A HOMOSSEXUALIDADE FEMININA            Teresa Castro d’Aire     1
INTRODUÇÃOÀ semelhança daquilo que foi feito no primeiro volume desta colecção, tentamos oferecerao público leitor um mome...
Ana Margarida, 39 anos, bancária.- Bom, em primeiro lugar, diga-me qual é a designação que prefere: sáfica, lésbica,mulher...
- Pois, o Freud é que disse essas coisas, não foi? Mas não é verdade. Pelo menos no meucaso. Não foi nada disso que aconte...
Representava o papel do homem inseguro, que é uma coisa que eles sabem que as mulheresnão resistem, e nesse aspecto eu não...
“Oh Matilde sacode a saia,  Oh Matilde levanta o braço,  Oh Matilde dá-me um beijinho,  Oh Matilde dá-me um abraço.”Elas p...
- E foram muitas?- Algumas, sei lá, umas dez ou quinze, talvez... não foram muitas mais. Mas isso foi nostempos gloriosos ...
ou não, isso eu não sei se ela é, nem me interessa, mas que ganha a sua vida num bar gaya cantar para as lésbicas, não tem...
Luciana, 51 anos, dona de casa.- Para começar, Luciana, qual é a designação que prefere? Prefere a designação de mulherhom...
- Não, de maneira nenhuma, sou até muito feminina e é assim que eu gosto de ser.- E costuma agradar aos homens?- Acho que ...
amiga. Não fazia a menor ideia, de maneira que um dia voltei-me para ela e disse-lhe queela tinha de me explicar como era,...
Joana, 24 anos, hospedeira de terra de uma companhia aérea.- Joana, em primeiro lugar, qual é a designação que prefere? Lé...
- A Joana considera-se uma mulher masculina?- Não, nem um bocadinho. Às vezes lá visto umas calças, lá meto uns sapatos ma...
e não é por isso que uma pessoa vai ficar chateada. Eu posso passar horas na cama com aminha amiga, e não atingirmos o org...
Francisca, 36 anos, profissão liberal.- Para começar, Francisca, qual é a designação que prefere? Mulher homossexual, sáfi...
distância já era um factor que complicava, para não dizer que impossibilitava orelacionamento. Depois houve rapazes que go...
das pessoas, obviamente. Eu confesso que isso para mim é uma coisa um bocado disparatada,e custa-me um bocadinho a percebe...
fiz nada, e ela e a terceira pessoa é que fizeram a festa, e eu fiquei de fora. Portanto,e resumindo, eu aceito esse tipo ...
Carla, 19 anos, estudante.- Olhe, Carla, para começar, qual é a designação que prefere? Mulher homossexual,lésbica, sáfica...
de ser rapaz para poder casar com a ........... É uma paixão tão grande...- A Carla queria casar com ela?- Era giro, não e...
Alexandra, 29 anos, jornalista.- Antes de mais, Alexandra, qual é a designação que prefere? Lésbica? Sáfica? Mulherhomosse...
Unidos, que é o caso que eu conheço melhor, quando há as Gay Parades, primeiro discursamos gays, depois discursam as lésbi...
apercebi pela primeira vez de que o meu lesbianismo era um problema social um bocadocomplicado. Foi um dia em que eu ia co...
- Não, também não.- E se de repente pudesse passar a ser exclusivamente heterossexual?- Eu gostava de ver essa proposta fe...
pedra, porque as pessoas se querem o anonimato lá têm as suas razões, e essa pessoa fazmuito bem em defender as mulheres d...
Luísa Freitas, 46 anos, comerciante.- Luísa, diga-me em primeiro lugar qual é a designação que prefere: lésbica, sáfica,mu...
383 a homossexualidade feminina
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383 a homossexualidade feminina

  1. 1. A HOMOSSEXUALIDADE FEMININA Teresa Castro d’Aire 1
  2. 2. INTRODUÇÃOÀ semelhança daquilo que foi feito no primeiro volume desta colecção, tentamos oferecerao público leitor um momento mais de reflexão sobre a realidade de um grupo de pessoasque entenderam viver uma sexualidade de sinal contrário. Também este é um tema ao qualjulgamos que um grande número de leitores não irá resistir, seja qual for o seu sexo e asua orientação sexual. Porque é um dos maiores tabús da História da nossa Civilização. Umtabú que engloba um mistério indesvendável.Tal como já tinha acontecido com os homossexuais masculinos, também elas, as sáficas, aolongo dos séculos, e salvo raras excepções, se esquivaram a falar sobre a intimidade dosseus sentimentos e da sua sexualidade.Tal como se passou com eles, também elas resolveram finalmente quebrar o seu silêncio.Aceitaram falar um pouco de si, rompendo assim com um secretismo que desde sempre asvinha acompanhando.Tiveram aqui a palavra, disseram o que tinham a dizer. Uma delas quis inclusivamenteidentificar-se.São nove entrevistas que se pretenderam informais no tom, mas nem por isso menos sériasna abordagem das questões, e sobretudo despidas de preconceitos. Também aqui a intimidadeé chamada pelo nome que tem, sem falsos pudores.Foram entrevistadas mulheres de grupos etários que vão dos dezanove aos sessenta e cincoanos, com estatutos sócio-profissionais muito diferentes, mulheres diferentes até na corda pele, com opções políticas e religiosas muito diversificadas. Estão presentes mães defamília de aspecto conservador e está uma activista política de esquerda. Estão católicaspraticantes, uma delas esteve quase a ser freira, está uma meia-judia, está uma panteístae uma ateia confessa.Nalguns pontos assumem, no entanto, posições convergentes: à semelhança dos homens, todoselas entendem que a homossexualidade é uma característica que nalguns casos surge logo nainfância, noutros casos só muito mais tarde se revela, mas é qualquer coisa que nasce como indivíduo. Há quem tenha tido a sua primeira experiência aos dez anos de idade, há quema tenha tido aos quarenta e oito.Todas elas garantem que as sáficas portuguesas são muitas. Ninguém sabe quantas serão aocerto, mas de acordo com estes depoimentos são muito mais numerosas do que geralmente seimagina. Algumas foram ou são casadas, três delas têm um ou mais filhos, outras tantasgostariam de os ter tido.Todas elas têm códigos de valores e todas elas fazem conceitos morais da vida.Todas elas parecem absolutamente libertas de qualquer sentimento de culpa em relação àsua orientação sexual, todas elas estão perfeitamente satisfeitas com a sua condição demulheres e com a sua condição de sáficas.Um ponto em que parecem discordar: a designação a adoptar. Há as que aceitam com agrado apalavra lésbica, há as que não querem nem ouvir pronunciá-la.Quem são elas? Pessoas comuns. Pessoas, apenas pessoas que quiseram falar um pouco de sipróprias. Talvez seja... essa rapariga que vai sentada ao seu lado no autocarro ou nometro. 2
  3. 3. Ana Margarida, 39 anos, bancária.- Bom, em primeiro lugar, diga-me qual é a designação que prefere: sáfica, lésbica,mulher homossexual...- Eu gosto da palavra lésbica, é uma palavra que me soa muito bem, inclusive noutraslínguas, lesbian, lesbienne... mas sei que é uma palavra que não agrada a muita gente,inclusive às próprias lésbicas.- Porque será? Tem alguma explicação para isso?- Bom, a mim parece-me que as pessoas ainda têm muita dificuldade em encarar as coisas defrente, quer dizer, em aceitar o fenómeno com naturalidade, quando afinal não é nenhumbicho de sete cabeças. É a coisa mais natural desta vida, faz parte de múltiplasculturas, desde os gineceus gregos aos harens árabes...- Está bem, já vamos falar nisso, mas agora preferia que me dissesse alguma coisa sobreas origens do lesbianismo, no seu caso pessoal. Acha que já nasceu lésbica, ou isso foiuma coisa que só lhe aconteceu mais tarde?- Olhe, você está-me a dar imensa vontade de rir com essa pergunta, porque de repentelembrei-me de uma fulana que eu conheço que diz que se tornou lésbica por causa de umaanestesia geral. Ela conta que não tinha nenhuma espécie de tendências, nem nunca tinhapensado em semelhante coisa, e que um dia foi operada a uma apendicite, e acordoulésbica. Diz que quando acordou da anestesia olhou para a cara da médica anestesista e derepente apaixonou-se por ela. Você acha que isto pode acontecer a uma pessoa?- Realmente é um bocado esquisito...- Pois é... eu não acredito. Olhe, no meu caso eu acho que foi de nascença. Aliás, a mimparece-me que é sempre de nascença. Algumas mulheres demoram é uma data de anos adescobrir a coisa dentro delas. Estou-me a lembrar de uma frase da Jill Johnston “Todasas mulheres são lésbicas, à excepção daquelas que ainda não o sabem”. E é perfeitamentenatural que levem algum tempo a descobrir, repare que toda a educação que recebemos desdeque nascemos é uma educação aparentemente inspirada nos valores heterossexuais, mas nofundo cheia de convites à homossexualidade, às vezes muito subtis, mas que estão lá, paraquem os quiser ver. Repare na Barbie, por exemplo. A beleza feminina para agradar aoshomens, não é? Mas antes de agradar aos homens, é para agradar a quem? Às meninas decinco anos...- Quer dizer que as Barbies podem ajudar a estimular as tendências lésbicas das meninasde cinco anos?- Como milhares de outras coisas. Tudo aquilo que as ajuda a desenvolver ajuda adesenvolver todas as suas vertentes, a vertente lésbica também, porque é que havia de seruma excepção?- Disse-me que no seu caso é de nascença?- Bom, se quer que lhe responda muito seriamente, eu acho que em tudo na vida sou aconjugação de três factores: sou uma herança genética, e a esse nível eu acredito quenasci com predisposição para ser lésbica, depois sou o produto da minha educação, detodas as influências que o mundo exterior pode ter exercido sobre mim, e é claro queexistiram muitos factores que me encaminharam nesse sentido, e em terceiro lugar soutambém o resultado de um acto de vontade, ou seja, eu sou lésbica porque quero, e sequisesse deixar de o ser deixava de o ser nesse mesmo momento. Se a coisa passasse a serobrigatória, por exemplo, aí eu de certeza que me passava para o outro lado, porque doque eu gosto mesmo é de transgredir, de fazer as coisas todas ao contrário. Mas pronto,quando eu tinha cinco anos havia uma amiga da minha mãe que tinha uns olhos muito pretos,com umas grandes pestanas, que já nessa altura me deixava perturbadíssima. Aos oito anosestava perdida de amores, irremediavelmente perdida, pela minha professora da segundaclasse. Nem dormia de noite, está a ver?- E foram sempre mulheres mais velhas?- Nessa altura sim. Bem vê, as miúdas da minha idade não tinham gracinha nenhuma, nemtinham maminhas nem nada...- Quer dizer que nessa altura você já pensava nessas coisas?- Pensar... talvez não pensasse, mas no subconsciente acho que já gostava. Sempre acheique as mulheres eram muito mais bonitas que os homens.- E não acha que essa sua atracção por mulheres mais velhas possa ter estado ligada aalgum trauma, alguma má relação familiar, uma procura de uma figura materna substituta? 3
  4. 4. - Pois, o Freud é que disse essas coisas, não foi? Mas não é verdade. Pelo menos no meucaso. Não foi nada disso que aconteceu. A minha mãe não era uma personalidade que meprovocasse traumas, até nos dávamos mais ou menos bem. Às vezes discutíamos por isto oupor aquilo, mas nada de grave. Nunca me maltratou, nunca me desleixou mas também nunca mesufocou, está a ver?- Bem, então e depois? Como é que foi a sua adolescência?- Aí foi um bocado mais complicado. Tive uma grande paixão por uma rapariga de uma outraturma, mas houve uma cabra de uma colega que nos apanhou um bilhetinho, levou para casapara mostrar à mãe, a mãe foi falar com a reitora, foi uma fita... estávamos a ver queeramos expulsas.- Então e depois?- Depois? Então, eles primeiro acharam que aquilo era tudo uma anormalidade, o meu paiesteve dois meses sem me falar, mas depois a minha mãe teve uma conversa comigo e lá meconvenceu que o melhor que tinha a fazer era ganhar juizo.- Ganhar juizo?- Pois, quer dizer, ser igual a toda a gente... fui a festas com rapazes, dancei comeles, ainda namorei com dois ou três...- E então?- Então, olhe, era superior às minhas forças. A voz deles eu ainda suportava. Aliás aindahoje gosto de mulheres de voz grave. Quando se esganiçam começam-me logo a irritar.- Mas os rapazes?- Ah, pois, era a barba que me incomodava, era o cheiro deles que me dava vómitos, achoque era uma aversão visceral. E depois eram as bazófias, estavam sempre à espera que asraparigas ficassem ali embevecidas a olhar para eles, horrorosos, cheios de borbulhas...e elas ali, deslumbradas, horas esquecidas a ouvir-lhes as palermices.- Mas disse-me que também tinha namorado...- Pois foi...- E nunca se deitou com nenhum deles?- Deitei. E este até era docinho, quer dizer, não foi delicioso, mas também não possodizer que fosse assim uma coisa insuportável. Fisicamente, quero eu dizer. O problema quese pôs foi mais um problema psicológico. Eu não conseguia aceitar ficar na posição de“objecto dominado”. Se calhar era a minha personalidade que era muito forte, talvez hajaem mim um excesso de amor-próprio, independência, chame-lhe o que quiser. Eu por mimchamo-lhe auto-estima e rebeldia, e não me envergonho disso nem um bocadinho, sabe, souassim uma espécie de Lilith.- Lilith?- Pois, foi a primeira mulher do Adão, não sabia?- Não, desculpe, mas acho que nunca ouvi falar. Está na Bíblia?- Não, não está, quer dizer, já deve ter estado, no livro de Génesis, acho eu, mastiraram-na. Agora só está no Talmude. Foi a primeira mulher a rebelar-se contra o podermasculino. Chateou-se com o Adão e deixou-o, foi-se embora.- Essa é gira...- Pois, mas olhe que é uma personagem muito venerada entre nós, é uma espécie deprotectora, de “fada madrinha” de todas as lésbicas.- Então e você diz que é uma espécie de Lilith?- Pois, sabe, no dia em que me deitei com o tal rapazinho, a certa altura apeteceu-metrocar de posição, de forma a que o meu corpo ficasse por cima do dele. E não era pormais nada, era só para experimentar, mas ele amuou, e o namoro acabou ali.- E depois? Não teve outros namorados?- Tive, até havia um que vinha de Sintra todos os fins de semana só para me ver.- E fazia amor com ele?- Não, com este por acaso não fiz. Quer dizer, havia uns beijinhos e umas coisas assim.Mas não valia a pena, era tempo perdido.- Não gostava?- Quer dizer, não gostava muito, mas o problema que se punha continuava a ser sobretudoum problema psicológico. Eu era rebelde demais para aceitar o poder do macho, é uma coisaque me irrita que não tem explicação. Mas até descobrir, até conseguir mergulhar até aomais profundo de mim própria ainda demorou algum tempo, e ao todo ainda cheguei a ter unstrês ou quatro namorados diferentes, salvo erro. Uma vez tive um que era um espertalhão. 4
  5. 5. Representava o papel do homem inseguro, que é uma coisa que eles sabem que as mulheresnão resistem, e nesse aspecto eu não fujo à regra. Fazia-se frágil, sabe como é, e eu comos instintos maternais todos a sairem-me cá para fora. Só ao fim de dois meses de namoroé que percebi que ele era igualzinho aos outros, aquilo era tudo ronha, era tudo um jogopara me fisgar. Eu fisicamente sou gira, porque é que não hei-de admitir uma coisa que éverdade? Tenho este nariz de judia um bocadinho grande mas sou gira, e sobretudo soufilha única e os meus pais tinham bastante dinheiro, está a ver? Acho que era por causadisso.- Quer dizer que nunca foi rejeitada pelos homens?- Olhe para mim. Acha que sim?- Não, francamente, acho que não.- Pois não.- E os seus pais, entretanto? Conformaram-se?- A minha mãe já não é viva. O meu pai nunca me falou no assunto, acho que é mais fácilpara ele fingir que não sabe. O meu pai é uma pessoa assim, quando as coisas o incomodamprefere não falar nelas. Ele é judeu, e a minha mãe era católica, de maneira que em minhacasa nem se ia à Missa, nem se celebrava o Sabbath, pronto, ele às vezes vai à Sinagoga,a minha mãe quando queria ia à Igreja, mas pronto, lá em casa não se discutia religião,que era para ninguém se chatear.- Olhe, e uma noção de pecado ligada à sua sexualidade, nunca teve?- Bom, eu prefiro não pensar muito nisso, porque você repare: por um lado a minha mãeensinou-me que existe um Deus, que é o Deus dos Cristãos, que não nos deixa fazer nadadestas coisas. Por outro lado eu também “herdei” um outro Deus, que é o Deus de Israel,que também não acha graça nenhuma à brincadeira, de maneira que eu vou vivendo a minhavida, e quando morrer logo converso com eles.- Olhe, falou-me de instintos maternais, nunca pensou em ter uma criança? Não gostava?- Quer dizer, lá gostar, gostava, mas é muito complicado, e também tinha de ter um modode vida completamente diferente, tinha de ter muito mais tempo livre. Talvez um dia, seos processos de adopção forem simplificados, talvez um dia pense em adoptar uma criança.- Olhe, agora gostava que me contasse alguma coisa sobre as práticas sexuais...- Entre mulheres?- Sim, não sei se quer responder...- Claro, não tenho problema nenhum, mas não há assim muito para contar. Fazemos aquiloque nos apetece, não há muitas regras...- E pruridos...- Eu cá não tenho nenhuns. Mas há mulheres que têm. Aquelas muito machonas, sabe como é?São umas chatas, não gostam disto, não gostam daquilo, eu não tenho pachorra nenhuma.- As machonas são complicadas, é isso?- É um bocado. Conheci uma que queria vir para a cama comigo e não se queria despir. E noentanto ela gostava de sentir a minha nudez, está a ver? É por essas e por outras que eunão gosto de “sapatonas”, gosto muito mais de “sandalinhas”. Mas há uma outra coisa queeu gostava de explicar: é que as machonas são muitas vezes caricaturas de homens, ecaricaturas grosseiras, dão muito nas vistas, e pela negativa, eu reconheço isso, mas sãouma minoria. A grande maioria das lésbicas que eu conheço, aquelas com quem me dou, asminhas amigas, são mulheres iguais às outras, vestem-se como as outras, usam cabelosbonitos e tratados, não fumam à rufião, muitas delas são mulheres casadas e mães defilhos, na maioria casos os maridos nem sonham.- Você está a dizer que as mulheres casadas e mães de filhos deste País gostam de sedeitar com outras mulheres?- Muitas delas gostam sim senhora. E os maridos nem lhes passa pela cabeça.- Mas isso é só no Jet-Set, não?- Que ideia, é em todos os níveis sociais. É claro que num nível mais elevado as pessoastêm mais a noção daquilo que estão a fazer, mas até na província, você nunca viu nosbailaricos como elas gostam de dançar umas com outras?Olhe, aqui há uns tempos atrás eu assisti a uma actuação de um grupo de folclore, achoque era um grupo do Norte, e então havia uma dança que era a “Dança da Matilde” que eradançada só pelas mulheres. Elas vinham convidar as mulheres que estavam na assistência,de forma que eu também fui, dancei com uma rapariga ainda novinha, por acaso até eramuito gira, e então essa dança era uma coisa mais ou menos assim: 5
  6. 6. “Oh Matilde sacode a saia, Oh Matilde levanta o braço, Oh Matilde dá-me um beijinho, Oh Matilde dá-me um abraço.”Elas punham-se sentadas sobre os calcanhares e dançavam viradas umas para as outras,ainda hoje quando me lembro disso acho que foi uma das coisas mais lesboeróticas que eujá vi na minha vida.- Eu estou a falar a sério. Você acha que elas dançam umas com outras e estão a pensarnisso?- Ora bem... a pensar nisso talvez não estejam, eu acredito que nem lhes passe pelacabeça, mas que a dança existe, isso, e que elas gostam de a dançar, lá isso gostam. Etudo isso é perfeitamente natural, não é nenhuma coisa esquisita.- Mas isso não quer dizer que sejam lésbicas.- Pois não, sou só eu é que sou... a única diferença entre mim e elas é que eu tenhoconsciência do meu lesbianismo e elas não. A união dos sexos opostos só serve mesmo parafazer meninos, porque o prazer, o verdadeiro prazer, prazer sensual puro e simples, é comos nossos iguais que o obtemos. Você veja lá se na África Negra, e no Norte de África, ena Índia, os homens não andam de mão dada na rua. Você já viu coisa mais homoerótica doque um grupo de escoceses a tocar gaita de foles, e a dançar em cima das espadas? E osrussos, não se beijam na boca? E ninguém tem que ver nisso nenhuma anormalidade, sãonecessidades naturais e perfeitamente saudáveis do ser humano.- Bom, mudando de assunto. Existem lésbicas prostitutas?- Eu só conheci uma, acho que é uma coisa que quase não há. Não iam ter muita clientela,julgo eu, porque não é o tipo de coisa que apeteça comprar. Só se forem os homens, e eusei que há homens que pagam para ver, e para entrar no esquema, mas parece-me que acabampor “comprar um produto falsificado”. Porque o lesbianismo é um fenómeno que secaracteriza justamente pela ausência do elemento masculino. No momento em que há umapresença masculina deixa de acontecer o lesbianismo genuíno, é outra coisa qualquer, podeser uma representação teatral, um número de circo...- Regressando à questão sexual, disse-me que não tinha pruridos...- Nenhuns.- Sexo oral também?- Claro, quer dizer, não é uma obrigação, mas é o melhor de tudo.- Assim com uma mulher qualquer?- Eu nunca me deitei com nenhuma que fosse “uma mulher qualquer”. Para mim eram todasespeciais, pelo menos naquele momento. Por isso nunca vi motivos para evitar ou para nãofazer aquilo que me apetecesse.- E com os homens, nunca fez?- Não. Só eu é que sei o nojo que tenho das pilas dos homens. Pois se eu não comosalsichas, não como bananas...- Também lhe metem nojo, é?- Enfim, seja por uma questão estética, se quiser. Em contrapartida houve uma amiga minhaque esteve uma vez nos Açores, e trouxe de lá uma coisa a que chamam as cracas, é ummolusco da família das lapas que eles cozem em água do mar, chupa-se directamente com aboca, e tem uma espécie de algas que parecem uma penugem à volta, tem um sabor como o docaranguejo, e deve ter sido a coisa que até hoje mais prazer me deu a comer.- Mas isso está à venda aqui no continente?- Não, eu até lhe sugeri que montasse um comércio de importação do dito molusco, osucesso era garantido. Cá para mim ela ia ter dificuldade era em responder às encomendas.Eu estou a imaginar a cena, a malta aqui do continente toda a encomendar as cracas, eleslá nos Açores a escavarem as rochas, ainda eram capazes de afundar o arquipélago...- ...- Acha que os seus leitores vão ficar escandalizados com o que eu disse?- Se ficarem, paciência, isto são livros para adultos. Bom, mas com isso tudo o que vocêquer dizer é que os genitais femininos não a enojam. É isso?- Não, francamente, quer dizer... depende da mulher, claro, mas as mulheres com quem medeitei nunca me enojaram. 6
  7. 7. - E foram muitas?- Algumas, sei lá, umas dez ou quinze, talvez... não foram muitas mais. Mas isso foi nostempos gloriosos em que eu não tinha juízo.- E doenças venéreas? Nunca apanhou?- Olhe, talvez não acredite, mas realmente nunca apanhei. Para já penso que essas coisasse tornam menos contagiosas entre mulheres, e depois também devo ter tido um bocado desorte.- E objectos? Nunca usou?- Os objectos chamam-se dildos. Até sei de uma pessoa que os faz em casa, em silicone,montou uma espécie de indústria caseira, até se pode escolher a cor, e parece que estáfarta de fazer dinheiro. Mas a maior parte da clientela não são lésbicas, pelo menos peloque ela me contou.- Então?- Então, são gays, são homens impotentes, são mulheres casadas que não estão para aturaros maridos...- E você?- Já experimentei, mas francamente não acho que façam falta nenhuma. Não sou umaentusiasta. Prefiro usar os meus próprios recursos naturais e... a inspiração do momento.- E “ménages à trois” ?- Também já experimentei, e a quatro, e não é desengraçado, até é giro, tudo às escuras,quando a gente começa a encontrar maminhas, e rabinhos, e “passarinhas”, e ninguém sabede quem é o quê, mas é só isso, é só para se “curtir”, para se passar um bocadinhoagradável. Não é para viver o verdadeiro amor.- E o 69? Já agora...- Também já experimentei, a gente nesta vida tem de experimentar um bocadinho de tudo,não é? Mas também não acho que seja uma grande invenção. É muito complicado, sabe, acabampor acontecer duas sensações, dois prazeres muito fortes ao mesmo tempo, e a gente parase concentrar num deles acaba por se distrair do outro... eu por mim prefiro que ascoisas vão acontecendo uma de cada vez, sem pressas, saboreiam-se melhor, e dura muitomais tempo. E é o melhor de tudo. Eu agora vivo com esta minha amiga há já algum tempo,há um ano e meio. Antes dela tinha uma outra namorada, mas perdi a cabeça coma ........., foi assim uma paixão... e nunca me senti tão bem como me sinto agora.Estamos horas e horas, só a sentir a pele uma da outra, às vezes já nem há onde dar maisbeijos, e talvez não acredite, mas temos noites em que nem fazemos sexo nem nada, é só ogozo de estarmos ali a sentir aquela doçura, o cheiro uma da outra, que é uma coisadeliciosa, e a dizermos coisas bonitas, assim uma baboseiras muito patetas mas que nosfazem sentir muito bem. Depois paramos, fumamos um cigarro, recomeçamos, às vezes ao fimde semana é até de manhã.- E os bares?- Há uma data deles em Lisboa, noutros sítios não conheço, mas também deve haver. Uns têmum aspecto assim melhorzinho, outros são muito deprimentes, mas se calhar também são aspessoas que os tornam deprimentes. Há um que tem umas “matinés dançantes” muito kitch quedão pelo nome de “bailinho dos bombeiros”. Eu não vou lá por todas as razões, e tambémporque é daquela fulana que canta, que é a Dina, e eu acho a fulana um nojo. Uma fulanaque tem um bar gay e que a seguir vai fazer o hino para um partido que se não é nazi,para lá caminha... eu se pudesse enfiava-lhe era um penico cheio de uma coisa que eu cásei pela cabeça abaixo.- Você acha que ela não tem o direito de pensar à direita?- Tem, claro, estamos em democracia, não é? Eu acho que a Dina tem todo o direito depensar à direita, e de ser paga para fazer cantigas para a direita, e de cantar mal, e deser pirosa, e de cantar aquelas músicas da cor de corno, agora eu é que também tenho odireito de não ir ao bar dela nem comprar os discos dela. Não lhe dou um tostão que sejaa ganhar.- Dá a impressão que há qualquer questão, qualquer problema pessoal entre si e ela...- Que ideia, só a conheço de vista, nem nunca falei com ela, e há uns anos atrás eu ia láao bar, depois deixei de ir, e a única vez que lá fui recentemente até me trataram bem,quer dizer, trataram-me normalmente, pronto, não tenho nenhuma razão de queixa, isto queeu digo é só porque acho que as pessoas não se podem esquecer dos campos de concentraçãoe dos triângulos cor-de-rosa, e eu acho que uma pessoa como a Dina, seja ela homossexual 7
  8. 8. ou não, isso eu não sei se ela é, nem me interessa, mas que ganha a sua vida num bar gaya cantar para as lésbicas, não tem o direito de fazer cantigas para um PP. Você não podefrequentar a Igreja e também a Sinagoga, tem de escolher, não pode servir a doissenhores. Portanto isto que eu disse não tem a ver com nenhuma questão pessoal, é umaquestão política. E eu até sou uma pessoa moderada, se quer que lhe diga costumo votar noPS.- Mas tem outros locais de encontro?- Claro que sim. Tenho uns jantarinhos que a gente às vezes faz em casa de umas e deoutras, é muito mais giro. Estamos muito mais à vontade e divertimo-nos muito mais,dançamos como queremos, não há “mirones”, é muito melhor.- O panorama não parece mau... dá ideia que há muitas pessoas como você que não só sesentem muito bem na sua pele, como vivem uma vida de alegres folionas...- Algumas estão bastante bem, mas não se iluda. Há muitos problemas por resolver, nemtudo está tão simplificado, nem tão desmistificado. Há algumas que vivem situaçõesverdadeiramente dramáticas, com problemas de auto-estima, problemas na família, problemaseconómicos, problemas no emprego, situações até jurídicas, quando entram em ruptura comos maridos, por causa da tutela dos filhos, eu sei de uma que raptou o miúdo trêsvezes... há situações que são um verdadeiro inferno. Eu própria passei por uma situaçãomuito complicada. Foi um emprego que tive em que o patrão se lhe meteu na cabeça quehavia de vir para a cama comigo. Aliás acho que era norma lá na empresa. Um belo dia jáestava tão farta daquele jogo do gato e do rato que resolvi dizer-lhe a verdade, julgavaeu que era uma maneira de ele me deixar em paz. Eu tinha vinte anos, está a ver?- Então e depois?- Ele ficou doido, disse-me que era mais uma razão, ele “tinha de me possuir”. Foi umachatice, mas felizmente tive um bocado de sorte, porque de repente abriu concurso paraumas vagas aqui no Banco, e eu fui prestar provas e fui admitida. É engraçado porque euacho que o gerente aqui do Balcão é gay, ele nunca me disse, e até é casado e tudo, maseu desconfio imenso, de maneira que é optimo, não é o melhor emprego do mundo, mas pelomenos não tenho pirilaus a saltarem-me para cima.- Bom, eu acho que não resisto a perguntar-lhe o que é que pensa do caso Bobbit.- Acho que não tem propriamente muito a ver com lesbianismo, mas acho que ela teve toda arazão. Se eu mandasse, todos os violadores eram punidos com a castração.- E as mulheres violadoras?- Arranjaria uma pena equivalente. Ninguém tem o direito de violar ninguém.- Para acabar, uma história engraçada que lhe tenha acontecido. Não se lembra de nenhuma?- Lembro-me de uma vez ter ficado escondida debaixo de uma cama... mas lembro-me de outramais gira. Foi uma rapariga que eu conheci, e ainda andámos juntas uma semana, ou coisaparecida, e de repente descobri que ela era minha prima. Já não nos víamos há mais devinte anos, mas era minha prima. 8
  9. 9. Luciana, 51 anos, dona de casa.- Para começar, Luciana, qual é a designação que prefere? Prefere a designação de mulherhomossexual, prefere a designação de lésbica?- Prefiro a designação de mulher homossezual porque a palavra lésbica é um bocadochocante.- Em que altura da sua vida é que a Luciana encontrou a homossexualidade dentro de si?Quando é que isso aconteceu, e em que circunstâncias?- Foi durante a minha adolescência, talvez por volta dos meus catorze, quinze anos. Euestava num colégio interno, um colégio de freiras, só de meninas, e acho que foi lá que acoisa se foi desenvolvendo progressivamente.- Olhe, e como é que isso foi vivido por si? Teve dificuldades, problemas?- Ah, sim, foi muito problemático.- Mas foi problemático porque os outros lhe causaram problemas, ou os problemas estavamdentro de si?- Estavam dentro de mim, acho eu. Havia a questão da religião, aliás elas até faziam umacerta pressão para eu ficar lá para ser freira, diziam que havia em mim uma certapropensão para ser religiosa, porque eu era muito meiga, muito submissa, e já se sabe quese eu fosse para freira elas ficavam com a fortuna toda dos meus pais, que é razoável,mas depois o meu pai começou a perceber que elas andavam muito de roda de mim e, toscou-lhes a marosca, e então tirou-me de lá, mas elas não queriam, queriam que eu lá ficasse.- E a sua família, o que é que diz de tudo isso? Os seus pais ainda são vivos?- São. E eu preferia que não soubessem, mas acho que eles desconfiam. A minha mãe,sobretudo, porque é uma pessoa bastante perspicaz, e eu acho que ela já sabe há muitotempo, só que rejeita, prefere fingir que não sabe, embora já tenha acontecido umasituação em que houve uma pessoa que tentou fazer chantagem, e ela ficou muito chocada,mas felizmente foi capaz de dar a volta à situação.- Olhe, Luciana, agora gostava que me dissesse alguma coisa sobre as origens dahomossexualidade, no seu caso pessoal. Acha que já nasceu homossexual, ou isso foi umacoisa que só lhe aconteceu mais tarde?- Acho que se nasce. Acho que é um bichinho que a gente tem cá dentro...- E os homens, Luciana? Teve muitos namorados, teve poucos, como é que foi?- Só tive um, que foi o meu ex-marido.- Quer dizer que a Luciana já foi casada? O que é que o seu ex-marido pensa do assunto?- Eu acho que ele é um bruto tão completo, apesar de ter uma posição socio-económica debastante relevo, mas ele é tão estúpido que nem semelhante coisa lhe passa pela cabeça.- E porque é que a Luciana casou com ele?- Acho que fui mais ou menos “forçada”.- Mas porquê? Estava grávida?- Que ideia, estava completamente virgem.- Então?- Era aquela coisa, “porque é que ela não se casa, toda a gente tem noivo, porque é queela não tem”, a minha mãe às vezes dizia “Parece que tens alergia às calças”, mal elasabia...- E teve relações com ele...- Claro. Mas não gostava.- E ele? Percebia que a Luciana não gostava?- Ai, eu acho que sim. Eu tinha uma repugnância pelo cheiro dele... era-me muitodesagradável, às vezes nem dava para disfarçar. De maneira que tive de me separar.- Foi sorte não ter tido filhos.- Mas eu tive, tive dois filhos.- E eles sabem?- Não.- Olhe, e pensa dizer-lhes algum dia?- Ao mais novo, sim. Ao outro não. Ele não tem sensibilidade nem capacidade mental paraentender.- E se um dos seus filhos fosse homossexual, como é que a Luciana reagia?- Aceitava, pois com certeza.- Luciana, você considera-se uma mulher masculina? 9
  10. 10. - Não, de maneira nenhuma, sou até muito feminina e é assim que eu gosto de ser.- E costuma agradar aos homens?- Acho que sim, pelo menos pela maneira como eles às vezes olham para mim, fazem um armais guloso...- E se pudesse mudar de sexo, mudava?- Jamais!- E se pudesse de repente passar a ser heterossexual, passava?- Não, também não.- Olhe, e práticas sexuais? Fala-se às vezes de mulheres homossexuais que são activas, ede outras que são passivas, acha que é verdade?- Acho que depende, não é, vai tudo da disposição do momento, e da parceira que seencontra pela frente. Eu pela minha parte tanto gosto de ser uma coisa como outra, souuma coisa e outra conforme me apetece.- E acerca dessa história do orgasmo vaginal e do orgasmo clitoriano, o que é que me diz?- Digo-lhe que existem ambos, mas talvez para mim o clitoriano seja o mais intenso.- Luciana, o que é para si um orgasmo?- Não lhe sei descrever. É tão bom, tão bom... não lhe sei explicar melhor.- Olhe, e uma sensação de pecado ligada à sua tendência mais íntima?- Pecado?- Sim, quer dizer, a ideia de um Deus que amanhã possa vir a puni-la, porque no fundo aLuciana recebeu uma educação muito religiosa, e hoje é uma pessoa que transgride...- Não, não acredito. Deus é pai, e compreende tudo, nunca me vai pedir contas por isto.- Olhe, e experiências amorosas com mulheres? Muitas?- Uma só, que é a mulher com quem vivo hoje. Nunca me tinha deitado com outra, nem pensodeitar. Seria impensável.- Pelos vistos valeu a pena...- Ah, sim, sem dúvida nenhuma.- E não pensa voltar-se nunca mais para os homens?- Ah, não, eu tive uma vida de casada que foi extraordinariamente traumatizante, porque omeu ex-marido é uma pessoa com um perfil muito difícil, e o meu filho mais velho também,porque é a “fotocópia” do pai mas ainda é pior, é do género de partir coisas, e de atirarcom tachos à parede, eu fui várias vezes parar ao Hospital Ortopédico, uma vez com umbraço partido, outra vez com o queixo partido...- Ouça, quer dizer que apesar de não gostar do seu marido, nem do contacto com ele, seele não fosse agressivo, apesar de tudo a Luciana talvez não o tivesse deixado?- Olhe, não sei. Porque por um lado uma mulher divorciada às vezes ainda é um bocado malvista, e qualquer um julga que lhe pode faltar ao respeito, e também tinha os filhospequenos, e depois também havia a questão religiosa. Eu sabia que ele também não gostavade mim, se gostasse de mim não me batia, aliás eu hoje acho que ele só casou comigo porcausa do dinheiro, e acho que fiz muito bem em deixá-lo, mas nessa altura achava quetinha de levar aquela cruz, mas por outro lado a sensação de mal estar que eu tinha ao pédele era tão forte que era capaz de o ter deixado na mesma.- Mas enquanto durou o seu casamento nunca se sentiu atraída por outro homem?- Nem homem nem mulher, eu não sou mulher para ser infiel, seja em que circunstânciasfor. Nem em pensamentos.- Costuma-se dizer que a carne é fraca...- Pois será, mas não a minha. Eu sei muito bem o terreno onde piso.- Você dá-me um bocado a impressão de também ter tido azar com o marido que lhe calhou...- Ah, sim, ele era um bruto, repare que eu nem um beijo sabia o que era, um beijo comodeve ser, mas mesmo que não fosse, e eu admito que haja homens diferentes do meu, depoisde experimentar uma mulher já ninguém se volta outra vez para os homens.- A Luciana sabe que há mulheres que usam objectos de borracha. O que é que pensa disso?- Penso que é uma parvoíce. Pois se eu tive um ao natural e não gostava... não gostava doformato, não gostava do aspecto, não gostava do cheiro... não achava graça nenhuma,fazia-me uma impressão horrorosa, para que é que eu vou querer uma cópia, se não gosteido original? Em contrapartida quando via uma mulher despida achava que era uma coisalindíssima, achava que aquilo devia ser uma delícia.- Mas não sabia como era...- Não, não sabia, tive de perguntar à ........., que nessa altura ainda era só minha 10
  11. 11. amiga. Não fazia a menor ideia, de maneira que um dia voltei-me para ela e disse-lhe queela tinha de me explicar como era, e ela explicou, não sei se está a ver...- Bom, para acabar, explique-me só como é que uma mulher como você, uma mãe de família devestido e colar de pérolas, se decide de repente a assumir uma ligação com uma pessoa doseu próprio sexo.- Olhe, foi muito difícil. Muito difícil mesmo. Comecei por ter uma certa relutância, esofri bastante até conseguir aceitar aquilo que eu própria sentia, mas havia uma atracçãomuito grande pela mulher com quem vivo hoje, a ponto de eu ter chegado a dizer-lhe quenão sabia o que é que se estava a passar comigo. Era uma pessoa que eu já conhecia, nuncatinha falado com ela mas conhecia-a de vista, e foi muito engraçado porque ia um dia numcomboio e adormeci, e de repente acordei e ela estava na minha frente, e eu olhei paraela e senti que tinha de ser aquela pessoa, senti que era o amor da minha vida. Entreinum conflito tremendo comigo própria, porque de facto os homens não me diziam nada, e eusempre tinha sentido uma grande necessidade de ternura em relação a outras mulheres,desde muito novinha, mas nunca tinha levado isso para o plano do amor, e de repentepercebi que estava apaixonada por uma mulher, de maneira que foi um passo muito difícilde dar, eu suava suores frios, enfim... Hoje ela é alguém que é a continuação do meupróprio corpo, do meu pensamento, é a única pessoa com quem eu consigo partilhar tudo,corpo e espírito, e consigo ter com ela uma relação de tranquilidade e de equilíbrio comouma mulher e um homem nunca conseguem atingir. Eu só tenho pena de não poder dizer isto atoda a gente, de cara levantada, mas não posso, primeiro porque o meu filho mais novoainda é menor, e o meu ex-marido ainda era capaz de arranjar maneira de me levar atribunal e de mo tirar. E também ia magoar muito os meus pais, mas daqui uns anos, que omeu filho seja maior, e esteja preparado para saber a verdade, e se os meus pais já nãoestiverem neste mundo, se nessa altura eu tiver a situação financeira desafogada quetenho hoje, que não precise de trabalhar, nessa altura dou a cara e conto tudo, porquetodas as mulheres precisam de saber, o mal é as mulheres não saberem o bom que isto é,porque quando elas souberem o mundo dá uma volta, se dá! Isto foi a melhor coisa que eudescobri na minha vida, eu agora só tenho medo é de morrer e não gozar isto por muitosanos. Se eu perco aquilo que tenho agora até sou capaz de morrer, não tenha dúvidas,morro sim! E é por isso que eu digo a todas as mulheres deste País, se não querem terproblemas não experimentem, porque no dia em que experimentarem com uma mulher nunca maisquerem um homem. 11
  12. 12. Joana, 24 anos, hospedeira de terra de uma companhia aérea.- Joana, em primeiro lugar, qual é a designação que prefere? Lésbica, sáfica, mulherhomossexual?- Eu não gosto muito de catalogar as pessoas. A palavra lésbica não me agradaminimamente, não me agrada a mim nem agrada a ninguém, acho eu. Prefiro mulherhomossexual.- Quando é que a Joana descobriu as suas tendências para a homossexualidade?- Bom, eu já fui casada três anos, um dia conheci a ............, que estava divorciada,ela veio viver para minha casa por causa das circunstâncias do divórcio dela, e foi nessaaltura que começou. Já lá vão três anos.- E foi só nessa altura que deu por isso?- Não, eu acho que já sabia, só que tinha medo de assumir. Eu nunca tinha encontradoninguém que me ensinasse a ver as coisas de outra forma.- Quer dizer que a sua amiga já se tinha assumido?- Sim, ela nessa altura até tinha uma amiga, quando eu apareci na vida dela.- E a Joana, nunca tinha tido uma experiência?- Não, nunca. Apesar de estar convencida de que no fundo, inconscientemente, nunca quisoutra coisa que não fosse aquilo que tenho agora. Porque os relacionamentos que tive comos homens de facto nunca me satisfizeram a nível nenhum.- E na adolescência, como é que foi vivida essa sua tendência?- Não foi. Nem sequer ao nível do subconsciente.- Olhe, Joana, e a sua família? Sabem? Aceitam? Como é?- Sabem, e aceitam, porque se eu não estava feliz com o meu casamento, e de repente euencontrei uma pessoa diferente, e as coisas já duram há três anos, e eles vêem que euagora ando muito mais feliz, eles compreenderam que eu tenho o direito de ser feliz, sejacom uma homem, seja com uma mulher. Aceitaram muito bem. Ao princípio foram um bocadorenitentes, e é natural, porque isto é uma coisa que nem toda a gente aceita, mas eu abrilogo o jogo, e acho que essa minha honestidade também acabou por ajudar, e por funcionara meu favor. Já com a família dela as coisas não são assim tão simples. Eles toleram masnão aceitam. O pai dela, por exemplo, simpatiza muito comigo e aceita-me muito bem, mas oresto da família já não me aceita assim tão bem. É uma família muito burguesa, muitoclasse média, enquanto que a minha já são pessoas um bocadinho mais modestas, não têmtantos problemas, e talvez seja por isso.- Olhe, Joana, você acha que se nasce homossexual, ou isso é uma coisa que se adquire como tempo?- Eu acho que se nasce homossexual, como acho que há muita gente que ainda não descobriua sua própria homossexualidade, e não descobriram por causa da sociedade. Eu acho que hámuitos casamentos frustrados como foi o meu, porque as pessoas têm medo de assumir umarelação homossexual, que é a coisa mais natural deste mundo.- Disse-me que o seu relacionamento com os homens não foi grande coisa, quer falar umbocadinho sobre isso?- Os meus namoros... quer dizer, não é que tivessem corrido mal, pelo menos até uma certaaltura, mas depois de umas semanas as coisas começavam a correr mal. Por exemplo, o meusegundo namorado, é uma pessoa que eu ainda hoje tenho um carinho muito especial por ele,eu era capaz de viver com ele o resto da minha vida, mas como irmãos. Isso é uma coisaque lhes faz muita confusão, pensarem como é que uma mulher se dá ao luxo, e tem oatrevimento, de não precisar de uma pila para nada.- E como é que você tem esse atrevimento?- Tenho. Realmente não preciso dos homens para nada. Eles acham que são uns supra-sumos,mas eu de facto governo-me muito bem sem eles.- Olhe, Joana, e filhos? Nunca teve pena de não ter um filho?- Eu tenho.- Ai sim?- Tenho, tenho um filho que é uma graça.- E tem a sensação de ser uma boa mãe para ele?- Tenho. Apesar de estar um bocadinho apreensiva em relação ao futuro. Vai haver um diaem que vou ter de lhe dizer a verdade, e só espero conseguir dizer-lhe na altura certa eda maneira certa. 12
  13. 13. - A Joana considera-se uma mulher masculina?- Não, nem um bocadinho. Às vezes lá visto umas calças, lá meto uns sapatos maisdesportivos, mas não sou uma mulher masculina.- E sobre as mulheres muito masculinas, o que é que me diz?- Bom, eu não aceito isso muito bem, porque eu acho que lá pelo facto de ser ou nãohomossexual, uma mulher é sempre uma mulher. No momento em que uma mulher resolvecultivar um tipo masculino está a desprezar a coisa melhor que tem, que é o facto de ternascido mulher. Eu não critico, mas não gosto, como não gosto de ver um homem de saltosaltos e pestanas postiças.- Olhe, Joana, há um bocado a ideia, sobretudo por parte dos homens, e também de algumasmulheres, de que as mulheres quando se viram para outras mulheres é porque foramrejeitadas pelos homens. O que é que tem a dizer sobre isso?- Eu acho que isso são conceitos que estão completamente ultrapassados. Nem me parece quehaja ninguém hoje em dia a voltar-se para as mulheres porque foram rejeitadas peloshomens. Hoje em dia uma mulher que resolve “virar” lésbica é porque descobriu a suaprópria sexualidade. Não tem nada a ver com serem ou não rejeitadas pelos homens, porquenão há mulheres feias, há mulheres que são menos bonitas do que outras, e há mulheres quenão fazem nada para tirar partido da beleza que têm, porque toda a mulher é bonita.- Acha que as mulheres são mais bonitas que os homens?- Não.- Se pudesse mudar de sexo, mudava?- De maneira nenhuma.- E se pudesse voltar a ser completamente heterossexual?- Não voltava.- Olhe, Joana, o que são as práticas sexuais entre mulheres?- Bom, para já as coisas são vividas de uma forma muito mais intensa, e depois sabe queduas mulheres são duas iguais, sabem muito melhor o que querem uma da outra do que umamulher e um homem, porque um homem nunca pode saber o que são as sensações de uma mulher.As mulheres têm outra sensibilidade, têm outra capacidade de dar carinho.- Sabe que também há um bocado a ideia de que entre duas mulheres há uma que faz o papelde macho...- Isso é uma tolice, não existe, na cama não existe um homem e uma mulher, existem duasmulheres e pronto. Pode haver um momento em que uma seja mais activa, e a outra maispassiva, mas isso vai da disposição do momento, não tem nada a ver com o esquemaheterossexual. Poderá haver uma com um temperamento mais rebelde, ou mais decidido, masquando chegam à cama desfazem-se como torrões de açúcar.- Olhe, Joana, e sobre os locais de encontro?- Bom, há o “Bailinho dos Bombeiros”, mas eu não vou lá muito. Aliás eu não sei se serãolugares de encontro ou de segregação, e de desencontro. Porque os homossexuais estãoestigmatizados, e eu acho que se ainda por cima se fecham em ghettos isso não pode sernada bom para ninguém. As pessoas vão para ali porque pelo menos vão encontrar outraspessoas que também não têm um espaço melhor para conviver, mas é muito engraçado que hámuitos não-gays que vão lá só para bisbilhotar, e pensam que vão lá ver os animaizinhosdo jardim zoológico, ou não sei o quê, mas de facto não se passa nada nesses bares quenão se passe cá fora, as pessoas não estão lá a fazer nada de especial, quando muitopodem dar a mão, ou dar um beijinho, mas não se vai para ali para fazer outras coisas.Agora parece que há um esquema no Bairro Alto, que é um bar de prostituição de mulheres epara mulheres.- A sério? Olhe que é a primeira pessoa que fala nisso...- É verdade, eu até tenho andado com uma certa curiosidade de ir lá meter o nariz.Obviamente que não é para ir para a cama com nenhuma mulher, mas tenho alguma curiosidadede descobrir onde é, e de ir até lá para ver como é que essas coisas funcionam. E tambémhá algumas, sobretudo miúdas de dezassete, dezoito anos, que gostam de mulheres, masfuncionam nos bares, como alternas, e deitam-se com os homens porque é a única maneiraque têm de sobreviver.- Joana, nós já falámos um bocadinho de sexo, mas eu ainda não lhe perguntei uma coisa: oque é um orgasmo?- É tão difícil de explicar... é o culminar de tudo, também não lhe sei explicar muitomelhor, mas também não é uma coisa que se tenha de atingir sempre, às vezes não acontece, 13
  14. 14. e não é por isso que uma pessoa vai ficar chateada. Eu posso passar horas na cama com aminha amiga, e não atingirmos o orgasmo, ou até nem sequer fazermos sexo, e ser óptimo.Não é que o orgasmo não tenha importância nenhuma, é claro que tem, mas também não éassim tanta.- Também se fala de orgasmo vaginal e de orgasmo clitoriano, o que é que a Joana me dizsobre isso?- Eu acho que são diferentes, mas são os dois muito bons, embora eu prefira o clitoriano.- A Joana foi educada religiosamente?- Sim, fui à catequese e tudo.- Nunca teve uma noção de pecado, um certo receio de que haja um Deus que amanhã lhepossa pedir contas?...- Não, eu acho que as pessoas devem ser felizes, e se realmente Deus existe, Ele quer éque as pessoas sejam felizes, seja de que maneira for.- Para terminar, quer acrescentar alguma coisa?- Eu gostava de acrescentar duas coisas. A primeira tem a ver com a imagem pública daspessoas. Duas mulheres não podem dar um beijinho no meio da rua. Mas porquê? É ridículo,e eu espero que num futuro próximo as pessoas estejam mais libertas, e vejam as coisas deoutra maneira, porque toda a gente tem o direito de ser como é.A segunda questão é a questão laboral. Eu passei por uma situação muito chata. Estava atrabalhar numa empresa, toda a gente gostava de mim, os patrões achavam que o meutrabalho era optimo, parecia que era tudo uma maravilha. Um dia descobriram que eu viviacom uma mulher, e daí para a frente passaram a criticar-me, o meu trabalho já nãoprestava, até que um dia ouvi um colega meu a falar com o patrão. Ele estava a dizer queeu era muito bonita, e o patrão respondeu-lhe: “Oh pá, essa gaja é gado, não presta, tunão sabes que ela está com outra gaja?”. É muito difícil para uma mulher assumir noemprego que é homossexual. Quando as pessoas são artistas, ou quando atingem umdeterminado estatuto socio-profissional, as coisas tornam-se mais fáceis, mas antes dissoé muito complicado. Eu quando saí dessa empresa, as perseguições e as pressões foramtantas que eu tive um esgotamento, estive uma semana a fazer uma cura de sono, de formaque eu nunca mais vou cair na asneira de contar no meu local de trabalho aquilo que sou.Embora existam muitas mais dentro da companhia, e topamo-nos umas às outras, mas a normaé cada uma fingir que não sabe de nada, e que não é nada com ela. O que é que eu voufazer? Vou-me armar em panfletária, e pôr em risco o meu emprego e a subsistência do meufilho? Não me posso dar a esse luxo. Mas vou lutando, com as forças que tenho. Luteimuito por aquilo que quiz, e arrisquei muito, deixei casa, deixei um marido que ganhavabem, deixei conforto, e não me arrependo. Por isso gostava de dizer a todas as mulhereshomossexuais que lerem esta entrevista que não percam a coragem, que não se deixemvencer. Mesmo que cometam erros, que tropecem muitas vezes, levantem-se sempre, porquevale a pena. Acima de tudo, nós estamos neste mundo é para ser felizes. 14
  15. 15. Francisca, 36 anos, profissão liberal.- Para começar, Francisca, qual é a designação que prefere? Mulher homossexual, sáfica,lésbica?- Mulher homossexual. Não gosto nada da palavra lésbica, é uma palavra que eu rejeitovisceralmente.- Olhe, quando é que detectou em si as tendências homossexuais, e em que circunstâncias?- É uma história engraçada. Foi quando fui obrigada pela primeira vez a encararfrontalmente a situação. Tinha dezanove anos. É engraçado porque eu sempre tinha sentidouma certa atracção pelo sexo feminino, sentia uma coisa muito forte por algumas dasminhas professoras, e por outras mulheres bastante mais velhas, aliás ainda hoje quasetodas são minhas amigas, mas eu até aí nunca tinha visto a questão como uma questãosexual, inclusivamente pensava muitas vezes que gostaria de viver com essas pessoas, parapartilhar da vida delas, mas não pensava em sexo nem nada disso. O que me atraía era aternura, o afecto, e não o sexo, e quando fui confrontada com essa situação lembro-me deter ficado extremamente chocada, e de ter rejeitado a coisa completamente.- Quer contar como é que isso aconteceu?- Foi com uma pessoa por quem sentia uma grande amizade, com quem tinha muitos pontos emcomum, só que ela pôs-me as coisas nestes termos: “Ou aceitas também o aspecto sexual, oua mim não me interessa mais ser tua amiga”. E perante esta situação em que fui colocada,em que tinha pela frente uma pessoa de quem eu gostava e que gostava de mim, e que queriapartilhar tudo comigo, mas que me punha as coisas daquela maneira, eu disse que iapensar. E fui pensar. E acabei por ceder, porque pensei o seguinte: “Bom, isto pode serque não seja grande coisa, mas mal também não pode fazer, por isso vou experimentar”. Eexperimentei. Até hoje.- E então?- Então, achei que era assim. Achei que era o grau mais profundo de encontro que podiahaver entre duas pessoas.- E a sua família? Sabem, não sabem, e o que é que dizem disso?- O meu pai morreu há muitos anos. A minha mãe sabe, e teve uma reacção que para mim foicompletamente inexperada. Eu até aí tinha tido uma relação estupenda com ela, uma relaçãode abertura, de amor, e pensei que ela me fosse aceitar tal como eu sou, e que mecompreendesse, até porque sou filha única. E quando eu me vi confrontada com a situaçãode ter de assumir a opção que tinha feito em termos da minha sexualidade, ela reagiumuito mal, e portanto a partir daí as nossas relações alteraram-se, eu deixei de ter porela os sentimentos que tinha, e a partir daí ela tem interferido sistemática enegativamente nas minhas relações, julgo eu que por uma questão de ciúmes. Eu acho que,no subconsciente dela, ela acha que se eu gosto de mulheres, devia contentar-me com acompanhia dela e devia sublimar tudo nela.- Acha que ela sente isso?- Acho. E até já lho disse. Já a obriguei a tomar consciência desse facto. Já aconfrontei com isso. Ela reagiu muito mal, mas eu não podia deixar de lhe dizer. E nãofoi só isso. Eu tive de me demarcar em relação a uma série de coisas, porque todos osrelacionamentos que eu tive até hoje com outras pessoas foram fortemente afectados pelainfluência da minha mãe, que tem feito as coisas mais diabólicas, desde telefonemasanónimos até sei lá mais o quê, para conseguir destruír qualquer relação que eu possa tercom qualquer mulher. Por ciumeira pura.- Olhe outra coisa, Francisca, você acha que nasceu homossexual, ou essa foi umacaracterística que você só adquiriu depois?- Comigo houve uma percentagem, digamos assim, que era genética, e outra que foiaprendida. Mas acho que há pessoas em quem a coisa geneticamente estava “programada”, maso ambiente pode nunca chegar a proporcionar que a coisa aconteça, e essa aprendizagemnunca se chegar a fazer, como pode acontecer o contrário, geneticamente não estar“programado”, mas o ambiente proporcionar essa experiência, e a coisa desenvolver-se. Masa mim parece-me que na maioria dos casos a tendência genética provavelmente estava lá e oambiente proporcionou que a pessoa experimentasse, e a pessoa provou, e gostou, e pronto.- Olhe, e os homens? Teve namorados, ou não teve, como é que foi?- Não foram muitos. Eu nesse aspecto acho que vivi sobretudo alguns desencontros. Houveuma paixão que foi bastante forte, e era recíproca, mas ele vivia em Angola, e a 15
  16. 16. distância já era um factor que complicava, para não dizer que impossibilitava orelacionamento. Depois houve rapazes que gostaram de mim, mas não havia da minha parteuma correspondência, por isso não podia resultar, e também houve um rapaz de quem eugostei muito, mas também aí as coisas não resultaram.- E filhos? Nunca teve pena de não ter filhos?- Não. Nunca tive. Penso que pôr mais gente neste mundo é um acto de egoísmo. Nãoacredito que haja ninguém que esteja satisfeito nesta vida, que ache que valha a penaviver, por isso acho que não vale a pena pôr mais gente na terra.- Você é muito pessimista... Olhe, e nunca pensou em adoptar uma criança?- Nas duas relações mais duradouras que tive chegou a pôr-se essa hipótese, mas é muitocomplicado, aliás nem sequer existe em Portugal, julgo eu, uma forma legal de duaspessoas do mesmo sexo adoptarem uma criança. É claro que eu posso ir a um bairro de lata,comprar uma criança recém nascida, registá-la como se fosse minha, e dar-lhe amor, dar-lhe um futuro, dar-lhe tudo, é uma infracção à Lei mas é também um acto de grandehumanidade, mas até isso é uma coisa que não se pode fazer com ligeireza, é preciso teruma capacidade de dádiva muito grande, até porque essa criança pode vir com inúmerosproblemas. Eu não sei, por exemplo, se ao fim de um tempo se detectasse que a criançaestava infectada com o vírus do HIV, ou com outra doença qualquer, francamente não sei secomo é que iria encarar o problema, de forma que teoricamente não rejeito essapossibilidade, mas na prática não sei se tenho essa disponibilidade interior, essagenerosidade toda.- Francisca, você é uma mulher que cultiva um estilo um pouco andrógino. Sente-se bemassim?- Sinto. Eu sentir-me-ia mal era se tivesse de cultivar outro estilo. Eu sou assim mesmo,e sinto-me muito bem tal como sou.- Você concorda com aquela ideia que existe de que as mulheres homossexuais são mulheresque foram rejeitadas pelos homens?- Nalguns casos acho que sim, acho que algumas mulheres fizeram esse percurso, mas issoacontecia mais noutros tempos, e talvez ainda aconteça na província, onde as mulheresainda não sabem que têm o direito de pura e simplesmente rejeitar os homens. Hoje em dia,e na província também, porque a televisão tem servido para informar as pessoas, e chega atodo o lado, as mulheres já sabem muito bem qual é o seu lugar na sociedade, e quais sãoos seus direitos, por isso parece-me que elas quando se voltam para as outras mulheres émesmo porque se sentem mais atraídas e porque gostam mais. No meu caso não fui muitorequestada pelos homens porque de facto não cultivo essas situações sociais de encontrosheterossexuais. Eu acredito nos encontros entre pessoas, independentemente do sexo, e nãono encontro entre pessoas porque se pertence a este ou ao outro sexo.- Se pudesse mudar de sexo, mudava?- Não mudava, jamais.- E se pudesse passar a ser completamente heterossexual?- Essa pergunta não faz muito sentido para mim. Eu defendo que o equilíbrio mais perfeitose atinge com a bissexualidade. Contra mim falo, porque eu não me posso assumir comobissexual, pelo menos na prática, na medida em que nunca vivi uma relação com um homem,mas teoricamente acho que me devo assumir como bissexual, porque teoricamente não rejeitoessa possibilidade.- E práticas sexuais?- Aceito tudo, desde que dê prazer às pessoas.- Francisca, o que é para si um orgasmo?- É uma situação aflitiva que se começa a desencadear, e tal como ele é descrito emtermos fisiológicos, vai crescendo, até atingir um ponto culminante, e quando está lá nocimo a aflição é de tal maneira forte que só se deseja que acabe depressa.- E o que é isso do orgasmo vaginal e do orgasmo clitoriano?- São duas formas diferentes de se sentir uma mesma coisa, eu conheço as duas e digo-lheque o vaginal é bom, mas eu ainda gosto mais do clitoriano, nesse aspecto não tenhodúvidas nenhumas. Aliás eu acho que é por isso que muitas vezes as relaçõesheterossexuais não resultam, é porque os homens não sabem isso.- E o recurso a objectos?- Nunca experimentei. Sei que existe, mas nunca vi necessidade de me servir dessascoisas. Prefiro explorar a minha própria habilidade natural. Isso tem a ver com o perfil 16
  17. 17. das pessoas, obviamente. Eu confesso que isso para mim é uma coisa um bocado disparatada,e custa-me um bocadinho a perceber porque é que há mulheres que usam essas coisas, porquepara isso então mais vale ir com um homem. Acho que isso está bem para os gays, sobretudoagora com o problema da SIDA, agora para as mulheres acho que não serve para nada.- Olhe, e uma noção de pecado, ligada à sua sexualidade?- Eu não tenho esse tipo de problema, porque não cultivo nenhuma religiosidade, de formaque não encaro as coisas por esse prisma. Eu fui educada dentro da religião católica, fiza Primeira Comunhão e mais não sei o quê, e isso fez-me interiorizar uma certa noção depecado, mas quando atingi a idade adulta rejeitei tudo isso. Não tenho nenhuma relaçãocom nenhum Deus.- E quando morremos? Para onde é que vamos?- Vamos para a terra. Nós somos pó e mais nada. Morremos, acabou. Quando muito poderemosvir a ser alimento para as plantinhas, e para outros seres.- Olhe, e o que é que pensa dos bares, dos lugares de encontro?- Compreendo que existam, mas não os frequento. Acho que cada uma é livre de lá ir sequiser, mas a mim não me dizem nada. O meu estar na vida não passa por aí. Se calhar hápessoas que não têm outra forma de se encontrar, e nessa medida se calhar os bares sãonesmo necessários, mas eu de facto não sou frequentadora. Acho mesmo que esses bares sãoum factor de deturpação da homossexualidade, de abandalhamento, se quiser, de uma coisaque pode ser vivida com toda a decência. Porque o verdadeiro encontro e o relacionamentosério entre as pessoas não passa por isso. Mas também não “simpatizo” nada com os“lugares de engate” heterossexuais, onde aliás também podem acontecer encontroshomossexuais. Porque eu não faço uma grande distinção na vida entre homossexuais,heterossexuais e bissexuais, até porque acho que a postura mais certa, mais equilibrada,é a da bissexualidade. Acho que toda a gente tem a liberdade de fazer aquilo que quiser,desde que não incomode nem moleste os outros. Devia haver um respeito muito maior entreas pessoas. Se todos se respeitassem uns aos outros este mundo era optimo, e quando aspessoas se fecham nos ghettos dos bares estão de certa forma a desvirtuar aquilo que ésério e honesto.- Olhe, e de experiências amorosas, que tal? Muitas? Poucas?- Poucas. Necessariamente poucas. Eu só conto três histórias amorosas na minha vida. Defacto não são muitas, se se pensar que há mulheres que têm vinte ou trinta ou cinquenta.Tive uma relação que durou nove anos, outra que durou cinco, agora há dois anos que estoucom esta minha amiga. Penso que foram relações sérias, qualquer delas, e podiam terdurado mais tempo. Porque para me dar completamente a alguém, eu tenho de achar que defacto vale a pena. Chegar ao aspecto sexual é para mim o último passo no encontro e napartilha, e eu não encontrei assim tanta gente com quem me pudesse partilharcompletamente, com quem merecesse a pena chegar à vivência do sexo.- Já agora, uma história engraçada que tenha vivido, não me quer contar?- Não sei... olhe, uma vez recebi uma proposta de um encontro a três, que me surgiu comouma oportunidade única, e eu gosto de situações que sejam por um lado quase de um certorisco, e que por outro lado sejam novidade, acho que tenho um espírito de abertura muitogrande.- Desculpe lá, mas olhe que isso contado dessa maneira não tem assim muita graça...- Pois não, não tem graça nenhuma, porque realmente não teve mesmo graça, porque a minhacompanheira rejeitou a coisa completamente.- E depois, o que é que aconteceu?- Foi-me muito difícil gerir a situação. Ela ficou muito contrariada, mas enfim, láaceitou fazer a experiência, mas é claro que resultou muito mal. Mas é engraçado, e issosim, tem realmente graça, é que eu, que tinha aderido à ideia, acabei, interiormente, porachar que era bom, embora não me tivesse aproveitado da situação, e ela, que tinharejeitado a ideia, aproveitou-se muito mais do que eu, e nós quando nos lembramos dessahistória ainda hoje nos rimos. Eu acho engraçadíssimo que ao fim de um certo tempoentrámos em pormenores, e só nessa altura, passados anos, é que percebemos que ela gozoumuito mais com a situação do que eu. Quer dizer, chegámos as três à cama, eu estava cheiade vontade, e a terceira pessoa também estava muito mais interessada em mim do que naminha amiga, mas eu estava com imensos problemas em relação à minha amiga, porque ela setinha fartado de dizer que não queria, e tinha inclusivamente entrado numa situação deconflito aberto comigo, de maneira que eu estava completamente bloqueada e quase que não 17
  18. 18. fiz nada, e ela e a terceira pessoa é que fizeram a festa, e eu fiquei de fora. Portanto,e resumindo, eu aceito esse tipo de prática, embora as pessoas com quem tenho vivido arejeitem, e acho que é uma experiência gira para se fazer. Acho que quem tiver condiçõespara poder disfrutar de uma oportunidade dessas não deve deixar de experimentar.- Mas como filosofia de vida, acha que é uma hipótese aceitável?- Como filosofia de vida acho que é muito complicado. Não é por mim, porque os problemasque se põem são ao nível da partilha, e eu acho que tenho uma grande capacidade departilha, mas penso que uma relação a três é uma coisa muito difícil de gerir. Há oproblema do ciúme, porque as pessoas não têm capacidade de dádiva e de aceitação dosoutros. Não é por mim, porque eu acho que era capaz de gerir uma situação dessas, mas aminha experiência ensinou-me que de facto é tão difícil que se calhar não vale mesmo apena. 18
  19. 19. Carla, 19 anos, estudante.- Olhe, Carla, para começar, qual é a designação que prefere? Mulher homossexual,lésbica, sáfica?- A palavra lésbica a mim não me incomoda assim muito, mas também não me importo que mechamem de outras maneiras. Eu não me importo com nada.- Quando é que a Carla descobriu as suas tendências para o lesbianismo, e como foi queisso aconteceu?- Ah, isso foi muito engraçado, eu tinha dezasseis anos, foi numa altura em que os meuspais tinham ido à terra, e eu estava em exames, de forma que fiquei em casa da minhavizinha, e então o marido dela é da PSP, e nessa noite estava de serviço, de maneira queela começou assim com umas coisas, a dizer que eu estava a ficar cada vez mais gira, e aperguntar se eu tinha cuequinhas com renda, e não sei que mais, e eu achei aquilo tudouma conversa muito parva, mas não liguei. Ás tantas, já devia passar da meia-noite,acordei com ela a chamar-me, que tinha uma surpresa para mim, e então eu lá me levantei,muito espantada, e então é que vi que ela estava com uma lingerie com umas flores azuis,e estava saída do banho, toda perfumada, tinha posto música a tocar, e uns poucos depauzinhos de incenso, daqueles que se vendem nos indianos, e então puxou-me para ela, eabraçou-me, depois começou a dar-me beijos no pescoço, e eu sem perceber nada, mas aomesmo tempo aquilo estava a saber-me bem, e perguntei-lhe o que era aquilo, e o que é queela queria. Ela deu-me um copo com whisky e disse-me: “Olha, eu gosto muito de ti, egostava muito de passar a noite contigo, mas pronto, se não queres podes ir dormir, masficas a perder, por isso vê lá se queres ou não, tu é que sabes.”Eu aí de repente olhei para ela, achei-a bonita, pensei que se calhar ficava mesmo aperder, e disse-lhe que sim, que queria. Ainda ficámos ali um bocado na sala, namarmelada, depois fomos para o quarto, e pronto. Agora quando o marido dela está deserviço eu vou até lá para lhe “fazer companhia”.- E ele não desconfia de nada?- Acho que não, porque é que havia de desconfiar?- E os seus pais?- Também não. Noutro dia ligou lá para casa um rapaz que é meu colega da faculdade, edepois à noite a minha mãe pôs-se a fazer-me perguntas à mesa, se era o meu namorado, eumas coisas assim, e eu disse que sim, que era, mais ou menos, e que estava a acabar ocurso, e eles ficaram todos satisfeitos.- Olhe, Carla, a Carla acha que já nasceu lésbica, ou foi uma coisa que só lhe aconteceudepois?- Eu não sei, porque eu antes nem nunca tal coisa me tinha passado pela cabeça, mastambém, se não houvesse lá qualquer coisa dentro de mim, também não tinha ido assim àprimeira, não é? Porque ela só me convidou, não me obrigou, eu só fui para a cama com elaporque quis, e ainda por cima gostei...- Quer dizer que a Carla nunca teve namorados?- Não, quer dizer, pelo menos assim namorados à séria, isso não tive. Ainda não penseimuito bem se quero ter, porque eu gosto muito da minha vizinha, mas por outro lado nãoposso estar muitas vezes com ela, é só quando o marido não está, por isso isto é tudo umagrande confusão, eu ainda nem sei o que é que quero fazer da minha vida.- A Carla gostava de ter filhos?- Ai, adorava. Por isso é que isto ainda é tudo mais complicado. Do que eu gostava era depoder viver com ela, noutra cidade qualquer, que ninguém nos conhecesse, e podermos terum bébé, mas como isso não pode ser...- Pois é, vai ter de fazer a sua escolha.- Mas eu já fiz, eu quero viver com a ..........., quero que ela deixe o marido. Atépodíamos adoptar uma criança, ou ir buscá-la a um bairro de lata...- Bom, olhe que isso também lhe pode criar uma situação um bocadinho complicada. Masresponda-me a outra coisa: a Carla alguma vez se sentiu rejeitada pelos homens?- Não, alguns até me dizem que eu sou gira e tudo, mas eu nem perco tempo a pensar nisso.- E uma rapariga masculina, acha que é?- Não, nada mesmo.- Se a Carla pudesse de repente mudar de sexo, mudava?- Não sei, acho que não. Eu sinto-me muito bem assim. Mas por outro lado também gostava 19
  20. 20. de ser rapaz para poder casar com a ........... É uma paixão tão grande...- A Carla queria casar com ela?- Era giro, não era?- E se pudesse de repente deixar de sentir aquilo que sente pela sua amiga?- Pois, resolvia uma data de problemas, isso era, mas eu não queria.- Olhe, Carla, e o que são as vossas práticas sexuais?- ...- Não quer contar?- Não é isso, é que ela é capaz de se chatear...- Então não conte, pronto.- Também não há assim muito para contar, mas é assim, eu gosto tanto quando ela passa asmãos pelo meu peito, e pela minha cintura, as mãos dela são tão macias... e depois tambémfazemos outras coisas... mas pronto. É assim.- Carla, o que é para si um orgasmo?- Eu não sei muito bem explicar. Foi uma coisa que eu levei um bocadinho de tempo aaprender, ao princípio nem sabia muito bem lá chegar, foi a ............. que me ensinou.Mas é assim um momento em que se tem um prazer tão grande, tão grande, que ficamos comtonturas, e parece que a nossa “coisinha” vai rebentar, parece que vai explodir.- E objectos, usam?- Objectos?- Sim, pilinhas feitas de plastico...- Que horror! Eu nem estava a perceber o que é que você queria dizer com isso... Não, nãousamos, aliás eu ainda estou virgem, por isso já vê...- E uma noção de pecado, ligada à sua sexualidade? Tem?- Eu por mim não tenho, e nem acho que esteja a fazer mal nenhum, mas os meus pais são deuma religião, eu não vou agora dizer qual é, mas é uma religião que não aceita ahomossexualidade, nem a feminina nem a masculina, de maneira nenhuma, por isso eu nemquero pensar, se algum dia os meus pais descobrem, aí as coisas vão ficar muitocomplicadas, até são capazes de ir contar ao marido dela, ou de me pôr fora de casa, émelhor nem pensar nisso.- E sobre os bares, o que é que me diz?- Nunca fui. Ando com imensa curiosidade de ir a um que me falaram, só para ver, mas nãotenho ninguém que vá comigo, e eu para ir sozinha também não tenho assim muita lata...veja lá, se no seu livro houver alguém que queira vir comigo... 20
  21. 21. Alexandra, 29 anos, jornalista.- Antes de mais, Alexandra, qual é a designação que prefere? Lésbica? Sáfica? Mulherhomossexual?- A palavra que eu utilizo mais vezes é a palavra lésbica. Porque acho que é o que é, epronto. Eu sei que há pessoas a quem essa palavra faz muita comichão, mas isso é sóporque as pessoas não estão habituadas. Os homossexuais às vezes também sãopreconceituosos. Alguns até são homofóbicos, se não fossem não se escondiam tanto, não é?Têm um autêntico horror à coisa. Se bem que eu também ache que as pessoas se auto-intitulam lésbicas, ou hetero, ou bi, e fecham-se assim nuns compartimentos estanques emque eu não acredito assim muito, porque ninguém está livre, de hoje para amanhã, dedobrar a esquina e encontrar o príncipe ou a princesa dos seus sonhos, não se sabe, nãoé, porque esta coisa das emoções e dos afectos não é como os produtos que a gente comprano supermercado, não se escolhem pela cor, pelo tamanho, pelo feitio, não se escolhemporque fazem falta, aparecem quando aparecem, quando dá o click, pronto. De maneira queeu acho que a designação, embora não tenha que se ter medo dela, é um bocado limitativa.- E quando é que pela primeira vez se sentiu atraída por uma mulher?- Eu era pequenininha, com quatro, cinco anos, e lembro-me de olhar assim com umaprofunda emoção para algumas das amigas da minha mãe. Achava-as o máximo. Davam-meaquelas paixonites que dão nas crianças... e essas coisas foram-se sucedendo...- E quando é que teve consciência do que se estava a passar consigo?- Eu não sei, mas era muito miúda, e já sabia que era diferente, porque era assim, quandoestas coisas aconteciam, e eu sentia que alguém estava a reparar em mim, eu disfarçava,sentia-me na obrigação de desviar o olhar. Aliás, a páginas tantas, o meu grande sufocoera não ter nascido rapaz. Porque eu gostava de raparigas, não é, portanto achava que setivesse nascido rapaz isso me teria facilitado muito as coisas, porque o que eu tinha nacabeça era o que me tinham ensinado, o esquema hetero, e portanto para gostar deraparigas eu achava que devia ter nascido rapaz. Eu às vezes perguntava aos meus paisquando é que ia ter as minhas namoradas, e eles ficavam muito indignados, muitoentupidos, e diziam-me que não, que quem tinha namoradas eram os rapazes, e então,perante estas coisas, não é, para mim não havia confusão nenhuma, entendi que se os meuspais me diziam que quem tinha namoradas eram os rapazes, como eu queria ter namoradas, eutinha de passar a ser rapaz.- Quer dizer que a sua família sabe?- Muito contrariadamente, não é, mas sabem. Ao princípio não ligavam muito. Depoiscomeçaram a oferecer-me bolas de futebol, espingardas, fisgas, luvas de boxe, arcos eflechas, enfim, “aquelas coisas normais de que as raparigas gostam...” e como lá em casanão havia rapazes, éramos todas raparigas, era eu que tinha jeito para brincar combrinquedos de rapaz, era eu que desaparecia horas sem ninguém saber onde é que eu estava,não brincava com bonecas...- E hoje em dia? Aceitam?- Hoje em dia se pudessem faziam-me uma lobotomia, para eu ficar quieta.- Olhe, e como é que tudo isso foi vivido na adolescência?- Ah, não, não foi de todo, não foi na adolescência, foi muito mais tarde. A primeira vezque me deitei com uma mulher tinha vinte e um anos. Mas a primeira vez que tiveconsciência de que isto era um problema um bocado complicado foi aos doze anos. Fui parao Liceu, e havia muitas raparigas, e então aquilo era um paraíso, porque de cada vez quemudava de ano arranjava assim uma paixoneta... eram assim umas coisas platónicas, não é,que era assim é que devia ser.- Alexandra, diga-me outra coisa: você acha que já nasceu lésbica, ou essa foi umacaracterística que foi adquirindo com o tempo? Acha que é uma coisa genética?- Não sei, eu não tenho conhecimentos de genética para poder afirmar uma coisa dessas.Mas penso que em muitos casos é apenas uma questão de opção pessoal, e mais nada. Eu achoque muitas mulheres às tantas optam, porque neste mundo agressivo, masculino, estúpido,sem imaginação, às tantas a ternura e o afecto entre duas mulheres acaba por ser aalternativa mais atraente, mais segura, mais tranquilizadora.- E como é ser lésbica em Portugal?- É difícil. Há países onde os Gays masculinos estão organizados, e têm poder, e dãocartas, como nos Estados Unidos, no Canadá, em Inglaterra, na Alemanha. Nos Estados 21
  22. 22. Unidos, que é o caso que eu conheço melhor, quando há as Gay Parades, primeiro discursamos gays, depois discursam as lésbicas, depois discursam os bi, depois discursam ostravesties e depois então é que discursam os trans-sexuais, e esta é a hierarquia queserve para os desfiles, para as representações, para tudo, e então eu acho que numambiente desses o que se está a criar é um grupo de tendências totalitaristas, baseadonuma hegemonia que não se percebe muito bem qual é, gente que funciona em matilha, e achoque tudo isso deve ser combatido, nos Estados Unidos, em Portugal, onde quer que exista.Porque deve haver imensos Gays com imensas razões para se quererem afastar do mundohetero, mas o perigo é que esses grupos formam-se para lutar contra a descriminação, masquando esses mesmos grupos começam a ter demasiado poder acabam por ser eles próprios quepraticam a descriminação. Só depois do Hitler já houve centenas de grupos que exercerampoderes totalitários, e eu não me apetece fazer parte de um grupo desses, ou melhor, nãoquero sequer ser identificada com esse tipo de atitude extremista. Até porque cada vezmais as pessoas têm de entender que não há “o nosso mundo” e “o mundo dos outros”. Omundo é só um, e as pessoas têm de aprender a viver juntas. Eu tenho imensa pena que osoutros não percebam nada sobre a minha forma de estar, tenho imensa pena que eles nãoentendam, e me combatam, e me agridam, mas eu não quero estar do outro lado da barreira.Eu quero é que eles entendam que nós vivemos todos juntos neste planeta e temos de nosaceitar e respeitar uns aos outros.- Olhe, se se organizasse uma manifestação na Av. da Liberdade, você ia?- Depende, não é? Se fossem os fulanos da extrema esquerda não ia de certeza.- Porquê?- Porque eles acham que a comunidade gay em Portugal está toda com eles, mas isso é umdisparate, porque há gente gay em todos os Partidos, e os da extrema esquerda acabam porser tão repressores como os da extrema direita. Você veja o caso da Dina. Ela não podepretender estar à frente de um bar que toda a gente sabe que é um bar de lésbicas, efazer de conta que aquilo é o Casino do Estoril, e exercer uma repressão enorme sobre asmiúdas que lá vão porque não têm outro sítio para se encontrar, e chegam ali, deixam láficar o dinheiro que têm, que não deve ser muito, não é, mas se calhar para algumas étudo o que têm, e nem sequer podem dar um beijo.- Mas a Dina é lésbica?- Eu não sei se ela é lésbica ou não, isso é uma coisa que eu não posso saber, nunca fuipara a cama com ela, aliás... nem que ela me pedisse de joelhos, mas a questão que se põenão é essa, a questão que se põe em relação à Dina é que ela é homófoba, preconceituosa emalcriada. Eu conheço milhares de pessoas como ela, que são pessoas completamentedesinteressantes, são pessoas que não levam a lado nenhum, são pessoas que só servem paragerar a confusão, e que ainda por cima dão mau nome à homossexualidade. Mas não é só nobar da Dina, há outros que são exactamente a mesma coisa.- Bom, vamos deixar isso de parte. E a sua juventude? Teve namorados?- Ah, não, andava à pancada com os rapazes. As minhas irmãs arranjavam problemas com osnamorados e eu é que tinha de andar à pancada com eles.- Nessa altura pensava que gostaria de casar e de ter filhos?- Não. E no entanto a minha vida acabou por dar uma volta. É uma história muitoengraçada. Porque eu não só não pensava nada nisso como ainda por cima tinha algunsproblemas a nível de ovários e de útero, e o médico disse-me que tinha muito poucaschances de ter filhos. E acabou por acontecer. O meu caso foi muito engraçado. Às tantasdobrei a esquina, encontrei um homem que achei o máximo, fiquei instantaneamenteapaixonada, ele tinha montanhas de defeitos, mas pronto, naquele momento era o máximo. Demaneira que perdi a cabeça com ele, e tive uma criança.- Foi o único homem da sua vida?- Não, mas também não acredito que me volte a interessar por outro. Era preciso queviesse o arcanjo S. Gabriel, com aqueles caracolinhos loiros, e com aquela carinha demenina... e mesmo assim ia ter de ficar a olhar para mim durante vinte dias... sabe queeu acho que me tenho tornado cada vez mais selectiva... nós não temos de ser omnívoros,não é?- Olhe, e em relação à sua filha, acha que tem sido uma boa mãe?- Eu espero bem que sim, pelo menos faço tudo por isso. Eu acho que ela às vezes seressente um bocadinho por ter os pais separados, mas temos uma relação optima. Mas eugostava de falar mais um bocadinho de quando era miúda. Houve um dia em que eu me 22
  23. 23. apercebi pela primeira vez de que o meu lesbianismo era um problema social um bocadocomplicado. Foi um dia em que eu ia com um grupo de amigos pela avenida, e passaram pornós dois homossexuais, e eles começaram a fazer comentários em relação a eles, earrasaram-nos da cabeça aos pés. E eu comecei a pensar que se se diziam essas coisassobre os outros qualquer dia iam começar a dizê-las também sobre mim, e essas coisasofendem, e magoam, e então eu aí tive a consciência de que a minha alegria de viver nuncamais ia voltar a ser a mesma coisa. Depois fui para o Liceu, e era muito pequenita, deviater a altura da minha filha, e os outros gozavam comigo, penduravam-me nos cabides,faziam-me aquelas coisas que os miúdos fazem aos mais pequenos. Mas quando cheguei aostreze anos, durante as férias grandes cresci imenso, e a primeira coisa que me aconteceuquando entrei no Liceu foi que uma miúda mais velha que até aí nunca me tinha ligadonenhuma veio ter comigo e perguntou-me se eu queria jogar futebol com elas, de forma queera assim que elas iam formando as equipas de futebol feminino, que acabavam por serconcentrados de lésbicas, aliás no basquet também, e então eu lá fui para a equipa, tiveum treinador que se chamava Pedro, tinha um metro e noventa, era lindo, mas era tãoburro, tão burro, tão fantasticamente burro que era uma coisa impressionante. Depoispassei para uma equipa semi-profissional, depois tive outra treinadora que era o máximo,mas essa era a namorada da guarda redes, e a guarda redes era minha amiga, e essas coisasnão se fazem, não é, de maneira que não houve nada, mas ela tinha muitos cuidados comigo,as outras queriam pregar-me partidas e ela vinha e fazia voz grossa, de maneira que eusentia-me ali o máximo. De forma que passei uma adolescência alegre e divertida, assimcom umas paixonites platónicas, nunca confessadas nem pela minha parte nem por elas, umtanto reprimida pelos meus pais, mas se calhar ainda bem, porque se eles não me tivessemreprimido tanto eu não tinha desenvolvido tanto a minha capacidade para “dar a volta” àscoisas. Outra coisa gira que nós fazíamos era que íamos à noite para o pé do muro docolégio das freiras, que era para onde iam os rapazes para namorar as meninas, e entãoquando os rapazes se iam embora chegávamos nós, a equipa de futebol feminino.Assobiavamos-lhes, elas vinham à janela, e era optimo, a gente divertia-se imenso.Faziamos-lhes propostas, e elas não sabiam que éramos nós. Depois vinham as freiras, emandavam-nas para dentro, e nós riamo-nos que nem umas perdidas, aquilo era uma fitatodas as noites... Outras vezes iamos para a messe dos oficiais, quem lá estava eram asmulheres deles, e íamos desafiá-las, e no meio disto tudo alguns “negócios” eram bemsucedidos. Entretanto o que não era lá muito bem sucedido eram os meus estudos, porque eupreocupava-me muito mais com a equipa de futebol, e com as pequenas, não é, do que com osestudos, de maneira que os meus pais acabaram por me arranjar uma explicadora deportuguês com quem por acaso também passei umas ricas tardes. A explicadora oferecia-mecigarrilhas, e eu dizia que não queria. Depois oferecia-me Martinis, e eu dizia que nãoqueria. Mas ela é que queria à viva força enfiar-me pelo menos os Martinis. Depoissentava-se ao meu lado, à mesa da sala de jantar, para me dar as explicações, e às tantashavia sempre qualquer coisa dela em cima de mim. E então eu levantava-me e mudava delugar. E ela dizia-me: “Não sejas parva, vem para aqui”. E eu “Não!” E então aquela cenanormalmente acabava comigo a andar à volta da mesa, e ela com o livro atrás de mim. Eutinha quinze anos, ela tinha vinte e quatro. Mas a pessoa que era, era filha da pessoamais importante lá da terra, de maneira que se se descobrisse aquilo ia dar uma barracadatão grande, que eu não arriscava, por muito que me apetecesse.- Você considera-se uma mulher masculina?- Não, não tenho nada a ver com isso. Tenho talvez um ar um bocado arrapazado, mas não meconsidero masculina.- Sabe que há um bocado a ideia de que as lésbicas são mulheres que foram rejeitadaspelos homens. Acha que é verdade?- Não. Quer dizer, eu acho que isso talvez aconteça com algumas, mas essas são umaespécie de ”lésbicas de empréstimo”. Mas não há regras para os afectos, não há regraspara a forma de as pessoas se compensarem, porque de facto somos todos diferentes, e defacto quando nós aprendemos a gostar dos outros é por causa dessas pequenas diferenças. Eeu acho que se isso acontece com algumas mulheres não sou eu que as vou criticar.- Olhe, Alexandra, e pudesse mudar de sexo, mudava?- Credo! Não!- E se durante a sua adolescência arrapazada lhe tivessem oferecido essa possibilidade,tê-la-ia aceite? 23
  24. 24. - Não, também não.- E se de repente pudesse passar a ser exclusivamente heterossexual?- Eu gostava de ver essa proposta feita ao contrário. Aos hetero. Porque é que ninguémlhes pergunta essas coisas a eles?- Tem razão. Olhe, e práticas sexuais entre mulheres? Essa história por exemplo dasactivas e das passivas, é verdade?- Sabe que é a coisa que mais me chateia é quando os hetero descobrem que eu sou, ecomeçam a querer saber coisas, e me vêm com essa história de saber se há uma que faz dehomem e outra que faz de mulher. Eu fico a pensar que raio de vida sexual é que essagente poderá ter, percebe? Eu acho que não pode passar pela cabeça de ninguém,minimamente tranquilo em relação à sua própria sexualidade, fazer uma pergunta dessas. Euacho que as pessoas chegam aos sessenta anos com ideias acerca da sua própria sexualidadeque são de uma pessoa ficar arrepiada, mas enfim, Deus é grande, e se Ele os acolhe, quemsou eu para dizer seja o que for.- Alexandra, o que é o sexo entre mulheres?- Bom, há mulheres com quem é muito bom, há outras com quem nem por isso, tudo depende.- Olhe, Alexandra, e o que é um orgasmo?- Não lhe sei explicar. Sei que é muito bom, mas não sei explicar. Porque para mim oorgasmo não é só aquele momento, é tudo o que acontece antes, e por que não, é tambémaquilo que vem depois, de maneira que está a ver, é muita coisa.- O que é que me diz, por exemplo, sobre orgasmo vaginal e orgasmo clitoriano?- Olhe, se quer que lhe diga, ainda não descobri de qual dos dois é que gosto mais. Estoucomo o outro “Eu tenho dois amores...” Sabe que eu acho que as questões sexuais têm todaa importância e não têm importância nenhuma. Tudo depende de tantas coisas... a pessoatem de estar bem consigo própria, tem de estar bem com a outra pessoa, a outra pessoa nãopode ser uma pessoa qualquer, e eu não consigo separar as coisas.- Olhe, e experiências amorosas, foram muitas?- Não foram muitas, mas às vezes penso que foram demais.- A Alexandra alguma vez teve uma noção de pecado ligada à sua sexualidade? A ideia de umDeus que mais tarde lhe possa pedir contas, porque afinal de contas a sua sexualidade éuma sexualidade transgressora...- Pelo contrário. Eu acredito fortemente na existência de Deus, e acredito que Ele estácomigo, e “tem-me posto a mão debaixo do rabinho”, tem-me protegido sempre nos pioresmomentos. Deus não é homossexual, mas também não é hetero, e jamais me há-de julgar poruma coisa dessas. Deus pode ser tudo o que nós quisermos. Eu tenho uma amiga que inventouuma deusa que é a Lady Clitoressa, e presta-lhe culto e tudo.- Olhe, e descriminação?- A discriminação é o abuso do poder, e o que muitas pessoas fazem em relação aoshomossexuais é justamente isso, o abuso do poder. E eu acho que esse abuso se está a darno sentido inverso. Embora na maioria dos casos os homossexuais portugueses sejampacíficos, e não chateiem ninguém, eu acho que começam a acontecer alguns focos deprovocação, alguns focos de extremismo que não é nada bom que existam, são até contra-producentes. Nós tivemos um grupo de reflexão que justamente tentou abranger pessoas detodos os quadrantes, mas não é fácil. Já existiu no passado, depois houve uma cisão,porque houve uma pessoa que fez uma tentativa no sentido de “cilindrar” as outras, masagora estamos outra vez a tentar organizar as coisas, porque é preciso que haja um grupodedicado à defesa de determinados direitos fundamentais dos homossexuais.Porque existe de facto discriminação em relação aos homossexuais, e isso é abuso depoder. Eu fiz parte desse grupo de reflexão que funcionou durante um ano e meio, nóschamavamos-lhe Grupo de Consciência Lésbica, e foi um grupo pelo qual passaram muitasdezenas de mulheres, reuniamo-nos semanalmente em casa de uma, em casa de outra, foi umgrupo que fez um trabalho estupendo, e as pessoas que passaram por lá pelo menos falaram,discutiram, escreveram, trocaram ideias, e foi uma experiência extraordinariamentepositiva.- E porque é que acabou?- Bom, surgiram vários problemas, um deles foi uma tentativa de quebra do anonimato porparte de uma das pessoas que é uma senhora que edita uma revista lésbica que obviamentetem as suas limitações, mas é a única que existe em Portugal, aliás eu acho que ela estáa fazer um trabalho óptimo, e que tem um valor extraordinário, mas foi preciso chamá-la à 24
  25. 25. pedra, porque as pessoas se querem o anonimato lá têm as suas razões, e essa pessoa fazmuito bem em defender as mulheres do campo que não têm instrução, mas os homossexuaisexistem, e sempre existiram em todas as camadas sociais, e é preciso defender também asoutras. Ela é uma pessoa que se preocupa com as lésbicas das camadas mais baixas, mas háas outras, que têm um nome, uma carreira a defender, um cargo de responsabilidade, e aquebra do anonimato é uma coisa que ninguém pode pedir a ninguém. A opinião dela foi quenós éramos todas umas Betinhas de Cascais, mas não é nada disso, nós participamos nascoisas, não queremos é ser radicais nem panfletárias nem andamos de rótulo na testa.Outro problema grave que se põe é o da solidão, porque nem sempre temos uma pessoa ànossa medida, e isso cria um problema de consumismo, aliás este não é um problemaexclusivamente homossexual, mas a mim faz-me pena que isso aconteça tanto e que de certaforma seja tão má publicidade para os homossexuais. Porque uma acusação que nos édirigida com alguma frequência é justamente essa: “Se realmente está tudo bem e está tudocerto, porque é que vocês se juntam e se separam tantas vezes?” Eu acho que isso tem aver com a dificuldade que as pessoas hoje têm em estar sozinhas. No caso dos homossexuaisesse problema acaba por se tornar mais grave porque não há um acompanhamento, nem há oenquadramento numa estrutura social e familiar, e é lógico que as pessoas tendem a sentiro problema da solidão de uma forma agravada. Eu acho que em Portugal os casais hetero nãose separam muito mais porque as pessoas não têm dinheiro para alugar casas, as pessoas,mesmo quando se dão mal, não têm dinheiro para se divorciar, ou para ficar a viversozinhas. A maior parte das mulheres em Portugal não tem dinheiro, ganha manifestamentemenos do que os homens. Basta ver nos transportes públicos. De manhã, quem vai para oemprego de autocarro ou de metro são as mulheres, quem vai de carro são os homens. Oshomens têm mais poder de compra. Aqui entra de novo e flagrantemente a discriminação e oabuso de poder, e no caso das lésbicas há mais factores ainda de agravamento da situação.Mas sabe que eu tento ver sempre um lado positivo mesmo nas coisas mais negativas. Nestecaso o que acontece é que tudo isto acaba por dar às mulheres e aos homossexuais umaendurance e uma visão da vida que está talvez mais de acordo com o caminho que terá devir a ser feito no futuro, socialmente, para melhorar as condições de vida das pessos. Asmulheres como ganham menos, e estão habituadas a sobreviver com menos, estão mais“equipadas” psicologicamente para se desenrascar com menos dinheiro e de outras maneiras.Se uma pessoa não pode ter carro não tem, e pronto.Mas ainda em relação à discriminação, houve noutro dia um encontro Gay, com uma mesaredonda, e então convidaram um advogado que é o Francisco Teixeira da Mota que disse:“Ponham os casos em Tribunal, porque enquanto não puserem não se criam precedentes, nãose cria jurisprudência, não se cria um movimento para mexer com a Lei.” Isso é tudo muitoengraçado, mas era o que dizia uma das miúdas que vinha comigo “Querem mártires!” Porquede facto uma pessoa normal, com uma vida normal, com um emprego normal, com um ordenadonormal, que se meta numa batalha campal judicial em Portugal, pode até nem perder acausa, só que são quatro ou cinco anos de despesas a que uma pessoa não pode fazer face,e são quatro ou cinco anos de problemas que nunca mais acabam. Este advogado dissealgumas coisas importantes, só que de facto não se vêem soluções à vista. E no caso daslésbicas a situação é de facto muito difícil.- É mais difícil do que a dos homossexuais masculinos?- Ah, sim, claro, basta o facto de qualquer homem em Portugal ganhar mais do que umamulher, para os gays estarem sempre mais protegidos. Eu no meu emprego ganho menos do quequalquer dos meus colegas homens. Até os estagiários entram para lá a ganhar mais do queeu.- Mas eles não sabem que você tem uma criança pequena para sustentar?- Eles não querem nem saber do que é que eu tenho ou não tenho. As mulheres ganham alimenos do que os homens, e ponto final. E quando há aumentos, os homens têm 4%, que é umaninharia, mas as mulheres têm direito a 2%, pronto, é assim. 25
  26. 26. Luísa Freitas, 46 anos, comerciante.- Luísa, diga-me em primeiro lugar qual é a designação que prefere: lésbica, sáfica,mulher homossexual?- Olhe, a palavra lésbica é uma palavra que eu aceito muito bem.- E quando foi que descobriu em si pela primeira vez as tendências para o lesbianismo?- Ah, isso é uma grande história.- Optimo, já é um bom começo.- Bem, eu não sei se isso tem alguma coisa a ver, mas quando eu era miúda, devia ter osmeus quinze, dezasseis anos, ou talvez menos, eu gostava muito de recortar fotos deartistas de cinema, e é engraçado que só recortava fotos de mulheres. Havia algumas queeu achava especialmente bonitas. Eu não achava os homens bonitos, mas o que é certo é queaos seis anos eu tive a minha primeira paixoneta, e foi por um rapaz. É claro que estesamores da infância são sempre platónicos e até assexuados. Depois comecei a apaixonar-mepelas minhas professoras, era muito engraçado, andava a segui-las pela rua, e coisasassim.- Apaixonava-se por elas porque as achava bonitas?- Não, não era tanto por causa das características físicas delas, aliás ainda hoje eu nãome apaixono por ninguém por causa das características físicas, mas sim por aquilo que euacho que essa pessoa tem lá dentro.- Ora bem, começou então por ter umas paixonetas por rapazes, umas paixonetas pelas suasprofessoras, e depois por volta dos quinze anos coleccionava recortes de jornais deactrizes de cinema. Alguma em particular?- Eram as desse tempo, não é? A Jayne Mansfield, a Elizabeth Taylor, a Romy Schneider...- Mas explique-me uma coisa: você tinha consciência do que se estava a passar consigo, ounem sequer se apercebia?- Não, de todo, nem sequer pensava nisso. Aconteceu tudo de uma forma muito natural, eunem sabia o que era o lesbianismo. E como ao mesmo tempo ia tendo as tais paixonetas porrapazes, achava que isso é que era o amor, e que o que sentia pelas professoras era umagrande admiração, eu não me preocupava em explicar as coisas de outra maneira, as coisaseram assim e pronto. Depois, mais ou menos por essa altura, vi um filme que se chamava“Raparigas em uniforme”. Era um filme alemão que contava a história de uma rapariga de umcolégio que se apaixonava por uma professora, e na altura lembro-me de ter pensado:“Olha, afinal não sou só eu”.- Por tudo isto que me está a contar, a Luísa não é propriamente lésbica, é mais umabissexual, ou não?- Sim, quer dizer, eu não sei muito bem o que é que sou, teoricamente acho que soubissexual, embora neste momento tenha uma relação lésbica. Não sei por quem me vouapaixonar a seguir, mas também não estou nada preocupada com isso. Agora estou apaixonadapor uma mulher, e tenho uma relação com ela, é uma relação que sai um bocado fora doesquema convencional das outras lésbicas, mas enfim... tenho a minha faceta lésbica toda“ao de cima”.- E quando é que teve verdadeiramente consciência disso?- Foi em 1980, quando vim para Portugal. Eu tinha estado a viver na Holanda, sabia quehavia lá muitas lésbicas, que até faziam manifestações e não sei que mais, mas nunca medeu para aí, foi só quando vim para Portugal. Eu nessa altura estava apaixonada por umhomem, mas também estava ligada a um grupo feminista, o IDM, Informação e Documentação deMulheres, que já não existe, e tinha uma amiga holandesa que era jornalista, e que medisse que queria entrevistar mulheres aqui em Portugal. Então eu indiquei-lhe uma mulherque não conhecia, que nessa altura pertencia a um grupo que era só de lésbicas, mas dequem tinha ouvido falar, e de quem tinha lido escritos dispersos que me levaram a pensarque era um discursos feministas mais coerentes que eu tinha visto em Portugal, que eraa ............, que tinha estado na célebre “Manifestação dos Soutiens”. O nosso “Grupodas Bruxas”, que mais tarde se separou do IDM, estava a fazer um livro sobre isso, e essaminha amiga holandesa fez-lhe a entrevista, e disse-me que tinha ficado maravilhada, quea ............ era uma “mulher soberana”, e eu fiquei muito impressionada com o que aSaskia disse acerca dela. Entretanto soube que o grupo dela tinha sido o resultado de umadivisão dentro do IDM, antes de eu entrar, porque havia as lésbicas e havia as nãolésbicas, e não se entendiam, isso é uma coisa muito chata que acontece às vezes com os 26

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