25 a2008 poesia

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25 a2008 poesia

  1. 1. Tanto mar Chico Buarque Sei que estás em festa, pá Fico contente E enquanto estou ausente Guarda um cravo para mim Eu queria estar na festa, pá Com a tua gente E colher pessoalmente Uma flor do teu jardim Sei que há léguas a nos separar Tanto mar, tanto mar Sei também quanto é preciso, pá Navegar, navegar Lá faz primavera, pá Cá estou doente Manda urgentemente Algum cheirinho de alecrim Versão só editada em Portugal, em 1975 Foi bonita a festa, pá Fiquei contente E inda guardo, renitente Um velho cravo para mim Já murcharam tua festa, pá Mas certamente Esqueceram uma semente Nalgum canto do jardim Sei que há léguas a nos separar Tanto mar, tanto mar Sei também quanto é preciso, pá Navegar, navegar Canta a primavera, pá Cá estou carente Manda novamente Algum cheirinho de alecrim Versão de 1978 Esta canção foi feita em 1975 e saudava a Revolução, mas a censura brasileira não permitiu que o autor a tocasse ao vivo e obrigou-o a modificá-la. Vamos comparar as duas versões:
  2. 2. A Rapariga do País de Abril Habito o sol dentro de ti descubro a terra aprendo o mar rio acima rio abaixo vou remando por esse Tejo aberto no teu corpo. E sou metade camponês metade marinheiro apascento meus sonhos iço as velas sobre o teu corpo que de certo modo é um país marítimo com árvores no meio. Tu és meu vinho. Tu és meu pão. Guitarra e fruta. Melodia. A mesma melodia destas noites enlouquecidas pela brisa no País de Abril. E eu procurava-te nas pontes da tristeza cantava adivinhando-te cantava quando o País de Abril se vestia de ti e eu perguntava atónito quem eras. Por ti cheguei ao longe aqui tão perto e vi um chão puro: algarves de ternura. Qaundo vieste tudo ficou certo e achei achando-te o País de Abril. Manuel Alegre
  3. 3. Abril de Sim Abril de Não Eu vi Abril por fora e Abril por dentro vi o Abril que foi e Abril de agora eu vi Abril em festa e Abril lamento Abril como quem ri como quem chora. Eu vi chorar Abril e Abril partir vi o Abril de sim e Abril de não Abril que já não é Abril por vir e como tudo o mais contradição. Vi o Abril que ganha e Abril que perde Abril que foi Abril e o que não foi eu vi Abril de ser e de não ser. Abril de Abril vestido (Abril tão verde) Abril de Abril despido (Abril que dói) Abril já feito. E ainda por fazer. Manuel Alegre
  4. 4. FERNANDO TORDO MÚSICA: FERNANDO TORDO LETRA: JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS TOURADA Festival da Canção de 1973 Não importa sol ou sombra camarotes ou barreiras toureamos ombro a ombro as feras. Ninguém nos leva ao engano toureamos mano a mano. Só nos podem causar dano esperas. Entram guizos, chocas e capotes e mantilhas pretas entram espadas, chifres e derrotes e alguns poetas. Entram bravos, cravos e dixotes porque tudo o mais são tretas. Entram vacas depois dos forcados que não pegam nada. Soam bravos e olés dos nabos que não pagam nada. E só ficam os peões de brega cuja profissão não pega. Com bandarilhas de esperança afugentamos a fera estamos na praça da primavera. Nós vamos pegar o mundo pelos cornos da desgraça e fazemos da tristeza graça. Entram velhas doidas e turistas entram excursões entram benefícios e cronistas entram aldrabões entram marialvas e cronistas entram galifões de crista. Entram cavaleiros à garupa do seu heroísmo. Entra aquela música maluca do passodoblismo. Entra a aficcionada e a caduca mais o snobismo... E cismo! Entram empresários moralistas entram frustrações entram antiquários e fadistas e contradições e entra muito dólar, muita gente que dá lucro aos milhões. E diz o inteligente que acabaram as canções Podes ouvir em http://fes73.no.sapo.pt/ Esta canção, aparentemente uma visão humorística à tourada, é uma crítica à situação política. Por exemplo, quando se refere à “praça da primavera” alude-se à chamada Primavera Marcelista
  5. 5. Quis saber quem sou o que faço aqui quem me abandonou de quem me esqueci perguntei por mim quis saber de nós mas o mar não me traz tua voz. Em silêncio, amor em tristeza e fim eu te sinto, em flor eu te sofro, em mim eu te lembro, assim partir é morrer como amar é ganhar e perder. Tu viste em flor eu te desfolhei tu te deste em amor eu nada te dei em teu corpo, amor eu adormeci morri nele e ao morrer renasci. E depois do amor e depois de nós o dizer adeus o ficarmos sós teu lugar a mais tua ausência em mim tua paz que perdi minha dor que aprendi. De novo vieste em flor te desfolhei... E depois do amor e depois de nós o adeus o ficarmos sós. PAULO DE CARVALHO MÚSICA: JOSÉ CALVÁRIO LETRA: JOSÉ NIZA Esta canção não teria grande importância no contexto do 25 de Abril não fosse o facto de ter sido uma das senhas escolhidas para dar sinal aos militares envolvidos nas operações de que podiam avançar. E DEPOIS DO ADEUS Festival da Canção de 1974 Podes ouvir em http://fes74.no.sapo.pt/
  6. 6. Da esquerda para a direita: José Barata Moura, Vitorino, José Jorge Letria, Fausto, Manuel Freire, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira.
  7. 7. Esta canção tornou-se famosa ao ser escolhida como senha para a revolução. Houve duas senhas: a primeira, às 23h, foi a música "E depois do adeus", de Paulo de Carvalho; Grândola, a segunda, passou no programa "Limite" da Rádio Renascença às 0.20h do dia 25. Foi o sinal para o arranque das tropas e a confirmação de que a revolução ganhava terreno. Incluída no álbum "Cantigas do Maio", editado em Dezembro de 1971, com os arranjos e direcção musical de José Mário Branco e gravado em França. Grândola, vila morena Terra da fraternidade O povo é quem mais ordena Dentro de ti, ó cidade Dentro de ti, ó cidade O povo é quem mais ordena Terra da fraternidade Grândola, vila morena Em cada esquina um amigo Em cada rosto igualdade Grândola, vila morena Terra da fraternidade Terra da fraternidade Grândola, vila morena Em cada rosto igualdade O povo é quem mais ordena À sombra d’uma azinheira Que já não sabia a idade Jurei ter por companheira Grândola a tua vontade Grândola a tua vontade Jurei ter por companheira À sombra duma azinheira Que já não sabia a idade GRÂNDOLA, VILA MORENA Zeca Afonso
  8. 8. Ei-los que partem novos e velhos buscando a sorte noutras paragens noutras aragens entre outros povos ei-los que partem velhos e novos Ei-los que partem de olhos molhados coração triste e a saca às costas esperança em riste sonhos dourados ei-los que partem de olhos molhados Virão um dia ricos ou não contando histórias de lá de longe onde o suor se fez em pão virão um dia ou não Ei-los Que Partem Manuel Freire Livre (não há machado que corte) (Não há machado que corte a raíz ao pensamento) [bis] (não há morte para o vento não há morte) [bis] Se ao morrer o coração morresse a luz que lhe é querida sem razão seria a vida sem razão Nada apaga a luz que vive num amor num pensamento porque é livre como o vento porque é livre Poema: Carlos de Oliveira
  9. 9. Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso como este ribeiro manso em serenos sobressaltos como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam como estas árvores que gritam em bebedeiras de azul eles não sabem que sonho é vinho, é espuma, é fermento bichinho alacre e sedento de focinho pontiagudo que fuça através de tudo em perpétuo movimento Manuel Freire Poema: António Gedeão Eles não sabem que o sonho é tela é cor é pincel base, fuste, capitel que é retorta de alquimista mapa do mundo distante Rosa dos Ventos Infante caravela quinhentista que é cabo da Boa-Esperança Ouro, canela, marfim florete de espadachim bastidor, passo de dança Columbina e Arlequim passarola voadora pára-raios, locomotiva barco de proa festiva alto-forno, geradora cisão do átomo, radar ultra-som, televisão desembarque em foguetão na superfície lunar Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos duma criança Pedra Filosofal
  10. 10. Adriano Correia de Oliveira Cantar de Emigração (este Parte, Aquele Parte) Este parte, aquele parte e todos, todos se vão Galiza ficas sem homens que possam cortar teu pão Tens em troca órfãos e órfãs tens campos de solidão tens mães que não têm filhos filhos que não têm pai Coração que tens e sofre longas ausências mortais viúvas de vivos mortos que ninguém consolará Poema: Rosália de Castro Menina dos Olhos tristes Menina dos olhos tristes o que tanto a faz chorar o soldadinho não volta do outro lado do mar Vamos senhor pensativo olhe o cachimbo a apagar o soldadinho não volta do outro lado do mar Senhora de olhos cansados porque a fatiga o tear o soldadinho não volta do outro lado do mar Anda bem triste um amigo uma carta o fez chorar o soldadinho não volta do outro lado do mar A lua que é viajante é que nos pode informar o soldadinho já volta está mesmo quase a chegar Vem numa caixa de pinho do outro lado do mar desta vez o soldadinho nunca mais se faz ao mar
  11. 11. Morte que Mataste Lira Morte que mataste Lira, Morte que mataste Lira, Morte que mataste Lira, Mata-me a mim, que sou teu! Morte que mataste lira Mata-me a mim que sou teu Mata-me com os mesmos ferros Com que a lira morreu A lira por ser ingrata Tiranicamente morreu A morte a mim não me mata Firme e constante sou eu Veio um pastor lá da serra À minha porta bateu Veio me dar por notícia Que a minha lira morreu Adriano Correia de Oliveira Erguem-se Muros Erguem-se muros em volta do corpo quando nos damos amor semeia a revolta que nesse instante calamos Semeia a revolta e o dia cobrir-se-á de navios (bis) há que fazer-nos ao mar antes que sequem os rios Secos os rios a noite tem os caminhos fechados (bis) Há que fazer-nos ao mar ou ficaremos cercados Amor semeia a revolta antes que sequem os rios... Poema de António Ferreira Guedes
  12. 12. Porque Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude Para comprar o que não tem perdão Porque os outros têm medo mas tu não Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão. Porque os outros se calam mas tu não. Porque os outros se compram e se vendem E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não. Porque os outros vão à sombra dos abrigos E tu vais de mãos dadas com os perigos. Porque os outros calculam mas tu não. Poema de Sofia de Melo Breyner Andressen Adriano Correia de Oliveira
  13. 13. José Carlos Ary dos Santos poeta e declamador Autor de mais de 600 letras para canções. Poeta castrado não! Serei tudo o que disserem por inveja ou negação: cabeçudo dromedário fogueira de exibição teorema corolário poema de mão em mão lãzudo publicitário malabarista cabrão. Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não! Os que entendem como eu as linhas com que me escrevo reconhecem o que é meu em tudo quanto lhes devo: ternura como já disse sempre que faço um poema; saudade que se partisse me alagaria de pena; e também uma alegria uma coragem serena em renegar a poesia quando ela nos envenena. Os que entendem como eu a força que tem um verso reconhecem o que é seu quando lhes mostro o reverso: Da fome já não se fala - é tão vulgar que nos cansa - mas que dizer de uma bala num esqueleto de criança? Do frio não reza a história - a morte é branda e letal - mas que dizer da memória de uma bomba de napalm? E o resto que pode ser o poema dia a dia? - Um bisturi a crescer nas coxas de uma judia; um filho que vai nascer parido por asfixia?! - Ah não me venham dizer que é fonética a poesia! Serei tudo o que disserem por temor ou negação: Demagogo mau profeta falso médico ladrão prostituta proxeneta espoleta televisão. Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não!
  14. 14. Cavalo à solta Minha laranja amarga e doce meu poema feito de gomos de saudade minha pena pesada e leve secreta e pura minha passagem para o breve breve instante da loucura. Minha ousadia meu galope minha rédea meu potro doido minha chama minha réstia de luz intensa de voz aberta minha denúncia do que pensa do que sente a gente certa. Em ti respiro em ti eu provo por ti consigo esta força que de novo em ti persigo em ti percorro cavalo à solta pela margem do teu corpo. Minha alegria minha amargura minha coragem de correr contra a ternura. Por isso digo canção castigo amêndoa travo corpo alma amante amigo por isso canto por isso digo alpendre casa cama arca do meu trigo. Meu desafio minha aventura minha coragem de correr contra a ternura. Ary dos Santos Interpretado por Fernando Tordo no Festival RTP 1971
  15. 15. Ary dos Santos Auto-Retrato Poeta é certo mas de cetineta fulgurante de mais para alguns olhos bom artesão na arte da proveta narciso de lombardas e repolhos. Cozido à portuguesa mais as carnes suculentas da auto-importância com toicinho e talento ambas partes do meu caldo entornado na infância. Nos olhos uma folha de hortelã que é verde como a esperança que amanhã amanheça de vez a desventura. Poeta de combate disparate palavrão de machão no escaparate porém morrendo aos poucos de ternura. Cantiga de Amigo Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto e nem Camões Virgílio Shelley Dante --- o meu amigo está longe e a distância é bastante. Nem um som nem um grito nem um ai tudo calado todos sem mãe nem pai Ah não Camões Virgílio Shelley Dante! --- o meu amigo está longe e a tristeza é bastante. Nada a não ser este silêncio tenso que faz do amor sozinho o amor imenso. Calai Camões Virgílio Shelley Dante: o meu amigo está longe e a saudade é bastante!
  16. 16. José Barata Moura Professor de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, foi Reitor da Universidade. É o autor de várias canções infantis que ficaram célebres em várias gerações, como “Joana come a papa”, “Olha a bola Manel” e o “Fungágá da Bicharada”. Também fez canto de intervenção política, em 1970, no programa televisivo Zip Zip, e foi autor de canções revolucionárias. Come a papa, Joana come a papa Come a papa, Joana come a papa, Joana come a papa Um, dois, três, uma colher de cada vez Quatro, cinco, seis, era uma história de reis E uma colher de papa Come a papa,... Sete, oito, nove, ainda nada se resolve Dez, onze, doze, á espera que a mosca pouse E uma colher de papa Come a papa,... Treze, catorze e meia, a coisa não está tão feia Dezesseis, dezassete, mais um pingo no babete E uma colher de papa Come a papa,... O Manel tinha uma bola, que rolava pelo chão na calçada ela rebola, deu-lhe uma dentada um cão [refrão] Olha a bola Manel, olha a bola Manel foi-se embora, fugiu olha a bola Manel, olha a bola Manel nunca mais ninguem a viu O Manel tinha uma bola, mas por falta de atenção lá deixou ele ir a bola entre os dentes de um cão O Manel tinha uma bola mas agora não tem não e a gente a ver se o consola vai cantar esta canção canções infantis
  17. 17. José Barata Moura canções de intervenção Vamos brincar à caridadezinha Festa, canasta e boa comidinha Vamos brincar à caridadezinha A senhora de não sei quem Que é de todos e de mais alguém Passa a tarde descansada Mastigando a torrada Com muita pena do pobre, Coitada Vamos brincar à caridadezinha Festa, canasta e boa comidinha Vamos brincar à caridadezinha Neste mundo de instituição Cataloga-se até o coração Paga botas e merenda Rouba muito mas dá prenda E ao peito terá Uma comenda Vamos brincar à caridadezinha Festa, canasta e boa comidinha Vamos brincar à caridadezinha O pobre no seu penar Habitua-se a rastejar E no campo ou na cidade Faz da sua infelicidade Algo para os desportistas Da caridade Não vamos brincar à caridadezinha Festa, canasta e a falsa intençãozinha Não vamos brincar à caridadezinha
  18. 18. Ermelinda Duarte : Somos livres (uma gaivota voava voava) Ontem apenas fomos a voz sufocada dum povo a dizer não quero; fomos os bobos-do-rei mastigando desespero. Ontem apenas fomos o povo a chorar na sarjeta dos que, à força, ultrajaram e venderam esta terra, hoje nossa. Uma gaivota voava, voava, assas de vento, coração de mar. Como ela, somos livres, somos livres de voar. Uma papoila crescia, crescia, grito vermelho num campo qualquer. Como ela somos livres, somos livres de crescer. Uma criança dizia, dizia "quando for grande não vou combater". Como ela, somos livres, somos livres de dizer. Somos um povo que cerra fileiras, parte à conquista do pão e da paz. Somos livres, somos livres, não voltaremos atrás. Esta canção foi muitíssimo popular nos anos que se seguiram ao 25 de Abril.
  19. 19. Menina estás à janela com o teu cabelo à lua não me vou daqui embora sem levar uma prenda tua sem levar uma prenda tua sem levar uma prenda dela com o teu cabelo à lua menina estás à janela Os olhos requerem olhos e os corações corações e os meus requerem os teus em todas as ocasiões Menina estás à janela com o teu cabelo à lua não me vou daqui embora sem levar uma prenda tua sem levar uma prenda tua sem levar uma prenda dela com o teu cabelo à lua menina estás à janela Menina estás à janela com o teu cabelo à lua não me vou daqui embora sem levar uma prenda tua sem levar uma prenda tua sem levar uma prenda dela com o teu cabelo à lua menina estás à janela. Vitorino Cantiga de Uma Greve de Verão Seara madura de Junho Campos eternos sem fim Abro o peito fecho o punho Quando te inclinas para mim Minha vila não está quieta No tamanho do horizonte Desconfia e fica alerta Do sorriso de boi manso Do morgado arrogante Quando o trigo amadurece Chega-me a força cá dentro Como a da espiga pró grão Troco foice por espingarda Porque má paga é que não Alentejanos prá frente O sol está do nosso lado Caçadeira atrás da porta Queremos um Verão quente Para a herdade do morgado.
  20. 20. Eu Vim de Longe Quando o avião aqui chegou Quando o mês de maio começou Eu olhei para ti Então entendi Foi um sonho mau que já passou Foi um mau bocado que acabou Tinha esta viola numa mão Uma flor vermelha na outra mão Tinha um grande amor Marcado pela dor E quando a fronteira me abraçou Foi esta bagagem que encontrou Eu vim de longe De muito longe O que eu andei pra aqui chegar Eu vou pra longe Pra muito longe Onde nos vamos encontrar Com o que temos pra nos dar E então olhei à minha volta Vi tanta esperança andar à solta Que não hesitei E os hinos cantei Foram feitos do meu coração Feitos de alegria e de paixão Quando a nossa festa se estragou E o mês de Novembro se vingou Eu olhei pra ti E então entendi Foi um sonho lindo que acabou Houve aqui alguém que se enganou Tinha esta viola numa mão Coisas começadas noutra mão Tinha um grande amor Marcado pela dor E quando a espingarda se virou Foi pra esta força que apontou E então olhei à minha volta Vi tanta mentira andar à solta Que me perguntei Se os hinos que cantei Eram só promessas e ilusões Que nunca passaram de canções Eu vim de longe De muito longe O que eu andei pra aqui chegar Eu vou pra longe P´ra muito longe Onde nos vamos encontrar Com o que temos pra nos dar Quando eu finalmente eu quis saber Se ainda vale a pena tanto crer Eu olhei para ti Então eu entendi É um lindo sonho para viver Quando toda a gente assim quiser Tenho esta viola numa mão Tenho a minha vida noutra mão Tenho um grande amor Marcado pela dor E sempre que Abril aqui passar Dou-lhe este farnel para o ajudar Eu vim de longe De muito longe O que eu andei pra aqui chegar Eu vou p´ra longe P´ra muito longe Onde nos vamos encontrar Com o que temos pra nos dar E agora eu olho à minha volta Vejo tanta raiva andar a solta Que já não hesito Os hinos que repito São a parte que eu posso prever Do que a minha gente vai fazer Eu vim de longe De muito longe O que eu andei prá aqui chegar Eu vou pra longe P´ra muito longe Onde nos vamos encontrar Com o que temos pra nos dar José Mário Branco
  21. 21. Capotes Brancos, Capotes Negros Capote preto, capote branco Quem dá o flanco Nunca se defende bem Capote branco, capote preto O Xico-esperto Usa a cor que lhe convém Em tempos que já lá vão Vinham uns homens de mão A soldo da reacção Armar brigas e banzé Junto ao Palácio de Sebastião José Mas o Pombal, sabido Estava prevenido E tinha preparado O seu esquadrão privado E não pisavam o risco No Bairro Alto os brigões de S Francisco Enquanto o povo assistia Às contradições que havia No seio da fidalguia Vinha a bófia endireitar O Bairro Alto que ela andava a entortar Os reaccionários, de um lado Capote preto, cruzado Do outro lado, os brancos Que os punham logo a fancos E não sei porque razão Quem se lixava era sempre o mexilhão
  22. 22. Não me digas que não me compreendes quando os dias se tornam azedos não me digas que nunca sentiste uma força a crescer-te nos dedos e uma raiva a nascer-te nos dentes Não me digas que não me compreendes Que força é essa que força é essa que trazes nos braços que só te serve para obedecer que só te manda obedecer Que força é essa, amigo que força é essa, amigo que te põe de bem com outros e de mal contigo Que força é essa, amigo Que força é essa, amigo Que força é essa, amigo Que força é essa, amigo QUE FORÇA É ESSA Vi-te a trabalhar o dia inteiro construir as cidades pr´ós outros carregar pedras, desperdiçar muita força p´ra pouco dinheiro Vi-te a trabalhar o dia inteiro Muita força p´ra pouco dinheiro Que força é essa que força é essa que trazes nos braços que só te serve para obedecer que só te manda obedecer Que força é essa, amigo que força é essa, amigo que te põe de bem com outros e de mal contigo Que força é essa, amigo Que força é essa, amigo Que força é essa, amigo Liberdade Viemos com o peso do passado e da semente Esperar tantos anos torna tudo mais urgente e a sede de uma espera só se estanca na torrente e a sede de uma espera só se estanca na torrente Vivemos tantos anos a falar pela calada Só se pode querer tudo quando não se teve nada Só quer a vida cheia quem teve a vida parada Só quer a vida cheia quem teve a vida parada Só há liberdade a sério quando houver A paz, o pão habitação saúde, educação Só há liberdade a sério quando houver Liberdade de mudar e decidir quando pertencer ao povo o que o povo produzir quando pertencer ao povo o que o povo produzir
  23. 23. Brigada Victor Jara (Coimbra) Grupo de Acção Cultural A cantiga é uma arma eu não sabia tudo depende da bala e da pontaria Tudo depende da raiva e da alegria a cantiga é uma arma e eu não sabia Há quem cante por interesse há quem cante por cantar e há quem faça profissão de combater a cantar e há quem cante de pantufas p'ra não perder o lugar O faduncho choradinho de tavernas e salões semeia só desalento misticismo e ilusões canto mole em letra dura nunca fez revoluções (...) Senhora do Almortão Senhora, senhora do Almortão Senhora do Almortão Ó minha linda raiana Virai costas a Castela Não queirais ser castelhana Senhora, Senhora do Almortão Senhora do Almortão A vossa capela cheira Cheira a cravos cheira a rosas Cheira a flôr de laranjeira Senhora, senhora do Almortão senhora do Almortão Eu p'ró ano não prometo Que me morreu o amor Ando vestida de preto
  24. 24. A morte Saiu à rua Num dia assim Naquele Lugar sem nome Pra qualquer fim Uma Gota rubra sobre a calçada Cai E um rio De sangue Dum Peito aberto Sai O vento Que dá nas canas Do canavial E a foice Duma ceifeira De Portugal E o som Da bigorna Como Um clarim do céu Vão dizendo em toda a parte O pintor morreu Teu sangue, Pintor, reclama Outra morte Igual Só olho Por olho e Dente por dente Vale À lei assassina À morte Que te matou Teu corpo Pertence à terra Que te abraçou Aqui Te afirmamos Dente por dente Assim Que um dia Rirá melhor Quem rirá Por fim Na curva Da estrada Há covas Feitas no chão E em todas Florirão rosas Duma nação A biografia de José Afonso: http://www.instituto-camoes.pt/cvc/poemasemana/05/03.html Amigo Maior que o pensamento Por essa estrada amigo vem Não percas tempo que o vento ƒÉ meu amigo também Em terras Em todas as fronteiras Seja benvindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também Aqueles Aqueles que ficaram (Em toda a parte todo o mundo tem) Em sonhos me visitaram Traz outro amigo também
  25. 25. No céu cinzento Sob o astro mudo Batendo as asas Pela noite calada Vem em bandos Com pés veludo Chupar o sangue Fresco da manada Se alguém se engana Com seu ar sisudo E lhes franqueia As portas à chegada Eles comem tudo Eles comem tudo Eles comem tudo E não deixam nada A toda a parte Chegam os vampiros Poisam nos prédios Poisam nas calçadas Trazem no ventre Despojos antigos Mas nada os prende Às vidas acabadas São os mordomos Do universo todo Senhores à força Mandadores sem lei Enchem as tulhas Bebem vinho novo Dançam a ronda No pinhal do rei Eles comem tudo Eles comem tudo Eles comem tudo E não deixam nada No chão do medo Tombam os vencidos Ouvem-se os gritos Na noite abafada Jazem nos fossos Vítimas dum credo E não se esgota O sangue da manada se alguém se engana Com seu ar sisudo E lhes franqueia As portas à chegada Eles comem tudo Eles comem tudo Eles comem tudo E não deixam nada Eles comem tudo Eles comem tudo Eles comem tudo E não deixam nada Vamos cantar as janeiras Vamos cantar as janeiras Por esses quintais adentro vamos Às raparigas solteiras Vamos cantar orvalhadas Vamos cantar orvalhadas Por esses quintais adentro vamos Às raparigas casadas Vira o vento e muda a sorte Vira o vento e muda a sorte Por aqueles olivais perdidos Foi-se embora o vento norte Muita neve cai na serra Muita neve cai na serra Só se lembra dos caminhos velhos Quem tem saudades da terra Quem tem a candeia acesa Quem tem a candeia acesa Rabanadas pão e vinho novo Matava a fome à pobreza Já nos cansa esta lonjura Já nos cansa esta lonjura Só se lembra dos caminhos velhos Quem anda à noite à ventura
  26. 26. Pedro Barroso

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