde um Testamento e também um Teatro, umaconcepção de teatro e um personagem eminente nesse teatro, como herói da repetição:Jó-Abraão, Dioniso-Zaratustra, Joana dArc-Clio.) O que os separa é considerável,manifesto, bem conhecido. Mas nada apagará este prodigioso encontro em torno de umpensamento da repetição: eles opõem a repetição a todas as formas da generalidade. Eeles não tomam a palavra "repetição" de maneira metafórica; ao contrário, têm uma certamaneira de tomá-la ao pé da letra e de introduzi-la no estilo. Pode-se, deve-se,inicialmente, enumerar as principais proposições que marcam a coincidência entre eles: 1ª Fazer da própria repetição algo novo; ligá-la a uma prova, a uma seleção, a umaprova seletiva; colocá-la como objeto supremo da vontade e da liberdade. Kierkegaardprecisa: não tirar da repetição algo novo, não lhe transvasar algo novo, pois só acontemplação, o espírito que contempla de fora, "transvasa". Trata-se, ao contrário, deagir, de fazer da repetição como tal uma novidade, isto é, uma liberdade e uma tarefa daliberdade. E Nietzsche: liberar a vontade de tudo o que a encadeia, fazendo da repetição opróprio objeto do querer. Sem dúvida, a repetição é já o que encadeia; mas, se se morrepor causa da repetição, é também ela que salva e cura, e cura, primeiramente, da outrarepetição. Há, portanto, na repetição, ao mesmo tempo, todo o jogo místico da perdição eda salvação, todo o jogo teatral da morte e da vida, todo o jogo positivo da doença e dasaúde (cf. Zaratustra doente e Zaratustra convalescente, graças a uma mesma potência,que é a da repetição no eterno retorno). 2ª Assim sendo, opor a repetição às leis da Natureza. Kierkegaard declara que demodo algum ele fala da repetição na natureza, dos ciclos ou das estações, das trocas e dasigualdades. Ainda mais: se a repetição concerne ao mais interior da vontade, é porquetudo muda em torno da vontade, em conformidade com a lei da natureza. Segundo a leida natureza, a repetição é impossível. Eis por que Kierkegaard condena, sob o nome derepetição estética, todo esforço para obter a repetição das leis da natureza, não só como oepicurista, mas mesmo como o estóico que se identifica com o princípio que legisla.Talvez se diga que a situação não é tão clara em Nietzsche. Todavia, as declarações deNietzsche são formais. Se ele descobre a repetição na Physis, é porque, na própria Physis,ele descobre algo superior ao reino das leis: uma vontade querendo a si própria através detodas as mudanças, uma potência contra a lei, um interior da terra que se opõe às leis dasuperfície. Nietzsche opõe "sua" hipótese à hipótese cíclica. Ele concebe a repetição noeterno retorno como Ser, mas opõe este ser a toda forma legal, tanto ao ser-semelhante
  16. 16. 16quanto ao ser-igual. E como poderia o pensador, que levou mais longe a crítica da noçãode lei, reintroduzir o eterno retorno como lei da natureza? Em que se fundamentariaNietzsche, conhecedor dos gregos, ao estimar seu próprio pensamento como prodigioso enovo, se ele se contentasse em formular esta insipidez natural, esta generalidade danatureza, tão conhecida pelos Antigos? Por duas vezes, Zaratustra corrige as másinterpretações do eterno retorno: com cólera, contra seu demônio ("Espírito degravidade... não simplifiques demasiado as coisas!"); com doçura, contra seus animais("Ò travessos, ó repetidores... já fizestes disto um refrão! "). O refrão é o eterno retornocomo ciclo ou circulação, como ser-semelhante e como ser-igual, em suma, como certezaanimal natural e como lei sensível da própria natureza. 3ª Opor a repetição à lei moral, fazer dela a suspensão da Ética, o pensamento dopara além do bem e do mal. A repetição aparece como o logos do solitário, do singular, ologos do "pensador privado". Em Kierkegaard e em Nietzsche desenvolve-se a oposiçãoentre o pensador privado, o pensador-cometa, portador da repetição, e o professorpúblico, doutor da lei, cujo discurso de segunda mão procede por mediação e tem comofonte moralizante a generalidade dos conceitos (cf. Kierkegaard contra Hegel, Nietzschecontra Kant e Hegel, e, deste ponto de vista, Péguy contra a Sorbonne). Jó é a contestaçãoinfinita e Abraão é a resignação infinita, mas os dois são uma mesma coisa. Jó põe emquestão a lei, de maneira irônica, recusa todas as explicações de segunda mão, destitui ogeral para atingir o mais singular como princípio, como universal. Abraão se submetehumoristicamente à lei, mas, nesta submissão, reencontra, precisamente, a singularidadedo filho único que a lei ordenava sacrificar. Tal como a entende Kierkegaard, a repetiçãoé o correlato transcendente, comum à contestação e à resignação como intençõespsíquicas. (E os dois aspectos podem ser reencontrados no desdobramento de Péguy:Joana dArc e Gervaise.) No fulgurante ateísmo de Nietzsche, o ódio à lei e o amor jati, aagressividade e o consentimento são a dupla face de Zaratustra, tirada da Bíblia e contraela voltada. De uma certa maneira ainda, vê-se Zaratustra rivalizar com Kant, com aprova da repetição na lei moral. O eterno retorno diz: O que quiseres, queira-o de talmaneira que também queiras seu eterno retorno. Há aí um "formalismo" que reverte Kantem seu próprio terreno, uma prova que vai mais longe, pois, em vez de relacionar arepetição com uma suposta lei moral, parece fazer da própria repetição a única forma deuma lei para além da moral. Na realidade, porém, a coisa é mais complicada. A forma darepetição no eterno retorno é a forma brutal do imediato, do universal e do singularreunidos, que destrona toda lei geral, dissolve as mediações, faz perecer os particularessubmetidos à lei. Há um além e um aquém da lei que se unem no eterno retorno, como aironia e o humor negro de Zaratustra. 4ª Opor a repetição não só às generalidades do hábito mas às particularidades damemória. Com efeito, talvez o hábito chegue a "tirar" algo novo de uma repetiçãocontemplada de fora. No hábito, só agimos com a condição de que haja em nós umpequeno Eu que contempla: é ele que extrai o novo, isto é, o geral, da pseudo-repetiçãodos casos particulares. A memória talvez reencontre os particulares dissolvidos nageneralidade. Pouco importam estes movimentos psicológicos; em Nietzsche eKierkegaard, eles se apagam diante da repetição considerada como a dupla condenaçãodo hábito e da memória. É neste sentido que a repetição é o pensamento do futuro: ela seopõe à antiga categoria da reminiscência e à moderna categoria do habitus. É na
  17. 17. 17repetição, é pela repetição que o Esquecimento se torna uma potência positiva e oinconsciente, um inconsciente superior positivo (por exemplo, o esquecimento, comoforça, faz parte integrante da experiência vivida do eterno retorno). Tudo se resume àpotência. Quando Kierkegaard fala da repetição como segunda potência da consciência,"segunda" não significa uma segunda vez, mas o infinito que se diz de uma só vez, aeternidade que se diz de um instante, o inconsciente que se diz da consciência, a potência"n". E quando Nietzsche apresenta o eterno retorno como a expressão imediata davontade de potência, de modo algum vontade de potência significa "querer a potência",mas, ao contrário: seja o que se queira, elevar o que se quer à "enésima" potência, isto é,extrair sua forma superior graças à operação seletiva do pensamento no eterno retorno,graças à singularidade da repetição no próprio eterno retorno. Forma superior de tudo oque é, eis a identidade imediata do eterno retorno e do super-homem3.O verdadeiro movimento, o teatro e a representação Não sugerimos qualquer semelhança entre o Dioniso de Nietzsche e o Deus deKierkegaard. Ao contrário, supomos, acreditamos que a diferença seja intransponível.Mas, por isso mesmo, de onde vem a coincidência sobre o tema da repetição, sobre esteobjetivo fundamental, mesmo que este objetivo seja concebido de maneira diversa?Kierkegaard e Nietzsche estão entre os que trazem à Filosofia novos meios de expressão.A propósito deles, fala-se de bom grado em ultrapassamento da Filosofia. Ora, o que estáem questão em toda a sua obra é o movimento. O que eles criticam em Hegel é apermanência no falso movimento, no movimento lógico abstrato, isto é, na "mediação".Eles querem colocar a metafísica em movimento, em atividade querem fazê-la passar aoato e aos atos imediatos. Não lhes basta, pois, propor uma nova representação domovimento; a representação já é mediação. Ao contrário, trata-se de produzir, na obra,um movimento capaz de comover o espírito fora de toda representação; trata-se de fazerdo próprio movimento uma obra, sem interposição; de substituir representações mediataspor signos diretos; de inventar vibrações, rotações, giros, gravitações, danças ou saltosque atinjam diretamente o espírito. Esta é uma idéia de homem de teatro, uma idéia deencenador - avançado para seu tempo. É neste sentido que alguma coisa decompletamente novo começa com Kierkegaard e Nietzsche. Eles já não refletem sobre oteatro à maneira hegeliana. Nem mesmo fazem um teatro filosófico. Eles inventam, naFilosofia, um incrível equivalente do teatro, fundando, desta maneira, este teatro dofuturo e, ao mesmo tempo, uma nova Filosofia. Dir-se-á, pelo menos do ponto de vista do3 Na comparação que precede, os textos aos quais nos referimos estão entre os mais conhecidos deNietzsche e Kierkegaard. Quanto a KIERKEGAARD, trata-se de: La répétition (trad. et éd. TISSEAU);passagens do Journal (1V, B 117, publicados em apêndice à tradução TISSEAU); Crainte et tremblement;a nota muito importante do Concept dangoisse (trad. FERLOV et GATEAU, N.R.F., pp. 26-28). E sobre acritica da memória, cf. Miettes philosophiques e Etapes sur le chemin de la vie.  Quanto a NIETZSCHE,Zaratustra (sobretudo 11, "Da redenção"; e as duas grandes passagens do livro 111, "Da visão e doenigma" e "O convalescente", um concernente a Zaratustra doente e discutindo com seu demônio e o outroconcernente a Zaratustra convalescente discutindo com seus animais) ; mas também As notas de 1881-1882(onde Nietzsche opõe explicitamente "sua" hipótese à hipótese cíclica e critica todas as noções desemelhança, de igualdade, de equilíbrio e de identidade. Cf. volonté de puissance, trad. BIANQUIS,N.R.F., t. 1, pp. 295-301).  Quanto a PÉGUY, enfim, reportar-se essencialmente a Jeanne dArc e a Clio.
  18. 18. 18teatro, que não houve realização; nem Copenhague, por volta de 1840, e a profissão depastor, nem Bayreuth e a ruptura com Wagner eram condições favoráveis. Uma coisa écerta, porém: quando Kierkegaard fala do teatro antigo e do drama moderno, já se mudoude elemento, não mais se está no elemento da reflexão. Descobre-se um pensador quevive o problema das máscaras, que experimenta este vazio interior próprio da máscara eque procura supri-lo, preenchê-lo, mediante o "absolutamente diferente", isto é,introduzindo nele toda a diferença do finito e do infinito e criando, assim, a idéia de umteatro do humor e da fé. Quando Kierkegaard explica que o cavaleiro da fé assemelha-sea um burguês endomingado, a ponto de com ele confundir-se, é preciso tomar estaindicação filosófica como uma observação de encenador indicando como deve o papel decavaleiro da fé ser desempenhado. E quando ele comenta Jó ou Abraão, quando imaginavariantes do conto Agnès et le Triton, o modo não engana, é um modo de cenário. EmAbraão e em Jó ressoa, inclusive, a música de Mozart, tratando-se de "saltar" ao somdesta música. "Olho somente os movimentos", eis uma frase de encenador, que suscita omais elevado problema teatral, o problema de um movimento que viesse atingirdiretamente a alma e que fosse o movimento da alma4. Tratando-se de Nietzsche, isto acontece com mais forte razão. O Nascimento daTragédia não é uma reflexão sobre o teatro antigo, mas a fundação prática de um teatrodo futuro, a abertura de uma via pela qual Nietzsche crê ser ainda possível conduzirWagner. E a ruptura com Wagner não é um problema de teoria nem tampouco de música;ela concentre ao papel respectivo do texto, da história, do ruído, da música, da luz, dacanção, da dança e do cenário neste teatro sonhado por Nietzsche. Zaratustra retoma asduas tentativas dramáticas sobre Empédocles. E se Bizet é melhor que Wagner, ele o é doponto de vista do teatro e para as danças de Zaratustra. O que Nietzsche critica emWagner é ter revertido e desnaturado o "movimento": ter-nos feito patinhar e nadar, umteatro náutico, em vez de andar e dançar. Zaratustra é inteiramente concebido naFilosofia, mas também para a cena. Tudo é aí sonorizado, visualizado, posto emmovimento, em andamento e em dança. E como ler esse livro sem procurar o som exatodo grito do homem superior? Como ler o prólogo sem colocar em cena o funâmbulo queabre toda a história? Em certos momentos, é uma ópera bufa sobre coisas terríveis; e nãoé por acaso que Nietzsche fala do cômico do super-homem. Recorde-se a canção deAriadne posta nos lábios do velho Encantador. Duas máscaras estão aqui superpostas: ade uma jovem, quase uma Korê, que vem aplicar-se sobre uma máscara de velhorepugnante. O ator deve desempenhar o papel de um velho em vias de desempenhar opapel da Korê. Trata-se, também aí, para Nietzsche, de preencher o vazio interior damáscara num espaço cênico: multiplicando as máscaras superpostas, inscrevendo aonipresença de Dioniso nesta superposição, colocando aí o infinito do movimento realcomo a diferença absoluta na repetição do eterno retorno. Quando Nietzsche diz que o4 Cf. KIERKEGAARD, Crainte et tremblement (trad. TISSEAU, Aubier, pp. 52-67), sobre a natureza domovimento real, que é "repetição" e não mediação e que se opõe ao falso movimento lógico abstrato deHegel; cf. as observações do Journal em apêndice à Répétition, trad. éd. TISSEAU. - Encontra-se tambémem PÉGUY uma crítica profunda do "movimento lógico". Este é denunciado por Péguy como pseudo-movimento, conservador, acumulador e capitalizador: cf. Clio, N.R.F., pp. 45 sq. Esta critica está próximada crítica kierkegaardiana.
  19. 19. 19super-homem se assemelha mais a Borgia que a Parsifal, quando sugere que o super-homem participa, ao mesmo tempo, da ordem dos jesuítas e do corpo de oficiaisprussianos, ainda aí só se pode compreender estes textos se forem tomados pelo que são,observações de encenador indicando como o super-homem deve ser "desempenhado". O teatro é o movimento real e extrai o movimento real de todas as artes que utiliza.Eis o que nos é dito: este movimento, a essência e a interioridade do movimento, é arepetição, não a oposição, não a mediação. Hegel é denunciado como aquele que propõeum movimento do conceito abstrato em vez do movimento da Physis e da Psiquê. Hegelsubstitui a verdadeira relação do singular e do universal na Idéia pela relação abstrata doparticular com o conceito em geral. Ele permanece, pois, no elemento refletido da"representação", na simples generalidade. Ele representa conceitos em vez de dramatizarIdéias: faz um falso teatro, um falso drama, um falso movimento. É preciso ver comoHegel trai e desnatura o imediato para fundar sua dialética sobre esta incompreensão epara introduzir a mediação num movimento que é apenas o movimento de seu própriopensamento e das generalidades deste pensamento. As sucessões especulativassubstituem as coexistências; as oposições vêm recobrir e ocultar as repetições. Quando,ao contrário, se diz que o movimento é a repetição e que é este nosso verdadeiro teatro,não se está falando do esforço do ator que "ensaia repetidas vezes" enquanto a peça aindanão está pronta. Pensa-se no espaço cênico, no vazio deste espaço, na maneira como ele épreenchido, determinado por signos e máscaras através dos quais o ator desempenha umpapel que desempenha outros papéis; pensa-se como a repetição se tece de um pontorelevante a um outro, compreendendo em si as diferenças. (Quando Marx também criticao falso movimento abstrato ou a mediação dos hegelianos, ele próprio é levado a umaidéia essencialmente "teatral", idéia que ele mais indica que desenvolve: na medida emque a história é um teatro, a repetição, o trágico e o cômico na repetição formam umacondição do movimento sob a qual os "atores" ou os "heróis" produzem na história algoefetivamente novo.) O teatro da repetição opõe-se ao teatro da representação, como omovimento opõe-se ao conceito e à representação que o relaciona ao conceito. No teatroda repetição, experimentamos forças puras, traçados dinâmicos no espaço que, semintermediário, agem sobre o espírito, unindo-o diretamente à natureza e à história;experimentamos uma linguagem que fala antes das palavras, gestos que se elaboramantes dos corpos organizados, máscaras antes das faces, espectros e fantasmas antes dospersonagens  todo o aparelho da repetição como "potência terrível". Torna-se fácil, então, falar das diferenças entre Kierkegaard e Nietzsche. Mesmoesta questão, porém, não deve ser colocada ao nível especulativo de uma natureza últimado Deus de Abraão ou do Dioniso de Zaratustra. Trata-se sobretudo de saber o que querdizer "estabelecer o movimento" ou repetir, obter a repetição. Trata-se de saltar, comoacredita Kierkegaard? Ou de dançar, como pensa Nietzsche, que não gosta que seconfunda dançar com saltar (somente salta o símio de Zaratustra, seu demônio, seu anão,seu bufão)5? Kierkegaard nos propõe um teatro da fé; e o que ele opõe ao movimentológico é o movimento espiritual, o movimento da fé. Ele também pode nos convidar a5 Cf. NIETZSCHE, Zaratustra, liv. III. "Das velhas e novas tábuas", § 4: " Mas só o bufão pensa: pode-setambém saltar acima do homem".
  20. 20. 20ultrapassar toda repetição estética, a ultrapassar a ironia e mesmo o humor, sabendo, comsofrimento, que nos propõe a imagem estética, irônica e humorística, de um talultrapassamento. Em Nietzsche, o que se tem é um teatro da descrença, do movimentocomo Physis, é já um teatro da crueldade. O humor e a ironia são aí inultrapassáveis,operando no fundo da natureza. E o que seria o eterno retorno, se esquecêssemos que eleé um movimento vertiginoso, que ele é dotado de uma força capaz de selecionar, capazde expulsar assim como de criar, de destruir assim como de produzir, e não de fazerretornar o Mesmo em geral? A grande idéia de Nietzsche é fundar a repetição no eternoretorno, ao mesmo tempo, sobre a morte de Deus e sobre a dissolução do Eu. Mas, noteatro da fé, a aliança é totalmente distinta; Kierkegaard sonha com uma aliança entre umDeus e um eu reencontrados. Diferenças de todo tipo se encadeiam: está o movimento naesfera do espírito ou nas entranhas da terra, terra que não conhece nem Deus nem eu?Onde se encontrará ele melhor protegido contra as generalidades, contra as mediações?Na medida em que está acima das leis da natureza, é sobrenatural a repetição? Ou ela é omais natural, vontade da Natureza em si mesma e querendo a si mesma como Physis,dado que a natureza é por ela mesma superior a seus próprios reinas e a suas própriasleis? Em sua condenação da repetição "estética", Kierkegaard não misturou todo tipo decoisas: uma pseudo-repetição, que se atribuiria às leis gerais da natureza, uma verdadeirarepetição na própria natureza; uma repetição das paixões de um modo patológico, umarepetição na arte e na obra de arte? Nenhum destes problemas podemos resolver agora;foi-nos suficiente encontrar a confirmação teatral de uma diferença irredutível entre ageneralidade e a repetição.Repetição e generalidade: terceira distinção, do ponto de vista do conceito Assim, repetição e generalidade opõem-se do ponto de vista da conduta e do pontode vista da lei. Mas é necessário precisar uma terceira oposição, agora do ponto de vistado conceito ou da representação. Coloquemos uma questão quid juris: de direito, oconceito pode ser o de uma coisa particular existente, tendo, então, uma compreensãoinfinita. A compreensão infinita é o correlato de uma extensão = 1. Importa muito queeste infinito da compreensão seja posto como atual, não como virtual ou simplesmenteindefinido. É sob esta condição que os predicados, como momentos do conceito, seconservam e têm um efeito no sujeito a que são atribuídos. Assim, a compreensão infinitatorna possível a rememoração e a recognição, a memória e a consciência de si (mesmoquando- estás duas faculdades não são infinitas). Chama-se representação a relação entreo conceito e seu objeto, tal como se encontra efetuada nesta memória e nesta consciênciade si. Pode-se tirar daí os princípios de um leibnizianismo vulgarizado. De acordo comum princípio de diferença, toda determinação é conceitual em última instância ou fazatualmente parte da compreensão de um conceito. De acordo com um princípio de razãosuficiente, há sempre um conceito por cada coisa particular. De acordo com a recíproca,princípio dos indiscerníveis, há uma coisa e apenas uma por conceito. O conjunto destesprincípios forma a exposição da diferença como diferença conceitual ou odesenvolvimento da representação como mediação.
  21. 21. 21A compreensão do conceito e o fenômeno do "bloqueio" Mas um conceito pode sempre ser bloqueado ao nível de cada uma de suasdeterminações, de cada um dos predicados que ele compreende. O próprio do predicadocomo determinação é permanecer fixo no conceito, ao mesmo tempo em que se tornaoutro na coisa (animal se torna outro em homem e em cavalo, humanidade se toma outraem Pedro e Paulo). Isto mostra por que a compreensão do conceito é infinita: tomando-seoutro na coisa, o predicado é como o objeto de um outro predicado no conceito. Mas istotambém mostra por que cada determinação permanece geral ou define uma semelhança,enquanto fixada no conceito e convindo de direito a uma infinidade de coisas. Portanto, oconceito é aqui constituído de tal modo que sua compreensão vai ao infinito em seu usoreal, mas é sempre passível, em seu uso lógico, de um bloqueio artificial. Toda limitaçãológica da compreensão do conceito dota-o de uma extensão superior a 1, de direitoinfinita; dota-o, pois, de uma generalidade tal que nenhum indivíduo existente podecorresponder-lhe hic et nunc (regra da relação inversa da compreensão e da extensão).Assim, como diferença no conceito, o princípio de diferença não se opõe à apreensão dassemelhanças, mas, ao contrário, deixa-lhe o maior espaço de jogo possível. Já a questão"que diferença há?" pode, do ponto de vista do jogo de adivinhações, transformar-se em:que semelhança há? Mas, sobretudo nas classificações, a determinação das espéciesimplica e supõe uma avaliação contínua das semelhanças. Sem dúvida, a semelhança nãoé uma identidade parcial; mas isto é assim somente porque o predicado no conceito, emvirtude de seu tornar-se-outro na coisa, não é uma parte desta coisa.Os três casos de "bloqueio natural" e a repetição: conceitos nominais, conceitos danatureza, conceitos da liberdade Gostaríamos de marcar a diferença entre este tipo de bloqueio artificial e um tipototalmente distinto, que se deve chamar de bloqueio natural do conceito. Um remete àsimples lógica, mas o outro remete a uma lógica transcendental ou a uma dialética daexistência. Suponhamos, com efeito, que um conceito, tomado num momentodeterminado em que sua compreensão é finita, seja forçado a assinalar um lugar noespaço e no tempo, isto é, uma existência correspondendo normalmente à extensão = 1.Dir-se-ia, então, que um gênero, uma espécie, passa à existência hic et nunc sem aumentode compreensão. Há dilaceração entre esta extensão = 1, imposta ao conceito, e aextensão = ∞, exigida em princípio por sua fraca compreensão. O resultado será uma"extensão discreta", isto é, um pulular de indivíduos absolutamente idênticos quanto aoconceito e participando da mesma singularidade na existência (paradoxo dos duplos oudos gêmeos)6. Este fenômeno da extensão discreta implica um bloqueio natural doconceito, que, por sua natureza, difere do bloqueio lógico: ele forma uma verdadeirarepetição na existência em vez de constituir uma ordem de semelhança no pensamento.Há uma grande diferença entre a generalidade, que sempre designa uma potência lógicado conceito, e a repetição, que testemunha a impotência ou o limite real do conceito. A6 A fórmula e o fenômeno da extensão discreta são bem destacados por Michel Tournier em um texto a serpublicado.
  22. 22. 22repetição é o fato puro de um conceito com compreensão finita, forçado a passar como talà existência: conhecemos exemplos de tal passagem? O átomo epicurista seria um destesexemplos; indivíduo localizado no espaço, ele não deixa de ter uma compreensão pobreque se recupera em extensão discreta, a tal ponto que existe uma infinidade de átomos demesma forma e mesmo tamanho. Mas pode-se duvidar da existência do átomo epicurista.Em compensação, não se pode duvidar da existência das palavras, que, de certa maneira,são átomos lingüísticos. A palavra possui uma compreensão necessariamente finita, pois,por natureza, ela é objeto de uma definição apenas nominal. Dispomos aí de uma razãopela qual a compreensão do conceito não pode ir ao infinito: só se define uma palavra pormeio de um número finito de palavras. Todavia, a fala e a escrita, das quais a palavra éinseparável, dão a esta uma existência hic et nunc; o gênero, portanto, passa à existênciaenquanto tal; e, ainda aí, a extensão se recobra em dispersão, em discreção, sob o signode uma repetição que forma a potência real da linguagem na fala e na escrita. A questão é a seguinte: há outros bloqueios naturais, além da extensão discreta ouda compreensão finita? Suponhamos um conceito com compreensão indefinida(virtualmente infinita). Por mais longe que se vá nessa compreensão, poder-se-á semprepensar que um tal conceito subsume objetos perfeitamente idênticos. Contrariamente aoque se passa no infinito atual, onde, de direito, o conceito basta para distinguir seu objetode qualquer outro objeto, encontramo-nos agora diante de um caso em que o conceitopode levar adiante sua compreensão, indefinidamente, subsumindo sempre umapluralidade de objetos, pluralidade ela própria indefinida. Ainda aí o conceito é o Mesmo- indefinidamente o mesmo - para objetos distintos. Devemos, então, reconhecer aexistência de diferenças não conceituais entre estes objetos. Kant foi quem melhormarcou a correlação entre conceitos, dotados de uma especificação somente indefinida, edeterminações não conceituais, puramente espaço-temporais ou oposicionais (paradoxodos objetos simétricos)7. Mas, precisamente, estas determinações são apenas figuras darepetição: o espaço e o tempo são, eles próprios, meios repetitivos; e a oposição real nãoé um máximo de diferença, mas um mínimo de repetição, uma repetição reduzida a dois,ecoando e retornando sobre si mesma, uma repetição que encontrou o meio de se definir.A repetição aparece, pois, como a diferença sem conceito, a diferença que se subtrai àdiferença conceitual indefinidamente continuada. Ela exprime uma potência própria doexistente, uma obstinação do existente na intuição, que resiste a toda especificação peloconceito, por mais longe que se leve esta especificação. Por mais longe que se vá noconceito, diz Kant, poder-se-á sempre repetir, isto é, fazer-lhe corresponder váriosobjetos, ao menos dois, um à esquerda e um à direita, um para o mais e um para o menos,7 Em Kant, há uma especificação infinita do conceito; mas, como este infinito é apenas virtual (indefinido),não se pode tirar daí nenhum argumento favorável à posição de um princípio dos indiscerníveis.  ParaLEIBNIZ, ao contrário, é muito importante que a compreensão do conceito de um existente (possível oureal) seja atualmente infinita: Leibniz afirma isto claramente em Da Liberdade ("só Deus vê, nãocertamente o fim da resolução, fim que não tem lugar..."). Quando Leibniz emprega a palavra"virtualmente", para caracterizar a inerência do predicado no caso das verdades de fato (por exemplo,Discurso de metafísica, § 8), virtual deve ser entendido não como o contrário de atual, mas comosignificando "envolvido", "implicado", "impresso", o que de modo algum exclui a atualidade. Em sentidoestrito, a noção de virtual é invocada por Leibniz, mas só a propósito de uma espécie de verdadesnecessárias (proposições não-recíprocas): cf. Da Liberdade.
  23. 23. 23um para o positivo e um para o negativo. Compreende-se melhor uma tal situação se se considera que os conceitos comcompreensão indefinida são os conceitos da Natureza. Sob este aspecto, eles estãosempre em outra coisa: não estão na natureza, mas no espírito que a contempla ou que aobserva e que a representa a si próprio. Eis por que se diz que a Natureza é conceitoalienado, espírito alienado, oposto a si mesmo. A tais conceitos, correspondem objetosque são desprovidos de memória, isto é, que não possuem e não recolhem em si seuspróprios momentos. Pergunta-se por que a Natureza repete: porque, responde-se, ela épartes extra partes, mens momentanea. A novidade, então, encontra-se do lado do espíritoque se representa: é porque o espírito tem uma memória ou porque adquire hábitos queele é capaz de formar conceitos em geral, de tirar algo de novo, de transvasar algo denovo à repetição que ele contempla. Os conceitos com compreensão finita são os conceitos nominais; os conceitos comcompreensão indefinida, mas sem memória, são os conceitos da Natureza. Ora, estes doiscasos ainda não esgotam os exemplos de bloqueio natural. Seja uma noção individual ouuma representação particular com compreensão infinita, dotada de memória, mas semconsciência de si. A representação compreensiva é em si, a lembrança aí está, abarcandotoda a particularidade de um ato, de uma cena, de um acontecimento, de um ser. Mas oque falta, para uma razão natural determinada, é o para-si da consciência, é a recognição.O que falta à memória é a rememoração ou, antes, a elaboração. Entre a representação e oEu♦, a consciência estabelece uma relação muito mais profunda que a que aparece naexpressão "tenho uma representação"; ela relaciona a representação ao Eu como a umalivre faculdade que não se deixa encerrar em nenhum de seus produtos, mas para quemcada produto já está pensado e reconhecido como passado, ocasião de uma mudançadeterminada no sentido íntimo. Quando falta a consciência do saber ou a elaboração dalembrança, o saber, tal como é em si, não vai além da repetição de seu objeto: ele édesempenhado, isto é, repetido, posto em ato, em vez de ser conhecido. A repetiçãoaparece aqui como o inconsciente do livre conceito, do saber ou da lembrança, oinconsciente da representação. Coube a Freud ter assinalado a razão natural de talbloqueio: o recalque, a resistência, que faz da própria repetição uma verdadeira"coerção", uma "compulsão". Eis aí, por tanto, um terceiro caso de bloqueio que destavez concerne aos conceitos da liberdade. Pode se destacar também, do ponto de vista decerto freudismo, o princípio da relação inversa entre repetição e consciência, repetição erememoração, repetição e recognição (paradoxo das "sepulturas" ou dos objetosenterrados): repete-se tanto mais o passado quanto menos é ele recordado, quanto menosconsciência se tem de recordá-lo  recorde, elabore a recordação para não repetir8. A♦ Grifaremos o eu todas as vezes em que "je" for empregado, no original, como substantivo, para distinguirda tradução de "moi" por eu. (N. dos T.)8 FREUD, Remémoration, répétition et élaboration, 1914 (trad. BERMAN, De la techniquepsychanalytique, Presses Universitaires de France).  Nesta via de uma interpretação negativa darepetição psíquica (repetimos porque nos enganamos, porque não elaboramos a recordação, porque nãotemos consciência, porque não temos instintos), ninguém foi mais longe, e com mais rigor, que FerdinandALQUIÉ, Le désir déternité (1943, Presses Universitaires de France), chap. II-IV.
  24. 24. 24consciência de si, na recognição, aparece como a faculdade do futuro ou a função dofuturo, a função do novo. Não é verdade que os únicos mortos que retornam são aquelesque foram muito rápido e muito profundamente enterrados, sem que lhes tenham sidoprestadas as devidas exéquias, e que o remorso testemunha menos um excesso dememória que uma impotência ou um malogro na elaboração de uma lembrança? Há um trágico e um cômico na repetição. A repetição aparece sempre duas vezes,uma vez no destino trágico, outra no caráter cômico. No teatro, o herói repeteprecisamente porque está separado de um saber essencial infinito. Este saber está nele,mergulhado nele, age nele, mas age como coisa oculta, como representação bloqueada. Adiferença entre o cômico e o trágico diz respeito a dois elementos: a natureza do saberrecalcado, ora saber natural imediato, simples dado do senso comum, ora terrível saberesotérico; por conseguinte, tem-se também a maneira pela qual o personagem é excluídodesse saber, a maneira pela qual "ele não sabe que sabe". O problema prático consiste,em geral, no seguinte: o saber não sabido deve ser representado como banhando toda acena, impregnando todos os elementos da peça, compreendendo em si todas as potênciasda natureza e do espírito; ao mesmo tempo, porém, o herói não pode representar tal saberpara si próprio, devendo, ao contrário, colocá-lo em ato, desempenhá-lo, repeti-lo. Devefazer isto até o momento agudo que Aristóteles chamava de "reconhecimento", momentoem que a repetição e a representação se misturam, se defrontam, sem, contudo, haverconfusão entre estes dois níveis, um refletindo-se no outro, nutrindo-se do outro, sendo osaber, então, reconhecido como o mesmo, seja enquanto representado na cena, sejaenquanto repetido pelo ator.A repetição não se explica pela identidade do conceito; nem mesmo por uma condiçãoapenas negativa O discreto, o alienado, o recalcado são os três casos de bloqueio natural,correspondendo aos conceitos nominais, aos conceitos da natureza e aos conceitos daliberdade. Mas, em todos estes casos, para se dar conta da repetição, invoca-se a formado idêntico no conceito, a forma do Mesmo na representação: a repetição se diz deelementos que são realmente distintos e que, todavia, têm, estritamente, o mesmoconceito. A repetição aparece, pois, como uma diferença, mas uma diferençaabsolutamente sem conceito e, neste sentido, uma diferença indiferente. As palavras"realmente", "estritamente", "absolutamente" são consideradas como palavras queremetem ao fenômeno do bloqueio natural, por oposição ao bloqueio lógico que sódetermina uma generalidade. Mas um grave inconveniente compromete toda estatentativa. Enquanto invocamos a identidade absoluta do conceito para objetos distintos,sugerimos apenas uma explicação negativa e por deficiência. Que esta deficiência sejafundada na natureza do conceito ou da representação, isto nada muda em cada um destescasos. No primeiro caso, há repetição porque o conceito nominal tem naturalmente umacompreensão finita. No segundo caso, há repetição porque o conceito da natureza énaturalmente sem memória, é alienado, está fora de si. No terceiro caso, há repetiçãoporque o conceito da liberdade permanece inconsciente, a lembrança e a representaçãopermanecem recalcadas. Em todos estes casos, aquilo que repete só o faz à força de não"compreender", de não se lembrar, de não sabei- ou de não ter consciência. Em todaparte, é a insuficiência do conceito e de seus concomitantes representativos (memória e
  25. 25. 25consciência de si, rememoração e recognição) que é tida como capaz de dar conta darepetição. É esta, pois, a deficiência de todo argumento fundado na forma da identidadeno conceito: estes argumentos só nos dão uma definição nominal e uma explicaçãonegativa da repetição. Sem dúvida, pode-se opor a identidade formal, que corresponde aosimples bloqueio lógico, e a identidade real (o Mesmo), tal como aparece no bloqueionatural. Mas o próprio bloqueio natural tem necessidade de uma força positivasupraconceitual capaz de explicá-lo e de, ao mesmo tempo, explicar a repetição.As funções do "instinto de morte": a repetição em sua relação com a diferença e comosendo aquilo que exige um princípio positivo. (Exemplo dos conceitos da liberdade) Retornemos ao exemplo da Psicanálise: repete-se porque se recalca... Freud nuncase satisfez com tal esquema negativo, em que se explica a repetição pela amnésia. Éverdade que, desde o início, o recalque designa uma potência positiva. Mas é do princípiode prazer ou do princípio de realidade que ele extrai esta positividade: positividadeapenas derivada e de oposição. A grande virada do freudismo aparece em Além doprincípio de prazer: o instinto de morte é descoberto não em relação com as tendênciasdestrutivas, não em relação com a agressividade, mas em função de uma consideraçãodireta dos fenômenos de repetição. Curiosamente, o instinto de morte vale comoprincípio positivo originário para a repetição, aí estando seu domínio e seu sentido. Eledesempenha o papel de um princípio transcendental, ao passo que o princípio de prazer étão-somente psicológico. Eis por que ele é antes de tudo silencioso (não dado naexperiência), ao passo que o princípio de prazer é ruidoso. A primeira questão seria,portanto, a seguinte: como o tema da morte, que parece reunir o que existe de maisnegativo na vida psicológica, pode ser em si o mais positivo, transcendentalmentepositivo, a ponto de afirmar a repetição? Como pode ser ele relacionado a um instintoprimordial? Mas uma segunda questão recorta imediatamente essa primeira. Sob queforma é a repetição afirmada e prescrita pelo instinto de morte? No mais profundo, trata-se da relação entre a repetição e os disfarces. Os disfarces no trabalho do sonho ou dosintoma  a condensação, o deslocamento, a dramatização  vêm recobrir, atenuando-a, uma repetição bruta e nua (como repetição do Mesmo)? Desde a primeira teoria dorecalque, Freud indicava uma outra via: Dora só elabora seu próprio papel e só repete seuamor pelo pai através de outros papéis desempenhados por outros e qustatado quando ele atribui a fixação ao Isso; o disfarce é então compreendido naperspectiva de uma simples oposição de forças, a repetição disfarçada sendo o fruto deum compromisso secundário entre forças opostas do Eu e do Isso. Mesmo em para alémdo princípio de prazer, a forma de uma repetição nua subsiste, pois Freud interpreta oinstinto de morte como uma tendência a retornar ao estado de uma matéria inanimada, oque mantém o modelo de uma repetição totalmente física ou material. A morte nada tem a ver com um modelo material. Ao contrário, basta compreendero instinto de morte em sua relação com as máscaras e os travestimentos. A repetição éverdadeiramente o que se disfarça ao se constituir e o que só se constitui ao se disfarçar.Ela não está sob as máscaras, mas se forma de uma máscara a outra, como de um pontorelevante a outro, com e nas variantes. As máscaras nada recobrem, salvo outrasmáscaras. Não há primeiro termo que seja repetido; e mesmo nosso amor de infância pormamãe repete outros amores adultos por outras mulheres, mais ou menos como o herói
  26. 26. 26da Recherche desempenha novamente com sua mãe a paixão de Swann por Odette.Portanto, nada há de repetido que possa ser isolado ou abstraído da repetição em que elese forma e em que, porém, ele também se oculta. Não há repetição nua que possa serabstraída ou inferida do próprio disfarce. A mesma coisa é disfarçante e disfarçada. Ummomento decisivo da Psicanálise foi aquele em que Freud renunciou em alguns pontos àhipótese de acontecimentos reais da infância que seriam como que termos últimosdisfarçados, para substituí-los pela potência do fantasma que mergulha no instinto demorte, onde tudo já é máscara e ainda disfarce. Em suma, a repetição é simbólica na suaessência; o símbolo, o simulacro, é a letra da própria repetição. Pelo disfarce e pelaordem do símbolo, a diferença é compreendida na repetição. É por isso que as variantesnão vêm de fora, não exprimem um compromisso secundário entre uma instânciarecalcante e uma instância recalcada, e não devem ser compreendidas a partir das formasainda negativas da oposição, da conversão ou da reversão. As variantes exprimem antesde tudo mecanismos diferenciais que são da essência e da gênese do que se repete. Seriapreciso até mesmo reverter as relações do "nu" e do "vestido" na repetição. Seja umarepetição nua (como repetição do Mesmo), um cerimonial obsessivo, por exemplo, ouuma estereotipia esquizofrênica: o que há de mecânico na repetição, o elemento de açãoaparentemente repetido, serve de cobertura para uma repetição mais profunda que sedesenrola numa outra dimensão, verticalidade secreta em que os papéis e as máscaras sealimentam no instinto de morte. Teatro do terror, dizia Binswanger a propósito daesquizofrenia. O "nunca visto" não é aí o contrário do "já visto", significando, ambos, amesma coisa e sendo cada um vivido no outro. Sylvie, de Nerval, já nos introduzia nesseteatro, e Gradiva, tão próxima de uma inspiração nervaliana, mostra-nos o herói que vivea repetição como tal e, ao mesmo tempo, aquilo que se repete como sempre disfarçado narepetição. Na análise da obsessão, o aparecimento do tema da morte coincide com omomento em que o obsessivo dispõe de todos os personagens de seu drama e os reúnenuma repetição cujo "cerimonial" é apenas o envoltório exterior. Em toda parte, amáscara, o travestimento, o vestido é a verdade do nu. É a máscara o verdadeiro sujeitoda repetição. É porque a repetição difere por natureza da representação que o repetidonão pode ser representado, mas deve sempre ser significado, mascarado por aquilo que osignifica, ele próprio mascarando aquilo que ele significa. Não repito porque recalco. Recalco porque repito, esqueço porque repito. Recalcoporque, primeiramente, não posso viver certas coisas ou certas experiências a não ser aomodo da repetição. Sou determinado a recalcar aquilo que me impediria de vivê-las dessemodo, isto é, a representação, a representação que mediatiza o vivido ao relacioná-lo coma forma de um objeto idêntico ou semelhante. Eros e Tânatos distinguem-se no seguinte:Eros deve ser repetido, só pode ser vivido na repetição; mas Tânatos (como princípiotranscendental) é o que dá a repetição a Eros, o que submete Eros à repetição. Somenteeste ponto de vista é capaz de nos fazer avançar nos problemas obscuros da origem dorecalque, de sua natureza, de suas causas e dos termos exatos sobre os quais ele incide.Com efeito, quando Freud, para além do recalque "propriamente dito", que incide sobrerepresentações, mostra a necessidade de se supor um recalque originário concernente, emprimeiro lugar, às apresentações puras ou à maneira como as pulsões são necessariamentevividas, acreditamos que ele se aproxima ao máximo de uma razão positiva interna darepetição, razão que lhe parecerá mais tarde determinável no instinto de morte e que deve
  27. 27. 27explicar o bloqueio da representação no recalque propriamente dito, em vez de serexplicado por ele. É por isso que a lei de uma relação inversa repetição-rememoração épouco satisfatória sob todos os aspectos, na medida em que faz a repetição depender dorecalque. Freud assinalava, desde o início, que, para deixar de repetir, não basta lembrar-seabstratamente (sem afeto), nem formar um conceito em geral, nem mesmo se representar,em toda sua particularidade, o acontecimento recalcado: é preciso procurar a lembrançaonde ela se encontrava, instalar-se de pronto no passado para operar a junção viva entre osaber e a resistência, entre a representação e o bloqueio. Não se cura, pois, por simplesanamnese, como tampouco se está doente por amnésia. Neste caso, como em outros, atomada de consciência é pouca coisa. A operação, de outro modo teatral e dramática, pelaqual se cura e pela qual também se deixa de curar, tem um nome: transferência. Ora, atransferência é ainda repetição, é antes de tudo repetição9. Se a repetição nos tornadoentes, é também ela que nos cura; se ela nos aprisiona e nos destrói, é ainda ela que nosliberta, dando, nos dois casos, o testemunho de sua potência "demoníaca". Toda cura éuma viagem ao fundo da repetição. Sem dúvida, na transferência há algo de análogo aoque se encontra na experimentação científica, pois supõe-se que o doente deva repetir oconjunto de seu distúrbio em condições artificiais privilegiadas, tomando a pessoa doanalista como "objeto". Mas, na transferência, a repetição tem menos a função deidentificar acontecimentos, pessoas e paixões do que de autenticar papéis, selecionarmáscaras. A transferência não é uma experiência, mas um princípio que funda toda aexperiência analítica. Por natureza, os próprios papéis são eróticos, mas a prova dospapéis apela para este mais elevado princípio, para este juiz mais profundo que é oinstinto de morte. Com efeito, a reflexão sobre a transferência foi um motivodeterminante para a descoberta de um "para-além". É neste sentido que a repetiçãoconstitui, por si mesma, o jogo seletivo de nossa doença e de nossa saúde, de nossaperdição e de nossa salvação. Como é possível relacionar este jogo ao instinto de morte?Sem dúvida, num sentido bastante próximo daquele em que Miller diz, em seu admirávellivro sobre Rimbaud: "Compreendi que era livre, que a morte, que tinha experimentado,me havia libertado". Assim, a idéia de um instinto de morte deve ser compreendida emfunção de três exigências paradoxais complementares: dar à repetição um princípiooriginal positivo, um poder autônomo de disfarce e, finalmente, um sentido imanente emque o terror se mistura intimamente com o movimento da seleção e da liberdade.9 FREUD invoca a transferência precisamente para colocar em questão sua lei global da relação inversa.Cf. Au-delà du príncipe de plaisir (trad. s. JANKÉLÉVITCH, Payot, pp. 24-25): lembrança e reprodução,rememoração e repetição opõem-se em princípio, mas é preciso praticamente se resignar com o fato de queo doente revive na cura certos elementos recalcados; "a relação que se estabelece, assim, entre areprodução e a lembrança varia de um caso para outro". - Aqueles que mais profundamente insistiram noaspecto terapêutico e liberatório da repetição, tal como esta aparece na transferência, foram FERENCZI eRANK, em Entwicklungziele der Psychoanalyse (Neue Arbeiten zur ärtzlichen Psychoanalyse, Vienne,1924).

×