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Araçatuba, 2015
Contos
MELHORES
2015
Copyright © vários autores
Edição: Hélio Consolaro
(Publicado sem revisão)
Capa: Rodolfo Rangel
Editoração gráfica: Rodolf...
Contos Melhores Regionais
1º Lugar - Capitão do céu..........................................................................
Contos Melhores Internacionais
	
1º Lugar - Mulheres de água.............................................................8...
PREFÁCIO
Pela sétima vez, desde 22.ª edição do Concurso de Contos Cidade de
Araçatuba que os contos vencedores são publica...
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Contos
regionais
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Entrou na terra por uma caverna chamada nascer, e fez isso
em cativeiro, no interior da Bahia, nos tempos da escravidão....
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cinzentas do sertão nordestino.
O sertão carrega em si uma força
avassaladora. Apresenta-se ressecado,
torcido e aparent...
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ódio desmedido na alma. Depois
disso, passou a ser deliberada e
sistematicamente perseguido pelos
seus senhores, sofren...
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isso, o escravo corria desesperado pela
caatinga,nomeiodanoite,orientando-
se apenas com a luz do luar. Marcas
da sua p...
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2ºlugarTodos os jardins
do mundo
Jean da Silva Oliveira*
O jardineiro, entre cores e tons, era nada. Nunca fora
ninguém...
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para o final de semana. Encontrou
a porta dos fundos semiaberta, deu
um toque de leve e a abriu. Em uma
mesa farta, a s...
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da valsa dos nordestinos. A sanfona
regava corações e mentes, que se
desabrochavam como em sorriso
tulipa.
Todos os jar...
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3ºlugarFora dos trilhos
Odair Maurício de Albuquerque*
Pedro, sempre que podia, vinha visitar os avós. Gostava da
compa...
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Narraria suas viagens, a chegada de
cada dia e a partida no dia seguinte;
seu vislumbre dos descampados, as
novidades q...
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e queixumes, só veio a se agravar
com a chegada da aposentadoria. O
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bondoso. Exigente, porém bondoso.
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inertes. Temos e devemos prosseguir.
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Os olhos de Vicente não resistiam
à certeza de que eles se pareciam:
enferrujados e imprestáveis.
– Não fique assim, te...
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1ªMençãoHonrosaUm dia é da caça...
Eduardo Lima de Paula*
Em meados de 1975, os dois estavam na cabine da
caminhonete C...
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moça que acreditava ser namorada de
Fábio e trabalhava em uma agência
bancária da capital.
Não demorou muito para que u...
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que somente haviam conseguido ter
acesso àquela preciosidade após muito
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vestido, com um bigode falso e um
chapéu que dificultava a visão de seu
rosto. Ofereceu a...
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corretores de fazendas que estamos
de passagem aqui por Clementina
e alguns amigos do senhor falaram
que a nossa propos...
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No horário combinado, ‘seu’ André
saiu de dentro da casa, juntamente
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e veio em direção...
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2ªMençãoHonrosaOs olhos secos
de Oberón
Carlos Eduardo Marotta Peters*
Bermii, filho mais novo de Oberón, cortou o peit...
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de pouca discussão levaram Bermii
para casa, ofendendo o entendimento
de Oberón. O olho de lá ficou com
raiva e quis sa...
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cortado.
- Come o que tem qui comê e põe ôtra
perna para puxar o cabo da enxada
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meu? Qué pôr sangue contra sangue?
Nem olho quando você arrebenta suas
cria!Porquevocêquéacudíasminha?
Prolegomo, o irm...
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Assassino
Nara Lêda Franco*
A boca estava seca. Se é que aquele risco fino e pálido
tivesse semelhança com boca. Encarc...
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Como um cavalo enfurecido, o tempo
galopou sem rumo, relinchando
dores. As batidas do seu coração
seguiam aquele galope...
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Julgamento do
gravitoriano
Ronaldo Ruiz Galdino*
Toc, toc, toc! – soou o martelo do juiz no tribunal.
- Ordem, ordem! –...
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expedicionárias empreendidas
pelos terráqueos, em busca de vida
pelo Universo, o objetivo era trazer
os recursos desses...
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do Universo, que ele um dia deixaria
deexistir,assimcomooutrosuniversos
já haviam desaparecido antes, e que
não havia n...
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- Minha mãe – respondeu a garota.
A gritaria recomeçou.
- Meritíssimo, isso é um absurdo! Eu
peço que interrompa a palh...
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advocacia para sempre. E vou além:
se foi possível que de uma relação
sexual entre humanos da Terra e
gravitorianos res...
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Contos
Nacionais
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Meu pai olhou as distâncias e comemorou uma informação
de beleza. Estava sentado à varanda da casa e media os
movimento...
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Francisco à distância já andada de
uma légua depois de fazer a travessia
daqueles cocurutos de serras e fazer
seus poço...
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seio de nossas ilusões. O mundo
mudava demais de ângulo. O fato
foi que meu pai sentiu. Pareceu-me
mais ancião. Uma idé...
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miúdos. Na quinta tentativa, que
a boca da noite já chegava meio
esgualepada, ele sentiu um peso
na linha que referendo...
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fazer a minha família própria. Como
sempre tive consideração por aquele
povo de Machado, foi da casa deles
que eu tirei...
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casa. Deixamos lá a lata de extrato
de tomate cheia de minhocas e
nos embornais não levamos nada.
Comemos um pedaço de ...
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água era azulada. Meu pai fez o sinal
da cruz. Geraldo Neto olhava tudo
com pavor.
- Será que em outros países jogam
me...
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Um filme que
não vi
Valdecir Roberto de Oliveira*
A dor vinha mais forte ao anoitecer, gritos de Bergman,
soluços e cho...
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que ele tanto amava.
O colar de perolas em suas mãos,
as lágrimas amargas de Petra von
kant, combinavam com aquele
cená...
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ouvindo é o passado de cada
um, a lembrança do amor não
realizado, das despedidas que se
acumularam durante parte da vi...
49
Poesia concreta
Cristiano Escobar Carvalho Bernardes*
A tarde havia sido longa. Cumpriu com afinco sua bebedeira
e um m...
50
insistências da filha. Lembrou que
havia pago à vista pelas três, então
uma essa outra certeza no instantâneo
da rememó...
51
negra banhada em sangue branco.
Quase sentiu um gosto doce na boca,
antecipando o melaço da vingança
feita a faca, mas ...
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Concursos vencedores do 28.o Concurso Internacional de Contos de Araçatuba-SP - Brasil - 2015

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  1. 1. Vários autores Araçatuba, 2015 Contos MELHORES 2015
  2. 2. Copyright © vários autores Edição: Hélio Consolaro (Publicado sem revisão) Capa: Rodolfo Rangel Editoração gráfica: Rodolfo Rangel CTP e Impressão: Editora Eko Gráfica - (18) 3623.0006 Secretaria Municipal da Cultura Rua Anita Garibaldi, 75 - CEP 16010-280 Araçatuba - SP secretariacult@gmail.com - (18) 3636.1270 concursodecontos.blogspot.com Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Contos melhores 2015. -- Araçatuba, SP : Editora Eko Gráfica, 2015. Vários autores 1. Contos brasileiros - Coletâneas. 15-07951 CDD-869.9308 Índices para catálogo sistemático: 1. Contos : Antologia : Literatura brasileira 869.9308
  3. 3. Contos Melhores Regionais 1º Lugar - Capitão do céu.......................................................................8 2º Lugar - Todos os jardins do mundo...................................................12 3º Lugar - Fora dos trilhos ...................................................................15 1ª Menção Honrosa - Um dia é da caça...............................................21 2ª Menção Honrosa - Os olhos secos de Oberón .................................27 3ª Menção Honrosa - Assassino..........................................................31 4ª Menção Honrosa - Julgamento do gravitoriano.................................33 Contos Melhores Nacionais 1º Lugar - A tonsura, a vida conforme se rege.......................................39 2º Lugar - Um filme que não vi.............................................................46 3º Lugar - Poesia concreta...................................................................49 1ª Menção Honrosa - Abela e sua flor de aquarela................................54 2ª Menção Honrosa - Macadâmia........................................................61 3ª Menção Honrosa - A Índia...............................................................68 4ª Menção Honrosa - As mãos do Barão..............................................75 5ª Menção Honrosa - Névoas na chuva................................................81 Indice
  4. 4. Contos Melhores Internacionais 1º Lugar - Mulheres de água.............................................................85 2º Lugar - À rédea solta....................................................................92 3º Lugar - As estações da primavera .................................................99 1ª Menção Honrosa - Laços desfeitos.............................................103 2ª Menção Honrosa - Amorzade.....................................................106 3ª Menção Honrosa - A espera.......................................................112 4ª Menção Honrosa - Jeremias.......................................................119 5ª Menção Honrosa - A Denúncia...................................................126 Contos Membros da Comissao Julgadora A Grama Azul...................................................................................133 Ipê Roxo..........................................................................................136
  5. 5. PREFÁCIO Pela sétima vez, desde 22.ª edição do Concurso de Contos Cidade de Araçatuba que os contos vencedores são publicados numa antologia e entregue aos contistas (cinco volumes por participante) e ao púbico do dia da premiação gratuitamente. Assim, os participantes do certame literário são duplamente premiados, pois têm a oportunidade de divulgar seu texto entre os contemplados, seus familiares e ao público da 7ª. Jornada de Literatura de Araçatuba 2015. Apesar do modesto prêmio em dinheiro, contistas se esmeram na tessitura de seu texto, fazendo tudo para ganhar literariedade. Caro leitor, você tem um recorte da literatura contemporânea em suas mãos. Todo texto literário é um exercício até que o autor sucumba. O prêmio para o jovem é um incentivo, para o idoso, uma consagração. Essa coletânea é o que a Comissão Julgadora encontrou de melhor dentre 789 contos. Para mostrar que também escrevem contos, três julgadores publicam seus textos aqui, neste livro: Emília Goulart, Marilurdes Campezi e Tharso Ferreira. Assim, a Secretaria Municipal de Cultura cumpre a tarefa de incentivar também a literatura dentre as modalidades artísticas, não só no município, mas no Brasil e no mundo lusófono. Além disso, projeta-se Araçatuba para além das fronteiras brasileiras. Setembro de 2015 Hélio Consolaro, secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP
  6. 6. 7 Contos regionais
  7. 7. 8 Entrou na terra por uma caverna chamada nascer, e fez isso em cativeiro, no interior da Bahia, nos tempos da escravidão. Era um dia qualquer, indeterminado, insípido, comum, igual a todos os outros já vividos por aqueles que o antecederam. Chegou em silêncio, sem alardes, sem choro e anônimo, sob o manto da indiferença. Não tinha pai. Os homens feitos dormiam em lugares diferentes das mulheres, e com elas encontravam-se somente aos domingos, quando se reuniam para procriar, festejar e também lamentar. Fora em um desses domingos que aquela que viria a ser sua mãe, entorpecida de aguardente, aceitou ser amada e possuída por um desconhecido, acolhendo em seu ventre o sêmen da estranheza. Se pai não tinha, mãe era como se não tivesse. As mulheres sadias desempenhavam diversos trabalhos na casa-grande, entre quatorze e dezesseis horas por dia, de maneira que as crianças ficavam sempre sob os cuidados das mulheres mais velhas ou doentes. Como gado no cercado, os escravos eram criados para reproduzir e trabalhar, oferecendo, em sacrifício, a vida digna que um dia poderiam ter vivido. Eram abastados em ignorâncias, e essa condição acerca das coisas tornava suas vidas extremamente limitadas, pois não havia terreno fértil para sonhos que pudessem ser plantados além dos limites da fazenda onde moravam. O menino, além de não ter nome, não tinha identidade em meio ao seu povo. Tomou lugar entre seus pares, como se fosse apenas mais um, mimetizando-se em meio às entranhas 1ºlugarCapitãodocéuMário Henrique Silveira Bueno*
  8. 8. 9 cinzentas do sertão nordestino. O sertão carrega em si uma força avassaladora. Apresenta-se ressecado, torcido e aparentemente frágil, mas, na verdade, demonstra todo seu poder ao expor as mazelas daqueles que se metem com ele. Nos detalhes de seus infinitos desvãos e nos segredos da sua aridez há um adversário forte e implacável.Assimeraomenino;trazia, em algum lugar do peito, semelhanças com o lugar onde morava. Suaposturaarqueadaeraconseqüência da sua insignificância. Tinha medo de encarar as pessoas e sempre dirigia o olhar para baixo. Com isso, entretanto, desenvolveu um apurado sentido de atenção e importância para as pequenezas encontradas ao rés-do- chão. O tempo passava, mas o menino permanecia franzino aos olhos de todos, sempre tímido e inerte. Seus ossos, de aparência delicada, eram secos, à semelhança da folha que cai pela falta d’água; seu caráter, porém, guardava a resistência do umbuzeiro. À noite, quando os lampiões se apagavam e a escuridão invadia a senzala, emergia de dentro do miúdo um verdadeiro gigante. Sem luz, ele não tinha outra opção a não ser olhar para dentro de si. Enquanto os outros dormiam, passava noites em claro dando asas ao pensamento, e o inevitável ato de olhar para si transformou-o em homem, observador, insatisfeito, infeliz e indignado. Para o céu olhava somente quando estava deitado ao ar livre, nos raros momentos de descanso. Nessas ocasiões algum sentimento esperançoso lhe dizia que, além-mar – esse mar arenoso e ocre sobre o qual andava –, encontraria chance de real felicidade. Imaginava um lugar de sonhos possíveis, realizáveis; árvores frutíferas. Incomodava-lhe o caminho rígido e demarcado das trilhas destinadas aos escravos, onde só se olhava para a nuca do companheiro à frente. Seu pensamento, por vezes, errava. Gostava de fazer defeitos, e sabia que issonãoeradoença.Tinhapredileções por desvios, onde encontrava a verdadeira beleza do viver. Frequentementeenxergavaasimesmo flutuando por cima das árvores, e concebia um lugar onde pudesse expressar-se através de um olhar generoso e atento para as sutilezas da permanente construção que é a vida. Um olhar que a poucos é dado o privilégio de ter. E então o banzo habitual era substituído por uma paz inominável, que, entretanto, era dissipada, aos poucos, pela realidade do dia a dia. Era jovem ainda quando criou boca e soltou um resmungo qualquer diante de uma ordem estúpida do capataz da fazenda. A reação foi instantânea e desproporcional. A violênciadocapatazdeixou-lhemarcas profundas no corpo e no espírito: uma cicatriz enorme no rosto e um
  9. 9. 10 ódio desmedido na alma. Depois disso, passou a ser deliberada e sistematicamente perseguido pelos seus senhores, sofrendo constantes humilhaçõesperantetodosmoradores da fazenda. Se antes olhava apenas para baixo e para dentro de si, agora, seus pensamentos, dia e noite, eram ocupados com planos de fuga. Seus desejos repousavam sempre para além das cercas que circundavam as terras onde nasceu e cresceu. Não sabia ao certo nem como, nem quando, sabia apenas que precisava ir, que ali não era seu lugar. O dia chegou de maneira incomum, taciturno, cinza e chuvoso. O excesso de chuvas impossibilitou qualquer tipo de trabalho externo, e os homens ficaram amontoados na senzala envolvidos com pequenos afazeres, enquanto as mulheres permaneciam trabalhando na casa-grande. Havia uma bruma invisível no ar, tóxica, que pairava imperceptível entre todos, impregnando o lugar com uma densidade ansiosa e agitada, porém silenciosa. Nuvens esculpidas formaram-se no céu e, com o chegar da noite, manifestou-se um fenômeno nunca antes visto na terra. O oceano, distante a muitos quilômetros dali, precipitou- se com fúria sobre aquelas terras, derramando sal sobre os viventes, senhores, escravos, animais e plantas. Assustadas, as pessoas corriam indistintas pelo terreiro, olhando para cima boquiabertas, sem nada entender. O negro sem nome, agora homem, observavacomêxtaseoacontecimento. O ar se tornou pesado, pegajoso, esbranquiçado. Fortes rajadas de vento encheram sua boca com sal, que passou rascante por sua garganta. Teve sede e ânsias. Tossiu com violência e vomitou longe uma massa salgada. Sentiu, então, que era o momento. Mirou o corredor de árvores que dava acesso à fazenda e, sem pensar, saiu disparado. Enquanto corria, imaginava-se passando pela caverna por onde chegou, atravessando o túnel escuro que o tirou da segurança uterina e o colocou no mundo. Agora faria o caminho contrário. Percorreria novamente essa passagem, mas para ganhar autonomia e independência. Correu como animal fustigado, sem olhar para trás. Só depois de muitas horas parou para descansar, e então se deu conta de que já era noite. Na fazenda, após muito esforço e brutalidade, os capatazes e feitores controlaram a confusão e procederam à contagem dos escravos. Em pouco tempo, deram por falta do franzino. Rapidamente reuniram uma equipe de busca, composta por cachorros, cavalos e capangas, tendo à liderança o capitão do mato. Os cães, nervosos e ganindo muito, saíram correndo na frente, seguidos pelos homens em seus cavalos, em busca de rastros do fugitivo. Enquanto
  10. 10. 11 isso, o escravo corria desesperado pela caatinga,nomeiodanoite,orientando- se apenas com a luz do luar. Marcas da sua passagem iam ficando pelo caminho, em espinhos, raízes, pedras e arbustos. Sangue, suor, pelos, carne e vestes: rastros indeléveis para os cães e o capitão do mato, hábeis na tarefa de perseguir. Por quase uma semana correu perdido e desorientado pelo mato, sem saber onde estava. Após esses dias, enfraquecido pelo cansaço e pela fome, deparou-se com um intricado complexo de árvores e raízes expostas: um manguezal. Nunca, em sua modesta vivência, tinha visto vegetação parecida.Nem,aomenos,nossonhos. A maré vazante do mangue expunha aos seus olhos lama, animais exóticos, lagunas, flores e um infindável emaranhado de raízes, quase intransponíveis. Atirou-se ao mangue e imediatamente foi abatido pelo desespero, ao ter quase metade do corpo atolado na lama. No segundo passo, um grande caranguejo cravou- lhe as fortes pinças no pé. Conteve o grito, reuniu forças e prosseguiu na trama de raízes, ora por cima, ora por baixo, ora dentro e ora fora d’água. Precisou de horas para vencer o mangue, e então, subitamente, apareceu-lhe a praia. A visão do mar foi estarrecedora e paralisante. Estático e com a respiração descompassada, contemplou a infinitude daquilo que ele só ouvira falar nas cantigas e lendas dos escravos mais velhos. O horizonte longo e linear, o eterno ir e vir das ondas, a vastidão da água, da areia e o sal, que dias antes havia lhe ferido a garganta, indicando a hora de partir. Movendo-se lentamente pela areia branca e pesada, ouviu ao longe os latidos dos cães. Estava exausto, sedento, faminto, machucado e nu. Continuou, cambaleante, em sentido contrário ao de onde vinham os latidos. O desconhecimento do terreno havia lhe custado tempo precioso na fuga. Poderia facilmente ter evitado o manguezal. Em virtude disso, não demorou muito para que o capitão do mato surgisse na praia, liderando jagunços, cavalos e cães. Sem ter para onde correr, o menino, ainda escravo, parou diante de um enorme bando de aves marinhas que se alimentava na flutuante divisão entre a água e a areia. O pequeno exército se aproximava rapidamente e, como não havia mais tempo, arriscou a única possibilidade que lhe veio à cabeça; e então bastou apenas um gesto, um olhar, um pleno vôo e o céu. Abriu os braços e, juntamente com os pássaros, lançou-se para a liberdade. *Mário Henrique Silveira Bueno,fotógrafo, advogado, 42 anos, Araçatuba-SP
  11. 11. 12 2ºlugarTodos os jardins do mundo Jean da Silva Oliveira* O jardineiro, entre cores e tons, era nada. Nunca fora ninguém, mas guardava em seu peito pardo todos os sonhos do mundo. Em meio às flores, ele espiava a vida pela fresta do muro. Para que tantas pernas?, perguntava o seu coração. Tantas pessoas nas ruas. Muitas cheias de sonhos e outras vazias, desfeitas. Israel não vira o pai, mal conhecera a mãe e da escola se lembrava apenas do gosto saudoso da polenta e do azul festivo das saias das meninas do pátio lavado de sol. Hoje, estava vencido, velho antes dos 30. Consciente, como se estivesse para expirar. Vivia de canteiro em canteiro, enfeitando a casa dos outros. Em sue casebre, no entanto, apenas um vaso: um cacto que oferece fina flor, tão rara quanto seu sorriso. Israel queria saber falar às pétalas as coisas que brotavam em sua alma. Queria descrever os mundos que criava enquanto as cultivava. E quando era consumido por este desejo, chegava a desentortar a coluna. Sentia-se homem, gente como as outras pessoas que ele via pelas ruas. Mas mal sabia as palavras. As poucas que conheciam não encheriam uma folha de recados. Tinha consciência do parco vocábulo. Por isso, quando tinha que expor seu mundo, era bicho. Juntava palavras. Pouco dizia. Era apenas animal que sobrevive. Era sexta-feira e a tarde já findava, fazendo laranja as janelas. O jardineiro juntou suas coisas, despediu-se de suas amigas, que mudas como ele, lhe eram cúmplices. Subiu as escadas da casa antiga na esperança de receber o salário que lhe daria comida
  12. 12. 13 para o final de semana. Encontrou a porta dos fundos semiaberta, deu um toque de leve e a abriu. Em uma mesa farta, a senhora dona da casa ria com amigas. Sobre a mesa, bolos, biscoitos, leite, sucos e café. Israel apenas a olhou na intenção de pedir o que lhe era devido e na esperança de não precisar falar. Recebeu apenas uma ordem. - Fecha a porta; disse a senhora, séria, fazendo um sinal ríspido. O cultivador de flores e de sonhos cumpriu a ordem imediatamente. Fechou a porta. Era bicho fazedor das coisas que as pessoas, essas sim gentes, mandavam. Foi sem dinheiro, sem responder ou exigir o que era seu. Partiu em direção à sua casa com a mochila nas costas. Cerrado em teu ser restrito, espiava e auscultava a vida dos homens e das mulheres, que indiferentes, passavam. Tinha inveja deles, que em seus sorrisos e casacos pareciam felizes e pessoas de verdade. O som da sua tristeza se misturava ao de seus sapatos, que era arrastado e estéril. O jardineiro se equilibrava entre o ódio e a aceitação. A frase “fecha a porta” não lhe saia da cabeça. Era uma sentença de sua pequenez. Sentou- se desapontado no banco do ponto de ônibus. Esperou pacientemente o embarque, sem interesse na conversa das animadas moças ao lado. Fez a viagem sem sentir. Chegou acabadiço ao seu bairro, que já estava coberto de estrelas. Uma lua indolente fazia o favor de emprestar algum brilho ao caminho. Na noite, no escuro da periferia, seguiu o jardineiro desajeitado sem saber que um homem com uma dor é muito mais elegante. Seus passos seguiam solenes quando o som de um bom forró cortou o ar. O jardineiro, então, ponderou sobre o pó no corpo, o cheiro de suor, mas o batido da zabumba lhe encanta. Israel aprendera, na árdua escrita de sua vida, a não discutir com o destino: comia o prato dos fatos de acordo como o determinado pelo acaso. Se fosse prato quente, soprava; se gelado, engolia depressa. Decidido, seguiu para o forró no bar grande da esquina. No jardim de seu peito nascia a rosa sutil e anêmica da esperança de ser gente - pelo menos enquanto a música tocasse. Assim como há pouco se deu à tristeza, abria-se agora para a alegria; posto que são espinhos da mesma flor, avessos e complementares. O bate-estaca da zabumba, o frenesi do triângulo e o roda-roda das saias das moças encantavam o jardineiro. Sentado em uma cadeira, no canto do salão, ele respirava a alegria que saía daqueles corpos cansados das surras da vida. Ali não existiam príncipes ou pessoas que mandavam fechar a porta. Voltou a desentortar a coluna. Era gente de novo. Na pista de dança, não via mais casais, mas sim rosas, centáurias, gardênias, lírios e margaridas girando, girando, ao som
  13. 13. 14 da valsa dos nordestinos. A sanfona regava corações e mentes, que se desabrochavam como em sorriso tulipa. Todos os jardins do mundo têm seu jeito de ser colhido. A vida semeia muitas vezes de forma aleatória, e é o jardineiro que deve saber como proceder. Israel estava embriagado com a visão que teve, de flores dançantes, quando foi arrebatado por uma linda morena que o levou a valsar pelo escuro salão. Ele era flor também, que rodopiava entre os pares. Fora colhido por uma moça de olhos de primavera e teve uma noite de deslembrar os desaforos da vida. Não pensou mais na porta a ser fechada, apenas dançava. Passou o resto da noite e o início da madrugadacomela.SeunomeéNaty. Boa moça, que mora em uma casa de dois cômodos no mesmo bairro. Solteira, solitária, a moça costuma cultivarrosasemumpequenocanteiro para se sentir menos desabitada. A madrugada os abraçou e foi quando ela disse que precisava ir. Despediu- se com a promessa de um beijo, que passou perto. Deixou apenas um convite para que ele fosse à sua casa logo pela manhã. Israel voltou para casa ditoso. Uma lua sorridente emprestava seu brilho feliz ao caminho. Na noite, no escuro da periferia, seguiu o jardineiro desfilando em felicidade sem saber que um homem feliz é muito menos jeitoso. Era sábado e a manhã já estava quente, fazendo brilhar as janelas. O jardineiro juntou forças, despediu-se de seu cacto, lhe era cúmplice mudo daquela madrugada de devaneios, e seguiu esperançoso para a casa de Naty. Chegou, deu a volta no quintal na esperança de receber o carinho que lhe alimentaria a vida. Encontrou a porta dos fundos semiaberta, deu um toque de leve e a abriu. Em uma mesa simples, a moça de olhos de primavera estava só. Sobre a mesa, um pão e café. Israel apenas olhou, na esperança de não precisar falar. Desta vez, endireitou a coluna e deu dois passos para dentro da casa. - Fecha a porta, disse ela, feliz, fazendo um sinal alegre com as mãos. O cultivador de flores e de sonhos cumpriu a ordem imediatamente. Fechou a porta. Era bicho fazedor das coisas que as pessoas mandavam, mas agora se sentia mais gente. * Jean da Silva Oliveira, jornalista, turismólogo, 39 anos, em 2014 foi primeiro colocado nesta categoria, Araçatuba-SP
  14. 14. 15 3ºlugarFora dos trilhos Odair Maurício de Albuquerque* Pedro, sempre que podia, vinha visitar os avós. Gostava da companhia dos velhos, que moravam perto, o que o animava a ir a pé, geralmente no fim da tarde, quando começava a escurecer. Logo que dobrava a esquina, avistava o velho Vicente a balançar na cadeira de vime. Aproximava-se e fazia um leve carinho nos seus cabelos brancos. – Como está? – Vou levando... Essas dores nas pernas não me dão sossego. Pedro afastava-se um pouco para melhor observar o avô. Percebia, de fato, que o corpo já dava sinais de esgotamento. A saúde precária, contudo, não tirava o gosto por um cigarro de palha, mania desde os tempos de moço. Para acompanhá- lo, o neto tirou do bolso um maço de Hollywood e sentou do lado. Sem vento que atrapalhasse sua trajetória, as fumaças se uniam e se perdiam no céu. Vicente continuou a se balançar na cadeira, como se o neto não estivesse ali. Seus dias passavam-se assim, silencioso, perscrutando o movimento ao redor. Pedro notava-o cada vez mais calado, mas percebia que sua audição continuava aguda: conseguia distinguir o apito do trem que se aproximava; apito esse com o qual Vicente conviveu por décadas e décadas, e que se tornara tão familiar quanto sua cadeira que, de tão antiga, poderia contar ao neto, se pudesse, a história do velho, desde a mocidade até a altura dos seus quase noventa anos.
  15. 15. 16 Narraria suas viagens, a chegada de cada dia e a partida no dia seguinte; seu vislumbre dos descampados, as novidades que colhia num canto aqui, noutro ali e trazia para conhecimento da esposa, Marieta. – Você não vai acreditar. Invariavelmente era assim que começava seus relatos. O caso, que parecia assombroso ou espetacular, escandaloso ou vulgar, não passava de uma historieta de cidade pequena, um conhecido cuja presença há muito não via ou um parente que por alguns minutos, aproveitando a parada do trem e sabendo da presença de Vicente, vinha dar um dedo de prosa, nada mais do que isso. Mas Pedro gostava de ouvi-las. Acompanhou, desde criança, a trajetória do avô maquinista. Fez muitas viagens à casa dos primos de Araçatuba em companhia dos pais. Gostava de olhar os campos abarrotados de gado. Mesmo quando desertos, admirava sua imensidão. Pedrorelembravacomoavôosmuitos passageiros que por ali passaram, vindos de São Paulo ou de Corumbá, dependendo do destino. Como sempre, no começo Vicente parecia não ligar, mais ouvindo do que falando, mas aos poucos ia se animando, puxando da memória nome de pessoas, episódios, exercício que mantinha a mente ativa. – Lembra o que seu pai fazia pra não pagar sua passagem? – Não muito, era pequeno. – Quando o cobrador passava, ele te levava pro banheiro. – E o vendedor de salgadinhos? Dele eu me lembro. – Que é que tinha ele. – Saía gritando pelo corredor: “Olha as coxas de minha irmããã!”. – É verdade, quando as coxinhas de frango não eram as da irmã, eram da mãe. – E aquele fulano que desceu do trem para fazer sabe-se lá o quê e teve que correr com um cachorro na sua cola pra não ficar pra trás. E conversa vai, conversa vem, Vicente sem perceber já sorria, e Pedro, satisfeito por conseguir seu intento, já via a hora de ir embora. Então ajudava o avô a entrar, levando sua cadeira e segurando-o por um dos braços. Mas, por mais que o neto animasse seus dias, quando Vicente se via sozinho, só sabia reclamar, e acabava xingando a mulher, como se ela fosse a culpada. E o que era uma vida de lamentações
  16. 16. 17 e queixumes, só veio a se agravar com a chegada da aposentadoria. O irrequieto Vicente não suportaria ficar em casa, sem ter o que fazer. Entrou num processo desolador de autocomiseração, como se de repente se desse conta de que estava velho e imprestável. Por mais que o consolassem com as possibilidades de uma nova vida, a imagem que lhe ficava incrustada era a de um objeto superado que caíra em desuso; e para piorar tudo, aquele trem a azucrinar- lhe a vida, que poderia, aliás, ter sido mais amena para um cidadão como ele, que honrosamente chegara ao fim da linha. No seu caso, a frase de efeito tinha um quê de irônico e verdadeiro. Se pelo menos pudesse ser poupado daquele apito infernal! Quantos anos, Deus!, por várias vezes fizera projetos desemudar,masassúplicasdaesposa, somadas às suas próprias incertezas, juntamentecomosprotestosdosfilhos e netos, que consideravam aquela casa antiga um patrimônio familiar, fizeram-no desistir. Sepultada a ideia de mudança, Vicente se prostrara na cadeira em frente à casa, resignado. A convivência com aquele trilho à porta da moradia, como a estar ali a esfregar- lhe na cara a realidade, a concreta realidade, sem meias verdades, provocava-lhe saltos no estômago, num nervosismo reprimido. – Praga de trem que não me deixa dormir – gritava, por fim. Quando estava por perto, Pedro tentava mudar de assunto, voltando- se para fatos presentes, aniversário de algum parente próximo, ou a morte de velhoconhecido.Erainútil.Ohomem que gostava de uma boa conversa e de histórias, pelo menos naquele momento, já se desfizera, como as emanações da chaminé de uma maria- fumaça. Apenas ouvia; mal respondia. Velhos conhecidos passavam e paravam, e, para sua tortura, sempre tinham um episódio da ferrovia a contar. – O senhor se lembra da viagem ao Pantanal? Que loucura andar naquela tempestade. O senhor tinha mesmo sangue frio para controlar aquele trem em uma situação tão adversa. Mal sabiam eles que se borrara todo por medo de morrer e não ver os filhos crescerem. Vicente meneava a cabeça pouco amistosa e o visitante, vendoseudescaso,ia-se,resmungando impropérios. O velho estava imune às boas maneiras; já não tinha a mínima pretensão de alegrar alguém, nem a si mesmo. Pedrosabiabemoporquêdetamanha
  17. 17. 18 contrariedadevindadeumcoraçãotão bondoso. Exigente, porém bondoso. Équeascoisasforamsedelineandode forma funesta. Quando entrara para a ferrovia, mocinho de tudo, era outra realidade. Antes, passageiros; hoje, produtos das mais variadas origens. Sua mente não conseguia entender as sutilezas do tempo, as pequenas engrenagensquemoviamasmudanças queseprocessavamnosubsolodavida de homens comuns como Vicente. Na sua concepção, toda mudança que houvera tinha um nome e uma causa: esta, a venda da ferrovia ao grupo de americanos de nomes uns mais estranhos do que os outros; nomes estes que nunca conseguira gravar. Aquele, Osvaldo, jovem promissor que assumira seu lugar, na ótica de Vicente o usurpara de seu trono. A aposentadoria que vinha protelando há tanto tempo saltara de repente da mala de um forasteiro de boa aparência, gestos e maneiras polidas. Para os grandes executivos, figuras como Vicente são apenas mais um na folha de pagamento. – Vicente da Silva Costa? –Simsenhor–respondeu,meiocurvo, submisso, posição que aprendera com o pai sempre que alguém mais graduado lhe dirigia a palavra. Esses sujeitos chegam de mansinho, sem fazer barulho com seus belos sapatos sempre brilhando e, no momento da má notícia, fazem de uma forma tão educada, profissional, que o infeliz que está sendo demitido, só falta agradecer por estar no olho da rua; mas, passados aqueles segundos, acorda pra vida e vê no buraco em que se encontra. Tinha sido ludibriado. Vicente se viu, forçosamente, tendo que se aposentar, ou, em outras palavras, ter que sair por uma porta, enquanto Osvaldo entrava pela outra. O jovem operador viera no bojo das mudanças implantadas pelos novos donos. O pessoal fora reduzido ao mínimo necessário e os passageiros já não teriam mais acentos com os quais iriam se preocupar. As companhias de ônibus se alastraram, com novos veículos, mais conforto e preços módicos. Os americanos não se interessaram por esta parcela nos lucros, concentrando-se no transporte de grãos e combustível. Vicente ficou atordoado com tantas mudanças em tão pouco tempo. Homens entre seus trinta e quarenta anos, donos de um linguajar diferenciado, com ideias novas, propondo outros rumos. – Temos que melhorar nosso desempenho, implantar novas concepções, não podemos ficar
  18. 18. 19 inertes. Temos e devemos prosseguir. O governo sucateou as ferrovias, acabaramcomosvagões,deixandoum legado em petição de miséria, e, não dando conta do desmantelamento que realizaram, resolvem vender. Agora somos nós quem dá as cartas. Em outros momentos, em lapsos de tempo que sua mente já não conseguia mais distinguir, chegava até ele termos obscuros: privatização, reengenharia, globalização, novas tecnologias e equipamentos. Os velhos vagões foram trocados por modernos, mas sem os acentos que tantos passageiros utilizaram e reutilizaram e que Vicente viu e reviu subirem e descerem tantas vezes que não poderia contar, mesmo vivendo mais cem anos. O velho colhia essas frases de tempos emtemposantesdereceberumafolha que mal pôde ler, como se lá estivesse escrito: você está descartado de nossos planos, sua presença é dispensável. Demorou-se a cair em si; dias e dias passaram sem que decifrasse aquelas palavras que desenhavam num papel cheio de timbres e slogans da nova empresa o nascimento de sua morte. O consolo, ou quase isso, era que a ausência de passageiros dava a fugaz impressão de que ele não era o único a perder. Sentiria saudade das inúmeras pessoas que conhecera e suas infindáveis histórias; as viagens que fizera e os lugares pelos quais passara ficariam em sua trajetória como a pele ao corpo. Vira a mudança gradativa dos campos que, de pastos e gados, foram dando lugaraoscanaviais.Maisumamudança que lhe imprimia uma nostalgia inútil, sabedor de que a visão de mundo que teria não seria nunca mais a mesma. A perenidade do tempo lhe impingia, sem que ele percebesse, aquela vontade platônica de tudo permanecer imutável e imperecível para se chegar à verdade suprema. Uma luta inglória na qual seria um perdedor em potencial. Às vezes, a muito custo, Pedro conseguia levá-lo para além da estação, onde a linha se dividia em duas, e uma linhaparalelasedestacavadaprincipal. Nesta, vagões sem uso permaneciam a um canto, a esfarelar sob a chuva e o sol. Vicente se achegava de mansinho, para não parecer um visitante inoportuno. Acariciava a madeira desfolhada, o desbotado das cores vermelhas de antigamente que agora se tornavam um rosa mais do que apagado. Pedro seguia ao seu lado, olhando seus gestos. Não ousava falar nada, até que Vicente se pronunciasse: – Quanto tempo!
  19. 19. 20 Os olhos de Vicente não resistiam à certeza de que eles se pareciam: enferrujados e imprestáveis. – Não fique assim, tem coisas que não podemos mudar. Pedro tentava apaziguá-lo, mas era inútil. Tentava explicar os novos tempos, as mudanças que se processavam aqui e no mundo. – Hoje vivemos outra realidade. O governo não dá conta de manter essas ferrovias. Da mesma forma estão transferindo as estradas à iniciativa privada. Bancos e telefones a mesma coisa: estamos “falando espanhol”. – E esses estrangeiros que compraram o “meu” trem? – Esses falam inglês. São americanos. E Vicente fazia cara azeda, como se estivesse com dor de estômago. Pedro sorria, como se quisesse dar a entender ao avô que não adiantava ele fazer aquela cara, pois as coisas não voltariam a ser o que eram antes. E Vicente voltava à cadeira; e quando se dava ao trabalho de responder a um colegadostemposdeferroviaquemais uma vez relembrava o passado, em frases como: “O trem vem chegando, conheço o barulho de longe”, Vicente fazia sua cara desleixada para o ex- parceiro e respondia, entredentes, maisparasidoqueparaointerlocutor: – Não sei, esse trem fala outra língua, uma língua estrangeira que desconheço. * Odair Maurício deAlbuquerque,formado em Letras,funcionário municipal,45 anos, Penápolis-SP
  20. 20. 21 1ªMençãoHonrosaUm dia é da caça... Eduardo Lima de Paula* Em meados de 1975, os dois estavam na cabine da caminhonete C-10 que ainda cheirava a “carro novo” e já viajavam há pelo menos quatro horas sem parar, sempre por estradas vicinais, de modo a evitar qualquer via principal. - Primo, eu ainda não acredito que a sua ideia deu certo! Eu podia jurar que alguma coisa pudesse dar errado, mas na hora certa, parecia até um filme! Não errei nenhuma fala e aquele pato caiu na sua história direitinho! – disse Augusto, realmente surpreso. - Augusto, eu tenho certeza que você nunca vai se esquecer deste seu primeiro grande golpe! Mas te digo que logo você irá participar de outros ainda maiores e garanto que com o tempo eles sairão cada vez mais naturais... Modéstia à parte, eu acho que eu sou o melhor do Brasil naquilo que faço e com muito orgulho vou te ensinar o caminho das pedras, afinal, você é da família e já tem a malandragem no sangue! – respondeu Fábio, dirigindo cada vez mais veloz pela estrada de chão batido. No dia anterior, os dois estavam na cidade de Barretos e participaram de um grande leilão de gado onde se reuniram com os fazendeiros mais ricos de todo o interior paulista. Com algumas roupas boas e grandes sorrisos nos rostos, afirmaram que eram fazendeiros vindos do norte de Goiás, e logo ganharam a confiança de alguns figurões, por pagarem uma ou duas rodadas de bebidas para cada quatro ou cinco senhores com quem conversaram, sempre com notas de cruzeiros novas, as quais haviam sido conseguidas com uma
  21. 21. 22 moça que acreditava ser namorada de Fábio e trabalhava em uma agência bancária da capital. Não demorou muito para que um curioso fazendeiro de São José do Rio Preto se aproximasse dos dois e pedisse para conversar em particular. Fábio, de início, se mostrou difícil para aceitaraconversa,poisqueriadesfrutar dacompanhiadosdemaisfazendeiros, mas acabou por concordar em ir com aquele senhor até um local mais reservado, levando consigo Augusto, que havia sido apresentado a todos como sendo seu irmão mais novo. Depois de alguns minutos de conversa, o fazendeiro logo abriu o jogo e falou que não sabia o que estava acontecendo, mas que queria participar daquela jogada. Fábio então contou que eles eram donos de uma máquina de fazer dinheiro, onde bastavacolocarfolhasdepapelsimples cortadas no tamanho das cédulas de um lado, esperar por quatro horas para que o dinheiro fosse impresso e logo estariam com cinco mil cruzeiros prontos para serem gastos. O fazendeiro ficou desconfiado, mas afirmou que desejava ver uma máquina dessas funcionando. Fábio pediu que ele entregasse cinco mil cruzeiros adiantados para eles e que o dinheiro que saísse da máquina depois do processo seria seu, para conferir se as notas eram verdadeiras e gastar como e onde quisesse. O fazendeiro então combinou com os dois de se encontrarem no seu quarto de hotel depois do jantar daquela noite. Ele entregaria o dinheiro solicitado e juntos, aguardariam para ver o funcionamento da máquina. No horário combinado, os dois levaram a máquina, que era do tamanho de uma grande mala de viagens, até o hotel do fazendeiro. Ele entregou o dinheiro e acompanhou ansioso quando Fábio colocou o maço de folhas de papel em branco já cortadas no tamanho ideal em uma cavidade da máquina e apertou alguns botões para ela começasse o processo de fabricação de dinheiro. Amáquinafaziaumbarulhomecânico característico e assim perdurou pelo tempo que havia sido combinado. Após as quatro horas, parou e emitiu um som de campainha de que estava pronto. Do outro lado da máquina, começaram a sair notas de dinheiro (parte daquelas conseguidas com a garota de São Paulo) de diversos valores, ainda “quentes pela impressão recente” e que totalizaram o valor prometido. O fazendeiro conferiu cada uma delas nos seus mínimos detalhes e após se convencer de que eram verdadeiras, fez a proposta: Quanto eles queriam para lhe vender aquela preciosidade? Fábio se fez de rogado, falando que não poderia vender uma máquina daquelas por preço nenhum, pois ela era importada dos Estados Unidos,
  22. 22. 23 que somente haviam conseguido ter acesso àquela preciosidade após muito negociar com antigo dono e como ela fazia dinheiro tão bem, não tinham motivo para repassá-la para ninguém. O fazendeiro, acostumado a sempre ganhar em todas as negociações, não queria que aquela vez fosse diferente e lançou uma proposta irrecusável: eles poderiam estabelecer o preço que quisessem, e por mais alto que fosse, ele pagaria. Fábio pensou alguns minutos e fez a seguinte proposta: Ele e o irmão iriam precisar viajar para a Europa em breve e ficariam por lá por pelo menos cinco meses. Não queriam levar a máquina consigo para não levantar suspeitas, então poderiam alugar o equipamento para o fazendeiro durante este período, em troca do valor que ela produziria em dois meses. O fazendeiro barganhou e ofereceu como forma de pagamento a sua caminhonete C-10 que não tinha nem um mês de uso e mais vinte mil cruzeiros. Fábio novamente pensou por alguns minutos, pediu para conversar em particular com Augusto e na sequência aceitou. Explicou que havia um porém: a máquina estragaria se fosse usada diversas vezes seguidas e o ideal seria esperar vinte e quatro horas até fazer um novo uso, afinal, se o equipamento quebrasse, onde ele conseguiria realizar o conserto sem levantar suspeitas? O fazendeiro aceitou a condição sem pensarduasvezes,entregouodinheiro prometido e as chaves do veículo. Na noite seguinte, quando ele tentasse fazer uma nova remessa de dinheiro e descobrissequeamáquinanãopassava de uma enganação barata, os dois já estariam bem longe e provavelmente, o fazendeiro nunca mais iria ver seu veículo novamente. Já era início de tarde quando eles passaram pela cidade de Clementina, local onde decidiram descansar por algumas horas, talvez pernoitar, antes de seguir para o Sul e transformar aquela caminhonete em dinheiro. Conseguiram um quarto em uma pensão próximo à praça central da cidade e como não poderiam perder o costume, decidiram aplicar algum pequeno golpe em alguém da população local. Augusto vestiu uma roupa mais simples e foi até a praça, onde encontrou um senhor idoso sentado em um dos bancos da praça, o qual se apresentou como João Francisco, e se dispôs a ouvir a história que aquele rapaz contava: Dizia ter chegado há pouco tempo de uma cidade distante e que possuía um bilhete de loteria premiado, porém sua religião não permitiria sacar o dinheiro, sem sofrer represálias de seus familiares e amigos, precisava então da ajuda de alguém para sacar o dinheiro e em troca da ajuda, estaria disposto a dar uma boa soma. Na
  23. 23. 24 sequência apareceu Fábio, bem vestido, com um bigode falso e um chapéu que dificultava a visão de seu rosto. Ofereceu ajuda para que aquele rapaz e o senhor João Francisco conseguissem ir até a cidade mais próxima e juntos, sacariam o dinheiro do prêmio em um banco. - Olha meus senhores, eu tenho oitenta anos e não sei ler ou escrever. Não estou entendendo tudo dessas coisas que vocês estão falando não, mas jovenzinho, se você ganhou mesmo esse prêmio, é o caso de ir atrás de pegar o dinheiro sozinho, sem precisar de ajuda de mais ninguém não! E toma cuidado senão é capaz de alguém querer se aproveitar de você! Esse mundão é perigoso que você não imagina... Tem gente que pode querer fazer até mal para você se souber que carrega um negócio que vale dinheiro assim como você falou! Se tiver alguma dúvida ainda, eu acho que seria melhor falar com o ‘seu’ André que está carpindo um lote na rua de baixo e tenho certeza que ele irá ajudar! – falou João Francisco para logo se levantar do banco da praça e seguir seu caminho. Os dois estelionatários, acostumados com a maioria das pessoas com quem conversavam nas grandes cidades, as quais certamente ouviriam um pouco mais da história contada e algumas delas logo aceitariam “dar alguma coisa em garantia” para poder participar da grande jogada, foram surpreendidos com a simplicidade daquele senhor e a forma como este encerrou o assunto. Como ainda estavam com algumas horas livres naquela cidadezinha e “tempo é dinheiro”, decidiram tentar alguns outros golpes contra alguns comerciantes locais, os quais também resultaram em saídas semelhantes àquela dada por João Francisco. Ninguém parecia estar disposto a participar de alguma grande jogada e ficar rico, o que realmente era algo incomum, porém, o que mais chamou a atenção de Augusto e Fábio foi o fato de algumas pessoas terem recomendado que procurassem aquele tal de ‘seu’ André. Curiosos com este fato e tendo em vista que já trabalhavam há horas sem nenhum resultado prático, decidiram investir uma última tentativa naquela cidade: ofereceriam para André uma oportunidadeúnicadeserproprietário de uma grande fazenda no Mato Grosso, em troca de dar alguma quantia agora pela boa informação prestada. Chegaram até o terreno onde encontraram um senhor de meia idade, roupas de trabalhar bem desgastadas, com um chapéu de palha equasenofimdotrabalhoderoçagem daquela terra. - Boa tarde, seu André! – a menção do nome, foi suficiente para atrair a atenção do trabalhador – Nós somos
  24. 24. 25 corretores de fazendas que estamos de passagem aqui por Clementina e alguns amigos do senhor falaram que a nossa proposta certamente irá interessá-lo, então viemos para conversar. - É mesmo? Sou todo ouvidos... – disse o desconfiado roceiro. - O senhor já imaginou ser um fazendeiro, dono de uma grande extensão de terras, bem além daquilo que consegue enxergar? A sua oportunidade acabou de chegar: Uma viúva de um grande fazendeiro nos incumbiu de vender as terras do seu marido para poder distribuir o dinheiro para os filhos e netos. Já vendemos quase todas as vinte fazendas, mas ainda existe uma delas, que certamente será do seu interesse! – disse Augusto. - Moço, eu não sei não... Sou só um trabalhador, acho que não vou ter dinheiro para pagar isso tudo ai não... - Não se preocupe, é justamente nisto que surgiu a oportunidade da sua vida! Nós conseguimos que ela faça um preço muito bom e o senhor só vai pagar daqui um ano! - É mesmo? E como eu conseguiria isso? Eu vou ter que falar com essa senhora antes! - Não se preocupe com negociações, nós faremos tudo pelo senhor! Somente pedimos três mil cruzeiros adiantados a título de confiança no nosso trabalho e para que possamos dar andamento na documentação necessária! - Nossa... Se eu tivesse esse dinheirão todo, eu estava rico! Juntando todo o meu trabalho de uns dois anos para cá, eu só consegui economizar um mil e quinhentoscruzeiros!Eeuguardoesse dinheiro bem escondidinho dentro do colchão lá de casa, onde ninguém poderá encontrar! Demonstrando já uma clara impaciência com a relutância daquele senhor, mas ciente que mil e quinhentos cruzeiros eram melhores do que nada, Augusto falou: - Acredito que este dinheiro deverá bastar para emissão dos primeiros documentos. Nós podemos acompanhar o senhor até a sua casa e buscar o dinheiro? - Moço, eu vou acabar com esse terreno aqui em mais uma meia hora, então eu vou pra minha casa, que fica três ruas para lá, uma casa vermelha, não tem como se enganar. Vocês me encontram lá na frente daqui uma hora que nós já conversamos. Crentes que teriam finalmente conseguido “não passar em branco” por Clementina, os dois foram para a pensão para arrumar as malas deixar tudo pronto, caso precisassem sair rapidamente daquele local e na sequência, foram aguardar ‘seu’ André recebê-los.
  25. 25. 26 No horário combinado, ‘seu’ André saiu de dentro da casa, juntamente comumrapaz,possivelmenteseufilho e veio em direção a Augusto e Fábio. Assim que os quatro estavam bem próximos, ‘seu’ André falou: - Pedro, pode algemá-los. Os dois estão presos em flagrante pelo crime de estelionato tentado. Tanto Augusto como Fábio ficaram surpresos com aquela frase que sequer esboçaram reação quando o metal frio das algemas veio a roçar contra o pulso de cada um deles. - Deve ter havido algum engano aqui... O que está acontecendo? – ainda tentou perguntar Augusto. -Dr.André,nestesquasetrêsanosque eu já estou na polícia já vi um pouco de tudo, mas dois paspalhos como esses aqui é a primeira vez! – disse o Investigador de Polícia Pedro – Os caras chegam a uma cidade pequena comumabaitacaminhonetenovinhae acham que ninguém vai perceber que tem alguma coisa estranha? Tentam abordar o meu tio João Francisco, que aposentou depois de quase quarenta anos de Polícia, entram em todos os comércios da cidade contando umas histórias cada vez piores... Agora, eu aposto que a maior surpresa de todas para eles foi descobrir que o Delegado de Polícia da cidade gostava de carpir uns lotes nas horas de folga, só por diversão! Já telefonei para o fazendeiro para avisar que recuperamos a caminhonete e ele falou que chega ainda hoje à noite ou no mais tardar amanhã cedo. Satisfeito com o bom resultado do trabalho realizado, o Delegado André encerrou o assunto: Vamos para a Delegacia que ainda temos um flagrante para lavrar, quero interrogar estes dois com muita calma e logo vamos estar cheios de vítimas dispostas a reconhecer estes dois safados... *Eduardo Lima de Paula, formado em Direito, delegado de Polícia, 28 anos, Birigui –SP
  26. 26. 27 2ªMençãoHonrosaOs olhos secos de Oberón Carlos Eduardo Marotta Peters* Bermii, filho mais novo de Oberón, cortou o peito do pé com a enxada quase cega. O sangue espirrou na terra já vermelha do Vale dos Quatro Ventos. O menino baliu de dor e caiu no chão aos prantos. Os homens bateram as botas no chão e correram em sua direção. - Enfêxa o pé! Enfêxa o pé! – gritou o tio Bênias, com as mãos na cabeça. Alfinerma, primo de Bermii, correu para a casa das mulheres em busca de ajuda. Tropeçou e gritou feito um barrigudo, mas chegou lá antes do pé ter descanso. Escancarou a porta e mandou chamar Narierna, a mãe do cortado. - E olha que nem risco grande fez o rançado, mas deságua qui nem um riacho... – falou o primo, ainda gritando e apavorado com o sangue. Narierna, como mãe que era, e que aprendeu com a vó Nila a fazer cura de corte, correu com lenço na cabeça e tudo para lá, carregando consigo a vasilha de curação de corpo bambo. Oberón, pai severo, viu com canto de olho a cena e carpiu mais um tanto antes de ir para o teatro daquela dor toda. Viu Bermii no chão e coçou a barba de homem velho. O olho de lá continuou na enxada e no trabalho que faltava, mas o de cá até que cuidou de tentar entender o machucado. - Preocupanão com o fraco... É peça de gritá de toa, que nem carnêro no amate! Todos se calaram, mas sabiam que a ferida sangrava além da conta. Oberón não parecia estar certo com aquela calma, mas, de uma forma ou de outra, sempre provava que estava. No fim
  27. 27. 28 de pouca discussão levaram Bermii para casa, ofendendo o entendimento de Oberón. O olho de lá ficou com raiva e quis saber quem ia suar no lugar do caído. O menino precisava de médico, mas o único que existia por aquelas bandas estava na vila com doença de bebida. Melhor foi chamar o padre, que também trabalhava no negócio de curar. E quem foi atrás do dito cujo foi o mesmo Alfinerma que mal parara de gritar desde o começo daquela cena toda. E gritou mais ainda quando passou pelas casas dos vizinhos. - Meu primo tá a perder tudo de dentro com pé riscado de enxada! – gritou, para quem quisesse ouvir. E muitos queriam. - Quase perde o pé por causa do riscador de terra cego... E nem cobra tinha pra distrambeiá a mão! Quasuir, vizinho quase sem dentes na boca, gritou de volta que queria ver Bermii arrumado de volta na saúde, mas Alfinerma era daqueles que destravavam a falar sem ouvir, como se a boca fosse a tampa dos ouvidos. - Chama o cura, chama o cura, quiçá ele costura de vórta as tripa do pé do primo... E tudo voltou à conformidade das coisas. O padre acudiu o menino, passou pó amarelo e rezou para os santos que lidavam com a questão. Na hora da comida, Bermii até pôde sentar em sua cadeira de costume, ao lado de Oberón, que só esperou a choradeira parar para dizer tudo que o olho de lá tinha engolido por horas. - Quiria eu proseá das coisa dessa hora, mas teatro assim precisa de muita vagabundagem pá engordar. E vagabundo gritador num côme, porque de engorda essa casa só pricisa dos porco. A mãe chorou pelo filho, falando que doente tinha que comer para repor o sangue. Até caiu de joelhos, mas Oberón tirou o prato da mesa e fez o pobre menino ficar num canto esperando as migalhas. Ninguém mais discutiu o assunto com Oberón. Nem ele deixou mais acontecerem choradeiras que tirassem sua fome e sua opinião. - Nóis num criâmo fio pá ficá de horizonte qual fosse fileira de tijolo seco! – emendou Oberón, para fechar a conta da conversa. - E diga pro padre que a parte dele já tá paga na cota da cestinha da semana. Eu num sô mucamo de santo prá ficá dando farelo na boca. Narierna, a mãe, já tinha os dois olhos roxos e uma boca inchada por causa do corretivo que levara por pedir pelo filho. Oberón nem queria saber dela quando esticou a corda do chuveiro meia hora depois. Queria ir para a cama em silêncio para poder acordar cedo no dia seguinte. -Acordaespertoqueacobrafumadora tá de olho na sua malícia! – disse Oberón, com voz severa, enquanto puxava a cortina da cama do filho
  28. 28. 29 cortado. - Come o que tem qui comê e põe ôtra perna para puxar o cabo da enxada de novo, qui a hora da receita já passô faz desde ontem! Bermii levantou o mais rápido que pôde, pois Oberón não era de falar sem precisar. Teve dor ao ficar em pé, mas tinha que ser homem para trabalhar sem resmungar. Oberón nem queria saber mais do ocorrido no dia anterior. Agora era outro dia e outras contas deveriam ser pagas. A mãe foi só choro quando viu aquela perna manca suportando o peso do corpo do filho. Tentou correr para ajudá-lo, mas a filha mais nova puxou suaroupacomoquempuxaacordado poço na hora da sede. Narierna queria ir acudir a cria, mas soube que as mãos da filha tinham uma verdade mais certeira. Então parou e chorou atrás do punho, único choro que Oberón tolerava. A parentalha tentou não se meter no assunto, mas era da opinião que Oberón não devia tratar palha como madeira. Mas ninguém fez nada, porque a opinião de Oberón era sustentada pela violência. Ele não queria argumento, então não adiantaria discutir. Oberón explorou o filho como nunca. Era enxada, ancinho, balde de água e enterrador. E quando via o enfermo cabulando, engatava um discurso tão duro que o menino rapidamente voltava ao batente, ainda que com lágrimas nos olhos. Alfinerma, que nunca tivera muito entendimento, chegou tarde ao trabalho e não compreendeu direito aquelesilênciotenso.Oberónmandou o menino calar a boca assim que ele começou a falar, e quase lhe deu um tapa. Só não o fez porque aí teria que bater no pai também e isso ele não queriaagora.NãoqueOberónsentisse medodealguém,maspensavaqueum corretivo desses iria atrasar o trabalho, e isso ele não suportava. Oberón exigiu tanto do filho que Bermii acabou despencando no chão que nem fruta madura. Mas não chegou a desmaiar. Teve o azar de ficar acordado para apanhar de Oberóncomosefosseroupabatidade lavadeira. O menino gritou tanto que até os bichos foram embora do vale. Quando acabou, havia tanto silêncio por ali que Oberón quase pensou que tinha disciplinado demais o doente. - Qui é qui tão olhano? Eu palavreei que tava perigando corrigir o artista. E ele continuou com a traição qui nem artista de caravana. Agora vai tê dor de verdade pra valorizá o choro! Ninguém falou nada, mas todos pararam de trabalhar e foram ajudar o menino. Oberón ficou furioso de novo e ameaçou partir para cima de quem afagasse o castigado. Um tio mais velho, irmão de Oberón, não arredou o pé. Nem olhou para o pai raivoso quando foi acudirBermii.Oberóncoçouacabeça e tralhou com ele em voz alta. - Qué desgraçá a família toda, irmão
  29. 29. 30 meu? Qué pôr sangue contra sangue? Nem olho quando você arrebenta suas cria!Porquevocêquéacudíasminha? Prolegomo, o irmão, não fez som algum e catou o menino nos braços. Levou para casa e não voltou no dia seguinte. Falou para a mulher de Oberón que algumas coisas rebentavam sua grande paciência. Daquele dia em diante, Oberón perdeu muitos dos que trabalhavam com ele. Solidários ao menino, eles preferiram ficar em casa e esperar aquilo tudo passar. Oberón nem se abalou. Matou todos eles na cabeça, como fizera com outro irmão do qual se apartara vinte anos antes. - Qué disgraçá tudo, faiz sem mim! – dizem ter ouvido o velho resmungando, nos dias posteriores ao acontecido. Como a produção da terra vermelha caiu, Oberón ficou ainda com mais raiva do irmão e do filho. O irmão estava longe, mas o filho estava ao seu alcance. O velho arrancou-o da cama todos os dias. O pé ficou cada vez mais inchado e o machucado não fechava nem mais com pó santo. A mãe chorava e pedia, mas ganhava de consolo o punho fechado de Oberón. Tinha dias que nem ela conseguia levantar, de tanta dor que sentia no corpo castigado. Oberón fez tanto que o filho pediu paraverummédico.Masmédicosnão existiam na vila. O único disponível viajou dias antes. Ele também nunca havia salvado muita gente de verdade, já que tinha poucos recursos. Então só veio o padre, que trouxe mais pó de curar e reza para o menino. Quando a mãe já ia fugindo para apelaraosparentes,Bermii piorou.Os parentes, alarmados, tiveram até que chamar as autoridades para tirarem o menino de casa. Oberón disse que era injusto deixar gente do governo se meter em casa de homem crescido, mas foi dissuadido por um amigo de resistir à bala àquela intromissão. Preferiu descontar sua raiva na esposa. O pé de Bermii inchou mais e mais, e de tanto inchar acabou causando sua morte. A mãe foi só desconsolo e chorou por várias semanas. Alfinerma correu pela vila gritando a morte do primo. - Bermii morreu pelo pé... Porque não teve pó nem reza que curasse! - Também, de tanto trabalhar sem fechar talho, não há como segurar alma no corpo... Mas, de prosa em prosa, o menino sentia era saudade do amigo. Oberón não foi ao enterro. Os parentes que deram a ele a notícia da morte do filho disseram que nem o olho de cá derramou lágrimas pelo menino. *Carlos Eduardo Marotta Peters,professor de História (ensino médio e superior), já publicou quatro livros,44 anos,Araçatuba- SP
  30. 30. 31 Assassino Nara Lêda Franco* A boca estava seca. Se é que aquele risco fino e pálido tivesse semelhança com boca. Encarcerados dentes brancos, enfileirados, batiam-se: rangidentes. O corpo delgado transpirava. A camisola, amarrada à cintura, colava nos seios pequenos. Quem dera o suor que escorria lavasse a alma. Mas sal nunca foi bálsamo para feridas. Tentou levantar-se. As unhas curtas e pintadas de lilás encravaram-se ferozmente nos minúsculos vãos do azulejo. Metade do corpo desgrudou-se do piso frio, mas as pernas não obedeciam. Dormentes e finas, eram de chumbo. Talvez, se alcançasse o vaso, pudesse se sentar e afastar a frialdade da morte. Mas ao erguer a cabeça para olhar em direção ao seu alvo, descobriu que força de vontade não movia um corpo. Não dispunha de três passos. “Arraste-se!” a voz sussurrou num tom debochado e autoritário. Então ela o fez, devagar e devagar, enquanto o suor escorria, na vã tentativa de diluir o sangue viscoso. O gelo das mãos se uniu à fria cerâmica do vaso numa rima perfeita. A dormência nas pontas dos dedos não lhe deixava sentir nem textura nem nada. Sua única certeza era a de que estava agarrada ao vaso sanitário como um náufrago se agarra a uma bóia. Quando a cabeça pendeu, viu os cabelos lisos e pretos valsarem na água amarelada de urina recente, embaralhando a imagem cadavérica de seu rosto. Deixou-se ficar ali. Sem perspectiva de movimento possível. Não havia outro lugar que a força fragilizada de suas carnes lhe permitisse chegar. 3ªMençãoHonrosa
  31. 31. 32 Como um cavalo enfurecido, o tempo galopou sem rumo, relinchando dores. As batidas do seu coração seguiam aquele galope desgovernado. Um tempo impreciso e livre de minutos e horas. Aos poucos, a pele febril fez evaporar o suor frio e nauseante. Soltou-se do vaso, escorrendo o corpo no piso úmido. Arrastou-se em direção à toalha dependurada, mas não a alcançou. Num esforço doloroso, apoiou-se sobre os cotovelos. Não sentia as pernas, mas sabia que estavam ali: pernas de elefante que precisavam ser arrastadas para frente. Abriu a boca embranquecida pela dor e o fez, colocando-se de joelhos. Bem podia rezar, pensou, e quase riu de deboche: de si mesma e de Deus. Num último esforço, ergueu o braço e seus dedos magros agarraram a toalha amarela, que ficou laranja e depois vermelha, pressionada entre suas coxas. A umidade densa e quente lhe trazia um pouco de calor. Devagar, bicho ferido, quadrúpede como se deixou ser, foi em direção à caneta sangrenta jogada perto da porta. Limpou-a na ponta da toalha, que arrastava entre as pernas, e alcançou o bloco de papel deixado sobre o cesto de roupas sujas. A carta estava ali, com suas letras implorantes. Arrancou-a do bloco e amassou-a devagar. Soltou-a, sem olhar. Sentiu acanetaestranguladaentreseusdedos. Destacou a folha branca, quase com carinho, e buscou com os olhos um lugar que não estivesse sujo de sangue. Depositou-a, devagar, junto à parede, e tentou escrever, mas a caneta falhou. Olhou a poça de sangue, já coagulado, ao alcance da mão. Com a ponta do dedo indicador, afastou o pedaço de carne macilento, e ganhou a liquidez vermelha. Deixou que as letras, uma a uma, bebessem o sangue, antes de caírem sobre o papel, num desenho perfeito de dor e raiva. Depois dobrou a folha, lenta e dolorosamente, uma, duas, três vezes. ... A campainha tocou. Com um pedaço de sanduíche avolumando a bochecha esquerda e uma latinha de refrigerante na mão, caminhou em direção à porta, mas de olhos voltados para a televisão. Seu time estava no ataque. Cumprimentou o carteiro com um gesto de cabeça e apressou-se em receber a correspondência. Os olhos castanhos buscaram o remetente. Um sorriso irônico ensaiou dançar na boca bonita. Abriu o envelope e alcançou o papel. Desdobrou-o, uma, duas, três vezes... e leu: “Assassino”. *Nara Lêda Franco,diretora de escola,45 anos, Araçatuba-SP
  32. 32. 33 Julgamento do gravitoriano Ronaldo Ruiz Galdino* Toc, toc, toc! – soou o martelo do juiz no tribunal. - Ordem, ordem! – gritou o magistrado diante do barulho que havia se instaurado no julgamento de um nativo do planeta JVE3091. De um lado, as pessoas que defendiam a execução do acusado por crime de furto, como mandava a legislação para esse tipo de infração praticada por extraterrestres contra humanos. - Essas criaturas não foram visitadas por Jesus Cristo! – berrava um velho terráqueo, que desejava a morte do nativo. Do outro lado estavam os que queriam a absolvição do escravo, a maioria deles jovens, todos nascidos em JVE3091, mas descendentes de terráqueos. - Somos todos irmãos! – respondeu ao velho, um dos garotos que parecia não ter mais de 16 anos. - Meritíssimo, acredito que a desordem na corte se deva a esse advogado, que nutre simpatia por esses seres e espalha entre a população a falácia de que somos semelhantes a essas criaturas, semeando a desordem e incentivando a bandidagem – disse o promotor de Justiça, Carl. A gritaria aumentou depois dessa declaração. O advogado acusado por Carl de promover a bagunça na Suprema Corte Universal era um jovem terráqueo chamado Louis. Ele veio com a família para JVE3091 quando tinha cinco anos. Seus pais foram embora da Terra em uma das naves que levavam colonos para planetas habitáveis. A Terra estava com os dias contados, com poucos lugares onde ainda era possível viver. No começo das missões 4ªMençãoHonrosa
  33. 33. 34 expedicionárias empreendidas pelos terráqueos, em busca de vida pelo Universo, o objetivo era trazer os recursos desses planetas para a Terra. Mas a medida não durou muito tempo, pois o planeta já estava condenado. As missões, então, se tornaram colonizadoras, a fim de garantir a existência da espécie humana e ainda mostrar para todas as galáxias que os homens eram os senhores de tudo. Sofrendo com altas temperaturas, falta de água e alimentos, quem tinha algum dinheiro tratava logo de ir embora. Pelo fato de ter crescido naquele planeta, que parecia ser o paraíso em termos de beleza natural, Louis amava JVE3091 como seu verdadeiro lar. E adorava brincar com as crianças nativas, com suas peles alvas, quase transparentes. Um dia, Louis tomou uma surra de sua mãe, porque passou o dia na senzala, onde vivia o filho de um de seus escravos. - Eu já falei para você não brincar com essas criaturas. Você é gente! – censurou a mãe de Louis. - Mas eles não são também? – perguntou o pequeno Louis. - Olhe para sua mão. Você consegue ver o outro lado? Não! Porque ela é pura carne, fibra e ossos. Agora pegue a mão de uma dessas criaturas – disse a mulher, puxando o braço de um de seus escravos nativos. Consegue ver os sóis brilhando atrás dela? Hein? Responda! – gritou a mãe. - S-sim – respondeu o garoto. - Então ele não é igual a você, que é gente, e ponto final! – falou a mulher. Louis foi direto para o quarto, sem jantar, naquela noite. Chorou muito. O filho de um de seus escravos, o Joe, o havia levado na tarde daquele dia para conhecer o lugar onde viviam. Lá, Louis conversou com o pai de Joe, que contou muitas histórias interessantes. A que o deixou profundamente fascinado era sobre a origem do Universo. Uma grande explosão de energia que havia criado tudo o que existia: estrelas, galáxias, planetas, a Terra e JVE3091. Os cometas e meteoros espalharam a vida por toda a parte, como insetos voadores que levam as sementes de plantas para onde vão. Por isso, todoséramosdescendentesdomesmo embrião. Outro nativo, esse mais velho, avô de Joe, disse-lhe que as descobertas da ciência dos humanos eram semelhantes às dos gravitorianos – nome que eles próprios se davam: os filhos de Gráviton. Este era o verdadeiro nome de JVE3091, que numa tradução livre seria algo como mãe ou deusa. Aquilo que dá a vida. Porém, a ciência, a filosofia, tecnologia e política gravitorianas eram muito mais avançadas que às da Terra, segundo o velho. - Quando seus antepassados chegaram aqui, Louis, já havíamos abandonado as armas faz tempo. Quando compreendemos o funcionamento
  34. 34. 35 do Universo, que ele um dia deixaria deexistir,assimcomooutrosuniversos já haviam desaparecido antes, e que não havia nada que poderíamos fazer, decidimos que o melhor era aguardar a chegada desse grande momento da melhor maneira possível. Plantando, colhendo, se divertindo, amando, estudando e pensando. Quando as navesterráqueaschegaram,devastando nossas moradas, não sabíamos o que fazer. Havíamos esquecido como brigar e nos rendemos – narrou o avô de Joe. Tudo o que havia acontecido naquele dia, as histórias que ouviu e a surra, marcou para sempre a vida de Louis. Aoentrarnauniversidadeparaestudar Direito, Louis já sabia o que iria fazer: defender os gravitorianos no tribunal. E ele não era o único. Vários colegas seus defendiam o direito à vida aos nativos de JVE3091. Só que nenhum deles com a brilhante oratória e argumentação de Louis. A modéstia e a timidez eram seus únicos “defeitos”. O julgamento de Schuman – o nativo acusado de furto e “cliente” de Louis – era apenas para cumprir formalidades. Nunca a Suprema Corte Universal, composta somente por terráqueos, absolveu um extraterrestre. Schuman seria condenado. O máximo que os advogados poderiam fazer era tentar reduzir a pena de seus “clientes” gravitorianos. - Quando eu quiser sua opinião, senhor Carl, eu a pedirei – disse o juiz, repreendendo o promotor de Justiça, que havia aumentado ainda maisaconfusão,aotentaracusarLouis de tumulto. - Meritíssimo, gostaria de chamar como testemunha a vítima do furto, a senhora Elisabete Santos. Elisabete era uma mulher terráquea rica, que havia chegado a Gráviton em uma das primeiras naves colonizadoras. Ela subiu os degraus para sentar no banco das testemunhas e jurou sobre a bíblia dizer a verdade e nada mais que a verdade, sob as penas da lei. - Gostaria de perguntar para a senhora, dona Elisabete, o que o nome Vitória lhe significa – perguntou Louis. - Eu não compreendo – respondeu Elisabete. - Estou falando daquela garota gravitoriana – disse o advogado de defesa apontando para uma menina nativa, de aproximadamente 15 anos. O que ela significa para a senhora? – questionou novamente Louis. - E-ela é filha do meu escravo, esse aí que levou as minhas joias – declarou Elisabete. - Gostaria de chamar a menina para responder algumas perguntas, meritíssimo. - Pedido deferido, senhor Louis – decidiu o juiz. A garota gravitoriana fez o juramento e também se sentou no lugar destinado às testemunhas. - Vitória, quem é Elisabete Santos para você? – perguntou Louis.
  35. 35. 36 - Minha mãe – respondeu a garota. A gritaria recomeçou. - Meritíssimo, isso é um absurdo! Eu peço que interrompa a palhaçada que esse advogado está promovendo e retire a declaração dessa criatura da ata deste julgamento – berrou Carl. - Não precisa disso, promotor. Eu já ouvi o que precisava. Quero ouvir Elisabete novamente – falou o advogado de defesa. - Isso não é possível, meritíssimo – interveio o promotor. - Já disse, Carl, quando eu quiser a sua opinião pedirei – respondeu o juiz. A velha rica mais uma vez se sentou no banco das testemunhas, pálida e suando frio. - Quero que a senhora olhe nos olhos daquela garota e me diga que ela está mentindo – pediu Louis. - E-eu... – balbuciou Elisabete em meio à nova gritaria que estava reinando no tribunal. - Quero que você confesse a verdade. Que dormiu com esse gravitoriano e que seu ventre gerou um ser híbrido – disse entre dentes Louis, olhando firmemente para Elisabete. - E-eu... - gaguejou a mulher de novo. -Jáchega,senhoradvogado–decretou o juiz. - Está bem! Eu confesso! – gritou Elisabete. Imediatamente fez-se silêncio no tribunal. - Schuman foi meu amante por vários anos – continuou a mulher. Quando descobri que estava grávida dele – continuou–sendosolteira,meescondi de todos para evitar a vergonha. Pensei em matar aquele bebê que crescia dentro de mim e pensei em matá-lo depois que ele nasceu. Porém, meu coração de mãe falou mais alto e tratei de entregar aquela criança, alva e quase transparente, para Schuman. Para que ele cuidasse dela como se fosse sua filha com alguma outra mulher gravitoriana. Mas Schuman acabou contando o segredo para Vitória quando ela ainda era criança. Até então somente eu, ele, o médico e uma escrava, que adotou a menina como mãe, sabiam da história. - Então, por que você inventou toda essa coisa de furto? – questionou Louis. - Por inveja. Eu amo Schuman! Não suportava vê-lo feliz mesmo sendo escravo, ao lado de sua mulher, filhos e da minha Vitória. Queria que ele morresse! Deixasse de existir, para acabar com o meu sofrimento. Por isso, escondi as minhas joias em seu barraco e armei um escândalo de que elas haviam sido furtadas. Os policiais as encontraram na senzala de Schuman e fizeram o flagrante. - Diante dessa declaração, meritíssimo, vejo que não há razão para condenar o meu cliente por furto. Mesmo que os nativos de JVE3091 não tenham o mesmo tratamento jurídico que os terráqueos, acredito que seja impossível condenar alguém por um crime que nunca cometeu. Caso contrário, pretendo deixar a
  36. 36. 37 advocacia para sempre. E vou além: se foi possível que de uma relação sexual entre humanos da Terra e gravitorianos resultar em um filho, penso que não somos tão diferentes assim um dos outros. E pela pele da pequena Vitória, vejo que os genes de Schuman foram mais determinantes do que os da mãe terráquea na hora de definir as características da menina. Mas isso é algo que a ciência dirá. Não quero extrapolar os limites do direito, digníssimo juiz. O promotor de Justiça não sabia o que dizer. Estava estupefato e disse que não havia mais nada a acrescentar. O juiz, então, se retirou por alguns minutos para redigir sua sentença e voltou. - Diante da declaração da parte acusatória de que o réu é inocente e que a acusação foi motivada por questões passionais, não há que se falar em condenação do escravo Schuman. Por isso, o absolvo e condeno Elisabete Santos a pagar as despesas de um processo forjado com base em mentiras e sentimento de vingança – decidiu o magistrado. Os policiais libertaram Schuman que correu para os braços de Vitória e de sua esposa. Os jovens que queriam ver a absolvição do nativo comemoravam. Os velhos que desejavam o escravo morto foram embora resmungando queojulgamentohaviasidocomprado. Elisabete passou mal e teve que ser socorrida ao hospital. Calmamente, Louis fechou sua pasta e saiu do tribunal. No caminho, foi abraçado por Schuman, que não parava de agradecê-lo. - Não sei como vou fazer, mas vou juntar todo o dinheiro que puder para pagá-lo, doutor – disse Schuman entre lágrimas. - Sou advogado do Estado, senhor. O meu salário já está pago – disse Louis. Felicidadesatodosvocês–acrescentou oadvogado,cumprimentandocadaum dos gravitorianos que acompanhavam Schuman. Na sala da casa de Louis, a TV estava ligada para as paredes. - O julgamento desta tarde será um divisor de águas. A decisão que absolveu um escravo nativo de JVE3091 pela primeira vez na história da colonização do planeta pode abrir uma brecha jurídica para que todos os chamados gravitorianos sejam, no futuro, julgados com os mesmos direitos que os terráqueos – narrou a repórter da frente da Suprema Corte Universal. Louis entra na cozinha. - Querida, cheguei – anuncia o advogado. - Oi, meu amor! Que dia difícil o de hoje, heim? – comenta a mulher. Faz parte do meu trabalho, querida. O que tem para jantar? – perguntou Louis, após beijar a face alva, quase transparente, de sua mulher. *Ronaldo Ruiz Galdino,jornalista,29 anos – Araçatuba-SP Profissão: repórter.
  37. 37. 38 Contos Nacionais
  38. 38. 39 Meu pai olhou as distâncias e comemorou uma informação de beleza. Estava sentado à varanda da casa e media os movimentos de uma tarde de fim de mês de setembro. Ali era vizinhança de São Roque, uma quase grota enfiada nos meandros da Serra da Canastra, lugar onde o rio São Francisco lança suas águas à luz do mundo e logo, mais abaixo, dardejam as primeiras cachoeiras. Lugar bonito, com as ventanias iniciando a mudança dos elementos e o aviso que não ia demorar a cair a primeira chuva depois do tempo das secas medonhas de mês de julho e agosto. Um espinho começado era aquele modo de chegar o vento e erguer no ar tudo quanto era cavaco de pau, casca de cobra e folha seca. O ano de 1964 e meu pai fazia vésperas com o universo inteiro. Esperava pelas chuvas que iam bater com a regularidade dos dias e fariam umidade demais nos ninhos dos anus e das tesourinhas. Outubro chegava com essa imensa carga de pequenos nós e uma série de reverências. A chuva é alegre por natureza. As águas chegam com as cargas e dedos de um Deus inequívoco. Ele me olhava de frente e falava. - Geraldo, isso aqui onde estamos a pisar pode mesmo ser um dos lugares mais bonitos do mundo. Presta atenção nesse silêncio que se costura com a cantiga do canarinho. Assunta só! Pois que, conforme era mesmo esperado, aquele corgo miúdo do Filisbino, um que fazia a barra com o São A tonsura, a vida conforme se rege José Humberto da Silva Henriques* 1ºLugar
  39. 39. 40 Francisco à distância já andada de uma légua depois de fazer a travessia daqueles cocurutos de serras e fazer seus poços, houve que o pequeno eito de água receber enxurradas e ciscos de longe à medida que a chuva batia sobre a terra. Era mesmo o fim de setembro. Com a chegada das águas tudo mudava. Aquele cheiro de chamuscado sumia e ficava somente a batida fresca dos ares. Meu pai mudava o semblante e me avisava que era hora de jogar o anzol nas águas do Filisbino porque a primeira enchente já tinha abaixado e o peixe estava doido para aproveitar os restos que desciam das serranias. Ele ria quando fazia os cálculos. O que mais gostava de fazer, jogar na água turva o anzol iscado. -Geraldo,hojeopeixeestámormaçado. Vamos apanhar os bagres hoje! Eu era menino de oito anos de idade nessa ocasião e ia em sua companhia. Sempre ia. Nome do meu pai era Geraldo. O pai dele fora Geraldo e eu era Geraldo Neto. Acho que o avô do pai dele também um dia fora Geraldo. Ali no Filisbino era praticamente certeiro o bagre grande, a pirapitinga e uns piaus de última hora, esses peixes que galgavam as corredeiras e as pedras do São Francisco, subiam o pequeno riacho e faziam sua postura. Meu pai, apenas entardecia, que achava o tempo bom, apesar de muitas nuvens se acumularem para as bandas de noroeste, apanhava a vara de bambu, mandava-me colher umas minhocas brabas na horta de couve; em prazo curto chegávamos naquele pesqueiro que ele gostava, num lugar meio cavado pelas águas de aluvião, uma moita de bambu cuidando de dar firmeza ao lugar para que o resto do barranco não se precipitasse nas águas. Ali tinha demais o lambari do rabo vermelho, uns que chegam a medir uma chave de mão, espertos e ladrões de minhoca: aprenderam com a evolução do mundo e seus ciclos. Minha mãe tinha feito um bolo de mandiocacomcertoexagerodecanela. Ele me dava um pedaço daquilo. Sentados em beira do Filisbino, ele dizia. - Geraldo, essa água pode ser bebida à luz de qualquer lua! Aquela imagem do meu pai me ficava como uma fotografia inalienável. Meu respeito por ele ia além de qualquer estribeira. O tempo passou e houve que minha mãe ser achacada pela mazela de dores nos ossos, arranjou lá um caranguejo grande na madre e nem teve tempo de pedir muita ajuda para doutor. Desencarnou no princípio da década de setenta e meu pai sentiu demais o baque da questão. Eu ia aos dezoito anos de idade e chorei com amargura aquela situação instalada de forma nova no
  40. 40. 41 seio de nossas ilusões. O mundo mudava demais de ângulo. O fato foi que meu pai sentiu. Pareceu-me mais ancião. Uma idéia mesquinha me surgiu. Quem é que vai cuidar de nossas pequenas coisas, as mais miúdas que há? Porém, ele falava com aquele seu jeito de quem está conformado demais com a sorte. Sua sabedoria sem cartilhas. - Deus dá e Deus tira, ó Geraldo. Isso é lei e isso não pode ser mudada por nenhum comedor de feijão! Foi um princípio de década terrível. Com um ano após essa tragédia absurda, meu pai encurtou o fôlego e deu de inchar os pés e canelas, a tal ponto ficavam-lhe pesados os passos, tinha dificuldade simples de calçar as botinas. E não era mais o mesmo que subia um morrote atrás de uma bezerra velhaca e que não queria entrar no curral. Tive que dar uma demão mais afincada e minhas cismas se desfizeram um tanto quando minhas irmãs, as duas, assumiram o serviço miúdo da casa. Aquilo ia durar até que arranjassem casório, o que não seria difícil, já que nem a Maria Elvira e nem a Terezinha eram feias, o bastante para não serem aquele sapato velho que vai encontrar um pé certo por aí. Chegou o ano de 1972. As chuvas deram de atrasar um tanto e chegaram somente quando as mangas de outubro já estavam estendidas. A beleza de todo aquele lugar se conservava. Meu pai punha os olhos, olhava em torno, entendia uma chaminé expelindo fumaça atrás das serras, acolá. Um telhado de casa miúda na distância. Era ali que morava Pedro Machado. O que gostava das Festas de Reis. Aquele foi um ano cheio de sustos para nós. A dizer a verdade, o progresso atingia as alturas de São Roque e de plagas mais a jusante dali. O mundo sofria de pequenas mudanças. As chuvas atrasadas. Por fim, veio a primeira mudança de tempo. O céu se fechou e o vento tocou o contingente de nuvens, à revelia de movimentos e formatos. Ficou baixo o céu. Passarinho voou depressa e um sabiá cantou no canto do telhado, mania deles, dos sabiás, fazer o ninho ali com seus cinco ovos azuis pintalgados de marrom. Caiu água. O Filisbino apanhou corpo, extravasou, jogou nas várzeas e meu pai, ainda querendo sair do luto pela perda da minha mãe, olhou-me e falou com aqueles seus modos de homem que peca pouco. - Geraldo, vamos pegar os peixes. Está na hora. Todos esfomeados. Vamos ao Filisbino. Hora da pirapitinga! Marchamos com a vontade dos acomodados a um mundo excepcional. Meu pai sentou-se no barranco e pescou quatro peixes
  41. 41. 42 miúdos. Na quinta tentativa, que a boca da noite já chegava meio esgualepada, ele sentiu um peso na linha que referendou como desagradável. Acabara de pegar um protetor feminino ainda com sinais de ranço e ferrugem. Uma ferrugem fugidia, algo que mesmo poderia combinar com o peso desagradável que ele anunciara de antemão. Ele me olhou de banda. Ainda havia luz do dia o bastante para fazer o inventário daquele arremedo de dificuldades. Ele coçou as entradas, aquela parte da testa que começa a dar noção de nascimento de cabelo. - Geraldo, aqui o mundo começa a se avariar! Falou comigo somente essa frase curta. E chamou para voltar. Ao contrário de como sempre ocorria, gostava de ficar até mais tarde, termos em que a saparia anunciava a orquestração. Naquele ano ele não quis esperar. Voltamos para casa com uma colheita minguada. Como é que aquele protetor feminino fora parar no poço, entre as varas de bambu? Devia ter descido das hordas mais altas do riacho, devia estar escorrendo desde os lugares onde o progresso já havia alcançado grandeza mais proporcionada. Aquela face de desgosto do meu pai me atingiu frontalmente. Tive pena dele, um homem habituado ao ar puro que venta das serras e das grotas de pedra untada em água. - Alguma coisa me diz, ó Geraldo, que nunca mais seremos os mesmos homens de outros tempos! Naqueles dias, minha irmã mais nova deu de prever as vontades de casório. Era das duas a mais bonita. Maria Elvira adquiria penas maiores e asas firmes. Com a busca feita pelo Orlandino Machado, daquele povo mesmo de Machado que tinha uma casa lá da banda contrária da vertente, ela capitulou. Aceitou as propostas dele. Aquilo, a dizer a verdade, vinha já anunciado desde a última festa de Santos Reis. E, ela partiu com o marido naquele ano que se seguiu e ficamos minguados demais em número dentro de casa. Naqueles dias, tomada de ímpeto muito familiar, Terezinha anunciou que não se casaria, pelo menos enquanto o pai e o irmão fossem vivos. Ia cuidar dos dois Geraldos, da forma antiga e equivocada que vem desde os tempos de antigamente. Sentia-se responsável. Assim, tudo entrava na mesma rotina de sempre. As mazelas do meu pai deram de sofrer melhorias. Continuava cansado ao subir os morros, porém, já mais acostumado com aquilo, aprendeu a se retratar e a se limitar. Deixava todo trabalho mais fundo e duro para meus braços. Chegou o ano de 1982 e mais alguma coisa mudou. Achei que era hora de
  42. 42. 43 fazer a minha família própria. Como sempre tive consideração por aquele povo de Machado, foi da casa deles que eu tirei a noiva, a Rosalinda. Foram seis meses de noivado e logo ela veio morar em casa. A família crescia de novo. Em um ano nasceu o Geraldo Filho, o nome mesmo que me cabia para nomear o primogênito. Quando chegou outubro, a chuva retesou seu ramo nos rumos e aparas do céu. Recusava-se a cair. Não vinha. O calor grande abrasava as almas e deixava o céu naquele estado de chamuscado perene. Meu pai olhava o céu, olhava a terra debulhada, falava com jeito choroso. - Isso aqui está virando um deserto, ó Geraldo! De qualquer forma, estava feliz com o neto e com outro neto que lhe dera Maria Elvira, outro Geraldo Sobrinho que se cultivava de lá. No fim do mês de outubro, entretanto, o céu mudou de cor, nasceram nuvens alaranjadas para as bandas do poente. E não chovia. Mesmo assim a coisa estava esgrouvinhada e não chovia de jeito nenhum. Somente em princípios de novembro a chuva caiu, uma chuva parcimoniosa chegou sob a forma de tempestade. Mais fuligem do que chuva. Parou mais cedo do que o esperado. Assim mesmo, quando percebeu que o Filisbino poderia ter mostrado sinais de corpo mais espesso, meu pai me avisou que era hora de apanhar os peixes. Chegamos na beirada do fluxo e o corgo estava baixo. Nos lugares onde a água fazia remanso, numa guaxuma com raiz de pau e folhagem de são- josé, as flores brancas e perfumadas da planta, havia muitas latas vazias, havia mais protetores femininos, camisinhas de Vênus, havia frascos de pesticidas, embalagens diversas de refrigerantes e cervejas, maços de cigarro amassados. Uma miscelânea de todas as cores possíveis. - Minha Nossa Senhora da Medalha Milagrosa! Meu pai falou. Havia rugas fundas em sua face. O progresso vinha a cavalo. Vinha a todo vapor. Esquálido, sem graça, ele iscou e atirou o anzol na água. Eu fiquei mais abaixo, na mesma tentativa de prioridades que eram as suas. Não havia peixe ali. Não havia nem girino. - Água muito baixa, filho. Os peixes não subiram o córrego. Devem ter descido em rumo de algum lugar! Vi que ele tentava não chorar. Meu pai tinha a face de um boi ferido de morte. Aquele que agoniza na arena depois de ser picado fundo pela espada. Ergueu-se, bateu o cisco da bunda e avisou que era melhor voltarmos. Não discuti com ele porque eu sabia que isso não ia levar a lugar algum; só ia piorar o caso. Subimos o trilho de volta para
  43. 43. 44 casa. Deixamos lá a lata de extrato de tomate cheia de minhocas e nos embornais não levamos nada. Comemos um pedaço de bolo que a Terezinha tinha preparado para nós. Conversamos amenidades enquanto subíamos de volta. Eu tinha que caminhar devagar porque o fôlego dele exigia esse cuidado. Nenhum peixe. Nada. - O que vai ser de nós se Deus não tiver dó, ó Geraldo? Ele dizia assim. A situação se tornava a cada dia mais magmática. Naquele ano choveu pouco. E, com a presença da Rosalinda, já meio beata de todo, Terezinha resolveu se casar. Ajuntou os panos com um viúvo, da casa mesma dos Machados. Era o Espiridião. Homem bom demais. Gostava de contar casos enquanto picava fumo para o cigarro. Ele tinha a mania de seguir o curso das papa- terras ao longo do rio São Francisco. Contou que sumiam a cada dia. Ele ia a cavalo, seguia pelas margens, fazia os cálculos. Estavam sumindo. Era a realidade triste que o Espiridião contava. Esperidião era um homem astuto demais para os negócios. Como fosse meio temporão para ele ter os filhos com a Terezinha – e como já os tivesse de um primeiro casório -, resolveram adotar um menino que atendia pelo nome de Geraldo Primo. A família ia aumentando. De um jeito ou de outro ia aumentando. Meu pai gostava daquilo. Com esse modo de ser do mundo, chegou o ano de 1992. Os dias cada vez mais quentes. Tínhamos já televisão em casa e eram as explicações muito variadas sobre estas variações climáticas. Meu pai ouvia, balançava a cabeça e ia calcular vaga-lumes e tesourinhas lá na varanda. Ficava imerso naquele jeito disperso por longas horas. Chegou setembro e nada de chuva. Chegou novembro e a seca estava medonha. Em meados de dezembro choveu pela primeira vez naquele ano. Uma chuva medrosa, estrangulada. Uma chuva pulverizada, econômica. Mesmo assim, esquecido de tanto contratempo, meu pai me chamou para pescar. Sua voz era muito pautada por escorregões. - Geraldo e Geraldo Neto e Primo, o Filisbino deve ter apanhado poço. Hora de descer e apanhar os peixes. Depois se mede o susto sobre o resto da vida! Descemos e os sinais lá embaixo estavam terríveis. Progresso demasiado causa infortúnios? Foi o que perguntou o menino, aquele mulatinho adotivo, o Geraldo Primo que gostava de passar dias lá em casa. O Filisbino carregava detritos mais espessos. Fezes. Urina. Couro de bicho morto. Construíram um curtume a montante de São Roque. Fedia demais. Cheiro de esgoto. A
  44. 44. 45 água era azulada. Meu pai fez o sinal da cruz. Geraldo Neto olhava tudo com pavor. - Será que em outros países jogam merda nas águas dos mananciais? Ele falou assim. Meu pai jogar o anzol na corrente. Porém, a água pouca trazia aquele sinal de fezes ainda jovens e ele desistiu. Uma lágrima gorda nasceu do canto de seus olhos e escorreu pela sua face. Eu me senti penalizado. Falei com aquele jeito de convalescente. - Pai...! Abracei o velho e ele estava aos soluços. Aquele menino, o Geraldo Primo não entendia nada e ficava olhando com cara de curiango quando eu penteava com os meus dedos bambos os cabelos de Geraldo Pai enquanto o apertava contra o peito. E Geraldo Neto nos olhava a todos com pena. Do bolo de fubá cremoso que tínhamos levado – a Rosalinda era especialista naquela receita – não chegamos a comer nem um naco porque os estômagos se recusavam a aceitar o cibo. Meu pai não chegou a conhecer o ano das travessias. Não chegou a 2002 com seu século novo. Seu peito ficou mais fraco. Faleceu com as mãos nas minhas e o rosto deitado no meu colo. Falou coisas apropriadas e tristes demais. - Geraldo, tu deves recorrer aos santos quando voltares ao Filisbino. O mundo morre à míngua, ó Geraldo! Um ano depois de sua morte, a casa vazia como nunca, era 2002 que chegava sem chuva, somente umas nuvens metódicas e avarentas surgiram nos céus depois que veio janeiro do ano seguinte. Desci ao Filisbino e vi o córrego seco. Água nenhuma. Geraldo Primo já era rapazola e me abraçou enquanto eu chorava feito um perdido. Nunca mais eu veria o peixe e muito menos o córrego. Geraldo Primo olhou-me de forma atravessada. Geraldo Neto me abraçou e me penteou os cabelos com dedos bambos. - O que será de nós em 2012? Eu não sabia. Meu pai não estava ali para me ajudar nas lamentações. Fiquei calado e voltei para casa como quem nunca mais vai segurar uma gota que despencou das alturas dos anjos mais extemporâneos. * José Humberto da Silva Henriques, médico cardiologista, 56 anos, 40 livros publicados, Uberaba- MG
  45. 45. 46 Um filme que não vi Valdecir Roberto de Oliveira* A dor vinha mais forte ao anoitecer, gritos de Bergman, soluços e choro dentro de uma combustão de perda, a amargura tirava toda vontade de viver, uma vida dolorida, sem a chama viva da sua mais linda criatura. O olhar azul fortalecido pela camiseta verde de James Dean, era somente uma cor, ali não havia mais vida, não se plantava mais alguma semente para germinar, um pequeno sorriso, um gesto de felicidade. A dor quando ela chega esmaga todo relevo, toda vegetação, toda circulação periférica dos pequenos vasos sanguíneos, anula a produção férrico-fólico. Aquele corpo se materializou como um espião que veio do frio. O corpo no sofá, uma xícara de café descafeinado é o que sobrou em seu presente cotidiano, sua tez pálida, o olhar para o vazio. Ele agora é um resto de farrapo humano, em posição feto sabe-se lá se tudo aquilo era uma viagem para voltar ao esconderijo materno, eu ali como um intruso amargurado pelo acontecido. Ilhas, ilharga, a morte incomoda como palavras soltas em um contexto solitário sem sentido, a morte é o que não aceitamos pelo frêmito que causa em nossas vidas. Entre aquelas paredes brancas aquele ser que está de luto por toda vida, uma temporada quem sabe, dias, meses, enquanto houver o sol a brilhar, ou água cristalina para banhar seu rosto nas manhas torpes a ausência martelando em sua cabeça, e os ganidos, ganidos de morte... O cheiro de colônia no vestido florido sobre a cama, no quarto da mais linda criatura 2ºLugar
  46. 46. 47 que ele tanto amava. O colar de perolas em suas mãos, as lágrimas amargas de Petra von kant, combinavam com aquele cenário desolador, tudo o que o amor é, se acaba de repente em um leito de hospital, um cruzamento de uma avenida, uma escalada na montanha, o sabor dos perdedores fica em nossa boca como gosto de ferrugem, mistura néctar de secura e saliva adormecida de um velório que nunca termina. Somos esse faraó mumificado, ajoelhado em nossa vergonha de fraquezas, de não aceitar, de urrar na multidão nosso desespero, de abraçar o amigo mais querido e chorar... chorar... Ela é tão trágica que não nos envergonhamos de sermos patéticos frente à dor, é assim que ele está agora; um devorador de perolas, andando pelas luzes da cidade. Ainda em seus olhos vejo sofrimento, sua mudança para olhar a vida já não é mais a mesma, se tornou mais solitário, o riso sai aos poucos de sua face o andar é mais vagaroso, olha para as flores nos muros das casas vai até elas e as observa por um bom tempo. Observa os carros na linha de pedestre e com um olhar de paciência sabe que a vida tem que continuar, que assim caminha a humanidade. A morte de minha mãe para meu irmão foi crucial, eu não sabia o quanto aquele amor era ungido pelos dois. De mãos dadas no mercado, bolinho de chuva das tardes frias quando eu chegava esporadicamente, minha ocupação era tamanha que não olhava para aquele amor de filme francês, um truffaut tropical, aquele irmão incompreendido mamãe que faz cem anos. Por vezes sábado a tarde o estouro das pipocas assistindo o futebol com os dois comemorando os jogos de Ademir da Guia, jogos que gravara para ela, e os dois se abraçando tantas vezes pelo mesmo gol daquele homem “divino”. Eu, chegando sempre no final de cada partida, de cada sessão, e apenas amargamente os assistia e não enxergava aquela felicidade que parecia - me tão de graça aos meus olhos e não conseguia entrar naquela cena nem mesmo como um coadjuvante, nem mesmo como um gandula levando a bola para o artilheiro marcar mais um gol. Em dias mais soturnos passeava pela casa um CD de Cascatinha e Inhana que comprou em uma loja de CDs antigos, “saudade palavra triste quando se perde um grande amor...” eu não compreendia o que acontecia, cada um em seu quarto, um silencio de inocência, as caras fechadas, ela cerzindo e alinhavando o vestido florido, nem percebe minha presença. Ele, na poltrona com seu livro, quieto, meio carranca, nada sai daquelas bocas, penso que o que estão
  47. 47. 48 ouvindo é o passado de cada um, a lembrança do amor não realizado, das despedidas que se acumularam durante parte da vida. Minha mãe com as lembranças dos bailes que ia com meu pai, até o trágico acidente pelos cafundós (como ela dizia). Ele, aquele rocha intransponível, difícil de detectar por onde passa seu pensamento. Naquele fragmento de minha passagem pela casa, era eu um elemento sem presença, não me fazia pertencer aquele momento onde apenas a ligação era algo de simbiose entre os dois, e ali se arrastava a tarde toda com aquele casal de cantores e minha amarga inveja de não ser ouvido, por eu estar radiante de alegria pela minha promoção de chefia no posto da secretaria em que trabalhava, me sentia um estranho no ninho. Minha mãe era a bonequinha de luxo para Otávio. Seu amor era intransferível, a figura indelével daquela criatura mais linda do mundo, assim que ele a chamava, aos carinhos abraços e beijos. Aos olhares alheiros ele era exagerado, não tinha amor próprio, não pensava em ter família, mulher, filhos, cachorro, periquito... até suspeitavam de um lado edipiano de meu irmão em relação a esse aparente amor desmedido, onde em conversas notava-se que não dava a mínima, apenas sentia-se confortável, uma doce vida ao lado de nossa mãe. Durante essa travessia de três anos meu irmão se parecia um junk pelas ruas, enrolado em cobertores com medo da vida, definhou, apresentou manias, esquizofrenia suicida, desapego à vida. Um belo dia de chuva, gostava dos dias com chuva, apareceu em casa. Otavio não movia seus sapatos para minha casa desde o trágico acidente de meu pai, foi dar ao meu filho as abotoaduras que meu pai queria que fossem dadas ao seu único neto em algum momento extraordinário. Seus olhos me revistaram de cima abaixo com uma doçura que nunca alguém me olhou com tanto encantamento, os olhos mergulhados em maremotos, tempestades e devaneios, como uma embarcação a deriva. Foram aos poucos abrandados e uma tranquilidade reinou naquele semblante. Os braços abetos, aquele corpo frágil caiu sobre meus ombros, arquejante, sombrio, fazendo-me entender tudo sobre minha mãe. *Valdecir Roberto de Oliveira, 51 anos, professor, Florianópolis-SP
  48. 48. 49 Poesia concreta Cristiano Escobar Carvalho Bernardes* A tarde havia sido longa. Cumpriu com afinco sua bebedeira e um mormaço etílico ainda estava extenso sobre ele até aquela altura da noite. Sabia, sem olhar para relógio algum, que já se ia a madrugada em horas adiantadas: era o silêncio entrecortado de cachorro que vinha do lado de fora quem lhe informava. Passara a tarde inteira mamando cachaça numa garrafinha de duzentos e cinquenta cinco mililitros de água mineral. No olho do sol de abril. No cu de uma cidade decadente do Rio Grande do Sul. No beco onde noutros dias de outrantes correram trilhos da R.F.F.S.A. – sigla que ele intuía como sendo algo relativo à Rede Ferroviária et cetera e tal: por onde um dia correu um arremedo de riqueza daquele estado, agora se amontoavam as moradas de todas as misérias, dos barracos de mais frestas que paredes, dos cachorros rarefeitos em pulga e couro e osso, dos ratos à luz do dia, de crianças de narizes carcomidos de ranho e terra. Não tinha instintos de quanto tempo havia dormido. Lembrava de estar sentado na rua de terra, numa cadeira de abrir. Vinha-lhe a consciência o gritedo e não os motivos deste. Lembrava que havia pedido para um piá – não sabia se era para o seu neto ou Mateus da Elaine, vizinha do barraco do lado – que lhe fosse encher a garrafinha plástica de cachaça. Mandou o menino pedir fiado ao Getúlio da venda. Os gritos começaram a ganhar um tanto mais de nitidez de lembrança no oco latente de sua cabeça: “Não pai! Tu não vai lá!” isso era o que lhe vinha. Tudo estava embaraçado, tudo confuso e difuso demais. Achava que havia bebido três daquelas garrafinhas lagarteado, sem almoçar, apesar das 3ºLugar
  49. 49. 50 insistências da filha. Lembrou que havia pago à vista pelas três, então uma essa outra certeza no instantâneo da rememória: o Getúlio lhe negou crédito. Entendeu noutra certeza, por que das vozes altas da filha. Os dentes foram se cerrando. Uma raiva lhe requentou o sangue. A mesma raiva da tarde. Tudo se reveio claro: o filhadaputa do Getúlio agora dera disso, de não fiar para os fodidos. Desde que a Antártica lhe dera em consignado aquela placa para dependurar na frente daquele armazém, desde que ele conseguira erguer um segundo piso na laje daquela casa, que dera disso. Para uns tinha crédito nos caderninhos, para os outros não: só com o dinheiro na mão. Pois tudo tinha se esclarecido para ele naquele rebote de bebedeira: aquele Getúlio se fizera nos juros que há dezessete anos enfiava goela baixo do pobrerio do Beco dos Trilhos, e agora se enchia de razão por um real e pouco de cachaça. O sono não lhe arrefecera. Pois, lhe azedara mais ainda o fígado quando lembrou que só não havia ido lá naquela bosta de venda porque a filha, além dos gritos, lhe havia escondido a faca: aquele resto de aço e zinabre que já era um pouco mais nada, gasto no ido dos anos em pedra e chaira. Tudo ressonava na casa, à exceção de uma folha de zinco do telhado que rebatia no bafo morno daquele vento norte temporão. Sentiu o cheiro da terra úmida da chuva que não havia percebido do fundo do seu sono. Escutava o sono da filha e do neto no quarto – desde que a esposa falecera há quatro anos que ele dera o quarto do casal para a filha e o neto. Ele palmeava de ouvido os entressilêncios daquele casebre. Já havia decidido: iria aprontar o que ficara incompleto pela meia tarde. Melhor então que filha estivesse dormindo. Precisava saber da faca: tinha uma certeza que a filha, de um caráter muito feito de inocências, haveria de haver guardado no lugar de sempre, confiando que ele acalmasse no sono. Foi erguendo aquele corpo impregnado de etanóis e as náuseas lhe vinham de arrasto. Quando meteu o pé no chão, todo o madeirame podre do casebre ringiu nos pregos contra o calado da noite. Esperou o barraco se acomodar quieto e depois mais um instante para o sono da filha do neto se aninharem de novo em profundidades. Péporpé,tateandoummenosbarulho naquelas tábuas umidifareleiras, foi ao balcão da pia da cozinha e catou na ponta dos dedos, por entre os talheres, o ferro branco e nem os garfos tortos souberam acordar. Pelos escuros, sabia onde tudo estava mais que nos claros, por que aprendeu a ser silêncio de velar pelo véu do sono da mulher e dos filhos e filha nas madrugadas geadas em saia para o trabalho. Vislumbrava por detrás dos olhos o bailado do seu punho conduzindo a faquinha ferruginosa na pança do dono da venda – sua mão
  50. 50. 51 negra banhada em sangue branco. Quase sentiu um gosto doce na boca, antecipando o melaço da vingança feita a faca, mas a cachaça lhe azedava os vãos largos entre os dentes. Agarrou apenas um par de chinelos, que o porre da tarde lhe tinha desmaiado de roupa e tudo. Firmou a porta da rua no ombro, amordaçando o choro oxidado das dobradiças. A fresta que entreabriu deixou passar seu corpo esqualidizado a quarenta e tantos anos de trabalho braçal subindignamenterremunerado: por ela verteram para dentro da casa adormecida aquelas assombrações íntimas desenhadas pela luz hepática do poder público. Atravessou o terreiro do seu pátio para chegar a viela sem calçamento que cortava o Beco de ponta a ponta. As incidências das lumiclaridades pendidas dos postes redesenhavam os lapsos daquela paisagem e aquele teatro de sombras reavivando no seu peito carcomido de asma, um sentimento antigo e madrugado que aquele senhor portava sem saber bem dizê- lo. Aquelas pobrezas entrecobertas pelos véus da noite, vistas menos que pelas metades, triplicavam-se em mais misérias do que quando olhadas pornograficamente à luz viva de sol. Aquele sentimento sem data, sem verbo e nem nome, lhe ia no encalço dos passos pisados pelas poças d’água, enquanto o homem valia-se da metade de seu vocabulário – a constituída de palavrões – para recriminar-se de haver saído de chinelos, mesmo sabendo que havia chovido. Ia certeiro para a venda, que sua raiva era translúcida e urgente. Ouvia televisores ligados em poucos volumes por entre as vazantes de luz e vento das casas. Ouviu cachorro se coçando em desespero. Sentiu mesmo cheiro podre da tarde: era a fossa asséptica que se encontrava aberta no pátio da casa da Irene do seu Atílio e o aroma da merda empestando e traduzindo o mundo inteiro. De repente as quietudes do beco lhe deram por conta que a hora já era adiantada e mesmo antes de avistar a placa da Antártica que balançava apagada no hálito quente do vento norte soube que o estabelecimento já se encontraria de portas cerradas. Tinha para si que a venda ainda estaria aberta matando a sede e chamando o sono dos últimos bêbados. Continuou caminhando até estancar na frente do silêncio do armazém do desafeto e do segundo andar se vinha o ronco do terceiro sono do Getúlio, filhadaputa.

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